22/03/2022

Noite de pesadelo zumbi

Nos protegíamos minha família e eu pela casa dos avós de um antigo amigo. A casa era simplesmente a maior da praia. Ocupava o centro de uma quadra, mas o seu tamanho era de uma quadra inteira para trás. As casas costumam ter os fundos voltados para os fundos de outra. Esta não. Havia pátio na frente e pátio atrás. Enorme. A pintura dos muros era salmão e as grades altas bordô.

Começamos apenas minha vó, minha mãe, meu pai e minha irmã. Procurávamos armas com as quais nos proteger. De quarto em quarto, subindo e descendo escadas nessa missão. Havia longa sala, como um saguão na parte de baixo. Este ligava a cozinha. Mas também quartos no interior. E obviamente os quartos - e escritório - e salão de jogos no superior.

Uma família relativamente pequena a minha para aquele palacete. Mas onde estariam os donos originais? Era de se pensar. Só que não havia tempo. Os zumbis iniciaram o cerco, aglutinando-se nas grades, na parte aberta do extenso muro salmão, que se estendia sobretudo como muralha pelas laterais da casa. Estávamos armados, mas era questão de tempo para eles transporem as barreiras e, movediços e escorregadios do jeito que estavam, nos alcançarem pelo lado de dentro. 

Talvez a melhor recomendação fosse não criar mais ruídos, mas eu gritava por meus familiares. Precisaríamos de um plano de fuga conjunto. Ni una a menos. O palacete seria o sonho de vivência para outros tempos, mas não naquela noite cerrada, demorada, arrastada como se não soubéssemos se haveria dia após esta madrugada.

O cordão de zumbis invasores mostrou o caminho por entre o ornamento trabalhado em determinado espaço da grade. Eles haviam entrado. A maioria não corria, mas alguns eram capazes. Esses diminuíram a margem de nossas reações. De pronto nossas armas pareciam inúteis àquela quantidade crescente exponencialmente de invasores. O rolo de massa poderia acertar o primeiro sim. A potente vara de pesca (?) poderia decapitar outro? Claro. Mas logo para enfrentar três e a esmagadora arma de deitar a massa de pão parecia inútil. A não ser que tivéssemos sobrenaturais habilidades de kung fu, mas não era o caso.

Conseguimos não se sabe como conduzir a vó para o carro, e a família acionou o estranho furgão que daria orgulho ao Fred, não só ao Flintstone que nunca havia visto uma engenhoca tecnológica daquelas, mas principalmente ao Fred da turma do Scooby Doo. Sem direito a um cachorro falante ou maconha que nos ajudasse a enxergar saída daquele pesadelo, procuramos acionar o controle elétrico da garagem. Por obra positiva do destino a energia elétrica ainda não havia sido cortada no bairro, porque nenhum daqueles mentecaptos havia tropeçado nos cabos de energia ou tentado subir num poste, admirados pelas luzes. As luzes os chamavam atenção.

O controle da garagem abriu vagarosamente o portão da garagem. Dos fundos, é importante dizer. A parte da rua da frente estava ainda mais lotada, abarrotada de zumbis como se fosse a recepção da torcida xavante. Então saímos por esse vagaroso, relutante e teimoso portão dos fundos, aquele que respondeu ao chamado eletrônico com uma inclinação lenta e preguiçosa. Ele ia aos poucos, travava e seguia a angulação rumo aos 90 graus. A cada travadinha que ameaçava não passar a altura suficiente àquele furgão de cachorro-quente, nosso coração também parava junto. Eis que meu pai perdeu a paciência e arremessou o furgãozinho com tudo naquele portão. Foi uma má escolha, porque arrancou, ou melhor contando, abriu um certo rombo no teto do veículo. O mais sensato no momento era pensar que saímos daquele inferno. Saímos munidos de algumas armas de mão para os futuros combates corpo a corpo e com duas pistolas as quais tínhamos dificuldade de decidir quem manejaria. 

Minha irmã a bem da verdade era a especialista pelo seu conhecimento advindo de jogos de tiro. Eu muito pouco permanecia com um facão que seria mais útil para acertar um vivo do que um daqueles mortos. Junto à nossa família já se juntavam outras três pessoas. Um homem que parecia uma reprodução clássica de um guerrilheiro dos Panteras Negras. Uma mulher de idade semelhante e um terceiro esquisito que em algo me lembrava o don Ramón (seu Madruga) ou a outro mexicano de bigodes proeminentes e rosto sugado pelo passar dos anos e pelos absurdos sustos que convivíamos nessa epidemia zumbi.

Chegávamos às proximidades de um porto quando minha avó, temendo a aproximação de tantas daquelas figuras, numa reação súbita de um plano suicida, declarou que já estava muito velha e só atrasaria jornadas. Conseguiu com o que lhe restava de força nas mãos, que com destreza construíram retalhos, bordados, roupinhas, pastéis, massas, arroz, carreteiros, assados, os mais diversos almoços, com força conseguiu abrir a porta de correr daquele maldito furgão e pulou para um tombo violento para qualquer idade, tanto mais a dela. Mas a dor de impactar-se com o asfalto ou com as pedras não demorou, porque, como ela estava certa, os zumbis logo a atacaram para devorar em minutos, talvez mesmo em segundos. Cena brutal que não sei porque cargas d'água tentei direcionar meu olhar para os vidros retrovisores do furgão. Eles aproveitaram a rara iluminação dos postes dali para mostrar o aglomerado de criaturas por sobre o que há instantes era minha avó.

Chocado com a cena, precisávamos ainda ser resilientes. Logo nem todos precisariam demonstrar ganas de coragem porque nosso furgão tombaria em uma rua de calçamento bastante acidentado. Ele conseguiria se manter de pé, mas aí o motor já não funcionava. O pior é que, independente do motor, a bateria estava engasgando, indo para o saco e teríamos nada para substituí-lo. Abandonamos o furgãozinho na rua. Mas mal os metidos a mecânico haviam descido de plantão (o mexicano e o pantera negra) e o exército de zumbis também dava as caras como plantonista contra nossa missão de sobrevivência.

Meu pai ficou para trás naquele episódio, isto eu consegui visualizar. E talvez fosse melhor que não vi o paradeiro de minha mãe. Embora assim ainda me reste alguma esperança de que esteja viva. Sobravam comigo o grupo de forasteiros, os incapazes de consertar um furgão de bateria desgastada em tempo recorde. Também em nossa corrida inicial para fugir daquelas coisas, minha irmã e o pantera negra em posse das armas, não valeria gastar um tiro que fosse na direção daquelas criaturas. A necessidade de acertar na cabeça com a luz oscilante dos falhados postes dariam grande chance de desperdício. Além do mais, a velha descoberta. Mandar bala dali só serviria para atrair mais daquelas errantes criaturas. O que precisávamos de fato era de um novo carro para tomar distância em busca de uma estrada segura, algo que nem aquela praia nem o porto podiam oferecer.

18/03/2022

Acordo

Deixo as ideias correrem livres na madrugada e acordo preso a esse corpo e à situação sócio-financeira desse país. 

Sonho em percorrer grandes caminhos e acordo cercado por quem pede esmola.

Sonho por grandes caminhos e acordo amarrado a um destino mais breve.

Sonho repetir o passado e ele parece mais distante do que qualquer futuro.

Sonho construir um futuro e o presente me abomina.

Sonho deixar realidades para trás e elas me gotejam a camisa, escorrem da testa ao lombo. 

Sonho superar as dificuldades e elas me cercam tentaculosas. 

Sonho terminar melhor esse curto texto e ele já chegou ao fim.

Desculpe por não escrever

Desculpe por não escrever sobre nós 

Tanto quanto eu deveria

Só estou acostumado a escrever

Sobre o que seria 

E quando é 

Eu só vivia


Eu só vivia

Eu só sorria ao seu lado

Eu só sorri ao seu lado

Eu só sorria ao seu lado


Nos outros lados eu mentia

Nos outros lados eu morria

Eu só sorria ao seu lado

Eu só sorri ao seu lado

Eu só sorria ao seu lado 

17/03/2022

Caminhada

O fim do verão se aproxima. Os salva-vidas já não repõem as bandeiras com as condições do mar. Aprendi eu mesmo a diferenciar o estado para bandeira vermelha ou para amarela. Considero que anda bem mais para vermelha. Mas hoje o mar estava quente. Costumo caminhar com os pés e às vezes as panturrilhas para dentro d'água. E o mar subiu bastante nos últimos dias. Não ameaça as dunas, mas cobre a areia, que fica com uma cor mais morena e com aspecto mais mole a cada pegada que lhe impomos.

A praia já não era das mais cheias, agora convive com poucas pessoas. Gosto de caminhar assim, com a extensão de areia para mim, com raros guarda-sóis, raros transeuntes que se apresentam. Acho melhor dessa forma, sem a possível obrigação repentina de cumprimentar alguém que conheço ou deveria conhecer, talvez algum vizinho da mesma quadra, porque em cidades pequenas as pessoas são acolhedoras e se conhecem. Caminho com menor dúvida dessa necessidade com o rosto parcialmente exposto por detrás de meus óculos escuros.

Observo a sucessão de ondas marítimas, hoje bastante envolvedoras, uma atrás da outra, elas mal esperando a respectiva vez de desaguar a espuma esbranquiçada. Direciono o olhar para o outro lado, com as dunas ora mais altas, ora mais baixas, obstruindo a visão das casas ou dos raros prédios, ou ora os permitindo uma visão mais completa e panorâmica. Observo as manchas que a água insiste em manter sobre as areias. Lagoinhas formadas que só serão desmanchadas quando o mar novamente avançar à noite. Permanecerão ali, sem passar do líquido para o gasoso na atmosfera, sem evaporar. Pequenas reservas de água salgada nos caminhos que encontram-se entre a imensidão do mar e as dunas, naturais barreiras, retenções de sua força.

Essas poças formadas, as lagoinhas, elas proporcionaram um aspecto de abandono para a cidade que se desenhava tímida por trás das dunas. Era como se alguém não tivesse feito o trabalho de recolhimento daquela água. Besteira, ilusão criada minha porque o processo é todo comandado pela natureza. Agora pela natureza, mas sem intervenção humana onde costumava haver é o crescimento do mato na descida da guarita dos salva-vidas. A grama cresce mais sem ser pisoteada pelos banhistas que subiam e desciam a estradinha. O mato avança e cobre as dunas, sem adversário na ação humana. Isto é recém março. Como estará o trabalho de poda em maio ou junho? O aspecto sombrio da cidade mais esverdeada de mato crescendo, de água salgada parada sobre as areias, de menos fluxo de humanos. Um paraíso turbilhante entre radiante ou esquecido. Entre maravilhoso e assustador.

Caminhei a passos firmes e determinados, para avançar alguma etapa em minha recuperação de saúde, para mostrar que é possível ou para simplesmente desopilar mais um pouco. Tinha quase como promessa a chegada à próxima praia, um bairro bem mais residencial do que o meu. E notei que as pessoas para lá são mais praieiras. Aproveitaram o dia nada nublado, perfeito de sol para abrirem guarda-sóis, reunirem a família e porem as crianças a brincar.

Um menino aguarda que sua irmã chute a bola. Ela ameaça duas vezes, finge que vai chutar, mas erra de propósito e recomeça a corrida lá de trás novamente em direção à bola. O menino está ansioso, não aguenta mais a demora da irmã. Na terceira vez ela chuta, bastante fraco, é verdade, avisa para mãe que já jogou, já jogou, e corre em direção ao mar. O menino espera a bola vagarosamente descer a pequena rampa de areia e chegar para seu domínio. Ele a envolve, quica e faz embaixadinhas, demonstra bom controle. Talvez sua mãe o obrigue a brincar com a irmã mais nova. É possível. Algumas mulheres e alguns homens dominam os raios solares em suas peles expostas sobre as areias. Noto que aqui os homens também gostam de tomar banho de sol e há nenhum problema nisto. Apenas que mais para o Extremo Sul deste vasto Brasil considerava eu que essa atividade era mais feminina. Podem ser novos tempos também, porque andei ausente das praias pelos últimos anos, principalmente pela vinda da surpreendente pandemia.

Digo que as pessoas do outro bairro são mais praieiras porque demonstraram boa concentração de interessados pelo desfrutar do dia nas areias, mas é somente na baixadinha daquele pequeno conjunto de ruas. Ruas que serviam para boa prática de um outro esporte: o skate. Vi alguns meninos andarem assim em outras expedições que fiz. Me refiro a esse como o 'outro' esporte, porque o primeiro nessas condições de praia seria o surf. Noto que com o avançar da retirada do verão, as ondas parecem mais propícias aos surfistas, ou ao menos assim eu considero. A praia catarinense começa a apropriar-se melhor do apelido de capital do surf, embora acho que este rótulo no desempate pertença à Garopaba.

Nenhuma nuvem interrompeu meu contato com o sol. Tomei cuidado para não me cansar em demasiado, porque ainda me recupero das maiores fraquezas, do meu naufrágio pessoal. Levei comigo além das chaves do apartamento, no bolso oposto uma garrafa d'água, que desfrutei já no caminho de volta. A caminhada foi muito positiva para o meu bem estar. Passei sim por alguns pescadores, como de costume, mais idosos do que jovens, alguns acenares de cabeça, mas nenhum boa tarde arrancado de minhas cordas vocais. Algumas pessoas realizam também a atividade física, algumas de tênis pela altura maior das areias, eu no patamar mais baixo da suposta rampa que afirmei sobre a trajetória da bola do menino. Eu molhando os pés e retardando meus movimentos quando este me alcançava até altura maior das pernas. Os passos ficam mais vagarosos e tenho de cuidar para a água que levanto com os pés não molhar as chaves, com dispositivo eletrônico, dentro de meu próprio bolso.

Me surpreendeu a temperatura elevada da água, porque nos últimos dias até moletom eu tive de usar pelas noites. Tomaria um banho, sem dúvida alguma. Durante a caminhada, identifico alguns pontos de referência. Os prédios os quais minha mãe afirma que um apartamento deles pertence a um corretor imobiliário que os ajudou nessa mudança de moradia. Antes desses prédios, o topo do morro mais alto, com uma antena de sinal que com certeza não pertence à minha infrutífera operadora, sem sinal na praia. Antes do topo do morro, uma simples arvorezinha, onde quase sempre há algum morador que organiza seus pertences, cadeira de praia, toalha, roupas, à sombra da mesma. Antes disso tudo o hotel maior, que dispõe cadeiras e espreguiçadeiras brancas raramente ocupadas pelos seus cada vez mais escassos hóspedes. Antes disso o restaurante maior que fica encravado entre as dunas, onde não se deve poder mais construir. Antes disso um pequeno centro de eventos para apresentações musicais, alguma prática esportiva, como o vôlei de praia ou o frescobol, que eles gostam muito. E antes disso a guarita de salva-vidas, onde costumo subir e descer pela praia, ficando bem próxima ao nosso prédio esverdeado. 

Deixei que minha mente divagasse por essa caminhada, uma das últimas que farei nesse verão, seja pelo fim cronológico da estação, seja pelo fim de minha estada nessas terras, embora por enquanto. Voltarei em outro momento? Não sei quando nem por quanto tempo. Gostei bastante dessa cidade que eu consideraria uma cidade de brinquedo, nomenclatura que talvez eu melhor desenvolva em outro texto. De brinquedo por suas dimensões reduzidas, por sua organização bem plausível, por suas acomodações até eficientes e aconchegantes. Uma cidade planejada como um brinquedo ou algo muito sério... uma estrutura de maquete escolar ou universitária sobre uma planície de isopores.

Lembrei do que já passamos, do que estamos passando, mesmo longe, e do que ainda iremos passar. Conectei-me a esse fim de verão, a esse fim de tarde antes do meu exercício diário da escrita jornalística - ou algo próximo a isso - com a certeza de que o tempo passa. Se as coisas vão melhorar, é uma grande dúvida. Tive a certeza do respaldo de ter sido uma boa tarde. Torço para que mais gente consiga atingir esse objetivo. Não sei quantas vezes mais irei atingir, por minhas condições clínicas (dramático) ou simplesmente porque a vida nos surpreende em eliminações inesperadas. Quantos irão antes de mim mesmo que meu quadro clínico piore? Sem dúvida muitos, porque não cessam as guerras na Ucrânia, no Afeganistão ou na Síria, ou na Palestina, ou os surtos de Covid-19 que voltam a ameaçar a China, a Coréia do Sul, setores da Europa e jamais abandonou o Brasil, embora a revogação do uso de máscaras.

E é sem máscara (ou com alguma subjetiva?) que desfilo esses passos com no rosto nem um semblante emburrado nem um sorriso forçado, mas uma expressão até satisfatória. Satisfeito pela volta que dei à tarde, por ter cumprido a promessa feita a mim mesmo de atingir até a outra praia de distância, pela superação hoje de meus múltiplos problemas médicos, pela conclusão inconclusa de mais um verão, de estar morando na praia, embora enfrentando essas adversidades surpreendentemente advindas em meu corpo. Chego ao fim da praia e retorno, chego ao fim do verão e quero mais verões, chego ao fim de um bom dia e desejo mais alguns.


13/03/2022

Imortalidade

Creio que muitas vezes os escritores são apenas temerosos em perder suas lembranças ou suas histórias e portanto as registram. Mais por orgulho a eles próprios do que pela importância que as histórias possam ter. Ao invés de sepultar memórias junto com seus corpos em túmulos, dedicam ao papel a tentativa de imortalidade que a saúde indica muito menor probabilidade.

10/03/2022

Ao invés de reclamar do que falta, valorizar o que ainda se tem.

Repetir mil vezes para ver se funciona.

05/03/2022

Crítico de Praia Famosa

A começar que o acesso para essa praia me deixa tremendamente claustrofóbico. Ok, entendo que seu isolamento impossibilite outros acessos, faz parte da preservação ambiental inclusive. Porém a estrada que liga o caminho é composta por carros, carros e mais carros. A mata é cerrada por ambos os lados. São poucas casas desde o trevo de acesso. Notei o abandono de algumas. As demais mantém estilos mais simples até carregarem-se com o esnobismo quanto mais próximas das areias.

Após a hora de condução por essa estrada, na fileira de carros, uma pista de mão dupla, finalmente chega-se ao mar. Antes do mar, melhor recordando, passamos por lojas de biquínis, de vestidos, bijouterias e muitos restaurantes. Lancherias também existem aos montes. Impossível que alguém com opção financeira fique sem o que comer. A mistura de molhos e cheiros me deixa meio zonzo. Não reparem tanto, meu estômago sempre foi fraco. Cachorros quentes, prensados, restaurantes de frutos do mar, bares especializados nas misturas. Em algumas travessas para dentro do mato observo cachorros. Esses também devem ganhar boa recompensa de sobras a cada noite. São realmente muitos restaurantes. Quando certa vez há quase uma década fomos procurar o restaurante de um parente, percebemos que jamais encontraríamos sem a pista do nome. Só tínhamos o nome dele, fato quenem todos, ou mesmo poucos, deveriam saber.

Soube nessa ida descrita agora que eles nem estão mais com o restaurante. Se mudaram e se especializaram em bebidas medicinais. Uma loucura. Loucura é o que posso imaginar para vida noturna desse paraíso estranho. Paraíso a gosto de muitos, visto a lotação. Mas que, às primeiras impressões, não me apetece. Mas enquanto escrevo percebo minha curiosidade com ambiente tão diferenciado. Experiência antropológica é o mínimo que posso imaginar nesse cenário. Percebo um clima esnobe. Como se as classes mais altas quisessem não só o contato, mas o extenso domínio sobre a natureza. Como se as tatuagens tribais ganhassem novo sentido nesse espaço. Como se as camionetes de ostentação fossem pró-natureza. Como se não fossem necessárias as tantas placas de aviso para recolhimento de lixo. O ser humano quando se ajunta costuma aprontar.

Noto os muitos carros parados na incessante disputa por espaços. Cada vaga pode ser comemorada como se fosse a para Copa Libertadores. As pessoas param para observar o mar, para observar umas às outras, como costumam fazer nas praias. Alguma disputa é sonora por música. Eles escolhem o ritmo, você não, obviamente. Entre a encosta dos morros e a areia não há tamanha distribuição de espaço. É uma praia disputada como um ingresso vip, muito celebrado com selfies em stories. É o objetivo de muita gente.

Chegar até lá exige um bom tempo de deslocamento de carro. Quem quiser algo mais alternativo pode tentar a sorte de uma carona no caminho. Para encarar a trilha de subidas e descidas a pé ou de bicicleta, é preciso um esforço épico e uma pré-disposição atlética.

A ambientação sugere a conquista de lugares rústicos e alternativos. São decorações que a muitos atrai. A mim mais afugenta. Mas é possível que eu encare, embora me sinta ameaçado pela proximidade das casas de alimentação e entretenimento. Tudo isso me faz pensar em um ambiente tumultuado e badalado demais para uma calma refeição. À noite mesmo, quando o objetivo das pessoas for exclusivamente o entretenimento, talvez tenha seu valor.

Além das tantas casas nessas ousadas, ou tentativas de ousar simples, casas de espetáculos, é preciso frisar a quantidade de placas para pousadas e hostéis. Como não há disponibilidade para construção de prédios (mas bom), o predomínio são dessas modalidades de hospedagem. Nada de hotéis. Apenas pousadas e hostéis. Hostéis ou hostels? Que me perdoem a grafia correta. Neles também está a presença forte do capitalismo na disputa de fachadas e decorações. Me parece um ponto importante. É para transparecer uma conexão sagrada com a natureza, mas são lugares onde só os mais abastados com camionetes costumam chegar, onde o preço da comida não é convidativo e onde os estabelecimentos seguem a mais pura cartilha do capital, na lei da concorrência por seus clientes. Não parece muito com alguma edição do programa Largados e Pelados, tirando o predomínio da natureza em volta.

Pois no predomínio de pessoas querendo se conectar à natureza, observa-se a tentativa de variação em relação à espécie humana urbana, mas bem notamos que quase todos ali são urbanos na amplitude do ano. Em uma rápida pesquisa, a estimativa é que a população praiana dessa localidade não ultrapasse 4 mil pessoas durante o percorrer do calendário. Sendo assim, são realmente poucos os privilegiados que podem se considerar moradores fixos. Imagino a desolação do espaço no inverno, quando aí sim pode adquirir um tom mais cabível com a proposta.

Esse ambiente de boas vibrações criado durante a estação do verão, quando o dinheiro circula, é facilitado para pessoas em que as dificuldades latentes do país ainda não fazem cócegas, o que também explica um percentual de votação em certos políticos. Em resumo, é muito fácil buscar saciar a fome espiritual, quanso a barriga está tranquila. Quando alterações trabalhistas não lhes competem, quando os atrasos sem precedentes no país chegaram e não lhes aborrecem a vista marítima e o digno período de férias.

Pode ser que tudo isso se some à minha descrente apreciação, crescente depreciação e curiosidade. Isto mesmo. Conforme critiquei também me vi curioso por explorar essa fauna tão diferenciada de minhas ambientações costumeiras. Seria eu um infiltrado, um espião, um anotador a lápis de minhas voláteis ideias. Na pior experiência possível, caberia ao menos uma melhor exploração antropológica dessa situação toda. Assim sendo, posso confirmar ou depor meus pontos, ratificar ou retificar. Façam suas futuras apostas.

03/03/2022

Misturas

As cores da natureza

O cinza das cidades

Se misturam 

É a realidade 


As cores que já existem

As cores que o homem cria

Animais confusos 

Cruzam muros

Todos os dias


Pássaros improvisam ninhos 

E caminhos por onde voar

Voam para fugir da chuva

Nos avisam melhor que o celular


Bichos que cruzam a estrada

Testam a sorte sempre ao cruzar

Cruzam e se reproduzem

E induzem outros ao lado de lá 


Bichos humanos procuram motivos

E abrigos para descansar

Vivem a violência das ruas

Ratos, baratas e seus semelhantes

Adivinhe qual vai te atacar 


Bichos humanos procuram sentido

E motivos para levantar

A fome de comida já não basta 

Mas não passa em outro a esperar




Movendo desertos

Estar deitado contigo te vendo revirar os olhos. Por tudo ou por nada. Sentir o arrepio da pele de suas coxas. Sua vagina irrigar-se. Constatar como um estudioso elaborando um relatório. Chegar ao auge da evolução humana em um movimento ao mesmo tempo neandertal.

Gosto muito de passar o tempo deitado preguiçosamente. Contigo então é exemplo de certeza de não ver o tempo passar. Colecionamos assunto em uma coleção sem esforços. Passaria dias inteiros assim não fossem as necessidades fisiológicas e financeiras. Não fosse minha deficiência constatada em vitamina b12 e aproveitaríamos mais. Não fosse linha urgente em apontar esses problemas desnecessários e seria um texto mais bonito. Seriam só aspectos positivos, mas a vida jamais será assim. Idealizações não são a vida e a vida passa longe das idealizações.

Por isso me levanto longe de ti e sigo tarefas as quais não queria me decupar o tempo. Mas são a única alternativa para seguir, com a mente distante entre o que é lembrança e o que é expectativa. E o que é você, passado, na mente o presente e o futuro... futuro do presente ou do pretérito. Meu mais que perfeito que mais nada conjuga nos verbos, mais que perfeito que só serve em nossas pobres e pretensiosas analogias.

Me estendi demais quando só queria estar estendido ao teu lado. Mirando nossas pernas, sua ampla vantagem. Contente apenas pelo simples verbo de ligação estar. Estar contigo, estar em finito mundo e momento que nos englobam infinito. Esquecer qualquer outro resquício de tempo. Torneira fechada para qualquer outra substância mundana que não seja do nosso mundo. É como uma bolha, uma redoma. Um isolamento dos problemas e não o problema que geralmente é um isolamento. É estar contigo, seus cabelos a enredarem-se e desfiarem-se com graciosidade. É a boca em suspenso à espera do próximo gesto. É o segundo que congela como uma fotografia que logo em seguida já será lembrança. É o sorriso de canto imperceptível à distância. É a distância que inexiste quando estamos assim juntos. Sintonizados em mente e corpo. E às vezes mais corpo, às vezes mais mente.

Nós. De pernas, braços e pronome. Nós, como o ato de atar ou nós primeira pessoal do plural. Us arrancados em inglês ou Nosotros na extensão prodigiosa do espanhol. Queria estar estendido ao teu lado, atravessado desertos de sóis escaldantes para terminar assim e ter enxergado no congelamento de um segundo que tudo isso, que toda travessia valeu a pena.

24/02/2022

Posso ir mais longe

Agora eu volto

Por onde eu vim

Capaz que eu fique tonto 

Olhando minha sombra

Távola não é redonda

Nas fábulas

As maçãs comem anacondas


Agora eu volto

Por onde eu vim

Capaz que eu fique tonto

Vendo minha própria sombra

Posso ir mais longe

Que as sondas lunares

Bombas nucleares 

Conversas de bares

Incidente em Antares 

Gabriel García, o Márquez

O mais alto dos andares

O nomadismo e os lares

Posso ir 

A muitos lugares


As ondas do mar

Fazem a mente viajar

Por aí pelos ares

A te conectares 

A se conectar 

22/02/2022

O que me dirá essa canção

Que nada me dizia?

Será que eu mudei?

Será só mais um dia?

Casa em frente ao mar

Uma casa sendo construída em frente ao mar. Ela não está pronta, está sendo erguida. Será um sobrado, o que bloqueia mais a minha vista para o mar naquela direção. Estamos na quadra de trás. Nosso prédio não tem obstáculo imediatamente à frente. À frente está um terreno baldio bastante largo, onde três éguas pastam com uma deliciosa missão de evitar um crescimento desordenado de mato e arbustos. Elas têm se saído bem. Se imediatamente à frente não temos obstáculo que obstrua a visão marítima, para os lados temos a vista de casas erguidas. Erguidas de frente para o mar.

Este sobrado está com o formato pronto. Faltam os acabamentos, como é de se esperar. Do contrário seria só um esqueleto acinzentado. Varios homens estão responsáveis pela obra. O responsável maior, digamos, é um engenheiro de meu sobrenome. Estranha coincidência por estas bandas. Para alguns operários, talvez a maior oportunidade para estar próximo do mar, nesse contato que tantas energias nos despertam. Podem ter vindo de longe, do interior. Podem estar ocupados o suficiente em outras chances, não tendo um fim de semana digno para contemplação, visitação e acolhimento junto às salgadas águas. Uma visão um pouco dramática de minha parte. Porém, não deixo de pensar nesses homens que ouvem, veem, mas estão impedidos de sentir o mar, ali defronte. Trabalham sol a sol, mormaço a mormaço, bronzeiam suas peles, mas não sobre a areia. Remexem o cimento e pavimentam a escada de ligação deste sobrado. Calçadas e concretos.

Do alto de nossa sacada, nem tão alta, segundo andar, os observo sem a definitiva atenção que os pudesse identificá-los ao longe ou ao perto, sem ser o único atrativo, porque realmente mais tempo eu passo olhando diretamente o mar. Mas eles não podem sequer parar muito a obra para apreciar a vista. Precisam cuidar dos materiais, do cimento no ponto certo, da colocação austera. Fico entristecido pelo tão perto tão longe de suas rotinas. Por legislação, parece que nada os impede de terminarem o turno e pularem direto na água, em um fim de tarde/ início de noite. Mas não os vejo nem consigo imaginá-los muito nesse desfecho. Devem direto às casas, direto aos banhos. De chuveiro.

É como se a praia, de construção tão rica, em frente ao mar, fosse restrita aos mais endinheirados. Não sei se é esse o código de conduta. Provavelmente não é. Provavelmente só eu demore tanto tempo a devorar essas questões, que na verdade elas me devoram. Meu pai encerraria esse monólogo todo de uma forma bastante simples.

"Melhor estarem ali trabalhando de frente para o mar do que não estarem trabalhando" - falaria com a experiência de quem já trabalhou e de quem já ficou sem emprego. Com essa frase dele, sem mais delongas, aqui encerro.

18/02/2022

Trabalhos Ocasionais de uma Escrava (1973)

Acabo de assistir ao ótimo filme "Trabalhos Ocasionais de uma Escrava", que começa a se destacar logo na escolha do título. Obra do alemão Alexander Kluge, diretor que empregava sua irmã Alexandra Kluge nos papéis principais. E acertadamente. Neste drama de cunho social como não deixaria de ser no cinema alemão de 1973, várias questões atuais são abordadas mesmo aos pés dos 50 anos depois.

A obra começa a abordar o papel da mulher na família. Casada com um marido despreocupado, egocêntrico e frustrado, a Sra. Bronski precisa se desdobrar entre o papel de mãe, logo cuidadora das crianças, e sustentadora financeira da casa, através de um emprego irregular pela sociedade alemã da época: abortista. Ela era uma espécie de enfermeira ou intermediária também para tomar conhecimento dos casos das mulheres necessitadas, repassando os chamados ora para um médico, ora para uma médica. Como qualquer atividade ilegal, ela possui dificuldades para receber o dinheiro. Várias passagens do filme são elucidativas, nas escolhas minuciosas, detalhistas e sensatas dos Kluge.

Um exemplo sobre o pagamento é o médico abortista dizer que a Sra. Bronski receberia nada na ocasião, pois só estava encaminhando pacientes que nem um tostão tinham para ajudar na clínica. Outra questão da ilegalidade são os subornos e as denúncias de irregularidades. Àquela altura a vida da Sra. Bronski já estava fadada ao ilegal, ao rasgo das leis. Imagens fortes como as de uma operação de aborto abrem o filme para ditar o tom da trama desde o começo.

Chama a atenção o aspecto contraditório de que a Sra. Bronski trabalha em/para clínicas clandestinas de aborto mas possui vários filhos, que, boa casa em que o espeto do marido ferreiro seria de pau, são cuidados pela amiga Sylvia, personagem secundária da trama, amiga fiel que acompanha a Sra. Bronski até onde lhe é possível (saberão ou não porquê).

Eis que com o fechamento desse ramo ilegal de abortos, as contas familiares na Alemanha setentista permanecem a chegar e algo precisa ser feito. O Sr. Bronski se emprega em uma indústria para a qual trabalha em sua especialidade: a química. O eixo do filme, que segue destacando o protagonismo ou a ausência de das mulheres na sociedade, migra para a luta sindical, já que a fábrica para onde trabalha o Sr. Bronski vai se mudar da Alemanha para a mão de obra mais barata e periférica de Portugal. Além de abre aspas expandir negócios, é a forma de contornar leis trabalhistas e as pressões sindicais em voga na Alemanha, representadas na luta austera e incessante da combatente Sra. Bronski, visto que seu marido era, conforme relatado, um verdadeiro frouxo.

Acompanhada de Sylvia, Roswitha Bronski busca mobilizar essa luta sindical, procurando ajuda nos meios de comunicação, onde encontra também dificuldades. Tanto do ponto de vista operário para a luta vigente, quanto de comunicação com os galhofeiros jornalistas dos periódicos. Mas ela não desiste de sua marcha e procura alternativas para driblar essa imposição de fechamento de vagas de emprego, o que prejudicaria rudemente sua família. É interessante analisar que a obra perpassa diferentes movimentos sociais, de algo mais puramente feminista ao movimento operário em si, mas sempre com a ênfase do papel possível atribuído à mulher, personagem principal Roswitha Bronski na película.

Nesse emaranhado proposto, a figura das crianças vai se perdendo e a personagem que inicia mãe preocupada logo está de corpo e alma vestindo seu papel de mobilizadora das massas, através da conversa, de reuniões secretas e produção de panfletos, obviamente contestados pelas autoridades fabris.

Uma grande obra naquele agradável e por vezes descontraído clima crítico das Nouvelle Vagues que ditaram o melhor do cinema europeu na década passada, os anos 1960. É a segunda obra que confiro de Alexander Kluge, ao passo que a primeira, Despedida de Ontem (1966) também emprestava protagonismo à sua irmã no papel de uma andarilha perdida entre vidas, identidades e empregos, em meio à clandestinidade, à burocracia, os preconceitos e as dificuldades de impor-se mulher em uma sociedade onde os homens criam, adulteram e regem as leis. Nessa toada, nos sete anos que separam os dois filmes, vemos um Alexander Kluge sem medo de posicionar sindicalmente, com mensagens abertas da causa socialista e anti-patronal.

17/02/2022

Melhor por escrito

Acho que gosto de escrever também porque, oralmente, nunca gostei de ser interrompido. Pavor de começar a falar e ter de repetir ou começar de novo por interrupções ou porque os outros julgam ter coisas mais importantes para fazer. Assim também sempre detestei terminar algum causo, alguma história e notar o semblante decepcionado ou pouco animado (ou pouco atormentado, dependendo o efeito desejado), indiferente, semblante de pouca relevância ao recém ouvido por meus interlocutores. Dessa maneira, a escrita me parece uma forma mais indireta para tratar com as coisas, mesmo as do cotidiano. Você que está lendo essa divulgação que em seguida irei publicar, não sei se você está interessado ou desinteressado. Não sei se está gostando ou não está. A escrita, em cartas, em blogs, em textos publicados fica assim, mais impessoal. Não sei a reação de quem está do outro lado do texto. Não sei a reação de vocês.

Outra questão muito mais abordada por nós tímidos, por nós antigos ou nós desconfiados, é o poder seletivo, na escolha de palavras para compor um texto escrito, diferente do discurso falado. Também aproveito para confessar que muitas vezes apenas cuspo meus textos, sem um planejamento prévio, sem uma organização anteposta das ideias. É tudo mais interposto. Sendo construído, literalmente, ao gerúndio.

E muitas vezes não gosto de planejar minhas caminhadas, ou ao menos gosto de mudá-las a gosto, à escolha da hora. Várias são as situações da vida que encaro e procuro resolver dessa forma. Acredito na força dos improvisos, creio na variedade, na fuga das mesmices e engessamentos que todos enfrentamos. Me senti a própria Martha Medeiros ao percorrer essas últimas linhas. No disparo improvisado, obviamente. É que também confesso ter lido materiais, livro dela. São coisas da vida, como o nome da obra sugere.

De minha parte, a escolha das palavras certas quase sempre não é problema. Procuro formular essa teia elaborada com precisão. Agora o efeito que causará no interlocutor, se causará indiferença, decepção ou até irritabilidade, prefiro deixar para o trabalho escrito, porque frente a frente, ao vivo, sobre um palco onde ouvem-se vaias, ou até a internet, palco de feedbacks muitas vezes maldosos, prefiro evitar de absorver. No cotidiano, no trabalho, em atendimentos feitos ou recebidos, onde a possibilidade de nos atrapalharmos e ouvirmos queixas é grande, a crítica negativa faz-me mal. Pelos meus escritos também, e é por isso que prefiro manter certa cautela, certa distância, certa ponderação e preocupação. Seleciono melhor meu público leitor e para quem conto um conto, como pergunta uma canção da banda uruguaia La Vela Puerca.

Ainda não cheguei à (agradável?) idade de não me importar com as críticas e me desligar mais do que pensem. Enquanto isso, procuro interligar e agradar. Espero um dia chegar mais no que vendem ser a arte sutil ou não de arremessar o dane-se. Mas não pretendo ler o livro esse. Enquanto isso, permaneço seletivo.

16/02/2022

Captar

Meus olhos captam

Imagens falsas

Porque eles estão aptos

Para captar

As águas vivas

As águas vivas

Elas são nativas

Do oceaaaanooo

Nós é que não sooomos

Nós é que não sooomos


Caminhar pelo mar

Sempre me deixa desperto

Caminhar pelo mar

O mar sempre inquieto

Caminhar pelo mar

O mar sempre incerto

O mar sempre certo

O mar sempre discreto

Se não prestamo atenção

No volume de água

Naquela imensidão

Naquela e mansidão


As águas vivas

Elas são olgivas

Que nadam graciosas

Que nadam bem altivas

Transparentes e rosas

Pelos fundos do mar

Criaturas esquivas

Tentáculos, ventosas

E as belas águas vivas

E as belas águas vivas



15/02/2022

Crônica sobre os Gabriel

Eram dois Gabriel. Mas eram muito diferentes. Processo amplamente descritivo. Um Gabriel estava sempre asseado, como se diz. Vivia limpo, de prazo cumprido com o banho. O outro Gabriel podia utilizar a mesma camisa vários dias da semana, não se preocupava muito com essa aparência ou imagem.

Um Gabriel não tinha pelos. Nem se pode dizer que era barbeado, porque a barba não lhe brotava em qualquer daqueles anos de ensino médio e mesmo no início da idade adulta. Gabriel apenas olhava e invejava o bigode, a barba que os companheiros tinham a surgir, mesmo aqueles que estavam no seu time, abandonavam o barco e pulavam para o outro lado, nem que fossem penugens, pequenas barbichas que brotavam. O outro Gabriel era o chefe do barco para o qual muitos chegavam. O outro Gabriel era barbudo, barba cerrada, disfarce de boa porcentagem de seu rosto encoberto por pelos grossos.

Um Gabriel era o filhinho da mamãe. Sua mãe estava sempre presente. Para buscar boletins, para conversar com professores, para auxiliar alguma coisa, para preparar um sanduíche, para perguntar como ele estava, para saber com quem andava, para tratar um machucado, físico ou espiritual. A mãe do Gabriel estava sempre lá. O outro Gabriel era o contrário. Um fujão. Chegou a fugir de casa duas vezes. Pulava o muro e ia curtir a noite. Voltava dois ou três dias depois. Os pais cansaram do Gabriel, até porque cansavam rápido. Suas fugas não eram mais acompanhadas de preocupação. Deixa que se divertisse, não perderiam mais noites de sono por ele, que perdia noites de sono nas fanfarras em que se metia. Até que os pais viajaram para não mais voltar e ele se emancipou, mesmo menor de idade. Era referência para os demais, descolando bebidas e cigarros.

Nisso obviamente também se difereciavam. O primeiro Gabriel era totalmente abstêmio. Era inclusive menino de igreja. Sempre bem vestido, predominantemente com roupas claras, com peças brancas. Grupo Jovem da igreja, violão e louvor ao Senhor. Bochechas cumprimentadas por velhinhas. Hóstia em dia a cada domingo. Missas de salmos cantados. O outro Gabriel também era músico. O outro pegava o violão e improvisava algum rock. O primeiro Gabriel até gostava de rock, mas era mais dos antigos brasileiros das décadas de 1980, no máximo respingos dos anos 90. O outro Gabriel também bebia dos clássicos, mas puxava para o satânico. Gostava do punk rock também e gostava de todas as quebras de paradigma, nem que fosse o grupo Queen com Bohemian Rhapsody, burlando com a indústria musical que tinha a toada por músicas curtas, de tamanhos comerciais para programação de rádio.

O primeiro Gabriel ouvia rádio. Comentários políticos, muitas vezes conservadores, pois era rapaz de igreja. Partidos do centro para direita. O outro Gabriel gostava de rádio pirata, de programação com linguagem chula, de palavrões à reviria. Mas também gostava de políticos conservadores. No caso os que aprovavam porte de arma, que este, o 'outro Gabriel' gostava ter consigo para se proteger. O pai esqueceu uma das armas na mudança. Levou uma, deixou outra. O Gabriel tinha ela no armário. Era ouvir barulho estranho - ou mais estranho que o habitual de noite - que o Gabriel já se direcionava para esse armário para ver qual que era. Nunca havia usado, mas exibição aos amigos era constante. Esse era o Gabriel.

O Gabriel da arma tinha mais amigos para mostrar a arma. O primeiro Gabriel era reservado. Andava no máximo com os amigos do Grupo Jovem. E não andava muito. Era tomar um sorvete, uma ida à biblioteca. Uma tarde para comer algum lanche na casa de amigo. Passar alguma tarde quente de sol. O Gabriel armado era mais amado também. Atraía a atenção de algumas gurias, mas na base da insistência, porque bonito não era. Tinha o nariz quebrado de uma briga que se meteu na infância. Cicatriz permanente. O resto do rosto escondido na barba. As camisas de bandas de rock se repetiam. As más influências, ou mesmo era ele próprio que já influenciava os outros. O álcool e depois as primeiras drogas. Da inofensiva maconha à coisas mais pesadas.

O Gabriel abstêmio mantinha-se na dele. Um refrigerante, para ele, já era droga o suficiente. Já estava se passando nos cuidados com o próprio corpo, tão cultuado e citado nas palestras da Igreja. A fortaleza, o campo de resistência, a estrutura pela qual se protegia o bem estar da mente. Enquanto isso o outro Gabriel virava noites, orgnizava festas, cruzava a cidade rumo a outros bairros. Escapava de consertarem-lhe o nariz.

O primeiro Gabriel tinha boas notas. Desde os primeiros anos de escola, sempre se manteve entre os primeiros, inclusive no Instituto Federal, onde ambos haviam passado. Gabriel poderia ser considerado um dos melhores alunos do Instituto, e, por se tratar de uma instituição que acolhia alunos da cidade e da região por conta do bom ensino gratuito, era um dos melhores alunos de toda aquela regionalidade. O outro Gabriel até poderia ter boa cabeça para estudar, mas, para ele, sem os pais em cima, tanto faz. Começou bem, na época em que passou na prova ainda se debruçava por vezes sobre os cadernos, mas foi abandonando este hábito. As notas piorando, a frequência mais ainda do que elas. Sumia do IF por semana. Os professores, assim como os pais dele, desistiam de perguntar.

O primeiro Gabriel passou a gostar um pouco disso, embora não confessasse ou mal tivesse a quem confessar. É porque, apesar de tantas mudanças, de tantas diferenças, de tão pouca semelhança, eles ainda se confundiam quando, vez ou outra, um professor desatento ignorava a presença do sobrenome: Gabriel! - os adultos chamavam - e ambos respondiam: - Eu?? 

Quadrinhas

Há várias formas de dizer/escrever
Sem estar errado
Mas qual a melhor forma
Pro interlocutor do outro lado?

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Faça umas quadrinhas 
Junte tudo num quarteto
Assim como a hipotenusa
É formada pelos catetos

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Ai ai
Tristeza profunda
A água recebe a merda
Só herda o que é da bunda

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Ai ai 
Poesia de banheiro 
Só assim eu passaria
O tempo de um dia inteiro

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14/02/2022

Manoéis de Barros

De Barros, Manoel

Lápis e papel 

E novos mundos

Absurdo é alguém

Não gostar de ti

Manoel de Barros

E seu sorriso guri


Manoel de Barros 

Manoelmente 

Escreve em seus cadernos

Que se multiplicam 

Aos montes

Pedaços que são eternos


Poeta da palavra

As larvas são mais rurais 

Manoel também dos bairros 

De barro seus ancestrais


Manoel de Barros



















Manoel de Barros

Enrola e desenrola

Nos vicia

E não é cigarro


Manoel, ao contrário,

Não procurava o céu 

Tinha o chão, o solo

Como destinatário


Manoel de Barros

Do Pantanal, do Mato Grosso

Fazia poesia de qualquer

Inseto que sobe fosso

Manoel pode

E eu posso?


Manoel que nunca para

Eu paro para Manoel

Que escreve sem manual

Nada igual aos ditos seus

Na palha de um chapéu 

Num canavial

Nas falhas do Português 

Nas fendas de um Portunhel 

Trabalhos como os de renda

Escritos em Manoês


10/02/2022

Caveirinha

Duas da manhã e sinto dores

Que iluminam a paranoia: refletores

Ao ataque ao ler Olavo, o Bilac

Componho versos fáceis, ao trabalho

Temo encontrar no exercício dessa práxis

o homônimo Olavo de Carvalho

💀💀💀


Do dito "filósofo" que virou caveirinha

Confesso dele nunca aproveitei alguma linha

Mais valem as piadas de sua morte, do mau gosto

Que qualquer merda que escreveu e que seu rosto

💀💀💀


Meu caro, que composição abjeta 

Pode ser que não seja a coisa certa 😔😔

Mas quando o poder do verso me espeta 

Só me acalmo quando fecho a versão beta

Minha fazedora de versos

O limite da minha prosa é teu encontro

Quando frente a frente com teus olhos me defronto 

De onde mal percebo o verso pronto

Logo quero a ver-te de novo fazer outro

09/02/2022

O tango da morte

Não sei dançar. Não sei dançar o tango para o qual sou convidado. Só poderia ser com a morte. Falei dela e esperei sua visita durante muitos anos. Mas na hora derradeira, temo. Jogo o esperado xadrez com a mesma. Sinto alterações na coluna. Um líquido passa de cima a baixo de mim, de baixo a cima. Como um elevador sem marcação de andares. Comecei com alterações e perda de sensibilidade nos meus genitais. Pênis e testículos. Subiu para a coluna. Hoje temos a dúvida. Baixou da coluna para os genitais. Ou subiu dos genitais para o começo da coluna, próximo ao membros inferiores? E segue se movimentando e segue subindo. E não temos resposta. Farei exame daqui a um dia e meio. Aguentarei até o exame? Descobrirei o resultado daqui a mais quatro dias úteis após o exame. Prazo de uma semana, pelo visto. Foi o mais depressa e melhor custo-benefício, raro aspecto de mãos dadas, que encontramos.

Antes da coluna havia sentido mudança na pressão sobre meu ânus. E meu pênis passou a ignorar meus desejos. Uma possível lesão e seus agravamentos. Agora não só pelas ereções, mas temo pela minha coluna e pela minha vida. Ainda produzo material para o jornal, mesmo à distância. Fui convidado para narrar futebol na principal rádio esportiva da minha cidade e região. Talvez a segunda maior do interior do estado. Ou maior? Não importa. Fui convidado, mas dificilmente conseguirei aceitar. Conciliar. Entre a rotina já pré-disposta de estudante e futuro dono de casa? E a minha saúde.

Vou e volto ao aspecto da saúde. Aspecto, segundo o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, principal condição para a vida humana. Essencial para desfrutar-se algo. E aqui estou, meses de transtornos mentais, de consultas inúteis, de agravamentos silenciosos, semana de conflito, de insegurança, de medo, de desilusões, de aceitações. 

Muitas vezes briguei com Deus. Dificultoso com autoridades, tratei-o como um irmão muitas vezes. Um irmão que xingo e brigo. Um irmão que recorro. Que recordo. Um irmão que invoquei em horas difíceis, geralmente com resultados positivos, mas que também, ao menos em curto prazo, creio que eu tenha conseguido prestar certo agradecimento. Mas um ser que já pensei partir a garrafadas. Como uma briga de bar. Eu contra ele. Poucas ou muitas testemunhas. Tanto faz. Frente a frente. Quebro uma garrafa de vidro no balcão. Tenho minhas armas. Ele ri. Sempre riu. A cada desgraça ou derrota que sofri - e não foram poucas, ele riu. Inclinou a cabeça. Brindou com apóstolos. Fez gargarejos. Deu gargalhadas. No todo, minha vida foi muito tranquila. Acima da média. Boa condição de vida. Dentro do Brasil e creio do mundo. Mais temi do que me ocorreu. Violência urbana. Problemas médicos  - alguns que se confirmaram  - como este está se confirmando.

Acredito mesmo assim que ele pode ser sádico. Não consigo explicar, caso exista além de meus sonhos, como permite a Síria, a Palestina, como permitiu a Arábia Saudita, o holocausto dos anos 40. Como permite execuções precipitadas pela Indonésia e pelo mundo. Como permite a venda indiscriminada de armas e o silencioso genocídio negro que apenas ecoa gritos e depois sossega, restrito ao choro despaginado das periferias que raramente são tema dos jornais.

Me pergunto como pode tudo isso ser permitido. Os estupros, os problemas de saúde. As mães que choram por suas crianças.

Minha mãe está preocupada com meu problema de saúde. Mas penso nas que enterraram soldados por tantas guerras. Nas mães da Plaza de Mayo em Buenos Aires, que choram por seus filhos desaparecidos em ditadura. E tantas outras assim, em lutos e lutas mais ressentidos, com mais ou com menos organização social. Lamento por minha mãe e seu parto surpresa e de risco. Minha cesariana. 11 de setembro. Data estranha. Palco de tantas tragédias quando o sol surgia nessa página do calendário. Desde pequeno acumulei chances de morrer. Do parto de risco de minha mãe de passados 40 anos até uma aventura infantil. Mal caminhava, mal corria. Corri dos fundos de nosso pátio rumo ao portão aberto. Do portão aberto para cruzar a avenida de trânsito hoje muito pesado, defronte nossa antiga casa. Se fosse o trânsito de hoje naquela época, nos anos 90, era mais do que possível: era provável ter morrido.

Alguns problemas de saúde. Acho que os exagerei na época, mas realmente, ao surgirem, muito me preocupavam. Como estou preocupado hoje. Tanto convoquei e conversei com a morte que ela tem me chamado de volta. Justo quando encontrei um amor correspondido. Quando estava com possibilidades para viver com algum salário e opções de cidade. Na boa negociação de meus pais rumo a Santa Catarina. A morte no caminho a espreitar.

Além dos problemas de saúde, arrisquei minha vida cruzando cidades grandes pela madrugada estando bêbado. Cruzei com ninguém que executasse, no sentido de findar essa tola ideia. Uma vez um perseguiu meu amigo e eu, mas tudo isso no trajeto para, depois de uma quadra, nos desejar um feliz dia dos pais, pois era fim de semana de agosto.

Ao sentir o estranhamento, a alteração no chamado cóccix, lembrei de quando Eduardo e eu saltavamos batendo palmas nas costas e deixavamos nossos corpos caírem de mau jeito contra o solo. Batíamos as costas no cimento. Nosso falecido professor de educação física se apavorou com a brincadeira esquisita daquelas crianças de 10 anos na época. Eduardo seguiu infantil, mas hoje é pai e instrutor de educação física. Suas costas acho que funcionou. Passou de gordo para detentor de certos músculos em evidência, embora nunca tenha deixado de ser gordo, conforme este até foi seu apelido em alguns clubes onde jogou handebol. Sua outra paixão era o basquete. Manjava do jogo, do contato, mas acreditava eu ter melhor arremesso quando com espaço.

Lembrei dos arremessos de basquete em outro momento nesta odisseia pela saúde. Ao urinar, com dificuldade, pensei em relatar o esforço da seguinte forma. Preciso me concentrar como se fosse cobrar um lance livre para meu pênis me obedecer. Esta é a atual situação. Preocupante. Sintomas que se dobram e desdobram-se.

Repenso minha vida. Minha saúde, minhas disposições, minhas opções. Aguardo pelos exames. Esta semana inacabável, este suor frio que me escorre. Essas fisgadas pelo corpo. Pelos músculos flácidos e enfraquecidos das pernas. Meu estado quase vegetativo. Minto, mas muito restrito. Minha condição penosa. Meus inchaços nas extremidades. Os arroxados e as ameaças de uma trombose ou de uma necrose violenta. Tudo da minha cabeça? Talvez. Mas suspeitas existem. Antes de diagnosticarmos o problema crescente e alternante na perigosa coluna, passei por ao menos três médicos, eles de diferentes idades e formações, para tentarem me tranquilizar que os sintomas e problemas acumulados eram somente mentais, psicológicos. 

Hoje é com desdém, incredulidade, desprezo que repenso essas ideias. Posso ser quase ou até louco para algumas situações, mas conheço meu organismo. Me estabeleço dentro dele há quase 27. Não é só psicológico. Meus músculos flácidos, meu pulsar distinto, minha pressão e palpitação sobre os genitais. Desconfortos. O elevador indecifrável a persistir na coluna. Hoje estou aqui. Amanhã não sei. Longa semana, se me permitida for, pela frente. Se Deus me perdoar, tentarei de novo. De novo agradecer pelo perdão a esta ovelha assustada e antes desgarrada de seu imenso rebanho. Agradecer por nova oportunidade se me for dada. Mesmo entendendo que, com a minha idade, muitos  seres mais corretos, úteis e talentosos já se foram. Soldados, meninas estupradas, meninas esturpradas por soldados, doentes crônicos, doentes terminais. Mães que choram filhos. Mães que choraram filhos até o último dia que produziram lágrimas.

Hoje estou aqui. Amanhã não sei. Tive bons momentos. Agradecido por eles. Incrédulo ainda com tanta coisa negativa que se sabe sobre o mundo. Pelas notícias e pelos olhares in loco. Hoje estou aqui. Amanhã não sei. Não sei dançar. O derradeiro tango da morte. Mas ela me olha em alguns momentos em que fecho os olhos, nem pensando em escapá-la, pensando em nada, mas ela está lá. E tem o dedo comprido, pontiagudo, indicador das inevitáveis coisas. É como nos desenhos animados. Mas não estou animado. Apenas satisfeito nessas descrições. Porque, é como eu disse, hoje estou aqui. Amanhã não.

08/02/2022

Paisagens são como rostos - disse um filme de Godard

Paradas em uma paisagem da praia de Laguna, as pedras me traziam a alegria imensurável de poder vê-las e apreciá-las, mas também sentia a tristeza por elas nunca mudarem. Talvez esteja em Raul Seixas a tristeza das pedras que choram sozinhas em um mesmo lugar. Talvez tenha nada a ver com pedras esse discurso todo. Mas quando eu estava em Laguna, era visualizar as pedras, pensar na paisagem que eu queria capturar para sempre em minha vista. Era revê-las alguns anos depois sabendo que estariam lá. E minha tia que lá morava não estaria mais, porque faleceu. E a casa dela foi rapidamente demolida sem negociarem uma possível venda e divisão da obra sobre o terreno. E no bairro em volta, ao invés de demolirem, casas eram construídas. E tudo mudava, menos as pedras. E a tristeza pela imobilidade das pedras fixadas há séculos sobre o declive dos morros dava lugar à tristeza pelas mudanças bruscas em algo que eu também tive como familiar. Porque passei verões entre as belezas naturais e a ansiedade, a incompatibilidade que sentia ao contato humano. A solidão adolescente de estar apenas com meus pais e conhecer mais nenhum jovem daquela região. Meu próprio primo, com o qual o pequeno contato que tive sempre foi positivo, mas hoje envelhecemos, sou adulto e ele mais ainda, pois mais velho, com esposa e filha pequena. Filha dele sem avó, porque minha tia faleceu. E sua casa, nossa casa por alguns dias, sumiu. E o cachorro manco. E o pequeno garotinho gago o qual ensinei um pouco de palavras cruzadas. Não sei se aprendeu, mas espero que esteja alfabetizado. Já deve ser um adolescente. Talvez da minha altura. Ele bebia coca-cola com suco de uva e eu pensava que alguém deveria detê-lo. Mas eu era responsável pelo gurizinho apenas por minutos, talvez nem horas, pois logo esgotada minha bateria social. Um amigo da família ia para lá. Morava de favor, ajudava a cuidar os doentes que foram nos deixando. E ele, homossexual que teve aids quando era jovem adulto, também já partiu. Tinha as bochechas vastas como se fosse o personagem Quico (ou Kiko?) do seriado mexicano Chaves. Me mostrou suas fotos quando era maquiador do sistema brasileiro de televisão, popular SBT. Isto foi antes de eu entrar no Jornalismo.

A Laguna e a casa de minha tia naquela praia acompanharam diferentes verões e períodos da minha vida. Infelizmente era um tempo de somente semana a cada verão. Não conhecia outros jovens, sobretudo outras jovens com os quais eu poderia me divertir. Mas sempre foram períodos muito reflexivos e que recordo até hoje, como o degenerar alcoólico de minha tia, o cachorro manco, o menino gago, o calor do morro que bloqueava o escoamento do vento, as baratas que brotavam pelo solo. As vizinhas, senhoras fofoqueiras, o filho especial de uma que não sabia se comunicar direito, mas tocava violão e era atendido em um centro para crianças apesar de seus quase 2 metros de desengonçada altura. Tudo isso me recordo, enquanto minha vida muda e as pedras da Laguna permanecem solitárias e acompanhadas umas pelas outras no mesmo lugar em que a mente armazena a cena.

31/01/2022

Mosca na Lâmpada

Uma mosca se debate contra minha lâmpada 

Nessa lâmpada habitavam antes cupins

Talvez seja essa uma prova cabal

De que as coisas são mesmo assim


Moscas muitas vezes bateram contra minha janela

Independente da casa eu tinha de abrir para elas 

Ou continuariam a se debater o dia todo

E conhecendo as moscas, a vida toda delas


Mosquitos muitas vezes me provocaram 

Queriam meu sangue, me deixavam aflito

Mais do que o hábito hematófogo

Me agoniavam mesmo eram seus zumbidos


Baratas muitas vezes ganharam a batalha 

Se eu pudesse, não entrava, eram minha falha

Se fossem voadoras, tanto pior o horror da hora

Que somente uma chinelada amenizava 

Pancada com a sola


Enquanto escrevo isto a mosca se debate

Gostaria de deportá-la - talvez à Marte

Mas nem precisa tão longe, para qualquer parte

Deixá-la livre e com vida

Antes das derrotas cruciais o amistoso empate


Ó mosca que não habita sopa

Faz da lâmpada e seu entorno o baluarte

A enterrada

Relação de estar lúcido, raciocinando sobre o sonho, mas ainda não estar totalmente acordado. Como o que se diz de um sonho dentro de outro sonho. Consegui enterrar no basquete. Consegui encontrar pessoas do Jornalismo. Percorri a pé minha cidade em busca de minha antiga casa e haviam feito crateras na rua, para escoar o esgoto, em um serviço porco, mal feito, com os dejetos a céu aberto, difícil de acreditar. Falta de respeito com o contribuinte, com o dinheiro dos impostos, a Gonçalves Chaves com seu calçamento detonado, cortado por uma linha bizarra que abria caminho para o subterrâneo esgoto. A linha que prosseguia incômoda como uma rachadura numa parede e talvez eu mais a percorresse por curiosidade de onde acabaria tamanho absurdo. Mas obviamente terminaria na casa onde morei a suprema maior parte de minha vida. E o panorama lá nada melhorava, com a confusão cloacal. Cruzamos por um vizinho, antigo vizinho, morador da região, apenas sabíamos que ali morava porque saiu logo reclamando, indignação que logo compartilhamos. Declarou sobre o absurdo daquele córrego defeituoso, imundo, gerador de asco. Replicou nossa prévia ideia de desrespeito com o contribuinte através dos impostos.

Este era o desfecho asqueroso de um sonho um pouco menos assim. Começou até promissor. Jogávamos basquete no ginásio da escola. Seria um jogo que combinei marcarmos em algum dia inexistente, marcar de marcar, com João Antônio, pela internet. O assunto com ele surgiu porque mencionou em um jogo da NBA que o time do jornalismo, nos jogos da Universidade, mesmo atuando com apenas quatro, era mais digno. Dali puxamos assunto. Me ofereci como participante em futuros joguinhos que desde a conversa já consideramos impossíveis de ocorrer. Quase ninguém liga. Pois ainda imaginei muito mais.

Estávamos com turmas antigas formando time. Havia apenas seis em quadra à espera do início. Era horário marcado no ginásio. Propusemos um infeliz 3x3 em meia quadra. Como correr a quadra inteira com apenas três jogadores em cada time? Aí já estávamos batendo bola. Meus arremessos curtos e sem força, e sobretudo sem noção da distância até o aro. Aí chegaram mais dois e começava a se ajeitar o jogo. A bola de basquete ora virava de futebol, ora voltava a ser de basquete. Ora a chutavam, ora a buscamos novamente só com as mãos, como a boa regra do jogo. Eu já havia saltado no aquecimento, um salto preciso, voltei a me pendurar no aro de basquete, Shaquille O'Neal de meu vasto imaginário. A trave, a sustentação da estrutura, tudo balançou sob meu triunfo. Fiquei muito contente por ainda conseguir saltar bonito, como sempre consegui e chamei atenção. Eu talvez fosse o melhor saltador em altura na escola. Mas não gostava de fazer o ritual do início dos jogos de basquete. Não gostava de jogar de pivô. Não gostava de pegar rebotes. Não gostava de arriscar saltos por cima dos perigosos degraus em piscinas. Mas saltava muito, demais em altura. Por isso, apesar da minha faixa de estatura, conseguia alcançar o aro.

Mas recordei, lúcido, que não conseguia alcançar o aro enquanto manobro a bola. Ou seja, eu não conseguia enterrar. Mas dessa vez consegui. Colega meu lançou a bola em um chute de três dedos. Peguei a bola no alto, na altura da cabeça, mais ou menos, e fiz o movimento, os chamados tempos, passos rítmicos em direção à cesta. Consegui subir à altura quase do aro e apenas largar a bola na posição correta para dentro, mas, com a bola já emaranhando-se na estreita redezinha, antes de cair de volta ao solo, eu ainda subia, senti como se o ar me permitisse mais um salto dentro do salto e alcancei o aro, talvez até com sobra. Será assim uma enterrada? Provavelmente não. Mas a sensação foi. 

Após a enterrada em que dali recebia os respeitáveis aplausos pelo salto, o movimento, a cesta, todos bem concluídos, eu estava fora da quadra. Chega! Basta de às vezes chutar a bola, às vezes jogar basquete seguindo as regras direitinho. Encontrei pessoas ligadas ao Jornalismo em um quiosque, o que me poderia fazer pensar que se tratava do mercado público de nossa cidade, ideal para acomodar encontros boêmios como o da ocasião. Ou ao menos é o local que recorro à memória para aderir a um quiosque fora de praias. No meu convívio seria no mercado, enfim.

Encontro pessoas ligadas ao Jornalismo. Tento descrever a façanha recém (?) executada de enterrar a bola de basquete na cesta. Ninguém parece ligar. Percebo que me encontro tentando narrar a cena pela segunda vez para eles. Mas ninguém dá bola. Pessoas vêm, pessoas vão daquela mesinha, pessoas cumprimentam outras pessoas mais do que a mim. Azar é o meu. Fico perdido entre os vácuos e meus pensamentos, levando comigo somente a façanha de ter enterrado uma bola de basquete e, talvez, o gosto amargo da bebida, bebericada a cadinhos no copo que eu pareço jamais ignorar.

Vida imensa e minúscula

A vida, quando acaba, é imensa e minúscula. É de qualquer tamanho, a depender do ponto de vista. É minúscula pois não existe mais na realidade. O corpo não se move mais. Aquela cabeça já não pensa. Foi-se a vida. É imensa pelo legado, pelas lembranças que deixou. Grandes obras, grandes escritos, grandes amigos, relações pessoais. Boas ou ruins. Críticas ou puros elogios ao morto. Mesmo quando é desconhecido, depende o ponto de vista. ONGs se importam. Estatísticos se importam. Familiares desconhecidos pela mídia se importam. Pessoas que nunca aparecem nos jornais, mas existem. Periferias, comunidades afastadas. Indígenas sem nomes decifráveis para quem só estudou o Português. Ou mesmo Inglês ou Espanhol. Funerárias. Médicos legistas. Alguém viu e alguém lembrou. Lembranças que cabem em um dia ou em uma vida. O estado de putrefação. O enterro. O coveiro em ação.

Vidas são imensas e minúsculas. Em curta distância, já não se enxerga o corpo de uma pessoa. Do alto do avião as formigas são iguais. Nem gordas nem magras. Nem brancas nem negras. Nem santos nem bandidos. Nem Santos nem Palmeiras, nem Corinthians. Em curta distância, o amor sobrevive na cabeça. No afeto transformado e transformador das lembranças. As memórias que sabem-se poder repetir ou até superar as expectativas. O reencontro. Quando a morte ou as decisões (definitivas?) da vida se atravessam, as recordações também são imensas. Imensamente dolorosas. O sentimento de não ter mais como.

A vida quando acaba pode ser vista como imensa que foi ou que ainda é. Pode ser vista como minúscula. É o ciclo natural. Desde a escola se aprende, com mais ou com menos consciência, para pequenos órfãos ou desconhecedores do futuro dos pais, que se nasce e se morre. Não há o que fazer. Diante do inevitável, a vida soa passageira, minúscula diante da natureza e do cosmos. Barragens, maremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, climas extremos como desertos, ondas de frio ou de calor, tudo pondo a vida do ser humano à prova. O ser humano necessitado de esquemas, de tecnologias para sobrevivência. Ou seria apenas a expectativa de vida mínima diante da feroz natureza. Como estavam sujeitos à morte constantemente seus antepassados. A expectativa de vida aumentou mas ainda é baixa para quem sonha viver dois séculos. Assim como a estatura humana aumentou mas está longe (acho que ainda está) dos três metros. Os três metros me parecem mais próximos do que os dois séculos. Me corrijam se eu estiver enganado. Observamos árvores ou tartarugas ou microrganismos, invisíveis a nós sem a tecnologia, nos superarem em faixa etária.

A vida também é imensa. É tudo que nos cabe no peito. É o que as lembranças nos evocam. É o que almejamos para o futuro. Minha vó aos quase 90 querendo só mais um tempo de vida. Alimentação, banho confortável, cama para dormir. Dormir e acordar. Pois é a vida. A vida é o que ela tem. É o que ela quer. Continuar tendo consigo. Consigo e com os seus. Já viu muitos morrerem e sabe da importância deles caso seja perguntada sobre. E sabe a importância dos vivos, com ela a cada dificultar dos passos. É a vida.

Sua Terra

Era um livro velho 

Mas cheirava como novo

Era um homem velho

Mas que parecia moço 

Era uma época de seca

E ela me fez sentir

Sua terra

26/01/2022

A vista pro mar

A vista pro mar

Cheguei a não gostar

Pela exclusividade a mim


A vista pro mar

Queria que mais gente a tivesse

Mas isso já me adverte

O Brasil é desigual


A vista pro mar

Onda a onda é a mesma

Mas o Brasil nessa pobreza

Heranças de Portugal

Pela forma de cultura

Regime da escravatura 

Onde foram nos levar...


A vista pro oceano

Sonhei isso muitos anos

Aqui todo esse verão 

Finalmente aqui e então 

Liberdade e solidão


A inflação sobe pelas paredes

Tem a fome, tem a sede 

Que água salgada não cura

A loucura de costas para o mar

Onde o asfalto é quente

O vento não circula 


A vista pro mar

Cheguei a não gostar

Pela exclusividade a mim

A temperatura 

Em uma amenidade

Privilégio da cidade

No janeiro em pleno fim


A vista pro mar

Se estende na minha frente

Quem me olha não entende

Como pude não gostar

Mas a vista pro mar

É tamanho privilégio 

Será o melhor dos tédios

O melhor pra observar

A vista pro mar

Pela frente desse prédio

Com nada de intermédio 

Entre o mar e meu olhar

Eu queria te mostrar 


Onde há prazer?

Onde há lazer

Nos dias de semana?

Se não na sua cama

Se não na sua cama


Onde há prazer

Nos dias de semana

Se não na sua cama

Se não na sua cama


Lavar a louça 

É muito chato

São muitos pratos

Para se lavar


Onde está o ser

Quando se engana?

Onde está o ser

Quando não se engana?


Quando é o melhor

Dia da semana?

Sábado na sua cama

Sábado na sua cama


Em espanhol 

Lençóis são sabanas 

Lençóis são sabanas 

Em português 

Também são savanas 

Também são barracas

Também são cabanas


Os outros dias

Somam vários dramas

Atravesso o tabuleiro 

Até a minha dama

Até essa cama

Maior que o mundo inteiro


Tenho medo de descer




24/01/2022

Crônica sobre a origem das Lágrimas

Nota para escrita desta crônica: Questionar a origem biológica. Da amargura, da angústia até o rápido brotar nos olhos. E questionar na emoção o que as causa. Lembrei de tio Silvio e senti pela prima Silvia.


Isto mesmo, deixei a nota de lembrança. Do que lembrar para escrever depois. Me questionei sobre a origem das lágrimas durante a última viagem, eu enquanto passageiro (sempre o sou) no carro. O passar da paisagem pelo lado de fora sempre convida a reflexões e na ocasião foi assim também. Lembrei de uma viagem há muitos. Obviamente havia tempo, porque o falecido tio Silvio foi-se embora em 2009. Mas não foi muito antes disso o ocorrido. Uma cena qualquer, mas daquelas que acabam ficando eternizadas em nossas mentes. Ou, se não eternizadas, assim ainda permenece essa, quase década e meia depois.

A cena é tão simples que alguns talvez se perguntem como isso fica na cabeça. Mas estávamos voltando de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, onde é possível realizar compras diferentes nas free shops, pela estrada. A caravana consistia em dois carros - o nosso e o de falecido tio Silvio. No outro carro, tio Silvio, de idade mais avançada do que meus pais, dirigia, conforme dizia meu pai, já com alguma dificuldade visual. Lembro que era um carro bordô, só não me peçam a marca, porque aí deixo a desejar. Tio Silvio arriscou uma ultrapassagem em nós e concluiu com êxito, ao que meu pai se surpreendeu e destacou o arrojo do cumpadre. Não esperava por essa manobra. Meu pai guiou a viagem a maior parte do tempo, com raras exceções, baseadas nesta ultrapassagem do tio.

Lembrar desse momento me entristeceu bruscamente. De óculos escuros no verão do carro, precisei conter as lágrimas. Não sei ainda exatamente se pelo tio não estar mais entre nós, ele que veio a falecer em seguida a esse episódio. Esse episódio que não sei precisar de qual ano. Sua morte foi em 2009. Mas tanto pior é a situação atual com que minha família tem de lidar.

A filha de Silvio é a Silvia, minha prima. A prima Silvia encontra-se em estado delicado, grave, fazendo tratamentos até o momento ineficazes para sua definitiva cura. Inclusive a evolução, o estado de melhora é difícil ser visto por quem a acompanha. Ela trata os nervos do rosto, os chamados trigêmeos. Quem conhece alguém que já os tratou sabe da delicadeza da situação. Da dor constante, da ineficácia comum às tentativas. Ela permanece assim, em estado grave e isso tem se arrastado por meses. Desde o 2020 em diante.

Pois que recordo o dia em que minha mãe anunciou que a Silvia estava doente. Eu costumo despertar tarde. Perto para hora do almoço. Então alguns diálogos matinais eu ouço de fundo, sem estar bem acordado. Pesco durante sonhos ou somente nesse estado de transição, antes de uma lucidez maior. Pois foi assim que certa manhã ouvi minha mãe desligar o telefone - ou suponho que recém havia feito isso - e comunicar - aí sim mais alto - para minha irmã que a prima estava com a doença dessa sequência de anos: a Covid-19. "Sua prima está com a Covid", anunciava minha mãe, na falta de tato de preparar-se melhor para o aviso. Foi uma frase como uma flecha, um tiro certeiro, um baque. "Sua prima está com a Covid". Ainda não havia vacinas. O susto era evidente. Apesar de que, ainda em 2020, a mortalidade estava mais concentrada em idosos. Ao saber que minha prima estava com a Covid, nossa preocupação maior pairava sobre a mãe dela, idosa da mesma forma que minha mãe.

Só que a situação se desenrolou de outro jeito, como agora bem sabem. A prima não conseguiu se recuperar plenamente. Apesar dos sintomas, os exames inclusive negavam a presença do vírus da Covid. Até que um deles apontou a existência. Era tudo muito confuso. Só que as dores e o mal estar persistiram. Descobriram o problema de dores de cabeça concentrado aos chamados nervos trigêmeos. Eu que já não concebia bem a ideia de gêmeos - talvez por não havê-los em minha família - passei a agoniar mais ainda ao ouvir o termo.

A família de minha prima escalou a tentativa de cura saindo da bolha de nossa interiorana cidade para buscar ajuda em Porto Alegre, e os médicos acionaram a necessidade de ajuda até a megalópole São Paulo e, neste exato momento, o teste que ela fez com a retirada do líquido 'liquor', da coluna cervical, está em análise de laboratório em Belo Horizonte. Esperamos alguma boa nova no meio disso tudo.

Alguma boa notícia, porque ela segue com muitas dores, conforme minha namorada já havia nos alertado que o pós desse exame - de retirada do liquor - é muito complicado. Enquanto isso, minha prima é tratada com altas doses medicamentais. Seu organismo sofre sendo combatida ou não sendo combatida a doença que a acomete. E gostaríamos, mesmo, nisso tudo, algum sinal de melhora, ainda não visto.

Mas relatar toda essa situação, embora seja desabafante em meu caso, estava longe de ser o posicionamento inicial para os rumos do texto. Pensava eu nos momentos que evocamos nas lembranças e deles evocam-se as lágrimas. Como pode esse processo? Sim, talvez não seja a hora de pesquisar biologicamente esse processo, que me permanece em dúvida. Mas como é curioso. Mal eu havia processado a cena de meu tio ultrapassando naquela estrada e senti a agonia que remeteria ao choro. Os óculos escuros a proteger a minha integridade no momento, sem aparentar que as lágrimas já me vertiam.

Questiono bastante isso porque passei vários anos sem conseguir chorar, essa era a verdade. Aliás, situações que me envolvam diretamente causam essa dificuldade. Por mais que eu esteja sofrendo, nem sempre as lágrimas me vêm. Como é com vocês? Outras vezes, de forma súbita, as lágrimas surgem e me derrubam o estado emocional. Vertem a galope, a escorrer do rosto. Bem me recordo que além da cena da ultrapassagem de meu tio, talvez uma angústia causada pela lembrança foi a de que o imaginei, desde aquela ocasião anterior a 2009, saindo da pista, indo encontrar o mato. Seria uma cena desastrosa, um acidente que poderia ser fatal. Mas, em seguida, a fatalidade o encontrou, em uma pescaria que era para ser tranquila, mas acabou infartando para não mais voltar ao nosso convívio. 

Todavia, a lembrança da ultrapassagem, conciliada à minha imaginação de que o carro sairia da pista, causando fatídico acidente, me leva a querer afastar os maus pensamentos. Às vezes minha mente dribla-me e propõe coisas ruins assim, gratuitamente. Daí que fico mal por esses pensamentos, que não deveriam atravessar o meu caminho. Imagino violências gratuitas, violências domésticas, às vezes sonho com coisas ruins desse modo. Será a convivência com a violência da televisão, visto que meu histórico familiar não computa tais ocorrências? Não sei, mas isso foi me adentrando a mente a ponto de se tornar recorrente. Não, não é tão comum como você possa estar pensando agora mesmo. Mas é mais recorrente do que eu gostaria, até porque gostaria que isso nunca ocorresse. Esses pensamentos nada ensaiados, essas desgraças que perturbam minha ordem, minha paz.

E essas invencionices, juntamente com os fatos reais, no caso a morte de meu tio, o mau estar contínuo de minha muito mais jovem prima, tudo isso me perturba abruptamente. E essas perturbações? Me levam a questionar a origem biológica das lágrimas. Por que, em determinadas situações, meu rosto está seco, nada me verte no lacrimejar? Em outras ocorrências, lá estão as comportas abertas, a barragem a desfazer-se sobre minha face. Qual a explicação entre a emoção e esse processo biológico? O que não muda, com ou sem lágrimas, é a angústia, a agonia, o desespero diante de situações em que mais nada podemos fazer. Se nem os estudiosos da medicina estão encontrando solução, o quê podemos nós fazer, a não ser o que geralmente sugerem pelas correntes, pelas redes, pelas famílias afora, no rezar das orações?

Chego ao final desses questionamentos me dando por conta da diferença das situações. A morte repentina de meu tio, o sofrimento há quase dois anos de minha prima. Ela podendo escapar, mas ainda não sabemos. Não sabemos a qual preço, com quais consequências, com quais sequelas. A situação é preocupante, é delicada. Torcemos por ela. Enquanto isso, se estiverem dispostas, se os funcionários junto a nossos olhos permitirem, no controle das comportas, vertem-se lágrimas no aguardo de sentenças.

23/01/2022

As Aves de Rapina

Cheguei a tempo de ver

O domingo partindo

O domingo partindo

Cheguei apenas pra sofrer

Pelas mãos do destino

Pelas mãos do destino


O anoitecer 

Dobra devagarinho

E o que sobra do céu

Tem color tão divino

Tem color tão divino


Sem filtro as estrelas

Por cima das telhas

Dispostas a serem

As constelações

Escaladas a serem

As iluminações 

Por cima do brilho

Dos novos lampiões


Cheguei a tempo de ver

O domingo partindo

O domingo partindo

Cheguei apenas pra sofrer

Pelas mãos do destino

Pelas mãos do destino


Cheguei a tempo de ver

A semana partindo 

A semana parindo 

Outra que vem começando

E num piscar de olhos

Despem-se os calendários

E já passou o ano 

E já passou o ano


Sob a lua divina

Sua mudança de planos

E as aves de rapina

Nos observando 

Nos observando 

Aqui as aves de rapina 

Elas andam em bando

Elas andam em bando


Mas cheguei a tempo de ver

O domingo partindo 

Meu partido e bandeira 

No anoitecer sucumbindo

A bandeira enrolada

O broche que nada diz

Pelas ruas vazias

Em zero chamariz


Aqui as aves de rapina 

Elas andam em bando

Elas andam em bando

Seus ninhos pelas esquinas

Os bicos de algema

Os olhares de águia

A cegueira é sistema

Mirando e vitimando

A clara e a gema 

Em mais ovos germinando

Em mais ovos germinando

A renovar o esquema

As aves que andam em bando

As aves que andam em bando

20/01/2022

Samba triste ou MPB?

A propaganda nos invade 

Como o lixo invade os mares

Como o lixo invade os mares

A propaganda nos invade

Invasivo

Ministério de Damares

Ministério de Damares


A multa da imobiliária

É quase o valor

Dos meses que faltam

O capitalismo

Jogando de presa em alta

Jogando de presa em alta

O primeiro drible é feito

Nos desarmam e não tem falta

Desarmam e não tem falta

O juiz é companheiro

Dessa turma falcatrua

Roubam tanto quanto é dia

Quanto sob a luz da lua

17/01/2022

Teatro Anarquista

A minha história e a tua 
No teatro anarquista 
Tão natural quanto a lua
Ao alcance da vista

A luta de classes
A manutenção do poder
A ganância do homem
O permanente sofrer

A luta de classes
A manutenção do poder
Um beijo em sua face
Logo ao amanhecer

O teatro anarquista
À vista do proletário 
Um ideal socorrista
Pra ver depois do trabalho

Os chefes da repartição 
Não gostam de atuação 
Apenas fingem de dia 
Migalhas de filantropia 
Migalhas de filantropia 
Migalhas de filantropia

A minha luta e a sua
Assim representadas
Em cenas improvisadas
A luta continua
A luta continua 
A luta continua
A lua continua 
A luta continua 

Sol a sol
O anarquismo espanhol
Ano a ano
O anarquismo italiano
Mão a mão 
O anarquismo alemão
Mas ninguém mais lutando
Que nós latino-americanos
Mas ninguém mais lutando
Que nós latino-americanos 
Que nós latino-americanos
Que nós latindo americano
Que nós latino-americanos

A invisibilidade descoberta

Me incomodam algumas palavras femininas que se tornam apenas apêndice do significado inicial destinado aos homens. As condessas apenas descendem dos condes. As abadessas apenas descendem dos abades. As baronesas após os barões. Assim posso pensar diversos exemplos. 

A deusa acrescenta letra ao já existente deus. Eu gostaria que mais palavras fossem originárias às mulheres. Conforme mulher e homem são palavras tão distintas. Agrada o zangão ser o intruso na colmeia em relação à abelha. Outros animais são originariamente fêmeas. As lentas tartarugas, mas as rápidas onças. As altas girafas. As camufladas zebras. As trabalhadoras formigas. As graciosas baleias. As primaveris borboletas. Da humanidade, o representante ainda é o homem. É ele quem sobe ao palco para responder por conta. É ele quem ainda comete os feminicídios.

É ele quem organiza a política, as armas de fogo e as guerras. A palavra enfermeira, para amenizações ou tentativas de eventuais consertos, nos soa mais natural no feminino. É o homem quem aniquila anonimamente outro na guerra. Soldados são apenas números. Suas vítimas são apenas outros números. Mas algumas vítimas - palavra feminina - nem números são.

É o homem que exclui sobrenomes nas certidões. Aqui ou nos países hispanohablantes. É ele quem invisibiliza e nega direitos. É quem juiz superior julga em âmbito fora de suas competências. É quem trancafia mulheres no Oriente Médio, mas ainda nega oportunidades e igualdades salariais por todo o mundo. É quem causa o medo em motoristas mulheres que atendem passageiros. É quem assedia sem o pudor, o desprestígio, a punição que a situação mereceria. É quem também, mesmo sem a farda da toga, julga do alto nas relações de poder. É quem julga em relações sociedade afora ou entre as paredes das casas, em relações domésticas.

A voz das mulheres é silenciada no Afeganistão nos julgamentos. Se ela é estuprada ainda será vista como impura e acusada de adultério. E vista como impura e acusada dessa forma, ela envergonha a família. E, ao envergonhar e envergonhar-se, talvez ela se mate. Ou seja morta. E "que seja", muitos dirão no Afeganistão. Mas aqui também.

E o que fazemos pelas mulheres vítimas? E o que fazemos para que não sejam vítimas, para antecipar, para prevenir, para preservar, para que não sofram? E como a relação de poder entre pessoas que conhecemos pode moldar tudo isso? Qual o nosso papel nesse tabuleiro? Quando o 'amigo' age errado. Quando um pai assume posturas que não deveria. Quando as relações de poder, trabalho e capital estão gerindo os movimentos de abusadores marionetes. Abusadores marionetes - propositalmente no masculino.

Quando a invisibilidade - palavra feminina - está no trabalho. Está no esporte. Está nas ruas. Está sob as burcas. Está na internet. Está em processos de autoras, de atrizes, de atletas famosas em busca de reconhecimento, ou de respeito, ou de punição a seus algozes. Está no anonimato da prostituição a cada dia ou a cada noite. A invisibilidade nos passa despercebida, como o próprio nome diz. Mas ela toca a muitas. E se isso, na descoberta, no descobrir da capa, na aparição do que era invisível, se isso não nos toca de volta, quer dizer muito sobre nós mesmos.

Eu tenho o privilégio de descobrir essa invisibilidade por meio de livros, de depoimentos, de mulheres que, para mim, ou para alguém contaram ao longo da história.  Eu tenho o privilégio de descobrir essa invisibilidade assim. Para elas, quase sempre a descoberta é na pele. Na prática. Consigo mesmas. No susto. No trauma. Na experiência. É consigo mesmas, ou com a mãe, com a amiga, com a vizinha. É a descoberta da invisibilidade na prática. É tentar reagir e sufocar. É tentar ser ouvida e não ter voz. É tentar sair e ser aprisionada. É muitas vezes não ter para onde correr. Muitas vezes é tarde demais.

E o texto é por todas que não tiveram tempo ou modo como saírem dessas capas. Mas é também pelas que ainda podem estar gritando ou querendo e ainda há tempo. Tempo do que era invisível nos saltar aos olhos.

16/01/2022

12/01/2022

O Esmo Nunca é o Mesmo

Estava pelas ruas escuras de nossa noite. Identifiquei uma das praças centrais, embora ela estivesse mais reta do que qualquer lembrança. As árvores passavam total aspecto de escuridão e sombreamento. Para tentar me situar no meio daquele tabuleiro, contornei a praça em busca de uma direção. Completei o perímetro ainda perdido. Saí para o lado que considerei conveniente, com o coração ofegante de quem criou alguma expectativa, nem que fosse a preparação para enfrentar o medo de circular errante por ali, sem uma garantia de segurança. Conforme eu avançava meus passos, a obscuridade do findar do dia me perseguia e a penumbra era como uma capa que agora vestia toda cidade. Consegui em linha reta prosseguir e desafogar-me de um pesadelo em outro. Dessa vez eu sabia onde estava, no meio de nossa avenida principal. A copa das árvores era mais alta do que a praça da primeira parte de minha perdição. Porém, saber onde estava em nada significava segurança. O lampejo da familiaridade proposta pelo conhecimento deu lugar no segundo seguinte à consciência de estar em uma zona perigosa. Naquela avenida, precisamente naquelas quadras qualquer gangue poderia encontrar-me. Qualquer dupla mal intencionada poderia derrubar-me e levar-me os pertences, ou mesmo surrar-me pela mais pura adrenalina e diversão. Aqueles jovens de ambições confusas e violentas. Eu procurava seguir passeando como se estivesse confiante, de destino certeiro. Ou será que era melhor transparecer o espírito vagabundo que cobria àqueles jovens? Me misturar no recinto a céu aberto? A luminosidade dos postes não prestava cócegas à tamanha escuridão. Afundei minhas mãos nos bolsos da jaqueta. A bem da verdade era uma noite também de calor. Um cassino, ou melhor, um fliperama concentrava a atração maior. Além de ajuntar mais gente, também correspondia ao maior acúmulo de luz elétrica e, não por acaso, iluminação. As luzes praticamente cegavam aos desavisados. Menos àqueles jovens que estavam prontos para qualquer desafio. Ou ao menos assim aparentava, enquanto meu pobre coração voltava a subir marchas em disparada. Nem caminhar rápido demais para atestar medo, nem devagar demais para possibilitar uma maior ação deles todos suspeitos. Assim flutuam as ideias paranoicas que em nossas desventuras encontram porto. Por mais que colocar pessoas inocentes sob suspeita represente um preconceito que deveríamos combater, o modo de defesa naquele caminho falava mais alto. Consegui sair da avenida na esquina do posto de gasolina mais movimentado. Os motoqueiros arrancaram em ronco ensurdecedor. Os frentistas terminavam cada abastecimento com a cabeça baixa de quem não gostaria de visualizar alguém nos olhos. A resignação do trabalhador naquela zona de possível estopim de conflito. Era possível que a qualquer instante algo pesado e tremendo ocorresse. A atmosfera do ar dificultava a respiração fluente. Ou seriam somente os efeitos de meu medo iminente?

Pois consegui sair da avenida aquela pela rua do posto que fundia, na calçada oposta, com a maior igreja por aquelas bandas. Uma envidraçada em formato de enorme caixa, com vidros espelhados que faziam-nos deparar com nossos próprios vultos naquele limiar noturno. Deixei também a igreja para trás e as próximas referências eram somente os pontos de ônibus. Para minha surpresa a luminosidade voltava a orquestrar meus passos. Pisava com maior precisão, com maior certeza. Olhei pelos arredores para uma cidade de pouca movimentação. A loucura daquele barril de pólvora parecia ter passado. O céu tomava uma coloração acinzentada, como uma lata de tinta misturada entre azul, cinza e branco. A precipitação de chuva parecia evidente. Me atingiria a qualquer instante. Pude passar por uma feirinha em formato de camelódromo, onde algumas bancas estavam abertas, mais pessoas caminhavam, barulhentas, a conversar alto. Algumas delas estavam fantasiadas. Era como um grande festival, mas eu não possuía objetivo concreto. Procurei por alguns vídeo games que há anos não jogava. Estranhei o formato das bancas de jogos que estavam bastantes vazias, esquivas de opções relevantes. Só fariam com que eu comprasse algo por muito ato de engambelar. Preferi agradecer da ajuda que uns tentaram prestar e seguir adiante, tomando meu rumo. Subi pelas entranhas novamente do centro, com a impressão de que agora prosseguia novamente para a região do início sombrio de minha jornada. Caminhava eu em círculos? Passei pela rua de muitos ônibus, aquela que retirava as pessoas do centro rumo ao chamado bairro-cidade. Em uma linda fachada de prédio, que agora bem me recordo, sempre me chamou a atenção, havia o anúncio e a promessa de uma grande festa com apresentações musicais de qualidade duvidosa. Mas consultei o relógio e percebi que ela só começaria mais tarde. Ou seja, o jeito era gastar sapatos mais tempo por aquele espaço de pouca margem para erros. Consultei o relógio mais duas vezes para certificar que nada poderia ser feito. Maldita encenação e matação de tempo. Por que não caminho de volta àquela praça sombria, onde tudo de tão mal começou? Ora essa, foi exatamente o que fiz. Mãos novamente enterradas no bolso e pernas adiante. Quando saí daquela zona mais conturbada do centro, peguei um trajeto de rara elevação em nosso município. Uma chamada lomba, como diriam os porto-alegrenses. Relativa colina, subida pouco íngreme, mas não ignorável. O contorno era ao lado do maior hospital regional. Ao menos acredito eu que seja. Escrevo este relato alucinado e ébrio de meu próprio sono. Qual não foi a minha surpresa quando entrei na rua com nome de almirante e percebi a presença de um pedinte. Ele me perseguiu apressando os passos até alcançar-me. Foi logo falando em linguagem acelerada.

- Uma moedinha, meu amigo, por favor, sabe eu, não pense mal, você me conhece. Passei por você várias vezes. Sei qual é a sua. Saiba também qual é a minha. Não sou ladrão, veja bem. Meu aspecto pode confundir mas

Ele seguiria nesse ritmo e nessa ladainha por quadras, após vencermos a presença de todas as repetitivas pet shops daquela rua. Eis que ainda monossilábico e louco para livrar-me de tal intrusivo personagem, fui perdendo o raio da paciência quando o mesmo, após estar totalmente virado em minha direção, acabou não percebendo a chegada de um carro, que o colidiu com tudo. De imediato, surpreso e quase em estado de choque, pensei que a batida poderia até vitimar de forma definitiva o rapaz.

Perplexo, tentei prosseguir minha caminhada em busca de tempo ou do que fosse, mas logo mais e mais gente foi parando para tratar do assunto, se informar do assunto, na mais legítima legião da fofoca. Meu amigo de infância Igor parou com seu skate. Parecia um dos mais exaltados na rua. Talvez tenha me chamado. Uma comitiva agora me acompanhava como se eu fosse o culpado pelo fatídico acidente. Não o bastante, um policial veio direto em minha direção e me solicitando o par de pulsos para a convidativa colocação de algemas. Um querido. Novamente não bastasse a minha prisão baseada em não fazia ideia do quê, Igor Oliveira também acabou sendo levado. Parece que a polícia por ali recebia por quantidade de apreensões. E nós jovens suspeitos em lugar errado e em hora errada. Lamento informar-lhes minha desinformação quanto ao estado de saúde do pedinte tagarela. Se escapou dessa, uma das lições seria de olhar mais por onde anda. Talvez eu devesse torná-la para mim. Após tanta caminhada sem rumo, a esmo, como se diz. Quanto ao motorista culpado da performance, também não sei afirmar o que houve. Talvez tenha pago propina e sido liberado. Só não passaria totalmente impune pois as marcas da colisão com certeza se fazem presentes na lataria de seu veículo. Mas isto é apenas eu supondo.

Chegamos à prisão encaminhados por bem humorado policial. Ele estava neste estado de espírito contemplado pela promoção ou gratificação que iria receber por encaminhar tão perigosos jovens desordeiros. Se tomassem nossas acusações baseados em ficha criminal ao longo da vida, talvez jamais houvéssemos passado do consumo de maconha.