28/06/2020
quanto cabe?
o experimento
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Não adianta mesmo ser livre
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Karina Bianca
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11/06/2020
O primeiro treino
Tal como o uruguaio Mário Benedetti, no livro A Borra do Café, fui assaltado constantemente por memórias da infância nos últimos tempos. Embora mais jovem que ele, passados mais de 15 anos de acontecimentos, resolvo expô-los aos poucos, mais pela ânsia dos registros na incerteza de estar aqui para registrá-los depois do que por receio de perdê-los na capacidade de gravação de nosso estranho HD.
Pôsto à provas factuais do império de remoto passado, algumas situações são bastante curiosas. Uma série de inusitados acontecimentos que não teria porque lembrar, nenhuma relevância maior. Ou será que são nesses casos que essas eventuais relevâncias se escondem? Na última madrugada, o round travado contra a memória foi referente a jogos no período em que eu atuava pelo rubro-negro Paulista FC. Na parede do ginásio, só recentemente descoberto por mim que pode ser chamado de Gigantinho da Zona Norte - na infância não fazia ideia disso, chamava apenas de Ginásio do Paulista - na parede branca havia a inscrição para que não houvesse dúvidas: Paulista Futebol Clube. Um clube de salão, de ginásio, com o nome de clube de futebol. Também nos atiçava a dúvida de qual era a referência aos paulistas, pois até nas cores, o vermelho, o preto e de praxe o branco acompanhavam a bandeira do estado mais populoso do Brasil.
Por dois anos, defendi o Paulista. Domando nervosismos, ansiedades e o peso da responsabilidade de representar como goleiro titular a minha categoria. Lembro de meu primeiro treino, que surgiu-me em oportunidade a convite de meu melhor amigo da época. Ele já treinava na equipe e fui carregado a reboque para buscar o meu espaço.
Eu estudava de tarde e tenho nítida lembrança da primeira vez que entrei pelo estreito portão de acesso em uma manhã razoavelmente fria, o meio do ano se aproximando, eu tendo perdido as primeiras atividades daquela equipe. Apesar de pequeno, o portão de acesso já me parecia um aperto, imagine para alguém de 100 ou mais quilos. Contornei o estacionamento de britas como solo, poucos carros, pais de alguns? estavam estacionados e entrei para o complexo esportivo. Os garotos aguardavam o nosso treino, o da nossa categoria. Tomei a dianteira naquela entrada triunfal, não lembro se meu pai me acompanhou naquela jornada, vindo depois ou sequer se assistiu minha primeira atuação.
Acontece que todos ficaram petrificados visualizando o atrasado da temporada. Muito acanhado não cumprimentei-os direito e devo ter permanecido calado na maior parte daquela derradeira manhã. Meu amigo, irmão, camarada já habituado com as demais companhias, eu tentando esboçar o que seria meu ano. Fui recebido pelo professor, me identifiquei igualmente acanhado junto a ele. Em poucas palavras, sequer me referi a jogar como goleiro, minha eterna preferência entre as posições da modalidade (diferente do handebol, onde preferia me esconder pela ala direita, posição destinada aos canhotos).
Os treinos iniciaram e pareciam muito com os da escola, que eu havia experimentado no ano anterior. Naquele 2004, entretanto, eu trataria a arranjar algum ritmo de competição, mesmo que isso custasse dores de barriga e arrepios. Dominar a bola do salão com a parte da sola do pé, ajeitar para a canhota e devolver o passe com a parte de dentro do pé. Lições básicas, jamais esquecidas. Depois, envelhecemos e relaxamos, querendo inventar de dominar com a parte de dentro e dar o passe com a de fora. Ronaldices.
O treino deve ter transcorrido nesse ritmo. Lembro de alguns ensaios propostos pelo treinador Votto, que preparava circuitos de dar o passe para um lado, correr para outra fileira ou, em uma manhã obscura, chuvosa, trevosa, correr em diagonal e todos nós nos atrapalhávamos, com exceção dos raros Q.I. mais altos. Mas estes tipos complexados e complexantes de treinamentos ficam para outra hora.
A parte que todos aguardam ansiosamente é o treino coletivo. A separação de equipes, quem joga com quem, quem enfrenta quem, qual time espera no banco, qual ficou mais forte, quem espera no banco e aguarda a troca dos pivôs, dos alas ou do seguro fixo. Não tinha dúvida que os melhores atletas de nossa equipe eram os fixos. Douglas e Matheus são dois de minha recordação na temporada 2004.
Douglas jogava de camisa branca com detalhes rubro-negros. Não lembro se era um uniforme antigo do próprio Paulista. Matheus geralmente associo a camisas vermelhas, talvez um colorado, mas informação imprecisa. Acontece que eu estava no meu primeiro dia de treinamento e pressionado a passar uma boa impressão. Mantenho essa conduta a qualquer lugar que eu vá, qualquer pessoa com quem eu converse, qualquer que seja o objetivo a ser atingido. Quero dar a boa impressão, quero demonstrar meu valor. Não quero falhar.
Eu não queria falhar e, após esperar no banco de reservas a minha oportunidade, fui chamado a compor um dos times. Atuei na linha, se bem me recordo. Aquela categoria do Paulista estava sem goleiros. Vê se pode! Tradicional clube da cidade, da região e do estado. Nenhum goleiro de mimosa idade para o horário matinal previsto. Mas eu chegava para garantir o feito. Após uns minutos apagados tocando pouco na bola, aparecendo pouco, recebendo menos ainda, fui convocado a passar uns minutos na goleira. Talvez Votto e seu auxiliar Diego tivessem pensado que aquele guri não levava muito jeito para aparecer na quadra, mas no fundo sempre encarei como uma democracia em cada atleta de linha seria resignado a uma breve tortura de levar boladas. Mas na hora pensei mesmo foi na minha grande chance, mostrar o meu potencial.
Em fogo alto de expectativa o texto, não é mesmo? Pois assim prosseguimos. Não saberei precisar como ocorreram as defesas, mas sempre tive para mim que foram quatro. Após eu sair da posição de linha, como se chama, nosso time foi até mais bombardeado (deem valor agora, hein) e me saí da prova ousada de uma maneira competente. Quatro disparos e quatro defesas, a penúltima ou a última delas arrancando espantos dos novos colegas. Já me encaravam como muralha intransponível. É isso, garotada. Não adianta reclamar. Não adianta chutar de longe, nem cheguem perto de meus domínios. A média de gols cairá drasticamente. O terror para os pivôs mais rechonchudos e para os que estavam acostumados a guardar tentos de média distância. Não mais, jovens peregrinos.
Jamais esquecerei que naquele primeiro treino, em que chamei atenção por aquelas defesas, compareci com minhas luvas de camelódromo da época. Elas eram de lã. Uma tonalidade escura, nem preta nem bem azul marinho, difícil de identificar a cor das diabólicas peças. Nelas, nas palmas, haviam inscrições em tores marca-texto, entre alaranjadas e amareladas. Havia a palavra SOCCER e uns pontilhados fingindo alguma preocupação com a ADERÊNCIA do azarado goleiro que as utilizaria. E eu era o utilitário daqueles produtos paraguaios. Quatro defesas com as esquisitas luvinhas.
Também me ponho a pensar que, como fui de luvas, por mais rudimentares e despreparadas que fossem para a prática esportiva, não teria Votto ou seu auxiliar notado que eu queria era atuar, desde o início, como goleiro? Aquela exposição aos lances fracassados das tentativas com os pés poderia ter comprometido aquela histórica manhã de 2004. Mas acabou que deu tudo certo. No treino seguinte, já fui direto para a companhia das balizas enredeadas. Treinava desde os ensaios de finalizações e seguia ali para o treino coletivo.
Minha autonomia era uma seguridade tremenda. Eu era o mais difícil de ser vazado pela trajetória da bola e também ninguém queria compartir daquela ingrata tarefa. Estava tão assegurado como um concursado funcionário público, apesar de querer, a cada dia, dar o meu melhor. Assim eu estava, até a chegada de um gigante. E isso fica para o próximo capítulo.
esquece
10/06/2020
Se eu tivesse...
08/06/2020
O salto
07/06/2020
eu fico esperando
30/05/2020
Histórias da dona Eloá
Tudo fluiu tão fácil que nem precisavam do desgaste de encontrar as palavras certas para estender essa amizade para algo a mais. Após se conhecerem na faculdade, a forma como o olhar se desenvolvia falava mais do que as obras cinematográficas de Kubrick ou os livros de Margaret Atwood. Expremiam confiança para seguirem envolvidas como bem entendessem. E elas se entendiam.
Tinham opiniões semelhantes sobre a preservação ecológica. Em testes de internet, a distribuição entre optar pela prioridade para produção ou natureza, para as duas era quase a mesma porcentagem. Laís havia tirado sarro disso porque, para elas, naquele momento, o importante mesmo era a solidão daquelas árvores, onde podiam estreitar a relação. No bosque, descobriam mais do que a cor dos sutiãs e os ignoravam. Decoraram, mentalizaram as tatuagens uma da outra. Soltaram e prenderam cabelos, ao gosto e ao ritmo. E tantas mais coisas que eram assuntos restritos delas.
Em cidade menor, a fama é complicada. Apesar do campus da faculdade estar mudando aos poucos essa realidade, elas ainda preferiam tomar cuidado. Não queriam que a desconfiança dos mais enxeridos fosse confirmada. Seria uma afronta muito grande, Cristiane formada em igreja, com esse nome não por acaso, Laís vinda de fora, se importando menos com ela, mas tanto mais se importando com a companheira que não queria complicações maiores com a família.
Cristiane estava em período triste. A avó começava a regredir as ideias por conta do alzheimer descoberto. A mãe de Cristiane trabalhava durante a infância da filha, faltava pouco agora para se aposentar, mas de modo que a menina passou boa parte dos primeiros anos sob cuidados da avó, dona Eloá. Eram muito apegadas nas companhias uma da outra. A velhinha com pouco estudo, mas com refinado gosto para leitura, havia provocado esse hábito em Cristiane, o tanto feliz porque havia fracassado nessa missão com a própria filha. Era uma realização que a completava.
Mas com essa cronicidade no desandar das faculdades cognitivas, dona Eloá é quem precisava de Cristiane cada vez mais. A moça pegava algum exemplar da estante da avó e lia para confortar a solidão de sua criadora. Fisicamente Eloá também piorava drasticamente, com uma limitação de movimentos que a todos causava comoção.
Dona Eloá e seu Jeremias não viviam mais juntos havia 10 anos. A teimosia de um e a irritabilidade da outra fizeram com que o casamento se esgotasse antes que um deles partisse dessa para viajar ao desconhecido. Jeremias, apesar de teimoso, nunca havia recusado morar em um lar de idosos. Errado. Nunca havia recusado morar naquele específico lar de idosos das paredes verdes, supostamente porque era apaixonado por uma das enfermeiras. Nem os ciúmes por ela dar banho e trocar outros incomodava o ancião. Um boato era o de que Jeremias, em seus gloriosos anos de juventude, nutria caloroso apreço pela avó daquela senhorita de uniformes brancos. Mas falta confirmação autenticada desta tese, que de fato não está em letras garrafais na biblioteca ou nos registros escolares do interiorano município.
Mas onde encaixamos o senhor Jeremias na história toda? Simples, ou nem tão simples, complexo. O vasto coração de humilde senhoria possuía diversos quartos, como um hotel de dois andares. O espaço reservado para a família era reaberto em dias de visita ao lar de idosos. Havia uma suíte a níveis presidenciais para a enfermeira e quiçá sua falecida avó. Mas apesar do término com dona Eloá, seu Jeremias ainda parecia reservá-la ótimas chaves ou até mesmo o quarto principal. Essa é uma hipótese bem endereçada porque, ao saber da notícia da piora repentina de Eloá, o ex-marido sentiu forte impacto.
Visitou Eloá mais três vezes, todas com pouca conversa, fatalmente menos do que ele imaginava nos ensaios aos últimos encontros com sua ex-esposa. Eloá era bastante ríspida e severa. O hotel-coração de seu Jeremias se aproximava da falência. Ficou derretido pelo gelo da então companheira. Tentava consolar-se que a doença do alzheimer estava tratando de liquidá-la. Dessa maneira é que a desatenção com que ele pairava. A culpa não era dela, talvez fosse dele? Sabia que a amava, mas sentia que ela não correspondia. Vagueou por corredores fundos, até as profundezas de onde não saberia mais sair. Labirinto. Investiu seu casamento em Eloá, evento respeitado na época. Anos que pareciam felizes, mas logo não foram. Apenas se aturaram por quantos, como uma estrada tortuosa de anos de trabalho para uma aposentadoria mal paga e curta. Se ao menos tivesse avançado para outras possibilidades (talvez a avó da enfermeira?).
Sentiu-se depreciado como nunca havia ficado, mesmo nos tempos conseguintes à separação de Eloá. Percebeu não ter sido amado da forma como gostaria, nem mais seria. Os cuidados da enfermeira não seriam o bastante para evitar sua derrocada. Durou dois meses e o coração-hotel fechou-se por definitivo. Um duro golpe para a moça Cristiane. A avó naquela condição de piora gradativamente, o avô levado a sepulcro.
O coração de Cristiane estava em pesarosas derrotas acumuladas. Ela sentia-se para baixo. A avó que demasiado havia participado de sua criação naquele estado, o avô acertando a conta com outros portões, julgava ela que os celestiais. Da mãe Cristiane não era tão próxima a ponto de grandes confidências, toda aquela religião obrigatoriamente imputada sobre ela cobrara um preço na relação entre as duas. O pai era caminhoneiro, vivia pelas viagens e também não era a figura mais presente para ter com ela. Sua idosa e fiel confessora com alguma hora não muito distante marcada para partir. O peso iria para os ombros de Laís.
24/05/2020
aos desgarrados e indigentes
Acrescentaria no mesmo molde apresentado que aqueles que vivem da fartura, estão anestesiados pela boa-aventurança, eles creem que escrevemos demais sobre a morte. A morte e todos os seus apêndices, uma morte que seja de julho de 1943, presente no sabor dos cafés por décadas conseguintes. A morte e seus sub-produtos derivados. A morte que cessa mas atrela tantos fios, emaranhados, teia das lembranças, pode paralisar o produtor original da obra, morto, mas não seus reprodutores.
Morte que arrebata, desconfigura, ou mesmo aniquila uma nascente de rio, mas seus afluentes seguem correndo. Quem convive com um rio, fonte de inúmeras vidas, não o esquece. Vida que nele colhe, banha, pesca e, nas mais severas sedes, bebe. Vida submergida, visível quanto maior a transparência, mas vida mais complexa de como existe, resiste e sobrevive quanto mais turva for a água.
Comentava sobre a morte de deparei-me aqui com a vida. Intervalo para refletir sobre como uma morte pode impactar em tantas vidas, principalmente tratando-se de um rio e seus afluentes.
Chamou minha atenção um trecho de Erico Verissimo (vertiginoso rio!) - curiosamente aprendi que sem acento em seus nomes - sobre o papel do escritor em tempos de violências, ganâncias, ditaduras. Segundo o escritor de Cruz Alta, autor da trilogia de O Tempo e o Vento, Senhor Embaixador e Incidente em Antares, o propositor dos relatos deve segurar uma lâmpada para minimamente clarear os fatos e verdades, expor as situações. Humildemente, confere que deve-se manter essa lâmpada acesa. Caso apague, que seja substituída, lamparina, fósforos riscadas, velas em riste, até a última chama, clarividência sobre registros ocultos em tempos obscuros e trevosos. Fermento eu que assim são os tempos ao gosto do poder. Prometo a devida abertura de aspas a Erico Verissimo ao final desse registro.
Sobre os destrinches da imaculada morte, escrevo para a familiarização daqueles desgarrados, filhotes sem colo, personagens de José Louzeiro, sem mais passeios sobre ombros, beijos sobre testas e em outras superfícies. Escrevo aos renegados de suas terras, exilados de seus solos. Improviso meus ditos, para muitos, malditos, para afirmar que estamos em lapsos juntos, em fendas adjuntos, em becos articulados, na coragem de, hoje, em comum seguirmos em frente. Escrevo para imputar, impertinente, o dedo no buraco da bala que te atingiria, enquanto, hipócrita, planejo a lejos, meu próprio fim.
Escrevo para velar os mortos, os idos, os vindos e os teimosos a continuar vir. Escrevo obituário frequente, como se obturações eu dentista prestasse. Escrevo, agente funerário de um cem número de gente. Escrevo em memória dos não identificados, indigentes, filhos negados, desconsiderados pelo que fizeram ou deixaram de fazer no tempo passado. E, num segundo, piscar de olho presente, a terra os envolve para o comum acordo de putrefação, que desfia e desconfigura pobres e ricos, em um ritmo biológico decompositor de denominador comum. Diferem de onde os enterram, embaixo de quais ou de nenhum mármore, mas na praça das memórias, onde crianças correm guiadas pela bola, vendedores de pipoca e algodão-doce vendem, idosos cruzam braços e pernas e charlam, mascam vergamotas e fuminam cigarros, é nesta praça a gosto popular que muitas vezes o mal ranqueado em serviços funerários recupera e impera um posto superior aos mauzoléus extravagantes em cemitérios.
Talvez no próprio enterro já se apresentam parâmetros que permitam tal sonhada (ou mesmo desejada?) comparação. O reconhecimento de um marido, de uma esposa, de um filho, de uma filha, de uma mãe, pai ou pessoa amiga. Atendendo a nenhum desses cruciais aspectos ao final da vida, que tamanho despoder paira sobre o mármore de congeladas impressões! Que infindável despropósito se desprendeu, se desencadeou na companhia de seus contemporâneos concidadãos. Neste caso, minhas senhoras e meus senhores, que aqui nada posso fazer e até me atribuiria a vergonha se minhas paráfrases os encontrassem.
Todavia, através das distorcidas histórias, narrativas sobre esses infaustos e infortúnios de mal aproveitadas vidas humanas, que me chegariam essas histórias aos ouvidos, eu tentaria, em uma purificação de alma, o exercício do perdão. O perdão, sobretudo aos indigentes, fontes tão logo secas, ninguém conseguiram / puderam cativar, nem pela última vez. Teu Deus saiba que sim, em meus melhores e mais luminosos momentos, eu tentaria olhar por eles. Para todos e para cada um.
E, nos meus piores e mais rugosos, funestos e desgraçados momentos, eu procuraria deles me afastar, dispensando ou ao menos reduzindo o tempo gasto em julgamentos maldosos, seletivamente perniciosos e derivados. Que, se possível, os perdões sejam concedidos. Inclusive o perdão a mim, por ser assim.
19/05/2020
Agradecimento a Mariana
"Sou como um eletrônico e um dia falharei definitivamente."
Quando solicitarem que eu ligue. Quando eu mesmo, quem mais? solicitar que eu ligue e o sistema não vai responder, peça que não foi trocada, corroção geral das funções afetadas, pane e pânico instaurado. Silêncio.
Conversei mais cedo com Mariana. Faz-me bem conversar com Mariana. Mariana que me entende vezes que nem eu mesmo consigo. Mariana falou que a tia está mal, está com câncer. Agravou e os médicos abrem os braços que nada podem. E as pessoas chegam na derradeira pergunta de "e agora?" e é sempre ruim elaborar uma resposta. O tempo agilizando que se conteste logo.
Dissertamos sobre nossos tios. Mais pelos que foram do que pelos que ficaram. Muitos já foram e muitos ficaram. Receoso, explico para ela que me faz um pouco bem pensar que existem os que ficam para consolar pelos que foram, em pesos de perda compartilhada, denominador comum. Ela concorda e fico aliviado, sem alimentar um possível pesar em tão má hora para uma divergência opinativa.
A morte vem buscar, sempre ela, insaciada. Buscou tio meu, casado com a prima de minha mãe. Ele foi fulminado internamente, notebook corrompido, sistema operacional abatido, quando tinha saído para pescar. Essa é a versão oficial. Bebeu quantidades que não devia em horas impróprias por um longo tempo e o preço bateu-lhe a porta tão cedo. Tão cedo o garçom depositou sobre sua mesa a conta e os que em terra ficam permanecem pagando sua ausência. Viúva e filhos reacostumando.
A morte veio buscar tio dela em inesperada e abrupta queda a cavalo. Nunca havia ficado doente, ela me confessa. Ultrajante maneira de surrupiar a vida de jovem cidadão. E assim multiplicam-se as histórias, quem tem famílias maiores sabe contá-las de demasiadas maneiras distintas, com o enterro, as flores, talvez uma solicitação de cremação aparecendo aqui ou acolá.
Tocamos em delicados pontos, cosendo, costurando linha por linha de finosa agulha sobre os aspectos e os preparativos para enfrentar essa terminante adversária morte. Jogamos um demorado xadrez tal qual propôs em filme cinquentista o sueco Ingmar Bergman. Suécia que hoje flerta com a morte, namora e dança bailado extenuante com suas mais de 3 mil mortes em menos de três meses de pandemia.
Pandemia que açoita a repetição de assunto a cada escrita. Quando Mariana abriu conversa, clarão na floresta de pensamentos variados, afirmando que a tia estava mal. Logo liguei o Nordeste, Pernambuco, a pandemia, o covid-19 vitimador. Mas era o câncer, esta moléstia que seguidamente é implorada que tire férias, mas aqui permanece.
Divido com ela que, do abdômen, pelos órgãos internos do sistema digestório, perdi um tio e recentemente também perdi uma tia. Um alastrou de intestinos para outros órgãos. A pele, órgão maior acima dessas dores em aspecto repuxado, amarelado, o proprietário da chaga emagrecido e encaminhado para o encontro imóvel para dentro do caixão. Inevitável. Trocam-se os médicos e a sentença é a mesma e os atendentes de cartórios se acostumam à fisionomias de dor e devem imaginar quem perdeu e quem ganhou nesse tabuleiro esquisito de posições variadas.
"Sou como um eletrônico e um dia falharei definitivamente."
Minha tia, irmã de meu pai, foi consumida pela bebida alcoólica que consumiu por altos volumes em desastrosos anos finais. A perda do marido, a condição de viúva, a solidão, a bebida, a vizinha com filho problemático, os convites, os únicos convites, a aceitação, só dessa maneira, mais uma dose, por que, por que tinha que ser ele, por que, homem tão bom, meu Deus? Meu Deus! Mais uma dose. Cabeça baixada em lágrimas, copo erguido, misturas. Fins de tarde, noites em perigosos banhos em boxes de banheiro, trêmulos, girando, elevador para cima e para baixo e mais para baixo. As pernas em alternado esforço de uma para outra em cada trôpego passo. Por que tudo isso, meu Deus?
"Sou como um eletrônico e um dia falharei definitivamente"
Mas enquanto não acabar-me quero consolar Mariana, a família que não conheço e já considero que mereça as minhas melhores preces, minhas aquiescências, meus consentimentos, meus pesares e apesares, como queiram escrever, pena ondulante, ululante, gritante. Quero consolar Mariana, virtual e distante abraço.
Mariana que passo a conhecer e é indubitável que mereça as complacências todas citadas, essas e tantas outras. Ela que me entende, decifra meus pensamentos por vezes, em leitura ordenada, concisa e coerente, como gostam e operam binariamente os corregedores de redações. Mariana lê em português, inglês, francês e pensamentos. Mariana deve encontrar barreiras para as palavras certeiras, se é que existem? para consolar a mãe, os familiares, o que se pode fazer?
Encaramos a morte um tanto melhor quando não é surpresa, quando não é onda que arrebata pertences nas areias de uma praia, levando dos despreparados os chinelos, as toalhas, óculos, chaves, celulares e guarda-sóis. O sobreaviso nos prepara para o inevitável, nos dá mais tempo de procurar palavras e procurar consolos em nós mesmos e também nos braços estendidos adiante, na espera por abraços. A pandemia sucumbe abraços, a pandemia abre valas, abre peitos, por ora incuráveis. A pandemia, o câncer, a presidência de triste fim de República, de Jair, de meninos João Pedro, de Rio de Janeiros, de rios de mesmas e diferentes nascentes, de afluentes que não se tornam mais navegáveis, da seca que assola. Do Rio Grande do Sul onde não tem chovido e quem ousou falar do Nordeste em outrora? Meu amigo Régis emenda pontualmente que é o desmatamento da Amazônia que fará todo o país sofrer, em efeitos desencadeados, sem o abastecimento de águas. Concordo.
Enquanto não finda meu sistema eletrônico de obsolescência programada para alguma data que não sei, quero consolar Mariana, quero desviá-la dos piores assuntos ou ao menos compartir com ela os piores para que dividamos as dores. Conjuntamente soframos nos nossos diferentes ritmos. Mariana que é mãe, que é amiga, que é mulher de superação de obstáculos, de corridas, de planos, de ir muito além do que a propaganda de canal pago sugeria para mulheres os itens decoração, moda, beleza e bem-estar. Pode até ser isso, mas é muito mais, há de ser, faz tempo, sem retroceder.
Mariana que ao fim desse texto é agradecimento pelas vezes, sem ela perceber, ela ter sido a técnica da informática que reiniciou o sistema, tendo esperado esfriar, me salvou de eu salvar atualizações desnecessárias que me derrubariam. Prorrogou a inevitável perda que virá para todos os corações, como eletrônicos, que um dia falharão definitivamente. Futuros que, ao final de tudo, desprovidos de escolhas, um dia serão conjugados no presente.
Por enquanto, no presente, eu presto minhas solidárias considerações a Mariana, no que posso oferecer e no que prontamente já posso agradecer.
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Há dias em que naturalmente estou abatido. E há dias que naturalmente me abatem.
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Eu tentei ficar impassível, mas não consegui. Não consegui ficar impassível às fotos das crianças desaparecidas que voltam a estampar caixas...
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Consigo sentir Quintana Que não me engana Me aconselha Ou ao menos ergue a sobrancelha Consigo sentir Quintana em cada passo Que eu galgo ...
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A linha tênue entre enjoar e esquecer.
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Já não me cobro mais velocidade ou desempenho, mas os demais e a sociedade me cobram. Posso mandá-los às favas? Posso?
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A máquina se torna humano Humano se torna máquina A máquina é programada O ser humano é descartado
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Não se apaixonou mais, nem precisou conviver mais com desequilíbrios emocionais descabidos. Sorriu a isso. Mas meio amarelo. Meio, pela meta...
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Cansei. E deixarei de legado muito menos do que se não tivessem me cansado.
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Onde joga meu time estarão eu e meu futuro.
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Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.