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19/09/2025

Memória de Helena (1969)

"Descobri que se tivesse a liberdade que procuro, não saberia o que fazer dela."

Memória de Helena é um filme brasileiro com uma narrativa peculiar. A amiga Rosa conta a história de Helena através de suas lembranças, de um diário de Helena e de pequenos filmes gravados pela protagonista e pelo tio.

O filme não possui uma completa linearidade, mas é possível entender acontecimentos na vida da jovem. O romance com Renato é destaque. O rapaz fica entre Helena e Rosa, nesse convívio cheio de nuances. 

Renato se muda para o Rio de Janeiro e de lá mantém contato com a confusa Helena. Ela reserva uma semana para conhecer a realidade do rapaz em terras cariocas, saindo da interiorana Diamantina, em Minas Gerais. É um romance que reflete também a realidade do êxodo brasileiro entre o interior e o crescimento, em densidade, das grandes capitais. Helena estranha as paisagens e o ritmo de vida no Rio de Janeiro, causa e gera desconfiança e descobre que isso era justificado pela presença de outra mulher, Adriana, na vida do rapaz. Por orgulho, como Helena admite, ela resolve conhecer Adriana, com quem passa seu último dia no Rio de Janeiro.

Em retornos a Diamantina, Renato é elogiado pelos demais interioranos por sua jornada de logros em terras cariocas, objetivo de grande parte dos conterrâneos. Foi assim que Renato conquistou a confiança de Tio Mário, veterano parente próximo de Helena.

"Eu não esperava a hora de ficar novamente com a simplicidade de meus habituais problemas." - Helena filosofa sobre a banalidade, com resignação e um tanto de acidez ou aspereza. "Desde o Rio de Janeiro, adotei uma forma de apatia que me contemplava tanto com o lado bom do mundo quanto com o ruim" - definitivamente.

Há vários debates que permeiam o filme entre as morais e os costumes. Começa na relação próxima de Helena com a criada Inês, uma negra empregada. O principal deve ser a relação lésbica entre Helena e a confissora Rosa, relacionamento abalado desde a chegada de Renato e, após, no fato de Rosa também ter conhecido um rapaz, citado Marcelo. Finalmente, pelos 50 minutos de filme, a ida de Helena ao circo, nas companhias de Inês e Rosa, causa reflexão sobre uma espécie de luta travada como número circense que desafiava o conhecimento de moral aceito e correto. Outros números do circo, entidade itinerante pelos interiores brasileiros, podem abalar os nativos. Há nisso a forma de vida nômade, as propostas artísticas de pintura, sensualidade e convívio e a fuga artística da rotina maçante de trabalho forçado em terras e trabalhos burocráticos, desafiando a lei e ordem pelo descampamento incerto.

Ocorre a chegada de André, personagem complexo, amigo de Marcelo. Ele desembarca de helicóptero, homem com interesse na exploração de terras

"Olha aqui, André, eu peço que você não se explique nem represente, apenas seja como é", alfineta Helena, sempre servida de frases impactantes para apimentar a narrativa.

André é mais velho, apresenta um comportamento o tanto quanto machista, mas fica impactado pela estranheza e característica rude em Helena, causando-lhe interesse e aproximação.

"André me parecia um tipo vulgar, mas é apenas uma pessoa desnorteada e fascinada pelo lado aventureiro de sua vida", Helena descreve os personagens, dentro da trama, melhor do que podemos realizar observando de fora. Isto sim é fascinante. Helena então acredita que seu rápido romance com André bastaria para novas perspectivas em sua vida. Acredita que o metido a empresário a levará junto, para fora de Diamantina, para outras vivências, mas acaba desiludida. Esquecida, desamparada, apática, descrente e sem propósitos. O final trágico causa lágrimas à amiga e contadora da história, Rosa. Ela que por vezes foi mais do que amiga.

"Esta é uma história de amizade, mas amizade de tempo indefinido", sustentando a permanência das lembranças, dos acontecimentos e da saudade, a mais portuguesa das palavras.

🌟🌟🌟🌟


13/10/2024

De repente repete

Memórias são frágeis fragmentos flagrados 

E quando deflagrados já se perdem 

Memórias são frágeis flashs 

Flesh for fantasy

Memórias são fósforo 

Mas também outros elementos

Periodicamente aparecem

Memórias são

O que era

Memórias sãotificam 

Memórias tipificam as coisas

Memórias larvas, moscas

Memórias lavam a alma

Das moças 

Com lágrimas 

E coisas toscas

Memórias, filtro 

E coisas foscas 

Memórias filhas

De cosa nostra 

Memórias nosferata 

Memória errata, vampira 

Memórias artifícios 

Artificiais 

Memórias: arte ou ofício?

Extra-oficiais

Memórias orifício 

Memórias sem fisco 

Nem aduana 

Memórias muquiranas 

Risco

De repetir o disco 

03/10/2024

Ah, a memória

Ah, a memória. Ela dita ritmos.

Para quem tem muita memória, mas que elas se unem em aproximação, pois, apesar da vida ser larga, as memórias se conjuntam como se a vida fosse curta. Não vos parece?

Para quem tem curta memória, elas se escondem, pois, apesar da vida ser larga, as memórias se afastam e o que sobra é a lembrança de uma vida curta. Não vos parece?

Desse modo, tanto os reunidores, revisores vorazes, cirandeiros das memórias, quanto os que as jogam de uma montanha penas ao vento, os dissimuladores, os ocultados, os labirínticos bloqueadores de memórias, ambos acabam com as mesmas desgraçadas impressões: que curta é a vida!

Para os reunidores que em saguão, em auditório lotam suas memórias, acotoveladas umas às outras, tudo parece próximo, tudo se fundiu, passou tão rápido: que curta é a vida!

Para os que mantém as lembranças soltas como se um dia fossem voltar, livres como cachorros de portões abertos, gatos que viram cartaz de procura-se, crianças que correm quadras adiante dos pais e tomara voltem, essas memórias espaçadas, escorregadias, corrediças, essas memórias afastadas como os mais gasosos átomos deixarão o salmo de repetição do texto: que curta é a vida! Me sobraram tão poucas memórias que todas as demais voaram. Que faço com elas se não reuni-las escassas, livro de páginas faltantes, de falas e passagens repetidas de memórias desorganizadas, de ordem alfabética que começa em C, pula para L e termina antes de qualquer W, livro incompleto, borrado de café ou erva, inelegível por tantas partes. Que conclusão chego a não ser que é curta a vida que nos toca sobrar aos dedos inabilitados para agarrar muito?

E mesmo os consumidores a esmo de tantas memórias, que adianta ao final reuni-las tantas se elas são, no auditório que nos sobra de vida, apenas espectadoras, passivas, passageiras, esfinges, fumaça, fantasmas? Que curta é a vida, na qual não posso voltar a tocá-las... memórias.

21/07/2024

Fogo, eu te amo - Fogo, eu te amo, meu amor

O meu sangue ferve por você. Botafoguense Sidney Magal, a constar. Quanto mais penso no Botafogo, mais aprecio. Mais ele me cativa, me envolve, me obriga. Talvez se esconda algum desejo de ser meu pai e o que na vida dele deu certo - e não poderei ser, nem desfrutar. Como ninguém pode, exatamente, ser igual ao pai, por mais que se aproxime disso, ou até seja obrigado, igual família de médicos ou advogados ou donos de alguma empresa. Mas o Botafogo.

O Botafogo tem uma identidade visual que, como vim a saber da preferência do falecido narrador Silvio Luiz, foi uma paixão por ver o escudo que quase o obrigava a pegar no colo, querer cuidar dele. A estrela solitária, que ostenta e persegue. Parece que viveremos eternamente de 1995, meu ano. Solitária. Um pesar tremendo que Sílvio Luiz, que narrou tantas glórias de tantos times tenha morrido sem uma nova chance do Botafogo campeão. E assim são tantos. Beth Carvalho e por aí vai. Zeca Pagodinho, pegue leve, meu aclamado e autodiagnosticado pé frio.

Silvio Luiz faleceu sem essa nova chance. Lembrarei sempre. Penso em meu pai e a única conquista que gostaria de ver ao lado dele. Se pede mais nada. Estamos sempre distante desse objetivo. Quando realmente estávamos longe, parecia mar mais calmo, resoluto, acostumante, mais quieto. Agora o coração salta aos trabucos. O sangue ferve por você, desordenadamente.

A identidade visual do Botafogo, o símbolo, a estrela, a simplicidade, as cores, a ausência de cores, o negro e branco de tantos atores de sua história. Talvez nenhum clube mais literário e cinematográfico no futebol brasileiro. E mundial? Não nos subestimemos, meu bom Brasil, país do futebol muito pelas crias daquele bairro carioca. Insistem chamar de bairro. Pois que chamem. Belo bairro de Botafogo e sua eterna parede de ídolos, que jamais esquecerei ter visto em 2015. Tantos eu soube identificar e outros que, por estar passando rápido de táxi, eu nem soube ou saberia identificar mesmo nos dias de hoje.

Botafogo das histórias de vida. Heleno de Freitas, Leônidas da Silva, diamante negro, Didi das folhas secas, Zagallo e seu número 13, Mané Garrincha, de pernas e linhas tortas, algumas das piores possíveis para essas páginas. A vida. Nilton Santos, atual estádio. Goleiro Manga dos dedos tortos que lhe sobraram. Amarildo, Carlos Germano, Maurício, Wagner, Mendonça, Gonçalves, Pantera, Tulio das Maravilhas, rei do Rio, sim, senhor. Jefferson, Loco Abreu, Seedorf, Gatito, filho de Gato Fernández.

Por que cada tímida conquista soa tão épica? É sempre tão difícil? É sempre tão duro? É sempre tão sofrido? Personagens que crescem nisso, Joel Carli?

Um clube que se apequenou e renasceu. E segue sofrido. E segue sofrendo. E me obriga e me conquista a sofrer com ele. De tão literário e cinematográfico, que estou lendo Godard, Godard gostaria de ter visto o Botafogo. Botafogo foi campeão em Paris. Botafogo dos cineastas, das situações, de filmes, de Stefan Nercessian, irmãos Salles, Cacá Diegues.

Obviamente nas páginas e telas seriam narradas mais derrotas. Virada para o River Plate. Ser roubado pelo Figueirense em 2007. A maior derrocada da história de um campeonato de pontos corridos - ao menos onde há refletores que assim registrem, como aqui inevitavelmente registro. Perder três campeonatos seguidos para o Flamengo para vencê-los de Cavadinha. Não é tão fácil assim executá-la, viu, Messi? Messi que teve pênalti desperdiçado contra Jefferson em um Argentina x Brasil.

Seedorf ser campeão sobre o Fluminense. Mesmo que tenha sido em Volta Redonda ou outro estádio menor. Tomar seis do Vasco e vencê-los depois na final, no mesmo campeonato. Acompanhar os maiores dramas, como o passado com Tiquinho Soares, que perdeu o pai. E eu medroso de perder tão logo o meu.

Ver a vantagem histórica sobre o Flamengo se esfacelar - e o pior, eles passarem o ódio antigo de pai para filho, de avô para neto. Cada vez mais flamenguistas, cada vez mais disparidade, cada vez piores nossos números.

Tão breve parágrafo para conquistas, primeiro carioca campeão sul-americano dentro do Maracanã em 1993, primórdios da atual Sul-Americana. São quatro os Rio-São Paulo, mais duas copas interestaduais dignas de recheio para citações. A Taça Brasil do distante rádio de 1968 também foi a primeira entre os cariocas. Depois, como eu disse, se vive de 1995. Livro, camisas, memórias. Eu nos braços de meu pai. Torneio Carranza. Limpa a garganta. Vencer o Barcelona já venceste. A Juventus também. Peñarol, Santos com gol impedido para amenizar tantas desgraças de diferentes anos e arbitragens. Enfrentar o Flamengo... Ok, isso já foi dito. 21 Campeonatos Cariocas, estar para trás da Portela, como dizem (gosto da Portela, mas até isso vira piada) e uma Taça Cidade Maravilhosa para coroar o ano de 1996.

Em seguida, após o Rio-São Paulo ali por 98, já vem mais desgraça, lotar o Maracanã para ser vice para o Juventude das Parmalats. E hoje uns que mamavam assim mamam em outras fontes. Faz parte será? Aquele, em 1999, foi o maior público da história da Copa do Brasil. Mais de 100 mil. Não deve se repetir. E perdemos. Tu hoje, Botafogo, acumulas os recordes bonitos mas inúteis de maior sequência invicta do Brasil- Flamengo te tirou e tu tiraste a do Flamengo, no mesmo número, siameses de ocasião. Foste 3⁰ colocado invicto em 1977. Chupa Inter de 1979! Tem a maior goleada da história do futebol brasileiro, pois o time da Mangueira é quem viu entrar. 24 gols. E, nessa mudança, tempos distintos, momentaneamente conta com a contratação mais cara do futebol brasileiro. Quanta coisa distinta! Números e histórias.

Um carinho que mais me toca é sempre lacrimejar ao lembrar que na nossa identidade visual o mascote Biriba foi um cão que existiu. Ele às vezes é manso nas imagens, às vezes selvagem. Biriba existiu, entrou em campo e o Botafogo venceu. Foi mascote. Adotado, símbolo, querido e morreu como todos os cachorros morrem. Mas ainda afirmam na história que morreu cego. Isso me faz chorar. Mas tu, Biriba, Biribão, Biricão, não és esquecido, és o cão mais lembrado do Brasil. Símbolo de uma nação. Não a maior, longe disso, mas de escolhidos como foi aquele cão carioca, de estrela solitária em pelo e caminhada errante e decisiva.

Talvez sejamos todos Biribas perdidos. Meu falecido tio que pesquisei quando foi que o Botafogo venceu no Beira-Rio e ele estava lá, quietinho, solitário e que saiu vencedor daquela partida. Tentei repetir teu feito, saudoso tio. Vencemos aquele jogo em Porto Alegre, mas não a guerra general. E aqui estamos, ainda biribas lambendo as feridas. De camisa eleita a mais bonita do mundo, de símbolo que também já foi eleito, pegando em remos, caindo em águas, afundando, ressurgindo. Lutando. Não escolhendo assim lutar, mas já sendo escolhido. E ainda, ao que me consta, ainda, pobres almas, não desistindo. Fogo.

20/05/2024

Fragmentos

Sou hipócrita porque tento me posicionar sempre. Quem não se posiciona é mais fácil que não seja hipócrita.

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Meus nervos enviam diferentes sensações para o meu cérebro. Geralmente ruins.

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Há memórias que somente você vai esquecer. Somente você estava lá. Então só você vai esquecer. Os demais nem estavam, nem sabem. Então só você vai esquecer.

23/11/2022

Às vezes penso se terei memórias por muito tempo. Não pelo medo de esquecê-las, mas sim pela incerteza de se viverei mais muito tempo.