fico feliz quando escrevo
um poema e o acho
o melhor de minha vida
pode ser, pode ser mentira
ou pode ser até que seja
mas o que seria de mim
sem a boa crítica
e uma boa cerveja?
29/06/2018
reflita aflita
um beija-flor sempre pousa
sobre margaridas, tulipas e rosas
e ninguém liga
um mosquito sempre pousa
sobre quadros, paredes, camas e lousas
e ninguém liga
mas o avião quando pousa
nos obriga
a pensar
no amor de nossas vidas
sobre margaridas, tulipas e rosas
e ninguém liga
um mosquito sempre pousa
sobre quadros, paredes, camas e lousas
e ninguém liga
mas o avião quando pousa
nos obriga
a pensar
no amor de nossas vidas
um mês inteiro
demorei um mês inteiro
para trazer aqui
esse humilde poema
parto anormal
tal qual seus irmãos
em suas dezenas
aguardou na incubadora
apesar da demora
hoje chora e chora
esse peso pena
na soma da calculadora
e da balança
não sei quanto vale
não sei quanto pesa
essa criança
demorei um mês inteiro
a parir
e parei
parei aqui
pai solteiro
seria este um poema verdadeiro?
não tem problema
se só eu no mundo inteiro
o leio agora, leitor primeiro
para trazer aqui
esse humilde poema
parto anormal
tal qual seus irmãos
em suas dezenas
aguardou na incubadora
apesar da demora
hoje chora e chora
esse peso pena
na soma da calculadora
e da balança
não sei quanto vale
não sei quanto pesa
essa criança
demorei um mês inteiro
a parir
e parei
parei aqui
pai solteiro
seria este um poema verdadeiro?
não tem problema
se só eu no mundo inteiro
o leio agora, leitor primeiro
não havia
não havia navios
não havia cios
não havia frio
não havia
não havia avião
nem passarin
não havia sim
não havia não
não havia
não havia bússola
nem mapa
não havia guia
nem placa
não havia
não havia sol
não havia lua
nem farol da noite
nem nascer do dia
simplesmente não havia
não havia estrada
nem havia chão
não havia nada
na escuridão
não havia
enquanto
não a via
não havia cios
não havia frio
não havia
não havia avião
nem passarin
não havia sim
não havia não
não havia
não havia bússola
nem mapa
não havia guia
nem placa
não havia
não havia sol
não havia lua
nem farol da noite
nem nascer do dia
simplesmente não havia
não havia estrada
nem havia chão
não havia nada
na escuridão
não havia
enquanto
não a via
27/06/2018
As Amazonas
Não tinha jeito ruim a batalha, hoje, dia de São João. Dos bergantins, os homens de Francisco de Orellana estavam esvaziando de inimigos, com rajadas de arcabuz e de balestra, as brancas canoas
vindas da costa.
Mas aí, a bruxa deu as caras. Apareceram as mulheres guerreiras, tão belas e ferozes que eram um escândalo, e então as canoas cobriram o rio e os navios saíram correndo, rio acima, como porco-espinhos assustados, eriçados de flechas de proa à popa e até no mastro-mor.
As capitãs lutaram rindo. Se puseram à frente dos homens, fêmeas garbosas, e já não houve medo na aldeia de Conlapayara. Lutaram rindo e dançando e cantando,as tetas vibrantes ao ar,até que os espanhóis se perderam para lá da boca do rio Tapajós, exaustos de tanto esforço e assombro.
Tinham ouvido falar destas mulheres, e agora acreditam. Elas vivem ao sul,em senhorios sem homens, onde afogam os filhos que nascem varões. Quando o corpo pede, dão guerra às tribos da costa e conseguem prisioneiros. Os devolvem na manhã seguinte. Ao cabo de uma noite de amor, o que chegou rapaz regressa velho.
Orellana e seus soldados continuarão percorrendo o rio mais caudaloso do mundo e sairão ao mar sem piloto, nem bússola, nem carta de navegação.
Viajam nos bergantins que eles construíram ou inventaram a golpes de machado,em plena selva,fazendo pregos e bisagras com as ferraduras dos
cavalos mortos e soprando o carvão com botinas convertidas em foles. Deixam-se ir sem rumo pelo rio das Amazonas,costeando a selva,sem energias para o remo, e vão murmurando orações: rogam a Deus que sejam machos, por mais machos que possam ser, os próximos inimigos.
Eduardo Galeano
Os Nascimentos.
vindas da costa.
Mas aí, a bruxa deu as caras. Apareceram as mulheres guerreiras, tão belas e ferozes que eram um escândalo, e então as canoas cobriram o rio e os navios saíram correndo, rio acima, como porco-espinhos assustados, eriçados de flechas de proa à popa e até no mastro-mor.
As capitãs lutaram rindo. Se puseram à frente dos homens, fêmeas garbosas, e já não houve medo na aldeia de Conlapayara. Lutaram rindo e dançando e cantando,as tetas vibrantes ao ar,até que os espanhóis se perderam para lá da boca do rio Tapajós, exaustos de tanto esforço e assombro.
Tinham ouvido falar destas mulheres, e agora acreditam. Elas vivem ao sul,em senhorios sem homens, onde afogam os filhos que nascem varões. Quando o corpo pede, dão guerra às tribos da costa e conseguem prisioneiros. Os devolvem na manhã seguinte. Ao cabo de uma noite de amor, o que chegou rapaz regressa velho.
Orellana e seus soldados continuarão percorrendo o rio mais caudaloso do mundo e sairão ao mar sem piloto, nem bússola, nem carta de navegação.
Viajam nos bergantins que eles construíram ou inventaram a golpes de machado,em plena selva,fazendo pregos e bisagras com as ferraduras dos
cavalos mortos e soprando o carvão com botinas convertidas em foles. Deixam-se ir sem rumo pelo rio das Amazonas,costeando a selva,sem energias para o remo, e vão murmurando orações: rogam a Deus que sejam machos, por mais machos que possam ser, os próximos inimigos.
Eduardo Galeano
Os Nascimentos.
19/06/2018
Lutas e Gratidões
Minha irmã acorda tarde, toma o café da manhã tarde e reclama do almoço, que é servido em um intervalo de tempo curto entre as duas refeições. Minha mãe acumula cabelos brancos que ela não mais esconde e estresse que não mais segura, entrando em erupção de quando em quando. Hoje foi um desses quando.
Mais tarde, entre o almoço e um jogo da Copa do Mundo na televisão, minha vó aparece de jaqueta rosa e óculos escuros bastante chamativos. Em um horário que muito bem poderia ser de algum pedinte, geralmente uma senhora negra com uma filha com necessidades especiais e que pede leite ou algum ser adulto não disposto ao trabalho para o ganha pão. Confiro para confirmar pelo olho mágico e abro a porta para minha vó na certeza que o jogo entra em segundo plano, porque ela insistentemente e incessantemente puxa assunto ou narra com detalhes episódios cotidianos de pouca relevância. O encontro com as mesmas vizinhas, uma ou outra palavra trocada na frente de casa ou no caminho para ônibus ou em armazém. Pequenos causos de pessoas as quais não conheço e que para minha mãe pouca diferença faz também são uma constante.
Porém, ela conta de uma conhecida, alguma família que adotou uma menina. E minha vó a caracteriza que dizem ser muito alegre, muito obediente. E sobre algo que a ofereceram, se manifestou com "tudo isso é para mim?", com as mãos cruzadas sobre o peito, em claro e universal gesto de agradecimento. Tem três anos, completa os dizeres minha vó. E tudo isso me leva a uma reflexão sobre gratidão, uma reflexão que na minha mente ocupa e ocupa o primeiro plano. O jogo passava ao segundo posto, mas logo voltaria à tona por outros encaixes.
Às 14 horas na pontualidade terminava a partida da Copa do Mundo com a surpreendente (para alguns nem tanto) vitória de Senegal sobre a Polônia em plena capital russa de Moscou, local de muitos acontecimentos de injúrias raciais. Racismo não escondido. Jogadores negros na atualidade, mais e mais pessoas em antigamente. Ou talvez menos antes sem o advento da globalização dos dias atuais. A globalização que coloca jogadores negros em praticamente todos os times titulares das seleções da Copa, com exceção do extremo oriente, Argentina e a própria Polônia. Outras, se não tem na titularidade, tem reservas imediatos que costumam adentrar nos jogos.
No mesmo horário de término do jogo com triunfo senegalês, uma senhora que aqui é pedinte há bastante tempo retorna em busca de mínimo sustento. Seus filhos já não são pequenos e agora buscam driblar as condições desfavoráveis em busca de emprego ou desviando do mundo mais ilícito de drogas e assaltos. Nada fácil. Frutas e leite e um papo cordial são o que minha mãe oferece à senhora. Um de seus filhos é Romário e, não recordando o nome dela, apenas a lembro como Romária.
Com outros endereços, certamente não são poucas as pessoas nessas condições no município e região. Políticas públicas insuficientes, políticas privadas desinteressadas, procurando apenas por consumidores e não por fazer caridade ou procurando apenas a solidariedade como troca por promoção de carisma e serviços aos olhares dos aí sim consumidores, potenciais clientes. Trocas de favores e espelhos. Reflexos e vitrines.
Em outras cidades gaúchas, incluindo Pelotas, como estão os imigrantes senegaleses? Um momento de cessar o trabalho ambulante, as vendas nos centros e focar um pouco no jogo, na ginga. Um resultado favorável, uma vitória consistente. A alegria nos olhos e nos corpos. Vencer o preconceito é uma batalha muito mais árdua, mas que tal esse tapa no frio, tapa aos que oprimem, deixam mal vistos os imigrantes de hoje, esquecendo suas raízes italianas, alemãs e de outras etnias que um dia foram imigrantes, estrangeirismos nessas mesmas terras.
Numa primeira rodada em que a Alemanha perdeu e numa Copa em que a Itália nem está, a vitória imigrante do Rio Grande do Sul na estreia da competição foi senegalesa. E são tantos os homens e tantas as mulheres, tantos os descendentes, mais diretos ou de povos passados do continente africano, tantas as histórias de linhas torcidas a procurar seus triunfos no dia a dia nesses lados do mundo.
Mais tarde, entre o almoço e um jogo da Copa do Mundo na televisão, minha vó aparece de jaqueta rosa e óculos escuros bastante chamativos. Em um horário que muito bem poderia ser de algum pedinte, geralmente uma senhora negra com uma filha com necessidades especiais e que pede leite ou algum ser adulto não disposto ao trabalho para o ganha pão. Confiro para confirmar pelo olho mágico e abro a porta para minha vó na certeza que o jogo entra em segundo plano, porque ela insistentemente e incessantemente puxa assunto ou narra com detalhes episódios cotidianos de pouca relevância. O encontro com as mesmas vizinhas, uma ou outra palavra trocada na frente de casa ou no caminho para ônibus ou em armazém. Pequenos causos de pessoas as quais não conheço e que para minha mãe pouca diferença faz também são uma constante.
Porém, ela conta de uma conhecida, alguma família que adotou uma menina. E minha vó a caracteriza que dizem ser muito alegre, muito obediente. E sobre algo que a ofereceram, se manifestou com "tudo isso é para mim?", com as mãos cruzadas sobre o peito, em claro e universal gesto de agradecimento. Tem três anos, completa os dizeres minha vó. E tudo isso me leva a uma reflexão sobre gratidão, uma reflexão que na minha mente ocupa e ocupa o primeiro plano. O jogo passava ao segundo posto, mas logo voltaria à tona por outros encaixes.
Às 14 horas na pontualidade terminava a partida da Copa do Mundo com a surpreendente (para alguns nem tanto) vitória de Senegal sobre a Polônia em plena capital russa de Moscou, local de muitos acontecimentos de injúrias raciais. Racismo não escondido. Jogadores negros na atualidade, mais e mais pessoas em antigamente. Ou talvez menos antes sem o advento da globalização dos dias atuais. A globalização que coloca jogadores negros em praticamente todos os times titulares das seleções da Copa, com exceção do extremo oriente, Argentina e a própria Polônia. Outras, se não tem na titularidade, tem reservas imediatos que costumam adentrar nos jogos.
No mesmo horário de término do jogo com triunfo senegalês, uma senhora que aqui é pedinte há bastante tempo retorna em busca de mínimo sustento. Seus filhos já não são pequenos e agora buscam driblar as condições desfavoráveis em busca de emprego ou desviando do mundo mais ilícito de drogas e assaltos. Nada fácil. Frutas e leite e um papo cordial são o que minha mãe oferece à senhora. Um de seus filhos é Romário e, não recordando o nome dela, apenas a lembro como Romária.
Com outros endereços, certamente não são poucas as pessoas nessas condições no município e região. Políticas públicas insuficientes, políticas privadas desinteressadas, procurando apenas por consumidores e não por fazer caridade ou procurando apenas a solidariedade como troca por promoção de carisma e serviços aos olhares dos aí sim consumidores, potenciais clientes. Trocas de favores e espelhos. Reflexos e vitrines.
Em outras cidades gaúchas, incluindo Pelotas, como estão os imigrantes senegaleses? Um momento de cessar o trabalho ambulante, as vendas nos centros e focar um pouco no jogo, na ginga. Um resultado favorável, uma vitória consistente. A alegria nos olhos e nos corpos. Vencer o preconceito é uma batalha muito mais árdua, mas que tal esse tapa no frio, tapa aos que oprimem, deixam mal vistos os imigrantes de hoje, esquecendo suas raízes italianas, alemãs e de outras etnias que um dia foram imigrantes, estrangeirismos nessas mesmas terras.
Numa primeira rodada em que a Alemanha perdeu e numa Copa em que a Itália nem está, a vitória imigrante do Rio Grande do Sul na estreia da competição foi senegalesa. E são tantos os homens e tantas as mulheres, tantos os descendentes, mais diretos ou de povos passados do continente africano, tantas as histórias de linhas torcidas a procurar seus triunfos no dia a dia nesses lados do mundo.
12/06/2018
é é é
sai, sai da toca
olha a música que toca
sai, sai da toca
olha a música ecoa
sai, sai da oca
outra vez é hora boa
é a copa
sai, sai da toca
vem ver
é carnaval na rua
é barulho de motoca
tanta gente na rua
tanto bloco que embloca
a música que entoa
é tema e ninguém troca
o canal emissora
é o que tem e ninguém troca
outra vez é hora boa
é a copa
é a copa
olha a música que toca
sai, sai da toca
olha a música ecoa
sai, sai da oca
outra vez é hora boa
é a copa
sai, sai da toca
vem ver
é carnaval na rua
é barulho de motoca
tanta gente na rua
tanto bloco que embloca
a música que entoa
é tema e ninguém troca
o canal emissora
é o que tem e ninguém troca
outra vez é hora boa
é a copa
é a copa
meios
quando não sei por onde começar
começo pela poesia
ela é o início
o fim, o meio
no meio de tanta agonia
começo pela poesia
ela é o início
o fim, o meio
no meio de tanta agonia
preocupações
são tantas tantas antas
tantas tantas preocupações
que não sei por onde começar
a me preocupar...
tantas tantas preocupações
que não sei por onde começar
a me preocupar...
28/05/2018
Todos infelizes
Respeito e estimo melhoras a nós sintomáticos da depressão, que ora brota de trás de um quadro ou debaixo do tapete. E realmente desconfio dos que nada sentem perante os problemas que nós comunitariamente atravessamos enquanto sociedade doente.
No dia de hoje, houve sol, calor que interrompeu uma sequência invariável de dias frios. Nem sinal de chuva. Nem sinal de pedra no peito. Nas caminhadas, nos trajetos que faço, sempre me pedem moedas. Uns se justificam que não são ladrões. Geralmente desses desconfio que em algum momento com algumas pessoas, são ladrões. Geralmente eu não os julgo, porque a formação deficitária e a falta de oportunidade são o que leva muitos a serem assim. Ou, ao menos, a me pedirem trocados, os quais não tenho saído com para evitar maiores volumes nos meus bolsos que circundam minhas pernas magras.
Preocupantemente já saio com o celular criando volume ao bolso da minha perna direita, os fones de ouvido brancos conectados em músicas de tempos passados e raramente sucessos da atualidade. Passo por catadores de lixo seguidamente, em malabarismos e desafios de equilíbrios em carrinhos ou sacolas ou até na cabeça se conseguissem tais quais aquelas pessoas que recolhem galões de água no deserto. Procuram plásticos e demais recicláveis em meio às sobras. Infelizmente se acostumam dessa maneira. Felizmente que ao menos devem se acostumar a esse programa que nos enjoa somente de ver. Infelizmente se acostumam por não acharem outra saída imediata para combater a fome ou as mais diversas necessidades que passam.
Semana passada a prefeitura lançou a campanha do agasalho. Mas falta tanta coisa a essa gente. A mim, falta a saúde mental, como a tantos outros. Não nos espanta isso diante dos cenários que nos cercam. Mesmo o pessoal que ascenderia da pobreza para uma classe média estaria sujeito às mais diversas presas pecaminosas, coabitando com pressões e com os mais diversos problemas. Arrumar um emprego é estar se adequando a regras que não queremos seguir e convivência com gente com a qual não queremos conviver ou, algumas vezes, sequer desejamos que a pessoa exista, tamanho o desgosto de sua presença. Invejas, cobiças, ostentações, intolerâncias, ignorâncias, estupidez em seus mais raros e possíveis estados físicos ou mentais.
Pilhas de e-mails não respondidos. Já nem esperamos que os respondam. O mesmo asco que sinto ao lê-los não respondidos, os que recebem do outro lado devem pensar pela lotação de bobagens em suas caixas de entrada. Todos infelizes.
Os dilemas entre pressionar por respostas, procurar alternativas e se gastar, gastar energia com isso ou apenas deixar passar e partir para outra. Se perde pela insistência e o cansaço. Ou se perde pela falta de insistência. Todos infelizes.
A lua que me acompanha na volta para casa a pé é muito bela. Um cenário perfeito para roubarem o celular que eu já temia perder à luz do dia. Felizmente sobrevivo mais esta jornada. O asfalto e a iluminação estão bem posicionados nessa rua, as paradas de ônibus novas levam vidro em suas confecções, mas o clima de insegurança permanece em alto teor. Quase tudo certo, mas alguns erros são grotescos.
A saúde mental sabe que o básico dos básicos está em condições quando chega-se em casa. Na internet, lê-se os mais diversos absurdos das mais diversas pessoas. Anarquistas que debocham, gente que acha que político é tudo igual, estes debocham, pessoas pedem intervenção militar em um país castigado antigamente pelos militares no governo. Inflações altas, corrupção deslavada, vozes silenciadas, torturas, exílios e mortes. Tudo ignorado por esses infelizes desconhecedores da história brasileira. Ou simplesmente pessoas de mau caráter. Não duvidem, anda por aí gente sem escrúpulos, canalhas e calhordas das piores espécies que existem.
Interrompem ao parágrafo os gritos dos coletores de lixo oficiais do governo. A coleta dos reciclados está suspensa pela crise no setor dos combustíveis, paralisações de caminhoneiros e de petroleiros na semana. Pautas diversas sendo jogadas, arremessadas espalhafatosamente ao ventilador. Um país em pleno caos. Todos infelizes.
A cadela pertencente aos vizinhos segue latindo desde que o caminhão passou. Ela deixa meus pais infelizes enquanto eles assistem à televisão da sala. A cadela parece seguir incomodada e outros cães da vizinhança se manifestam. Pedem intervenções ou querem intervir. Todos infelizes.
No dia de hoje, houve sol, calor que interrompeu uma sequência invariável de dias frios. Nem sinal de chuva. Nem sinal de pedra no peito. Nas caminhadas, nos trajetos que faço, sempre me pedem moedas. Uns se justificam que não são ladrões. Geralmente desses desconfio que em algum momento com algumas pessoas, são ladrões. Geralmente eu não os julgo, porque a formação deficitária e a falta de oportunidade são o que leva muitos a serem assim. Ou, ao menos, a me pedirem trocados, os quais não tenho saído com para evitar maiores volumes nos meus bolsos que circundam minhas pernas magras.
Preocupantemente já saio com o celular criando volume ao bolso da minha perna direita, os fones de ouvido brancos conectados em músicas de tempos passados e raramente sucessos da atualidade. Passo por catadores de lixo seguidamente, em malabarismos e desafios de equilíbrios em carrinhos ou sacolas ou até na cabeça se conseguissem tais quais aquelas pessoas que recolhem galões de água no deserto. Procuram plásticos e demais recicláveis em meio às sobras. Infelizmente se acostumam dessa maneira. Felizmente que ao menos devem se acostumar a esse programa que nos enjoa somente de ver. Infelizmente se acostumam por não acharem outra saída imediata para combater a fome ou as mais diversas necessidades que passam.
Semana passada a prefeitura lançou a campanha do agasalho. Mas falta tanta coisa a essa gente. A mim, falta a saúde mental, como a tantos outros. Não nos espanta isso diante dos cenários que nos cercam. Mesmo o pessoal que ascenderia da pobreza para uma classe média estaria sujeito às mais diversas presas pecaminosas, coabitando com pressões e com os mais diversos problemas. Arrumar um emprego é estar se adequando a regras que não queremos seguir e convivência com gente com a qual não queremos conviver ou, algumas vezes, sequer desejamos que a pessoa exista, tamanho o desgosto de sua presença. Invejas, cobiças, ostentações, intolerâncias, ignorâncias, estupidez em seus mais raros e possíveis estados físicos ou mentais.
Pilhas de e-mails não respondidos. Já nem esperamos que os respondam. O mesmo asco que sinto ao lê-los não respondidos, os que recebem do outro lado devem pensar pela lotação de bobagens em suas caixas de entrada. Todos infelizes.
Os dilemas entre pressionar por respostas, procurar alternativas e se gastar, gastar energia com isso ou apenas deixar passar e partir para outra. Se perde pela insistência e o cansaço. Ou se perde pela falta de insistência. Todos infelizes.
A lua que me acompanha na volta para casa a pé é muito bela. Um cenário perfeito para roubarem o celular que eu já temia perder à luz do dia. Felizmente sobrevivo mais esta jornada. O asfalto e a iluminação estão bem posicionados nessa rua, as paradas de ônibus novas levam vidro em suas confecções, mas o clima de insegurança permanece em alto teor. Quase tudo certo, mas alguns erros são grotescos.
A saúde mental sabe que o básico dos básicos está em condições quando chega-se em casa. Na internet, lê-se os mais diversos absurdos das mais diversas pessoas. Anarquistas que debocham, gente que acha que político é tudo igual, estes debocham, pessoas pedem intervenção militar em um país castigado antigamente pelos militares no governo. Inflações altas, corrupção deslavada, vozes silenciadas, torturas, exílios e mortes. Tudo ignorado por esses infelizes desconhecedores da história brasileira. Ou simplesmente pessoas de mau caráter. Não duvidem, anda por aí gente sem escrúpulos, canalhas e calhordas das piores espécies que existem.
Interrompem ao parágrafo os gritos dos coletores de lixo oficiais do governo. A coleta dos reciclados está suspensa pela crise no setor dos combustíveis, paralisações de caminhoneiros e de petroleiros na semana. Pautas diversas sendo jogadas, arremessadas espalhafatosamente ao ventilador. Um país em pleno caos. Todos infelizes.
A cadela pertencente aos vizinhos segue latindo desde que o caminhão passou. Ela deixa meus pais infelizes enquanto eles assistem à televisão da sala. A cadela parece seguir incomodada e outros cães da vizinhança se manifestam. Pedem intervenções ou querem intervir. Todos infelizes.
21/05/2018
Poesia que fores
Suas mãos fazem uma poesia de flores
Eu queria fazer parte
Nessa sua palheta de cores
A mais bela das artes
Suas mãos fazem uma poesia de flores
Ramalhete e arremate
Junção, laço e gene
Genialidade da arte
Suas mãos fazem uma poesia de flores
Espinhos visíveis, vizinhos de dores
Dedo médio, dedo mínimo
Incisivos que forem
Poesia de flores
Poesia que fores
A mais bela das dores...
Eu queria fazer parte
Nessa sua palheta de cores
A mais bela das artes
Suas mãos fazem uma poesia de flores
Ramalhete e arremate
Junção, laço e gene
Genialidade da arte
Suas mãos fazem uma poesia de flores
Espinhos visíveis, vizinhos de dores
Dedo médio, dedo mínimo
Incisivos que forem
Poesia de flores
Poesia que fores
A mais bela das dores...
18/05/2018
Fins (de semana)
Minha tia fofoca na cozinha. Sempre sobre as mesmas pessoas e raramente sobre outras. Não sei aonde leva esse assunto. Não sei aonde leva a loucura e a lógica do sistema. Cheguei em casa e suo mais nas mãos agora do que enquanto caminhava à alta velocidade.
Um amigo de infância confidenciava entre uma de nossas primeiras rotas traçadas a pé e sem supervisão adulta que ele gostava de caminhar rápido para 'evitar problemas' ou seja lá o termo usado na época. Ele tinha, e ainda tem até hoje, grande poder aquisitivo, o que talvez justifique essa atitude estratégica. Seus celulares de cinco, seis anos atrás deveriam ser melhores do que o que eu tenho atualmente. E às vezes é o tipo de gente que carrega dinheiro demais para ocasiões em que necessitariam trocados ou notas baixas, para evitar constrangimento de trocos.
Enquanto eu digitava a palavra dinheiro, minha mãe a entoava na cozinha. O dinheiro é sempre o centro das questões. É o dinheiro, ou o produto celular no meu bolso, ou meus óculos escuros já devidamente pendurados no colarinho, que fazem eu apressar o passo, relembrando a distante fala do amigo que hoje tenho tão pouco contato para com ele. É o dinheiro que me faz correr atrás dos mais diversos comércios e estabelecimentos em busca de subsídios para meus hobbies e futura sobrevivência.
São os 82 reais que devo ao Ministério da Educação através da inscrição do Enem e preciso quitar até a próxima terça-feira para realizar uma prova objetiva de questões a b c d e, na interpretação, no susto, na sorte, no chute, na grade, em busca de cento e poucos acertos e mais uma graduação. Em busca de terminar e me livrar no menor tempo possível para me livrar de procurar comércios e estabelecimentos e ter um horário fixo para desenvolver a mesma função repetidas e repetidas vezes. C'est la vie, alguns se orgulham em compilar a fala em suas fotos de capa em redes sociais online.
Achei que seria assaltado ao lado de um grande supermercado que fechou nos últimos anos. Ao redor da colossal escultura que antes abrigava movimento de clientes, carrinhos de compras e barulhos de código de barras liberados, existia uma tela, mas ela foi roubada. Aí foi reposta, como se nada houvesse acontecido. Agora estou no aguardo de quanto tempo para que seja novamente roubada. Uma escadaria que leva a um segundo andar na construção foi grafitada e pichada como os norte-americanos gostam de fazer nos estabelecimentos desocupados pelas inflações imobiliárias e crises inventadas do mercado mundial e wall street e etc. Ao lado desse super abandonado, achei que seria assaltado.
O ciclista vinha sorrindo e olhando para o lado, parecia para mim. E segui caminhando, mas voltei meu olhar a ele e ele continuava sorrindo e eu caminhando e ele pedalando e sorrindo e uma cara de quem ia se dar bem. E ele segue sua trajetória à beira do meio fio pela rua e ao meu lado na calçada passa uma criança também de bicicleta, que deveria ser o irmão mais novo dele ou talvez um filho, é possível. Dessa vez senti o perigo tão iminente que nem me arrependi de ter duvidado de sua índole. Em outros tempos eu teria me chateado e deprimido comigo mesmo. Mas são tantos e tantos motivos para isso que prefiro não empilhar mais esse. Postes acesos e cachorros levando suas donas para passear. Estou falando dos quadrúpedes, alguns vestidos de roupinhas no inverno que se aprochega na metade sul do globo terrestre.
Eles cagam o meu caminho nos fundos dos apartamentos da rua Brasil e pelo menos o novo prédio, um dos mais altos da cidade, tem calçada nova, até ciclofaixa e os cães o tem respeitado, sabe-se lá porque, mas continuam cagando nos mesmos espaços que depositavam desde antes.
No posto de gasolina da esquina, a placa que sinaliza a marca do posto não combina com o resto da decoração e da sinalização dele, eu estranho. Os funcionários estão agora equipados com jaquetas mais grossas, num tom de vermelho berrante e uma das funcionárias ajeitava a postura da roupa sobre o colega funcionário.
Durante o trajeto, notei muitos rostos de clipes do System of a Down, o que significa gente observando o nada e o tudo e seja o que for pela janela, a vida passando diante de seus olhos, enquanto trabalham encaixotadas em endereços decorados na cabeça para indicar onde comerciam e para aumentar as vendas. Trabalham encasulados e encarcerados, mais empacotados do que as próprias mercadorias que vendem, que pelo menos vão mudar de endereço quando são vendidas. Enquanto elas, as pessoas, vão continuar ali, observando os fins de tarde na infindável melancolia e na expectativa recortada no calendário em denominação de fim de semana.
Enquanto descrevi tudo isso, minha tia segue na fofoca no cômodo da cozinha. Bom fim de semana a todos os leitores. Se estiverem lendo no início de uma semana posterior, não se preocupem pois o desejo do bom sempre se reserva aos finais de semana. Enclausurados, encasulados, empacotados nas folhinhas espetadas nas cozinhas em doações feitas por armazéns próximos.
Um amigo de infância confidenciava entre uma de nossas primeiras rotas traçadas a pé e sem supervisão adulta que ele gostava de caminhar rápido para 'evitar problemas' ou seja lá o termo usado na época. Ele tinha, e ainda tem até hoje, grande poder aquisitivo, o que talvez justifique essa atitude estratégica. Seus celulares de cinco, seis anos atrás deveriam ser melhores do que o que eu tenho atualmente. E às vezes é o tipo de gente que carrega dinheiro demais para ocasiões em que necessitariam trocados ou notas baixas, para evitar constrangimento de trocos.
Enquanto eu digitava a palavra dinheiro, minha mãe a entoava na cozinha. O dinheiro é sempre o centro das questões. É o dinheiro, ou o produto celular no meu bolso, ou meus óculos escuros já devidamente pendurados no colarinho, que fazem eu apressar o passo, relembrando a distante fala do amigo que hoje tenho tão pouco contato para com ele. É o dinheiro que me faz correr atrás dos mais diversos comércios e estabelecimentos em busca de subsídios para meus hobbies e futura sobrevivência.
São os 82 reais que devo ao Ministério da Educação através da inscrição do Enem e preciso quitar até a próxima terça-feira para realizar uma prova objetiva de questões a b c d e, na interpretação, no susto, na sorte, no chute, na grade, em busca de cento e poucos acertos e mais uma graduação. Em busca de terminar e me livrar no menor tempo possível para me livrar de procurar comércios e estabelecimentos e ter um horário fixo para desenvolver a mesma função repetidas e repetidas vezes. C'est la vie, alguns se orgulham em compilar a fala em suas fotos de capa em redes sociais online.
Achei que seria assaltado ao lado de um grande supermercado que fechou nos últimos anos. Ao redor da colossal escultura que antes abrigava movimento de clientes, carrinhos de compras e barulhos de código de barras liberados, existia uma tela, mas ela foi roubada. Aí foi reposta, como se nada houvesse acontecido. Agora estou no aguardo de quanto tempo para que seja novamente roubada. Uma escadaria que leva a um segundo andar na construção foi grafitada e pichada como os norte-americanos gostam de fazer nos estabelecimentos desocupados pelas inflações imobiliárias e crises inventadas do mercado mundial e wall street e etc. Ao lado desse super abandonado, achei que seria assaltado.
O ciclista vinha sorrindo e olhando para o lado, parecia para mim. E segui caminhando, mas voltei meu olhar a ele e ele continuava sorrindo e eu caminhando e ele pedalando e sorrindo e uma cara de quem ia se dar bem. E ele segue sua trajetória à beira do meio fio pela rua e ao meu lado na calçada passa uma criança também de bicicleta, que deveria ser o irmão mais novo dele ou talvez um filho, é possível. Dessa vez senti o perigo tão iminente que nem me arrependi de ter duvidado de sua índole. Em outros tempos eu teria me chateado e deprimido comigo mesmo. Mas são tantos e tantos motivos para isso que prefiro não empilhar mais esse. Postes acesos e cachorros levando suas donas para passear. Estou falando dos quadrúpedes, alguns vestidos de roupinhas no inverno que se aprochega na metade sul do globo terrestre.
Eles cagam o meu caminho nos fundos dos apartamentos da rua Brasil e pelo menos o novo prédio, um dos mais altos da cidade, tem calçada nova, até ciclofaixa e os cães o tem respeitado, sabe-se lá porque, mas continuam cagando nos mesmos espaços que depositavam desde antes.
No posto de gasolina da esquina, a placa que sinaliza a marca do posto não combina com o resto da decoração e da sinalização dele, eu estranho. Os funcionários estão agora equipados com jaquetas mais grossas, num tom de vermelho berrante e uma das funcionárias ajeitava a postura da roupa sobre o colega funcionário.
Durante o trajeto, notei muitos rostos de clipes do System of a Down, o que significa gente observando o nada e o tudo e seja o que for pela janela, a vida passando diante de seus olhos, enquanto trabalham encaixotadas em endereços decorados na cabeça para indicar onde comerciam e para aumentar as vendas. Trabalham encasulados e encarcerados, mais empacotados do que as próprias mercadorias que vendem, que pelo menos vão mudar de endereço quando são vendidas. Enquanto elas, as pessoas, vão continuar ali, observando os fins de tarde na infindável melancolia e na expectativa recortada no calendário em denominação de fim de semana.
Enquanto descrevi tudo isso, minha tia segue na fofoca no cômodo da cozinha. Bom fim de semana a todos os leitores. Se estiverem lendo no início de uma semana posterior, não se preocupem pois o desejo do bom sempre se reserva aos finais de semana. Enclausurados, encasulados, empacotados nas folhinhas espetadas nas cozinhas em doações feitas por armazéns próximos.
08/05/2018
Segunda-Feira, 7 de Maio
Terminei de ler mais um livro. Um grande livro. Em tamanho e significado, recomendado por um dos meus amigos da atualidade. Na verdade, me joguei a essa leitura através de uma lista dos livros que nos desafiavam sobre termos lido ou não. Esse eu não havia lido, mas agora posso marcar, confirmar e condizer que sim: li.
Ao terminar essa vasta leitura, o relógio ultrapassa as temíveis três horas da madrugada. O maior temor é o despertar do dia seguinte. Ó, que contradição, se o maior temor seria não acordar no dia seguinte? Mas me refiro aos desrespeito com o horário. Mais uma madrugada atravessada entre as pálpebras. Uma leitura estonteante, um folhar de páginas que pode mudar a vida de vários indivíduos, configurando o porquê da obra ser um clássico respeitabilíssimo.
Para este amigo, devo ações políticos. E será que devo? A quem devo? No que acredito? Quais são os próximos passos? Um maldito ano eleitoral em que estamos cercados das mais diversas maneiras. Quem matou a vereadora carioca Marielle Franco? Pode manifestação política defendendo político específico em estádio? Por que afirmam que Ciro Gomes não é de esquerda?
Um colega de jornalismo, conhecido virtualmente, desabafa neste horário sobre o pouco ânimo vital. A gente nem se espanta mais. É tão comum o desânimo. A gente aprende a conviver consigo mesmo e a não arregalar os olhos nos demais casos. É preciso ser muito forte, paciente e domado espiritualmente. Domado como um animal que obedece quando o dono arremessa uma bola e se corre atrás.
Este colega não está mais no site em que eu estava. Somos ex do mesmo portal. Não tenho tamanha intimidade e nem fôlego agora para indagá-lo sobre sua situação atual. E, a bem da verdade, nem sei quais são as palavras certas para ajudá-lo neste momento. Ele reclama que não se sente à vontade com o que está produzindo ou para que possa produzir o que deseja. Entendem? Ele sabe que está fazendo algo, mas não aprova. Ou não está fazendo algo porque simplesmente não consegue configurar-se para tal função. Falta de manejo físico ou psicológico atualmente. Um problema, um problemão que atinge a muitos e muitas.
Os que buscam emprego se apertam contra portas estreitas da atualidade. Um colega de escola forma-se engenheiro civil e não tem contrato e não tem por onde ir no exato momento. É possível que a construção lhe abra passagens futuras, literalmente, mas por enquanto é um cenário de tensão e espera. Outro formado há mais de ano também não conseguia o que exercer. Um terceiro está para se formar e tem sonhos utópicos que necessitariam de uma responsabilidade enorme, de um capital de giro inicial bastante alto e que sabe-se lá de onde espera tirar. Devaneios de um Brasil que, ao invés de ser pista de decolagem está mais para terra movediça. Sacam?
No Jornalismo meu e do colega acima citado, o problema é se defrontar com o que produzimos e em nome de quem e para qual retorno. O financeiro é irrisório, qualquer obra simbólica ou de menor esforço físico valendo mais. Nos desgastamos em deslocamentos para cobrir pautas, em horas escolhendo e editando as palavras certas nos resumos jogados nas lixeiras dos calçadões ao fim do dia. Ao buraco do esquecimento no migratório e acelerado circuito virtual que nos engole como pequenas presas de leões.
A outra companheira que destrincha umas linhas, uns podem chamar de thread, resmunga a respeito do barulho feito pelos vizinhos de cima do apartamento. Taí outro problema comum dos deseducados moradores de condomínios Brasil adiante, mesmo essa sendo uma legítima pelotense. Reclama sobre barulhos de móveis ou de que for que está sendo arrastado teto acima para ela. Três horas da madrugada e essa situação humilhante, o sono, ainda gratuito, sendo dizimado em nome de algum absurdo para o horário.
Desânimo dela que conta aos leitores madrugadores ser uma cena comum. Gravou vídeos com o celular para provar o horário e o estampido dos sons impertinentes no apartamento de cima. Mais cedo, uma outra menina reclamava do sexo dos vizinhos, mas essa é outra história. Outra história que pelo menos era mais justificável e mais cedo.
A boa notícia, segundo o portal da emissora mais famosa do Brasil, é que os imóveis baixaram 0,01% do preço no mês de abril. É a grande chance de trocar de endereço, desanimados e desanimadas deste país. Assim foi-se a segunda das feiras.
Ao terminar essa vasta leitura, o relógio ultrapassa as temíveis três horas da madrugada. O maior temor é o despertar do dia seguinte. Ó, que contradição, se o maior temor seria não acordar no dia seguinte? Mas me refiro aos desrespeito com o horário. Mais uma madrugada atravessada entre as pálpebras. Uma leitura estonteante, um folhar de páginas que pode mudar a vida de vários indivíduos, configurando o porquê da obra ser um clássico respeitabilíssimo.
Para este amigo, devo ações políticos. E será que devo? A quem devo? No que acredito? Quais são os próximos passos? Um maldito ano eleitoral em que estamos cercados das mais diversas maneiras. Quem matou a vereadora carioca Marielle Franco? Pode manifestação política defendendo político específico em estádio? Por que afirmam que Ciro Gomes não é de esquerda?
Um colega de jornalismo, conhecido virtualmente, desabafa neste horário sobre o pouco ânimo vital. A gente nem se espanta mais. É tão comum o desânimo. A gente aprende a conviver consigo mesmo e a não arregalar os olhos nos demais casos. É preciso ser muito forte, paciente e domado espiritualmente. Domado como um animal que obedece quando o dono arremessa uma bola e se corre atrás.
Este colega não está mais no site em que eu estava. Somos ex do mesmo portal. Não tenho tamanha intimidade e nem fôlego agora para indagá-lo sobre sua situação atual. E, a bem da verdade, nem sei quais são as palavras certas para ajudá-lo neste momento. Ele reclama que não se sente à vontade com o que está produzindo ou para que possa produzir o que deseja. Entendem? Ele sabe que está fazendo algo, mas não aprova. Ou não está fazendo algo porque simplesmente não consegue configurar-se para tal função. Falta de manejo físico ou psicológico atualmente. Um problema, um problemão que atinge a muitos e muitas.
Os que buscam emprego se apertam contra portas estreitas da atualidade. Um colega de escola forma-se engenheiro civil e não tem contrato e não tem por onde ir no exato momento. É possível que a construção lhe abra passagens futuras, literalmente, mas por enquanto é um cenário de tensão e espera. Outro formado há mais de ano também não conseguia o que exercer. Um terceiro está para se formar e tem sonhos utópicos que necessitariam de uma responsabilidade enorme, de um capital de giro inicial bastante alto e que sabe-se lá de onde espera tirar. Devaneios de um Brasil que, ao invés de ser pista de decolagem está mais para terra movediça. Sacam?
No Jornalismo meu e do colega acima citado, o problema é se defrontar com o que produzimos e em nome de quem e para qual retorno. O financeiro é irrisório, qualquer obra simbólica ou de menor esforço físico valendo mais. Nos desgastamos em deslocamentos para cobrir pautas, em horas escolhendo e editando as palavras certas nos resumos jogados nas lixeiras dos calçadões ao fim do dia. Ao buraco do esquecimento no migratório e acelerado circuito virtual que nos engole como pequenas presas de leões.
A outra companheira que destrincha umas linhas, uns podem chamar de thread, resmunga a respeito do barulho feito pelos vizinhos de cima do apartamento. Taí outro problema comum dos deseducados moradores de condomínios Brasil adiante, mesmo essa sendo uma legítima pelotense. Reclama sobre barulhos de móveis ou de que for que está sendo arrastado teto acima para ela. Três horas da madrugada e essa situação humilhante, o sono, ainda gratuito, sendo dizimado em nome de algum absurdo para o horário.
Desânimo dela que conta aos leitores madrugadores ser uma cena comum. Gravou vídeos com o celular para provar o horário e o estampido dos sons impertinentes no apartamento de cima. Mais cedo, uma outra menina reclamava do sexo dos vizinhos, mas essa é outra história. Outra história que pelo menos era mais justificável e mais cedo.
A boa notícia, segundo o portal da emissora mais famosa do Brasil, é que os imóveis baixaram 0,01% do preço no mês de abril. É a grande chance de trocar de endereço, desanimados e desanimadas deste país. Assim foi-se a segunda das feiras.
05/05/2018
Morros
Era um morro. Naturalmente era um morro, relevo esculpido pela mãe geografia desde muitos e muitos séculos. Também é lógico que trata-se de um morro ocupado. Famílias e famílias periféricas, mas visíveis, talvez de binóculos, aos olhos do reinante asfalto, que no Rio de Janeiro tem seu reinado no ponto mais baixo.
Mas o morro tinha lá seus impérios. Lugar melhor para alguns comércios não há. E os que sabem, se escoram e se encorajam nisso não perdem chance. Ocupações para o bem ou para o mal. Ou além disso, pela sobrevivência. Algo que orgulharia a teoria de filósofos alemães que jamais viram tais cenas e nem as imaginavam no europeu século dezenove.
De fato, era um morro. Um morro que aqui não representa nome. Um morro desses que o turista conhece olhando lá de baixo para cima, com olhos arregalados, a boca abismada em formato de caverna e, se não é assim que observa, é porque teme representar demais a expressão turística, chamadora de atenção de quem tenta se aproveitar deles. Morro desses que o estrangeiro a essas terras observa como uma junção de peças muito semelhantes, como um quebra-cabeças, mas que tenta, ao mesmo tempo, registrar as diferenças, entre uma casa de tijolos à vista, outra pintada em cor de rosa, outra na mão de tinta em verde limão. Tenta observar uma bandeira do Flamengo pendurada, umas peça de roupa em outra corda, uma bicicleta ali jogada ou uma bola de plástico instantemente abandonada. Tenta entender como a fiação funciona naqueles enroscos que desafiam a lógica e a física. Desafiam aos vizinhos descobrir quem é o responsável quando a luz se vai ou quando o incêndio atinge uma dúzia de barracões. Os desafios do dia a dia.
Cada vez mais convencido de que o ser humano é adaptável. Pra quem mora ali desde a infância, nada disso é cenário para bocabertices, para espanto, caras pasmas ou a mão trêmula tentando sacar dali fotografia com o celular ou com a Canon ou Nikon. Um casal de jornalistas ali vivia há cerca de um mês. A primeira semana sempre é a mais difícil. O trabalho de conseguir alugar um espaço de dois quartos, uma cozinha e um banheiro quase comunitário com os vizinhos não foi tranquilo aos olhos dos controladores.
A adrenalina e a ânsia da reportagem falavam mais alto. Gritavam e abriam espaço em seus peitos. Precisava ser feito. O início era como se adaptar a um quarto de hotel, com suas peculiaridades estudadas nos primeiros dias, nos primeiros acenderes do fogão, nos primeiros banhos para regular o pouco que podia ser feito com a água do chuveiro. Armazenar água da chuva para fundos de emergência, saber a intensidade da descarga do vaso sanitário. Entender o horário e os incômodos que os vizinhos poderiam causar.
Preconceitos à parte da sociedade dos bairros abaixo, nada ali estranhava muito. Crianças brincam e fazem barulho, naturalmente. Das mais ricas às mais pobres. Experiências de observar crianças haviam tido, embora, casal junto há menos de quatro anos, não tinham filhos e, nos custos de tempo e estresse na dedicação ao trabalho, não pensavam e mal discutiam essa hipótese, mesmo para um futuro que não sabiam se existiria.
Se conheceram ao final de suas faculdades e a oportunidade de trabalhar juntos uniu-os de vez. É possível que já haviam se visto nesses rios de janeiros de zonas sulistas, mas somente os encontros para a definitiva oportunidade de trabalhar no mesmo ramo meses depois causaram uma união mais estável. Dividiam um apartamento anteriormente, com alguns custos de auxílio das famílias, pois jornalista tinha um alto custo com internet, telefonia e outros serviços. Até mesmo com deslocamentos com transportes, que, mesmo nos aplicativos novos, somavam uma nota desconfortável ao final dos meses.
Aquele espaço no morro era para uma produção que ganharia destaque em chamada e páginas e páginas de uma revista. O veículo entrava em contato com eles praticamente diariamente. A negociação para obter o lugar estratégico demorou mais tempo do que passariam ali. Os contatos com os controladores eram seguidos. Queriam saber a intenção da reportagem, saber um pouco sobre suas identidades e histórico recentes, o que foi passado em resumo bastante resumido, mas sem invenções ou ocultações que poderiam complicar a pele do casal enquanto estivessem lá em cima.
Conforme avançavam no currículo que os controladores desejavam, a isenção de pagamento foi conseguida. Era um dos raros espaços desocupados anteriormente entre as construções tão adjuntas do morro. Famílias e mais famílias os cercavam. A bem da verdade, o ponto de vista antropológico os interessava muito. A parte criminalística deixava de ser o ápice da reportagem durante vários e vários dias. Muitas vezes o olhar direcionado ao conhecimento daqueles humanos preferia fotografar as crianças em brincadeiras rudimentares de futebol, nas versões de altinha e em gols improvisados, as quase extintas bolas de gude, ou mirar o deslocamento das constantes lavadeiras, que pareciam carregar e trabalhar com mais peças do que caberiam em pilhas ou cabides no aperto dos quartos das casas.
E no que se conseguia capturar de seus assuntos, as palavras, os discursos e os diálogos inalados de sabão iam dos homens, dos ex-acompanhantes, dos bêbados da região, da novela, algo mais vago sobre futebol, sobre o desempenho dos que estudavam e o lamentar dos que não estudavam naquelas famílias tão jovens, de mães adolescentes a crianças que começavam a se encarregar do perigoso e mortal tráfico.
Esta era uma das palavras as quais evitavam a todo custo. Certas palavras pareciam perigosas e distintas até mesmo para colocá-las no papel, das anotações aos registros do notebook. A sensação era de cometer um grande delito e que sempre alguém os observava como se fosse o Cristo Redentor, ainda mais ao alto, a aconselhar que utilizassem sinônimos ou tomassem o extremo cuidado naqueles delicados assuntos.
Também pelo receio de abordar esses temas é que muitas vezes o cotidiano das famílias mais simples, necessitadas e pouco estruturadas tomava espaço nos registros, nas anotações e nos álbuns construídos. Aprendiam o nome de alguns vizinhos, embora a maioria demonstrasse interesse, mas receio de se intercomunicar por muito tempo. Qualquer estouro em relação aos jornalistas poderia acarretar em problemas entre os mais próximos, como tortura, ameaças e necessidades de confessar até o que não sabiam.
A relação com a vizinhança foi um dos tópicos bastante abordados durante as conversas para definir o aluguel. Muitos dos moradores, principalmente os mais antigos e de confiança dos controladores, foram indagados sobre a possível presença dos jornalistas ali em dia e noite. Uns torceram o nariz, mas a maioria foi aceitando. A liberação da concordância foi acontecendo em processo de confiança dos primeiros dias. Mas, para os jornalistas, a sensação era sempre de que alguém os observava. E era possível que realmente os observavam nos mais diferentes horários e locais, como na ida aos mercadinhos da zona ou da cerveja que Gabriel arriscava beber nos botecos, colhendo mais alguns depoimentos dos frequentadores, uns mais exaltados ou confessores após os pileques.
Gabriel era mais moreno e Patrícia era muito clara. Ela atraía olhares masculinos, mas teve dificuldade era em convencer as lavadeiras, as jovens mães acompanhadas ou solteiras de que sua presença era meramente trabalhista. Não ia lá para roubar homem, muito pelo contrário, afirmava.
Os preconceitos correm fácil por esse Brasil, talvez tão fáceis como circulem os córregos da vasta bacia hidrográfica de Norte a Sul, ou fáceis como as valetas e os esgotos a céu aberto. Ou fáceis como o voo das veranistas andorinhas e outras aves nativas. Tão fácil quanto a fumaça do cigarro no bar que Gabriel frequentava às vezes com Patrícia. Tão fácil quanto a mercadoria financiadora descia morro por meses sem a mínima interferência estatal e o controle era todo daqueles que intermediavam pela população, ameaçavam e empunhavam suas regras e seu armamento por vezes à luz do dia.
Faltavam poucos dias para fechar um mês de trabalho. Eles não projetavam estender muito mais a jornada por aquelas bandas, conforme inclusive haviam acordado com os controladores da região. Eram 28 dias completos na missão para a revista, mas então houve a noite derradeira. Foram 28 dias completos, mas na vigésima oitava noite...
Mas o morro tinha lá seus impérios. Lugar melhor para alguns comércios não há. E os que sabem, se escoram e se encorajam nisso não perdem chance. Ocupações para o bem ou para o mal. Ou além disso, pela sobrevivência. Algo que orgulharia a teoria de filósofos alemães que jamais viram tais cenas e nem as imaginavam no europeu século dezenove.
De fato, era um morro. Um morro que aqui não representa nome. Um morro desses que o turista conhece olhando lá de baixo para cima, com olhos arregalados, a boca abismada em formato de caverna e, se não é assim que observa, é porque teme representar demais a expressão turística, chamadora de atenção de quem tenta se aproveitar deles. Morro desses que o estrangeiro a essas terras observa como uma junção de peças muito semelhantes, como um quebra-cabeças, mas que tenta, ao mesmo tempo, registrar as diferenças, entre uma casa de tijolos à vista, outra pintada em cor de rosa, outra na mão de tinta em verde limão. Tenta observar uma bandeira do Flamengo pendurada, umas peça de roupa em outra corda, uma bicicleta ali jogada ou uma bola de plástico instantemente abandonada. Tenta entender como a fiação funciona naqueles enroscos que desafiam a lógica e a física. Desafiam aos vizinhos descobrir quem é o responsável quando a luz se vai ou quando o incêndio atinge uma dúzia de barracões. Os desafios do dia a dia.
Cada vez mais convencido de que o ser humano é adaptável. Pra quem mora ali desde a infância, nada disso é cenário para bocabertices, para espanto, caras pasmas ou a mão trêmula tentando sacar dali fotografia com o celular ou com a Canon ou Nikon. Um casal de jornalistas ali vivia há cerca de um mês. A primeira semana sempre é a mais difícil. O trabalho de conseguir alugar um espaço de dois quartos, uma cozinha e um banheiro quase comunitário com os vizinhos não foi tranquilo aos olhos dos controladores.
A adrenalina e a ânsia da reportagem falavam mais alto. Gritavam e abriam espaço em seus peitos. Precisava ser feito. O início era como se adaptar a um quarto de hotel, com suas peculiaridades estudadas nos primeiros dias, nos primeiros acenderes do fogão, nos primeiros banhos para regular o pouco que podia ser feito com a água do chuveiro. Armazenar água da chuva para fundos de emergência, saber a intensidade da descarga do vaso sanitário. Entender o horário e os incômodos que os vizinhos poderiam causar.
Preconceitos à parte da sociedade dos bairros abaixo, nada ali estranhava muito. Crianças brincam e fazem barulho, naturalmente. Das mais ricas às mais pobres. Experiências de observar crianças haviam tido, embora, casal junto há menos de quatro anos, não tinham filhos e, nos custos de tempo e estresse na dedicação ao trabalho, não pensavam e mal discutiam essa hipótese, mesmo para um futuro que não sabiam se existiria.
Se conheceram ao final de suas faculdades e a oportunidade de trabalhar juntos uniu-os de vez. É possível que já haviam se visto nesses rios de janeiros de zonas sulistas, mas somente os encontros para a definitiva oportunidade de trabalhar no mesmo ramo meses depois causaram uma união mais estável. Dividiam um apartamento anteriormente, com alguns custos de auxílio das famílias, pois jornalista tinha um alto custo com internet, telefonia e outros serviços. Até mesmo com deslocamentos com transportes, que, mesmo nos aplicativos novos, somavam uma nota desconfortável ao final dos meses.
Aquele espaço no morro era para uma produção que ganharia destaque em chamada e páginas e páginas de uma revista. O veículo entrava em contato com eles praticamente diariamente. A negociação para obter o lugar estratégico demorou mais tempo do que passariam ali. Os contatos com os controladores eram seguidos. Queriam saber a intenção da reportagem, saber um pouco sobre suas identidades e histórico recentes, o que foi passado em resumo bastante resumido, mas sem invenções ou ocultações que poderiam complicar a pele do casal enquanto estivessem lá em cima.
Conforme avançavam no currículo que os controladores desejavam, a isenção de pagamento foi conseguida. Era um dos raros espaços desocupados anteriormente entre as construções tão adjuntas do morro. Famílias e mais famílias os cercavam. A bem da verdade, o ponto de vista antropológico os interessava muito. A parte criminalística deixava de ser o ápice da reportagem durante vários e vários dias. Muitas vezes o olhar direcionado ao conhecimento daqueles humanos preferia fotografar as crianças em brincadeiras rudimentares de futebol, nas versões de altinha e em gols improvisados, as quase extintas bolas de gude, ou mirar o deslocamento das constantes lavadeiras, que pareciam carregar e trabalhar com mais peças do que caberiam em pilhas ou cabides no aperto dos quartos das casas.
E no que se conseguia capturar de seus assuntos, as palavras, os discursos e os diálogos inalados de sabão iam dos homens, dos ex-acompanhantes, dos bêbados da região, da novela, algo mais vago sobre futebol, sobre o desempenho dos que estudavam e o lamentar dos que não estudavam naquelas famílias tão jovens, de mães adolescentes a crianças que começavam a se encarregar do perigoso e mortal tráfico.
Esta era uma das palavras as quais evitavam a todo custo. Certas palavras pareciam perigosas e distintas até mesmo para colocá-las no papel, das anotações aos registros do notebook. A sensação era de cometer um grande delito e que sempre alguém os observava como se fosse o Cristo Redentor, ainda mais ao alto, a aconselhar que utilizassem sinônimos ou tomassem o extremo cuidado naqueles delicados assuntos.
Também pelo receio de abordar esses temas é que muitas vezes o cotidiano das famílias mais simples, necessitadas e pouco estruturadas tomava espaço nos registros, nas anotações e nos álbuns construídos. Aprendiam o nome de alguns vizinhos, embora a maioria demonstrasse interesse, mas receio de se intercomunicar por muito tempo. Qualquer estouro em relação aos jornalistas poderia acarretar em problemas entre os mais próximos, como tortura, ameaças e necessidades de confessar até o que não sabiam.
A relação com a vizinhança foi um dos tópicos bastante abordados durante as conversas para definir o aluguel. Muitos dos moradores, principalmente os mais antigos e de confiança dos controladores, foram indagados sobre a possível presença dos jornalistas ali em dia e noite. Uns torceram o nariz, mas a maioria foi aceitando. A liberação da concordância foi acontecendo em processo de confiança dos primeiros dias. Mas, para os jornalistas, a sensação era sempre de que alguém os observava. E era possível que realmente os observavam nos mais diferentes horários e locais, como na ida aos mercadinhos da zona ou da cerveja que Gabriel arriscava beber nos botecos, colhendo mais alguns depoimentos dos frequentadores, uns mais exaltados ou confessores após os pileques.
Gabriel era mais moreno e Patrícia era muito clara. Ela atraía olhares masculinos, mas teve dificuldade era em convencer as lavadeiras, as jovens mães acompanhadas ou solteiras de que sua presença era meramente trabalhista. Não ia lá para roubar homem, muito pelo contrário, afirmava.
Os preconceitos correm fácil por esse Brasil, talvez tão fáceis como circulem os córregos da vasta bacia hidrográfica de Norte a Sul, ou fáceis como as valetas e os esgotos a céu aberto. Ou fáceis como o voo das veranistas andorinhas e outras aves nativas. Tão fácil quanto a fumaça do cigarro no bar que Gabriel frequentava às vezes com Patrícia. Tão fácil quanto a mercadoria financiadora descia morro por meses sem a mínima interferência estatal e o controle era todo daqueles que intermediavam pela população, ameaçavam e empunhavam suas regras e seu armamento por vezes à luz do dia.
Faltavam poucos dias para fechar um mês de trabalho. Eles não projetavam estender muito mais a jornada por aquelas bandas, conforme inclusive haviam acordado com os controladores da região. Eram 28 dias completos na missão para a revista, mas então houve a noite derradeira. Foram 28 dias completos, mas na vigésima oitava noite...
02/05/2018
aforismos do deus mercado
É estranha a vida de prostituto comercial. Aqueles que continuam a conversa quase uma semana depois como se nada houvesse acontecido.
Por horas, tenho ideias mirabolantes de possíveis anúncios e me sinto um empresário renomado e de sucesso, em boas roupas de cima a baixo e comentarista de revistas de coworking. Por outras, não confio em vender esses espaços falidos e me sinto um desgraçado, um pobre inválido diabo que não terá hipoteca, aluguel ou teto de privacidadindependência.
Transportadoras, restaurantes, farmácias de manipulação. Todos têm lucro... Só queremos pequenas fatias. Fatias chamadas oportunidade. Ou fatias como o pedinte da entrada do supermercado queria apenas uma das suas 23 sacolas do rancho. Fatias.
No mais, prostituir-se comercialmente em nome dos anunciantes denota um grande trabalho entre os diferentes processos mais ou menos organizados por: explicar a proposta, decorrer aprovação sem implorações ou choros demasiadamente degradantes e indignos, desenvolver o contrato mediante assinaturas, recolher a grana mensalmente, preencher recibos, pressionar pela renovação e finalmente, talvez o mais seguido e preocupante para qualquer paranoico: manter o nível de conteúdo a cada mês.
Ou será que sou dramático?
“Sacrificamos os antigos deuses imateriais e pusemos no templo o deus mercado... Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando já não aguentamos mais, sucedem a frustração, pobreza e até a autoexclusão”
José Mujica, ex-presidente do Uruguai.
Por horas, tenho ideias mirabolantes de possíveis anúncios e me sinto um empresário renomado e de sucesso, em boas roupas de cima a baixo e comentarista de revistas de coworking. Por outras, não confio em vender esses espaços falidos e me sinto um desgraçado, um pobre inválido diabo que não terá hipoteca, aluguel ou teto de privacidadindependência.
Transportadoras, restaurantes, farmácias de manipulação. Todos têm lucro... Só queremos pequenas fatias. Fatias chamadas oportunidade. Ou fatias como o pedinte da entrada do supermercado queria apenas uma das suas 23 sacolas do rancho. Fatias.
No mais, prostituir-se comercialmente em nome dos anunciantes denota um grande trabalho entre os diferentes processos mais ou menos organizados por: explicar a proposta, decorrer aprovação sem implorações ou choros demasiadamente degradantes e indignos, desenvolver o contrato mediante assinaturas, recolher a grana mensalmente, preencher recibos, pressionar pela renovação e finalmente, talvez o mais seguido e preocupante para qualquer paranoico: manter o nível de conteúdo a cada mês.
Ou será que sou dramático?
“Sacrificamos os antigos deuses imateriais e pusemos no templo o deus mercado... Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando já não aguentamos mais, sucedem a frustração, pobreza e até a autoexclusão”
José Mujica, ex-presidente do Uruguai.
debutes
Ao dia 1º de maio de 2018, minha irmã adentrou um estádio para um jogo de futebol oficial pela primeira vez. Justamente, por coincidência ou por aproveitamento da data, no feriado do dia do trabalhador. Justo minha irmã e eu que tanta dificuldade temos em arrumar empregos, por aptidões, qualificações ou socializações que nos faltam. Mas ela tem se virado no meio autônomo no campo artístico no desenvolvimento de desenhos, pinturas e moldes para as mais diversas personagens. Eu tenho começado a me virar radiando anunciantes na amplitude modulada, com um pouco do talento advindo comigo e com um pouco do que aprendi nos anos da faculdade de Jornalismo. São tempos difíceis, todavia, ao que se sabe. Tempos complicados mesmo para quem possua maiores aptidões, qualificações, formações e socializações, sobretudo. Tanto minha irmã quanto eu tivemos desempenho notório no aprendizado escolar, o que mais uma vez prova o despreparo do ensino para preparar. A despreparação do estudante para encarar os passos a seguir, o caminho pós-diploma, saturado de conhecimentos vagos, desconexos e a grosso modo inúteis no cotidiano. Pois bem.
Feita a crítica, vamos à parte positiva, a parte boa da receita. Minha irmã no alto de suas quase três décadas voltou definitivamente a ser criança. O anseio manifestado de um desejo passado por entrar em campo acompanhada de jogadores dessa vez foi saciado das arquibancadas. Um jogo de público de médio a baixo para as perspectivas do clube local pelotense, na Série B do Campeonato Brasileiro. Partida de bom acesso e de bom horário. Peleia disputada à tarde, percorrida até o início de noite do feriado e que se mostrou acolhedora para ela em um ambiente muitas vezes demasiadamente hostil.
Ao mesmo tempo em que muitas vezes julgamos alguma fragilidade destacadamente maior à figura dela, enquanto mulher e mulher com especificações e problemas de socialização, demonstrou curtir, ao que contou, os momentos mesmo mais exaltados de alguns torcedores ou dos jogadores em campo, partindo para desentendimentos e princípios de brigas e confusões além do jogo de bola. Ela é acostumada a jogos eletrônicos virtuais com armas, personagens e objetivos dos mais diversos tipos.
Quanto ao jogo especificamente, uma boa partida, talvez a que narrei pela rádio com mais chances de gols por ambos os lados. Uma atuação positiva dos escretes das duas equipes, a gaúcha e a catarinense. Os gols que se escassearam na injustiça desse desporto. Apenas um, de pênalti, deu a vitória aos pelotenses sobre os florianopolitianos. A bem da verdade, também se apreciam as boas defesas praticadas por ambos os arqueiros, sobretudo o da representação alvinegra, evitando por puro reflexo e boa colocação o aumento do score dos locais. Placar final de 1 a 0.
Na volta para casa, na qual dividimos o pedido de um lanche bem aproveitado, para fechar com chave de ouro, por assim dizer, ainda fico sabendo de mais relatos, quase todos entre sorrisos dela, no seu aparecer dentário de humores duvidosos, como costumam ser. O gol da partida anotado no primeiro tempo e gravado para a memória póstuma através da gravação de imagem feita pelo celular. Além desse registro importante, captou fotos da torcida antes do jogo e na entrada em campo das equipes, aquele momento que ela confessava tanto apreço anteriormente, o qual não conseguiu aproveitar em infância, mas conseguiu estendê-lo (e entendê-lo!) agora, ao menos sentimentalmente.
Nesse relato feito, comum a tantas crianças e adultos que conviveram em centros menores ou mal financeiramente, distantes dos seus times coracionados, contempla-se a importância das canchas de futebol. Poderia ser, no que confere jogo da mesma data, um debute de excursão à luxuosa e majestosa arena financiada em Porto Alegre, mas quis o destino que a estreia dela em estádios fosse com uma vitória mais humilde, como confere nosso polo em relação a(o) capital. De bom tamanho e de sorrisos escalados para durante e depois, como ora-se e pede-se antes de cada partida. Assim foi um feriado para não mais esquecer.
Feita a crítica, vamos à parte positiva, a parte boa da receita. Minha irmã no alto de suas quase três décadas voltou definitivamente a ser criança. O anseio manifestado de um desejo passado por entrar em campo acompanhada de jogadores dessa vez foi saciado das arquibancadas. Um jogo de público de médio a baixo para as perspectivas do clube local pelotense, na Série B do Campeonato Brasileiro. Partida de bom acesso e de bom horário. Peleia disputada à tarde, percorrida até o início de noite do feriado e que se mostrou acolhedora para ela em um ambiente muitas vezes demasiadamente hostil.
Ao mesmo tempo em que muitas vezes julgamos alguma fragilidade destacadamente maior à figura dela, enquanto mulher e mulher com especificações e problemas de socialização, demonstrou curtir, ao que contou, os momentos mesmo mais exaltados de alguns torcedores ou dos jogadores em campo, partindo para desentendimentos e princípios de brigas e confusões além do jogo de bola. Ela é acostumada a jogos eletrônicos virtuais com armas, personagens e objetivos dos mais diversos tipos.
Quanto ao jogo especificamente, uma boa partida, talvez a que narrei pela rádio com mais chances de gols por ambos os lados. Uma atuação positiva dos escretes das duas equipes, a gaúcha e a catarinense. Os gols que se escassearam na injustiça desse desporto. Apenas um, de pênalti, deu a vitória aos pelotenses sobre os florianopolitianos. A bem da verdade, também se apreciam as boas defesas praticadas por ambos os arqueiros, sobretudo o da representação alvinegra, evitando por puro reflexo e boa colocação o aumento do score dos locais. Placar final de 1 a 0.
Na volta para casa, na qual dividimos o pedido de um lanche bem aproveitado, para fechar com chave de ouro, por assim dizer, ainda fico sabendo de mais relatos, quase todos entre sorrisos dela, no seu aparecer dentário de humores duvidosos, como costumam ser. O gol da partida anotado no primeiro tempo e gravado para a memória póstuma através da gravação de imagem feita pelo celular. Além desse registro importante, captou fotos da torcida antes do jogo e na entrada em campo das equipes, aquele momento que ela confessava tanto apreço anteriormente, o qual não conseguiu aproveitar em infância, mas conseguiu estendê-lo (e entendê-lo!) agora, ao menos sentimentalmente.
Nesse relato feito, comum a tantas crianças e adultos que conviveram em centros menores ou mal financeiramente, distantes dos seus times coracionados, contempla-se a importância das canchas de futebol. Poderia ser, no que confere jogo da mesma data, um debute de excursão à luxuosa e majestosa arena financiada em Porto Alegre, mas quis o destino que a estreia dela em estádios fosse com uma vitória mais humilde, como confere nosso polo em relação a(o) capital. De bom tamanho e de sorrisos escalados para durante e depois, como ora-se e pede-se antes de cada partida. Assim foi um feriado para não mais esquecer.
01/05/2018
moinhos
e nesse mundo, esse nosso mesmo, estamos no mesmo barco e eu encontro ainda que com a resistência do tamanho e da idade, o colo de minha mãe, uma mentora que todavia me escuta. e posso falá-la e posso dizê-la, que não sei o quanto aguento nesse mundo, esse nosso mesmo. aguentar a multiplicação dos desempregos, os filhos e filhas pequenos com fome, as pessoas que batem à nossa porta ou me imploram trocados nas ruas, na entrada dos supermercados ou nos estacionamentos das poucas festas que nos resta fazer. não sei se consigo aguentar essa multiplicação de depressivos, essa desilusão em tudo em volta. a desilusão na mínima confiança ao próximo. ao próximo passo, ao próximo gesto, à próxima pessoa. reflito com ela, vitória régia de meu brejo, anjo de harpa em mãos e cabelos esbranquiçando. digo, mãe, que não sei o quanto aguento nessa subida de preços, nessa subida de grades, cercas e alarmes em nossos endereços. nessa subida de propagandas das mais falsas, picaretas e dizimadoras, propagandas contrárias ao que pregamos e acreditamos.
não sei mais quanto aguento nesse exercício de prender a respiração na manobra que antecede ao mergulho, prática de que nunca fui muito bom em ser duradouro. prender a respiração e procurar refúgio do mundo externo ao estar interno. e não encontrar a paz e tentar um conforto numa atividade externa e retornar e ficar no giro desse moinho que sufoca em águas. prenda-se, prenda-se, prenda-se. mergulhos nas águas das mais turvas e mais obrigatórias e mais uma sessão que se aproxima nessa roda giratória.
e tenho teu cloro e tenho meus braços para agarrar-me o quanto posso. e tenho cloro nos olhos e água nos pulmões. e mais sessões e sessões e sessões. à deriva, a naufrágios. o desejo da ignorância aos males que nos atingem externos e internos e que são incessantes, atormentantes e atuantes. sentinelas carrascos e garantidores do mecanismo. do moinho que joga-se em seu movimento e novamente afoga. e na tua mão me afago e no moinho afoga-me. e na tua mão afago-me e no moinho me afoga. e na tua mão me afago e no moinho...
não sei mais quanto aguento nesse exercício de prender a respiração na manobra que antecede ao mergulho, prática de que nunca fui muito bom em ser duradouro. prender a respiração e procurar refúgio do mundo externo ao estar interno. e não encontrar a paz e tentar um conforto numa atividade externa e retornar e ficar no giro desse moinho que sufoca em águas. prenda-se, prenda-se, prenda-se. mergulhos nas águas das mais turvas e mais obrigatórias e mais uma sessão que se aproxima nessa roda giratória.
e tenho teu cloro e tenho meus braços para agarrar-me o quanto posso. e tenho cloro nos olhos e água nos pulmões. e mais sessões e sessões e sessões. à deriva, a naufrágios. o desejo da ignorância aos males que nos atingem externos e internos e que são incessantes, atormentantes e atuantes. sentinelas carrascos e garantidores do mecanismo. do moinho que joga-se em seu movimento e novamente afoga. e na tua mão me afago e no moinho afoga-me. e na tua mão afago-me e no moinho me afoga. e na tua mão me afago e no moinho...
despindo desperdícios
e novas linhas
linhas minhas eu teço
para isso
às vezes desapareço.
e no regresso
será que é progresso?
e não meço
o quanto andei
não meço o preço
que paguei pelos versos
não adianta tentar calcular
um custo-benefício
porque pertenço a só esse ofício
penso e escrevo
por amor ou por vício
às vezes mundo real
às vezes fictício
enchendo linhas
serão desperdício?
linhas minhas eu teço
para isso
às vezes desapareço.
e no regresso
será que é progresso?
e não meço
o quanto andei
não meço o preço
que paguei pelos versos
não adianta tentar calcular
um custo-benefício
porque pertenço a só esse ofício
penso e escrevo
por amor ou por vício
às vezes mundo real
às vezes fictício
enchendo linhas
serão desperdício?
enseadas
ensereiada e aportada
na minha cama
com pernas pra ir onde quiser
mas fica se eu chamo
fica em chamas
na minha cama
com pernas pra ir onde quiser
mas fica se eu chamo
fica em chamas
28/04/2018
re(in)trospectivo
Juntam-se muitos eventos neste meu sábado que inicia na madrugada. Do aniversário do meu pai ao de um grande amigo que fiz. Jogos do Grêmio contra o Botafogo de meu pai e jogo do Brasil de Pelotas, que eu vou transmitir simultaneamente ao horário do Porto Alegrense. Além disso, duas formaturas, as que tenho reservadas ao mês de abril que vai se encerrando. Coisas que acontecem e se sucedem em minha vida, as formaturas aguardadas no mesmo dia, na mesma noite. Revezar entre elas, aproveitar ao máximo nenhuma, mas procurar aproveitar ao máximo a estada em cada uma. Assim é a vida, suas escolhas, renúncias e disparates do tempo.
Explanação demais sobre a minha vida. Vim tecer linhas de teimoso que sou eu, lata vazia à minha direita, coração esvaziado ao centro, com a ponta para a esquerda, é isso que dizem? Que seja. Durante a semana, dois dias antes foi o aniversário do Farroupilha da cidade de Pelotas, clube que muito bem adotei aos meus gostos e reivindicações. Tenho e prezo um carinho imenso por tal. Trajei minha camisa para percorrer as ruas do centro, sob olhares curiosos e saudosos para um jovem com a vestimenta de um dos clubes de seu miocárdio. Algum problema comigo? Creio eu que cruzei com o comentarista Caldenei Gomes, mas quando percebi que seria ele já havíamos nos despistado da calçada.
Não há rosto mais antigo impassível à camisa do Farroupilha. Recordam que já torceram por ele, ou recordam gente que torceu ou ainda torce. Recordam um pai, um tio, um amigo, um tempo remoto no estádio Nicolau Fico. Recordam um jogo que passou e abrem o baú dos fundos do raciocínio. Assim é a reação quando vista a camisa do Farroupilha nos dias atuais. Quase todos desconhecedores de ser um dia de mais um aniversário da agremiação quase centenária. 92 anos fazia, o campeão gaúcho de 1935, o maior torneio gaúcho da história, o maior estadual, o de centenário da revolução farroupilha.
Tempos difíceis ao futebol do interior. Outros apontamentos dos tempos? Oh, como de sempre faço isso. Dos cuidadores de comércios de esquinas, voluntariosos na função de cuidarem o movimento, encararem uns, cumprimentarem outros. Seguranças e porteiros. De um, de dois, de três comércios, dependendo. Juntando uns pilas no mundo atual. Uns ao celular, quase que bem distraídos.
O calor do centro foi enorme em pleno abril. Comprei uns livros, dos quais apareceu uma confusão sobre tudo que já aconteceu em Londres, um sobre o caçador dos mitológicos nórdicos Trolls e, para mim, a iniciação no universo kafkiano e mais umas ideias do tal argentino Julio Cortázar, ao que tudo indica, um dos maiores do país cisplatino.
Na compra da livraria em formato sebo, a descoberta que a outra pessoa fora o gordinho tatuado que eu nunca vi além de atrás do balcão, é a esposa ou namorada dele. Fiz o possível para evitar um contato mais próximo, embora ela insistisse a arrumar livros próximos a mim. Até a maldita da pequena escada fez questão de pegar para dificultar minhas leituras de orelhas e contracapas. Mas consegui fazer as devidas escolhas. A outra mulher que entrou na livraria parecia-me mais nova pela visão periférica e voz doce e gentil com a qual se comunicava, mas logo notei, ao me dirigir ao caixa do gordinho do balcão, que ela tinha idade mais avançada que os funcionários do local.
Assim foi a aventura de compras em uma livraria retrô utilizando uma camisa relativamente nova de um clube essencialmente retrô. Assim seguia o verão improvisado mesmo ao fim de abril, completamente fora de época. E fazia minha dedicação e preparação rumo ao sábado de acontecimentos. Sábado estando a acontecer. Com tecer. Conte ser.
Explanação demais sobre a minha vida. Vim tecer linhas de teimoso que sou eu, lata vazia à minha direita, coração esvaziado ao centro, com a ponta para a esquerda, é isso que dizem? Que seja. Durante a semana, dois dias antes foi o aniversário do Farroupilha da cidade de Pelotas, clube que muito bem adotei aos meus gostos e reivindicações. Tenho e prezo um carinho imenso por tal. Trajei minha camisa para percorrer as ruas do centro, sob olhares curiosos e saudosos para um jovem com a vestimenta de um dos clubes de seu miocárdio. Algum problema comigo? Creio eu que cruzei com o comentarista Caldenei Gomes, mas quando percebi que seria ele já havíamos nos despistado da calçada.
Não há rosto mais antigo impassível à camisa do Farroupilha. Recordam que já torceram por ele, ou recordam gente que torceu ou ainda torce. Recordam um pai, um tio, um amigo, um tempo remoto no estádio Nicolau Fico. Recordam um jogo que passou e abrem o baú dos fundos do raciocínio. Assim é a reação quando vista a camisa do Farroupilha nos dias atuais. Quase todos desconhecedores de ser um dia de mais um aniversário da agremiação quase centenária. 92 anos fazia, o campeão gaúcho de 1935, o maior torneio gaúcho da história, o maior estadual, o de centenário da revolução farroupilha.
Tempos difíceis ao futebol do interior. Outros apontamentos dos tempos? Oh, como de sempre faço isso. Dos cuidadores de comércios de esquinas, voluntariosos na função de cuidarem o movimento, encararem uns, cumprimentarem outros. Seguranças e porteiros. De um, de dois, de três comércios, dependendo. Juntando uns pilas no mundo atual. Uns ao celular, quase que bem distraídos.
O calor do centro foi enorme em pleno abril. Comprei uns livros, dos quais apareceu uma confusão sobre tudo que já aconteceu em Londres, um sobre o caçador dos mitológicos nórdicos Trolls e, para mim, a iniciação no universo kafkiano e mais umas ideias do tal argentino Julio Cortázar, ao que tudo indica, um dos maiores do país cisplatino.
Na compra da livraria em formato sebo, a descoberta que a outra pessoa fora o gordinho tatuado que eu nunca vi além de atrás do balcão, é a esposa ou namorada dele. Fiz o possível para evitar um contato mais próximo, embora ela insistisse a arrumar livros próximos a mim. Até a maldita da pequena escada fez questão de pegar para dificultar minhas leituras de orelhas e contracapas. Mas consegui fazer as devidas escolhas. A outra mulher que entrou na livraria parecia-me mais nova pela visão periférica e voz doce e gentil com a qual se comunicava, mas logo notei, ao me dirigir ao caixa do gordinho do balcão, que ela tinha idade mais avançada que os funcionários do local.
Assim foi a aventura de compras em uma livraria retrô utilizando uma camisa relativamente nova de um clube essencialmente retrô. Assim seguia o verão improvisado mesmo ao fim de abril, completamente fora de época. E fazia minha dedicação e preparação rumo ao sábado de acontecimentos. Sábado estando a acontecer. Com tecer. Conte ser.
25/04/2018
SZ
o S brigou com o Z
cozer os dois
primeiro o Z, depois o S
Z S - esquece
primeiro o S, depois o Z
SZ - prazer
💗
24/04/2018
gado leiteiro
a fita
a fita métrica
é o bafômetro
do poeta
não tem como
o poeta embriagado
gado leiteiro
de orgasmos silábicos
sim, lábios
assopram
bafômetros
assombram
métricas
antiéticas
com nossos delírios
com nossos deleites
de gado leiteiro
óleos, azeites
olhos, enfeites
não aceites
essa metrificação
petrificação
do coração produtivo
do gado letreiro
a fita métrica
é o bafômetro
do poeta
não tem como
o poeta embriagado
gado leiteiro
de orgasmos silábicos
sim, lábios
assopram
bafômetros
assombram
métricas
antiéticas
com nossos delírios
com nossos deleites
de gado leiteiro
óleos, azeites
olhos, enfeites
não aceites
essa metrificação
petrificação
do coração produtivo
do gado letreiro
a melhor
poesia? não sei se esta, esta que acabamos de dar à luz é a melhor. (leram o texto ordens e desordens deste que agora vos fala na caligrafia muda que as teclas tingem?) mas no momento é a melhor. a melhor na eternidade deste breve momento, compreende?
tipo, nesse momento em que as outras não se apresentaram. ou se atrasaram, ou se arrastaram, ou recusaram o chamado pra voltar à memória. ou ainda não vieram. ainda nem nasceram e vão precisar aguardar mais para concorrer. logo, esta última é a melhor. ora, se é! a melhor deste breve relento...
tipo, nesse momento em que as outras não se apresentaram. ou se atrasaram, ou se arrastaram, ou recusaram o chamado pra voltar à memória. ou ainda não vieram. ainda nem nasceram e vão precisar aguardar mais para concorrer. logo, esta última é a melhor. ora, se é! a melhor deste breve relento...
oi, posso?
entre o mato e o mar grosso
há tantos troços
e outros tantos
destroços
facas
copos
baratas e
ossos
águas
minerais
e poços
esgoto
enxadas
fossas
e fossos
há tantos gostos
e outros tantos
desgostos
música
funk
harpas e
bossa
cores
vermelho
anil
verde e
rosa
calor
frio
febril e
coça
há tantos julhos
e outros tantos
agostos
tempo que passa
e vem setembro
e vem e vem
e já não lembro
dos postos
dos restos
do enterro
dos ossos
dos baús
de tesouro
cacimbas e
poços
é crosta
terrestre
rente
entre
o de repente
e o rupestre
entre oceânico
e agreste
há tantos troços
e tantos testes
será
ai de mim
que me preste
que me apresse
a perguntar
um momento
que viesse
a chegar
sermos nós
ermos a sós
um desses
testes
troços
sets
tracks
nosso
oi, posso?
há tantos troços
e outros tantos
destroços
facas
copos
baratas e
ossos
águas
minerais
e poços
esgoto
enxadas
fossas
e fossos
há tantos gostos
e outros tantos
desgostos
música
funk
harpas e
bossa
cores
vermelho
anil
verde e
rosa
calor
frio
febril e
coça
há tantos julhos
e outros tantos
agostos
tempo que passa
e vem setembro
e vem e vem
e já não lembro
dos postos
dos restos
do enterro
dos ossos
dos baús
de tesouro
cacimbas e
poços
é crosta
terrestre
rente
entre
o de repente
e o rupestre
entre oceânico
e agreste
há tantos troços
e tantos testes
será
ai de mim
que me preste
que me apresse
a perguntar
um momento
que viesse
a chegar
sermos nós
ermos a sós
um desses
testes
troços
sets
tracks
nosso
oi, posso?
Sobre Importâncias - Manoel de Barros
Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja que
pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais
importante do que o sol inteiro no corpo do mar.
Falou mais: que a importância de uma coisa não se
mede com fita métrica nem com balanças nem com
barômetros etc. Que a importância de uma coisa há
que ser medida pelo encantamento que a coisa produza
em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança
é mais importante para ela do que a Cordilheira dos
Andes. Que um osso é mais importante para
o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente
de macaco da era terciária é mais importante para os
arqueólogos do que a Torre Eiffel. (Veja que só um
dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre
e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é
mais importante para ela do que o Empire State Building.
Que o cu de uma formiga é mais importante
para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar
medir o ânus da formiga. Que o canto das águas e das
rãs nas pedras é mais importante para os músicos do
que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um
desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não
sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é
defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame
mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar
que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida
com as moscas do que com homens doutos.
Manoel de Barros
23/04/2018
22/04/2018
ordens e desordens
Uma situação que eu considero deveras injusta é a com os primeiros apresentados. A memória humana nos prepara para gostar mais dos que vêm por último, ignorando os ímpetos iniciais. Está confuso por enquanto, certo? Vamos exemplificar e ver se refletem e concordam.
Numa entrevista de emprego, é bem possível que se o jurado, o empregador não preencher corretamente as tabelas, as planilhas, dos pontos fortes dos candidatos, os últimos pareçam melhores, porque terão a palavra final a seu favor. É preciso reunir bem os dados e avaliar e reavaliar, talvez invertendo a ordem nas revisões. Os primeiros podem ser esquecidos.
Num desfile de escolas de samba, não raramente o sorteio coloca as que subiram da divisão de acesso para iniciarem. As que fecham as apresentações são afirmadas como as melhores. Um pouco da ordem dos shows, que possuem bandas de abertura e encerram os festivais com as mais aguardadas. Nesses casos, o princípio de conceder o lugar de destaque aos mais relevantes até se entende melhor. Em programas jornalísticos ou de entretenimento, colocam a notícia ou o quadro mais aguardado ao final, retendo os índices de audiência. Não podemos deixar que isso se aplique injustamente em outras ocupações da vida.
Atualmente, nossa gata em casa é a Melissa. Minha mãe teve vários gatos ao longo de sua sexagenária vida. Eu não tive as mesmas experiências e estou começando somente agora. Afirmo para ela, em tom de brincadeira, que Mel é a melhor que ela já teve. O que não posso avaliar como verdade ou não, pois não conheci os demais felinos dela. Ela balança e quase cede, com exceção à lembrança de sua infância, o Chiminho. Seja lá como escreveriam. Mas realmente ela anda bem afeiçoada à atual, o que pode levá-la a ceder em concordância com essa broma. Estou sendo injusto com os enterrados gatos passados?
A preservação da história é sim uma preocupação minha. Acabo de recordar música como a do Titãs em que Paulo Miklos canta que não se lembra quem ele era antes de você. O peso sobreposto do presente afeta, esmaga partículas do passado, postas em esquecimento. Certamente. Muitas filosofias inclusive advertem para a vivência máxima desse tempo. Embora concorde com a importância, não gosto de ser injusto com o passado. Ele tem toda a sua validade pela sucessão de acontecimentos que nos levam a compor o presente. As lembranças, desde que não nos sufoquem, não nos esganem e não nos apreendam de modo negativo nos passos a seguir, são válidas. Difícil manter essa balança, esse equilíbrio em funcionamento, de acordo?
É comum as pessoas saírem de um relacionamento e esculhambarem com a parceria anterior. Apontam muitos pontos negativos, se questionam como passaram tanto tempo a gostar da pessoa X ou Y. É difícil para elas enxergarem novamente o momento que agora já é passado. É difícil enxergarem sem a inocência do que causou o rompimento, sejam hábitos ruins do parceiro antigo, sejam escorregões fortes, como traição, por exemplo. A memória a respeito fica permanentemente afetada. Não há mais como voltar atrás.
Voltando às entrevistas de emprego, se um candidato prepara uma apresentação ou tem um currículo de tal forma, se outro candidato posterior o supera, parece que o primeiro nessa ordem está fadado ao fracasso. Fica um sentimento de "como ele não havia pensado nisso?" ou "como não se especializou nisso anteriormente?" e assim o posterior apresenta grande vantagem, tanto na escada valorizada quanto na ordem cronológica posta aqui em questão.
Em relação aos debates políticos, quem dá a última resposta, geralmente a tréplica no assunto, sai por cima como organizador do pensamento por último. Expõe melhor suas ideias, pode se sobressair, se sobrepor ao oponente e garantir seu posto de dono da temática. Não há mais réplicas na sequência, ou seja, treplicar é a grande chance de encerrar com chave de ouro. Debates consumados no campo do desenvolvimento das ideias, mas, ao mesmo tempo, dependentes do fator tempo, que, a uma hora ou outra, encerra a discussão sobre alpha ou beta.
Outros exemplos podem ser aplicados de diversas formas. Preferir uma viagem posterior à outra que fez num passado mais distante. Achar um relacionamento atual melhor do que o anterior. Uma rede social melhor do que a outra. Um animal de estimação melhor do que o passado. Pode ser também que a pessoa tenha evoluído e domado melhor seus cuidados para planejar melhor a viagem, para se relacionar melhor com a outra pessoa, para usar melhor a rede social ou para cuidar e aproveitar melhor seu pet. Mas são hipóteses.
Em contraponto, maiores saudosistas podem esquecer os pontos negativos da viagem antiga e sentir exclusivamente saudade. Como sente exclusivamente mais saudade da escola. Ou sente maior saudade de um amigo que nem conseguia ou conseguiria mais se dar bem, carregar papos maiores do que um breve cumprimento, por exemplo. Sentiriam a ausência do finado Orkut ou do bichinho que esteve consigo aos mais de 10 anos de existência do peludo. São perspectivas e é sempre difícil avaliar com um grau mais justo as passagens do passado ou do atual momento. Ó, bom aos que conseguem planejar e criar expectativas positivas e melhores ao futuro.
Acabei de ler o conto de Mário de Andrade e seria esse o melhor simplesmente porque agora o li e está fresco na memória, vívido e aplicável? Estou sendo injusto com os demais contistas passados nessa leitura composta por diferentes expoentes da literatura nacional? Se mudasse a ordem da leitura, mudaria eu a minha avaliação de que foi o melhor ou não? Enfim, são dúvidas amplificadas com o uso do "se" e que não teremos a resposta definitiva. Como estamos melhor, na soma de tantas grandezas nas equações, entre passado, presente e projétil do incerto futuro?
Numa entrevista de emprego, é bem possível que se o jurado, o empregador não preencher corretamente as tabelas, as planilhas, dos pontos fortes dos candidatos, os últimos pareçam melhores, porque terão a palavra final a seu favor. É preciso reunir bem os dados e avaliar e reavaliar, talvez invertendo a ordem nas revisões. Os primeiros podem ser esquecidos.
Num desfile de escolas de samba, não raramente o sorteio coloca as que subiram da divisão de acesso para iniciarem. As que fecham as apresentações são afirmadas como as melhores. Um pouco da ordem dos shows, que possuem bandas de abertura e encerram os festivais com as mais aguardadas. Nesses casos, o princípio de conceder o lugar de destaque aos mais relevantes até se entende melhor. Em programas jornalísticos ou de entretenimento, colocam a notícia ou o quadro mais aguardado ao final, retendo os índices de audiência. Não podemos deixar que isso se aplique injustamente em outras ocupações da vida.
Atualmente, nossa gata em casa é a Melissa. Minha mãe teve vários gatos ao longo de sua sexagenária vida. Eu não tive as mesmas experiências e estou começando somente agora. Afirmo para ela, em tom de brincadeira, que Mel é a melhor que ela já teve. O que não posso avaliar como verdade ou não, pois não conheci os demais felinos dela. Ela balança e quase cede, com exceção à lembrança de sua infância, o Chiminho. Seja lá como escreveriam. Mas realmente ela anda bem afeiçoada à atual, o que pode levá-la a ceder em concordância com essa broma. Estou sendo injusto com os enterrados gatos passados?
A preservação da história é sim uma preocupação minha. Acabo de recordar música como a do Titãs em que Paulo Miklos canta que não se lembra quem ele era antes de você. O peso sobreposto do presente afeta, esmaga partículas do passado, postas em esquecimento. Certamente. Muitas filosofias inclusive advertem para a vivência máxima desse tempo. Embora concorde com a importância, não gosto de ser injusto com o passado. Ele tem toda a sua validade pela sucessão de acontecimentos que nos levam a compor o presente. As lembranças, desde que não nos sufoquem, não nos esganem e não nos apreendam de modo negativo nos passos a seguir, são válidas. Difícil manter essa balança, esse equilíbrio em funcionamento, de acordo?
É comum as pessoas saírem de um relacionamento e esculhambarem com a parceria anterior. Apontam muitos pontos negativos, se questionam como passaram tanto tempo a gostar da pessoa X ou Y. É difícil para elas enxergarem novamente o momento que agora já é passado. É difícil enxergarem sem a inocência do que causou o rompimento, sejam hábitos ruins do parceiro antigo, sejam escorregões fortes, como traição, por exemplo. A memória a respeito fica permanentemente afetada. Não há mais como voltar atrás.
Voltando às entrevistas de emprego, se um candidato prepara uma apresentação ou tem um currículo de tal forma, se outro candidato posterior o supera, parece que o primeiro nessa ordem está fadado ao fracasso. Fica um sentimento de "como ele não havia pensado nisso?" ou "como não se especializou nisso anteriormente?" e assim o posterior apresenta grande vantagem, tanto na escada valorizada quanto na ordem cronológica posta aqui em questão.
Em relação aos debates políticos, quem dá a última resposta, geralmente a tréplica no assunto, sai por cima como organizador do pensamento por último. Expõe melhor suas ideias, pode se sobressair, se sobrepor ao oponente e garantir seu posto de dono da temática. Não há mais réplicas na sequência, ou seja, treplicar é a grande chance de encerrar com chave de ouro. Debates consumados no campo do desenvolvimento das ideias, mas, ao mesmo tempo, dependentes do fator tempo, que, a uma hora ou outra, encerra a discussão sobre alpha ou beta.
Outros exemplos podem ser aplicados de diversas formas. Preferir uma viagem posterior à outra que fez num passado mais distante. Achar um relacionamento atual melhor do que o anterior. Uma rede social melhor do que a outra. Um animal de estimação melhor do que o passado. Pode ser também que a pessoa tenha evoluído e domado melhor seus cuidados para planejar melhor a viagem, para se relacionar melhor com a outra pessoa, para usar melhor a rede social ou para cuidar e aproveitar melhor seu pet. Mas são hipóteses.
Em contraponto, maiores saudosistas podem esquecer os pontos negativos da viagem antiga e sentir exclusivamente saudade. Como sente exclusivamente mais saudade da escola. Ou sente maior saudade de um amigo que nem conseguia ou conseguiria mais se dar bem, carregar papos maiores do que um breve cumprimento, por exemplo. Sentiriam a ausência do finado Orkut ou do bichinho que esteve consigo aos mais de 10 anos de existência do peludo. São perspectivas e é sempre difícil avaliar com um grau mais justo as passagens do passado ou do atual momento. Ó, bom aos que conseguem planejar e criar expectativas positivas e melhores ao futuro.
Acabei de ler o conto de Mário de Andrade e seria esse o melhor simplesmente porque agora o li e está fresco na memória, vívido e aplicável? Estou sendo injusto com os demais contistas passados nessa leitura composta por diferentes expoentes da literatura nacional? Se mudasse a ordem da leitura, mudaria eu a minha avaliação de que foi o melhor ou não? Enfim, são dúvidas amplificadas com o uso do "se" e que não teremos a resposta definitiva. Como estamos melhor, na soma de tantas grandezas nas equações, entre passado, presente e projétil do incerto futuro?
20/04/2018
salas
Era um cenário completamente diferente. Um prédio enorme, do tamanho de um quarteirão. Interno em dois ou três andares. Salas, salas e mais salas. Escadas de uns 20 em 20 metros. Subir ou descer. Saguão, corredores com trânsito. Era a escola técnica federal. Estava de volta a ela.
Numa sala do segundo andar, me reúno com meus colegas Looney Tunes, questionados sobre perguntas sobre História. Ninguém presta muita atenção na aula e um encapuzado, que descubro ser eu, responde uma errada de gozação. Após um rápido giro por outros participantes, ele (eu) ganha(o) nova chance de responder. Novamente tenta, agora um pouco mais sério. O professor informa que, se errasse, seria retirado da sala para uma detenção. Dá-se um suspense se a resposta foi correta. E, na cena seguinte, já estou de pé, acompanhado pelo professor que praticamente me puxa e carrega pelo colarinho da camisa. Levo minha mochila e um dos braços, saio da sala e sou encaminhado por superiores para a sala dos pequenos infratores.
O prédio tem amplo movimento e a sala da detenção tem um determinado público, quase ou até tão grande quanto a minha sala de aula anterior. As carteiras, a disposição das mesas não dá muito espaço entre um sujeito e outro. Entro e me acomodo. Apesar de tratar-se de pequenos infratores, não parecem exaltados ou dispostos a mais algazarras, apenas agem naturalmente, como uma sala como outra qualquer. A professora começa a falar sobre a atualidade do futebol. Percebo que estamos no ano de 2007. Ciente de que vim do futuro, me arrisco a brincar de profeta.
Lamento os percorridos anos de jejum pelo Grêmio. Uma tristeza chega a me invadir, mas sei que em 2016, em 2017, tudo está para melhor e esse período há de ter passado. Quase me belisco para garantir que passou mesmo. Mas, em 2007, ao questionar quem seria o campeão brasileiro, quem os alunos acham que seria, eu respondo, ao recordar, que o São Paulo é o campeão.
Ao meu lado, um corintiano fica brabo, me encara e parece querer ampliar suas infrações, dessa vez contra minha integridade física. Já outros levantam o braço quando pergunto se há são-paulinos no recinto. Esses vão ter um bom 2007. A bem da verdade, 2007 foi um dos melhores anos de minha vida. O Grêmio ia bem mesmo dentro da seca e o período escolar foi satisfatório, ouvindo piadas em rádio e recontando aos colegas como se fossem minhas ou eles não sabendo qual a fonte que eu bebia. Eu ia embora tarde na escola e tinha tempo para distribuir essas bobajadas.
Na escola técnica, soa um alarme de intervalo. Eu havia distribuído mais algumas verdades referentes aos acontecimentos de 2007, num sentimento máximo, supremo, sultão de conhecedor vindo do futuro. Chego a me anunciar como futurista, sabendo de tudo que está para acontecer a esses meros atrasados no tempo. Uma sensação que me fez experimentar uma retrospectiva do que propus e fiz na década anterior. Realmente é pouco, mas, durante o presente, muitas vezes é o que cabe ao orçamento, ao espaço de tempos e oportunidades e joga-se com isso, lamentando-se ou não mais tarde. Lamenta-se mais o que não é feito, isto é fato.
Pelos corredores, transito como um fantasma, sem ser reconhecido e ao mesmo tempo conhecendo aqueles setores. É muito semelhante ao prédio da escola técnica onde habitei um ano, mas mais tardiamente do que 2007, pelos meados de 2010. Os corredores, as conversas de jovens em pequenos grupos, alguns aproveitando o intervalo para comer e outros para papear. Estou solitário, subo e desço escadas, algumas inimagináveis, como se Alice tivesse desembocado ali um pedaço do país das maravilhas. Escadas caracóis, degraus circulares ou que exigem saltos quase acrobáticos, mas tudo enfrento, mesmo me arrastando de vontade e com a mente a trabalhar mais do que o corpo. Enfim, uma coordenadora, uma organizadora do corredor com aspecto disso mesmo, grita que está soando o oitavo sinal, ou seja, o da volta do intervalo. Calculo eu que cada sinal deva ser somado desde o da entrada no turno. O da ida ao intervalo seria então o sétimo e o do regresso, respectivamente, o oitavo.
Volto à aula, ou voltaria, se eu soubesse onde é minha sala. Não sei se pego minhas coisas na detenção e regresso para outra atividade na sala anterior. Por ora, encontro minha sala de início, onde respondi erradamente às perguntas da História, mas aí desencontro de memória a sala da detenção, onde deixei objetos. Depois, parece-me que atinjo o objetivo de encontrar a sala da detenção, mas deixo escapar a antiga e próxima sala de aula. Um enigma impressionante e desafiador.
Encontro uma antiga fantasmagórica figura. Ela mais real do que eu. Caminham ela e sua prima, prima da qual realmente fui colega naquela suposta instituição. Prima que não me interessava, interessava era ela. E caminho envergonhado, sem saber se estou sendo notado. Sem saber se estou sequer sendo visto e desejando talvez não estar, talvez estar. Estar confuso, pelo mínimo, eu estava.
Encontro a suposta sala de prosseguimento das atividades, estando a sala ao lado da ligação com uma bela escada com detalhes em mármore em concretada em degraus com alternância de pisos pretos e brancos, uma pitoresca introdução arquitetônica. Fico parado como se fosse um porteiro a tentar reconhecer mais pessoas e a indicar que se tratava dali mesmo a sala em questão.
Reconheço Estevan e Wagner. Esses eu fui conhecer na faculdade, o que faziam ali? Se bem que ainda na detenção, Bruno Ladeira aparecia como a um anjo de presença exclusiva a me aconselhar se eu deveria parar ou seguir as narrativas que os atrasados do ano 2007 ainda desconheciam. Ainda vagueio mais um pouco por ali. Vi ao Pedro que me pergunta o que estou fazendo com somente um tênis nos pés e quando me dou por conta que no outro estou só de meia, respondo que minhas coisas ficaram em uma sala que não sei identificar.
Assim, sem saber identificar as duas salas ao mesmo tempo e ao mesmo tempo sem saber o que tudo aquilo significava, fiz minha volta ao ensino técnico sul rio-grandense.
Numa sala do segundo andar, me reúno com meus colegas Looney Tunes, questionados sobre perguntas sobre História. Ninguém presta muita atenção na aula e um encapuzado, que descubro ser eu, responde uma errada de gozação. Após um rápido giro por outros participantes, ele (eu) ganha(o) nova chance de responder. Novamente tenta, agora um pouco mais sério. O professor informa que, se errasse, seria retirado da sala para uma detenção. Dá-se um suspense se a resposta foi correta. E, na cena seguinte, já estou de pé, acompanhado pelo professor que praticamente me puxa e carrega pelo colarinho da camisa. Levo minha mochila e um dos braços, saio da sala e sou encaminhado por superiores para a sala dos pequenos infratores.
O prédio tem amplo movimento e a sala da detenção tem um determinado público, quase ou até tão grande quanto a minha sala de aula anterior. As carteiras, a disposição das mesas não dá muito espaço entre um sujeito e outro. Entro e me acomodo. Apesar de tratar-se de pequenos infratores, não parecem exaltados ou dispostos a mais algazarras, apenas agem naturalmente, como uma sala como outra qualquer. A professora começa a falar sobre a atualidade do futebol. Percebo que estamos no ano de 2007. Ciente de que vim do futuro, me arrisco a brincar de profeta.
Lamento os percorridos anos de jejum pelo Grêmio. Uma tristeza chega a me invadir, mas sei que em 2016, em 2017, tudo está para melhor e esse período há de ter passado. Quase me belisco para garantir que passou mesmo. Mas, em 2007, ao questionar quem seria o campeão brasileiro, quem os alunos acham que seria, eu respondo, ao recordar, que o São Paulo é o campeão.
Ao meu lado, um corintiano fica brabo, me encara e parece querer ampliar suas infrações, dessa vez contra minha integridade física. Já outros levantam o braço quando pergunto se há são-paulinos no recinto. Esses vão ter um bom 2007. A bem da verdade, 2007 foi um dos melhores anos de minha vida. O Grêmio ia bem mesmo dentro da seca e o período escolar foi satisfatório, ouvindo piadas em rádio e recontando aos colegas como se fossem minhas ou eles não sabendo qual a fonte que eu bebia. Eu ia embora tarde na escola e tinha tempo para distribuir essas bobajadas.
Na escola técnica, soa um alarme de intervalo. Eu havia distribuído mais algumas verdades referentes aos acontecimentos de 2007, num sentimento máximo, supremo, sultão de conhecedor vindo do futuro. Chego a me anunciar como futurista, sabendo de tudo que está para acontecer a esses meros atrasados no tempo. Uma sensação que me fez experimentar uma retrospectiva do que propus e fiz na década anterior. Realmente é pouco, mas, durante o presente, muitas vezes é o que cabe ao orçamento, ao espaço de tempos e oportunidades e joga-se com isso, lamentando-se ou não mais tarde. Lamenta-se mais o que não é feito, isto é fato.
Pelos corredores, transito como um fantasma, sem ser reconhecido e ao mesmo tempo conhecendo aqueles setores. É muito semelhante ao prédio da escola técnica onde habitei um ano, mas mais tardiamente do que 2007, pelos meados de 2010. Os corredores, as conversas de jovens em pequenos grupos, alguns aproveitando o intervalo para comer e outros para papear. Estou solitário, subo e desço escadas, algumas inimagináveis, como se Alice tivesse desembocado ali um pedaço do país das maravilhas. Escadas caracóis, degraus circulares ou que exigem saltos quase acrobáticos, mas tudo enfrento, mesmo me arrastando de vontade e com a mente a trabalhar mais do que o corpo. Enfim, uma coordenadora, uma organizadora do corredor com aspecto disso mesmo, grita que está soando o oitavo sinal, ou seja, o da volta do intervalo. Calculo eu que cada sinal deva ser somado desde o da entrada no turno. O da ida ao intervalo seria então o sétimo e o do regresso, respectivamente, o oitavo.
Volto à aula, ou voltaria, se eu soubesse onde é minha sala. Não sei se pego minhas coisas na detenção e regresso para outra atividade na sala anterior. Por ora, encontro minha sala de início, onde respondi erradamente às perguntas da História, mas aí desencontro de memória a sala da detenção, onde deixei objetos. Depois, parece-me que atinjo o objetivo de encontrar a sala da detenção, mas deixo escapar a antiga e próxima sala de aula. Um enigma impressionante e desafiador.
Encontro uma antiga fantasmagórica figura. Ela mais real do que eu. Caminham ela e sua prima, prima da qual realmente fui colega naquela suposta instituição. Prima que não me interessava, interessava era ela. E caminho envergonhado, sem saber se estou sendo notado. Sem saber se estou sequer sendo visto e desejando talvez não estar, talvez estar. Estar confuso, pelo mínimo, eu estava.
Encontro a suposta sala de prosseguimento das atividades, estando a sala ao lado da ligação com uma bela escada com detalhes em mármore em concretada em degraus com alternância de pisos pretos e brancos, uma pitoresca introdução arquitetônica. Fico parado como se fosse um porteiro a tentar reconhecer mais pessoas e a indicar que se tratava dali mesmo a sala em questão.
Reconheço Estevan e Wagner. Esses eu fui conhecer na faculdade, o que faziam ali? Se bem que ainda na detenção, Bruno Ladeira aparecia como a um anjo de presença exclusiva a me aconselhar se eu deveria parar ou seguir as narrativas que os atrasados do ano 2007 ainda desconheciam. Ainda vagueio mais um pouco por ali. Vi ao Pedro que me pergunta o que estou fazendo com somente um tênis nos pés e quando me dou por conta que no outro estou só de meia, respondo que minhas coisas ficaram em uma sala que não sei identificar.
Assim, sem saber identificar as duas salas ao mesmo tempo e ao mesmo tempo sem saber o que tudo aquilo significava, fiz minha volta ao ensino técnico sul rio-grandense.
19/04/2018
18/04/2018
Justas causas
Muito me incomoda opiniões divididas e multiplicadas aos montes de que homens com apoio a movimentos feministas apenas participam ou buscam bocadas de segunda intenção, de outro interesse. Concordo que os homens não devem tomar o protagonismo desses movimentos, principalmente ao respeito ao lugar de fala, mas evitar que participem de forma mais à margem, é um declínio, um desperdício ideológico e de luta. É fazer o movimento, que tenderia a ganhar força, perdê-la. É, mais uma vez, excluir mais do que incluir, um dos problemas centrais das contemporaneidades.
Enquanto homem, manifesto apoio a movimentos feministas, movimentos por igualdades salariais, contra assédios em locais de trabalho, pela inclusão das mulheres em diferentes setores: esportivo, engenheiro, medicinal, político, etc. É um processo que me parte interno, de minhas inquietações e buscas de reduções das desigualdades. Nada a ver com agradar X ou Y. Nada a ver com buscar segundas intenções com participantes ou protagonistas do mesmo movimento.
Ao mesmo tempo, defendo e posicionaria minhas bandeiras sempre em favor de outras consideradas minorias sociais. Por exemplo, os movimentos negros, como sofrem os brasileiros vítimas de preconceito, nas dificuldades trabalhistas, no preconceito com pobres, nos desrespeito de seus direitos garantidos constitucionalmente. Por exemplo, idem aos movimentos LGBT. E que segundo interesse teria eu para com esses movimentos? A menos que insinuem coisas. E insinuar é um verbo de muita aplicação na atualidade. Insinua-se em leituras rasas ou em propostas solucionais pouco densas e/ou apressadas. Lamento.
Meu trabalho na consistência de apoiar e registrar cada passeata, manifestação ou protesto próximo a mim. Incentivar que mais mulheres e mais negros participem desses movimentos. Mais trabalhadores e trabalhadoras por seus direitos. Que não se curvem à opressão, ao arrocho salarial seja de onde for. Este é meu trabalho. Conscientizar através de frases, discursos, do repasse de informações e de opiniões que servem para construção de um mundo mais justo e igualitário diante dos mais diversos sofrimentos humanos.
Enfim, friso que minhas lutas e as bandeiras que ergo partem de meus princípios, da educação que recebi e das minhas constatações pelas visões de mundo, pelo lugar de fala, pela exploração de ambiente e novas condições sociais e culturais observadas. Não estou aqui, nessas e em outras linhas dessa passagem mundana, no objetivo final de agradar simplesmente por agradar. De acometer atos com segundas intenções nesses tipos de objetivos. Acredito fervorosamente que grupos considerados minorias sociais, sejam mulheres, negros ou LGBT sofreram ao longo de séculos, das proibições e reduções de direitos e tudo o que está sendo conquistado por estes grupos nos últimos tempos não pode ser colocado em perda.
Reafirmo minha tristeza cada vez que ouço e leio opiniões de que todo homem hétero apoia movimentos pelas mulheres com segundas intenções. Meus princípios internos, do que considero justo, do que considero correto às pessoas, transpassam essa lógica que pode servir a outros. A mim, acredito que não.
Enquanto homem, manifesto apoio a movimentos feministas, movimentos por igualdades salariais, contra assédios em locais de trabalho, pela inclusão das mulheres em diferentes setores: esportivo, engenheiro, medicinal, político, etc. É um processo que me parte interno, de minhas inquietações e buscas de reduções das desigualdades. Nada a ver com agradar X ou Y. Nada a ver com buscar segundas intenções com participantes ou protagonistas do mesmo movimento.
Ao mesmo tempo, defendo e posicionaria minhas bandeiras sempre em favor de outras consideradas minorias sociais. Por exemplo, os movimentos negros, como sofrem os brasileiros vítimas de preconceito, nas dificuldades trabalhistas, no preconceito com pobres, nos desrespeito de seus direitos garantidos constitucionalmente. Por exemplo, idem aos movimentos LGBT. E que segundo interesse teria eu para com esses movimentos? A menos que insinuem coisas. E insinuar é um verbo de muita aplicação na atualidade. Insinua-se em leituras rasas ou em propostas solucionais pouco densas e/ou apressadas. Lamento.
Meu trabalho na consistência de apoiar e registrar cada passeata, manifestação ou protesto próximo a mim. Incentivar que mais mulheres e mais negros participem desses movimentos. Mais trabalhadores e trabalhadoras por seus direitos. Que não se curvem à opressão, ao arrocho salarial seja de onde for. Este é meu trabalho. Conscientizar através de frases, discursos, do repasse de informações e de opiniões que servem para construção de um mundo mais justo e igualitário diante dos mais diversos sofrimentos humanos.
Enfim, friso que minhas lutas e as bandeiras que ergo partem de meus princípios, da educação que recebi e das minhas constatações pelas visões de mundo, pelo lugar de fala, pela exploração de ambiente e novas condições sociais e culturais observadas. Não estou aqui, nessas e em outras linhas dessa passagem mundana, no objetivo final de agradar simplesmente por agradar. De acometer atos com segundas intenções nesses tipos de objetivos. Acredito fervorosamente que grupos considerados minorias sociais, sejam mulheres, negros ou LGBT sofreram ao longo de séculos, das proibições e reduções de direitos e tudo o que está sendo conquistado por estes grupos nos últimos tempos não pode ser colocado em perda.
Reafirmo minha tristeza cada vez que ouço e leio opiniões de que todo homem hétero apoia movimentos pelas mulheres com segundas intenções. Meus princípios internos, do que considero justo, do que considero correto às pessoas, transpassam essa lógica que pode servir a outros. A mim, acredito que não.
PPP
Estão privatizando a cidade
Estão privatizando o estado
Estão privatizando o país
Estou privatizando a minha vida também, quem quiser assumir, vou terceirizar.
Cansado dela. Se ninguém lidar com essa empresa, de muitos gastos e poucos retornos, a gente bate o martelo e extingue.
Estão privatizando o estado
Estão privatizando o país
Estou privatizando a minha vida também, quem quiser assumir, vou terceirizar.
Cansado dela. Se ninguém lidar com essa empresa, de muitos gastos e poucos retornos, a gente bate o martelo e extingue.
esmigalhas
todas as certezas estão por um triz
todo o mundo é um quadro
apagador e giz
todo o giz é cor
olha o quadro que fiz
miss e cronômetro
todo o céu de aves: condor e perdiz
tudo que perdi com dor
todo giz esmigalha
toda a muralha tem falha
toda a malha abis-mo
todo o mundo é um quadro
apagador e giz
todo o giz é cor
olha o quadro que fiz
miss e cronômetro
todo o céu de aves: condor e perdiz
tudo que perdi com dor
todo giz esmigalha
toda a muralha tem falha
toda a malha abis-mo
nunca
nunca tive barba onde gostarias
nunca tive barco onde gostarias
nunca assinei tuas tordesilhas
nunca assimilei como seria
nunca tive barco em tuas ilhas
nunca tive ilhas onde tu sereias
nunca tive naco em tuas ilhas
nunca tive filhas que de ti seriam
nunca tive barco onde gostarias
nunca assinei tuas tordesilhas
nunca assimilei como seria
nunca tive barco em tuas ilhas
nunca tive ilhas onde tu sereias
nunca tive naco em tuas ilhas
nunca tive filhas que de ti seriam
16/04/2018
indicadores
tentei agarrar ao chão de meu quarto o que eu pensava ser um lápis na escuridão da madrugada, em que apenas a luminária, que garante minhas leituras de cabeceira, ilumina. ao contato de meu indicador e meu polegar ao solo de madeira, descobri que não era um lápis preto, mas tão somente tratava-se de um brusco arranhão no assoalho e pó em volta. assim é o tempo quando tenta-se agarrá-lo. acaba-se apenas com as partículas de pó nas mãos.
15/04/2018
mortis
deixes de ser bobo
que não é o aniversário
que faz lembrar tuas vitórias
tuas conquistas e melhores memórias
se fosse tão especial
não acontecia todo ano
o que faz lembrar é a morte
com sua faca e seu corte
dilacerando pedacinhos
distribuindo com carinho
ao relento o que tu fostes
que não é o aniversário
que faz lembrar tuas vitórias
tuas conquistas e melhores memórias
se fosse tão especial
não acontecia todo ano
o que faz lembrar é a morte
com sua faca e seu corte
dilacerando pedacinhos
distribuindo com carinho
ao relento o que tu fostes
mortívida
ó, que sorte tens, ó vida
mesmo oprimida e deprimida
te repetes sempre igual
que azar tens, ó morte
aconteces só uma vez
e, se deres muita sorte,
hora do estrelato final
mesmo oprimida e deprimida
te repetes sempre igual
que azar tens, ó morte
aconteces só uma vez
e, se deres muita sorte,
hora do estrelato final
prima vera
prima vera é prima distante
de segundo grau e contatos de terceiro
prima vera é passageira
passa apressada e ligeira
inverno todo delirante
longo inferno a todo instante
todo armado de punhal
não mata de primeira
faz espera traiçoeira
congelar até o final
de segundo grau e contatos de terceiro
prima vera é passageira
passa apressada e ligeira
inverno todo delirante
longo inferno a todo instante
todo armado de punhal
não mata de primeira
faz espera traiçoeira
congelar até o final
vinhos
o vinho tinge de vinho
meus órgãos internos
sua boca tinge de vícios
meus órgãos externos
seu batom atinge o vinho
percorre o caminho, alguns exceto
poucos vetos sob o vinho
secretos caminhos
sob o teto
meus órgãos internos
sua boca tinge de vícios
meus órgãos externos
seu batom atinge o vinho
percorre o caminho, alguns exceto
poucos vetos sob o vinho
secretos caminhos
sob o teto
12/04/2018
sombra de dilúvios
fui até onde deu
aguentei até onde fui
ondei por onde andei
andei por onde ondas
nada-se em ondas
andamos eu e minha sombra
sem ou com sombra de dúvida
eu e minha sombra
peso sobre ombros
peso sobre as costas
peso sobre as ondas
e a sombra
apenas acompanha
e nada carrega
o peso é todo meu
nessa regra
aguentei até onde fui
ondei por onde andei
andei por onde ondas
nada-se em ondas
andamos eu e minha sombra
sem ou com sombra de dúvida
eu e minha sombra
peso sobre ombros
peso sobre as costas
peso sobre as ondas
e a sombra
apenas acompanha
e nada carrega
o peso é todo meu
nessa regra
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