Um filme brasileiro de comédia com humor até bastante escrachado, mas com caprichos do cotidiano que conferem comicidade. Direção de João Bennio. Se mudando do interior para Goiânia, um sujeito apático, solitário e sem o intuito de criar problemas é na verdade o Azarento. Ele atrai situação de desastre, desregula de motores a eletrônicos, destrói vidraças, distrai trabalhadores em curso. Um perigo por onde anda.
O dito Azarento nasceu em uma sexta-feira 13 de agosto, o mês dos cães loucos, de um ano bissexto. Aí calculem qual ano desse calendário gregoriano poderia Lazarento ter vindo ao mundo. Não aprontava tanto em seu pequeno sítio, até mulher apaixonada e prometida esposa havia, mas ele foi para ganhar a vida. Ou perdê-la ou fazer com que percam. O filme não traz tanta história: o princípio é que Lazarento passeia de um lado a outro e por onde por acaso passa é fait diver na certa. Uma confusão que pára o trânsito goiano com engarrafamento, falhas mecânicas e colisões é digna do videoclipe da canção do Green Day, Walking Contradction, quando Billie Joe Armstrong e seus capangas caminham por uma cidade do interior dos EUA fazendo pifar semáforos, postes, placas e veículos. Uma balbúrdia. O Azarento era dessa radicalidade.
Além da cômica cena de parar o trânsito e causar transtorno aos motoristas e pedestres goianos, o sertanejo avança para um páreo de turfe no jockey club. Tudo ocorria bem nas arquibancadas e na arracanda com os cavalos e jóqueis, até que o efeito da presença dele traz quedas, pinotes, andanças em círculo e uma situação de caos que revolta o rápido narrador da corrida. É uma sequência de eventos sem explicação, denunciavam e procuravam resposta entre rádios e jornal impresso. É no jornal que uma conferência se forma ao perceberem um rosto em comum entre fotos dos diferentes desastres que povoariam as páginas do periódico. Mas esse sujeito parece comum a mais eventos, está nesse também e, vejam só, também em outro. Está portanto lançado o apelido maldoso de Azarento para o cidadão presente nos desastres. Ele é ordenado de prisão e afastamento do convívio das ruas.
Após lançada a campanha pela captura do responsável em colocar o cabelo da cidade em pé, uma ligação anônima vinda de um restaurante identifica o herói da trama. A polícia se aproxima da casa onde estão diversos machucados, vítimas das peripécias do Azarento e o procurado estava a tomar café tranquilamente, quando é surpreendido por três guardas. Ele tem voz de prisão decretada, mas nenhum dos homens ousa se aproximar de tamanho azar. À distância e sem algemas, Azarento é conduzido até a penitenciária local. As confusões estariam enfim cessadas? Óbvio que não. Com o azar pendente ao sistema carcerário, os guardas cochilam, os presos armam um plano certeiro apenas com a presença de Azarento, que sequer deixa sua cela, cabisbaixo e recolhido a seu status desprezado. Os demais aproveitam, roubam chave, abrem os portões e ganham as ruas. É caos novamente na pobre Goiânia, não bastassem episódios de Césio na localidade.
Azarento é encontrado pelo diretor da prisão no dia seguinte ainda na solidão da alcova. É expulso. Setenciado que não volte mais, que vá para o mais longe possível. Estava danado o pobre diretor com a debandada de sua farta safra de presos e com o caos novamente a orbitar e a estrebuchar as pacatas terras sertanejas de centro-oeste brasileiro.
Entre episódios de desolação e comicidade, a publicidade é um grande trunfo no filme de João Bennio. Descobrem que o herói passou a calçar sapatos que lhe eliminavam o azar. Se até dele o azar se dissipou, a população estava então obrigada a consumir. Propagandas em rádio, em alto-falantes, em jornais, publicidade até nos começos da televisão em cores para todo Brasil. Azarento vira sujeito famoso e bem quisto, cidadão homenageado, requisitado, entrevistado. O que ele pensa sobre aborto, guerra, política, atores, gente famosa, tudo é questionado ao herói de quase nenhuma convicção e de personalidade nada marcante. Azarento é apenas a personificação do azar, a ambulância dos desprazeres do caos. Mas até para Azarento a vida sorriria. Um garoto traquinas que ele só importunava passageiros de um voo onde sentado ia o herói. Entre outras vítimas enquanto a mãe fazia a egípcia, Azarento tem seu famoso sapato arrancado pelo badboy mirim e assim começa uma turbulência frenética quando o voo da VASP já estava próximo do destino final em terras cariocas. Os passageiros lutavam pela sobrevivência e contra o desespero de uma eminente queda quando percebem o rosto famoso de Azarento na classe da aeronave. Denunciado, aturdido, sem escolha, Azarento deve saltar de pára-quedas para salvar o destino do voo. O calçam com o equipamento de ousado pulo e o empurram para fora. Boa sorte ao Azarento e a todos que chegariam para o Galeão.
Azarento recuperaria sua sorte ao aterrissar justamente em uma piscina lotada de boas pintas cariocas, gente da socialite, de alta recomendação, da classe abastada. Para maior sorte, recorre-se aqui ao spoiler final, ele vai direto para os braços de uma solteira convicta e herdeira, desejada por todos os rapazotes. Azarento estaria recuperado das diversas crises de azar que como uma rinite de espirros o perseguiam em vida? Aí é descobrir nos minutos finais da história genuinamente brasileira e que inspira humor para quem a vê.
Nota final para comédia proposta pelo diretor João Bennio:
3,5 / 5
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