Umberto Domenico Ferrari ou Umberto D é um filme italiano do consagrado diretor Vittorio de Sica, realizado em 1952. Ele mostra e prevê uma Itália difícil aos aposentados, aos anciãos, aos trabalhadores. Salários indignos e protestos marcam o início da trajetória do personagem principal, homônimo ao filme, morador de aluguel, cuja moradia consome muito de seus vencimentos.
A Itália é retratada com a constância das obras, das ampliações, dos restauros, da luta entre passado e presente de ruas muito antigas, monumentos e arquiteturas que, apesar da beleza, são de trabalhosa manutenção. E os salários dos ocupados com tais serviços não reflete dignidade nos ganhos.
Umberto vive as agruras do pós guerra que assolava a Europa, mais radicalmente nas reconstruções e misérias de Alemanha, França, mas sem poupar a Itália de Sicca. Na companhia de um fiel cachorrinho, ele percorre as ruas entre manifestações, tentativas de um companheirismo à italiana que já dava lugar à indiferença e individualismo das sociedades plenamente capitalistas, tentando desesperadamente penhoras como as de um relógio.
"TODOS SE APROVEITAM DOS IGNORANTES" - Umberto tenta instruir a jovem Maria, que trabalha na pensão, na qual Umberto está prestes a ser despejado por uma dívida de 15 mil liras. Ele inicialmente consegue apenas 4 mil e luta bravamente para manejar o dinheiro necessário, pensando até em uma greve na sua alimentação. Maria, por sua vez, está grávida de três meses de um rapaz de Nápoles ou de um Florença. Nem ela sabe. À essa altura também se nota os fragmentos de uma Itália unida a menos de século, onde a nascença de um canto ou outro do unificado país ainda são motivos de preconceito, desconfiança ou desavenças - como, a bem de verdades, parece nunca ter deixado de ser.
Conforme diminui o prazo para Umberto quitar as dívidas com o pensionato, ele arma planos para poupar dinheiro. Chega a se internar em um hospital de caridade, liderado pelas freiras franciscanas. O maior problema não era fingir problemas maiores que sua amigdalite, mas sim se manter distante do cachorro Flike. Por sua vez, o cachorro Flike ganha destaque na parte final do filme, pois seu destino estava atrelado ao dono desesperançoso, cansado da vida sem tostões, da batalha constante pela sobrevivência mesmo após, diz ele, ter servido ao ministério do trabalho por 30 longos anos. Ele decide deixar definitivamente o pensionato, não aguentando mais os desaforos recebidos da condutora da pensão. Ele convivia com invasões a seu quarto quando estava fora, um tragicômico que até gerou reações de riso por parte de espectador que assim relatou na rede social Filmow. O quarto chegava a ser usado como aluguel de motel, cobrando liras a hora de uso. Por fim, a patroa resolveu operar obras de demolição de parede lateral que acabava de vez com a privacidade do impassivo Umberto D.
Sua única confessora, além de Flike, era a funcionária Maria, para qual ele deixa pertences em sua despedida. O destino para os últimos minutos de filme reservam a cruel despedida com Flike. São cenas fortes para qualquer tutor animal, anseios e agonia pela frente. Cenas fortes mesmo passados mais de 70 anos da gravação, o que torna Umberto D um clássico de drama, de neo-realismo, de apontes sobre as dificuldades da época pós-guerra e para os aposentados do mundo todo, sem família por perto, sem dinheiro no banco, sem ter com quem contar e com o quê contar.
O protagonismo final de Flike faz lembrar personagens como a cachorra Baleia no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, levado ao cinema pelo excelente diretor do Cinema Novo brasileiro, Nelson Pereira dos Santos. A despedida entre Umberto e Flike desespera os espectadores para desfechos inevitáveis. Diariamente, quantos se separam por saúde, por impossibilidades de prosseguir juntos, mudança de casa? Final reflexivo de um clássico do neo-realismo italiano, concorrente aos maiores prêmios das academias de cinema.
⭐⭐⭐⭐ e meio.

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