Um dos filmes mais ousadamente filosóficos que já vi sendo gravado nos Estados Unidos. A direção, é bem verdade, é assinada pelo francês Louis Malle. Como o nome aponta, o desenrolar todo do filme ocorre durante um jantar entre dois amigos, os originais Wallace Shawn, narrador e interlocutor para o papo com o amigo Andre Gregory. Não são propriamente grandes amigos, mas, passados alguns anos, foi sugerido por um terceiro que eles retomassem contato e assim foi feito. Em comum, ambos desenvolviam peças de teatro. Andre obtinha maior sucesso e muito do assunto transcorre de suas longínquas viagens. Shawn, por outro lado, vinha em uma decadência, a qual ele apresenta em resmungos e cuspes ao introduzir a história e o porquê do encontro com Andre.
Shawn aparenta mais idade, mas tem apenas 36 anos. Se sentia meio fora do círculo de aceitações e sucessos em Nova York - outra protagonista na história de poucos personagens, complementados pelas esposas que não aparecem, apenas são citadas, e pelos atendentes do restaurante chique. O filme é considerado prolixo e pedante por parte da crítica, porque Andre descarrega suas teorias e assimilações a um atento ouvinte Shawn, o qual tenta colher novidades e refletir sobre sua vida a partir dos ensinamentos e teorizações do verborrágico Andre. Shawn escuta atento e às vezes até cômico ou incrédulo e raramente parte para suas objeções e complementos. Andre garante protagonismo na conversa ao controlar os assuntos, as passagens, as histórias de seu conturbado e atabalhoado passado. Ele conta como foi parar em experiências em floresta na Polônia, com o dramaturgo Grotowiski, no Tibet ou em Israel com a esposa. Andre alternava sua vida conjugal fechada em Nova York com aventuras de viagens longas. Além da esposa, ele tinha dois filhos, chamados Nicolas e Marina.
Sem o mesmo leque de experiências diversas, Shawn escutava atento ao amigo desenvolver suas teorias sobre enxergar a vida sob outras óticas, outros prismas. Nas mais radicais das ideias, Andre considerava suas experiências válidas para um despertar de verdade, uma consciência sobre a vida e a morte. Segundo ele, um dos problemas dessa consciência por demais atenta seria a conscientização sobre a proximidade da morte, tal qual filósofos antigos já haviam previsto e anunciado.
A preocupação dos amigos passa pela amortização da vida na sociedade ocidental, preveem a robotização futura e a automaticidade com que percorrem suas vidas. Shawn chega a defender seu direito a acordar e enxergar seu conforto em uma xícara de café, os dias com a namorada Debbie e seu emprego de ler, pesquisar, ler críticas e escrever suas peças teatrais, sem algo de acontecimento extraordinário. Andre rebate se o conforto é escolha dele ou apenas uma imposição, um modo automático de encarar a vida. Pesada crítica está na comparação de Andre entre a metrópole Nova York e um imenso campo de concentração. Citando outros críticos, Andre aponta que a Grande Maçã seria como um campo de concentração construído, vigiado e administrado pelos próprios prisioneiros. Ele cita a quantidade de conterrâneos que desejam sair da cidade, mas nunca o fazem, cita sua própria situação e, ao mesmo tempo, a incapacidade de definir junto à esposa um futuro, um local para investir, pois enxerga as prisões invisíveis em que é transformado o mundo. As armadilhas da globalização que davam as caras desde o início da década de 80. Em determinada passagem, Andre acredita que a década de 60 do século passado seria a última em que o ser humano ainda foi autêntico. Será?
Outro ápice no filme é Andre discorrendo sobre a falsidade das relações humanas, em uma crítica ao mundo de aparências da sociedade ocidental, isso muito antes das armadilhas das redes sociais online, embora até um notebook seja citado por Shawn, nos primeiros passos da computação ao alcance da população mais abastada. O próprio Shawn se considerava um filho de família de considerado prestígio, iniciado e atentado às Artes, a erudição, à música e assim perdendo a consciência de outras ações práticas que o levariam à bancarrota, à necessidade de procurar ocupações, a andar de metrô, à necessidade de que sua companheira trabalhasse incluso de garçonete durante algumas noites semanais. Quanto à hipocrisia da população, ele cita que Debbie servir de garçonete ou secretária causava uma distorção, uma repulsa, uma pena nos demais interlocutores como se ela estivesse condenada a um grande castigo, a um individual inferno. Em acordo com essas falas, Andre denuncia as máscaras sociais, a necessidade constante das pessoas fazerem piadas fora do tom, jantarem, rirem, sem na verdade se abrirem, repensarem suas ações e práticas do cotidiano. Ele conta as dificuldades que passou com a morte de sua mãe e que, passadas umas semanas, duas ou três, foi convidado por amigos a um jantar. Em meio a tantas piadas e descontração que propunham inadvertidamente, em nenhum momento questionaram sobre como Andre se sentia com a perda, se gostaria de um ombro amigo, de um real desabafo. Em contraponto, Andre apresenta as versões sinceras e introspectivas de monges para os lugares distantes em que viajou na Ásia, como o Tibet. Em certo momento, Shawn declama suas dúvidas quanto às teorias de enxergar a vida, de se descobrir e libertar, se eram necessárias viagens às florestas da Europa Oriental, ou ao Tibet, ou um retiro em Israel. Segundo o dramaturgo de 36 anos, nem todos podem ter oportunidade desses retiros sabáticos, então mais valeria uma autodescoberta ao revisitar seu bairro, como a um restaurante ou a uma tabacaria vizinha; a autodescoberta estaria em suas próprias redistribuições, reorganizações, na redescoberta de hábitos. Andre nisso tudo aponta os perigos que os governos, de uma forma fascista e proposital, amolecem as expectativas, drenam as vontades e os sonhos, amortizam a população a viver como construtora, vigia e responsável pela manutenção dos campos concentradores e vigilantes da sociedade ocidental. Uma população não reflexiva, automatizada, em busca de pequenos confortos e nenhuma verdade. As duras críticas, as palavras de um experiente Andre amarguram Shawn a se questionar e ele confessa repassar essa conversa para Debbie após redescobrir, recolorir com novos olhares para o bairro na volta de táxi - que ele se permitiu pegar na volta para casa, segundo confessa. Enquanto conversavam nessa profundidade à parte de um cardápio que Andre dominava em francês ou no idioma que precisasse, e Shawn pouco sabia, os demais clientes foram sumindo até a bruma que antes cobria os pensamentos sombreados de Shawn se dissipar. Com novas atenções para suas ocupações, vivência e atento à falta de transparência nas pessoas em suas convivências e conveniências, Shawn voltara para casa, para seu casulo na Grande Maçã.
⭐⭐⭐⭐
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