12/12/2025

Charles Baudelaire - Cuadernos de un Disconforme

Neste livro reúnem-se anotações, pensamentos, poemas, contos e finalmente ensaios do escritor Charles Baudelaire, um dos mais importantes da França do século XIX. Em seus poucos mais de 40 anos, Baudelaire causou polêmica, foi censurado, foi acusado de flertar demais com o mal - como está nas Flores do Mal - e terminou a vida em padecimento, doente sobre uma cama - nada de tão anormal quanto a isso.

Através desse livro lido em espanhol, nessa reunião interessante de diferentes gêneros e assuntos explorados pelo icônico escritor, desafia-se a ordem ao tragar-se novos conhecimentos sobre as relações de amor, de religião e de saberes e valores sociais, como a interessantíssima discussão final sobre os flaneurs, os dandis (que aparecem no decorrer do livro) e sobre a posição do artista frente a arte, no desafio da criação e da reprodução.

Envolvido pela história de um certo Sr. G, que Baudelaire mantém em segredo a identidade pela vontade do criador, o escritor debruça os atos da criação proporcionados pelo Sr. G, na arte da pintura e da escrita. Acredita Baudelaire que os grandes criadores são aqueles impulsionados por espasmos de criação, reféns das interpretações e das lembranças, e não meros reprodutores naturalistas, como a muitos acreditaram. Cita grandes pintores de sua época e desde o Renascimento na Europa, em que o vislumbre, a contemplação, o alarde, o marcante das obras era soberano sobre as próprias impressões realistas. Uma espécie de "Quem viu não esquece".

Outro debate importante é sobre as escolas dessas artes, pois Baudelaire acredita na mudança dos tempos e que os aprendizados servem para reprodução, para os ensinamentos de uma determinada época, mas a humanidade persiste em avanços, em novas etapas, em novas técnicas e percepções. O mesmo poderia ser observado incluso na própria ciência que, por meio de novas experiências, descobre caminhos, benefícios e malefícios antes ocultos, não se restringindo aos resultados de outrora, em contínuos avanço e descobrimentos. Quanto à arte, as impressões, os traços, as batidas, os costumes de uma época não serviriam para representar um século seguinte, ou tão mais rápido sejam as mudanças dos ventos de nosso cotidiano.

Nesse processo de criação para além do aprendizado, do sabido, do conhecido, Baudelaire demonstra confiança e interesse em artistas cujas mentes tenham esse poder de ir além, essa inquietação, esse transbordo por sobre os trejeitos já aceitos. Baudelaire elogia e usa de exemplo o tal sr. G, o qual ficamos sem conhecer a identidade, de gostos refinados, flaneur e cosmopolita de atuação francesa.

No livro dos registros desses ditos cadernos, Baudelaire também oferece notas pouco traduzíveis ou inteligíveis pela falta de contexto das anotações, recados e comentários sobre artistas e pessoas públicas da época, e aforismos, como o que acredita que Deus é o único que nem precisa necessariamente existir para exercer seu poderio. Algo como o aforismo da dúvida de se os deuses criam os homens ou os homens que criam os deuses.

O eterno combate ao fastio e ao tédio é a luta de Baudelaire e do que ele acredita ser um exemplar artista. A imaginação, a mente em constante inquietação e necessidade criadora tornam as caminhadas, o ato constante de indignação dos dândis e a exploração dos flaneurs como instrumentos para criação artística. O próprio amor também é debatido à época sobre sua volúpia inicial que praticamente inevitavelmente resulta a posteriori no fastio devorador e derrotado do ser humano. A convivência com sociedade devassa e com uso de ópio e outras substâncias conferiu a Baudelaire lendas e maldições (maledicências). É gratificante o reconhecimento de sua filosofia, suas rimas e poemas traduzidos e aforismos que em algo nos acrescentam para conclusão da leitura do livro com nota em:

⭐⭐⭐⭐



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