Filme peruano gravado no alto dos Andes, em terras inóspitas, quase desabitadas, onde, de repente, até os deuses são dificeis de se contatar. O jovem diretor responsável foi Oscar Catacora, ele com nome do alto grau de premiação americano, mas que faleceu aos precoces 34 anos durante gravação de outra filmagem. Winaypacha também é traduzido com o nome de Eternidade, e seu trabalho não deixa de ocupar essa lacuna na história do Cinema latino-americano.
Com apoio governamental nos incentivos à Cultura, Winaypacha foi exibido em mostra de filmes peruanos. O foco da história são dois idosos que vivem solitários nas montanhas, se comunicam em dialeto diferente do Espanhol, criam ovelhas, contam com um cão, uma lhama e esperam desesperados pelo regresso do filho Antuku, que foi tentar a vida na cidade grande. Em resumo, é uma história muito comum à resistência rural frente à agressividade da migração para zonas urbanas, de modo que são abandonadas pelos jovens as tradições, os modos de vida simples e rudimentares.
Uma das abordagens é a dificuldade que os idosos padecem independente de onde vivem. O idoso Wilkka reclama do cansaço, da exaustão e que certas funções laboriosas não cabem mais ao seu corpo envelhecido. Os diálogos são absolutamente simples, mas carregados de ternura, do carinho de um relacionamento longo onde também não há mais escolha, mais o que fazer, mas que o companheirismo prevalece na sobrevivência do casal nas montanhas. Eles rezam, realizam suas funções de manutenção da casa e colheita e pedem pela volta do filho, o qual eles não veem há muitos anos. Phaxsi, a esposa, começa a perder a esperança do seu regresso. É o assunto principal entre eles: a eterna espera. Em algum companheirismo a história de tecer na espera por Ulisses em A Odisseia, Phaxsi passa boa parte do tempo a tricotar gorros, ponchos e casacos ao exausto marido Wilkka. Produções peruanas de um artesanato que podemos conferir em populares feiras brasileiras.
O filme, que inicia devagar, ponderado na ternura, na simplicidade do modo de vida, carrega contornos dramáticos com o rigor do inverno, com a falta de fósforos que ameaça a sobrevivência conjunta. Wilkka resiste em não querer viajar à cidade, com receio da travessia longa, da exposição aos perigos e do cansaço. Apesar das frequentes rezas e orações, uma avalanche de problemas paira sobre o casal. É difícil não se emocionar com a morte das ovelhas, devastadas por algum predador que eles, pela experiência, supõem ser uma raposa. O cachorro, fiel acompanhante de Wilkka, ao lado da casa ou na necessidade de saídas, também desaparece, provavelmente perdido nas trilhas.
A falta de fósforos e o rigor do frio faz com que a dupla tente interceder pela manutenção da fogueira. Antes, as constantes chuvas obrigaram a construção de um telhado extra com palha. A combinação de fogo com a palha pode ser fatal. Envolto em problemas, o casal vê as forças se extinguirem e a esperança ser um ente distante. É um filme de drama, de reflexão, em que a simplicidade do modo de vida milenar nem sempre supera as adversidades de um clima hostil, quando os problemas se acumulam. A morte precoce de Oscar Catacora relembra a morte precoce do uruguaio Juan Pablo Rebella, promissor diretor latino-americano responsável por 25 Watts e Whisky, duas películas aclamadas pela demonstração do modo de vida classe média uruguaio/argentino. Com dois filmes de simplicidade e potência, Rebella faleceu aos repentinos 32 anos. Em Oscar Catacora, o tributo à vida nos andes, nas montanhas, na ruralidade peruana, distante dos grandes centros como Lima, perto dos deuses, mas estes que nem sempre estão prontos ao atendimento. Nós, silenciosos da vista, da exibição, nos aprontamos a aclamar ainda silenciosos em um inclinar de cabeça.
Nota final de Winaypacha em ⭐⭐⭐⭐
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