01/01/2020

afundaram a ilha

- E como está a ilha, muito cheia?
- Mas bah! Nem imagina. Argentinos, uruguaios... só não vêm os chilenos porque ficam mais longe. Mas paulistas, gaúchos... sabe como é!
- Sei...

E trocaram algumas palavras as primas antes de se despedirem. Precisava agora era pegar a estrada e tentar chegar lá com algum tempo de sobra. O necessário ao menos para descarregar as compras, tomar uma ducha, acertar-se com o vestido e partir para a orla da praia para ver o artifício dos fogos. Subiram na 4x4 e começaram a comer o chão que o diabo asfaltou. Bom trecho duplicado quando partia de sua cidade rumo à famosa ilha. Até aconchegar-se lá era um trânsito dos mais estressantes. À medida que se aproximavam do destino final, um afunilamento que trancafiava os carros todos. Uns poucos caminhões que nada de férias neste ano novo, umas duas ou às vezes três fileiras de motociclistas que iam sincronizados tirando finosas dos espelhos retrovisores dos carros de abestalhados motoristas. No balé das motos havia um avanço, mesmo devagar, enquanto a camionete permanecia quieta, na vontade que dava de desligar o motor e manter a mão impaciente no queixo, na pura expressão que designa e define o tédio.

Barbaridade... Soubesse que era tanta a demora tinha saído um dia antes, dois dias antes ou quem sabe nem vinha, se deslocava para a piscina do parente, bebia uma champanhe meia-boca e deu para os doces. Mas não, queria porque queria passar a virada de ano com a companheira na ilha. Elas estavam juntas havia alguns anos e se complementavam, principalmente em renda, que era importante, mas também nas chatas tarefas, ao menos ambas consideravam, de faxina, tirar o pó dos cantos, arredar os móveis e por de volta e fazer almoço. Nenhuma muito dedicada aos serviços domésticos, mas na hora de dormir junto ou passar a tarde a prosear com chimarrão em mãos valia a pena. E queriam o relacionamento que era difícil medir as contas bancárias e birutices da mente sem uma acompanhante. Assim iam ano após ano e naquele passariam porque passariam a entrada da década no litoral. Não só na faixa continental, mas extracurricular, na ilha das ilhas. E suspiros e haja saco para aguentar a serpente retardada daquele trânsito. Fulminou e lançou pragas contra todos aqueles malditos semelhantes de mesma ideia para passar a droga da troca de calendário. Não tinham algo melhor para fazer? Outro lugar ou uma piscina do parente ou a champanhe meia-boca ou? E esticava o olho no exercício da distração de olhar para os carros vizinhos e imaginar quem ia, no que trabalhavam, o quão chatas eram as crianças, que ela não aguentava mais, pois labutou a vida percorrendo de escola em escola, secretarias, bibliotecas e crianças, sim, sempre muitas crianças, das mais diversas, dentes faltando, brigas bobas, invenções, piadas, bobagens de idade, piolhos, ranhos, lancheiras perdidas.

Gostava ela de olhar as placas dos carros e ver de onde eram, isso até facilitava encontrar ou desencontrar, fingir que não viu algum conhecido da mesma cidade dela do sul do sul, mas agora o novo regramento era com as placas que apenas indicavam Brasil, e outros eram Argentina e ainda uns poucos de Uruguay, com Y, o que a irritava. E pensou que muita coisa a irritava, no dia a dia e inclusive ali na véspera do feriado. O sol que ora aparecia, ora sumia. O mormaço, tá calor para caramba e surgem os oportunistas, idiotas, nada melhor para fazer no quadro social do que vender panos de prato e guardanapos de cozinha e toalhas na beira da estrada? E em seguida esse pensamento era desmentido, ressentido, amassado y jugado al basurero. Se envergonhava de pensar isso, logo ela, que sempre militou mesmo quando não sabia muito disso. Não havia lido autoras feministas, mas assim já praticava. E na verdade ao longo da vida de colégios, secretarias, bibliotecas, crianças (muitas crianças) sempre cumpriu com a parte dela dessa educação para empoderar as mulheres. E no seu próprio estilo, que começou cortando e cortando cada vez mais os cabelos até ficarem bem curtos e as roupas conforme ela queria usar, no jeans, mais calças do que vestidos, embora fosse nessa virada usar um vestido, sabe-se lá, para variar um pouco. Usava o que quisesse, não é mesmo?

E se envergonhou tanto do pensamento anterior que inclusive resolveu comprar, 3 por 10, maravilha, vão enfeitar a cozinha, talvez ficasse de presente para avó dela, ainda viva, tão velhinha, últimos presentes em vida e, vejam só, um pano de cozinha, sim, desses para secar a louça. Podia ser coisa melhor. Na ilha haveria de ter. Contou dinheiro para ir, mas na ilha sempre tem. E lá há outros vendedores ambulantes e cercam os guarda-sóis. Como que escreve guarda-sol? Isto, em plural? Tanto faz, a fila voltou a andar e ela num passe de mágica, como em uma história em quadrinhos rompeu aquela imaginação distante e posicionou a marcha para uns galopes à frente com a camionete. Havia tirado a carteira de motorista havia poucos anos, na verdade incluso depois de conhecer a companheira. E até gostava daquilo, ela que não se apetecia pelos serviços domésticos, das poucas tarefas não artísticas que lhe alegrava cumprir estava segurar no volante, passar as marchas, pedalar do freio ao acelerador.

Jamais esqueceria a primeira vez em que pegou estrada, mas nada tinha a ver aquela sensação de liberdade e exploração com a exploração do pedágio logo adiante e da demora de todos aqueles motoristas enrolados. Gostava da prontidão das coisas, assim resolvia as questões de sua vida. Seu relacionamento foi de primeira, jamais esqueceria como se conheceram. Se quisesse obras em casa, fazia. Fazia ela própria que de ferramentas ela manjava e as paredes viviam em queijo suíço de tantos furos. E na pressa no combo da ansiedade, controlada ultimamente por mais um de seus tantos remédios, queria chegar logo na ilha.

Queria tanto e criara tanta expectativa que estava assustada. Como a ilha suportaria tanta gente, tanto sotaque castelhano, tanto gaúcho com bombas e ervas, naquela piada do pampeano no aeroporto, anedota que ela tanto gostava? Quantos hotéis e quanto lucro! e aqueles pobres coitados vendendo panos de prato e de cozinha com essas figuras risonhas, ao menos alguém nesse ambiente todo, fora os donos de hotéis. Sorrisos de corujas, de cavalos marinhos e estrelas do mar. Estrela é que não era muito bem-vinda naquele estado havia algumas eleições. Outra vez política, guria? Te sossega.

E ela se sossegava e a companheira, atrapalhada que era, ia ao fundo da bolsa para catar as moedas e facilitar o troco do pedágio. Eram dedicadas as duas. E se entendiam. E assim estava bom. Ao menos estava melhor, não é mesmo? Escolheu a fileira errada e o pac man da ampulheta comeu mais uns 10 minutos naquela quadra do pedágio. Transcorrido isso, faltava pouco ao destino final: a ilha.

Havia inauguração da nova velha ponte. A travessia desativada em novas atrações e fogos de artifício para ver desde o continente. A visão privilegiada obviamente era na ilha, do contrário não haveria motivo de cruzar a outra ponte para chegar até o hotel, do banho, do trocar de roupa, só pensava nisso. Tanto esforço para isso, será que valeria a pena? Mas também desde que via as sobras de lixo à beira do Guaíba em Porto Alegre não quis mais saber de passar a virada na capital gaúcha. Dizia que de gente mal educada já estava farta na própria cidade e queria gente mais instruída nesse momento sublime. Daí desbancava a pensar se novamente estava sendo elitista?

Naquela maçante troca de marchas às paradas de total ponto morto, avistaram a tal da ilha. Tudo eram luzes e sorrisos. A mente avistou aquela cena que talvez fosse alucinação auditiva a percepção de buzinas de comemoração. Fogos é que ainda não eram, tão cedo se tratava. Galgavam naquela procissão antes fúnebre em marcha lenta para uma maior animação, todavia na lentidão mantenedora. Era muita gente. Na memória, fixava o comboio desordenado de carros argentinos, ora em uma fileira ora em outra, com suas fitas amarradas que uma vez ela tenha ouvido falar que se trata das proteções a olho gordo. Para ela, mais uma daquela mania de argentinos.

Se na rodovia quase tudo parava para depois seguir, na cidade, nas sinaleiras que desafiavam sua miopia ao entrar da derradeira noite, seguia o baile. Até ver o mar a noite já estava cerrada e o sol prometia voltar só no ano que vem, com a garantia do cantor Renato Russo. Escuridão havia bem piores, de fato, porque a cidade estava tomada de fachadas e anúncios iluminados, entre as esperanças do recomeço em janeiro e os resquícios natalinos. Os hotéis pareciam uns com os outros e elas checavam o endereço a todo o instante para não passar do ponto na avenida principal daquela praia. Se dirigiam ao norte da ilha e depois voltariam para o definitivo ponto entre as pontes, a que cruzaram e a que estava sendo reinaugurada na ocasião, onde haveria a exibição dos fogos todos.

Mãos ao céu em agradecimento: encontraram o hotel. Era baixo para o padrão de outros prédios por ali. Tinha quatro andares. A partir disso, expectativa em alta pelo momento que as levava lá, a virada de ano. Realizaram o check-in no automático, mal sabendo que não haveria check-out. Nenhuma desconfiança disso. Malas pesadas escada acima, cama de casal em posicionamento estranho. Nenhum móvel de cabeceira para colocar óculos, carteira ou outros pequenos itens que são bons manter próximos sempre. Chuveiro meio ruim de regular a temperatura, mas podiam tomar na temperatura fria dele desligado, bastando un poquito de coragem.

E coragem pensava ela nos argentinos que vinham de longe por praias mais belas, é bem verdade, mas por águas mais quentes para banho de mar e protegidos com suas fitas amarradas contra os olhos gordos que sabe-se lá de onde vinham. E alguma coisa pesou naquela noite, para além da gordura descabida dos olhares de cobiça.

Após a dificuldade do apronto em chegar ao hotel, dos pormenores dentro do quarto na arrumação, descarrego de malas, banhos frios e trocas de roupas, puderam se dirigir, depois de deixar a chave do quarto na portaria pela última vez, rumo ao réveillon, palavra francesa que ela demorara a assimilar como escrevia. E roía as unhas quando não sabia.

Mas agora roía as unhas por não sabe quanto tempo demoraria até chegarem ao evento da virada de ano. O trânsito da ida, após as pessoas se acomodarem em suas pousadas e hotéis, transformou-se no trânsito da volta. Enquanto elas chegavam na lentidão pelos trechos das avenidas, a pista oposta estava vazia. Agora que voltavam em direção à ponte, na vagarosa e controlada marcha, a pista anterior delas é que se esvaziava. Senhor deboche comum a tantos motoristas escravos do ritmo.

Desafivelar os cintos, cadeira de praia sob o braço, chimarrão na outra mão e bolsa a tira colo. Cataram um lugar estreito, a cotoveladas, em busca de posicionarem as cadeiras onde os joelhos roçariam e a mateira será que teria espaço para ser estacionada? Missão das brabas, gente por todos os lados. Desodorantes vencidos ou não renovados na correrias. Gente, gente suada, altos, baixos, gordas, magras, folgados de se darem ao luxo de sentarem em cadeiras de praia com abertura de pernas em ângulo obtuso entre elas: mas a malvada da audácia! Crianças, crianças às quais ela estava tão acostumada e não mais suportava e se corriam e se mexiam e se empurravam e brincavam de pique e pique-esconde, entre pernas de adultos e uma ou outra árvore naquele terrenão inacabável. E cabia mais ninguém, mas continuavam a chegar.

E não aguentava ela mais aquele ruído, massaroca de vozes, vozerio quase físico no contato, que a cutucava, espremia, comprimia e oprimia e desejou enfim que todos e o ano que viesse fossem ao inferno. Uma visita que fosse, para satisfazê-la em total aperto, que nem sentia o chimarrão nas papilas, nem a companhia ao lado, contida da mesma forma, mas aparentemente mais à vontade. Porque ninguém ali pareceu estar menos à vontade do que ela. E ela ardeu em chamas, abriu a caixa de ferramentas nos mais pesados insultos internos, não descarregados pela boca mas todos, dos mais diversos, de prontidão à mente, embalados para a saída, mas segurados por um móvel atravessado que bloqueava a porta, uma costura na boca. Além do mais, muitos seres humanos conseguem disfarçar melhor e também poderiam estar mal com tanta gente em volta.

E ela continuou a correr os olhos para onde fosse, milhares e milhares de pessoas vestidas de branco. Ela detestava aquela combinação dantesca que a lembrava o que de pior havia sob a face da terra, em reuniões das klu klux klan. E observando esse mar de gente próxima ao mar de verdade, com o aproximar da meia-noite e mal tinha trocado palavras com a companheira, que bebericava o chimarrão, roncava a cuia, servia de volta, entregava a ela, que terminava e seguiam nesse ciclo durante os passageiros minutos. No mar de gente, aquele mar branco, enjoativo como um mingau, no bolor de sotaques castelhanos, paulistas, gaudérios, locais e amaldiçoou que aquilo acabasse, que pudesse sair dali o quanto antes, embora nem que quisesse conseguiria se deslocar decentemente em meio à multidão.

Então, instantes antes do foguetório, sentiu o chão começar a ceder. E pareceu-lhe ser a primeira a notar, mas logo o vozerio perceptivo crescente e preocupante, apimentado da histeria. O chão da ilha estava cedendo. Não, não seria possível, mas então o quê, terremoto? Não, não, começou a ver a ponte ficar levemente mais alta, ela tão artística, tão observadora, era real. A ilha começou a ceder, mas ceder o que, minha Deusa, teu Deus, como era possível? Como uma balsa gigante, ancorada e desgovernada rumo ao fundo, as pessoas se apalermaram e não conseguiam conter-se, os das pontas tentando fugir, mas correr para onde se quanto mais se adentraria a ilha, mais longe ficariam da saída? E ao mesmo tempo as pontes bloqueadas, as pessoas longe de seus carros, em estacionamentos, ou vieram de táxi, ou de transportes via aplicativo, ou mesmo caravana de ônibus. O apinhado de gente cedendo junto com a terra, como areia movediça gigantesca, a natureza repondo o que era seu por direito, sem aguentar mais tanta e tanta gente em sua superfície. Um exame criterioso de pele, de epiderme e xô e xô e saiam daqui.

Os foguetórios começaram a meia-noite e deram o toque tragicômico, o gran finale ao espetáculo, enquanto muitos pulavam na água e tentavam nadar contra as correntezas, imaginavam que era uma saída, para quem estava na terra que era segurança, a água parecia calma, mas era violenta, muitos se afogavam, outros perceberam como a água avançava às multidões e foi um caos total. Ela assistia àquilo atônita, perplexa que seu sonhar e seus maldizeres ou ao menos mal-pensares é que causaram a tremenda confusão, a catástrofe impressionante, a tragédia de maior proporção, a cidade praticamente sugada ao oceano, em carros, prédios históricos e novos e os que seriam construídos em anúncios luminosos de outdoors e na internet e em grandes estratosféricos condomínios. Nada mais disso existiria e tampouco elas. Sua companheira tentou puxá-la pelo braço, mas para onde? Voltava a se perguntar ou nem isso fazia, estupefata, entorpecida pela visão do que era inexistente à realidade.

E a cidade a sugou, como engoliu milhares naquela noite. Poucos escaparam, velozes mais do que furiosos pela ponte, com os fogos de artifício ao fundo, em clímax de orgulhar Hollywood e seus fãs. E uns poucos por embarcações próximas, em uma tamanha sorte ou competência de ali pular, ali contar e ali pilotar barcos, em verdadeiros cardumes de refugiados. Tudo isso virou história e aos olhares do mundo só não virou lenda pelos raros registros de sobreviventes via tecnologia, nas imagens do famoso termo "cinegrafista amador" nos telejornais e pela rede mundial. Aquele foi o último dia do último ano da ilha, a ilha que atlanticou e não viu a década seguinte. Foi a primeira das muitas consumidas por esse processo da natureza reparar o desenfreio da humanidade.

falsas roupas brancas

Fortaleza. Virada da década, ao menos em movimentos culturais, porque cronologicamente os historiadores apontam as viradas para o ano 1 de cada década ou século, já que não se iniciou a contagem em ano 0. O hotel era consideravelmente luxuoso e a poucas quadras da orla, de onde o espetáculo, para Debord nenhum colocar defeito, seria de muitos fogos de artifício, este ano com redução no som, em consciência coletiva. Bom indicativo.

Mas o próprio hotel, através de sua área, de seu pátio, até da beirada de uma piscina, exibiria seu próprio evento chique. A música embalaria a trilha sonora do especial momento. Pessoas vestidas de branco, muitas delas, o que ela nunca gostou, mas aceitava e poderia bebericar alguma bebida doce que satisfizesse o paladar e o desejo alcoólico ao mesmo tempo. Além do mais, contava com parte da família e nem sempre era fácil reuni-los. Em uma praia, nos moldes atrativos ao paradisíaco, então, nada mal. Nada mal.

No alto de seus 20 e poucos anos e uma faculdade concluída, seu gosto musical era eclético. Variava dos populares brasileiros da mpb mais erudita ao que se ouvia aos pés e cristas de morros, das favelas elevadas geograficamente no Rio de Janeiro às mais planas de São Paulo e outras capitais. Gostava de desfrutar esse choque cultural, absorver o máximo possível de sotaques e até olhar aos lados em busca de alguém. Sem muita esperança de pesadas buscas, mas desde que a satisfaça no contar de alguns causos passados, delírios presentes e planos futuros, tudo em pequenas doses. Bebe, apenas beberica, na verdade, vai ficar tudo bem. Brindar taças e trocar o número de telefone para envios de algumas mensagens, ainda bem que a internet substitui os sms e torpedos, mas mesmo com esse elemento facilitador não vai entrar em contato contigo mais do que quatro vezes no próximo ano, vai fingir saudades, vai sentir saudades reais, mas nada demais, depois passa e encontrarem-se, salvo alinhamento coincidente dos astros, ano que vem talvez, tal qual uma canção dos paulistas do CPM 22.

Mas nem esse alguém estava lá. E além dele não estar, cavaleiro andante, prometido, príncipe do cavalo, sapo transformado, barba aparada vestido de branco, havia mais coisas erradas em seus sonhos. Quando já achava a festa lotada demais, mas seus pensamentos e a ansiedade futura do ano porvir a fechavam em um engavetamento, havia outros a se desenharem. Procurou despertando do sonho acordado e só encontrou o irmão muito distante. Paladino mais velho, que muitas vezes, antes de se mudar de cidade, por idade, por emprego, mostrava a ela o caminho, agora tentava irromper as pesadas portas cruelmente cerradas. Os consumidores da festa haviam sido trancafiados, sem saídas de segurança, pois os organizadores, com o aval dos donos do hotel, como soube-se depois, só permitiriam a retirada das pessoas pós duas horas, quando já houvessem agastado o considerado suficiente por suas estadias. Tamanho absurdo que nem os hospedados estavam autorizados a ir, que fossem, buscar uma bolsa, algo esquecido em seus quartos prédio acima. Ultrajante.

A revolta se sobressaiu ao clima natalino, cada vez mais naftalino em cheiro e este transformando-se mesmo em pólvora. Multidão em polvorosa que tentava convencer os estaqueados seguranças. Começava em com licença, veja bem e avançava para galopes de uma cavalaria sedenta de romper com as regras pastelonas se não viessem a se tornar trágicas. Com o diz que diz sobre a situação e as pessoas querendo explorar outros banheiros, além das limitadas estruturas da lotada festa, com os convivas sequiosos por tomar um ar fresco rua adiante, mas nada tirava os brutamontes das entradas cadeadas.

Empurra-empurra, portas de vidro, a liberdade logo além, o dj ignorado, uma versão do Dennis ou de algum outro desses, ou seria o injustiçado Rennan da Penha, enfim, qual era a senha para sair dali, para ao menos os primeiros chegados, os apoquentados à beira das portas, estes poderem sair e liberar as passagens, mas eu paguei, faça o favor, maldito, desgraçado, tu vais me agredir, você não sabe com quem está se metendo, meu tio é advogado, sou filho do vereador da cidade a 130 km daqui e

Finalmente o primeiro spray de pimenta quando, antes das portas de vidro em centenas ou talvez milhares de cacos, rasgou-se em pedaços a paciência dos seguranças, que partiram para, após a obediência insensata ao pé da letra das severas ordens, uma violência de cunho fascista. Abuso de autoridade. Abusos dos mais diversos.

Ela viu o irmão sangrar e quando deu por si também sangrava pois arrebentou-se o portão envidraçado como a um dique de uma barragem, mas ao invés da água, a água que até aliviaria os sintomas do gás de pimenta, o que veio foi uma saraivada de vidro, espalhando-se como os resquícios de balas de borracha. Ela sentiu a dor, o ano novo, a vida nova que mal vinha e travestia-se assim esfarrapada em frangalhos. A busca dos atalhos pela manada que atropelava os semelhantes. Todo mundo praticamente vestido de branco, lembrava-se ela depois que até exigência era para acessar o que antes parecia um longo e largo pátio para eventos. E agora aquela gente toda ali, no efeito das bebidas, na neurose crescente, na paranoia coletiva. Alguns mais ou menos sensatos, se é que sensatez era substantivo em questão, celulares em riste, foto aqui e gravação ali enquanto o cartão de memória permitia de haver provas para o tribunal nem tão próximo futuro quanto a meia-noite que bateria ignota nos relógios de pulso e nos telemóveis. Mas haveria de acontecer, certamente que haveria, pois, não lembra? O tio daquele era advogado e, mesmo assim, advogados já estavam por ali e mesmo aquela estudante de direito e aquele calouro.

E aquele calor todo, humano, irracional, dantesco, aos diabos, o inferno em portas abertas para onde tudo aquilo iria dar? Os libertos olhando de fora do tumulto o saldo, famílias separadas, seguranças e convivas feridos, com a certeza de que com a vinda da polícia alguns detidos, bodes expiatórios, laranjas, como estava em moda naquele período. Ela com o ferimento nas costas, o irmão com a dúvida de mexer todos os dedos, a mão que sangrava, o desespero. As sirenes, policiais ou ambulatórios que abriam caminho e prioridade a mulheres, crianças não haviam pela classificação indicativa, mas idosos alguns e que passaram mal, o coração, o ciático, o pandemônio. Foi horrível, foi. Foi intenso, sim.

Repercussão direta, entradas ao vivo pela madrugada nos telejornais. Os impressos lamentando não haver edição no feriado para mostrar as mais diversas chagas de uma sociedade desmedida em regramentos e consequências. A poucos metros dali, os fogos de artifício seguiram a programação pré-estabelecida. Os organizadores da queima maior tampouco sabiam do que se passava. Aquela ficou conhecida como a noite em que as roupas brancas tingiram-se do mais vermelho dos sangues. A poucos metros dali, as ondas seguiram seu curso natural, mas ninguém do hotel pulou sete delas.

31/12/2019

última nota da última música

o astro-rei brilha sempre
sol, só e solteiro
brilha o dia inteiro
se não aqui, do outro lado
de janeiro a janeiro
o astro-rei que é lei
sempre trouxe a vida
mas agora abrevia
mais perto da morte
rompendo a camada
que era suporte
um sol para cada
quem é que dá conta?
da antártida até
a outra ponta
aquecimento global
sobe o litoral
pescador, malabarismo
fauna e floral
camada de ozônio
alívio do outono
após o verão
outorga outra lei
tu que sabe na tua sala
com ar condicionado
enquanto as queimadas
cortam de fumaça
outra madrugada
cortinas de mata extintas
cortinas de fumaça
nas façanhas do governo
entranhas do medo
natural é o preconceito
científico não aceito
vai no achômetro
que a Terra é plana
porque é um planeta
que a vida é insana
com tantas bestas
à solta
antas, vidas santas e mitos
cantam a esperança
na boca do conflito
evitam maior atrito
que faz sair mais fogo
é fácil negar o preconceito
sem olhar o outro
vários e vários preceitos
em nome do sufoco
direitos trabalhistas
se vão numa lista
sabemos em nome de quem
deixam muitas pistas
aroma de morte
o capital borrifa
ajoelham às cortes
tentando vender rifa
bala de goma e malabares
na beira das pistas
praia corcunda empurrando carrinho
rinha de galo de quem vende o milho
os ricos nem nas praias
saem de jatinho
saem de fininho sem sair nos jornais
dias e dias que não aguento mais
mas um dia veremos alguns de seus
finais
finados nos confins
por outras classes sociais
enfim a paz
em nossos avais
e anais de evento
e um astro-rei no seio
de cada um guerreiro no meio
e além de uma chama por dentro
o cetro destruído
o povo unido, digno, aquecido
pelo único rei que é astro
lá de cima fiscaliza
os aqui de baixo
na baliza da vida
no facho da luz
o fascismo seduz
mas vai virar medusa 
um a um contra o espelho
de meia em meia dúzia
até a última nota
da última música

26/12/2019

cinzas de rima

na produção da rima
na formatação espaço
de forma exímia
pus cada acento acima
pus cada cedilha abaixo
pensei sua gargantilha
cada um de seus pedaços
da criação que é filha
sua do nu dos braços
das pernas também nuas
tento trazer seus traços
empréstimo de suas ilhas
arquipélago em seu formato

toda a canção etílica
vozes são seu retrato
detalhes que aqui se empilha
recall até os metatarsos
assim a rima é um corpo
ou somente extremidades
epiderme coberta
colheita de minha meta

assim a rima é um sopro
põe o barco em movimento
impõe-se do cais afora
e conserva sim um lamento
sem ser revelado agora
úlcera que vem por dentro
consome, corpo não chora
cora sem esquecimento
na hora que a conta cobra
o juro é o maior fermento
o juri é teu e torra
condena ao abatimento

assim a rima é teu corpo
inesquecível vinho tinto
só piora a distância
a lembrança com o tempo
consome toda a relevância
primeiro plano
lente de aumento
ocupa toda a mente
stand by, resto dormente
resta a fresta do esquecimento
migalhas enganam
e logo falha
cai de novo nas malhas
tralhas de vão passado
train in vain
vai aonde?
onde não possa ser encontrado

a rima te encontra
a rima é teu corpo
acampamento monta
apronta a fogueira
sendo consumida com o tempo

lírio ao lado do lixo

lírio cresce ao lado do lixo
desenvolto no capricho
e um picho ao seu redor

lírico cresce ao lado do lixo
dez em volta nesse nicho
e prefere estar só

25/12/2019

rupturas e cordas bambas

Obviamente a psicologia não se desenvolve caso a caso de forma isolada. Da movimentação de casos para a observação de ocorrências, repetições, aproximações e padrões, se encurtam os caminhos para sanar o estado dos pacientes. É a busca de se entender e o porquê de agir de determinada forma.

Frisado isso, há textos que procuram entender as formas e os tipos de comportamentos, mapeando as tendências e facilitando a monitoria. Ainda se estudam os casos, as pessoas não se tornaram números, mas o que não impede classificações, que, abalizadas, podem ajudar e muito.

Não trabalho com isso, mas a observação de textos e métodos, inclusive repassados para pacientes, me possibilita aplicar isso em breve autoanálise. Se procura um tratamento completo, a indicação é da procura de um profissional da área. Aqui apenas esboço onde me situo.

No que se considera uma personalidade não-assertiva, preencho cartelas de bingo e me identifico em vários pontos. O perfil conciliador, que evita brigas, prefere refugiar-se do que a assistir as exibições monótonas e desinteressantes da espécie, convivendo seguidamente com o tédio não nas atividades solitárias, mas em grupo. A insegurança sobre o próprio ser, que pode até se considerar altivo e atrativo em determinados pontos e práticas, mas que passa a notar e relatar o desinteresse alheio e evitar contato.

Desenvolver-se em atividades solitárias requer outras pautas como gostos extravagantes ou distintos ou mesmo o desinteresse pelo que as demais pessoas têm se interessado. Uma faca de dois gumes que mantém a inércia a meu lado e o dinamismo na face oposta do quintal.

O estado solitário apresenta essa via cruzada, no estar bem consigo mesmo estando só pelo desempenho de atividades como esta, da escrita, além de leitura e assistir a programações televisivas, como filmes, os quais gosto. Ao mesmo tempo existe um incômodo próprio de sentir-se exclusivo, no sentido excludente, das atividades de interação humana. Meu relato ao passar o dia no quarto em 25 de dezembro leva a crer que esse ponto está em seu ápice para a ebulição.

E para além da fincada da agulha, dessa ponta solta que nos entristece por si sós (e a sós), sem a interferência direta de terceiros, estes terceiros surgem no intrometimento para que sejas carregado ao zelo da interação e atuações. Todavia, é uma relação em ruptura. O seu isolamento causa a ruptura no andamento harmônico das relações sociais. Ao menos harmônico para quem não nota as incongruências e hipocrisias hora após hora no cotidiano. E se o seu isolamento causa essa fenda por onde se esvai o bem estar social, por sua vez a sua volta à condição de interacionista causa uma ruptura na zona de conforto do isolamento. Essa via, em resumo, é de rupturas e o perfil não-assertivo, o nosso em questão, tende a satisfazer o gosto de terceiros desempenhando atividades, saídas, escolhas que não lhe condizem com o gosto, mas, para evitar maiores conflitos e desgostos em terceiros, aceita-os.

Mas essa condição não-assertiva, como o armazenamento de um aspirador de pó, o filtro de um ar condicionado ou outros filtros, acaba tendo um limite. Aguentar muito essas programações forçadas e desgostosas para a pessoa acumula um mal estar interno. Não por acaso o texto do "Manual de Avaliações e Treinamento das Habilidades Sociais" cita que pessoas do perfil não-assertiva apresentam tendência a desenvolver chagas como úlceras e descontroladas irritabilidades quando finalmente alcançam a zona limite pós-acumulações.

Exercícios de ir aos poucos, como algumas pessoas gostam para se acostumar à água das piscinas, podem ser apaziguadores no caso. Aceitar e controlar a proposta de dizer "não". Porque é de conhecimento que caso tu cedas sempre por não dizer "não", as pessoas arrancam-lhe não somente a mão como o braço e até onde for possível. São zumbis devoradores. É preciso equilibrar-se nessa corda bamba entre topar sua zona de conforto, restauradora de energia, absolutamente necessária a nossos perfis que não aguentam, não suportam, detestam a interação consecutiva, e também não arrebentar completamente o elo social necessário por interesses de sobrevivência, desde alimentação e estendidos a demais serviços terceirizados, como saúde, limpeza e trabalhos manuais.

O diabo do respeito, essa figura difícil de ser atingir e fazer com que os outros atinjam, é um ponto crucial. Entender que o seu corpo e sua mente precisam de resguardo das atividades que custam paciência, requerem esforço e interações demasiado desgastantes, ao passo que não se deve, não se pode obter êxito em total recolhimento antissocial, na perda de contatos e na ruptura definitiva com as demais pessoas que, inconscientemente, sem perceber, talvez queiram o bem, mas sejam praticantes dessas queimaduras de diferentes graus e chagas mais profundas. Estejamos alertas na procura pelo relaxamento. E às vezes relaxados na zona de estar sempre alerta.

morro dos lobos uivantes

Em meio aos fogos de artifício e demais explosões, latidos de cachorros confusos e assustados, carros em trânsito irresponsável, sons altos, música que adentra madrugada, o silêncio. O silêncio dos suicidas. Acompanham e transpassam e esvoaçam espiritualmente até meu recinto. Sinto-lhes e ouço-lhes e, para quem os sente e os ouve, são mais ensurdecedores do que tudo o que foi mencionado acima.

Evitam que eu me largue ou me abandone uma meia dúzia como se dessem as mãos e envolvessem o tronco de uma árvore centenária que seria (ou será) cortada pelo inestimável progresso, segundo alguma construtora ou mesmo a administração pública local. Eles a cercam e prometem grandes greves e protestos para mantê-la ali intacta como sempre esteve centenariamente, de forma ininterrupta. Mas até as aparentes grossas raízes tombam.

A depressão era, há alguns anos, um lobo solitário à beira de algum penhasco distante. Uivava e eu ouvia. Uivava e eu ouvia. E não dava bola. Era apenas um uivo em qualquer lua cheia ou minguante ou crescente surgia. Mosquito insociável que vinha tentar a sorte sozinho e era facilmente esmagado quando identificado após interromper meu sono e fazer-me acender a luz da lâmpada de cabeceira. Fácil derrotá-lo.

Pois o lobo esquivo mostrou-se fiel oponente e insistente a emitir seu brado contra o céu noturno; ele sempre me alcançava. Com o passar do tempo, esse lobo, através de seu inconfundível gemido, ganhou companhia e hoje sinto como se formassem um agrupado de quadrúpedes insaciados, matilha que me cerca e a qualquer momento pode me devorar.

Seus caninos estão à mostra, as bocas espumam e me quedo paralisado. Estão à minha frente, esquerda e direita e às costas tenho somente como que uma montanha íngreme demais para ser escalada. A vida começa a demonstrar desafios e imponências demais a troco de pouca recompensa. A única saída é atirar-se de escassas e sangradas unhas e ponta de sapato para firmar-se nessa escalada. Sem outra alternativa, sem maiores equipamentos de segurança, nem emocional nem financeira, na conduta que segue e povoa a complexa arquitetura do palácio das incertezas.

19/12/2019

marionetas

às vezes escrevo sem significado
apenas para não ficar entravado
na garganta
outra banca de palavras, um bocado

deve ser a maldita da metapoesia
que se mete e na minha mente
monta eucaristia
nos refúgios de meus subúrbios me habita
me visita e picha nos meus muros

desenha pelas ruas do passado
ordena pelas ruas do futuro
faz-se do meu lar inalterado
altera móveis, pedras e entulhos

metapoesia neta de outro poema
face da minha filosofia
crase somada, tese cravada
entre cravos, gerânios e orquídeas

metapoesia que se meta
para eu ver
até onde vão as marionetas
com vidas próprias
em meus dedos a escorrer

dissolvente

sois inclemente com minha mente
impura
impávida e de difícil acesso criatura
que percorre as agruras de minha alma
me censura o sentimento que é minh'aura
faz com que me sinta indecente
e que me sente
a pensar o meu ser dissolvente 

18/12/2019

centaura

fiz um poema a ti
alço-te assim porque mereces
seguirei sim a menos que peça
para que a minha cabeça cesse

secar a torneira das palavras
irrigado terreno que lava
a alma de quem se reconhece

fiz um poema aqui
a contornar sua áurea alma
que te toque se não com a palma
muito mais fundo é o que sorri

escolhi a ti, criatura
entre tantas outras dessa fauna
elevei-te a altura sarau em sauna
para imortalizar-te: literatura

12/12/2019

death poem

desculpa poema tão curto
desculpa poema tão porco
desculpa por esse insulto
desculpa ser tão absorto
desculpa a uns ser culto
desculpa por estar morto
desculpa a outros ser inculto
mas da forma que me sepulto
todavia (todavida) continuo morto

pelos

meus pelos nas coxas me irritam
alguns pelos de colchas me irritam
saudade dos seus pelos meus
me excitam

bubblegum

gira a chave fecha a casa
gira a chave liga o motor
o que iluminará o astro maior
se eu não sair, se eu não for?

dezembro de 2019

dezembro de 2019
o que te move
ao fim da década
é o mesmo do começo?
amada
claro que não
a gente nem se conhece
a gente até se merecia
a gente nem se conhecia
a gente não conhecia
alguém para ser
o verbo que seria
o sintagma mais importante
o magma mais envolvente
o sabor mais quente
de infinito instante
ah, como era bom antes
quanto melhor durante
sem nós dois
que me sobra?
cobra que rasteja
e se desdobra
nesse vazio dos depois

astro maior (a carolina maria de jesus)

um nascer e se por
lá no canto do condor
lá no canto do cordel
figura fiel
vai voltar se for
lá no céu a fitar
astro maior

nome de poema

tem que dar nome ao poema
ah tá
isabela
franciele
invente alguma maria helena
tem que dar nome
ao poema
o cachorro existe
kika ou zibi
quadrúpede e sem vestes
logo vistes
sem nome e menos problemas
contra a fome
o pobre luta ao que lhe some
salário menos que o mínimo
a ver se consome
e ainda tem que pensar
em nome de poema
e o governo pensa
em são paulo a merenda
bolsa cortada
fonte de renda
nos jornais nada
veja e entenda
praticidade, televenda
alô, é da casa do...
caiu a ligação na vivenda
demoro pouco mais que repentista
decepciono a telefonista
que viu meu nome na lista
e eu desligo, desabrigo
um zero onze, um zero vinte e um
outro algum
algum outro passando sufoco
pra cumprir meta de venda
governo pensa nome
de projeto e de emenda
e não cumpre
eu cumpro
e não penso em nome
de poema

patrono

sono, patrono máximo
de meu humor
bono, o que é bono?
por acaso ácido
meu rumor
trono
reis e rainhas
eu e você
meu amor

tylenol gotas

poesia sem melancolia
noite sem dia
dia sem sol
caixas, cápsulas, válvulas
coristina
rivotril
dipirona
tylenol
onde chegou a vida
viu o que te deu
ou a vida te tirou

08/12/2019

venceslau

eu tenho uma namorada em novo hamburgo
ela deve estar com os namorados dela
eu tenho uma janela de frente pro tumulto
ali eu sepulto uma ou outra ideia

eu tenho pensado na minha família lá nos burgos
por fora e tão pobres camponeses
na américa a imaginar um outro futuro
com o nome mais vagabundo dos poloneses

venceslau
venceslau
venceslau

eu tenho uma paixão por rock gaúcho
escrevo umas letras qualquer
e ponho no fluxo
se ficar um pouco melhor
já serve pra forrar o bucho
não precisa grandes coisa
pro rock gaúcho

eu tenho uma madrugada em outro fluxo
a cardia acelerada e o comprometer
de outros músculos
eu tenho uma janela pra outro mundo
lá estamos eu e ela em
königsberg

minha tia-avó acreditava numa herança
na alemanha
talvez fosse a maior esperança dela
dos meus sonhos de criança
não sei quais estou à espera
eu queria ainda acreditar
na primavera

venceslau
venceslau
venceslau

01/12/2019

outras bastilhas

dedilha e dedilha este violão
que vamos derrubar outras bastilhas
aceite a pastilha da minha mão
que tirei de dentro da vasilha

minha mãe fez cirurgia em outro verão
e retirou a sua vesícula
em nome das rimas pela perfeição
improviso rimas ridículas

me acostumei que a polícia faz o que quiser
reclamar para quem e para quê?
dedilha e dedilha este violão
que vamos derrubar outro batalhão

quem policia a polícia?
que se disfarça travestida de milícia
quem policia a Melissa?
minha gata sai de trás das hortaliças

quem policia a missa?
ou o que ocorre atrás dela
longe do alcance de qualquer janela
atos e chances de qualquer premissa


26/11/2019

4 paredes

suas quatro paredes
minha sêde
minha séde?
sê-de minha

minha fonte
assim defronte
ou onde
te escondes
me escondes

suas quatro paredes
volto a elas
me recosto
mexo as letras
suas mechas
deixa dedos
deixa medos
do lado de fora

de suas quatro paredes
pinta comigo
primeira e segunda mão
lê-de meus sinais
não meça os quais
não fazem parte
de nossos rituais

de nossas quatro paredes
me adono
suas pernas em coroa
meu trono
adorno e horkheimer
ai-me
a minha alma
armada e apontada
a minha arma
amada e apontada

no escuro sou cego
no escuro sossego
no escuro me curo
me curvo
no escuro
de suas paredes

rente a elas e rentável
ágil o agir
entre o viável
e o invisível
o que está ali
e o imensurável
o que todos sabem
não mencionável

entre as quatro paredes
maybe in made
made in maybe
sure, no shame
barco e leme
lambe em lazy
entre as quatro paredes

cavidades
epidermes
novidades
e até germes
há de ser-de
sermos não ermos
corpo em ésse
letra de seremos

entre quatro paredes
o átrio batendo
o conjunto povoa
esse tudo
que é quarto
e primeiro
para a escolha
dos atos

24/11/2019

globo ocular

deixa eu girar
teu mundo
teu país
teus quadris
e
ha!
teu globo ocular

aliens exist

racing club de avellaneda
nos fones rancid
camisa "resist"
aliens of course exist
e mais nada

folhas de almaço

morro humano a cada dia
fica o artista
a cada transa a poesia erótica
me cresce e me brota
como os membros, tuas fronhas
me sufoca
devaneios, o que se sonha
me sufoca
me conjunta e me une
a ilhota
me mantém vivo, mil antídotos
para a carne antes morta
mezanino onde flutuo
mientras uma juventude senil
entra aqui ou me abre
tua porta
braços, mãos e maços
folhas de almaço
preenchimento poliglota
je parti e tois aussi
foi-se a frota
a espera é um porto
a vida vai e o vento sopra

06/11/2019

a bomba

Fui um dos primeiros a chegar nos bancos que cercam as plataformas de embarque e desembarque da movimentada rodoviária. O ritmo das capitais. Pousei minhas bagagens ao chão, no equilíbrio de minhas canelas para não tombarem e ao mesmo tempo tomando o cuidado para que não tombassem para frente. Mochilas abarrotadas de coisas dificultosamente colocadas e que me fizeram agradecer por ceder a nenhuma pressão interna de compra nas feiras ambulantes. Os tesouros dos briques à beira do parque em ótimas peças de artesanato ou imitando as principais artes do mundo da música pop e do rock. Como comprei nada dos interessantes materiais, foi possível alojar meus pertences em estreitos e disputados espaços.

Enquanto verificava o sobrepeso que me livrava das costas ao poder sentar-me com as bagagens no solo, notei a movimentação peculiar de um outro futuro passageiro. Também alocado para os desconfortáveis bancos de madeira, ele partiu em direção à plataforma de concreto onde os ônibus param, vão e vem, e pousou uma mochila preta por ali. Despreocupado em sua pose marrenta de óculos escuros, ele retomou sua posição original em recuo da plataforma rumo aos bancos. Observei-o de canto de olho, sem dar bandeira, sem despertar alarde. Fingindo tamanha despreocupação como ele devia estar fingindo, pois logo veio-me à tona o motivo da sequência de atos do homem: é uma bomba.

Olhei para o lado se mais alguém teria notado a tal petulância. Logo na rodoviária, em um domingo, em dia tão movimentado. O recuo dele para fumar um cigarro e depois sumir em direção à área de comércios e restaurantes da rodoviária não deixou-me sequer sombra de dúvida: era um terrorista. Como cresciam os tipos de atentado naquela época, a Europa vinha em polvorosa com tais acontecimentos. Museus e prédios franceses, descontrole dos metrôs aos centros históricos da Espanha, de Madrid a Barcelona. A Alemanha dava pronunciamentos para evitar surpresa sobre. Os Estados Unidos que nunca haviam superado o atentado contra Nova York em 2001. Todos esses países ocidentais servindo de exemplo e quintal para o que iria acontecer ainda naquela tarde.

A cena cinematográfica estava feita, o sol a brilhar de fundo, a mergulhar defronte às lentes amareladas de meus óculos escuros. Eu seria tão suspeito quanto ele. Inclusive uma de minhas mochilas, a preta, se assemelhava demasiadamente à depositada pelo farsante, pelo vigário. Maldito seja. Pensei em acometer-me contra os demais cidadãos. Esbofetear rostos de maneira incrédula e obrigar-lhes a abrir os olhos: "como não viram esse criminoso agir! bem diante de vocês!". Exclamar-lhes, fazer o maior alarido que me fosse possível.

Eu que já havia àquela altura e naquele ano pensado em tirar minha própria vida, muito me aborreceria terminá-la assim à beira de uma plataforma rodoviária, vítima de uma tragédia de âmbito nacional pelo número de mortos e mundial pela audácia do autor. Certamente aquela mochila preta reservava um dispositivo interligado a um disparador que o meliante executaria a uma distância segura. Disfarçado ele com seus óculos escuros para perder-se na multidão e nos caminhos sinuosos da metrópole rumo ao oeste da cidade para escapar pelo interior. Agora que ele havia sumido da vista eu nada poderia fazer. Será que serviria de mártir? Será que só eu havia percebido a ação criminosa? Será que se eu escapasse, recuando para longe dos estilhaços da bomba, seria suspeitado nas investigações por passar características vagas e imprecisas sobre o autor? Mas para que precisariam de mim, se as câmeras de segurança registraram tudo? Se é que registraram.

O tempo estava acabando, os ônibus do horário das 16 horas estavam começando a encostar no destino de recolher passageiros. Certamente programou para a hora do embarque, quando os motoristas estão conferindo os bilhetes e as demais malas estão ali para formar uma salada de opções confusas para se entender o motivo do estrago. O suor me escorria pela testa e pelo lombo; se eu saísse dessa, teria a obrigação de dar um jeito de trocar de roupa dentro do ônibus. Mas que ônibus e que futuro? Seriam mais atingidos os passageiros de minha cidade ou daquela serrana? Como sairiam nas estatísticas? A comoção nas rádios e telejornais locais. A imprensa internacional e as agências de notícias rumo ao contato, a dificuldade do idioma. As entrevistas sensacionalistas e emocionadas. Tudo isso com meu aval, minha cumplicidade, minha ineficácia em como combater. Cansei.

Me levantei para tomar uma atitude a respeito, os passageiros se aproximavam e eu não podia mais deixar daquele jeito. Poderia salvar vidas e ser reconhecido com medalhas de honra no mais puro e singelo heroísmo. Calcei-me de coragem e pus-me de pé. Não mais via de canto, mas ouvi de canto uma voz que se aproximou para junto de um senhor baixinho que sentado esperava, as pernas curtas que mal deixavam os pés alcançarem o chão enquanto as balançava. Senhor negro de barba e cabelos que restavam bastantes grisalhos.

Qual não foi a minha surpresa em reparar, agora sim de olhos, que aquela voz era advinda do delinquente de meia idade e óculos escuros. O patife estava regresso. "Um real pelo banheiro da rodoviária! Mas pela dor de barriga que tive valeu cada centavo. Obrigado por cuidar da mala" e aliviado dirigiu-se para sua bagagem e para o embarque. Ao menos o ônibus não era o mesmo que o meu.

esse motivo

enquanto eu penso no mundo
quem é que faz minha janta?
enquanto eu penso no mundo
quem é que faz minha janta?

queria ter tempo de ler, ver e escrever [um pouco]
para me sentir mais vivo
ou ao menos, menos morto
brindar-me com mais atrativos
uma taça de vidro de um líquido choco

queria ter tempo de ter você e você [mais um pouco]
para me sentir mais vivo
ou ao menos, menos morto
brindar-me com todos os seus sentidos
entre o alívio e o sufoco

como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo
como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo

como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo
como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo


*escrita em 06 de novembro de 2019 - pós apresentação de Gustavo Kaly e Wander Wildner na TVE RS*

turbilhões

um turbilhão de pensamentos
nem dá tempo de passar ao papel
tem dias que nada me vem
em outros vou infinito ao céu

tem dias que ninguém me dá bola
e dias que vocês se combinam
exercício da paranoia
não saio desse labirinto

um turbilhão de momentos
que se atropelam e disputam o meu tempo
quero fugir desse conflito
ficar em paz como supremo sentimento

o trânsito não te permite
é o apetite nunca saciado
meu tempo livre quero meu levite
acima desse mundo tresloucado

um turbilhão de turbilhões
turbilhão é uma palavra feia
turbilhões turbinados
turbilhões estrangeiros na minha aldeia
que perturbam o meu sossego
e me fazem ir além
perturbam como medos
me fazem ser outro alguém


*escrita em 06 de novembro de 2019 - pós apresentação de Gustavo Kaly e Wander Wildner na TVE RS*

03/11/2019

paranoia rodoviária

Eu esperava ali sozinho na rodoviária. Os ônibus do horário anterior haviam recém partido e os bancos se encontravam vazios à beira da plataforma de concreto, a área destinada ao vai e vem dos transportes coletivos. Sentei-me de frente para onde eu embarcaria mais de hora depois. Não eram estruturas confortáveis, o que deixava claro que os utilizadores costumam chegar ali somente minutos antes do derradeiro embarque. Mas considerava aquele um espaço seguro e não queria mais me acomodar com as pesadas bagagens, compostas por duas mochilas, em outros cantos. Ali estava de bom tamanho.

Miscelânea de pessoas por vir. De diferentes localidades, interior ou demais capitais, indo a trabalho ou voltando para casa. Visitas, festividades, enterros, diferentes motivações para se deslocar em tempos de passagens caras. Lembro quando eu pagava cerca de 50 reais para estar ali. Agora eram quase 90. Tudo isso em um combo de poucos anos. Quem dobrou salário nesse período? Envolto em pensamentos distantes, talvez mais além do que a trajetória daqueles ônibus, distraía-me com o desenroscar dos fones de ouvido para em seguida plugá-los ao celular e colocá-los como transmissores de meus temas musicais previamente e minuciosamente selecionados. Ênfase nos artistas que eu recém havia escutado em viagem com o intuito de vê-los e isso eu havia cumprido. Visitei e conheci pessoas e outras tantas que não me foram possíveis ver por contratempos delas ou impossibilidades ou mesmo por - mea culpa - não tê-las colocado em prioridade para possíveis encontros. Bola doravante.

Surge-me em periférico campo de visão a imagem de uma bela moça, dos atributos físicos que costumam me atrair. Características gerais devidamente observadas nessa olhadela de fração de segundo. Ao tomar consciência do panorama em volta, há uma maior ocupação dos lugares em relação ao período anterior de minha chegada, obviamente. Bom nível de preenchimento, a superar os 50% dos arredores do box 4, de onde partiria meu ônibus. Ainda entretido com as atrações musicais direcionadas aos meus ouvidos para transmissão direta ao sistema nervoso central, passei a considerá-la parte de minhas distrações. Imaginar idade, procedência e principalmente: estado civil.

Em outra das olhadelas - talvez a terceira ou quarta - observo que ela está conversando com alguém. Pago o preço pela demora em agir. O caríssimo custo de não tomar uma atitude antes, de apenas observar de canto de olho, sem estabelecer um contato visual que poderia resultar até em minha migração, bancos ao lado, em direção a ela para ligar assuntos. A dúvida entre começar genérico nas habituais conversas desenvolvidas desde que a linguagem é assim linguagem, só observar nos filmes antigos ou mesmo no que é empregado em livros de séculos anteriores. Olá, tudo bem, como está, vai para onde, a que veio, a que vai, interessante. Ou quem sabe investir em algo mais dinâmico mas que pode assustar as pessoas. É sempre uma dúvida ponderável.

Iniciar diretamente a conversa sobre seus gostos musicais, sobre para quem foi seu voto na eleição passada, se possui outras referências políticas ativistas, o que costuma ler, o que gosta de fazer no tempo livre, qual o sabor favorito de sorvete, se come ou não come carne, se conhece mais do mapa da cidade que sempre me interessa saber mais a respeito, de onde seriam suas raízes e gostaria muito, muito, muito mesmo de conhecer suas origens em nome e sobrenome. Calma, respira, não vai acontecer. Não há porque manter esse desgaste. Estava recém voltando dessa subida, dessa ascensão em aproveitar viagem em terras parcialmente desconhecidas. Uma hora se volta e, voltando para casa, outras aventuras desenvolvem-se, não é mesmo? Mesmo assim há o incômodo. Antes ela não estava conversando e agora está. Com quem está? Não interessa, foi perdida a oportunidade. Por ordem de chegada poderia ser sua esta chance. Nisso concorda? Concordo.

Alguém tomou o lugar na janela. Inclusive minha poltrona dessa viagem era no corredor, por comprar mais em cima da hora e fugir da classe executiva que tornaria a viagem ampliadamente cara, para acima dos 120 reais. Um assalto em transporte, praticamente um sequestro para voltar para minha cidade. Enfim, tomado de assalto fui naquela situação, evidentemente, pois alguém roubou meu lugar, o lugar no banquinho desconfortável de madeira ao lado da donzela. O preço de migrar chamando a atenção dos demais ocupantes à beira da plataforma para dirigir minhas mochilas para mal acomodar-me em outro banco duro de madeira com encostos de ferro aos braços, mas tudo isso com o intuito e conhecer aquele misterioso sotaque, quem sabe do noroeste do estado, terra das mulheres mais bonitas do mundo, segundo me constam pesquisas, conhecer olfativamente aquele perfume entre pescoço e cabelos, sem importar-se com a marca do shampoo ou da loção. Sem noção, divagava assim por pensamentos, mas ao mesmo tempo conhecedor do retrato da derrota. Não fui enquanto era tempo e alguém tomou-me esse espaço. Raios. Raios duplos e até triplos. Poderia ali estar um futuro relacionamento, um novo objetivo de viagem, uma perda de tempo virtual, no mínimo dos mínimos, era válido arriscar.

As olhadas de canto, o máximo que encarei nessa tríade contada, formavam uma imagem mentalizada pelo cérebro de que valeria a pena investir. Agora ela encontrara alguém para o resto de sua vida. De certo pegariam o mesmo ônibus e esse os confirmaria no caminho não só da mesma cidade, mas iriam pela estrada da felicidade. Desceriam na próxima estação rodoviária casados, com nomes escolhidos aos filhos e alianças medidas para serem compradas e trocadas e claro que aceito, pode beijar a noiva. Tudo bem, faz parte, segue-se para outra via. Afinal, eles estão mais próximos do box 2 e o meu destino reservava o box 4. Do ponto congruente que nos uniu em horário e local, era a sequência vital nos levando cada um para um canto e jamais daria certo. Abatimento, mas aceitação. Que eles fossem felizes. Quase um abrupto intuito de levantar-me para assim desejar ao mais novo casal. Talvez constrange-los evocando algum canto brega e ridículo como "com quem será?". Mas sequer sei os seus nomes. Não saber sequer os nomes é irritante. A idade, se prefere gato ou cão, chocolate ou morango ou baunilha ou creme, o signo, a cor favorita são questões irrelevantes quando não se sabe sequer que nome foi encerrado na cova e na gaveta do inacessível passado, inevitavelmente deixado para além das possibilidades futuras.

Somente quando o horário já estava sendo finalmente preenchido para nossos ônibus encostarem, os motoristas descerem e conferirem as passagens, é que pude observar a moça mais de perto. A poucos metros dela, urge-me a derradeira e fatídica surpresa: acompanhada estava a de cabelos escuros pela sua própria mãe. O exercício da paranoia rodoviária.

juliet

sonhei que você se debruçava em mim
só pra confirmar que eu queria
assim
sonhei que você me servia gim
só pra confirmar que eu queria
gim

sonho seu sorriso nervoso
como ele é
ruidoso dentro da minha mente
impreciso do motivo
do que você quer

sonho seu sorriso arbitrário
nada é páreo para ele
implacável e sem placas bacterianas
dentes brancos
laudos odontológicos
a mais bela criatura
do nosso zoológico
a fissura que me causa
e me deixa em chamas
e mexe com meus diagnósticos
neurológicos

sonhei que você se debruçava em mim
só pra confirmar que eu queria
assim
sonhei que você me servia gim
só pra confirmar que eu queria
sim

sonho seu sorriso
último passo do abismo
intrusivo que me submeteu
sonhos e paraísos
algo a mais que juliets e romeus
além do éden de cobras e maçãs
e de tudo aquilo que já se rompeu
sou o et do particípio
do verbo não vencido, carente e ateu

sonho seu sorriso subjetivo
me alegra poder ser esse motivo
em um gerativismo
seu sorriso forma o meu
Deus morreu
e o próximo sou eu

sonhei que você se debruçava em mim
só pra confirmar que eu queria
assim
sonhei que você me servia gim
só pra confirmar que eu queria
sim

02/11/2019

entre milhões de views e milhões de ninguém viu

Passeando pelo Google Street View e descobrindo algumas das cidades mais famosas do mundo nos Estados Unidos. Entre as impressões que me chegam está a de que lá tudo é muito distante para desenvolver caminhadas. São cidades planejadas para os carros. Ruas largas e impecavelmente asfaltadas, mesmo os becos ou desvios para lugar nenhum: há por lá o asfalto, o tapete ao desfile das quatro rodas de cada um.

Os cenários urbanos se desenvolvem nesse sentido. A horizontalidade de cidades segue esse guia de vias que no Brasil incentivariam os mais perigosos rachas. Não à toa roda-se e desperta-se o desejo de sagas como Velozes e Furiosos. Cada cidade por lá apresenta características adequadas para o exibicionismo da alta velocidade e tecnologia automotora.

No meu cenário muito mais pedestre e transeunte, imagino o forte calor dessa quantidade asfáltica. Noto a presença das calçadas e de terrenos baldios ou desocupados de imóveis também repletos de concreto. Há árvores nessas cidades mais sulistas, mas são vegetações mais baixas e características dos desertos, ou seja, a sombra não é convidativa. Chega a causar inveja aos sertões do Nordeste de brasilis, descritos pelo carioca Euclides da Cunha.

Lá nos EUA pode-se iniciar a vida de condutor mais cedo do que no Brasil, em licença para dirigir logo aos 16 anos. Um carro para cima e para baixo em direção aos fast foods, lojas, hotéis, festas e diferentes paisagens. O país que, antes colônia da Inglaterra e pós esse processo colonizou quase que o mundo todo, exporta esse meio de sonhos de consumo e de formas de administrar cidades. Com o calor dos asfaltos, com o incentivo de vendas mais baratas de carros e combustíveis, a carta para dirigir retirada na adolescência, a publicidade e outros estabelecimentos como as vendas de comida em lanches fazem os Estados Unidos brigarem contra a balança. Se o braço forte do capitalismo vence e coloca qualquer braço oponente direto na lona nas quedas, a balança mostra panorama da luta do país contra o sobrepeso de sua população. Perspectiva preocupante.

Outro ponto que me chamou atenção foi da situação da rica Califórnia, sozinha maior do que o PIB de quase todos os países do mundo e maior do que o PIB de uns quantos somados juntos, aglutinados; essa Califórnia que é fronteiriça com o México, ainda sem a oficialização de um muro trumpeano, mas que revela problemas que nos passam despercebidos sobre as crueldades das garras capitalistas. Ali em fronteira com essa Califórnia está a deepweb, está a obscuridade, o poder do tráfico. A cidade de Tijuana lidera ranking de 2018 sobre o atlas da violência mundial, atualizando homicídios. O México vive maus dias no combate ao teor violento de suas gangues e domínios de pontos. Uma rápida passada pelas ruas de Tijuana deixa claro como o sistema funciona por lá. Pichações que indicam a quem pertence a área e costumeiras casas como as que aparecem nos filmes dos lugares mais desérticos e áridos dos EUA, ou da própria fronteira ou lado mexicano. Possíveis bocas ou pontos de traficar, lugares suspeitos, casas apertadas, ruas hostis. Mesmo assim se distribui novamente o foco inicial que trouxe aqui, o asfalto como meio de escape. Bom para transportar droga ou fugir em perseguições, como a vida imita a arte; a ficção na realidade. Seja de Tijuana ou de outra cidade de comum geografia, espanta a proximidade com os estilos de vida badalados das conhecidas San Diego, Los Angeles, San Francisco e outras potências turísticas e atrativas da milionária Califórnia. Subúrbios a eles; trevas ao lado da ostentação. A própria megalomaníaca gigantesca cidade de Los Angeles convive com isso, os infortúnios da presença de gangues, migrantes, comércios ilegais, violência e crime, trabalhos a IML na calada da noite, vizinhos que nada sabem e nada viram.

Entre milhões de views e milhões de ninguém viu.