27/02/2015

Fardas e Pijamas Listrados

A humanidade. A repressão e a dominação contra classes e sobre povos. Sobre gente como a gente, do outro lado do muro ou da grade. Somos tachados com CH, somos taxados com X. O X da questão é ver além da máscara que eles querem sobrepor sobre as pessoas. O ódio impõe a generalização que nos faz incapazes de ver o brilho nos olhares. Nos faz incapazes de ver o lado humano e a inocência individual de quem está no meio da guerra, no meio da fila, no meio frio, no meio do caos.
 
Estamos à véspera do Gre-Nal 404, mais um na história do Rio Grande do Sul. Iniciativa inédita dos últimos tempos é o setor para torcida mista, com colorados e gremistas no mesmo espaço durante o clássico. A ideia é propagar uma campanha de paz entre os torcedores gaúchos. Ela ocorre partindo de setores mais elitizados, de quem pode pagar pela locação confortável no estádio moderno em um jogo de tamanha importância. Não é exatamente a realidade de civilização do cotidiano. Mas, com a campanha em andamento, pelo poder da mídia interessada, ela talvez possa ser expandida a outros estádios, estados, agremiações... e sociedade. Ok.

Na mesma semana da pilha feita por esta campanha, a Brigada Militar dá o mau exemplo. No jogo do meio de semana, válido pela Copa Libertadores, torcedores do Inter pintavam as ruas de vermelho para apoiar a chegada do clube ao estádio Beira-Rio. Acabaram pintados de vermelho por exageros, ações descabidas da Brigada. Cenas fortes circulam pelas redes sociais. Torcedores baleados por balas de borracha, feridos a cassetetes, a pauladas dos intolerantes de farda. O despreparo para lidar com a população é gigantesco. Os exageros presenciados são repugnantes, repudiáveis.
 
A onda de violência, a violência repressora é o dia a dia. O dia a dia que esvazia a fantasia. A fantasia da paz proposta pela campanha. Me perturba a forma como quem tem o poder está para reprimir. Taxa e tacha quem tem poder. É taxado e tachado quem não tem. A distribuição e os tratamentos são completamente diferentes de acordo com as classes envolvidas. Opressores e oprimidos. Dois (ou mais) pesos. Duas (ou mais) medidas.
 
O Brasil vive um momento conturbado, fique registrado. Greves ocorrendo e boatos de greves por ocorrer. A distribuição de recursos sofre faltas com paralisações no transporte. Mas a distribuição da violência marcou o episódio comentado e mais tantos episódios. A paz nacional, por conta de taxas e tachas, está longe para a nossa maioria de taxados e oprimidos. Está longe até do futebol, mesmo após anos de campanhas por ela. Está longe, infelizmente, eu diria, como um tiro de meta está distante do gol.
Filme: O Menino do Pijama Listrado
"Hoje, o guri judeu estaria à direita. Um palestino à esquerda. Muda a crença, e não acaba a opressão" COIMBRA, Vinicius

21/02/2015

Esquimó

Me esquivo
Me sinto sempre entre, no mínimo
Dois caminhos
Sou, no mínimo, uma esquina das dúvidas
 
Sou frio
Sinto frio
Sou um esquimó
Esqueço e esquematizo a vida
Cheia de nós
 
Isso, é o que sou
Sou um esquimó
Esquecido, esquecendo
ESC sendo
Com meus esquis
Meus huskies
E meus whiskies
 
Foto: http://www.brasilescola.com/upload/e/esquimo.jpg

19/02/2015

Pingos no Para-Brisa

Fui pego pela chuva. De novo. Não é o primeiro banho em sua companhia vinda dos céus neste verão, porém, eu carregava a câmera na mochila surrada e o perigo de um prejuízo envolvendo-a era grande. Ela não foi visita inesperada, pois as nuvens rondavam em 50 tons de cinza sobre minha cabeça.
Consegui alcançar o destino final de minha casa, mas bastante encharcado. Combinei que a reunião transferida da manhã para às quatro horas da tarde não ficaria de meu encargo e obtive concordância (em parte) da decisão. A chuva não cessou e, após rápida execução de uma tarefa virtual, me dei ao luxo de ler um capítulo e dormir.

Enquanto isso, as fotos nas redes sociais tomaram as proporções de urgência e alarmantes como costuma acontecer atualmente em enchentes. Quem realmente sofre não tem (aparentemente não) tempo de captar o momento em imagens, ou, em tragédia, acaba perdendo o equipamento na enxurrada.

O balanço das críticas através de imagens é interessante. As ilustrações do caos caem em cima dos governantes, às vezes em tons exagerados. Há, sim, a culpa do alto escalão da prefeitura, responsável por serviços de recolhimento de lixo e manutenção das vias de fluxo do saneamento. A pancada d'água também foi forte e deixaria estragos de qualquer jeito. Mas obviamente que os prejuízos poderiam ser amenizados, compreendes, Mendes?


Termino as linhas com aspecto de diário ao som ainda de alguns pingos. Há poucos minutos ainda estavam bastantes estaladores sobre as telhas e calçada. A reunião, todavia, foi adiada e não me livro de ser escalado novamente a comparecer a ela, marcada para próxima segunda-feira.

Por fim, águas passadas mesmo são os protestos em massa pela redução das tarifas. As cidades grandes têm os requerimentos da época ignorados como pingos em um para-brisa. Os políticos seguem protegidos internamente pelos vidros com insufilm e fingimos não ver mais.

A partir de domingo (22), passagem a 3,25 pila em Porto Alegre. Como será que foi a chuva lá?

14/02/2015

Pelos e Apelos

Meus pelos e apelos
E seus crescimentos
E seus cortes
São a vida, distorcida
Certa mesmo
Só a morte

04/02/2015

Tempo das Vacas Magras

Em abril, nem muito quente e nem muito frio, teremos o início da terceira divisão gaúcha. Assolados mas sonhadores, os clubes, a princípio 13 inscritos, vão buscar o comum objetivo que só será alcançado por um deles. Somente o campeão do torneio terá vaga para disputar a divisão de acesso em 2016.

O sonho talvez ganhe requintes e brilhos por se tratar de uma competição arquitetada como sub-23. Apenas três atletas acima da faixa etária podem ser inscritos por cada agremiação. Compreendendo isso, muitos vão ter a oportunidade de mostrar serviço em uma competição de pífio acompanhamento midiático, mas de interesse de alguns olheiros de vitrines maiores, que irão percorrer os nefastos gramados sul-rio-grandenses.

Na cabeça dos torcedores, nossos personagens principais e que realmente acalentam um determinado charme ao certame, está o heroico compromisso de carregar a bandeira nas mãos e o símbolo na segunda pele sobre o coração, na tentativa de trilhar o caminho das pedras até o caneco. Todos acreditam e sonham com a primeira divisão, o patamar máximo já atingido por alguns, mais recentemente ou há décadas atrás. Turva é a jornada para chegar até o santuário, onde muitos se esbarram e muitos se embarram para pouca efetividade.


A terceira divisão afasta o sonho das contratações melhores, dos jogos em melhor nível e com melhor público. Ao contrário das vantagens da elite, existe a morbidez de estar próximo ao juízo final. As trevas e o receio de fechar as portas estão sempre presentes, como inimigas do sono tranquilo e da paz com o travesseiro.

Hoje, temos uma divisão de acesso com 15 clubes confirmados. A terceira divisão, por sua vez, traz 13 agremiações. Eu preferiria uma divisão de acesso mais acolhedora, com os 28 escudos. Podia haver mais grupos, mais times e mais combate entre eles. Mas, caso o clube saísse derrotado, saberia que pode tentar de novo no ano que vem. Sempre na luta pelo sonho da primeira divisão. Não no abismo que é a terceira. O mínimo dos mínimos seria a última seção de clubes ter direito a umas três vagas na divisória acima. Um pódio de contemplados pelo trabalho de tão poucos recursos disponíveis.

Da minha visão, é isso. Boa sorte aos clubes, com suas contratações e fundos para viagens apertados. Mais apertado ainda estará o coração dos verdadeiros hinchas nessa árdua missão. Somente um peleador clube passa da terceira para a divisão de acesso. Somente um passa da divisão de acesso para primeira. Há, sim, muita coisa errada. Mas mais errado seria abandonar uma das razões de viver quando ela está no meio do temporal.

O futebol do interior sempre deve viver.

FOTOS: EDIANE OLIVEIRA




29/01/2015

Rosa


Tão imponente é uma rosa
Quando cruza meu caminho
Quando pausa para a prosa
Ou quando pousa a poesia
Quando pasmo a ver a rosa

Quando pauso o meu dia

26/01/2015

Órbita


Não tenho a mais precisa órbita

Mas tenho onde habitar

Minhas córneas conhecem cada canto

Do que posso chamar de lar

 

Tenho incógnitas

E dificuldades cognitivas

Penso em situações mórbidas

Tenho vontade de mais mordidas

05/01/2015

Camada de VALência

Pelo telefone, os parentes confirmaram que viriam passar a tarde. Havia um porém: a filha de um amigo da família. Com a resposta afirmativa de minha mãe, ela também estava escalada a comparecer ao período vespertino daquele 4 de janeiro.
 
Tarde de muito calor e com minhas escalas de cobrir a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Passada a tarefa referente ao primeiro jogo, pude desfrutar um pouco da piscina. A menina tem 5 anos e brinca com minha tia, que ela, mesmo sem laços sanguíneos, chama de vó. A mãe de minha tia, minha tia-avó, é chamada de bisa. Minha prima, por fim, é madrinha dela. Sou só o Kiko.

01/01/2015

Sempre dá a mesma nota: ratátátá

Prepara-se para o ano novo como se prepara a uma guerra. A maquiagem tem o sentido inverso. Não é camuflagem, mas para aparecer, para roubar cenas.
 
A preparação forma um ritual em que as pessoas realmente acreditam numa mudança drástica ao chegar da meia-noite. Aí outra característica bélica. A apreensão e o sentimento de que algo decisivo está por vir em mais essa batalha. Ao menos na cabeça da turma, geralmente trajada de branco.
 
A trilha é ouvida desde os cuidados faciais em frente ao espelho. São bombas e mais bombas. Iluminam o céu desde antes do anoitecer, ou simplesmente liberam a explosão audível. É uma guerra para ver quem incomoda mais. No anonimato aos vizinhos um pouco distantes, que não diferem se o encarregado dos lançamentos é o Fulano ou o Ciclano, da casa ao lado de Beltrano.
 
É interessante como o ditado do "até tu, Brutos" entra em campo. Aquele vizinho mais pacato está lá com o isqueiro ou com a caixinha de fósforos, pronto para aprontar uma e mais algumas vezes. Finalmente arrumados para a ocasião guerrilheira, atravessamos a rua a pé, rumo ao esconderijo para nos proteger das ameaças inimigas. Com muita sorte, a audição chega ainda inteira para encerrar o ciclo anual.
 
A sobrevivência em mais uma guerra, que na verdade dura este e os 364 dias anteriores, é comemorada. Pode abrir o champanhe, ou melhor, estourar o champanhe, que passa despercebido em meio ao céu povoado em pólvora. Ilesos, ao menos em aparência, as pessoas se abraçam e trocam palavras confortantes. Vão trocar os calendários, substituindo-os por novas folhas, com novas fotos inspiradoras, de lugares, pessoas e animais que desconheço.
 
O armamento e a preparação não esperam o ideal ensaio militar e treinamento qualificado para a disputa. Já está outra guerra por vir. São este e mais longos ou ligeiros 364 dias a batalhar. O cessar fogo nada mais é do que um cessar fogo (férias remuneradas?). E vamos, com a abolição da palavra "próspero" até a escrita dos cartões no próximo réveillon.

31/12/2014

Dois Mil e Quinze

Sua mente tenha boas sementes
Suas sementes tenham boa terra
Sua terra tenha o que for preciso
Para cuidar dela
 


30/12/2014

Desnecessário

A fim de um dez
A fim de um desafio
Mas o dez não vem
Há sempre um desvio


Me irritam as notas 10. Recentemente, em processo de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), vejo pela timeline uns quantos estudantes de meu curso a postarem, orgulhosamente, suas notas 10. Justo no labor final, em que a análise crítica deveria estar bastante presente. Mas não, pelo contrário, os professores passam a mão a dar conceito máximo ao seus pupilos.
 
Poderiam estes seres considerarem-se estudantes supremos pela avaliação assim feita? Obviamente que não. Sem deslizes, sem falhas, nem no conteúdo e nem no tempo de apresentação? Impressionante. Durante a caminhada do curso os 9  e os 8 surgiram em algum momento. Também não quero estampar um 10 ao final (desta etapa). Certamente porque não hei de merecer. "Nem queria mesmo."
 
Mesmo os que utilizam seus preciosos tempos no estudo das exatas, ao acertarem tudo em determinada ocasião, é nada mais do que conseguir o 10 para aquela respectiva avaliação, moldada a critério do curso ou do professor. A eles, resta saber que sabem nada de outras coisas. Nossa eterna condição de estar a milhas e léguas atrasados em determinadas áreas. Independente do seu Q.I., gênio.
 
Estaria aí o alívio de podermos contribuir com algo, sabendo que ninguém contribui com tudo? Ou estaria aí a inquietação, a eterna impotência diante da maioria dos fatos? Coisas que a nós nada influencia, ou, mais cedo ou mais tarde, no cruzamento do tempo-espaço, influenciarão? A existência é o somatório de tudo isso até este determinado momento. Um texto, que sendo escrito e, posteriormente lido, a altera.
 
Não sei se condiz tornar tão crítico meu olhar sobre os arredores. O 10, para mim, é a utopia inalcançável. Se aparenta ser 10 no começo, logo os defeitos estarão a ser vistos. O que duraria para sempre? Quanto tempo dura a perfeição? Faz parte. Nada faz tudo. Tudo faz algo. Saber lidar e seguir com os solavancos do caminho deve ser a prova de fogo.
 
Mesmo nas exatas mais exatas há defeitos? Talvez. Talvez elas expliquem, façam algo, cumpram o objetivo X... E param ali. Minha teoria, em desenvolvimento, logicamente também não é 10. Capaz! Longe disso.

25/12/2014

Tio Geda é Tio Geda. O tempo é o tempo.

O tenente Gedir, muitas vezes, em sua carreira militar, deve ter respondido "pronto" aos chamados dos superiores. Prontidão e disposição não lhe faltaram na maior parte da vivência de seus 76 anos. Negro alto e de bom vigor físico ainda quando o conheci. Não sei ao certo a forma como devo trata-lo em parentesco. Bastante conviveu com minha vó após a separação do casamento dela e de meu respectivo e biológico avô. Momentos de minha infância em que compartilhei com ele, que já entrava para a terceira idade.
 
É véspera de Natal e acompanho meu pai na missão de dar carona para vó. Ela vai visitar seu grande amigo no lar de idosos no Centro. Há poucas pessoas na rua e o caminho até lá flui sem maior trânsito. O prédio é histórico, ao lado da principal igreja da cidade, e ocupa praticamente toda a quadra. A tecnologia do portão permite um chamado por interfone. Com a autorização de lá dentro, adentramos o espaço. Cumprimentos para todas as pessoas na entrada.
 
"Tio Geda", como sempre acostumei a chamar, está na sala. Sentado em uma poltrona, ele ergue os olhos e o humor ao nos localizar. Sorri com a força da alma, mas o corpo pouco lhe respeita as vontades. Ao contato visual e depois físico de sua mão, noto seus dedos quase fechados fixamente. Após a visita, vó me informa que ele fraturou um deles.
 
A sensação de liberdade não compõe o cenário, talvez, na maior parte da vida. Perder essa pouca saída deve dar a noção do antes e do depois. Do passar do tempo. Um homem em seu aprisionamento. A prisão do próprio corpo, castigado por décadas e décadas de álcool, que não o obedece e não se molda mais como era antes. O aprisionamento do espaço em volta. Um adulto em confinamento e cuidados como se voltasse a ser criança. Mas sem poder correr. Só poder teimar.
 
Ao perambular o olhar aos arredores da cena, os demais idosos parecem mais próximos da morte do que de qualquer coisa. É um cenário pouco agradável e, apesar da amplitude do espaço interno, da beleza do prédio histórico e da aparente limpeza, é um local contagiante negativamente. As luzes da árvore de Natal são as mais artificiais já vistas, pois o que há em volta pouco brilha no tempo presente.
 
São estrelas que podem ter brilhado e iluminado céus no passado, mas que atualmente representam o esquecimento de quem não as mira mais. Na parede, há enfeites natalinos de isopor, um com o nome de cada ocupante da casa. Dona Rita, seu Disney... Uma bota de isopor, se não me engano, para cada. O isopor é frio, é incolor, nada sensitivo. Mas é duradouro, não se debate aos efeitos temporais. Mais vale a nossa curta e degradável passagem, ou a insistência do inanimado mas resistente material?
 
Ó, tio Geda, eu que sempre olhei para cima para acompanhar seu semblante com minhas interpretações ainda pouco curiosas. Hoje, mais atento a alguns detalhes, o vejo com a melancolia e a nostalgia a transbordar dos úmidos olhos. Tão delicada é a situação, me pego no dilema de não saber se é melhor para ti rememorar os acontecimentos que tornaram tua vida tão vívida e tão válida. Ou se é melhor não resgatar o passado inalcançável de nossa existência.
 
Conversamos, sim, sobre o Grêmio Atlético Farroupilha, instituição que a bastante jogos ele foi, como sócio e companheiro na carreira de tantos torcedores que passaram e permanecem a passar por lá. Amigo do velho Trem, do conselheiro Alci Moraes. Amigo que muito considerei da infância, conforme me levou, no privilegiado local das cadeiras, para minha primeira partida em estádio de futebol. E, no longínquo 2002, o Farroupilha goleou o São Paulo da cidade vizinha por 3 a 0 naquela oportunidade. E, até hoje, o tricolor onde exerço estágio é o único clube em que eu nunca fui a jogo para torcer contra.
 
O sol ainda valente e alto, mas é quase hora da janta. Vamos a nos despedir. Meu pai repete a frase que tanto ouvi na juventude, seja pelo legal na sonoridade, seja por meu pai sempre repetir frases, por mais aleatórias que sejam. "Tio Geda é Tio Geda." A pronúncia me lembra do inglês "together".
 
Despedida e desejo de bom Natal ao Tio Geda. Os desejos mais fundos de que não ceda ao aprisionamento. Missão difícil, pois não é o mesmo militar que realizou operações a nível nacional. Nem mesmo as mãos, que tanto encestaram a laranja no basquete, escapam dos efeitos do medonho tic tac. Hoje, mal conseguem êxito no mais simples aperto de cumprimento ou despedida. A energia do aperto de mãos se transfere. Aperta meu coração. O tempo não aperta pause. Nenhum clique do mouse altera essa direção.

15/12/2014

Velejando, viajando, sol quarando

Percebo, lá pelas tantas (antes tarde do que nunca?), os efeitos e consequências pelo que se faz ou se deixa de fazer. São duas possibilidades, no mínimo. No exercício de procurar a palavra certa, encontro uma mais gasta do que qualquer solado: trouxa.

Há, também, no mínimo duas possibilidades de ser trouxa. Pode ser pelo que você faz. Ou pode ser pelo que não faz. Faço poucos esforços. É uma autocrítica reconhecida de outrora.

Tenho tamanha dificuldade em acompanhar ritmos na longa highway. Tento ditar o meu, parando aqui e acolá. Difícil alcançar a parada do ônibus no momento certo de sua passagem. Sem paciência, às vezes sigo a pé. Complicado acompanhar os passos de quem vem ao lado, mesmo que venha com intenções de somar. Logo, cedo ou tarde, tô em outro ritmo. Segui em frente. Ou fiquei pra trás. Trouxa, se eu fiz demais. Trouxa, se pouco fiz.

Exatamente porque posso ter emaranhado demasiadamente uma rede em que não posso controlar, prosseguir. Em contrapartida, posso não ter armado a rede em que eu gostaria de estar e usufruir. De todo modo, parece uma regra, que não há como sair ao mar sem sentir a tempestade. Por vezes, mais densa e mais turva. Vai ser passageira, mas vai deixar marcas. No marinheiro e em seu navio. Ambas difíceis de curar.

A política da América Central deve rir por estar mais controlada que a tua highway. Vale até abrir uma tequila em nome da causa. Vou seguir minha missão trouxa a cada parada para amarrar os tênis, em cada parada para um por do sol. A cada oásis no deserto. A cada crase após o verbo, seja a quem for. A sofrer os efeitos e consequências de navegações passadas. Em um barco sem nome fixo tatuado no casco.

14/12/2014

Vero similar

Verossimilhança é a palavra nova no vocabulário de Jair. Vero, em italiano, significa verdadeiro. Ainda no mesmo idioma, somiglianza é a similaridade. União de verdade + semelhança, a verdadeira semelhança (bah, gênio!). Mas uma certa impressão de uma certeza imprecisa.
 
Verossimilhança seria uma definição precisa para algo ainda impreciso?  E se aquilo for realmente preciso, o uso da verossimilhança fica errôneo, em desuso? E se aquilo for nada preciso, o uso da verossimilhança cai em desuso da mesma forma, mas por outro caminho? Prefiro distorcer interrogações do que cravar pontos finais. Nas artes, a ficção pode ser tratada como verossimilhança quando se aproxima da realidade que se procura mostrar. Aproximações.
 
É uma palavra tão inexata que, no português europeu, se escreve com um "S" só: verosimilhança. No português brasileiro, a aceitação de se curvar diante das curvas que as possibilidades implicam: veroSSimilhança.
 
Talvez ainda a interprete mal. Pois bem (ou mal), a verossimilhança envolveria um conjunto de coisas quase reais? Qual o limite deste conjunto? O que fica de dentro e o que fica de fora? O que é verdade? O que é quase verdade? O que não é verdade?
 
Bah, nessa eu peguei pesado, né? Me desculpem. Se acreditam na ajuda, nas farmácias ou nas igrejas, dá pra tentar a cura. Mas creio que os preços das ditas curas não se encaixem em verossimilhança =)

11/12/2014

Poço da Poesia

Não sobra tempo
Troco a noite pelo dia
Transborda o copo
Que carrego em correria
Pelas frestas do corpo
Sua, quase seca, a poesia
 
Posso, claro que posso, quem diria?
O poço, ainda moço, se estendia
Acerca da poesia não se cerca
A fonte do poço não seca
E a água, antes parada, se mexia
 
 
 
 

05/12/2014

Moneytalks

Nem tudo precisa ser quantificado, ordenado e numerado. Umas linhas (não numeradas) sobre isso.


Moneytalks é aquela música dos australianos do ACϟDC. Parece que foi a banda para este dia, 4 de dezembro. O texto já vai sair com o marcador do dia 5, em mais uma madrugada. Escrevo para acrescentar sentido e não ser mais uma madru-nada.

Moneytalks, então vamos falar da grana, esta criatura variável em forma e conteúdo; abominável, traiçoeira e suja. Suja por si só ou pelas mãos alheias. Termino de assistir um filme e testemunho na timeline da rede social a manchete de que "familiares de vítimas da boate Kiss vão ter que pagar pela limpeza de objetos encontrados no local". Vida vale nada, né? A vida cabe dentro de um Rolex. Cabe no tempo que o relógio de marca famosa contabiliza e cabe também no valor que as pessoas atribuem a ele - o relógio.

Poucas vezes caminhei tão leve quanto em uma saída, numa chuva após uma derrota de meu time em clássico Gre-Nal. Esfriar a cabeça era a bola da vez. Saí com a roupa caseira e nada nos bolsos. Sensação de alívio, sobretudo, por nada pesar entre um passo e outro. Nada de objeto para os mal intencionados me tirarem em seus objetivos. O domingo já havia posto em 0 a escala de felicitação, no motivo que gerou a caminhada. Bola pra frente.

Outro ponto interessante é a marca dos calçados. Não ligo muito para o símbolo que os nomeia. Confortando e agradando a rápida olhada no espelho mágico = compra feita. Prefiro pensar no valor de cada passo pelas calçadas do que no valor financeiro do calçado que os praticou. Meus pés trilham a história e os sapatos são meros acompanhantes de luxo (para meus pés não se machucarem e poderem caminhar/historiar mais). Claro, acabo reconhecendo o esforço do par de sapatos também e eles adquirem significados especiais. Com o mérito da caminhada e não de sua marca.

Naquele domingo, saí também sem documentos. Quem me conhece, vai me reconhecer e, se quiser, cumprimentar. Se não conhece e for o caso, eu me apresento. Não precisa RG. Muito do que se quer saber inicialmente sobre a pessoa não passa de números, o que não explica detalhes da trajetória dela até o momento. Apenas rápidas conclusões. Como a idade, que pode revelar o que a pessoa vivenciou ou não.

Muitas das pessoas vão te ver pela primeira vez ao te identificarem por um número. Talvez o médico, na sua primeira consulta, vai apertar a mão do número 590.191, do plano de saúde Y. Quantas vezes somos o número da ficha que retiramos? No xerox, no atendimento da operadora de celular, na padaria, no açougue, na farmácia, no banco (...) Ah, os bancos... estes dariam um texto só para eles... Somos, enfim, números, cadastros, dados, senhas e códigos. Por ordem de mérito ou de chegada.

Em piores casos: na escola. A criança cresce como um número, avaliada como um número. Saldos positivos ou negativos. Somos tratados como números, e só se agrava na vida adulta. Meros números, para cima e para baixo. Pelo que acrescentamos ou podemos movimentar economicamente. Taxa de relevância. Serve também para maiores ou menores reverências gestuais em um encontro com o dentista ou com o senador, no que ainda há de humano em cada cumprimento (exagerado, ou não).

Por fim, o que se percebe é muita gente querendo abocanhar números. Abocanhar objetos, que valem mais numericamente. Tascar um pouco dos outros (com cumprimentos exagerados, puxa-saquismo, ou não). Ostentar com carros, camisas polo ou com uma adega, para mais se exibir do que beber. Quadros estranhos na parede do salão e na vida, relógios banhados em ouro que vão marcar a hora da mesma forma que os outros... Moneytalks.
 

03/12/2014

Procura Cura

Que sentido procuras?
A repetição em vão do que já foi sentido
Ou o sentido escondido do que está por vir?
 
Que sentidos procuras
Se não for o sentir?
Será a cura uma partitura
Que não podes tocar, nem ouvir?
Como um distante santuário
Que só imaginamos existir
 
E por que, afinal, tentas
Apagar as pegadas deixadas
Como se fossem erros propositais
Nessa longa estrada?
 
E por que, afinal, tentas
Apagar as marcas já perpetuadas
Como se apaga na boca o gosto da menta?

 

30/11/2014

Inquieto

O amor que eu não te mando
Não tá quieto, tá queimando
Quando some a luz do dia
O amor que eu não te mando
De quando em quando
Aparece em poesia

 
 

Eu sou eu e não o que os outros são

Um pé para cada lado. Quase sempre pronto para firmar um de apoio e chutar o pau da barraca com o outro. Nem recebo tudo de mãos beijadas, o tudo necessário para competir em alto e bom tom no mundo selvagem outside. Também reconheço todo o apoio que recebo e a pouca necessidade de lutar no cotidiano, dadas as circunstâncias até o momento. Um mau costume, eu caracterizaria.
 
Nem ostento e nem me coloco - completamente - contra a coisa toda. Pacifista demais para pichar qualquer religião. Pacifista até para negar um panfleto às vezes. Às vezes nego, mas sempre mais triste do que quem tá entregando, que até deve estar acostumado... Será? Droga, vou ficar triste pela tristeza dele.
 
Não me agrada aqueles bonés da moda. Nunca me senti à vontade e eles sempre me serviram (os bonés) para proteção solar. Estética seria consequência. Cresci ouvindo que barba não era legal. Depois disseram que barba era legal. Praticamente não tenho, assim como quase não tenho preocupação nesse aspecto com a opinião alheia.

Jogo do jeito que sei e do jeito que consigo. Me importo, sim, de agradar. Bah, cuidado! Me importo mais ainda de tentar não desagradar. O resultado muitas vezes é que não ajudo nem atrapalho. A corda bamba é arriscar e carpar o diem, mas segurando o pássaro na mão pra não perder dois. São só ditados e não verdades absolutas. Às vezes parece que cabe um, às vezes parece que se encaixa mais o outro. Eterna dúvida do que virá depois.
 
A tal colocação "eu sou eu e minha circunstância" ruge com potência. A circunstância me cerca. Pensamento demais antes de uma decisão. O mundo não para, cara, faz algo! Fazer o quê? Fazer o que depois para consertar? Fazer o que, agora, para não ter que consertar depois? Às vezes, o peso da prudência são folhas e mais folhas de relatórios arremessados a grosso modo para cima. - Dane-se! - Depois os catamos, possivelmente com dificuldade para reorganizar a pilha toda de consequências.
 
O texto inicial não era pra ser bem esse, mas não vou voltar atrás. Dane-se a prudência das linhas se encaixarem numa grande coerência. A vida é incoerente aí fora, não é?! Resmungos. Depois organizo melhor as ideias em outro texto, em outra hora, neste mesmo canal.

16/11/2014

Personagens frequentes em viagens de ônibus

- o inquieto que mexe em todos os mecanismos possíveis de ar condicionado, luz, poltrona, cortina e mais nas trocentas coisas da bagagem.
- o corneteiro. Fala mal da empresa de ônibus, da empresa onde trabalha, do tempo e das cidades em que passa.
- a mãe jovem que tem trabalho para conter a criança pequena diante do micro parque de diversões.
- o casal que debate os problemas com a casa e filhos para todos ouvirem durante o traje
to.
- o tiozão que chega no segundo ronco antes de tu acertar a posição da poltrona.

- a tia sedenta por companhia, que puxa papo com seus assuntos familiares e que telefona alguma vezes para os parentes em busca de mais novidades e pedindo para a esperarem na rodoviária.

12/11/2014

Não Ceda à Queda



O time é ruim e faz jus a todas as comparações com um péssimo ônibus. Não tem volante, o banco é ruim, não apresenta velocidade e o próximo passo já sabemos: vai ser um ônibus rebaixado. Mas embora a torcida consciente do Botafogo de Futebol e Regatas estenda a faixa "só Jesus salva", eles (alguns) continuam a ir aos jogos acreditando na saída da lama com o que acontece dentro de campo.
 
Os antecedentes são comuns a rebaixamentos anteriores de clubes grandes. A administração colocou o alvinegro carioca nessa, assim como o outro preto e branco do Rio, o Vasco, foi rodada a rodada de 2013 traçando seu caminho para disputar a B nacional de 2014. A trilha, a ladeira para o rebaixamento é árdua, angustiante e exige muito dos motores-corações dos hinchas. Os frios matemáticos e demais analisadores racionais já percebem a queda eminente. São 75, 80, 95% de chances. Vão somando do diagnóstico domingo-quarta-domingo.

O Z4, como é chamado, é a nuvem que nubla o fim de semana. Tira o gosto da balada ou do cinema de sábado. Tira o paladar da praia ou o do parque dominical. Faz a segunda-feira começar em ressaca, um sentimento amargo na boca e um certo constrangimento em trajar o uniforme aquele que já lhe deu orgulho. A maioria dos torcedores já passou por isso e conseguiu reagir. Mas a garantia de um futuro melhor sempre beira a incerteza. Afinal, na série B, por exemplo, são outros 19 clubes sedentos e em planejamento para conseguir um dos quatro lugares ao sol.


Mas o tema central, deixe-me dizer, é a amargura da reta final que antecede o desastre inevitável. O lado racional, como um repórter de veículo pequeno que não é escutado, ousa professar que o final do ano é triste e o rebaixamento, sim, ele vem. O lado emocional e apaixonado veste a camisa no domingo, paga o ingresso, o deixa no portão de entrada, passa a catraca, escala os degraus e espera para encarar o inferno com os próprios olhos, ao lado de outros pares. Entra em desespero, engole um pouco o choro. Depois chora. Soluça e vê a situação toda como um ente querido e muito enfermo. Enquanto isso, outros próximos jantam a brindadas por uma vaga na Copa Libertadores. Não é fácil, queridos.

Promete voltar e repetir os rituais e mandingas em busca da salvação do companheiro até a última e derradeira tentativa de reanima-lo. O veredito irreversível pode vir de um conformista ao seu lado nas tribunas. De um amigo que foi ao jogo junto e presenciou a tragédia também e digeriu o estrago primeiro. Pode ser pela rádio, com o comentarista ou narrador trazendo a notícia como um médico treinado a informar finais melancólicos.

A parte mais triste talvez sejam os caixões fabricados pelos rivais da rivalidade secular. Eles são confeccionados e pintados com prazer com as cores de seu clube, em trabalho realizado pelos gozadores do drama. Apesar de ter de engolir mais essa, a funerária não recebe a ligação no fim trágico. Não a do torcedor que passa por isso. Porque não é O fim.

Ele vai, mais cedo ou mais tarde, levantar a cabeça. Comprar com alguma resistência o guia da série B no ano seguinte. Vai analisar a tabela. Rir de um ou outro nome exótico. No fundo, tremer um pouco ou um muito por todos os nomes, um de cada vez. Mas torcer a cada batalha. Vai repetir os hábitos e vai para la vuelta arriba y otra vez.

E que ninguém desmereça a dignidade de cair chutado, escoriado pela incompetência alheia e lamber as feridas com um retorno triunfante.


 

04/11/2014

Hermena - Texto de Verões Passados

Começo o texto questionando quem seria o tal sujeito com o nome que batizou o balneário mais meridional do Brasil. O nome é de origem teutônica e significa “aquele que se sacrifica aos deuses”. Mas não é bem o que eu queria saber.

Bom, após os últimos veraneios, tenho me dado ao luxo de estreitar nossas relações e chamá-lo simplesmente de Hermena. Além de mais afetuosa, a redução do nome da praia de Santa Vitória do Palmar facilita as rimas: Hermena, pequena, morena, tranquilidade plena, sem problema, belas cenas, que pena... que pena ter de deixá-lo.

E digo que o velho Hermenegildo, ou Hermena, é um sujeito bastante simpático, acolhedor e simples. Seus moradores, em ampla maioria, são do próprio município de Santa Vitória, sendo conhecidos uns dos outros, esbanjando a característica simpática do interior gaúcho, somada ao cenário de praia em uma ótima combinação. Não é difícil estender papo com o entregador de água ou com a farmacêutica, como pude observar.

Eles também não demonstram tanta vaidade, assim como é notável no povo uruguaio, distante territorialmente somente por alguns quilômetros, e talvez sendo o povo que mais invade o balneário no verão, a julgar pelas placas de carro, sotaques e camisas da celeste olímpica a desfilar nos arredores.

A distância do Hermena em relação à região metropolitana e a outras grandes cidades contribui para que não haja muitos turistas. Juntam-se às características da praia: o preço acessível das refeições e estadias, as areias limpas e as áreas de banho e pesca sendo diariamente respeitadas. A lei que proíbe e recolhe cães soltos na praia funcionava melhor há 2 anos atrás, mas continua evitando uma proliferação demasiada e preocupante, como ocorre em Pelotas, por exemplo.

Não é segredo que os cuidados pelos bens coletivos no Uruguai é imensamente superior aos cuidados do povo brasileiro. Pois é, a aproximação com esses hermanos pode ser extremamente vantajosa nesses quesitos listados acima. Tirando os arredores da entrada, onde há o clube e a praça principal, as demais ruas são extremamente tranquilas e, por toda a praia, pode-se andar de madrugada sem qualquer receio da violência, tão presente em outros balneários.

A praça principal recebe eventos nos fins de semana, como por exemplo, tratando-se do último fds, as músicas do sujeito que abriu os shows do Maná no Brasil e o concurso Musa do Verão, em que a música do Felipe Dylon com o nome do concurso foi insistentemente tocada durante todos os desfiles de todas as candidatas. As programações também são constantes no clube, com partidas de futebol de areia e festas para todos os públicos, a qual me agradei bastante na que fui. Sem falar que tudo é extremamente perto, permitindo que os trajetos para almoçar ou descer para orla da praia sejam feitos a pé, inclusive para idosos.

Pois é, está feita a propaganda da praia mais ao sul do Brasil, aquela que une terras, águas e sotaques brasileiros e uruguaios, que une lazer e tranquilidade por ótimos preços. Hermena.

02/11/2014

O imbatível trem alviazul

Gilmar foi o cara na Boca do Lobo.

Jogo de ida da semifinal da Copa Ivânio Branco de Araújo, a Sul-Fronteira. A Boca do Lobo em Pelotas como casa ao mandante São Paulo, da cidade ao lado, Rio Grande. Quem viajou mais para ocupar o cargo de visitante é o Lajeadense, o trem azul do segundo semestre.

Sem o estádio Aldo Dapuzzo, a missão do Leão da linha do parque era ainda mais difícil. Sem desistir, a Mancha Rubro-Verde esteve presente com suas faixas e o repertório completo das torcidas organizadas. Instalada devidamente na arquibancada da avenida Bento Gonçalves, apoiou firmemente nos primeiros instantes.

Com a esfera de couro rolando, não demorou para o indigesto convidado aprontar, como tem sido costume. Aos 7 minutos, cruzamento da esquerda de Goiano, o goleiro Diego não achou e Gilmar completou para os barbantes. 1 a 0 para o Lajeadense. Momento triste na jogada foi a queda do goleirão do São Paulo, que acabou encaminhado ao hospital com uma lesão no ombro. Ambulância afuera do estádio e resolvemos deixar o campo também e escalar os degraus da Boca do Lobo, para fugir da possível chuva. Chuva que enganou e não quis aparecer na tarde nublada.

Com o retorno da essencial peça de segurança do espetáculo, retorno também ao jogo, com o São Paulo com seu goleiro reserva, Vagner. O gol de empate do Leão veio somente no fim da etapa inicial. Em cruzamento para área, Guilherme foi derrubado ESCANDALOSAMENTE. O juizão atendeu. Tiago Rodrigues cobrou firme e igualou a peleia: 1 a 1. E foi só antes do tio apitar pela primeira metade concluída.

Com o segundo tempo em recomeço, o São Paulo tentou investir mais, porém deixando espaços à cruel dupla de ataque. Gilmar e Paulo Josué, de entrosamento até como combinação sertaneja. E aos 12 minutos nasceu mais um apronto dos avançados de Luiz Carlos Winck. Após escanteio, Paulo Josué cabeceou para frente, correu para completar o drible no marcador e chutou rasteiro, escolhendo o canto. Bucha! 2 a 1 para o Lajeadense e comemoração em conjunto com os reservas que aqueciam próximo à pintura.

Ao São Paulo, o prejuízo era gigantesco com os gols sofridos "em casa". Vagner ainda salvava o possível e até em algumas causas que pareciam impossíveis. Na frente, partida pouco inspirada de Dudu Mandai, o homem da classificação e procurador ainda em vão do talismã Suárez, o cão que o mordeu no último jogo. Sem mordida e sem grandes mudanças na busca pelo empate parte 2.

E na administração do placar, o Lajeadense aproveitou o fim de semana dos mortos para mais um sepultamento. Um brinde ao bom futebol dos laterais de um time treinado por um brilhante ex-jogador da posição. Agora foi da direita. Thiago Machado colocou no centro, o zagueiro do São Paulo foi traído pelo quique da bola e deixou-a sobrar nos pés de quem sabe o que faz. Gilmar ajeitou e chutou entre as pernas do goleiro Vagner para selar o placar. 3 a 1 para o Lajeadense.

30/10/2014

Espelhos e Espinhos

As diferenças são como pequenos espinhos. Espinhos imersos em uma superfície onde APARENTA haver civilidade. Mas quando cutucados, os espinhos inflamam e não são retirados sem punir quem ousou encostá-los. Aí debates acabam em brigas, baixaria e preconceitos em erupção.

São tempos atuais de discordância elevada em grau político, quando debatem-se as crenças do que seria melhor em âmbitos sociais e econômicos. A eleição presidencial parelha e antagônica separou visões diferentes. A corrida de campanha foi conduzida como uma corrida entre duas bigas, de certa forma em retrocesso semelhante às barbáries comuns aos romanos da época.

27/10/2014

Domingo D+4

E saí de casa solito, na esperança de encontrá-la. Não sei se ela ou a vitória. Eram duas belas meninas, de todo o modo. Concreta, visível em pele, ou abstrata, no sentimento de cada um envolvido. De todo o modo, era para terminar saboreando o fim de tarde de um domingo de um calor infernal sobre os concretos da cidade quase grande.

Longe demais das capitais eu estive caminhando, quase em linha reta. A geografia das ruas permitia tal traçado em direção à ela (a vitória). Ouvia minhas escassas opções de rádio FM, após já ter escolhido facilmente as escassas opções de candidatos na eleição. Era o segundo turno para governador e presidente. O candidato estadual de minha preferência já havia perdido quando deixei minha casa com os fones de ouvido. Diferentemente do conformismo da primeira "derrota", a segunda apuração era uma decisão mais antagônica, importante. Minha candidata precisava vencer. Obrigação na cartilha para curtir as próximas horas. E os próximos anos.

Caminhei e andei e andei ainda mais um pouco e o horário da divulgação da apuração, 20 horas, não chegava. O sol obedecia ao ciclo e quedava aos poucos para seu esconderijo. Não sabia mais se os óculos escuros eram necessários.

Já dobrava para a rua decisiva, enquanto na calçada oposta um trio de jovens, um deles com o violão em mãos, cantava Jota Quest: "e se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou". De longe, avistei duas camisas de cor muito semelhante à minha. Ao descobrir o bigode conhecido de um colega universitário, rumamos juntos pelo centro. Agora três camisas de tons quase idênticos e com o mesmo voto no coração por baixo delas. Altos papos de política até o apartamento do amigo daquela noite.

De lá, aguardamos a apuração. O colega de ap. dele, reclamando de pressão desregulada, estava com um notebook para conferir o resultado do clímax dominical. Ele, também eleitor de mesma escolha, aborrecia por sua falta de emoção/expressão enquanto anunciava algo de importância comparável a um teste de DNA. E deu ela. Deu ela, sim. 95% das urnas brasileiras apuradas. E 96%. E 97, 98%. É TETRA!!!!! - infinitas exclama ações.

Papeamos mais um pouco sobre futebol interiorano gaúcho e política de parâmetro local e nacional antes de sair às ruas. O comitê, antes ocupado por somente meia dúzia de gatos pingados com o sol ainda a martelar, agora estava tomado. A quadra destinada aos satisfeitos e contentos com o resultado recém saído do forno (literalmente, pelo calor do cão).

A cuia passeou ainda mais algumas vezes por nossas mãos e a erva caliente por nossos bicos antes de acabar o conteúdo da mateira. Um papo ali e outro acolá, do outro lado do mar de bandeiras vermelhas para contextualizar o significado vitorioso. Trocar mais ideias com gente que, na ampla questão, concordava em maior grau conosco. Em meio a isso, procurei-a com olhar inquieto. Achei outras vistas apreciáveis, mas não ela. Somente os olhos e sorrisos da outra menina apareciam: a menina vitória.

Um papo com um paulista que hace artes visuais no pampa gaúcho e está terminando o curso. O estado de São Paulo vive a seca da água e a seca da ausência de um governador de esquerda no estado. A primeira seca recente, pega todos de calças curtas como informação bombástica. A segunda se arrasta por anos e permanece mais quatro. Mas para presidente, apesar da pequena votação lá em SP, a situação segue diferente ao Brasil. Para melhor.

Ele me conta que chegou à nossa Universidade local pelo ENEM. Foi um dos primeiros contemplados, lá em 2011, sendo a Federal da cidade uma das primeiras a aderir integralmente os ingressos pelo Exame Nacional. Agora, próximo do fim da jornada nestas terras, o jovem diz que já consegue financiar apartamento em São Paulo com o programa de assistência à moradias. Vir para cá e estudar com o dinheiro dos impostos foi possível. Voltar formado e com auxílio no custo do imóvel também é.

Entre outros olhares de quem imagino boas histórias e motivos de estarem lá em comemoração, temos negros e negras, bandeira LGBT, bandeira com as cores que simbolizam as lutas femininas. Temos crianças influenciadas pelos pais. Crianças que tomara tenham um futuro melhor para seus futuros filhos. Temos motoristas de ônibus ilhados provisoriamente pelas olas embandeiradas. Uns buzinam. A maioria deles se manifesta, na verdade. Adesivos em carros do ano (?) e em bicicletas.

A cerveja de marca gaúcha desce rápido. Rápido, antes que esquente. Vejo mais crianças, mais gente alegre. Quem não pula é comparado com uma ave da fauna brasileira. A multidão começa a dispersar e me disperso em um turbilhão de assuntos e pensamentos, colecionando algumas certezas como adesivos de candidato. Assim, também volto para casa.

Os ônibus não vem, mas acerto as teclas do celular e consigo carona. Eu tenho carona, nem todos têm. Concluo, dessa campanha encerrada, que meu voto não é só por mim. É pelo estudante com o sonho das artes, é pelas empregadas e empregados que saíram a comemorar no domingo à noite, pelos LGBTs com suas bandeiras e direitos, pelo boné que vi dos sem-terra, pelas minorias sociais em geral. É por melhor condição de serviço e salário dos motoristas e passageiros de ônibus. Não é só por 20 centavos. É pela maior humanização ao meu redor.

Divulgação do site Catraca Livre

23/10/2014

Respiração Gota a Gota

"Nascemos para quê? Para sermos mais uma gota no meio do oceano?", ela disse em meio ao diálogo. Importante despertar de ideia, naquela incessante inquietude pelo "quem somos?". Existe uma legião bem grande de gotas espalhadas por aí. Podem parecer e se assemelham em muitos aspectos, mas não são iguais.

Há gotas que gostas mais. Há gotas que gostas menos. Há gotas que parecem vir ao mundo somente para secar outras gotas. Há gotas que escorrem lindamente juntas, se entrecruzam e persistem lado a lado.


14/10/2014

Feira cultural pela negritude

 Realizada no Mercado Central de Pelotas,
a Feira da Cara Preta reúne expositores
com cultura afro da região sul do estado


A Feira da Cara Preta chegou, em setembro de 2014, à sua 3ª edição. A realização é uma oportunidade de manifestação cultural para artistas e expositores da zona sul do Rio Grande do Sul. Em Pelotas, a cultura de raízes afro é bastante presente e faz parte do desenvolvimento do município desde seus princípios. Porém, segundo um dos organizadores, Jonas Fernando, “os negros ainda não conseguem se ver como parte do modelo de sociedade em que vivem”.
A ideia do evento é exatamente o que Jonas propõe: inserção. Buscar espaço em um mundo onde a arte e o lazer caminham de maneira segmentada. Por isso, a Feira da Cara Preta, que ocorreu entre 19 e 22 de setembro no Mercado Central de Pelotas, reuniu cerca de 40 trabalhadores, entre artistas, organizadores e vendedores de artigos de moda e gastronomia. A tradição surgia de diversas formas aos visitantes. Culinária e vestimentas típicas, pinturas, esculturas, literatura e dança, além de rodas para debater a história e o espaço do negro na sociedade.

12/10/2014

Voltam Vultos

Não detive o que vem de ti
Não detenho o teu desenho
Que surge à minha frente
Formado em minha mente
Informante incessante
Dos problemas da gente

09/10/2014

Pequeñas cosas pequeñas

Uma vogal a mais na digitação. Um pingo sobre a letra I mais desenhado na caligrafia a ti endereçada. Uma entonação mais aproximativa no telefone. As pequenas mudanças comunicacionais que nos fazem sentir bem. A simplicidade como o aroma do café sobre a tranquilidade da mesa. Ou sobre o caos ao redor, mas com a bebida dotada de cafeína como oásis no deserto de quem busca paz, sossego ou inspiração.

A grama na sua tonalidade mais verde possível, sob os disparos do regador das nuvens. Biosfera de tantas minúsculas espécies, biosfera do nosso imaginário na procura por algo certo em meio às sarjetas e calçadas imundas. The Kooks no fone de ouvido, enquanto a fofoca é menina livre nos arredores. O violão de algum MTV unplugged dos anos 90, do formato mp3 ao aparelho auditivo, enquanto o ônibus sinaliza no letreiro seu bairro, mas parece o caminho mais curto ao inferno.

A camiseta daquela banda ou daquele time, perdida nas multidões, com um corpo desconhecido a ser cobrido por ela. Um rosto passageiro. Um sorriso certeiro em alguma vitrine, esquina ou faixa de pedestre. A voz macia de atendente de telemarketing, quando o serviço tinham tudo para ser os piores minutos no conjunto de 24 horas.

O mergulho do sol no horizonte como despedida diária de seu ciclo. A caminhada sobre folhas mortas, o olhar acima aos chaveiros dotados de clorofila nas árvores. A flor solitária em local inusitado. A flor comunitária com suas familiares.

Pequeñas cosas, pequenos versos pelos segmentos do universo. 


Comboio Sonha+Dor

Tanta gente a esperar o expediente acabar
A batucar no balcão e na mesa
Com a cara virada em tédio
A mirar os ponteiros do relógio
Com o assédio de esperar a sobremesa

Tanta gente assassina, serial killer do tempo
Faz chacina e fascina quem corre a todo momento
No turbilhão do dia a dia, no corredor das correrias
Roleta por roleta, transportes para casa
O tempo diminuto, de minuto em minuto
Não sobra um puto espaço
No escasso tempo em brasa

A fogueira das vaidades, vai idade e vai idade
Vai cidade que só cresce no sentido vertical
Verte e verte, mas inverte o sentido principal
Vai cidade a incendiar, a vaiar os teus sonhos
Como um rolo que atropela o comboio sonha+dor