30/12/2021

Notas sobre o Luto - pós leitura de Chimamanda

Terminava a leitura de Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie, autora nigeriana, das mais influentes africanas da contemporaneidade. Neste livro ela aborda a experiência marcante, o fio abruptamente cortado com o luto da morte de seu pai, pessoa pela qual ela mais nutria bons sentimentos. A autora feminista comenta a experiência vivenciando o inesperado luto, ao passo que antes do ocorrido não saberia defini-lo. Enxergava essa questão crucial, que cerceia a vida, sempre nos outros, mas nunca dentro de seu próprio seio familiar.

O término dessa leitura que eu havia iniciado no mês anterior me deixou bastante reflexivo também pelo contexto. Como é de praxe de minha conduta, acabo por desenvolver a teia da empatia em direção aos escribas que me conferem seus trabalhos. Procuro imaginar todo o contexto de suas experiências, assim como por esses dias lembrava eu das passadas formaturas que eu pude acompanhar, sempre pronto para entrar em pranto, imaginando a caminhada árdua daquele ou daquela estudante. Pessoas desconhecidas mas com temas comuns como a distância familiar, física, geograficamente ou mesmo no distanciamento por contar com menos tempo, em função dos eloquentes estudos. Pessoas ocupadas, pessoas sedentas por progresso, pela promessa de tempos melhores aos estudiosos. Pessoas que não viram o tempo passar. E logo se deparam de frente para o povo pois foi chegada a formatura.

Diferente dos brindes aos formandos e seus fiéis escudeiros acompanhantes, em Notas sobre o Luto, Chimamanda Ngozi Adichie aborda um outro extremo da vida. O pesar, o véu do óbito por sobre a face da pessoa amada que ficou para posteriori. Passo a passo, a dificuldade de assimilar o que já não tem mais volta. Os lindos e eternizados momentos na memória, mas que não irão mais voltar. A ficha que bamboleia, faz seu traçado errôneo de mesa de pinball até despencar. O movimento pendular das ideias entre o negacionismo e a aceitação. Em meio a tudo isso, o disfarce necessário na sociedade que lhe exige seguir a vida. Superar. Caminhar. Ir adiante. Família para cuidar, emprego após o luto. O semáforo segue funcionando no trânsito. A chuva cai, molha e o piso seca na sucessão das estações. As faixas de pedestre recebem encontros e desencontros de quem possivelmente jamais iremos rever ou, mesmo que reveja, não percebemos. Nossa mente está em outro local. O luto é o canal de televisão exclusivo que toma conta da nossa grade de programação. Estamos gradeados, envoltos ainda à experiência mórbida.

Para a Chimamanda, a necessidade de manter a educação e o avançar dos passos da filha, oitava neta de seu falecido avô, com quem pouco acabou convivendo mas sem dúvida muito irá ouvir sobre. Inclusive nos registros carinhosos desse livro dedicatório. É um livro de memórias, de registros familiares e um convite a partilhar o Luto. A procurar entendê-lo. Seus processos, suas tomadas e retomadas, sua presença intrometida. Seu estado de expansionismo e inquietação. O luto não fica guardado em uma caixinha preta, esperando nossa intromissão em prol da palavra portuguesa saudade. O luto, ele percorre nosso corpo, bloqueia a ação de nossas mãos e o fluxo de nossa mente.

Escrevo após o término da leitura enquanto minha mãe próxima de mim sofre com uma indisposição. Pode ser algo que comeu ou a chuva que apanhamos juntos pela manhã. Mais uma vez percebo que ela não tem idade para isso. As trilhas por pedras íngremes e que tornam nossa postura a cada passo vacilante e insegura. A chuva que cai de forma surpreendente (ou nem tanto) e que interrompe num desplugue nosso ideal passeio. A volta para casa com as roupas molhadas do corpo mesmo em manhã de verão. O perigo que nos cerca quando a idade avança. Penso nela deitada indisposta sobre o sofá. Penso no pai da escritora Chimamanda, professor universitário da nobre matemática. Neste grande homem presente agora somente nas lembranças de extensa e carinhosa família ainda passante a beber colheiradas de luto. Penso em minha mãe e minha responsabilidade diante de sua inevitável velhice.

O pai de Chimamanda se foi passados os 80, se não me engano direcionado aos 90 anos. Minha mãe ainda não tem 70, mas num piscar de olhos poderá ter. Ou o pior: não ter. Devemos estar preparados. É o curso natural da vida, como diversos autores já abordaram no canto de seus acanhados improvisados diários ou nas páginas mais folhadas dos best-sellers. 

É com primazia que penso em mim mesmo, mas é com constância que olho para os lados, que observo, respeito e sinto os outros. Obviamente com destaque para os que estão ao meu redor. Penso demais. E com a minha mãe, tão próxima, por ora em estado de crescente delicadeza, após a leitura bem traçada, subjetiva e biográfica das notas enlutadas de Chimamanda Ngozi Adichie, torna-se para mim impossível não reproduzir adjacente paralelo. Faço votos ao final para os que aqui chegaram para cuidarem dos seus. Que façamos, para quem conosco está, um gesto a mais, um desejo realizado a mais. Uma bondade, uma cortesia, uma bem intencionada manifestação. Espalhar os bons gestuais e as boas palavras para melhor lembrarmos de que a parte foi feita nesse caminho transitório, inconstante e surpreendente que é a vida. Estendamos a mão àqueles que tanto nos estenderam e não se pouparam em suas aceitadas missões. Notas sobre o Luto é sobre a morte, como sugere o nome, mas é sobre a vida, nossas ligações afetivas e o desejo de conservá-las, no duro aprendizado de quando perdê-las. Nos desafios racionais perante as cachoeiras da emoção. Nos percalços da vida em armazenarmos momentos que considerávamos eternos.

29/12/2021

Limiar da vida

No limiar da vida

Vou caminhar 

Sobre as feridas

Rumo a um altar


No limiar da vida

Não vou me importar

Com outras brigas 

Nem com as dívidas

Que sei

Não vão me pagar


No limiar da vida

Que foi

Foi tão ardida

Íngreme a subida 

Rápida descida

Que resultou

No que restou:

O limiar da vida

28/12/2021

Abatimentos e Fomes

Como faz para não se matar um sujeito que está insatisfeito com todas as vertentes da vida? Permanece vivo com alguma luz distante que uns chamariam esperança - mesmo que entendam que para ele está totalmente opaca, ofuscada - ou será que mantém o corpo firme somente pela experiência de encarar tantas marteladas de frente, na reta da marreta, defronte para a pancada? Quer se manter longe das estatísticas dos mortos jovens, pois soube que na sua família o mais novo de todos parece que foi-se aos 36 ou talvez 38. Nenhum registro de morte infantil, apenas alguns registros de concepções que não vingaram, de missões abortadas ainda no ventre. Tenta encarar de frente. Sabe que quase metade do país vive inseguranças, como a mais grave, a insegurança alimentar, mas está de pé como reza o dito de que a América Latina não tem pernas pero camina. Sabe que milhares, mirem-se milhões de trabalhadores ainda não desistiram. Tenta entender na cabeça deles o porquê. Já imaginou o suicídio como protesto, como causa, como algo chique, manifestante contra o sistema, algo planejado, teatral até diria. Mas leu e viu exemplos de que a morte às vezes é somente crua. Debaixo do sol de algum meio-dia, no meio de uma rua que poderia ser deserta ou recoberta pela sombra diminuta dos transeuntes. Pode ser do alto de um prédio rumo ao choque com a calçada, pode ser o envenenamento, pode ser a arma de fogo ou mesmo uma arma caseira na base de esguia coragem, pode ser. Pode ser somente a fome batendo incessantemente à porta até o entre da exaustão, a hora exata da derrocada, da pedra final em composto labirinto. A fome que atazana, ronda, derrota milhares. À fome que cerceia, seca a boca, domina o sistema nervoso de paladares sedentos. A fome é implacável e por ora, somente por ora, ameniza minhas notas suicidas. Chego a sentir-me culpado de elaborá-las em tal situação, mas volto ao ponto de que gostaria de aprender a ter paciência, de que minha experiência para algo servisse em minha própria ajuda, em meu próprio socorro. Temo pela minha saúde, mas principalmente pelas de quem mais amo. Me sinto culpado em não domar esse meu instinto autodestrutivo que reage tão mal às pressões mentais que diariamente sofro quando os revés surgem. Ao invés de melhor me preparar para o que sei estar por vir eu apenas me sinto mais enchiqueirado, desconcertado, abatido, reduzido, quase abduzido de minhas faculdades combativas para enfrentar o que há por vir. Quando meu cérebro se situa no mar das imprecisões, cercado pelo mundo opressivo, tenho alguma vontade de gritar, mas muito maior é minha vontade de sumir. É isso o que sinto. Mas sobrevivo. Provavelmente não terei como ajudar muitos exemplos necessitados do combate à primeira fome, a estomacal, ou as milhares de vítimas dos alagamentos e deslizamentos na Bahia. Provavelmente não terei, mas jamais por falta de vontade ou empatia por esses grupos. Mais uma vez produzo sem saltar parágrafo, mas mais uma vez concluo dessa vez sem pular na frente de algum bonde. E por ora, ao estado calamitoso que me encontro, isso deve bastar.

27/12/2021

Percebi que reprovo a vista do mar

Percebi que reprovo a vista do mar. Para sairmos de um prédio barulhento entre móveis arrastados e conversas de vizinhos em plena madrugada, viemos para outro prédio nessas condições, principalmente na questão dos móveis. Eu já havia sinalizado: apartamento só na cobertura, mas não fui atendido. O canto da sereia foi mais alto. A sedução de uma linda vista defronte o mar. E estou inclusive reprovando-a, como bem anuncia o título do texto. Digito isso sobre uma cama de molas desreguladas e manifestantes, para ampliar minha aflição. Mas explico porque a reprovo. No momento me posiciono contra essa vista porque ela se faz presente em uma facilidade absoluta, a hora em que eu quiser. Posso ver como está o céu ao longe no horizonte, como estão as ondas no mar. Posso ver o movimento dos caminhantes, o ir e vir de centenas de desconhecidos. Posso observar quem estaciona o carro e vai-se embora, para curtir a areia sob (e entre) os pés ou subir para academia ou bares ao redor. Posso inclusive, contra princípios mais honestos, observar um pouco da movimentação de prédios ou casas vizinhos mais próximos. Várias possibilidades, como podem ver. Porém essa vista torna-me mais preguiçoso. Ao ter a contemplação do mar tão facilmente perde-me o encanto de ir ter com ele. O contato absoluto, definitivo. A vontade de sair de casa com a gana de ouvi-lo, vê-lo e senti-lo, o mar, velho companheiro desde minhas primeiras viagens infantis. No alto da maturidade que me avança, estou perdendo aos poucos. A menor vocação para encarar a água mais fria no choque térmico, a menor diferença que faça o contato dele com minha pele. A repetição de tudo que já vivi em uma redução de significado, ao invés da ampliação.

Além do mais, já traduzi o sentimento dos últimos dias em Santa Catarina. Me sinto como em um condomínio igualitário, que, em geral, em geral me é funcional e confortável, mas não me revela o âmbito da surpresa, da caoticidade criativa que tanto aprovo em minha cidade natal. Ao deparar com um trânsito mais tranquilo, melhores condições estruturais e sociais da população e por conseguinte um menor índice de violência, também não consigo fugir da sensação de paraíso artificial. Questionar, como na reflexão anterior, meu próprio mérito. Lamentar por aqueles que aqui não chegam. Olhar para esse mar que ao nem tão longe me provoca, propaga sua sedutora energia e me questionar o porquê de estar aqui. Tentei traduzir esse sentimento de funcionalidade e determinado tédio - mesmo aqui há poucos dias - no episódio do desenho Bob Esponja, em que Lula Molusco migra de sua habitual casa para um condomínio onde todas as casas são iguais e todos os moradores possuem os mesmos hábitos que ele. Tocam clarinete, aspiram folhas com sugadores para limpar a grama, apreciam corais e fazem danças. Ao passo que os dias se repetem, Molusco sente falta dos antigos amigos, das imprevisibilidades, das confusões cotidianas. Posso me sentir um pouco assim nesse espaço. Carente de uma sociabilidade que hoje só tenho no meu bem estruturado, baseado e construído convívio, com seletos amigos e alguns ambiente profissional. Em SC eu teria que construir praticamente do zero sem saber por onde perambular essa prática, principalmente porque, como vem cedo ou tarde à tona, a pandemia de covid segue a toda, impedindo diversas atividades. O convívio social é limitado. E posso apontar isso de duas formas: pelas imposições da pandemia e também pela minha própria inabilidade, ineficiência social ou mesmo desinteresse, que posso ter criado em função das primeiras? Posso. Ao passo que também o jeito que as pessoas são assim me causam o desinteresse.

No flagelo de meu quarto, com o mar equidistante no dia a dia, em muitos desses dias, manterei alguma rotina de trabalho. Entre o conforto e o desconforto. Alguns me criticarão por talvez não desfrutar dessa experiência litorânea como deveria. Com otimismo e sossego. Alguns poucos me entenderão. Tal qual como as ondas que percorrem incessantemente o oceano, posso fazer nada.

26/12/2021

Breve reflexão defronte o mar

Eu que sempre desejo o melhor para meus pais, eles que sempre se dedicam com exatidão, retidão e perseverança em praticar o bom convívio comunitário. Mas, do alto de um apartamento de frente para a bela e melhor vista do mar, me sinto também culpado em dispor desse alívio. Observo as famílias que vêm, estacionam seus carros e mais tarde vão-se embora. Seja lá onde moram. As tantas pessoas evidentemente gostariam da vista que tenho. E não as posso oferecer. Agradeço por meus pais que ora têm. Lamento por tantos não a terem. Lutamos sempre contra a intranquilidade. Quando pareço atingi-la, logo me percorre novo desassossego. É a constância no fluxo da vida.

25/12/2021

Reflexões de Hermann Hesse #1

Nós vamos e iremos

Do grande Jardim Divino

Num dia de sol a pino

Em noite de lua cheia

Um poema de Hermann Hesse

Por ora é que me clareia


Nós vamos e partiremos

Do grande Jardim Divino

O canto do pássaro no hino

A aranha a tecer teia

A areia da ampulheta 

Escorre

Como as vagonetas do destino

Reflexão após Balzac e Hermann Hesse

Somos a natureza mesmo quando a destruímos. Somos a natureza mesmo ao passo que a destruímos.

17/12/2021

Sinto como num filme de Fassbinder

Eu me sinto como num filme de Fassbinder 

Um filme que ele não faz pra vender

Eu me sinto como numa canção de Wander Wildner

Uma canção na voz de Wander


Eu me sinto como numa foz na fronteira

Sem saber as trincheiras que irão suceder

Eu me sinto como uma voz na clareira da noite

Hoje a noite vai encontrar o amanhecer


Eu me sinto como num filme de Fassbinder 

Note que o Sr. M. vai enlouquecer 

Eu me sinto como num poema do grande Baal 

Pronto para enlouquecer geral


Eu me sinto como nas lições de Bertolt Brecht

Que geral se lembra e depois se esquece 

Eu me sinto ao sol como um fim de frete 

Dinheiro suado no bolso e a testa derrete


Eu me sinto como num filme de Fassbinder

Algo nisso tudo atende os meus anseios

Alemanha dividida nos orientes

Feridas abertas não surpreende

Feridas abertas não surpreende 

Feridas abertas não surpreende

15/12/2021

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Este filme me coçou os dedos para escrever sobre ele na primeira vista. Mas na segunda aparição dele na minha tela vocês não conseguiram fugir. 'Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre' - começo destacando a peculiaridade, a sensibilidade da escolha do título para esta obra que já nasce clássica. Nasce em demonstração, em acolhimento a todas as meninas, a todas as mulheres que precisam passar pelo que a personagem principal precisa: o aborto. É preciso dizer que este filme norte-americano supera várias barreiras que o cinema característico do país acaba deixando a desejar, por exemplo, a sensibilidade na direção. Nada de efeitos especiais ou cenas forçadas com trilha sonora e cortes rápidos. O filme é propositalmente deixado a correr, para sentirmo-nos mais e mais na pele de Autumm (Sidney Flanigan), a menina que conduz o filme com brilhantismo em sua atuação.

Não por acaso o nome dela é Outono, na tradução. Autumm passa o filme inteiro com a cara amarrada, o semblante fechado, e não é por menos. Desde a primeira cena, o ritmo do filme está ditado. Autumm se apresenta em uma espécie de show de talentos da escola, canta e toca violão, mas não é bem recebida pelo público. Logo saberemos que a bronca que os meninos têm com ela, ou o que poderia ser encarado como bronca de Autumm com os meninos, não é por acaso. Ela está de relacionamento finalizado, está em processo do começo de gravidez e tem pouquíssimas pessoas com quem contar nessa missão de evitar um nascimento nada desejado. Autumm logo percebe que não pode contar com o apoio familiar, como tantas e tantas meninas também não podem pelo mundo inteiro, seja por costumes, seja por legislação, crenças, religiões, ou conduções sociais que minimizam a opinião e a escolha da mulher sobre seu próprio corpo. Assim, em plenos Estados Unidos, Autumm, uma adolescente da Pensilvânia, recorre a outro ponto muito em comum e que talvez tenha aguçado minha atenção em relação ao filme como um todo: a viagem do interior do país para uma capital, para uma cidade de porte onde poderia realizar o procedimento, o aborto. 

Esta também é uma situação comum a muitas jovens, a muitos jovens, pessoas aí independente da idade que necessitam de consultas médicas com especialistas mais renomados ou experientes, e a partir disso se deslocam em viagens às vezes longas, com dificuldades financeiras para enfrentar ônibus ou aviões. Para Autumm, havia o agravante de que não queria ficar marcada, identificada em sua pequena localidade como a menina do aborto. Para além do preconceito que poderia sofrer comunitariamente, os próprios médicos às vezes não autorizam o tipo de procedimento, polêmico como é um aborto. São situações que às vezes fogem da alçada dos clínicos, profissionais, cirurgiões, e passam pelo crivo severo da lei que proíbe o aborto. Enfim, Autumm passa por dificuldades a nível social e legislativo, podendo sofrer as sanções do julgamento pelas demais pessoas ou perante mesmo um júri. Complicada a missão da moça, que precisa recorrer então para essa ideia em uma clínica da grande Nova York, uma das maiores cidades do mundo.

O filme se desdobra recheado de cenas de agonia ou angústia, ao menos. Gosto de imaginar esse tipo de filme, conforme um de meus diretores favoritos Alfonso Cuarón - ou mesmo o polonês Krzystof Kieslowski, trabalha com a consecutividade das angústias, parto de uma metáfora de que são como as sucessivas ondas do mar em movimento. Ao vencermos uma, logo nos deparemos com a próxima que pode nos sucumbir, nos afogar. Precisamos vencer todas, sairmos invictos ou de nada adianta, nada feito. E Autumm é uma guerreira durante todos os rolos de filme. Com sua postura reservada, de quem não tem muito em quem confiar, ela permanece calculista, introspectiva, guiando suas sensações através de uma atuação que - volto a dizer - beira o impecável em suas reações. Conseguimos senti-la, identificar-nos em suas atitudes mais retraídas e misteriosas. Como não pensar o que se passa na mente de uma jovem nessa situação delicadíssima?

A amiga de Autumm a acompanha até Nova York. No ônibus a caminho da cidade grande, um rapaz se interessa pela amiga e, insistindo, puxando assunto, consegue o número do telefone dela. Eles voltariam a se encontrar mais tarde. É interessante observar o desenvolver desse relacionamento paralelo ao drama de Autumm. A amiga vai cedendo aos movimentos aos poucos, também ambientada pela natural desconfiança em relação ao rapaz desconhecido. Sobre o rapaz, a gente consegue até dar uma chance para possíveis boas intenções, mas a impressão que sempre nos percorre é de um interesseiro, um autoconfiante, um aproveitador das meninas que vêm do interior, um suposto especialista em cidade grande que oferece ajuda e alguma diversão. Fato é que estamos tomados pela atmosfera introspectiva de Autumm e até o 'simples' (?) desenrolar de um romance paralelo àquela altura tensa nos soa como um desrespeito ao real objetivo da jornada, pois a tensão é constante enquanto Autumm não consegue resolver a situação. Terá saúde para aguentar o procedimento? Terá dinheiro e modos de sobreviver na cidade grande, entre hospedagem e alimentação? A viagem, a ida e a volta, darão certo? A preocupação da família enquanto ela está ausente? São muitas perguntas e muitas angústias que trilham esse caminho acidentado da vida da jovem.

O filme é um convite ao desconforto, à angústia, à realidade de milhares de jovens anualmente, não só pelos Estados Unidos ou para nossa realidade brasileira, mas pelo mundo todo. Umas com maior liberdade para resolver o conflito, outras com menos. Todas com algum nível de tensão que uma gravidez, uma mudança brusca no organismo pode causar. A incerteza de "com quem contar?", a incerteza de "o que virá depois?". A incerteza na mente de que "o que estou fazendo é correto?" e "mas e quanto ao que fizeram comigo?", finalmente para o ponto crucial: "sou eu a errada? ou as circunstâncias permitem?". A atuação impera nesse conjunto da obra, das dúvidas, da aflição, das hesitações de uma jovem em apuros.

Dividimos em um filme bastante cru - para os padrões estadunidenses ou nova-iorquinos - as aflições da jovem Autumm. Sua necessidade de ir superando uma gama de acontecimentos em que nenhuma mente está preparada para enfrentar, independente da idade. Recapitulando: o fim de um relacionamento, a descoberta da gravidez, a inaceitação da sociedade, a não-possibilidade de contar com a família, com a medicina de sua localidade, os riscos de uma viagem distante, os riscos de enfrentar Nova York, a companhia da única amiga, mais fiel do que sensata, a aparição de um jovem totalmente desncecessário para seu contexto de angústias, as perguntas feitas para realizar o procedimento invasivo do aborto. A necessidade de confiar em estranhos, entre a pessoalidade e a impessoalidade do procedimento em uma clínica especializada em receber jovens de diferentes partes dos Estados Unidos.

Por conta disso tudo, a recomendação de "Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre", um filme que já nasce clássico, na alusão da luta de tantas jovens que não querem, não estão prontas, fazem a escolha por não serem mães, no ainda ou no jamais, por dignidade, por decisão financeira, por planejamento familiar, por qualquer motivo que não deveria ser levado em consideração por mim, por nós, quando a decisão é na verdade dela. Um filme de suspense, de sobretudo drama, angustiante como tantas vezes convoca o uso dessa palavra - angústia - aqui na resenha sobre. Nunca. Raramente. Às vezes. Sempre. Inesquecível a voz da interrogadora nessa cena: as pausas, o drama, o vazio tentando ser povoado, tentando ser preenchido, pelas névoas da angústia.

Atuação da estreante Sidney Flanigan está à altura da grande proposta do filme

Amizade entre as protagonistas nessa jornada que exigia muitas forças
Imagens: Reprodução do filme Never Rarely Sometimes Always (2020)

13/12/2021

Papéis no Mundo

Queria ser uma pessoa que não gostasse tanto de estatística, embora às vezes elas sejam apenas estatísticas descontextualizadas. Para quem está lendo este texto pelo meu blog, percebo orgulhosamente que é a postagem de número 900, sendo que temos pelo menos 45 rascunhos em uma lista de espera que lembra muito os concursos públicos em que o pessoal passa e jamais sabe quando será chamado para compor a vaga pela qual teria direito. Enfim, mas vim aqui para falar que gostaria muito de ser uma pessoa que focasse em apenas uma boa ação e a executasse com fluidez, com perseverança, com entusiasmo e êxito. Mas não é meu caso.

Balanço pelas ações pendulares da vida, sempre lendo, sempre observando, sempre querendo conhecer mais e mais, mas considero que pouco me aprofundo. Mesmo o futebol, o esporte em geral, que hoje me designa um emprego, não me descem tão a fundo. Faço pouco mais do que o necessário - talvez até menos do que o necessário às vezes. Se está muito vaga ainda a ideia deste texto, deixe-me exemplificar. Uma pessoa que se proponha a ajudar idosos e monte um pequeno centro, um centrinho para atender uma dúzia de idosos, esta pessoa está prestando um serviço essencial, glamouroso, fundamental para pelo menos essa dúzia de idosos para os quais os serviços são destinados e, ainda mais, está ajudando as famílias deles, se é que as possuem. São cuidados necessários, básicos, a alimentação, a saúde, o mínimo de satisfação e de, quem sabe, entretenimento. Todos precisamos. Alguém que destine muitas de suas 24 horas por dia para esses serviços está alinhavado com os melhores princípios cristãos de existência sobre essa Terra. Ou estou errado?

Mas até o presente momento não me entendo assim. Eu já trabalhei por um tempo com lar de idosos e outro pequeno tempo também com crianças em vulnerabilidade social. Minhas dificuldades presentes na neurodivergência (ou neurodivergências) que possuo acabam limitando minhas ações para com essas campanhas, locais, auxílios. Em resumo, tenho muito boa intenção, mas pouca execução. Enfim, poderia ajudar em campanhas textuais - não têxteis, visto que nem a costura me seria uma possibilidade - em divulgações, em conversas, em um poder de persuasão e convencimento que ora me aflora. Às vezes um político. Poderia ser este meu papel no mundo? Visto que, para além de idosos e crianças, acho importante ressaltar minha compaixão, minhas sinceras condolências por cães e gatos de rua, animais selvagens, florestas e outras vegetações devastadas pelo bicho homem, moradores de rua, pessoas em geral em vulnerabilidade alimentar, órfãos, doentes terminais, pessoas que necessitam de tratamentos de urgência ou de preço não-condizente com suas realidades financeiras. É muita gente, é muita ajuda que o mundo urge, pede, grita por socorro. São os avanços na medicina e na saúde que ao mesmo tempo nos sugerem uma imagem de tão perto tão longe. O que isso quer dizer? Que muitas vezes parece possível um dado tratamento específico, especializado, mas o preço que se paga, este às vezes é alto demais. Os esforços. O deslocamento de pessoas do interior para capital. E da capital de volta para o interior. E, vejam bem, outra segunda-feira e outra vez do interior para capital. E da capital para o interior. Acompanhantes que sacrificam suas vidas por familiares ou como voluntários, como anjos, em seus entre aspas tempo livre. Pessoas que batalham severamente, turno a turno, dia a dia, no turno inverso do trabalho que as remunera. Cuidadores, tratadores, acompanhantes, dos bebês ao anciões de 90 anos.

Todos esses exemplos citados creio que enumeram possibilidades de estarmos quites com os encargos da consciência, com as metas a serem estabelecidas e cumpridas sobre a Terra, nos princípios cristãos ou seja lá quais forem os seus princípios. Há muitas formas de ajudar: mas qual é a minha? Eu que, por piedade, poderia me encontrar em qualquer um desses ramos, desses nichos, mas que, por atuação efetiva, me vejo distante do auxílio fundamental, apegado, aguerrido, dos esforços hercúleos nessa batalha constante pela sobrevivência, pela dignidade, pelo mínimo, pelo básico, ou por aquele algo a mais que pode estar em um presente de Natal, em uma campanha de Páscoa, em um aniversário especial para uma pessoa ou para uma instituição - que atenda pessoas. Doações para campanhas, doações para cumprir a meta de uma cirurgia, doações para ajudar os voluntários a combater chamas, donativos para familiares que acompanham um doente terminal em um hospital de onde não é sua cidade. Onde me encontro nisso tudo?

Será que tenho responsabilidade sobre tudo isso? Qual o meu salário? Quem me ajuda? Como me ajudo? Mesmo neurodivergente, tenho saúde o suficiente? Por ter ainda dois braços e duas pernas, estou de aparência saudável para todas as ajudas e encargos? Qual o meu papel nisso tudo? O que os donos de grandes corporações e empresas estão fazendo? Patrocínios para quem? Investimentos onde? Para onde estamos caminhando, para um mundo associativo, de combate à miséria e à fome, ou para o aumento dela, em níveis totais e talvez também percentuais. Em níveis de desigualdade, de quem tem, tem muito e quem não tem, o que faz? Como sobrevive? Como se ajuda? Como essa pessoa será ajudada? Como eu posso ajudar? O que farei, ao final deste texto? Enquanto posso me dar ao luxo de pensar, refletir, filosofar sobre, mas a pessoa em si, que necessita minha ajuda, tem pressa, tem fome, tem, talvez, escondida em algum bolso se não rasgado, a esperança. O fluído do tempo nos pressiona. A consciência permanece incauta em nosso encalço. Eu, por ora, preciso cumprir minha página diária. As últimas do esporte. Em "Piano Bar" dos Engenheiros do Hawaii, Gessinger sugeriria ainda a "hora certa, os crimes e a religião". E disso tudo que fiz, de tentar explicar, que permaneci indignado comigo mesmo, será de tudo isso que ainda o meu "nada" é uma palavra esperando tradução?

Enfim, como resumo, gostaria de me sentir mais útil em uma única função de resultados efetivos, ao invés de vagar e vagar sem sentir essa construção toda. Mas também sei, oh, sei bem, que não me sentiria bem restrito a um único ofício, enquanto minha cabeça vagueia imaginando diversas e mais diversas possibilidades. Assim tento me manter em movimento, surfando essas ondas, saboreando o vento e tentando não me desanimar por completo, entre a busca por uma 'utilidade' em um todo que ainda me soa inútil.

Lutemos - em um só parágrafo

Tenho caminhado pelas ruas e visto coisas. Tenho vergonha de carregar o isopor de meu almoço quando há pessoas procurando comida nas lixeiras. Tenho vergonha da minha proteção de protetor solar e boné quando há pessoas com mais ou com menos melanina no sol a sol no lixo a lixo. Vi uma pichação de Fora Comunistas e Fora Esquerda em frente a um bar onde só bebem idosos. Vi um descendente de japonês, achei que ele entraria na fruteira Sato, mas seguiu em frente até seu carro. Me driblou. Um rapazinho de bigode ralo e cabelos crespos em camisa verde diz que não é ladrão, já se alimentou do lixo, mas não rouba, só quer uns trocos. Algumas máscaras de proteção contra covid 19 são esquecidas pelas ruas, abandonadas sobre as calçadas. Sempre que cruzo a avenida Bento Gonçalves de madrugada enquanto passageiro de uber não sei o que vamos encontrar. De sinal aberto ou fechado. Tanto faz. É imprevisível. Algumas ruas com movimento demais. Outras vazias e olvidadas. Imóveis vazios pela alta dos preços e do aluguel. Moradores de rua improvisam colchões e escassos pertences nas fachadas de bancos. Algumas pessoas até roupa colocam em seus cachorros quando está frio mas não juntam o cocô deles. Motoristas de uber imitam taxistas com os carros encostados à espera de corridas, de passageiros que só conhecerão depois de toparem, não ao contrário. Em viagens de ônibus nunca sabemos quem sentará ao nosso lado, a não ser que o atrasado seja a gente. Nas viagens de ônibus todos compram a poltrona da janela. Às vezes compro do lado errado da melhor visão para a entrada de Porto Alegre. Às vezes o aplicativo de música acerta sem querer a que queríamos ouvir. Hora exata da encruzilhada. Achei que tinha visto um amigo no Mercado Central a beber cerveja e contar causos. Quando lhe perguntei depois se era ele, nem era, estava em Gramado. Esse mico de ter confundido eu pagaria e só por detalhe não o fui cumprimentar. Flashs de uma semana improvisando comida e vivendo sozinho. Sem saber até quando nem o que virá depois. Há uns meses, nem sabia que era possível, mas amo minha namorada fortemente enquanto aqui escrevo. Quero fazer durar todo o tempo que a nós foi reservado nessa estrada confusa da vida. Saio de nossos encontros renovado e me abate depois a desconfiança do destino, sem saber o que fazer e para onde vou. Convivo com as incertezas a cada refeição sobre a mesa. Serei acordado pela manhã por minha gata Melissa. Ela mia entre as 7 e as 9h30 da manhã. A depender da luminosidade e da fome que a atormente. Ela me atormenta assim por tabela, mas ela só sabe ser assim e é muito querida. Dentro em pouco me incomodará de novo e assim são o ciclo dos dias. Aos leitores de aqui, desejo uma sincera boa semana. Lutemos.

Pessoas

Quanto mais velhas as pessoas, mais elas se parecem por fora, mas mais distintas são por dentro, por tantas histórias e memórias diferentes que as formam.

07/12/2021

Only Lonely

Eu não sinto fome
De viver
Eu estou sozinho
Num terreno nocivo

E não há mulher
E não há homem
Que torne essa vida
Menos alone

I'm a Lonely Boy
I'm a Lonely Boy
I'm a Lonely Boy
Que se auto-destrói 

Na vida adulta
Nas rimas do Supla
Na terra do nunca
No terreno fértil
Eu me sinto sozinho
Nessa espelunca
Eu me sinto um réptil
Dentro de uma gruta

Eu não sinto fome
- De viver -
Eu estou sozinho
Num terreno nocivo

Y no hay otra vida
Ya no hay canciones
Songs that turn on the lights
Por eses rincones

I'm a Lonely Boy
I'm a Lonely Boy
I'm a Lonely Boy
Que se auto-destrói 

Nos improvisos
Nos sobreavisos
Nas placas de perigo
Nos conselhos amigos

I'm a Lonely Boy
I'm a Lonely Boy
I'm a Lonely Boy
Que se auto-destrói 

02/12/2021

Clube dos 27

Estou bem

Com a mesma idade de Kurt Cobain 

Quando partiu o tiro

Que lhe convém


Estou bem

Com a idade de Amy Wine

House

Ou outras estrelas

Da terra de Mickey Mouse


Bem

Como Jim Morrison

Sem

Absorver o som 

E os tons de tanto gim 


Estou bem

Como um Jimi Hendrix 

Sem saber

Fui lá e fiz 

Melhor do que qualquer aprendiz


Estou bem 

Como Janis Joplin 

Que morreu 

Com a idade de Kurt Cobain 

Com ou sem

coincidência 

Com ou sem

pré-destinos de nascença


Eu estou bem

E sei que ficarei

Estou bem

Isso eu sei

Estou bem

E sei que ficarei 

Isso eu sei

É sobre isso

E tá tudo bem

01/12/2021

Amar as crianças

Acredito que se na minha família houvesse criança, eu amaria mais a vida.

Devemos amar as crianças porque

A) são mais fáceis de serem amadas

B) é delas que pode sair algo que preste pro mundo, então deve valer a tentativa de amá-las

29/11/2021

Análise do Amanhã Nunca Mais (2011)

'Amanhã Nunca Mais' é um filme que me agradou muito mesmo. O desenvolvimento das situações pelas quais Walter passa são uma sucessão de constrangimentos e indelicadezas das quais não estamos livres no cotidiano, sobretudo na profissão dele, que é um médico-anestesista.

Praticamente todo o filme se desenvolve com cenas constrangedoras e Walter torna-se um personagem aprisionado pelo caos dos grandes centros. São situações específicas para o público morador das cidades grandes, mas também problemas que qualquer pessoa pode passar por. Pensei em elencar algumas dessas situações.

O constrangimento de Walter na praia, quando precisa passar protetor solar nas costas de sua sogra. Em seguida, ele também presencia sua esposa em uma foto com o pai de outra criança, quando os pequenos brincavam na areia. Essa situação já dimensiona que o casamento do anestesista não vai bem. O pai de família ainda tem interrompido o seu descanso quando precisa levar a pequena Juju até onde possa fazer cocô. Antes disso, é importante lembrar que Walter não conseguia descansar a mente direito, olhava para o topo de seu guarda-sol, mas enxergava mesmo eram as figuras de seus pacientes sendo sedados, entubados, sangrados, medicados. Por fim, recebe uma ligação de caso de urgência em seu serviço e a família precisa sair da praia mais cedo.

O filme perpassa situações cotidianas do caótico trânsito paulista. Na saída da praia, Walter e família estão na estrada tumultuada com a volta da praia, vários e vários carros cinza em lentidão. Na rodovia de sentido oposto, o trânsito fluía sem problemas, com liberdade para dirigirem. O médico fica preso entre os demais carros em grande parte do desenvolvimento da trama. Outra situação que caracteriza Walter é ser negro em um cargo de anestesista, de médico. Ele precisa seguidamente estar provando a sua competência, ao que pessoas desconhecidas estranham como um negro conseguiu chegar a tal cargo. Isto é provado nas encrencas em que ele acaba se metendo no casamento de uma conhecida, um dos momentos de coincidência exagerada do filme. Ao ficar sem gasolina para buscar o bolo do aniversário da filha, Walter acaba parando o carro em frente à casa dessa conhecida, que nutre uma paixão que estava adormecida pelo personagem principal. Ele acaba se metendo nessa enrascada, pois a mulher o convida para entrar, fugir da repentina chuva que aguça seu azar e, nessa troca de favores, Walter consegue reabastecer seu carro para retomar sua missão de entregar o bolo a tempo da festinha de Juju. Porém, a conhecida não se dá por vencida: ela se embebeda, trazendo a temática do alcoolismo à tona, o constrangimento pela atuação da moça em busca de ser correspondida pelo nosso Walter. Ela acaba armando cenas e mais cenas, sendo uma delas atender o telefone de Walter enquanto ele estava no banheiro, se trocando após ter se sujado na missão de transferir a gasolina entre os carros deles. A mulher atende Solange, a esposa de Walter e é claro que o casamento vai se arruinando mais e mais, afinal de contas, uma desconhecida atende o celular do marido enquanto ele está ausente "no banheiro se trocando", conforme as palavras da doida apaixonada pelo protagonista.

Pois bem, o foco são as pequenas situações que criam o todo, a bola de neve onde está submergido nosso querido Walter, um personagem sobretudo caracterizado por não conseguir dizer não - conforme toca a música de Seu Jorge logo na abertura da película. Todos fazem pouco caso das vontades do pobre Walter. Com a dificuldade de se impor desde casa até o trabalho e mesmo frente a desconhecidos. Para se livrar do bloco-cirúrgico, ele tem uma imensa dificuldade de convencer seu amigo médico durante a prometida "rápida saída" no período, o que, como vimos, acaba se tornando uma tremenda confusão. Walter queria apenas sair por cerca de 1h30 para buscar o bolo e entregar na festinha, cumprimentando à filha e aos convidados, mas nada acontece conforme o planejado. Dentro do hospital Walter também estava predisposto a mais constrangimentos. Esse seu amigo médico é um tremendo fanfarrão, pois é egocêntrico (crítica social aos médicos?) e fica passando cantadas e exageros em pacientes e enfermeiras. Fala de mulheres objetificando-as e constrange Walter com suas frases disparadas sem o menor pudor. Em uma das cenas logo no início, o médico esse pede para que Walter assine um abaixo-assinado requerendo melhorias para o bloco dos médicos, onde eles deixam seus pertences naqueles conhecidos armarinhos. O anestesista estranha que a lista para assinarem ainda está vazia e o médico brinca "não tem problema, eu posso assinar primeiro então", ao que Walter nota que o médico folgado assina na segunda linha, deixando o espaço principal, a cabeça da folha para o protagonista que não sabe dizer não. Constrangido, Walter assina, mesmo em dúvida se aquela apelação por melhorias poderia comprometer a situação empregatícia de ambos - principalmente dele, afinal, fora o primeiro a assinar o texto exigindo as obras.

Outros recortes são bem sutis na proposta do diretor, como uma caminhada na praia entre diferentes pés, diferentes pernas e garrafas e sobras de cascas de frutas na beira do mar, a conhecida crítica social ao bicho homem e suas sujeiras. A cena se repetiria entre o caótico trânsito da capital paulista e também por entre as pernas e macas dos corredores hospitalares. A diferenciação de ritmos, entre a caminhada tranquila com os pés na água e a pressa de Walter em contornar colegas e pacientes dentro do hospital, sempre com pressa. A pressa, o aprisionamento da rotina, os afazares, tudo corroem um Walter que perde a calma em pouquíssimos momentos, fato que faz com que alguns críticos do cinema diminuam a atuação do presente Lázaro Ramos. Pois bem, quando consegue se libertar das amarras dos hospital, não sem antes ouvir poucas e boas dos colegas de serviço, Walter se atrasa no trânsito, no enrosco das ruas e viadutos e avenidas e até na hora de simplesmente pegar o maldito bolo, prato principal do filme, sendo que este já estava inclusive pago pela esposa. Na casa onde a doceira produzia o bolo havia muitos gatos, fazendo-nos duvidar da higiene adequada do local. São filhotes salvos ou adotados, gatos adultos, bichos que não acabam mais. Com seu olhar sempre benevolento, o personagem interpretado por Lázaro Ramos também acaba servindo de alvo das velhas senhoras que o tiram para confessionário, já outras, como as senhoras no casamento onde ele acaba levando a amiga que o ajudou a abastecer a droga do carro ao faltar gasolina, situação em que algumas, ao descobrirem que estavam defronte um médico, começam a pedi-lo para examinar caroços surgidos e dissertar opiniões conceituadas.

Enfim, Walter se mete nas mais diferentes enrascadas. Antes do casamento e desse encontro casual e exagerado com a antiga vizinha, ele já havia atropelado um motoqueiro que furou sinal e - mesmo com sua pressa e não sendo dele o erro, prestou o socorro de chamar-lhe uma ambulância e embutiu uma velha vizinha fofoqueira para que cuidasse do caído enquanto o resgate não chegava para acudi-lo. Walter então dispara, volta ao trânsito caótico e doentio da maior cidade brasileira, mas se perde nos endereços e precisa pedir ajuda num posto de gasolina, onde conhece uma suposta estudante da faculdade de Comunicação, que a pagava da forma como muitas jovens precisam pagar no país: com a prostituição. Ela gosta de Walter, talvez por sabê-lo agora como um médico (sem imaginar que um anestesista?) e propõe brincadeiras que obviamente Walter custa muito para se livrar, afinal de contas, era casado e estava na missão de simplesmente levar um bolo para a festa de aniversário da filha Juju. Mas as pessoas, em seus universos egocêntricos sempre têm dificuldade para entenderem o pobre Walter, que não consegue se impor a cada encontro e a cada cena.

Mais um enfim para a coleção deste texto, mas enfim, com uma leitura nada linear e repleta de spoilers, podemos encaminhar o fim dessa análise novamente salientando que a narrativa de Walter pode ser comum a muitos paulistanos e brasileiros perdidos por esse país. O adulto classe média, o negro que precisa provar que é merecedor de estar onde está, o pai de família atrapalhado na rotina, o casamento em destroços, as pessoas que cruzam seu caminho e tentam desvirtuá-lo e tentam tirar vantagem e tentam enlouquecê-lo das mais diversas formas. Os personagens que fazem parte do cotidiano dos grandes centros, os malucos que convivemos em nossos serviços, o médico abusador, que constrange as colegas de serviço e as pacientes, o outro estressado e que trata os demais com submissão, xingando o pobre Walter por cada pequena falha, em cada pequeno atraso. A família desconfiada - talvez racista - desconfiada da capacidade de Walter conseguir cumprir com os acordos. O próprio cidadão tentando lidar com esse mar de gente, com esse caldeirão confuso de alta periculosidade. O estresse do trabalho, a correria do trânsito, o aprisionamento da rotina como gumes centrais dessa bem construída trama. Uma espécie de road movie, de aventura e trapalhadas para humores mais ou humores menos pastelões, mas com toques refinados de crítica social ao bom gosto. Uma transposição de coisas já vistas por outros países mas com uma pegada totalmente brasileira, seja pelo ambiental paulista ou pelas espécies que cruzam o caminho do aturdido anestesista.

Um grande filme, a mim avaliado como um clássico, pois a rotina das grandes cidades não dá trégua aos mais diferentes Walters, negros, brancos, jovens, velhos, motoristas, trabalhadores da área da saúde, pais de família, secretários, negociantes, comerciantes, doceiros, costureiros, officeboys. Pessoas alcoolizadas, judeus do casamento da antiga vizinha de Walter, doceiras fãs de criar gatos, universitárias que precisam se prostituir, entregadores que furam o sinal vermelho, socorristas, vizinhas fofoqueiras, idosas que precisam com quem conversar, uma salada totalmente brasileira em um filme que apresenta lá seus muito valores e precisa de seu revestido reconhecimento embora a nota nos sites especializados não assim se demonstre. Pausa para o fôlego e para a mera indignação: mas que coisa!

Walter preso no elevador na festa de casamento da amiga de sua antiga vizinha, que o convence a levá-la em nome da troca de favores (por ter abastecido o carro dele) e em prol de uma antiga paixão adormecida - ela ainda se serve de uma chantagem, pois roubou o celular de Walter, colocando-o na bolsa

Walter preso no trânsito com a estudante de Comunicação que pagava a faculdade através de serviços de prostituição - era para ser somente uma carona em outra troca de favores, pois o azarado anestesista havia recebido dela a informação sobre onde deveria dobrar


Consigo notar minha sorte dentro dos seus olhos 



E outra hora faço uma canção com esse trecho

27/11/2021

Memórias e público-alvo

Eu, escritor impaciente que quer registrar muitas - quase todas - suas memórias. Pensando o quão narcisista precisa ser para considerar todo esse bloco de anotações confusas relevante. Mas não é somente por considerar relevante. Na verdade parece longe desse ser o ponto principal. Acontece nesse processo o medo do esquecimento. Não de outros não lembrarem mas de eu próprio esquecer. Esquecer pelo que passei e o que pensava à certa altura do campeonato. Porém, se não havia o narcisismo de considerar tudo relevante, há novamente em foco a cultura do eu, por achar que é relevante se lembrar. Lembrança aqui não em seu estado abre aspas "natural" fecha aspas, mas lembrança evocada pelo registro no papel.

Enfim, fico a me questionar se os demais escritores registram suas próprias lembranças por A) considerarem relevantes às demais pessoas ou B) necessitarem de registro para combater o esquecimento. Um esquecimento que, caso não tenha ficado claro, é mais para eu mesmo lembrar do que para terceiros. Embora terceiros podem se servir dessas linhas sempre que assim quiserem, se identificarem, forem escolhidos por elas - fazendo alusão ao lema do Botafogo que escolhia os torcedores e não os torcedores o escolhiam. Talvez essas linhas tenham escolhido a ti, leitor. Não te parece? Pois bem, então não foste escolhido por elas. Talvez nem pelos textos anteriores ou pelos posteriores que eu tenha a publicar. Uma pena. Mas posso fazer nada. Talvez então eu não estivesse pensando em ti quando escrevi. Provavelmente era questão apenas de habitual registro de escrita. Exercício que pratico costumeiramente.

Ausente de me registrar desde a infância, certamente muita coisa se perdeu. Não lamento. Talvez tenham ficado em minha mente os principais pontos e a partir deles me construo. Edifico o que aqui escrevo. É interessante como somente alguma mera passagem pode arborizar um jardim inteiro. Seria uma analogia como a expansão do universo que pode se reproduzir e desdobrar-se muitas vezes o seu próprio tamanho em frações de segundos. Assim são as memórias, assim são os textos em que muitas vezes não planejo mais do que formal introdução. Por ora, finalizo essas transgressões e prometo voltar numa próxima para mais pontualidades. Podendo acertá-lo como uma flecha ou passarem distante do alvo leitor. Assim são muitos textos.

26/11/2021

Alegria no esporte

Hoje recebi no aplicativo mais famoso de conversas um áudio da menina Dóris de Andrade. Ela é uma corredora, paratleta pela sua deficiência visual. Dóris já nasceu com essa limitação de visão, mas isso não a impediu de ser uma excelente atleta. Nesta semana, do final de novembro de 2021, Dóris foi a São Paulo representar o Rio Grande do Sul e, especificamente, a cidade de Pelotas, onde ela representa a Escola Louis Braille e o Colégio Municipal Pelotense.

Aos 14 anos, Dóris somou mais uma medalha de ouro a nível nacional, nas Paralimpíadas Escolares Brasileiras. Ela tinha conseguido o feito em 2019. Voltou ao pódio com o terceiro lugar em uma prova curta, de apenas 75 metros. Mas, na sua especialidade, nos 1.000 metros, ninguém segurou a menina pelotense. Ela que conduziu o guia e não o contrário. O mais tocante é a alegria com que a equipe se trata. Pensamos sempre em esporte de alto rendimento com semblantes fechados, carregados, testas franzidas, esforço sobrenatural. Mas por que não aliar a alegria a tudo isso? Dóris consegue.

Ela e o instrutor Huibner se tratam com muito carinho, com respeito, mas, sobretudo, me chamou a atenção o aspecto da alegria. Comemoram juntos, sorriem juntos, aproveitam o esforço, o suor, a cada passo rumo a mais uma conquista. Talvez às vezes a vitória não venha, mas é necessário entender isso como parte do esporte. E assim, mesmo entre os melhores, as melhores competidoras do Brasil, não perder de foco o lado lúdico do esporte. Hoje, sobretudo no futebol, o dinheiro toma o protagonismo. Não deveria ser assim. E por que será que tratamos tão mal, no futebol, quando se fala em amadorismo? Em tempos remotos dos amadores? Em falta de profissionalização - sempre - com teor negativo? Não serão mais comuns os exemplos de alegria estampada no rosto entre os que praticam o esporte pelo esporte? Provável.

Entre quem se dispõe a esse profissionalismo das cifras e das máquinas, ok, que se busque esse caminho. Mas não deveríamos direcionar um olhar tão reprovador para o que é amador. O amador que é a origem de tudo, antes da profissionalização. Dos tempos mais antigos, dos tempos mais românticos e, onde aqui e ali, em um lado ou outro, muitos tentam manter acesa essa chama. Aquilo mais regado a companheirismo, amizade, confraternização ao final das jornadas, das semanas. Diferente de outros ambientes de competição mais perversa, de tentativas de golpe, de escaladas para chegar ao topo mas por sobre quantos?

Enfim, a história de Dóris me despertou um sentimento muito positivo. Espero que ela alcance seus objetivos. Seja competitiva entre as melhores, mas sem perder de vista as origens, o sorriso no rosto, a alegria infantil de seus avanços a cada passo. Lembrar quem esteve junto consigo, lembrar que fez a alegria de muitos funcionários que a acompanharam. Lembrar que fez, inclusive, a minha alegria, eu que ainda não a conheço. Obrigado por me devolver cédulas de esperança - que valem mais do que dinheiro - nesta sexta-feira.

16/11/2021

Esgotos de Varsóvia

Esgotos poloneses

Por onde ocorre a Segunda Guerra

Por entre as fezes

Por muitos meses


Esgotos de Varsóvia

Dias e noites soterrados

Não sei se faz sol

Ou talvez chova

Preso nos esgotos

De Varsóvia


Esgotos e todo lodo

E tão logo nada se resolve

Falta oxigênio

No meio dos túneis

E ninguém foge

Nem fica imune


Alemães na caça

De tudo que é diferente

De sua 'raça'

Essa desgraça

Nos túneis de Varsóvia

E tudo se desova

No esgoto

Um a um

Outro a outro


Perigo nos túneis da Polônia

Sem ajuda e com a fome

Tombam homens

No reduto dos ratos

Lado a lado

Acossados


A guerra se estende para o leste

Como a peste

Como a fome

A Polônia ocupada

Em sobreviver

Contra as granadas

Os céus e os esgotos

Contra o todo

De uma guerra





09/11/2021

Antes de mais nada

Antes de mais nada

Avisa que é ela

Antes de mais nada

Subo quatro lances de escada

Vou até tua janela

Olho o céu que tu me pedes

Com o olhar que é infinito 

Mas tão logo reflito 

Sei que há nada mais bonito 

Os 160 e poucos que tu medes

Há lares

Você faz com que minha vida às vezes caiba num sofá

Você me deixa com uma do Bidê ou Balde na cabeça

Você me faz perder um filme que realmente não quero ver

Você me faz iniciar versos com você 


Você também leu e não sabia de quem eu falava

Falava de ninguém, agora falo de você

Você me fez sentir o que já não me importava

Bastava nesse tempo todo era te ver


Acho que muito imaginava e dali escrevia

Agora que é de verdade, quem diria?

Já não tenho tanto o que escrever

Sobravam fantasias e hoje é sobre você


Você não erra uma na cozinha

Você às vezes ansiosa

Às vezes assombrosa em bruxaria

Mais me admiro que me assusta

Você antes fosse mesmo bruxa 

A caixa dos gatos eu limparia


Eu que te faço dormir mais tarde

Causa em mim na terça alarmes

E no sábado poesia

Mais belo parte assim um dia

Eu perto de ti, enfim, há lares

Querendo

Passei tanto tempo vivendo querendo morrer que não duvido que eu morra logo agora querendo viver. A vida é também a morte.

27/10/2021

Kafka e Kieslowski

O tcheco Franz Kafka teria muito a debater de forma interessada com o diretor polonês Krzysztof Kieslowski.

A Polônia do Século XX era o pesadelo descrito por Franz Kafka desde outrora.

A Polônia nos filmes de Kieslowski é burocrática, cinza, crua, aprisionante, dura, silenciosa, mas por vezes rompida por alguma sinfonia esquecida nos dias de hoje. Ou por alguma cor que nos encha os olhos de vida em um mundo tão automático e fechado. A Polônia de Kieslowski. 🇵🇱🇵🇱🇵🇱

25/10/2021

Sonhos

Às vezes quero ser como todo mundo, às vezes quero ser diferente de todos. A segunda opção sempre é mais fácil, porque de fato sou. No íntimo, no âmago. Me desperta interesse ir descobrindo pontos em comum com as pessoas. Não ser totalmente distinto, embora seja. Enquanto escrevo, penso na máquina de escrever em que não poderia retroceder ao que confesso, nem escapar dos erros ortográficos. Vou adiante.

Penso que meus sonhos sempre são mais belos do que a realidade. Dificilmente a vida os supera, embora já tenha feito. Talvez eu esteja no mundo para sonhar, para a partir dos sonhos criar, não necessariamente para realizá-los. Talvez a realização ofusque parte dos sonhos.

É que depende o sonho. Uma realização por terceiros talvez seja sim a coisa mais bela. Um lar para crianças. Para animais de estimação. Idosos bem alimentados e com os medicamentos que precisem. Vaquinhas virtuais para a realização de cirurgias, transporte de qualidade para quem quer e para quem precisa ir. Isto tudo me parece absoluta e incontestavelmente bonito.

Mas alguns sonhos mais individuais, mais subjetivos podem se perder por esses campos imaginativos. Aí que talvez eu os crie e não os realize. Se existem na minha imaginação existem. Mas serão possíveis? Serão realizáveis? Serão um dia palpáveis? E valem a pena ser ou ficarão suspensos para sempre no incrível e indescritível varal de minha imaginação?

Há sonhos que não serão concretizados. Para além das mortes naturais, do fechamento dos ataúdes, todos os dias, todas as horas sonhos estão sendo ceifados. Caem dos pregadores dos varais dos sonhos. Descem ao chão, sujam-se com o solo das verdades, onde pisamos e onde, sobretudo, a vida nos pisa. Não os realizaremos, embora ainda me seja, por ora, possível lembrá-los, com os filtros amarelados do tempo, com os photoshops que a mente nos fornece, mais belos do que me seria possível.

Novamente termino pensando o quanto sou semelhante aos demais, agora indagado por tudo isso que confesso e escrevo. E também me pergunto onde me distinguo, onde isso tem uma relevância ainda não vista, por minhas ondas, nuances e linhas criativas. Vivemos por esse equilíbrio de associações e distanciamento, concordâncias e discordâncias, procurando nosso melhor lugar ao mundo possível. Onde conseguiremos fechar algumas contas, alargar um pouco a sombra do descanso na aba da sobrevivência e tentando por entre esses estreitos amar. O amor que inaugure e sustente na seiva os jardins. O amor que interrompa o calor sol do meio-dia mas que traga alguma luz nas trevas da meia-noite. O amor que como uma baldada lave as manchas da calçada ou como um rio desinfecciona uma ferida ou arranque histórias de uma roupa.

Onde me aproximo e onde me distancio? Onde me é possível realizar e onde estou restrito ao campo dos sonhos? Arrisco de algumas formas como se escolhesse a próxima pedra onde pôr a mão ou o pé em uma escalada vertical. Experimento e tento entender que errar o movimento não é necessariamente definitivo. Todos vamos, um dia, novamente, recomeçar. Dentro dessa vida há provas de ocorrer isso toda hora. Assim como sonhos são ceifados, outros estão sendo todas as horas abertos. Alguns realizáveis, outros não. Alguns concretizados, outros não. Vivo enquanto crio. Sonhos que não necessariamente realizarei, mas muitas vezes os observo faceiro, como a fotografias em um estúdio de revelação.

Alguns sonhos eu revelo a vocês, outros não. E enquanto conto e não conto, vivo. Marginalizado à vida alheia, central aos temas que, na verdade, só nós sabemos quais são, quanto eles pesam e como os carregamos. Desejo do fundo do coração que saibas lidar com os seus caso tenha chegado até aqui. A caminhada é árida e a água escassa, no solo rachado, abaixo de onde os sonhos ainda se dependuram acima de nossas cabeças, às vezes alcançáveis, às vezes inalcançáveis, mas sempre visíveis. Que assim seja.

13/10/2021

Notas redigidas em regime/noite de urgência

Passado o feriado de 12 de outubro, o qual descobri que os demais países latino-americanos dedicam a uma data de homenagens e reflexões sobre a pluralidade cultural do continente, em especial aos povos originários desta terra - os indígenas. Enfim, passado o dia 12 do 10, me encontro encaminhado à reta final dessa cilada chamada fim da Rua Quinze de Novembro. Neste prédio onde fisgados fomos por um aluguel mais barato mas que muito nos sai caro conviver com barulhentos e notívagos usuários de drogas. Riem, batem portas, derrubam objetos, conversam alto - quando não gritam de forma aterrorizante por cerca deste horário que vos escrevo, pelas 3 horas da madrugada. Assim convivemos dia após dia deste longo e fatídico ano que já vitimou meu avô, então membro mais antigo de nossa família, e que, por vezes, devido à gama de acontecimentos negativos, quase me vitima por suicídio. Mas aqui sigo com uma nova orientação em riste, buscando gerir meu barco a melhores rumos. Se não permanecer na mesma antiquada e deficitária Pelotas, com seus mesmos problemas e pessoas-problema, traço em direção a novas oportunidades e viradas de página em Santa Catarina. Mas, graças a ela, agora tenho bem pensado, talvez graças a ela me encaminho a uma turbulenta permanência, até que nos acomodemos no pequeno furacão de nossas vidas. Tomara consigamos e nos acertemos, mas, sabem como é, nunca nos há terminante garantia.
Entretanto, novamente é importante salientar que os pirraças seguem a chacoalhar a tranquilidade da madrugada com suas peripécias e má educação, elementos que transbordam. Pela primeira vez, de tantos e acumulados problemas com outras vizinhanças, temos a problemática homossexual em pauta. Mas afirmo e reafirmo apenas como curiosidade, porque já tivemos problema em bairro com bares sem alvará de funcionamento e música noturna, vizinhos pobres entre brancos e negros, vizinhos de classe social-econômica mais abastada, família encrenqueira de ex-policial civil corrupto, que nos perturbaram também com drogas e barulho noturno, com conversas durante a semana e festas regadas aos fins, sem horário para encerramento. Já tivemos esses problemas, de modo que a homossexualidade apresentada por este último grupo serve apenas como pequena vírgula, complemento ao perfil, apenas como forma descritiva dos sujeitos. Eles falam alto e gritam pela madrugada, batem portas, riem ou brigam, derrubam objetos de forma barulhenta no chão composto de parquês. Nisso tudo tento me imaginar em outras convivências, tomara mais calmas, seja na companhia dela ainda na cidade ou com minha família em um lugar mais propício e sossegado. Quero muito ajudá-la, mas quero muito me ajudar. Creio que ela consegue-me este referido préstimo e creio que eu consigo também auxiliá-la e isto tudo é de imenso significado, ainda mais quando relato a urgência de nos livrarmos das pestes que ora tumultuam novamente nosso apartamento. Reitero que este é o pior perfil entre qualquer moradia que já ocupei. O problema das noites só não se apresenta de maneira mais drástica porque temos em perspectiva o horizonte que se expande em Santa Catarina. Com urgência, na alvorada da papelada necessária, aguardada pela verificação em cartório catarinense, nós devemos sair daqui o quanto antes. Com urgência redijo essas linhas, ainda sombrias e misteriosas para quem na íntegra não me acompanha. Mas espero sanar dúvidas adiante. E espero no grosso modo de minha memória, não esquecer a importância e a decisiva tomada deste período em minha vida.
Convivo por ora entre meus supremos piores tempos e a dúvida do que virá logo adiante a eles. Mas se desenha um movimento que culmina como uma luz de fim de túnel. Alguma esperança está havendo, ela esperança que algumas pessoas tanto rezaram que me aparecesse. Por enquanto são trevas, adiante a promessa, ao menos, por descuido de tão pesadas nuvens, de obter raios de sol. Eles são importantes para ti, para teu humor e para mim também. Assim como és também para mim, grata surpresa iluminadora de meu 2021 amargo e melancólico. Independente do que seremos, te agradeço desde já.

05/10/2021

percepções

se quiserem posso ser pioneiro de diversas causas. pensamentos inéditos me acompanham, puxam cadeira, bebem café. mas se quiserem posso ser o mais antiquado romântico. nunca me deu trabalho. sempre me deu prazer.

percebi há alguns anos que jamais uma noite seria igual à outra. tentei imitá-las e nunca consegui. sempre porque dependia de outros atores, fosse isso na tentativa de um deja vu em estádio, festa, enfim, qualquer evento.

jamais uma noite é igual à outra. ao menos essas especiais, porque nossas percepções, tendo já vivenciado anteriormente, são alteradas. muito embora o simples (ou complexo) desencadear dos fatos também não se repita. não há como reproduzi-los (os fatos) na íntegra. é necessário aceitar.

se uma noite não se repete em relação à outra, o que dirá de uma vida. agora percebo que minha vida é minha vida. com sua completude através de meus acertos e meus erros, de minhas escolhas, de minhas virtudes e meus defeitos. preciso muitas vezes aceitá-la. aceitar que é melhor assim por mais que doa. minha vida não é nem será igual ao passo a passo, ao ritmo de meus ídolos. situações diferentes, encontros distintos, reflexões diferentes. tudo se alterna nessa dança que foge aos contornos desenhados em algum mapa.

minha vida é minha vida, para melhor ou para pior.

agora, especificamente agridoce com os acontecimentos da vida. mas foi um ano em que convivi semanalmente com a amargura, então por que não experimentar um outro sabor?

02/10/2021

sobre minha irmã

percebi que gostava de viver com minha irmã. nem que fosse para dividir com ela, ou ter uma segunda opinião sobre, as burradas que eu inevitavelmente faço.

30/09/2021

a força da narrativa e das palavras

Muitas vezes precisamos ter cuidado com aquilo que contamos ao vento, porque as pessoas vão imaginar nossa história a partir do que foi dito. Na boa intenção delas, elas servirão-se a partir do que foi dito, no seu testemunho, da sua versão. Mas também, na má intenção, a partir do que elas inventam podem sair as coisas mais escabrosas e dantescas. Quanta fofoca cabeluda não foi implantada muito antes dos modernos implantes e técnicas de crescimento capilar?

Quantas versões de histórias minhas que eu considerava seguro compartilhar tomaram rumos diferentes, distintos do que eu imaginava? A imaginação e a maldade humanas são perigosas, como bem sei e bem posso imaginar alguns dos caminhos que, paranoicamente, alguns de meus relatos tomariam nas bocas alheias. Como um chiclete que vai de boca em boca, mas ao invés de perder o gosto, as pessoas adicionam temperos e sabores para a narrativa, fazendo com que o narrador original de seus feitos perca-se em um mar de deslavadas mentiras, ou mesmo ganhe-se, porque seus feitos também podem ser ampliados. Quem nunca contou uma pequena anedota ou história particular dos tempos idos de escola e essa tomou proporções anteriormente inimagináveis? 

Isto é absolutamente perigoso quando perdem-se as rédeas em campos de atuação como a área dos ciúmes, dos sentimentos ligados ao coração, do passado que cônjuge não imagina ou não quer imaginar. Isto é absolutamente perigoso quando se trata de implicar terceiros, de prejudicar outras pessoas que inicialmente nada teriam a ver. Querem inventar, já acho ruim inventarem de mim, mas que inventem de mim e não sobre outros desprotegidos desconhecedores de sua cabulosa narrativa. Não mexam comigo, mas antes mexam comigo do que com meus amigos. Como soam generosas e altivas essas citações, não é mesmo? Enfim, era um breve relato reflexivo sobre o poder das palavras, que colocam as pessoas em saias justas demasiadamente grotescas, em apertos, em situações de contra-parede.

E ainda há quem diga erroneamente que elas, as palavras, causadoras de guerra, de cabeças cortadas rolantes, de fuzilamentos, de papéis rasgados, trancafiados, escondidos, engolidos a seco, que as palavras conciliadoras em reuniões entre os mais poderosos do mundo, palavras-ordem de lançamentos de mísseis, palavras que servem para compras simples como um salgado em padaria ou para compras bilionárias em produtos high tech estrangeiros, palavras que mandam cavar em busca de petróleo, palavras que mandam soldados atirarem, palavras que jogam pessoas contra governos, palavras de governos que jogam pessoas para dentro da cadeia, palavras formuladoras de matrimônios e divórcios, de receios, de anseios, de medos, de expectativa, palavras que amaldiçoam, palavras que passam ordens e estratégias, palavras ensinadas nas mais diversas traduções e idiomas, palavras que ocupam semestres e histórias, conteúdos descartados, reaproveitados, engavetados ou até - mesmo que raramente - diariamente usadas, alguns erroneamente se referem que as palavras não possuem poder!

seria dizer que as palavras não possuem poder um dos piores usos possíveis para as palavras?

25/09/2021

Valdir e as folhas

Para preparar aquele prato consistente de algumas folhas era necessário cozinhá-las por sete dias. Nem a mais nem a menos, diziam os descobridores do norte do país. O demorado procedimento era preciso para eliminar totalmente o veneno, as toxinas da saborosa e nutritiva iguaria. Mas como descobriram isso?

- Pessoal, cozinhamos durante sete horas, mas o Valdir provou e caiu durinho. Precisamos ampliar o tempo de cozimento para três dias. Três dias, ouviram?!

Dizia o cozinheiro organizador daquilo tudo, enquanto o corpo de Valdir ainda se estendia deitado ao lado da confusão dos que jogavam o conteúdo das panelas fora. Mais um desperdício na colheita das folhas.

- Precisaremos revezar os responsáveis pelo cozimento. Você aí, ajude a cobrir o Valdir. Pobre Valdir, provou logo a três colheradas. Eu bem que avisava dos riscos. Como resistiria o coitado? Como havia de saber? Quem se propõe a buscar mais folhas? Certo. Você aí! É, você. Você também. Vocês poderão ir. E para cuidar o fogo? A primeira noite pode ser comigo mesmo, estou bem desperto.

Os funcionários desse chefia mandão cobriam Valdir com outras folhas, essas inofensivas para o corpo inerte do Valdir. Se bem que agora tanto faria de diferença para ele, apenas interferiria nas mãos dos zelosos, que precisariam lavá-las muito bem no rio antes de levá-las ao rosto, etc.

Antes de ser levado a cabo para sete palmos abaixo da terra, Valdir ainda escutaria como testemunha a preparação das próximas vítimas do obstinado plano de aproveitar aquelas plantas. Ele logo teria companhia em sua ala improvisada no cemitério dos mortos da aparentemente inofensiva planta. A fome era a guerreira maior e eles serviriam de mártir para descobrir em quanto tempo o cozimento era necessário.

- Vão lá buscar, vão lá buscar antes do anoitecer. Andem, não percam tempo. E levem essas flechas que não sabemos quantos mais de outras tribos estarão à procura de nossas ervas. Pobre Valdir. Quem lhe viu, quem lhe vê, antes homem tão forte, cheio de vida que era. Que descanse em paz. Vocês ainda não foram, seus inúteis? Querem que percamos mais uma noite? E vocês, por que não levam logo o Valdir ao inevitável destino? Logo começará a feder por aqui e, não fosse nossa tamanha fome, fecharia nossos apetites. Ó, Valdir, que nossos deuses o tenham. Que nossa preciosa e também travessa e cabreira terra o receba respeitavelmente!

Desde então o espírito vingativo de Valdir une-se ao veneno para assombrar àqueles desavisados que também desconhecem o tempo necessário do cozimento. Dizem os sabidos que às vezes nem esperando os sete dias se está livre das toxinas. O Valdir, guardião fervoroso de segredos fatais, sempre está à espreita.

Sobre as críticas

Quando e se me perguntarem sobre o que gosto nas obras do cinema, responderei que precisam me vender sua ideia. Preciso ser comprado, fisgado ou alguma palavra mais dócil. Atraído, é possível. Preciso identificar que a história poderia ser verídica. Não na exigência de um realismo, mas na possibilidade de acreditar no que estão me mostrando. Seja numa realidade paralela, preciso identificar que aquilo é possível.

Para isso, personagens muito preto no branco, como dizem, geralmente não me servem. Preciso de conflito, preciso acreditar que eles existam. De alguma maneira precisam ser possíveis. A gama de variáveis é enorme: pessoas consideradas ruins tentando praticar o bem. Pessoas consideradas boas inclinadas a atitudes desprezíveis, talvez com seus motivos próprios. Mundos paralelos me apresentando novas formas de pensar. Novas realidades através de civilizações diferentes, organizações e sistemas parecidos ou distintos. Aproximações e distanciamentos do que estamos saturados de viver no dia a dia. A busca pela identificação nas atitudes das personagens. A busca por apontar que aquele personagem pode ser visto no cotidiano da sua cidade ou resgatado das memórias escolares mais soterradas em nossos baús.

Enfim, precisam me convencer. E apesar de chegar aqui chutando a porta, listando algumas exigências, passo longe de ser exigente. Costumo concordar com os autores e procurar entendê-los. Seja nos livros, seja nas criações cinematográficas. Até mesmo nos esforços da produção das pinturas. Procuro contextualizar e entender onde querem chegar. Acho louváveis as produções. Muita gente critica com o prazer da depreciação alheia, seres incapazes de construírem suas próprias histórias, de apontar caminhos em suas narrativas. Preferem depreciar o trabalho alheio e destruir quem equilibrou os blocos.

Os autores precisam, sim, se esforçarem muito para me desagradarem. Mas faço várias ressalvas. Percebo na pressa com que escrevo e não gostaria de apagar. Nada de subtrair trechos agora. Me dou conta de que escolho minuciosamente. E, vejam bem, isso não restrito às obras com as quais me deparo. Faço uma separação na prévia de assistir. Leio sinopses, procuro alguns resultados, levo em consideração indicações de quem realmente me conheça. E sabe? Geralmente acertam. São bons em dizerem que tal livro ou tal filme possa ser do meu bom gosto, de minha boa causa. Agradeço a cada uma dessas indicações que me formata e constitui no que me torno. Realmente grato.

Através desse parágrafo anterior fomento o ponto de vista de que, sim, infelizmente muitas obras me deprimem. Me deprimem no sentido de nada me acrescentarem, e aí me trazerem a sensação da verdadeira perda de tempo. E costumo fazer várias concessões. Se consigo aproveitar alguns pontos da totalidade de um filme ou livro, focarei no positivo. Juro. Boas cenas ou citações podem salvar uma obra. Ao menos para minha cabeça e minha crítica que aqui teço. Então, a decepção quando não consigo extrair algo de livros e filmes é muito grande. Dou-lhes todas as oportunidades de me agradarem. Alguma passagem, uma mera lauda, um dependurado de frases, um poema, uma cena marcante, uma boa ambientação, um bom roteiro mal trabalhado, um ator ou uma atriz que tenha se preparado bem para a função ou, melhor ainda, incorporado seu papel com maestria. Tudo isso pode ser salvo, excluindo uma análise mais crítica ao todo. Procuro subir as notas levando em consideração o que me agradou, o que me atraiu.

Portanto, algo na obra que alguém levou tempo e esforço para desenvolver me comprou, ou me fisgou, ou, realmente a palavra que me pareceu mais propícia a esse desabafo textual: me atraiu. Vou relevar outros pontos de meu desagrado e guardá-los. Ou melhor liberá-los para que encontrem aconchego em outras pessoas destinadas como público-alvo. E, olhem que curiosa a expressão de público-alvo. Posso ser público-alvo das tosqueiras maiores envolvendo zumbis até as filosofias mais densas a que o homem equilibrou-se na corda bamba contra a morte para desafiá-la. E está tudo bem. Afinal de contas, não estamos tão longe dos zumbis quanto imaginamos. E isso que muitas vezes me fascina neles.

É isto aí. Bom desenvolvimento a todos. Não digo que procurem me agradar porque eu mesmo posso me direcionar rumo ao proveito e ao gozo. E, no final, das contas, prefiro escrever sobre o que eu gosto e me atrai do que os pontos negativos que identifico nas obras. Mas os diabos que não me testem. Neoliberalismos e meritocracias não passarão impunes pelos meus olhos. E é por isso que os evito, caso não tenha ficado claro. Além do mais, o mundo 'real' já está repleto de coisas ruins para falarmos. Não gostaria de ater meu tempo à negatividade das obras a que me submeto.

Bom desenvolvimento a todos. Silêncio à reflexão ou aplausos? Estamos abertos a várias ofertas.

novo aluno

O novo aluno chega na classe. Apresentação igual nos filmes aqueles que vocês assistem. Ele está diante da nova sala. Todos aguardam saber quem é o desconhecido, a declarar-se em pronunciamento.

- Olá. Eu vim de outra cidade. Já pensei em me matar várias vezes. Então gostaria que fossem minimamente gentis.

Houve silêncio na classe. A própria professora não sabia como prosseguir. Mas ela prosseguiu. Ele também se encaminhou para seu lugar. Você pode imaginar cochichos, mas ninguém falava. Só que até o final do dia alguns esqueceram o que ele disse. E até o final da semana muitos outros esqueceram. E até o final do ano quase todo mundo esqueceu. Mas sempre fica a esperança que alguém se lembre até o fim dos tempos.

Seu Manuel

Seu Manuel me chamava de Guilherme. Depois talvez olhasse no fundo dos meus fundos olhos e descobrisse a verdade. Ou menos, menos. Eu o dizia que era Henrique.

Seu Manuel era o porteiro da escola. Mal era possível que fosse de verdade. Velhinho desde mais novo, barba que fundia-se ao cabelo. Mais grisalho do que negro. Óculos que ajeitavam-se bem à sua face. Ficava escorado contra a parede com a roupa repetitiva. Um moletom cinza com detalhes grenás. Transmitia um aspecto confortável como roupas de algodão.

Seu Manuel parecia vir direto de alguma regravação da novela Carrossel, destinada a acostumar as crianças aos ritmos da pré ou já iniciada escola. Parecia um personagem, um porteiro de qualquer portão da Terra ou do céu, de tão caricato.

Transmitia a nós algo de bom velhinho, de avô que a maioria não tivemos. E aí morava parte do conforto de seu aspecto.

Parecia com algum projeto de papai noel ainda pouco barrigudo e/ou não totalmente grisalho. Ou parecia um revolucionário russo. Mas nós infantis não conhecíamos o poder dos sovietes. Imaginação minha.

- Sr. Levy Ivanovich, o Sr. não pode ser porteiro da escola com este nome. Será acusado de comunismo, de ser subversivo aos jovens!

- Pois então que me chamem de Manuel.

Ghost World (Mundo Cão)

Não quero que um dia digam que eu era bom demais para esse mundo.
Por mais que o mundo seja ruim, eu também sou. Somos, no máximo, incompatíveis.

22/09/2021

O sétimo dia

A velha estava morta - disso, pelo apalpar do pulso, não se havia dúvida. Mas o que fazer agora? Aquela palestrante, aquela discursadora enérgica havia se resignado, estava morta. O corpo jazia caído. Não haveria como esconder, ela teria sido vista pela vizinhança àquela hora do dia. Precisavam de um álibi, uma causa mortis.

A discussão havia sido tremenda. Foi acalorando, foi acelerando as partículas todas até o choque final. Havia marcas das mãos deles contra o corpo da velha? Àquela altura já havia, sim. Contato físico. Constatariam alguma briga de mãos contra essa senhora de idade avançada? Ou achariam somente o que houve, o cérebro dando tilt, o acidente vascular?

Ele olhava para sua mãe. Estava atônito, petrificado, obviamente. Ele que tanto evitou discussões não conseguiu conter o bate-boca acalentado entre as duas senhoras, a mãe dele evidentemente mais jovem que a recém-falecida. A verdade, eles sabiam, é que haviam matado a senhora. Vítima da briga, da sucessão de argumentos, da falta de bom senso de ambas as partes. A senhorinha não resistiu, estava morta.

Dias após estavam os dois novamente, mãe e filho, na entrada da penitenciária. Nunca haviam estado em uma, cada cena era inédita àquela família de classe média. Observavam os detalhes nas paredes, não conseguiam desver o armamento pesado com que lidavam os carcereiros. Os equipamentos de segurança, os coletes, os rituais. Os telefones tocando. O secretário apenas aparentemente tranquilo, com o sangue a gelar por dentro. Chegaram ambos em procissão para a cabine da inspeção se poderiam adentrar aos presídio. Os oficiais pediram para esvaziar os bolsos. Mesmo telefones celulares não seriam permitidos, houve a retirada das baterias e foram postos em saquinhos plásticos. Não sabia o porquê, mas ele tinha pilhas também nos bolsos. Os oficiais não pareciam dar muita bola, pareciam confiar naquele jovem, filho do que levou a culpa, do pai infrator. Terminou de se apalpar e descobriu sua carteira fina, que servia apenas para o mínimo de documentos de identificação e alguma nota que houvesse sacado em banco. O carcereiro disse novamente para que não se preocupasse. Lacrou o saco plástico e o juntou a outros em uma gaveta. A mãe havia completado semelhante processo, ela que, pela idade idosa também estava recém aprendendo os trâmites da tecnologia através de telefone celular novo. Se separaram dona e aparelho e eles puderam adentrar à prisão das grades de ferro.

Olhavam para o corredor úmido de celas pela esquerda e pela direita. As paredes enganavam serem amareladas, mas o mofo e o gotejar das infiltrações escurecia o ambiente cada vez mais trevoso. Mãe e filho sabiam que adentravam um território hostil e considerado inimigo. Como dito, tudo era novidade. Era dia de visita, os prisioneiros, inspecionados, estavam "livres" pelos pátios. As famílias compareciam. Ele estranhou ver bandeiras e mais camisas do clube azul e amarelo da cidade. Imaginava uma legião muito maior do clube rival, por números absolutos que se observavam na sociedade, mas também pelo que imaginava no interior de uma prisão. Parecia mesmo um dia de jogo, uma torcida organizada com todos os seus apetrechos. Parecia um churrasco dominical, como costumavam organizar nos arredores do estádio, na praça central da avenida mais famosa da cidade.

Contornaram aquele grupo e observaram algumas rodinhas de conversa pelos corredores que levavam ao pátio, à luz do sol. Famílias conversavam, foram eles próprios se familiarizando àquelas cenas antes tão temerosas, tão incertas, tão restritas ao campo do imaginativo deles. No pátio, perceberam que haveria apresentação. Show de talentos, algo musical, alguma banda. Algo haveria. Se formava, de cadeira em cadeira, iam se organizando, uma verdadeira plateia. Enquanto nenhum número era apresentado, as pessoas naturalmente conversavam. Ele percebia como a mãe estava para desabar em prantos. Os olhos cada vez mais nublados, mais úmidos de sua ascendente prestavam essa informação indubitável. Ele apoiou a palma de suas mãos sobre os ombros da cansada mãe, pessoa que certamente não dormia em paz nas últimas noites - e talvez não mais alcançasse tamanho benefício para sua saúde, a boa noite de sono.

Tentava com as mãos sobre os ombros transferir algum gesto de sustentação, alguma energia para sua cansada matriarca. Sentaram-se em cadeiras de madeira no canto daquele pátio de paredes altas e gramado ao solo. Tudo ainda em tons amarelados, porém com menos mofo pela luz do sol que se fazia presente. Apesar disso, o acinzentar de suas mentes era inevitável. Tudo parecia mais nublado, era o filtro permanente sobre suas vistas. Esperavam por algo. Foram conversar entre eles mesmos, enquanto nenhuma alma lhes interrompia o diálogo, ninguém os oferecia suporte, aqueles desconhecidos do sistema prisional, os recém-chegados, os debutantes.

- Ele assumir a culpa mostrou que te ama mesmo. - Ela permaneceu calada. - Acho que foi melhor assim. - Apertou mais as mãos sobre os ombros da mãe.

Ele sabia que o casamento não vinha bem. Eles poderiam ter se divorciado. Seu par poderia estar distante, de volta para o estado de onde veio. Qual não foi a surpresa quando voltou para casa naquele dia? o corpo da velha estendido sobre o chão gelado da cozinha. A velha unindo-se ao plano como um gelo só. A mãe já sabendo das consequências que enfrentariam. Ele largando as compras no chão, com muito menos cuidado do que qualquer outra vez, mas sem também arrefecer e atirá-las para danificar ovos ou tomates, ou quaisquer embalagem que poderia amassar. Ele que foi até a pia da cozinha, lavou as mãos, depositou o detergente, enxaguou, secou na toalhinha pendurada na maçaneta da porta. Ele que mal perguntou quem, como e por quê e decretou ao final da breve conversa: - Eu assumo.

E assumiu. E foi julgado tendo assumido. E agora mãe e filho estavam armando planos, pensando advogados, o da família não bastaria, buscando soluções para tirá-lo daquele cárcere maldito. Daquela culpa que não lhe pertencia. Esperavam achá-lo ali pelos corredores, em qualquer uma daquelas celas, uns poucos permanecendo ali sentados sobre os colchões duros das camas, mirando imagens de mulheres seminuas ou tentando sintonizar algo nos precários e antigos aparelhos de televisão de tubo. Aqueles que não deveriam ter mais família ou membros familiares ou amigos próximos que se importassem, diferentemente dos organizados da torcida, dos envoltos, reunidos do pátio. O seu tinha família. Eles haviam combinado aquele primeiro dia de visita por ele. Alguns dias haviam se passado. Como ele estaria? Já era magro, já estava também envelhecido. Ele tomava remédios para controlar algumas taxas preocupantes. Estaria os tomando? Todas essas perguntas só poderiam ser respondidas com a sua presença, com a sua careca de formato capilar que sobrava inconfundível, teriam o reconhecido desde seu tamanho, desde sua silhueta, desde sua cabeça há metros e metros, centena deles de distância. Mas ele não estava lá. Onde será que estava? Por que havia sumido? Por que não os havia encontrado. Teve vontade de circular o mesmo caminho até a base dos carcereiros que lhes permitiram entrada, perguntar por ele, fazer ecoar sua voz por aquelas celas, mas seria um escândalo desnecessário e até inútil. Mas onde ele estaria?

A pergunta não queria calar em sua mente. A mãe permanecia olhando para o vazio, para o infinito. Para as lembranças. Para um casamento de três décadas - quase a quarta. A quarta por vir, mas seria na cadeia. Seria num desses domingos de reencontro. De dissolução novamente ao fim do expediente. De angústia insuperável. A separação entre aqueles que não descobriam que se amavam, que deixaram passar os anos sem se dar por conta disso. Ela permanecia em silêncio. Se uma banda, pela melhor que fosse, pela canção mais conhecida, pela mais insuportável ou mais extraordinária que fosse, subisse no improvisado palquinho de madeira, melhoraria ou pioraria a situação embalando um som de fundo para aqueles retumbantes pensamentos?

Ele nunca havia visto a mãe desabar daquela maneira. Se ao menos ela tivesse cedido antes da discussão derradeira que culminou com a morte da velha. Se.

- Se quiser, vamos embora - Disse.

- Não, nós temos que encontrá-lo - ela finalmente voltou a falar com ele.

- Podemos voltar outras vezes. Talvez com boas notícias.

- Tenho procurado os advogados - falou em tom de confissão, não sabia quem estava ao lado. Se poderia ou gostaria de escutá-la. Muita gente ainda ia pela companhia, sem esperança da soltura, seja por bom comportamento ou pelo que fosse.

Isso tudo da busca pela advocacia ele sabia. Estava procurando tanto quanto ela. Nem entendeu porque ela havia dito isso. Talvez para ganhar algo de confiança que no momento a angústia lhe carcomia. 

Uma criança veio sentar-se ali próxima. Percebeu que havia crianças por ali. Mães agora solteiras para criação daqueles pequenos, pais encarcerados. O que teria sido dele se fosse criado daquela maneira? Em que mundo teria entrado, em que mundo estaria? Tentou se intrometer na brincadeira daquela criança mais próxima, que se divertia, tentava se distrair com um cordão, brinquedo semelhante ao que ele tinha destinado para sua gata em casa.

Escutava-os também ao seu lado uma dessas mães de olhares distante. Um olho fiscalizava o filho pequeno, outro ia para o além. Ela também ainda desacompanhada do seu par. Talvez visitasse por ali muitos domingos. Talvez a própria rotina prisional já os separava aos poucos. Voltou o olhar para a sua própria mãe, desamparada, confusa, agoniada. Viu que pela primeira vez a corroía uma palavra que não a tinha visto sentir naqueles mais de 35 anos de casamento: o remorso. Jamais a tinha visto com remorso por ter casado, por ter brigado com ele tantas vezes, pela criação dos filhos, a irmã dele já distante, na Irlanda, sem os ver fazia anos. O remorso era uma palavra de extrema novidade para fazer visualizar no olhar de sua mãe. O remorso por ter sido a causa da morte daquela senhora. O remorso pelo marido dela ter aceitado se fingir de causador daquela morte, para protegê-la, por ele ter feito cálculos e constatado que era mais importante ela fora das grades do que ele. Tudo bem se ele fosse preso.

Mas agora mãe e filho pensavam. Ele que gostava de sair para a rua, de apanhar sol de verdade, horas por dia. Ele de pele eternamente bronzeada por isso, não somente de verão, como eles. Ele que mantinha a pele mais escura mesmo no inverno. Ele que praticava muito exercício físico, de dieta até bem saudável, pratos cheios e fundos, com comida de qualidade, com amigos do lado de fora. Ele acusado, ele chocando o bairro, ele sentenciado. Ela sem conseguir chorar direito diante daquela situação, mas que agora ela começava a assimilar. O remorso. O remorso que a corroía. O entendimento de que seria assim para um para sempre de longos anos, de extremamente longos dias e longas noites sem dormir. Ela que talvez não conseguisse mais dormir, como era seu passatempo favorito, seu recarregar de energias para tarefas domésticas e discussões como aquela que vitimou a velha palestrante, que ia de casa em casa. Erro que cometeram tê-la deixado entrar naquela tarde. Ela que desde que a velha havia desabado, batido a cabeça e perdido o pulso, sua voz sumira, saíam apenas resquícios, miados, palavras mal pronunciadas entredentes, quase inaudíveis. Ele que para voltar a escutar e a entender a mãe precisava quase de um tradutor, mas precisava acima de tudo de ler seus olhos. E nos olhos dela lia exatamente o remorso.

A mãe que em seguida tentou desviar o assunto, apresentar alguma resiliência, conversar com sua vizinha de cadeira.

- E este é meu filho. - Finalmente apresentou. - Ele parece chocado ainda pela prisão do pai, mas o que o deixou brabo mesmo, pude ler em seus olhos, foi que aquela menina que ele estava de olho agora está cercada por outros três a conversar com ela.

Ele olhou para a morena de cabelos pelos ombros novamente. Estava como ele a havia abandonado a vista, cercada por outros três, a conversarem e a rirem. Ele se envergonhou por essa conexão que tinha, por essa percepção incontornável de sua mãe. E ficou confuso entre perceber pela primeira vez naquela tarde um poder de reação dela quanto àquilo tudo, e também se espantar em como ela poderia fingir, ser dissimulada, cínica e gélida. Ao pensar em gélida sentiu novamente o pulso sem vida da velha senhora já enterrada, que deveria estar, naquele mesmo momento, recebendo as breves aclamações e pesares de sua missa de sétimo dia.