e nesse mundo, esse nosso mesmo, estamos no mesmo barco e eu encontro ainda que com a resistência do tamanho e da idade, o colo de minha mãe, uma mentora que todavia me escuta. e posso falá-la e posso dizê-la, que não sei o quanto aguento nesse mundo, esse nosso mesmo. aguentar a multiplicação dos desempregos, os filhos e filhas pequenos com fome, as pessoas que batem à nossa porta ou me imploram trocados nas ruas, na entrada dos supermercados ou nos estacionamentos das poucas festas que nos resta fazer. não sei se consigo aguentar essa multiplicação de depressivos, essa desilusão em tudo em volta. a desilusão na mínima confiança ao próximo. ao próximo passo, ao próximo gesto, à próxima pessoa. reflito com ela, vitória régia de meu brejo, anjo de harpa em mãos e cabelos esbranquiçando. digo, mãe, que não sei o quanto aguento nessa subida de preços, nessa subida de grades, cercas e alarmes em nossos endereços. nessa subida de propagandas das mais falsas, picaretas e dizimadoras, propagandas contrárias ao que pregamos e acreditamos.
não sei mais quanto aguento nesse exercício de prender a respiração na manobra que antecede ao mergulho, prática de que nunca fui muito bom em ser duradouro. prender a respiração e procurar refúgio do mundo externo ao estar interno. e não encontrar a paz e tentar um conforto numa atividade externa e retornar e ficar no giro desse moinho que sufoca em águas. prenda-se, prenda-se, prenda-se. mergulhos nas águas das mais turvas e mais obrigatórias e mais uma sessão que se aproxima nessa roda giratória.
e tenho teu cloro e tenho meus braços para agarrar-me o quanto posso. e tenho cloro nos olhos e água nos pulmões. e mais sessões e sessões e sessões. à deriva, a naufrágios. o desejo da ignorância aos males que nos atingem externos e internos e que são incessantes, atormentantes e atuantes. sentinelas carrascos e garantidores do mecanismo. do moinho que joga-se em seu movimento e novamente afoga. e na tua mão me afago e no moinho afoga-me. e na tua mão afago-me e no moinho me afoga. e na tua mão me afago e no moinho...
01/05/2018
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