O filme O Sul (El Sur) do diretor espanhol Victor Erice é interessante por muitos aspectos. A história narra o contato e a distância entre a menina Estrella e seu pai, Agustín. O filme é repleto de lacunas a serem preenchidas pela mente em desenvolvimento da jovem ou pelas leituras do espectador. Sabe-se que Vitor gostava de posicionar questões políticas veladas em suas obras.
Também com a presença infantil da menina em Espiritu de la Colmena em 1977, a inocência e o descobrimento, a imaginação e as reinterpretações estão presentes nas obras. No filme mais antigo, é na presença de um soldado buscando refúgio da guerra que a menina defronta as questões que permeiam a Espanha da Guerra Civil (1936-1939), movimento de interesse e fundamental acontecimento na Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Também sobre esse período, assisti ao Terra e Liberdade (1995), direção e história britânicas a permear a Espanha com os confrontos inclusive entre Anarquistas e Stalinistas em Barcelona, quando ambos os grupos deveriam unir forças contra as tropas de General Franco.
Em O Sul, esse dito Sul permanece inexplorado, no imaginário, saudoso e idealizado. A menina Estrella não o conhece, mas lê em registros, ouve falar. Seu pai é de lá, da região mais ensolarada de Espanha, onde mais habitaram os mouros, ocupantes, desenvolvedores, e relativamente expulsos na história. É lá que há noites luminosas, dançantes, comida árabe, arquitetura distinta. É a terra do pai, o médico Agustín. Esse está cada vez mais fechado, distante da família, trancado em um quarto para desenvolver projetos e experimentos não bem descritos. A visão do espectador é oculta como a de Estrella, que fica a imaginar o passado e o presente desse pai, que está ali, mas se ausenta.
Até em manobra para chamar atenção, Estrella se esconde embaixo da cama. A mãe e a empregada se desesperam em turnos para procurá-la, mas o pai não transmite palavra, não deixa seus aposentos. Estrella está em crescimento, o filme navega sua puberdade, ela conhece um menino, chamado de El Carioco, levado, inexistente nas imagens (apenas uma chamada telefônica entre eles aparece). Ele picha um muro, quer Estrella para ele, comunica que já teve outras meninas e é capaz de muito. A jovem não se assusta muito, nem seu pai, quando os trâmites lhe são comunicados. É um sujeito bonachão e saudoso de aventuras, no fim das contas.
O Sul é mais uma obra sensível de Victor Erice. O filme é composto nos detalhes, o pêndulo que a menina carregava, explicado pelo pai, para seu uso e precisão. Uma volta deles de moto quando ela ainda era a garotinha. Ela sozinha de bicicleta pela mesma alameda de muitas árvores, uma beleza natural de cenário estonteante, mas a mudança de puberdade, de idade, de significado e reações. Incluso o filme é feito para um aspecto frio, de silenciamento, de inverno, de alguma solidão. São personagens introspectivos com questões mal resolvidas. São investigações silenciosas. A menina que busca conhecer um pai que cada vez menos se abre, que cada vez menos conversa e interage com a família. Será outra mulher? Será uma atriz de cinema, Irene Rios, que seu pai conheceu no passado e sente falta? Ou o que mais lhe falta ao médico trancafiado? O que representa esse Sul inalcançável?
Fontes afirmam que Victor Erice pretendia prolongar o filme com uma segunda parte que o levaria para casa de três horas de duração, em que Estrella, cada vez mais crescida, independente e disposta, viajaria para encontrar esse Sul da Espanha com a família de seu pai, desvendando mistérios inculcados em sua cabeça. Porém, a não realização dessa segunda parte permitiu que o Sul se tornasse metafórico, inalcançável, inconcebível. Uma espécie de exílio dentro de um próprio país. Essa ideia muitas vezes passa despercebida pelo espectador, pelo apreciador de arte que não vive ali. Que imagina uma Itália unificada, apesar da evidente separação entre as diferentes regiões do país, uma Alemanha unificada mesmo com o que separou o século passado entre Ocidental e Oriental, mesmo a Baviera podendo ter sentimentos de independência, mesmo um Reino Unido apenas no nome para as ilhas ao Norte desses acontecimentos. A Espanha, então, viveu os conflitos de Guerra Civil, de unificação anterior após muitos reinados desfeitos, tem a questão evidente dos separatistas bascos e dos catalães em questões já tidas como históricas - e até hoje polêmicas e pouco solucionáveis para ambas as partes, separatistas e unificadores, população geral e economistas.
Esse Sul que permanece inexplorado, a não ser pelas cartas e pelas tentativas imaginárias e investigativas de Estrella desvendar. Essa menina que se sentia deslocada, tem universos novos a explorar, como os estudos, o sexo oposto e que precisava mais da palavra do experiente, sensato e bonachão pai. Mas são utopias. São famílias que muitas vezes estão juntas apenas na moradia, aos olhares de quem vê de fora. E vendo de fora, como é o Sul ou o Norte que se imagina? Na vida de cada um.

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