Acelero meu processo de envelhecimento. Sinto que posso percorrer em voo baixo a infância que já se desenha há duas décadas passadas. Nos confinamentos dessas páginas de cimento recordo os sábados em que eu almoçava fora. E isso ficou bem marcante como uma divisória, como se uma régua posicionada sobre a folha induzisse a mão jeitosa a rasgar o papel em duas partes. Almoçar fora, em restaurante propriamente, era um exercício civilizatório resguardado a esse período da minha vida. Conforme minha adolescência e início da fase adulta, meu pai trazia a comida de restaurante e mantínhamos o hábito de almoçar em casa, com a salva diferença de que, aos sábados, minha mãe não se atarefava no preparo da refeição.
Mediante essa linha cronológica traçada, voltamos ao sol sobre o calçadão envolto de comércio nas matinês de sábado. Era o período que minha mãe, já aposentada, saía de casa. Pelo menos uns dois traumas, pensando durante a oração, talvez três, surgiram em decorrência dessa repetição de episódios. O primeiro que me acercou a memória era encostar nas monótonas vitrines de lojas, com os seres inanimados a exibir artigos de luxo e acessórios que os seres animados (demais para meu gosto) ansiavam adquirir. Definição dicionária de vitrine, com os vidros impecavelmente limpos e bonecos intactos em poses estilosas. Até que era interessante notar em lojas de menor recurso como os próprios manequins perdiam seus estados incriticáveis no desgastar do tempo. Deviam eles aguardar sofregamente pela aposentadoria dessa função semi-desnuda em exibição para desconhecidos (e sem adicionais salariais).
Passado o trauma das inquietantes vitrines, que, quando parávamos, faziam com que eu olhasse tudo ao meu redor, com exceção das próprias vitrines, o segundo trauma seria o de palhaços. Creio que mais do que desgostar dos palhaços, a perturbação era virtude da forçada interação social. Aquele ser pintado das mais diversas cores já programadas em paletas e que, avidamente com sorriso fixo, estimulava as crianças para elas contraírem a concavidade da boca em mesmo ângulo, mostrarem seus dentes (ou a ausência deles, dependendo a troca na formação de porteiras). Doravante que muitas vezes o efeito desejado era simplesmente o oposto, com muitos cedendo ao choro do desespero. Eu, pelo contrário, apenas aguentava, como também aguentava as vitrines, em sofrimento interno e não repassado para minha mãe ou demais familiares.
O momento de cruzar pelos palhaços parece ficar estagnado na infância. Se repararmos, apesar da mudança dos tempos, os palhaços ainda estão por lá, a entreter - ou tentar - nas calçadas envoltas de comércios. Passam despercebidos, como os tatus-bola (ou seja lá qual for o plural de tatu-bola) nos jardins olvidados. Contornadas as vitrines que não mais sou obrigado a parar e os palhaços que procuram novas vítimas (e vítimas novas, mediante o critério da idade do público-alvo), o terceiro trauma pode ser considerado o da quantidade de pessoas ou mesmo do consumismo.
Essas organizações comerciais centrais nas cidades foram gradualmente ou até bruscamente substituídas pelos shopping centers, assunto o qual já abordei muitas vezes em meus textos críticos ao consumismo exacerbado, locomotiva desfreada. Posicionaria esse terceiro trauma nas lembranças desses sábados matinais exatamente na larga presença de pessoas e seus barulhos típicos, conversas cruzadas desprovidas de significado, passos, vendedores anunciando obrigatoriamente ofertas em que 95% não está interessado, posteriormente cambiados pelos de mesma função em empresas de telefonia celular (vale sempre ressaltar que recordistas de reclamações!) e até mesmo artistas de rua que, separadamente, podem trazer um benefício cultural interessante, mas naquelas organizações desorganizadas dos centros comerciais, disputam espaço aos solavancos e confunde-se o som de um com o de outro, as apresentações teatrais e dançantes sem um palco se tornam bizarras e mesmo a poluição sonora das lojas aos microfones ou com outras músicas completam um cenário horripilante.
Orgulho de Allan Poe, Alfredo Hitchcock ou H.P. Lovecraft, que, por sorte, jamais presenciaram meus sábados matinais ou terminariam de sepultarem-se no horror compilado de suas mentes. Brincadeira de bom ou mau gosto, a ideia inicial era transcorrer pelos restaurantes de minha infância. Ou o restaurante, visto que frequentávamos sempre o mesmo, um de nome alemão e tradução Tudo Azul (nada mal, embora o prédio sequer fosse azul). Contudo, as lembranças acumuladas, como aquelas cenas errôneas de desenhos animados na prática do futebol americano, em que um jogador pegava a bola oval ao chão e os outros amontoavam-se como uma cordilheira sobre falhas tectônicas, as lembranças desvirtuaram o plano e me convidaram, como se me apontassem uma faca, para que eu descrevesse alguns dos traumas passados pelas voltas desferidas aos sábados de, naquela hora, contrafeita infância. Mas o restaurante depois valia pena. Valia muito.
29/03/2020
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