Em meio aos fogos de artifício e demais explosões, latidos de cachorros confusos e assustados, carros em trânsito irresponsável, sons altos, música que adentra madrugada, o silêncio. O silêncio dos suicidas. Acompanham e transpassam e esvoaçam espiritualmente até meu recinto. Sinto-lhes e ouço-lhes e, para quem os sente e os ouve, são mais ensurdecedores do que tudo o que foi mencionado acima.
Evitam que eu me largue ou me abandone uma meia dúzia como se dessem as mãos e envolvessem o tronco de uma árvore centenária que seria (ou será) cortada pelo inestimável progresso, segundo alguma construtora ou mesmo a administração pública local. Eles a cercam e prometem grandes greves e protestos para mantê-la ali intacta como sempre esteve centenariamente, de forma ininterrupta. Mas até as aparentes grossas raízes tombam.
A depressão era, há alguns anos, um lobo solitário à beira de algum penhasco distante. Uivava e eu ouvia. Uivava e eu ouvia. E não dava bola. Era apenas um uivo em qualquer lua cheia ou minguante ou crescente surgia. Mosquito insociável que vinha tentar a sorte sozinho e era facilmente esmagado quando identificado após interromper meu sono e fazer-me acender a luz da lâmpada de cabeceira. Fácil derrotá-lo.
Pois o lobo esquivo mostrou-se fiel oponente e insistente a emitir seu brado contra o céu noturno; ele sempre me alcançava. Com o passar do tempo, esse lobo, através de seu inconfundível gemido, ganhou companhia e hoje sinto como se formassem um agrupado de quadrúpedes insaciados, matilha que me cerca e a qualquer momento pode me devorar.
Seus caninos estão à mostra, as bocas espumam e me quedo paralisado. Estão à minha frente, esquerda e direita e às costas tenho somente como que uma montanha íngreme demais para ser escalada. A vida começa a demonstrar desafios e imponências demais a troco de pouca recompensa. A única saída é atirar-se de escassas e sangradas unhas e ponta de sapato para firmar-se nessa escalada. Sem outra alternativa, sem maiores equipamentos de segurança, nem emocional nem financeira, na conduta que segue e povoa a complexa arquitetura do palácio das incertezas.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
-
Tenho problema nos nervos Nos trevos sem quatro folhas Nas escolhas que reaqueço No preço dessas escolhas Tenho problemas que não devo Me p...
-
A morte me invita a um tango. Uma milonga estendida, que se desenrola como um comprido tapete vermelho. Um pouco mais escuro, um pouco mais ...
-
Fui um dos primeiros a chegar nos bancos que cercam as plataformas de embarque e desembarque da movimentada rodoviária. O ritmo das capitais...
-
Alphaville talvez seja meu filme favorito de Godard. E o talvez aqui ainda é totalmente humano. Alphaville é um lugar robotizado no futuro, ...
-
Bando à Parte é mais um filme de Jean Luc Godard lançado em 1964, em uma fase muito trabalhadora do então jovem diretor francês. A cinematog...
-
O Médico e o Monstro, filme de 1920, adaptado do romance de Stevenson, conta a história de duplicidade do médico Dr. Jekyll com a figura mon...
-
Aqui o Rainer Werner Fassbinder e sua trupe lançaram um dos maiores filmes feitos. Sem exagero. Pensar após assistir ao filme que ainda foi ...
-
Pierrot le Fou não era de meus filmes mais apreciados na filmografia de Jean Luc Godard. Mas a segunda vista é de novos olhares e experiênci...
-
. .. E trazia consigo o olhar de quem viu muitas decepções e não teria tempo de revertê-las em agradabilidades ...
-
três e quarenta e dois começo a escrever sem saber até quando vai o depois o depois do escrever o depois do viver o depois dos verbos...
Nenhum comentário:
Postar um comentário