31/12/2025

O Fim da Viagem / O Começo de Tudo

Filme de 2019, direção de Kiyoshi Kurosawa, O Fim da Viagem, Começo de Tudo é um filme propício para assistir na virada do ano, nas férias, no recesso. Um drama leve sobre a vida de uma jovem jornalista japonesa, que, introspectiva e sonhadora, viaja com sua equipe de reportagem para gravar um programa no Uzbequistão. Lá, sua mentalidade se expande e se transforma, quando impressões iniciais podem ou não serem confirmadas. Suas verdades são confrontadas e suas ideias para voltar à baía de Tóquio podem mudar.

Yoko (Atsuko Maeda) demonstra alguma inacessibilidade, um certo desentrosamento com a equipe de gravação. Logo no começo do filme ela chega atrasada à estação onde iria com os demais ao coração do Uzbequistão. A equipe não a esperou. Tirando as horas do extenuante serviço, Yoko gosta de passar o tempo sozinha, a passear para espairecer ou a falar ou tentar falar com o namorado, um bombeiro na baía de Tóquio.

O Uzbequistão prepara muitas surpresas. Um guia de pesca sem paciência. Machista com a presença feminina que afugentaria os peixes. As tentativas de gravação no lago são frustrantes. Uma cozinheira de comida típica atrapalhada com o cozimento do arroz, reclamando que não foi previamente avisada do que deveria preparar, sobre a gravação, mas que depois se desculpa e, mesmo com a suposta falta de lenha na cozinha, enche a equipe de mimos e preciosidades. Yoko fica confusa com o comportamento das pessoas e as diferenças culturais. Ela é destemida, um tanto impulsiva, independente e investigadora.

O filme desenvolve diferentes personagens. O tradutor do grupo se afeiçoa a Yoko. Um dos rapazes das câmeras também não é lá de muita paciência. Outro dos gravadores é experiente e já desenvolveu vários trabalhos artísticos. Yoko é jovem e cheia de dúvidas. Ela revela que seu sonho é cantar em apresentações, deseja voltar ao Japão e ser a estrela de um musical. As gravações do programa de variedades são questão de tempo; um passatempo. Um serviço temporário.

O desenvolvimento da trama também mostra aos espectadores os bastidores das gravações de filmes e programas de reportagem. Muito trabalho de convencimento, tomadas que necessitam repetição, acordos feitos por baixo dos panos, mãos molhadas, roteiros decorados e sorrisos falsos. Um dos mais pacientes é o tradutor que, além do mais, precisa fazer o elo, a ponte entre duas culturas asiáticas mas diferentes. Temur, como ele se chama, ainda reserva uma história pessoal ligada ao Japão que é digna de documentação. Quanto à gravação do programa em si, traz altos e baixos, como é a vida, com produções que rendem tempo, economizam dinheiro e outros passeios que saem caro e não saem como o planejado. Há surpresas sempre no caminho da equipe japonesa.

Yoko se afeiçoa aos animais. Se encanta por um bode, que inicialmente ela achava ser uma cabra, em um terreno hostil. Ela convence a equipe a resgatar o bode Okko, que na verdade, na complexidade da operação, não passa de um simulacro, pois a libertação urbana ao bode poderia resultar em ser devorado por outros animais selvagens. Qual o lugar de Okko? Qual o nosso lugar no mundo?

Yoko se questiona. O que a emociona é cantar, entregar-se de corpo e alma ao tema da música. Seu sorriso diante das câmeras para preparação do programa já não é o mesmo quando iniciara na profissão. Uma das cenas revoltante é quando exigem que ela, extenuada, exausta, sob riscos de complicações sérias, é exigida a repetir gravações em um brinquedo kamikaze em parque de diversões. Uma falta de tato, de senso da equipe e da própria, em momentos irresponsável consigo mesma, apesar do crescente alerta do próprio dirigente do brinquedo. Ela não deveria ser exposta a isso.

O filme também mostra que o trabalho de repórter, apesar da recompensa e da fama, pode ser enfadonho e cheio dos chamados ossos do ofício. Entregar na água até os joelhos e num barco de pesca, resgatar animais em vão, passar pratos estranhos e suspeitos, encarar os desafios da lei e de ser mulher em sociedades que possam ser opressoras. Apesar da desconfiança, Yoko termina esperançosa com o Uzbequistão e com um sentimento de agradecimento e até pertencimento diante das infindáveis planícies e montanhas. Inspiração para ela cantar e encarar o próprio Japão e sua vida de outra maneira, talvez até com a recuperação do sorriso após o jorrar das lágrimas.

Nota final para O Fim da Viagem / Começo de Tudo

⭐⭐⭐⭐

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