05/10/2025

Crossing (2024)

Comentar sobre:

- A história individual de cada personagem

- Os plot twist convertidos aos espectadores

- A relação interior - cidade com a metrópole Istambul

- Comparação entre Istambul e São Paulo / tratamento a LGBTQI+ em Turquia e Brasil

- A busca por Tekla como uma busca por si mesmo


O filme Crossing (2024) ou Caminhos Cruzados, direção de Levan Akin, conta a história de uma busca pela jovem trans Tekla, que deixou um vilarejo litorâneo da Geórgia para tentar a vida em Istambul, uma das maiores e mais complexas cidades do mundo. Complexa de várias formas, como a miscigenação, os vários idiomas lá falados e o tratamento de aceitação ou preconceito referente a essa miscelânea de cidadãos de muitos países. É comparável ou até mais complexa do que São Paulo. 

A professora aposentada Lia (Mzia Arabuli) visita o vilarejo com o intuito de encontrar a jovem, sua sobrinha. Tekla vivia com outras trans em uma casa que causava desconforto aos moradores da remota e conservadora região. A própria Lia declama ainda ao começo do filme de que as jovens na Geórgia costumavam ser respeitáveis e elegantes, não como são hoje. Nessa busca, ela visita a casa de Achi, um jovem sem pais que vive com a família do irmão bem mais velho - com esposa e sobrinhos para Achi. Desinteressado pela vida em local ermo e remoto, Achi percebe na visita de Lia a oportunidade para sair da Geórgia, rumo a Istambul. Era a busca dele por um emprego, uma nova vida. Ele se considera útil para lidar com o idioma inglês e um pouco de turco, pois a aposentada se comunicava apenas no georgiano. Geórgia e Turquia são países vizinhos, mas com restrições e diferenças. A sobrevivência em uma cidade grande é totalmente diferente ao que eles estão acostumados.

Achi termina de se desentender com seus familiares e, de carro, parte com Lia para essa aventura. Ele precisa deixar o carro do lado da fronteira e, com a confirmação por documentos, adentram ao território turco. Embora Achi conheça a referida Tekla, eles têm apenas um suposto endereço para encontrá-la e não fazem muita ideia de como chegar a ele. Começam a pedir ajuda, hospedagem, são interpelados por diferentes figuras locais, por exemplo as crianças que espreitam as ruas atrás de turistas, para ajudas, golpes ou números artísticos. Assim também ocorre com pessoas mais velhas, como se pode observar no filme através de motoristas improvisados, prostitutas, guias improvisados, assistentes em restaurantes, garçons e até empresários. Todos lutam por espaço na Istambul.

A direção e o roteiro pregam uma tremenda peça sobre qual mulher eles estariam buscando, quando a história se divide entre a procura feita por Achi e Lia e sobre a vida das pessoas trans na Istambul. Existe toda uma luta para registro de documentação, para garantia de direitos, de espaço para moradias, de aceitação entre preconceituosos. Existe o risco de perambular, de fazer trottoir pelas ruas, existe o preconceito para conciliar profissão com identidade de gênero. Existe o perigo da captura pelas controversas leis, existe a desconfiança nos próprios familiares sua do se é uma pessoa transgênero. Será que conhecidos de Tekla devem confiar nessa estranha dupla formada pela tia, que não a via há muitos anos, e o denominado amigo do povoado na Geórgia? Se Tekla fugiu, ela deveria ter seus motivos para o afastamento da família. Sabe-se logo cedo que a mãe de Tekla, a irmã de Lia, já era falecida. Era a procura da tia para se conciliar com a sobrinha.

Lia confidencia que esteve na Istambul quando criança, uma viagem com seu falecido pai. A velha evoca memórias, fica ébria de lembranças e bebida, pois é alcoólatra, conflito que tenta conter o ímpeto do impulsivo Achi, mas em vão. É mais uma das contradições, das conservações que a sociedade tenta impor aos mais jovens, mas sem a presteza do exemplo. Eles vagam, cruzam com personagens, se encontram e se perdem pelo caminho. Caminhos Cruzados, como a tradução do título do filme.

Istambul é projetada entre seus fluxos fluviais, a alta concentração urbana e aglomerada, suas ruelas estreitas, suas subidas, descidas, escadarias, restaurantes com mesas distribuídas pelas calçadas, vendedores ambulantes, prestadores de serviço, pedestres dia e noite, vida noturna movimentada, a presença dos conhecidos gatos de rua na cidade - que aí aproximam Istambul mais do Rio de Janeiro do que de São Paulo. Os gatos são figurantes em diversas cenas, entre espera em rodoviárias, departamentos jurídicos ou simplesmente pelas ruas à espera de sobra de banquetes. Istambul permeada por trânsito intenso, pontes, barcos que atravessam o público pela ampla área da complexa cidade. Istambul que, como confidenciado por um personagem, parece que é uma cidade para se esconderem pessoas, para não serem encontradas. Pode ser a busca de Achi também pela sua fugidia mãe, que não entrou mais em contato com ele. Ele enxergará em Lia também uma figura materna? Impulsivo e sem maiores estudos, terá condições de pedalar, de batalhar sozinho uma vida de altos e baixos na metrópole cosmopolita?

O filme é uma busca pela sumida Tekla, mas quase se desiste dela entre desenvolvimento dos personagens e clímax, tamanhas já são as missões individuais de cada personagem, que apreendem e desafiam a compaixão e atenção do público. Os personagens tem tramas individuais, são impulsionadores da empatia e da construção de suas narrativas, vagueiam, refletem, dividem conflitos, desconfiam e confiam; se importam. Importam. São apresentadas vidas marginais, tentativas de sobreviver, de recomeçar, forças de autoridade, desafios das noites, perseverança e possibilidades. Uma Istambul com seus defeitos, mas com oportunidades, de preconceitos e tabus a serem quebrados e vencidos; de surpreender.

Exageradamente em reconhecimento para Crossing (2024)

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