19/09/2021

implacável sono após almoço

O implacável sono após o almoço documentava seu corpo e o mantinha no mais absoluto estado de inércia, em posição curiosa sobre o sofá. Os raios de sol entravam azulados naquele interior de sala, levemente modificados pela fina cortina de tecido que deixava uma fresta para a confirmação do céu aberto para fora da janela. Para dentro do parco espaço do apartamento as simulações de azul. Pelo lado de fora, a cor em definitivo, em seu estado mais completo. Alguns gatos miavam por telhados vizinhos em uma sinfonia desafinada e despropositada na cabeça dele, mas que, para os executores, algum sentido havia de ter.

A sonolência após o almoço desenha imagens estranhas, turvas, dessincronizadas na mente. Chega a embaçar-se de planos tão confusos, chega a embaraçar-se de ideias tão distintas. Possui uma tremenda dificuldade de discernir o que é real. Separar o chamado mundo real e o seu campo de criação inerente a ele. Estava absorvido completamente pela sonolência após o almoço, ao mesmo tempo que nem sequer recordava o que havia comido nessa última refeição. Flutuava como um corpo vago, assumia uma posição acima do chão, acima dos móveis de seu apartamento. Era ele uma figura de contornos amarelados - os mais otimistas diriam brilhante e dourado - e passava por sobre os móveis facilmente desmontáveis, por sobre os eletrodomésticos facilmente inutilizáveis na futura crise hídrica e de eletricidade. Flutuava ao mesmo tempo para dentro de sua própria mente, na tentativa da interpretação de tudo aquilo.

Saiu pela janela, defenestrado, pensou, palavra que nunca foi de lhe apetecer. Achava que defenestrado era algo muito específico e utilizado com uma frequência que requisitava tons, coquetéis de erudição. Mas o que ele estava sendo se não defenestrado de seu próprio apartamento? Flutuava agora sobre os prédios, naquela mistura de fascinação e medo, e receio, e vertigem. A altura lhe causava isso. Talvez já a sentisse, a vertigem, de dentro do apartamento ao sobrevoar os móveis, mas, ao seu corpo transpor para o lado de fora, agora nada o seguraria em uma provável queda livre. Provável, ele julgava, porque era impossível manter-se suspenso no ar sem ajuda de equipamentos, de asas, deltas, sigmas, betas, qual letra grega fosse. E enxergava tudo muito turvo, procurava registrar aquelas visões, mas sabia-se ocultado de total nitidez pela sonolência que lhe acometia após o almoço.

Nem o despertar do medo, da insegurança, da adrenalina disparada mudaria sua incapacidade de arrancar daquilo a melhor experiência. Mas e qual seria essa melhor experiência? Antenado de vez talvez morresse de medo em pleno voo. Ou julgaria tê-lo morrido ali mesmo deitado e estava sendo arrancado desse mundo, em um plano de aviação desgovernado, que o afastaria, afastaria da superfície terrestre gradativamente até que tudo não passasse de um ponto distante e indivisível perante o espaço sideral?

Ele percebeu os prédios muito altos, o arranhadores de céu, um espaço aéreo que não pertencia à sua cidade. Estava em São Paulo. Ou algo que o valha. Mas o que valeria em correspondência a São Paulo? O espaço ele decifrava como plano, não poderia ser um Rio de Janeiro e, se não fosse o Rio de Janeiro, nem a esverdeante Belo Horizonte, nem a confusa Salvador, nem a litorânea Fortaleza, nenhuma outra cidade poderia ser aquela. Campinas ele não conhecia, mas julgava, pelo crescimento acelerado de últimos anos, que ela não poderia dispor daquelas estruturas. Era São Paulo, então. Maior cidade da América Latina em que ele aceitava perder um possível amor, ao menos em sua própria cabeça. Não estava lúcido demais àquela altura? Não, porque esse possível era tão provável quanto as imaginações que somente a sonolência após o almoço poderiam conferir-lhe.

E seguiu sobrevoando o espaço aéreo paulista sem o mínimo aparato que lhe ajudasse, apenas a mente concentrada, ou perdão, desconcentrada e permitindo essa falta de critérios técnicos. Nenhuma infração estava cometendo, porque as viaturas policiais não voavam. Estava estudando a história mais do que secular de sua cidade no Rio Grande do Sul e percebia como o passado próspero, ao menos para as mãos de poucos, ruiu até para essa classe burguesa. Talvez assim as ditas "elites" se nivelavam mais ao desnível em que ocupavam os pobres, os familiares de ex-escravos, porque essa era a formação populacional do extremo Sul, ao menos em suas fundações. O trabalho escravo, a mão de obra escrava, as construções advindas de escravos. Tudo isso, no fundo, ou por vezes em erupção até o que considerariam raso, tudo isso lhe incomodava. Fazia-lhe subir o sangue, encontrava nele chagas de perguntas e vergonhas pela posição em que ocupava. Se oprimia pelo contexto histórico. E tanto melhor seria se mais gente tivesse essa mesma mão que atuasse sobre a consciência, esse mesmo conhecimento e dele extraísse mais, se mais pessoas praticassem o dia a dia com o objetivo da transformação social.

Sabia que as construções mais antigas, de antes da abolição da escravatura, tudo aquilo possuía mão de obra escrava e, mesmo se porventura não houvesse esse tipo de mão de obra, as construções eram em prol daqueles que possuíam as riquezas, que poderiam usufruir dos mais valorados espaços, que patrocinavam direta ou indiretamente as bárbaries da época. Tudo isso lhe incomodava, em especial a criação polêmica e complexa de sua cidade. Mas agora ele estava por São Paulo, capital paulista que era guinada a um crescimento desenfreado a partir do século anterior. Tentava esquecer os sombrios passados históricos e focar naquele voo, naquele planar de consideração ímpar, naquela oportunidade única em sobrevoar a maior cidade latino-americana.

Pensou em como eram pequenas as pessoas lá abaixo e seus metros quadrados conquistados com um esforço esplendoroso, com a luta, o suor e o sangue do dia a dia, para aqueles sob o conforto do ar condicionado doando horas de trabalho semanal em troca desses eletrodomésticos ou eletrônicos, assinaturas de serviços streaming para relaxar e ver um filme ao final de semana. Ou mesmo para aquelas ocupações de prédios condenados, cujas pessoas estendiam suas roupas e tapetes de improviso, amontoavam-se, procuravam fugir do perigo dos choques de fiações improvisadas ou soltas, das goteiras, do choque entre água e eletricidade, das más fundições, dos perigos até de desabamentos. Essas pessoas cujo um dia de faltar à labuta diária ao nível do solo levaria com que a própria barriga pagasse com a moeda mais cara: a da fome. Todas essas pessoas pareciam para ele distantes lá de cima, mas mantinha uma esperança, um afeto, um martírio, uma complacência, uma piedade em que gostaria de estar ao lado ou massageando o coração ou as chagas de cada um. Uma verdadeira ou falsa benevolência? ele sempre se botara em dúvida. Botara no mais que perfeito e botará em um futuro cada vez mais próximo. Porque esse questionamento em como lidar com toda aquela adversidade, com toda aquela desigualdade social era um ciclo que o corroía por dentro. Lamentava demais, agia de menos, pensava sobre. E se entregasse marmitas? E se rezasse por alguém, e se o conforto da boa palavra? E se negligenciasse a tudo isso, apenas em busca da amada perdida, ou encontrada pelas ruas de São Paulo (por outro)? E se?

O sonho acabou porque houve seu despertador no horário das 13h. Houve ou ouve. Ouve. Almoçava cedo, no curto período de tempo em que ele se embrenhava e ainda conseguia voltar ao apartamento. Estava terminada sua sonolência de almoço. Estava sim, cada vez mais lúcido, mais desperto, mas sabia que necessitava voltar ao trabalho e realizar as tarefas. Deitou de camisa social mesmo, estava com o nó pronto da gravata para não perder tempo. Enxugou o suor da testa, ajeitou o colarinho. Estava suado pelas axilas, mas o complemento do terno ocultaria esse evidente descuido. Não havia tempo para desamassar as vestes castigadas contras as marcas das almofadas do sofá. Havia sempre questões mais graves para resolver. Esqueceu de destravar o despertador do celular e precisou desacionar o dispositivo novamente às 13h15. Estava atrasado. E não só para o expediente daquele dia.

pós dois papas

quando converso sozinho com minha mente me sinto vigiado por Deus. e talvez enlouqueceria de vez se não fosse assim.

carrego algumas culpas mas sei que ele me aceitaria. como um irmão. às vezes me ovaciona e às vezes eu o decepciono.

ninguém consegue provar o que é correto. alguns morrem em busca disso. eu gosto do quê e como acredito. me faz sentir melhor. e transforma-se por vezes em um propósito para tudo isso.

08/09/2021

Leonardo Haag e a denúncia

Leonardo Haag estava deitado, dormindo com seu pijama listrado, que consistia em um conjunto de camisola e calças. Como ele julgava correto, dormia sem meias, mas tinha uma touca também listrada para completar o conjunto em questão. Trabalhador brasileiro, ele era do ramo de entregas, ou motoboy, como não gostava de ser chamado. Só precisaria trabalhar na próxima noite, mas estava determinado a aproveitar a noite de sono naquela sexta-feira.

Ele ouviu o som repetitivo da música eletrônica e olhou para o copo d'água que deixava na mesa de cabeceira. A água vibrava conforme as batidas musicais. Leonardo levantou e esfregou os olhos diante do espelho, com um olhar interrogativo de quem ainda não se reconhecia naquele horário. Calçou suas pantufas para não apanhar frio, vestiu um casaco de tom neutro e foi para seu patiozinho para averiguar o que estava acontecendo nas redondezas.

- Devem ser esses malditos jovens baderneiros - falou consigo próprio. A verdade é que Leonardo ainda era bastante jovem também, mas, homem dedicado ao trabalho desde a adolescência, sentia-se um verdadeiro tiozão, como poderia confirmar a hipótese quando retornava à sua terra natal, Barueri, nos feriados ou fins de ano, para confraternizar com os sobrinhos, filhos de sua irmã. Em poucos dias, Leonardo era capaz de estragá-los com as piadas mais obscenas que possam ser imaginadas. - Eles sempre riem hehe - constatava.

Leonardo sabia que, no meio da pandemia de 2020, uma festa naquelas proporções não era correto. Qualquer reunião de pessoas sem máscara o deixava meio agoniado, destemperado com o sistema. - Se as pessoas não podem ir para nossa lancheria curtir uma bóia, essas festinhas aqui no meu bairro também não! - Exclamava consigo.

O paulista pegou um binóculo e foi para rua, tentar avistar algo da movimentação. Percebeu algum movimento de veículos na rua, uns estacionando, outros possivelmente já indo embora. Primeiro, com suas ideias pré-concebidas, pensou tratar-se dos jovens do lava-jato alguns terrenos adiante de sua moradia. Aqueles gostavam de beber alguma vodka e fazer uso de cigarrilhos. Mas Leonardo lembrou que eles não costumavam promover festas assim, com medo de que o terreno fosse desapossado daquela irregularidade em fachada de lavagem de veículos, como era comum no seu bairro. - Não levo minha moto nesses lugares, eles não entendem de cuidar veículo. - Protestava.

Enfim. Leonardo pensou que o correto, até para o bem de seu sono, era desmontar a movimentação que estava acontecendo. Fechou o seu casaco de tom neutro por sobre o pijama, mas, como o casaco estava curto, as listras do pijama ainda estavam para fora, aparecendo diante de sua cintura. Procurou rapidamente suas calças, tateando por sobre os móveis onde poderia tê-la depositado de qualquer jeito. Finalmente sentiu pelo tato e foi colocando por cima da calça de pijama. Manteve as pantufas, pois, em plena noite, não seriam chamativas na ocasião. Com dificuldade para enxergar diante dos fracos postes de luz do bairro, Haag foi avançando de seu portãozinho até as calçadas, na companhia de uma lanterna, notando haver veículos estacionados dos dois lados da rua. Um ou outro cachorro latia de fundo, para complementar o som musical que vinha da determinada casa vizinha.

Tentando se ocultar pelas sombras, sabe-se lá o porquê, Leonardo andava na ponta dos pés, procurando não chamar a atenção. Queria surpreender os meliantes festeiros. Depois de ter sintonizado sua visão àquela rua escura, ele depositou a lanterna no bolso interno de seu pijama, conferindo um volume difícil de ser explicado. Ele apalpou com a certeza da lanterna estar segura naquele pequeno bolso e soltou uma risadinha.

Chegando ao portão de entrada da casa derradeira, Leonardo respirou fundo, com a testa a produzir gotículas de suor. Era um momento decisivo. Ele notou que o portão estava aberto, na segurança e confiança daqueles infratores, e foi adentrando. A música estava a toda, agora com algum pagode que ele quase cantou junto, mas lembrou-se de sua importante missão. Engoliu em seco e prosseguiu. - A hora é agora, amigão - falou para si mesmo.

Ele chegou no pátio de acesso para a piscina e para a área dos fundos, onde estavam as pessoas, curtindo, a princípio sem notar a presença do intruso. Até que tropeçou em uma pedra e quase foi de nariz ao encontro da calçadinha. O tombo não passou despercebido por um primeiro meliante, que olhou coçando a cabeça, sem entender de quem se tratava. Ele avisou sua companheira, que a princípio não entendeu com o som alto da música, mas, quando cara repetiu, ela se deparou com a cena de Leonardo se levantando, sacodindo a poeira e constatou que também não o conhecia. A fofoca foi se espalhando e as pessoas começavam a olhá-lo. Leonardo manteve a frieza e a cabeça no lugar, se é que podemos falar assim. Ele permaneceu com o foco na missão, olhando um por um daqueles rostos que agora o miravam de volta. Com o dedo indicador para que não perdesse as contas, tentou contabilizar um por um dos meliantes.

19, 20, 21, 22, 23...

- Quem é você? - Ecoou o grito de repente, rompendo com o alto som do Guere Guere... Guere Guere.

- Espere um pouco - Ordenou Leonardo, com a mão espalmada, enquanto a outra terminava o serviço. - 28.

Ele continuou olhando atônito para aquela gama de olhares em volta de si. Novamente respirou fundo, engolindo em seco. Começou a recuar, tomando cuidado dessa vez para não tropeçar de volta na mesma pedra. Quem diabos colocaria uma pedra ali, no caminhozinho para estacionar algum carro? Alguns avançaram para tentar se informar sobre o estranho, querendo saber o que ele queria ali. Mas, sabendo do perigo que corria dali em diante, Leonardo desatou a correr. Um disparo com pantufa e tudo.

Sem perder seus calçados Deus sabe como, Leonardo avançou pelas calçadas da vizinhança, agora já despertando e agitando diversos cachorros prisioneiros das grades de ferro. Ele também conseguiu manobrar perfeitamente a chave em seu fiel portãozinho e foi para dentro de casa, se dando conta da ausência do volume em suas calças: havia perdido a lanterna pelo caminho. - Droga, gostava muito daquela lanterna!

Pelo basculante do banheiro, tomou uma posição de guarda e, subindo em um banquinho de madeira para enxergar melhor, ficou atento, com o binóculo diante da face, cuidando alguma movimentação suspeita, se estavam atrás dele. Só relaxou após longos cinco minutos de tocaia. Antes, ele havia rabiscado uma folha de papel com um dado muito importante: 28.

Ainda ofegante pela aventura de corrida e de esperar por uma alguma emboscada, Leonardo finalmente foi para o telefone registrar sua ocorrência.

- Brigada Militar, boa noite.

- Boa noite, policial. Policial, acabo de ver uma cena aterradora! O senhor não vai acreditar, oficial.

- Sim.

- Estou aqui no bairro ainda pertencente ao centro de Pelotas mais precisamente em direção ao bairro Areal compreende?! Gonçalves Chaves a rua. Nesta rua policial uma coisa terrível policial. Eu estava dormindo. Sou trabalhador brasileiro policial necessitando de gozar do descanso entendeu? Eu estava dormindo e fui despertado e... horrível oficial.

- Sim, diga.

- Eu primeiro ouvi para falar ao bem da verdade policial. Ouvi a música acho que era do DJ Blazy. Não que eu conheça e escute essas coisas aí oficial sou um sujeito até bem decente quando tive imposto para pagar sempre paguei entende? Eu ouvi a música o barulho retumbante o alarido jovem compreende? Entendo os fugores da idade policial. Quem é que não dá uns tiros fora entende?

- ...

- Pois então policial para ir direto ao assunto me desloquei até a casa dos meliantes e tomei todas as precauções possíveis policial. Vocês se orgulhariam do ato de bravura e coragem que desempenhei essa noite policial. Eu fui até a casa dos meliantes trajado em condições dignas para não levantar a bola da suspeita. De forma discreta adentrei o recinto e procurei contabilizar quantas pessoas havia no local policial. No local da festa. Deixe-me ver policial. - Pegou a folha de papel em que havia anotado o número. - 28. 28 é o número exato policial. Desculpe policial desculpe me contradizer. Mas é que estava escuro sabe como é? Estava escuro no local da festa e eu não consegui contar com precisão alguns se beijando podiam estar encobertos e se um estava no banheiro policial? Ou se duas pessoas estavam no banheiro ou até pior entende? Não sei se vem ao caso. E alguns eram muito feios. Não tenho preconceitos assim mas ah se pudesse evitá-los. Contei 28 pessoas policial.

- Você gostaria de denunciar uma aglomeração?

- Sim policial. Sim senhor.

- 15 de Novembro?

- Gonçalves Chaves policial em direção ao Areal policial.

- Gonçalves Chaves...

- Penúltima quadra. Agora estão ouvindo pagode. Quando cheguei lá já estavam no pagode. Ouvi algo do Mc Menor e algo talvez do Dilsinho mas acho que não vem ao caso. Não acho que sejam coisas que pessoas direitas fazem entende? Isso é complicado. Tive meus tempos policial. O pai era bom mesmo. Elas vinham atrás. Eu nem precisava enviar solicitação depois. Elas procuravam. Mas sabe como é pandemia é complicado. Eu tenho evitado. Elas ainda me chamam mas a força de vontade quem tem consegue manter certo policial?

- Certo, certo.

- Agi certo policial? Estou salvando pessoas.

- Muito bem.

- No que precisarem policial. Estou a serviço da lei. Já tive meus problemas com outras coisas. Sonegação até o momento não tive. Hoje ainda trabalho no ramo de entregas então não estou devendo o de renda. Mas tive meus tempos. O pai era bom mesmo. A grana entrava. O barulhinho da caixa registradora. Às vezes ainda sonho com isso. Entrava grana mesmo. A coisa fluía. Eram outros tempos. Mas tudo ok policial?

- Tudo sim. Agradeço, senhor.

- Leonardo policial. Pode me chamar de Leonardo. A serviço da lei. Para o que precisarem. Admiro muito sua profissão. Tentei contato com a academia de superiores mas fui logo dispensado. Uma longa história. Acontece que o Crystopher...

- Obrigado mesmo, senhor. Precisamos liberar a linha. Uma viatura está a caminho.

- Às ordens senhor policial. Se precisarem de plantão policial. Sabe como é, me acostumei a dormir tarde, trabalho no ramo das entregas. Um plantão não cairia mal posso ajudar no que for preciso.

- Tudo bem. Desculpa o incômodo, senhor. Tenha boa noite.

- Sim policial. Você também amigão. Oficial. Câmbio e desligo.

- ...

Leonardo foi para cama. Retirou o casaco de tom neutro e as calças que combinavam. Permanecia de pijama listrado em azul e branco. Sentiu falta da lanterna, mas dormiu com o sentimento de dever cumprido para o exercício da cidadania em prol de nossos compatriotas. Teve pesadelo com alguns dos rostos que viu e considerava feios. Além disso, uma música do DJ Grilo o incomodava e não permitiu um sono tranquilo como havia desejado o policial do outro lado da linha.

Na noite seguinte, o soldado que o atendeu pediu demissão do turno.

- Olá policial é daí que estamos precisando de um novo plantonista?

07/09/2021

Ascendências e descendências

Venho aqui para tentar esboçar um ensaio. Ensaiar um esboço. Pensava eu nos bichinhos domésticos, que curtem suas camas improvisadas, com tecidos e retalhos, acomodam-se, deitam e sonham. Sonham o quê? Não pensam em seus antecedentes nem em seus descendentes após certa idade. Tirando o carinho maternal que oferece o bico das tetas para escoar o leite aos filhotes. Depois creio que passa. Essa concepção de ascendência e descendência fode muito a humanidade. Tentarei explicar e driblar algumas contradições que esse pensamento possa vir a ter.

Embora os conhecimentos de História muito nos engrandecem, a nós que buscamos um mundo melhor, observando malditos erros passados e vendo-os se repetir no presente, planejando, infelizmente que eles voltarão a ocorrer no futuro. Porque, apesar dos avanços tecnológicos através dos séculos, a humanidade, por essência, erra em ciclos. Será que aprendemos com os erros? Ou será vontade das classes superiores, dominantes, donas do poderio bélico, das finanças, será vontade dela repetir os passados e garantir a estagnação, o conservadorismo, a manutenção do status-quo. Será isso, sim.

Penso em tantas guerras que formulamos em nome de antepassados. Em judeus e palestinos a degladiar-se pela terra santa. Nos séculos que persistem com os mesmos ou semelhantes ideais, apesar do cada vez mais desparelho poderio de um lado em relação ao outro. O desequilíbrio das balanças. O pesar de um dos lados da gangorra. Em nome de antepassados, sujeitos lunáticos (com perdão aos lunares pelo emprego do termo), lunáticos querem uma volta de um monarquismo, reivindicam as heranças da família Bragança - com o perdão da rima.  Uma faixa em protesto bolsonarista pelos centros do país pede para os ministros do STF se ligarem, porque, ali no asfalto, no lado plano - que acredita inclusive em Terra plana - ali não é favela. Depreciam a favela de todas as formas. Retiram seus direitos mais fundamentais, da alimentação e moradia. A cidade nega a favela. Não lhe oferece empregos ou oportunidades. Lá atrás, na vida dos que conseguem se tornar mais velhos (pelos 15, 18 ou 24 anos), lá atrás, para esses favelados não lhes foi oferecido estudo. Assim a banda toca. As feridas abertas e cada vez mais inchadas de uma sociedade desigual. Uma sociedade em que, se as desigualdades foram reduzidas por uma penca de anos, novamente se acentuaram. E chamo a atenção sempre para o agravante: nossa população é crescente. Apesar dos inúmeros fatores-morte a que estamos submetidos, são mais nascimentos do que mortes. As feridas seguem crescendo e inchando. Onde tudo isso irá parar?

O preço da cesta básica consumindo cada vez mais dos parcos salários. Os índices de desemprego no alto. Mesmo o preço dos combustíveis lá no alto, impedindo que muitos trabalhem com entregas, de mercadorias ou passageiros. Acumulam-se pessoas nas favelas e há quem tenha pedido a elas o bom senso de um distanciamento social nos mais elevados índices de Covid - situação vista hoje como passado, embora a pandemia não tenha acabado. Acabou com a vida de quase - ou mais, em números extraoficiais - de 600 mil brasileiros. Praticamente duas cidades de Pelotas. Mais do que uma Caxias do Sul, certamente. Além dos números definitivos (?) como são as mortes, uma infinidade de pessoas com sequelas da maldita doença. Uma infinidade de desamparados por uma economia que tenta controlar números e cifras, mas esquece das pessoas. Sucateia sindicatos, cargos, empregos. Obriga o cidadão a trabalhar no que lhe for possível, geralmente contrariado em serviços terceirizados ou autônomos, ou sub-empregos, com suas incertezas e sub-salários, abaixo da linha do salário mínimo. Cidadãos que convivem nas entrelinhas da pobreza e da miséria, escanteados do centro do asfalto, movidos para o alto dos morros, onde ampliam-se e implantam-se cada vez mais casas simples de um ou dois cômodos, materiais doados ou encontrados, obras que desafiam os solos e os mais complexos projetos de engenharia, mas, a exemplo do povo que as constrói, insistem de ficar em pé. A surpresa, quando caem, quando descem dos morros e barrancos é como a casa improvisada havia se sustentado? Como não havia caído antes? São as feridas cada vez mais abertas, subsequentes, conseguintes e inchadas.

E volta-se para a faixa que ameaça o STF com a promessa de que, ali embaixo, na linha do asfalto - dos crentes ou não da Terra plana e outras abilolagens - eles não são como a favela. Vociferam isso em tom orgulhoso. Se acham grandes e maiores. Peitam as instituições, não conhecem e não toleram limites para suas atrocidades. Enquanto possuem o suficiente para seus carros importados, blindados, para suas fantasias verde e amarelas da roupa para fora, enquanto desmatam terrenos, florestas, tempo e clima do país, enquanto possuem condição de subverter pessoas em seus empregados quase escravizados, para eles está de bom tamanho. Para eles funciona o país. Malditos os sejam. Enquanto escanteiam pessoas para o alto dos movediços morros, enquanto as tratam como dejeto e esgoto. Malditos os sejam.

Com suas fantasias de linhagem, de família Bragança ou não, de traços europeus ou não, de italianos ou alemães ou não, enquanto se acham superiores pela cor da pele, de forma mais ou menos generalizada, mais ou menos dita da boca para fora, enquanto se acham superiores aos demais mestiços desse país, aos indígenas povos originais dessa região continental, de matas e florestas diversas a serem devastadas. Eles se acham superiores por seus emissores de gás carbônico por meio de motores ranger estrangeiros. Se acham superiores pelo prato de comida que conseguem comer aos fins de semana, pelos restaurantes que conseguem frequentar, pelas viagens ao exterior que ainda conseguem fazer, pelos champanhes e pelas festas que consomem. Se acham superiores. Possuem empresas ou ações, possuem empregados, possuem patrimônio, possuem heranças de família Bragança ou não, vindas de outras gerações, de outro século, de outro continente, ou de outro continente investem em bolsas, ações, medidas de um complexo mercado financeiro. Possuem mansões em condomínios fechados com segurança particular, câmeras, heliportos ou simplesmente embarcaram nessa fantasia ainda mais mentirosa para aqueles classe econômica média que supõem-se ricos, como se, financeiramente, não estivessem muito mais próximos de se tornarem os próximos pobres.

Malditas linhagens e heranças e heranças segregadoras, racistas, impositoras, imperiais, histórias que se repetem e não conseguimos mais romper o laço, encontrar as raízes de tamanhos problemas em 500 e poucos anos. Violência que atinge mais a negros, que atinge os territórios indígenas, que devasta faunas e floras, coisas que me devastam desde meus mais profundos interiores da mente. Enquanto isso eles vociferam e ecoa na minha cabeça a mensagem, o vozerio, o griteiro, a imagem do cartaz prometendo medidas contra o Supremo Tribunal Federal porque ali, ali naquele asfalto, naquele mar de construções desde tempos escravistas, de heranças memoriais de um país de abortos e racismos, ali, para eles, fica o recado: ali não é favela.

Um post que vi perdido pela internet apontava que uma cliente pobre sempre admite sobrar fraldas e pergunta para quem ela poderia doá-las. Enquanto isso, uma cliente mais rica, quando sobra fraldas, pergunta para quem ela pode vender. É essa mentalidade. O senso de cada um por si, que a humanidade poderia distinta da sobrevivência dos animais, mas não tem. A humanidade feroz, umbiguista, individualista. Eles que se acostumam a vender tudo, incluso a própria alma. Eles que acostumam-se a caminhar por cima de corpos, embora estejam ao nível "baixo" do asfalto e as demais pessoas é que aglomeram-se no alto, sobre os morros. Eles que enxergam números, saldos, cadernetas, poupanças, preços e não distinguem mais valores. Porque seus antepassados escravistas também não os viam. Porque o racismo e o racismo estrutural os impede de enxergar. Ou, tanto pior, enxergam e nada mudam. E nada fazem pelo bem do outro. Porque estão intrínsecos com seus ideais materialistas, pensando na própria sorte de uma família protegida para dentro das grades de um condomínio de segurança máxima. Como ouvi no documentário A Ponte (2006), sobre a periferia de São Paulo, eles andam de carro blindado, mas uma hora terão que descer. Terão que se defrontar com seus erros e com a realidade. Ou, talvez por outro viés, talvez a favela, a favela de ferida tão inchada, em sub-espaços que já não comportam mais gente, a favela vai invadir, vai ocupar seu lugar pelo asfalto, vai reivindicar o que é dela. Vai buscar pelos espaços que a sociedade para sempre as negou de usufruir. Porque, conforme eu apontei, pode-se ter reduzido a desigualdade por um determinado tempo, mas a sociedade novamente grita em gritos de fome, reclama seu espaço para moradia, requer sua educação, sua saúde básica, sua oportunidade, recobra por um ganha-pão, por um emprego melhor do que o caminho da prostituição ou das drogas.

E tudo isso a humanidade faz sem saber como termina o dia, como termina o mês. Se vítima da fome ou da violência. Se vítima de um sistema que a encarcera de oportunidades, não somente para dentro das prisões com as chaves jogadas fora. O lado mais pobre, onde a corda arrebenta, faz o seu cotidiano com o receio do que será para seus filhos. Jovens, adolescentes que engravidam e têm o parto, que criam filhos não se sabe como é possível. Algumas vítimas de aborto antes das crianças nascerem, outras acumulam funções, sendo mãe e pai ao mesmo tempo, pelos ausentes que puxam fora. Essa sociedade se preocupa cotidianamente como vai terminar o dia, mas também gostaria de garantir algo de vida e oportunidade para seus descendentes. E essa angústia não tem sequer palavra que a traduza, tamanha é. Essa é uma diferença da humanidade em relação aos bichinhos. Ao gato ou ao cachorro que consegue, de barriga alimentada pelo dia, dormir um sono mais tranquilo. Enquanto a nossa luta é incessante e o futuro é difícil de visualizar. Para alguns, como eles próprios relatam, é impossível. Essa é a diferença.

Admiro e invejo os cães e gatos, os deitados sob o conforto de um lar. Porque, mesmo que me encontre em determinado momento dessa maneira, vivo ansioso por um futuro que a mim não pertence. Eu, que tal qual um dos principais provérbios machadianos "não quero deixar de herança para filhos a miséria dessa existência", mesmo eu sob essa condição que poderia me aferroar uma aparente tranquilidade, fico pensando um futuro que poderia ter sido. E não será.

Um futuro que não será para mim e muito menos será para outros excluídos dessa realidade maléfica e de crueldade implacável. Não será para eles e, pelo caminhar trôpego da humanidade, também não será para a ampla maioria de seus infortunados descendentes.

05/09/2021

Identidades

Acabo de assistir ao filme O Gabinete das Figuras de Cera (Das Wachfigurenkabinett) (1924), produção alemã de Paul Leni, obra do movimento conhecido por Expressionismo Alemão, que tinha, entre outros grandes diretores, a figura de Fritz Lang. Uma ideia concebida no filme fixou-se em minha mente. A história de Ivan, o Terrível, o "Czar das Rússias". Na narrativa criada, Ivan estava condenado à morte por um empregado, que o condenou como último ato, porque estava para morrer. Mas Ivan, ao descobrir seu trágico destino, engana seus "ministros" Morte e o Diabo ao trocar de lugar com o cocheiro que o conduziria para uma aldeia. Dirigindo o coche, o acometido pelo final definitivo é o funcionário que estava vestido de Ivan.

A história prossegue com Ivan novamente condenado à morte por um suposto envenenamento. Ele novamente tentaria driblar seu destino, mas não posso afirmar que com tamanho sucesso. 'Spoilers' à parte, fiquei preso nessa ideia de trocar de identidade. Em tempos remotos, sem os usufrutos da tecnologia, seria mais fácil ou mais difícil partir para mudar sua identidade? Hoje observamos os dois lados nas redes sociais. Perfis fakes se passam por mulheres tentadoras, outros por simples bisbilhoteiros de perfis alheios e ainda há o tipo mais comum das últimas eleições para cá: os comentaristas de portal. Figuras aliadas ou contra os governantes que participam de foruns com os únicos intuitos de cravar suas bandeiras e/ou tumultuar na deposição de ideias.

Também como não lembrar da crescente onda de fake news - notícias falsas (ah é!) que inundam as redes sociais, os grupos do aplicativo verdinho e por onde mais puderem navegar. Difíceis ou praticamente impossíveis de mapeamento da origem, áudios falsos, vozes nada oficiais, crises de identidade, traições, mortes precoces, assinaturas falsas de governos, sintomas, causas e consequências inventadas e forjadas, porta-vozes das mentiras mais cabeludas que se possa imaginar. O internet é como o jogo do arrojado encanador Mario Bros, mas você é apulhalado inclusive pelas costas com maior frequência.

Seria mais fácil para Ivan trocar de lugar com o funcionário por não haver assim fotos dele espalhadas, em tempos anteriores à invenção da máquina fotográfica? Os registros eram feitos em pinturas, restritas às cortes ou às poucas composições de nobreza. Para a vassalagem seria ainda mais fácil escapar das garras ao trocar de identidade. Ademais, vemos histórias desse tipo. Relembro também aqui o clássico Conde de Monte Cristo, que retorna de sua condenação direta para um cargo visado de conde, invadindo palácios e buscando vingança. Desconfianças só de quem os conheceu em momento anterior da vida. Quem vê pela primeira vez não faz ideia. Ademais, também não existiam registros gerais (RG) ou outras formas de cadastros. Era (quase) tudo da boca para fora. Outros exemplos das épocas mais medievais eram de acusados, criminosos, fugitivos em dívida, ou seja lá o motivo, que partiam de suas terras natais para outros rincões, em busca da paz e do sossego, novas identidades, literalmente novas vidas pela frente.

Ivan, o Terrível, diante da ampulheta, tentando enganar a Morte
Filme: Gabinete das Figuras de Cera (1924)

Pois vejam Ivan na noveleta relatada, conseguindo enganar não só aos homens em um primeiro momento, mas incluso os "certeiros" (?) Morte e o Diabo. Que sobrará aos meros mortais diante de tal manobra dos fugitivos? Enfim, no filme vemos que pelo menos ao último movimento é impossível driblar em definitivo a Senhora Mortindade - para os não íntimos.

Seguidamente também penso sobre a quantidade de cadastros que afetuamos. Acesso a materiais artísticos, acesso a bancos, acesso a dados, aceso a documentos nossos ou dos outros. Acessos e barreiras e restrições. Senhas que cadastro com a obrigatoriedade de ter tantos dígitos, de conter letras, de conter mais ou menos números, de conter símbolos variados propostos com o auxílio da tecla Shift (ainda se chama assim? não sei, apenas a teclamos sem a chamarmos por nome algum). Sem a senha só em sonho - impossível alcançar - dizia Humberto Gessinger em canção do duo Pouca Vogal, na companhia de Duca Leindecker. Pois é, este texto começou com a filmologia alemã do século anterior, quase completando 100 anos da obra inspiradora no Expressionismo Alemão, e termina com os gaúchos descendentes.

Um último questionamento bobo: sobrenomes mais difíceis estão mais seguros nessa indústria toda, pelo entrocamento de consoantes nos emails, senhas e assinaturas? Fica a questão.

01/09/2021

Os diferentes estágios do inferno em um sábado à tarde

Ela esperava aflita com o celular colado ao ouvido. As sobrancelhas desenhadas dançavam tanto quanto fosse possível nos movimentos ritmados da testa franzida. Após sucessivos toques na espera que ele a atendesse, desistia, levava o celular para dentro da bolsa e pisava firme contra a calçada, de vez em quando levando às mãos ao quadril. Mas a impaciência vencia aquela queda de braço e, entre uma olhadela ou outra para o relógio de pulso, ela percebia o avançado da hora e sacava novamente o celular de dentro da bolsa. Nervosa, nem a confiança de quem mesma arruma o depósito garantia que não voassem antes uma escova ou algum cosmético antes de encontrar o telefone novamente. Não precisava digitar, o número do marido, cada vez mais evidentemente ex, estava no dígito para chamadas rápidas, mas também estava naquela lista de chamadas recentes. Todas dela, nenhuma atendida.

E as crianças... As crianças! De vez em quando ela, aérea das ideias, esquecia os pequenos que deveriam estar de encontro com sua mão para não fugirem, ou ao menos muito próximos, dentro do campo de vista. Ela estava à beira da estrada para praia. O movimento era intenso. Não era o mesmo de domingo, realmente. Mas o de sábado também trazia os entrocamentos aqui e logo adiante. Será que estão parando pela lombada? Não, é porque travou o trânsito mesmo. Que droga de horário! O trânsito, o passar da hora, mais uma olhada para o pulso, o relógio, que bonito era o relógio, seu pai o havia presenteado. As crianças! Pedro ia parar quase no acostamento. Rodolfito, em homenagem ao cantor argentino, se aproximava da cerca de arame, eles que aprontavam tanto juntos, mas também gostavam de explorar cada qual para seu canto. Um quase querendo ser atropelado no movimento intenso da estrada, o outro no mínimo querendo espetar o dedo no arame farpado da propriedade vizinha. Uma fazenda por ali, ou pelo menos a extensão de terra com proprietário, pois não conseguia, ao espichar o olho, localizar algum plantio no terreno que se estendia à frente da casa, lá adiante nos fundos, quase invisível. Quem sabe plantavam algo lá atrás? E o que te importa? Não vem ao caso. O Pedro... o Rodolfito. Onde estava a Laura? A Laura então se apresentou como a mais encrencada dos três, pois havia encontrado uma cobra.

Ela dedicou os primeiros cinco minutos a manter-se longe do celular, era o que precisava ser feito. Dar uma boa bronca em Laura. Que perigo correu! Perto da cobra. Poderia perfeitamente ter sido atacada em um ligeiro bote e ela, enquanto mãe, jamais saberia. Ela tentando a ligação. Ele sem atender. Quantas tentativas já havia ligado na insistência? Mais de 20 certamente. A Laura. Olha aqui, Laura. Laura, não chore. Laura, você precisa entender. Laura... E o Pedro e o Rodolfito? Agora o mais novo, Rodolfito, subia pelos ombros de Pedro a tentar romper a cerca de arame farpado e se agalhar na árvore. As árvores. Ao menos alguma sombra naquela espera maldita que prolongava arrastados minutos, cada qual podendo reservar uma surpresa como essa de Laura ou dos meninos podendo se machucarem, perto dos arames, um corte ali. Aí a urgência da carona para os compromissos dela viraria uma desabalada carreira rumo ao hospital para estancar o sangramento do... do... de quem? do Rodolfito só podia ser. Fito desce daí! Agora, menino! Pedro, ajuda ele a descer. Se subiram é porque conseguem voltar, ora, onde já se viu? Descia Rodolfito ainda aos risos e guizos, soltando o galho da árvore e retornando os pés para a segurança do chão.

Segurança. Era isso que ela desejava e não tinha mais. O marido que sumia, o marido que não atendia. Está bem que das outras vezes não costumava passar da terceira ligação, mas ela também demorava mais a ligar, as ligações eram espaçadas, ela lhe dava o benefício da dúvida. Mas hoje não tinha como explicar em pleno sábado. A ligação da chefa. A urgência em retornar ao posto de trabalho. Aquele trabalho com salário de estágio. Ora, ela não poderia ter chamado outro? Não, bradou a chefa que os demais haviam se organizado, viajado juntos para mais longe, quase um acampamento, uma ideia idiota, é bem verdade, ainda agosto, nem bem calor fazia, mas deram sorte, ora, pegaram um rico fim de semana de sol. E ela achou que poderia curtir ao menos a praia. Mas mal chegaram, ela que pegaria algo da lojinha de conveniência, a que ela tinha cartão, tinha desconto, tinha pontos de vantagem, achava o atendente bem apresentado. Mas a ligação da chefa interrompeu tudo, nublou a tarde de descanso dela. Que descanso? Essas crianças imprevisíveis, com mais manobras nas mangas do que o próprio diabo. Laura aquietou-se, sentou-se sobre uma pedra, para longe da cobra, para longe de qualquer outra criatura viva. Ainda bem. Mas e o Rodolfito, que ainda ria e produzia guizos naquele momento em que descia de sua última travessura, o Fito onde está? O Fito sim quis contato com a natureza, aterrissava seus pequenos tênis sobre um carregado formigueiro. Novamente ela de olhar arregalado, a boca escancarada, aberta, mas mutada, sem produzir um ruído. Que chance teria esse moleque de sair ileso dessa vez? Os raios sobre o mesmo lugar, ou sobre outros lugares, tantos são os locais que uma criança pode arruinar um final de semana. E a chefa também, a chefa que vá ao inferno, pessoa desorientada das ideias. Mas só haviam loucos naquela cidade?

O Fito. Mas o que foi que eu te falei??? E de fato nem ela recordava o que havia falado, mas de prontidão estava com a mão espalmada a rebater as canelas do menino contra qualquer arruaceira que despontasse rumo a locais piores para picar o garoto. Tirou os tênis do filho, bateu-os contra a pedra em que Laura estava sentada. Laura que estava quieta já não gostou do ajuntamento sobre sua pedra, Laura que desafia frente a frente a cobrinha do mato, agora só queria descanso, mas de qual maneira? Com aqueles irmãos. O pequeno tudo bem, se ao menos o Pedro mais velho o ajudasse na criação, mas, pelo contrário, desvirtuava de vez o mais novo. Onde estava o Pedro que para longe da pedra se encontrava? O Pedro sabe-se lá como superou a barreira de arame, achou algum furo, algum buraco por onde embrenhar-se e percorria o terreno vazio à frente daquela propriedade, fazendo ou o que fosse. Cada qual pior dizia ela consigo mesma. Pedro! Pedro, pelo amor de Deus! E dos gritos dela, se antes Pedro não o havia despertado, partia um cachorro à alta velocidade. Aqui será ocultada a raça do animal para que não sejamos acusados de preconceito contra qualquer raça que você não a julgue violenta. Tudo bem, saibam que havia raça, ah, se havia naquele cão. Uma das bem conhecidas, tanto maior seria a implicância com os donos, pais de pet e simpatizantes que a defendem, enfim. O cachorro partia em direção a Pedro, ela partiu para um cálculo mental, tentou calcular a hipotenusa daquele triângulo-retângulo para a salvação de seu pequeno menos pequeno, Pedro percebeu o cachorro, claro que percebeu, só por isso tentava voltar. Pedro na dianteira, o cachorro a se aproximar. Pedro ou o cão. Pedro ou. O cão parou de repente, porque uma invisível coleira o isolava daquele intruso. O menino, vendo-se em plena segurança, achou graça do episódio. Eram o diabo. Se não cada um deles, ao menos a união fazia a força para duelar com as ocultas fortalezas subterrâneas do inferno.

Ela enxugou a testa. No movimento aproveitou para olhar o relógio de pulso. Nada do marido. Olhou para Laura, que agora ajudava o outro intruso, o do fomigueiro, tal qual aquele filme infantil, o Fito se livrava das últimas formigas e, tamanha a sorte que os acompanha - será? - nada de Rodolfito reclamar de possíveis picadas. Que assim prosseguissem na viagem para o retorno. Mas quê viagem?! Qual retorno? Se não havia carona. Nada do marido atender o celular. Tentou a 24ª vez. Não precisava contar, estava ali de pronto o registro na agenda telefônica.

Pensava ela no atraso, na bronca da chefa, mas dos outros que acampamento o quê, em pleno agosto, nem calor estava, mas aquele sábado estava, escolheram bem o dia, aquilo sim que era sorte, um fim de semana fora, um fim de semana de descanso, quiçá de aventuras e algo mais, será que Glória era a fim de Flávio, parecia para ela que sim. Que fossem para o inferno. Só não desejou isso porque era capaz de aparecerem ali, caírem de paraquedas. Era possível. Ainda pensou que eles que se meteram mato a dentro e ela, parada ali ainda menos de hora, consultou o relógio para conferir se era menos de hora e já havia episódio com cobra, formiga e cão e sabe-se lá o que mais Noé salvou para exclusivamente, passado milhares de anos, aprontar com ela naquele sábado. Com esse único objetivo a arca estava cheia quando a Terra ficou definitivamente cheia d'água. Era para alinhas as pragas todas contra o seu bem estar naquela sucessão de acontecimentos inimagináveis.

Quer saber? Assobiou o mais alto que podia, o silvo serviu de chamado para os pimpolhos que se reuniram em volta dela, estranhamente ordenados como se um chefe militar conferisse uma inspeção inesperada. Só faltou baterem continência, coisa que ela abominava. Abominava mesmo, por que casou com um que serviu ao exército? Nem ela sabia mais onde tinha se metido com sua vida. Com aquele despistado, com aquele perdido, ordinário, vagabundo e outros adjetivos impublicáveis nesta feita. As crianças ali, todas, as três juntas e prestando atenção, talvez a primeira vez em meses, porque mesmo no mesmo recinto, dentro de um carro Pedro mexia com seu joguinho estilo aqueles game boys antigos, machismo na chamada que era mais absoluto na época, a menina sempre avoada, a olhar pela janela paras as mais fronteiriças distâncias onde a vista alcançava, ela pensava que Laura sentia a separação do casal antes dela, era esperta a menina, disso ela tinha certeza, era inteligente, só não tinha medo de cobra. Se é que isso era defeito. E o menor ainda a tirar meleca das narinas, esperava ela que rompesse com esse hábito o quanto antes. Enfim, os três reunidos. Ela aparentou cautela, mas pegou e arremessou seu celular longe. Caiu passando a cerca, ricocheteou ainda em um dos galhos, não daqueles que Fito subira, mas em outro e espatifou-se na grama, talvez a batida com a grama sem o contato suficiente para destruí-lo, mas em acesso de lucidez, ela tão louca e tão lúcida, olhou para o chão úmido apesar do sol que fazia, pensou na mudança do tempo e que logo logo aquela porcaria jamais imploraria atenção novamente ao marido.

Nem o celular, nem ela. Pegou Fito pela mão por ser o menor, aproveitou a atenção dos demais e foi caminhando. Não vamos esperar a carona? Perguntou Pedro. Seu pai não vem. Voltou para a loja de conveniência do atendente interessante, mirou a plaquinha na frente que apontava a necessidade de ajudante em um turno. Aproveitou para mandar dois diabos para o inferno em sua vida, o que ela tentava ligar e a que ligava para ela, e reunir os três diabinhos em torno de si. Ao menos comida não vai faltar, pensou por último, vendo as crianças novamente se distribuírem pelas prateleiras, Fito tentando alcançar o que era alto demais para ele, Laura com noção até compras saudáveis. Só não tinha medo de cobra. O atendente sorria e ela também.

24/08/2021

Registros e não registros

Diários de bordo. Acho bacana começar um texto assim (diários de bordo), mas na verdade sempre me perguntei sobre quantos dias antes e quantos dias existem depois das anotações. Mais dramático é se as anotações são as últimas coisas que ficam, que persistem, que ultrapassam a barreira imposta pelo tempo, quando o autor, sem saber, acaba partindo desta para outra. Também penso muito em câmeras fotográficas. Em como estragadas podem perder registros únicos. Registros últimos. E se for roubada, o ladrão se importa com as fotos salvas no cartão de memórias?

São preocupações minhas que ora veem à tona. Tenho feito uma coleção de camisas de futebol. Não chega a peitar os maiores colecionadores, donos de bazares, sites, lojas virtuais, improvisos por grupos de whatsapp, mas tenho minhas peças e me orgulho e curto cada uma delas, de verdade, todas com alguma beleza, singularidade, história especial, de maior ou menor grau. Ao passo que avanço a quantidade de cabides e itens dobrados em prateleira, recordo meu avô sobre uma cama fria de hospital, com poucos tecidos para taparem-lhe as longas e cada vez mais finas canelas. De qualquer forma terminaremos assim. Ou partiremos um pouco mais saudáveis do que definhados. Podemos partir de repente, de uma maneira surpresa. No caso dele, todos já estamos preparados para o findar chegar em algum momento. Além do mais, independente do tempo que ele perdure com suas agravantes questões de saúde, ele é o recordista de idade de nossas famílias, passando os 90 e relutante em chegar aos 91, caso sobreviva até o próximo novembro.

Embora destaque seus problemas físicos, se alimentando cada vez menos e com veias e ossos cada vez mais salientes por conta disso, minha mãe observa que ele está razoavelmente bem de cabeça. Não creio que chegaria assim daqui a mais do que seis décadas. De maneira alguma projeto isso. Um dos casos que me trouxe aqui a relatar é porque estava quase adormecendo após o almoço e em um acesso de teimosia tamanha, como se fosse um desses senhores idosos, me recusei a levantar e escrever as poucas linhas que eu havia pensado. Lamento muito por tê-las perdido para sempre em um vácuo no espaço não arquivado pela memória. Os malditos neurotransmissores queimaram o arquivo, rasgaram a folha, jogaram fora os poucos versos. Nem sequer eu recordo do que se tratavam. Isso que me chateia. Não consigo sequer restituir a temática de meu pensamento naquela matinê. Assim acredito que, se minha mãe estivesse viva aos 130 para me conferir nos meus inalcalçáveis 90, duvido que ela se refiriria a mim como estando "bem de cabeça". Não vou estar "bem da cabeça". Provavelmente nem estarei, como sabem.

E a sentença sobre meu avô também é bastante duvidável, pois o sr. Lino estava querendo sair para pescar em um desses dias, logo no estado em que ele se encontra, definhado sobre a cama. Em outro momento, com maior juízo, vejam só, se recusou a partir para pesca porque ele quer aguardar o verão. Ficamos no aguardo se ele resiste a esse final de inverno, passagem por primavera e alcance o sonho da próxima pescaria, ou continuará a pescar seus últimos sonhos por agora. Quanto a mim, sigo me martirizando muitas vezes pelo que não tenho culpa, meus tecidos de variados clubes e seleções espalhados pelo sofá enquanto meu avô não escolhe o que vestir, escolhem por ele, no restante de suas últimas peças. É quase setembro e ainda está um pouco frio para os padrões de despedida de inverno.

21/08/2021

poema do peixe

como um filme de terror se defronta a vida

como se a vinda aqui nada valesse

como se brinda a vida em um fim desses?

como se ainda motivo aparecesse


tento escrever agora altivo

de dentro para fora ou de fora para dentro:

qual motivo?

que me leva a vir aqui sedento


não me dou por vencido facilmente

mas basta ser algo que eu o queira 

já não quero muita coisa, realmente 

e quando quero muitas vezes é besteira


quero mesmo é prosseguir por esse rio 

caudaloso é o destino do poema

que acena a uma aventura e outras mil 

pelo fio da criação não há problema


o verbo querer é tão presente

tão presente mas também em outros tempos

muitas vezes eu gritei com todo aumento

eu queria e eu queria aos quatro ventos


aos quatro cantos ou quantos eles fossem

será que eu queria o sabor tão desejado?

por exemplo fosse ele algodão doce

é provável da minha parte rejeitado


outros jeitos, outros queijos tentativa

preocupante é o estado da gengiva

sangra fácil anunciando corrosiva

a erosiva relação com a saúde 


ataúde é uma palavra só lembrada

pelas últimas andanças dessa estrada

pode ver como rima mas se opõe 

ao estado de saúde - sol se põe


lamurento posso enfim ficar

no cerrar desses versos, no cessar

lamacento nas encostas desse rio 

para dentro dos cardumes juvenil


como um peixe se desvencilha das amarras

pelo trânsito para longe das mortalhas 

escorrega jovial pelo cardume 

enquanto jogam pescadores uni duni 


à espreita tanta coisa se é feita

na tentativa de pausar esse peixe 

santa ceia , santa é a semana

que engana os destinos desse feixe


mas melhor por aqui se despedir

antes que nosso herói seja pescado

pela boca morra pela isca

ou pela rede a debater-se acompanhado


quem não acompanha agora nada

não entende o prazer das nadadeiras

em sincronia a mover-se à correnteza

gentileza pelas forças dessa água


e o peixe vai contente ou apenas vai 

desovar adiante outros canais

pelas ovas que perpetuam a espécie 

que iludem perfeição - até parece 


a natureza nisso se renova

no processo geracional desses peixes

que no cardume se somam formando feixe

misturando uns e outros muitas ovas


e assim nosso rio poema se povoa 

tanto faz agora se queres lagoa

ou abertura para o mar formar laguna

das espumas dessa água nada muda


quanto ao peixe nosso descrito tão querido

permanece a nadar assim sortido

sol se vai e depois retorna a pino 

e nosso peixe segue só por seu destino


criatura natureza assim tão besta 

criticarão o animal ao final desta

se não desta talvez em outra frase

pois sua vida não se encontra assim oasis 


ou quase, ou quase...


nosso peixe sai da água assim mergulha 

quando volta após passar pela secura

se reúne a outros peixes na tertúlia 

e se esconde ao mergulhar em água escura


reaparece o peixe esse em água pura

cristalino limpo e vulnerável 

ao voo coordenado da gaivota

mete o bico pega o peixe pelas costas


morre assim o nosso peixe idiota

não se preocupa 

lembra a ova?

essa choca 


e poema assim a ninguém machuca 

mas ao final: a quantos choca?

Nota de agradecimento em nome da saúde

De todos os males do mundo, é pior mesmo é sofrer da própria saúde. Claro que na pobreza se está mais suscetível a problemas de saúde, pela exposição, pelo desgaste, pela falta da alimentação adequada, nutrientes e aquela coisa toda. Mas vim mesmo agradecer a todos aqueles que se prestam a ajudar os outros. Não somente os mais reconhecidos e renomados médicos que realizam os procedimentos, mas aos atenciosos enfermeiros e técnicos de enfermagem, aos acompanhantes e pacienciosos lado a lado dos enfermos. Agradecer pela boa vontade, pela perseverança, por não desistirem em nome de outro ser. Aos que acolhem pessoas a seus cuidados, até sararem ou até o final, tornando menos dolorosa a passagem. Agradecer a quem recolhe animais abandonados nas ruas, os trata, os encaminha a veterinários, lhe cedem vacinas, medicinas e carinho. Cães, gatos e todos os bichos que vagam perigosamente pelas ruas. Obrigado a quem batalha pelo cuidado deles. Há muitas pessoas más, mas também há quem faça tudo isso valer a pena. Portanto, venho no mais puro bel prazer do agradecimento, do meu muito obrigado, para que minha gratidão por ora transcorre de um peito a outro, como deve ser, no exercício da tão bela lição que é a solidariedade. Não estaríamos aqui sem as justas parteiras, profissionais da enfermagem, médicos de plantão, abnegados, cuidadores, voluntários. Você já agradeceu por quem realmente merece ler, ouvir, sentir esse reconhecimento verdadeiro? Pois não perca tempo, enobreça seu estado de espírito ao máximo ao sentir-se grato e transmita isso na boa palavra, na carinhosa atitude. Que se iluminem os caminhos a partir disso e que em algo recompensados possamos ser também. Uma fé não obrigatoriamente alcançável a todos, mas, por ora, por mais que me culpe posteriormente, por agora quero apenas acreditar. Acreditar nessa benevolência, nessa boa vontade, nesse estado de gratidão, muito questionado em outros momentos, mas que, em meio a tudo isso, de ruim e de bom, me permito. 

Obrigado.

20/08/2021

Sacrifício

Mesmo envolto a filmes de terror nos últimos dias, me surpreendi tamanho plano ousado que minha mente ornou. Percebia uma casa muito cinza e afastada, por onde transitavam muitas pessoas que eu desconhecia. O movimento intenso daria ideia incluso de um comércio, bazar em funcionamento, mas não era o caso. Era como se morassem ali ou ali estivessem refugiadas e assim poderia ser também o meu caso. Ou o que eu fazia por ali? A casa tinha um aspecto acolhedor, mas decadente. Era a morada, mas era estranha. Era uma casa de proporções esquisitas, onde poderíamos associar sua figura a um grande templo. Fato é que as sensações que nos causavam eram meio horripilantes, sem saber o que decerto iria ocorrer logo adiante. A suspeita eram dos moldes da bruxaria.

Entre tubos de diferentes tamanhos e formatos que se amontoavam sobre os móveis, como se esquecidos ou recém-usados e ainda não passados pelo lava-louças, lembro de aparecer por entre meus dedos um bilhete. Um bilhete tão misterioso quanto todos os entornos daquelas curiosas cenas. Tentei fixar meus olhos somente naquele papel parcialmente amassado e em caligrafia apressada ou relaxada quando foi manuscrita. Seriam códigos que fugiriam a meu entendimento? E o fluxo de pessoas, ora tão numeroso, tudo desaparecia e as trevas se faziam presentes, como se de repente uma vela fosse rapidamente assoprada, transformando o estado cinzento em mais trancafiada e aprisionante penumbra.

Percebo esse código em papel de repente em outro espaço, quando me deparo em uma espécie de shopping, talvez semelhante aos estabelecimentos Angeloni de Criciúma, ao sul de Santa Catarina. Era semelhante àquele estabelecimento ou de lá lembrei por causa do número musical que se apresentava: um músico diante de uma razoável plateia. Conforme ocorre com os músicos de centros comerciais, as pessoas mais seguiam suas atividades de admirar vitrines ou seus telefones celular do que prestavam atenção, mas sempre uma quantidade reduzida também o escuta e acompanha das melodias. Pois outro músico, talvez transformado em eu mesmo, se depara, após o dedilhar de algumas notas que está sozinho. Tão sozinho quanto na penumbra daquela casa cinzenta e esquisita.

Ele olha ao redor e, com o perdão da utilização da letra daquela música, acha melhor parar de olhar. Ou ao menos parar de tocar. Ninguém o escuta. Pois o código. O código o é entregue mais uma vez. Por alguma mão sorrateira que por ali passa, ou surge diante dele, como na superfície de alguma mesa próxima, ou mesmo o músico o encontra de seu bolso (como é possível surgir assim do nada?). Enfim, ele tem o bilhete em mãos, olha atento àquela combinação ridícula que lhe foge aos conhecimentos em significado. Mas tem para ele que aquela é a salvação de sua carreira musical. Ele precisa copiar aquele código para acessar ao sucesso. Para, ao menos, copiar seu parceiro que tocava para meia dúzia, dúzia inteira ou até três ou quatro dúzias de gente num shopping estilo estabelecimentos Angeloni em Criciúma.

Ele precisa ser escutado, é sua razão de ser e existir, ele não se importa, naquele momento, de fazer o tráfico com o mais temido diabo em troca de sua merecida plateia. A razão da existência musical, tocar para alguém ouvir. Ele aceita os termos de uso e sai em desembaraço do código que sacie sua vontade de receber os louros advindos de um tímido aplauso ao final de cada canção - algo do tipo. Com o código transcrito para sua mente ou para outro papel, ou dito em voz alta, na tentativa da convocação do diablo que lhe conceda a glória, o músico (será eu?) é novamente transportado.

Está agora em uma estrada vazia, sabe que essa mesma estrada vazia, interiorana, sem residências que a circundem, leva em direção àquela mesma casa sinistra, deslocada, opressiva, cinzenta e morada dos mais impiedosos segredos e feitiços, dos confins porãonizados da humanidade. Mas, ao manobrar uma camionete - ou desta mesma camionete ser apenas um secundário personagem no banco de carona - o músico atolado até o pescoço com as bruxarias se depara com uma cena de lhe tirar o fôlego. E ainda bem aqui tratamos de um músico de instrumentos de corda e não um soprador de saxofone, por exemplo. Isto porque sem o fôlego ele fica ao deparar-se com uma fileira de corpos em um pequeno vale - talvez escavado - que se desenha na estrada. A estrada é vazia de movimentos e entulhada de neve. Sobre essa neve estão deitados uma parelha inteira de corpos. Os corpos ele custa a assimilar se são humanos ou de algum antílope que por ali habite, onde Canadás será que estava? São humanos ou são alces depositados sobre a neve? As autoridades sabem desse absurdo? Onde está a sua camionete? Era o carona e foi chutado pelo motorista, para observar àquela audaz e impiedosa cena? Sejam alces, sejam humanos deitados naquela clareira que muda radicalmente os tons inebriantes do constante volume de neve que se acumula pela estrada, sejam do que forem aqueles horripilantes corpos antes escondidos, sejam esquecidos ou lembrados, ele tem certeza de uma única palavra sobre aquela quantidade de corpos: sacrifício.

Ainda sobre meu avô

Foi após eu firmar o obituário de meu avô que ele deu para não morrer. Os dias no hospital arrastam-se, como o cinza ininterrupto desse mês de agosto. Os cães estão loucos, ensandecidos aqui em frente ao apartamento. São uns cuidados pela vizinhança, que lhes fornece alimentação e água, em troca de uivos para luas cheias e alguma sensação de segurança que eles transmitem. Mas o assunto é mesmo meu avô, que segue como uma partida de futebol esquecida de ser finalizada aos 90. Sobre a cama, com as canelas cada vez mais finas, com a musculatura a sumir conforme não come nos últimos tempos. Sobrevive pelo soro e perde muito sangue e muito líquido pelos problemas em seu sistema urinário. O câncer que teve pela próstata ameaça voltar, se é que já não voltou e falham na nomenclatura ao dito cujo.

Percebi a fragilidade do panorama de meu avô ao comprarem para ele alguns iogurtes da marca do solzinho, destinada preferencialmente às crianças. Aí chega o ponto em que eu queria adentrar, a, mais uma vez, semelhança entre o estado dos mais jovens e dos mais velhos. A necessidade dos cuidados de outrem. A impossibilidade de se virarem com seus próprios recursos. Para além da saúde deficitária do ancião, aqui em casa discutimos os valores financeiros que ele a cada dia nos custa, porque precisa de um revezamento de cuidadoras, com o preço pela casa dos 100 reais por turno. Entre duas, vão-se praticamente 200 reais a cada findar de tarde. A da madrugada recebe mais, o chamado adicional noturno. Algumas batem cabeça no horário, com atrasos ou impossibilidades avisadas em cima da hora, privando minha mãe de qualquer sombra de sossego.

Digo para minha mãe relevar essa situação, porque logo ele parte ou melhora. Estamos cientes de que segue mais próximo de partir, justamente por não ter forças mais para alimentação. Segue conectado às sondas e, a bem da verdade, em momentos de fúria e de últimas provas de rebeldia, arranca os cateteres posicionados em seu corpo. Quando questionado por um bem humorado enfermeiro, se, caso fossem soltos, libertados seus braços, se meu avô iria se comportar ou arrancar novamente os cateteres, o meu ascendente de raízes polonesas admitiu: "vou arrancar, sim." O profissional agradece a sinceridade dele e segue seus trabalhos, mantendo meu avô delicadamente atado, na impossibilidade de arrancar-lhe o que o mantém vivo.

Houve um caso de amigo de meu pai, um engenheiro bastante mais novo, que, ao se dar por conta da situação sobre a cama do hospital, arrancava os seus conectores da vida. Acabou realmente por morrer e talvez fosse isso que desejasse, após problema neurológico que o acometeu. Estar nessa situação vegetativa, sobre um leito e extremamente dependente de terceiros, deve afetar as percepções de o que é estar vivo. Eu, em tão melhor situação sinto esses questionamentos, imagino-me na situação deles.

Enfim, como uma criança, em que a memória oscila entre aprendizados ou nomes antigos e entre o esquecimento das coisas mais básicas recentes, meu avô segue lá com sua capacidade intelectual também cada vez mais fraca. Chama pelos que já não o podem atender, relembra momentos, traça resumos de sua vida passadas nove décadas. Aguarda pelo apito de encerramento e busca alguma compaixão com o temido júri do juízo final. Enquanto isso, permanece imóvel sobre a cama, tentando domar seus instintos rebeldes e alternando entre o cansaço, a fraqueza, mas também a disponibilidade em que desata a falar como em um dos últimos confessionários.

Sem mais poder nos oferecer as cadeiras que bem construía nos conhecimentos da carpintaria e com um leque de piadas cada vez mais reduzido, meu avô vai se apagando, mas mantendo acesa sobretudo a discussão de quem arca com seus últimos dias, entre cuidadoras que levarão mais do que dois salários e sua possibilidade de alta ainda não se sabe para onde, entre as existentes casas geriátricas ou os aprontes da filha da esposa de seu segundo casamento. E, para meus compromissos com a verdade, nunca ouvi tanto sobre meu avô como nesse último mês. Talvez, se organizássemos a massa de tópicos sobre uma gangorra, o mês atual venceria o total de vezes em que ele era mencionado em todos os meses anteriores em minha casa. Em resumo, nunca se falou tanto dele. Nem tão bem, nem tão mal, mas apenas cada um avaliando onde pode inserir-se nos cuidados feitos, em contravontade, mas querendo manter uma imagem perante a família e a sociedade, além de uma aparente consciência tranquila. Próximos capítulos nos aguardam. 

A gente começava a ler as pessoas pela foto

10/08/2021

Aos vermes

Posso escrever quantos poemas eu quiser
Sem querer
Posso fazer mais poucas coisas
Contei aqui mais três

Posso seguir esse como uma estrada
No automático
Posso terminar nos contornos da Via Láctea
Ou do mar Báltico

Posso utilizar um Dicionário de Rimas
Acho que desde o Jornalismo não usava mais
Elas sempre vieram até mim: Dopamina 
Fazendo sentido ou não - tanto faz

Há coisas dentro da minha cabeça
A maioria não te interessa - se não tudo
As pessoas tem gostos e preferências estranhas
Vivendo no mesmo mundo

Pelas entranhas menos ainda interessa
Tudo passa com ou sem pressa
Os microrganismos não pensam nisso
Minha gata Melissa também não
Nem os vermes de qualquer tamanho

Não pretendo

Não pretendo deixar filho
Nem conhecer o Japão
Nem me jogar sobre os trilhos
Nem na frente do caminhão

Não pretendo votar em direita
Ou conviver com quem
Nem converter em pesetas
As vidas de algum Iêmen

Não pretendo cursar cinema
Ou mais alguma matemática
Nem resolver mais problemas
Além do que me mata

Não pretendo ver (mais do que) 2 mil filmes
Nem ler (mais do que) 300 livros
Nem me esconder no insufilm
Da estrada para lugar nenhum

Só é livre quem vence o ridículo
Se não for assim deve ser desperdício
Não queria me desperdiçar 
Mas também não quero vencer

Não pretendo me despedaçar
Nem unir os pedaços
Não pretendo me amarrar
A outros colapsos

Vastos são os erros
Na flor do asfalto os acertos
A economia é o soterro
Por sobre seus desafetos
Sem tetos
Considerados insetos
Ao sistema

Não pretendo vencer o sistema
Porque não posso

Curvado

Tive um último sonho. Estava na minha antiga escola, no pátio adjacente ao ginásio. Não lembro o que fazíamos para passar o tempo. Estavam todos lá. De repente, houve uma chamada e segui os demais que iam entrando para o ginásio. Ocorreria algum evento. Era Olimpíada. Havia como que classes posicionadas junto à linha lateral da quadra. Poderia ser um local de espera improvisada para realmente entrarmos em cena, ou poderia ser a tribuna, também no improviso, para assistirem aos fatos. Conforme foram tomando posição, escolhi uma cadeira. Percebi que fiquei na divisória entre nossa cor e a adversária. Havia dois meninos, que na época não sabíamos, hoje sabemos que são gays. Eles nos provocaram, à espera de vencer. Eram dos oponentes da ocasião. Realmente eram de outra turma. Um me acertou uns tapinhas no rosto. No sonho eu estava indefeso, sem reação de reflexo para impedir.

Aguardei ali as diretrizes daqueles jogos. A coordenadora surgiu ao centro, como se fosse um show business. Só faltava o microfone descer do teto por um fio, em direção à sua mão. Mas talvez ela realmente erguesse um microfone. Estimado público.

Do nada traziam uma caixa com algo dentro. Ela anunciava a atividade, capturar o coelho cinza. Achei absurdo. Alguns se prontificaram em ajudar na caça. Seria uma equipe contra a outra. Provavelmente com vitória de quem capturasse antes. Me repousei o corpo contra a parede, as mãos para trás. Não quero. Não vou. Um colega tenta me convencer. Sem chance. Deixa o coelho. Que tipo de jogo é esse?

Ela de repente abre a caixa antes das equipes se posicionarem devidamente em volta. O coelho naturalmente dispara. Foge. Eu meio que comemoro. Até vou um pouco em direção a ele, talvez tomado pela curiosidade de onde vai parar o bicho. Ele vai pela única saída em que não precisa driblar o público. O coelho cinza some. Fico aliviado e aflito. Onde ele vai se esconder? Até quando? Alguns se prontificam para capturá-lo para o grande número, afinal, o que vale é o jogo, o que acham ser lúdico. Idiotas. Eu fico paralisado. Esperando e não esperando encontrá-lo. Muitas coisas na vida são assim. Se espera e não se espera encontrar. Quer e não se quer.

Mediante a ineficiência dos demais em encontrar o sofrido bichinho, saio daquela paralisia, mas não retorno à posição de origem, nada da lateral junto à parede, onde eu torceria junto ou não, mas me recusaria a participar daquela brutalidade, daquela selvageria. Pensei em todos os ritos de caça, nos mais e nos menos necessários, alimentação ou dito esporte. Malditos os últimos.

Percorro o ginásio rumo à saída pelo qual eu havia entrado, é uma abertura do solo ao teto. Antes, próximo da trave, da goleira, sou interceptado pela coordenadora, com um sorriso amarelo de quem falhou e deixou o coelho escapar, e também um antigo colega, o único melhor do que eu na matemática do fundamental. A coordenadora era professora de matemática. Ele se pergunta porque eu ando encolhido, curvado, cabisbaixo, de má postura ereta. Apenas respondo que sou assim. A coordenadora faz coro. Eles ficam ali a me analisar. Eu tomo o rumo da saída. Curvado, virguloide, decepcionado. Com tudo. Com todos.


04/08/2021

Vôlei de Praia brasileiro é eliminado antes da semifinal pela primeira vez



Fotos: COB

Por: Henrique König

O Vôlei de Praia foi instituído nos Jogos Olímpicos em Atlanta, 1996. Desde então, ao menos uma medalha era conquistada pelas duplas brasileiras no torneio. Mas em Tóquio 2020 não teve jeito. As quatro duplas, duas de cada naipe, foram eliminadas antes da fase semifinal. Nem o gostinho de uma disputa pelo bronze. Apesar dos ainda bons resultados no Circuito Mundial, uma das modalidades que mais trouxe alegrias para os brasileiros fica em alerta. É preciso se perguntar o porquê as coisas ocorreram assim.

A dupla favorita do Brasil era Agatha/Duda, mas elas não passaram pela dupla alemã da atual campeã olímpica, Laura Ludwig. A experiente atleta da Alemanha mudou de companheira, jogando com Margareta Kozuch. Mas as próprias alemãs foram eliminadas na fase seguinte, nas quartas, para uma dupla norte-americana.

Foi nas quartas que Ana Patricia e Rebecca pararam nas suíças Hiedrich e Verge-Depre. Ana Patricia relatou um dia de logística muito complicada, pois não dormiu e passou por diversos sintomas. Isso refletiu em sua atuação muito abaixo em todos os fundamentos. Rebecca tentou conduzir o jogo, mas não foi páreo para as europeias. Eliminação brasileira antes da semi.

Este foi o panorama também entre os homens, que tiveram os mesmos algozes. A dupla da Letônia, um país encostado à Rússia e ao Mar Báltico, com cerca de 2 milhões de habitantes, ou seja, uma Curitiba. Plavnis e Tocs venceram as duas duplas do Brasil.

Nas oitavas, eliminaram Bruno Schmidt e Evandro. Fica o lembrete que Bruno passou pela covid-19, foi internado, correu mesmo riscos sérios contra sua vida e sua participação em Tóquio foi considerada heroica. Na fase seguinte, nas quartas, Plavnis e Tocs passaram por cima de Alison e Álvaro pelo placar de 2x0.

É hora de lamber as feridas e tentar entender o que deu errado nas areias pelo lado brasileiro na Tóquio 2020.

Confira o número de medalhas do Brasil no Vôlei de Praia nas Olimpíadas:

1996: 1 ouro e 1 prata

2000: 2 pratas e 1 bronze

2004: 1 ouro e 1 prata

2008: 1 prata e 1 bronze

2012: 1 prata e 1 bronze

2016: 1 ouro e 1 prata

2020: 0

Multicampeã mundial, Ana Marcela fatura Maratona Aquática na Olimpíada


Foto: Jonne Roriz - COB

Por: Henrique König

Ela buscou o ouro dela. Na noite de terça-feira (3), já dia 4 de agosto no Japão, Ana Marcela fez história pelo Brasil e conquistou a quarta medalha dourada do país na Tóquio 2020. A nadadora fez uma prova de muito fôlego e superação para ultrapassar adversária e ficar com a primeira posição no último trecho da Maratona Aquática.

A liderança era da alemã Leonie Beck durante a maior parte da corrida, mas Ana Marcela Cunha cravou o tempo de 1h59min30.8s. Ficou um corpo de vantagem sobre a segunda colocada, a holandesa Sharon van Rouwendaal e quase dois segundos de vantagem para a australiana Kareena Lee, que fechou o pódio. Leonie Beck perdeu a medalha no último trecho.

Em sua trajetória, Ana começou com o 11º lugar no Mundial de 2011. Ficou fora da Olimpíada de Londres 2012. No Rio de Janeiro, se preparou mal na logística para a prova, com problema incluso de alimentação e terminou em 10º nas águas cariocas em 2016. Mas no Circuito Mundial, ela é tetracampeã. Soma mais de 25 de ouros em etapas pelo mundo, mais de 50 medalhas ao todo. Ela precisava de uma glória olímpica. E ela veio.

Ana Marcela do Brasil se torna a quinta brasileira campeã em competições individuais em Olimpíada. Tudo começou com Maurren Maggi no salto em distância, passou por Sarah Menezes e Rafaela Silva no Judô e desembarcou em Tóquio com Rebeca Andrade, o mito da Ginástica Olímpica, e Ana Marcela Cunha na Maratona Aquática.

Lembrança aquática também para a dupla bicampeã: Martine Grael e Kahena Kunze, vencedoras no Rio 2016 e em Tóquio 2020 no Iatismo. É o Brasil das águas!

01/08/2021

Pelos finais (e inícios)

Moro no último prédio da última cidade ao Sul do Brasil, o último país em muitos indicadores. Ok, não é a última cidade, mas nenhuma cidade mais ao Sul do Brasil é maior do que a nossa. Rio Grande pode dizer o mesmo, se assim desejar, pois fica mais ao Sul. Porto Alegre pode se referir a si mesma como a capital mais ao Sul, nenhuma outra é maior do que ela no sentido meridional. Enfim. Moro literalmente no último prédio, na última quadra de uma das ruas importantes, onde estão prédios da administração pública, jornal, poder legislativo, associação de professores e servidores da educação pública e muito mais. Também estou. Com apenas uma volta da chave - me mentiram que eram duas - saio a passear e a explorar o novo bairro e suas peculiaridades.

Prédios essencialmente antigos com mais ou com menos desgaste. Recordo, quando retornava desses passos, de uma família negra a passear. A criança empurrada pelo pai em um carrinho assim projetado, enquanto a mãe colocava na linha um cachorro enroupado contra o frio. Reparei nos prédios que nos cercavam, no estilo colonial português, mas na mão de obra escrava. Hoje menos de 1% das pessoas pensa nisso quando cruza por essas históricas ruas, que tanto presenciaram.

Ao morar em um prédio - o último da última maior cidade? - tenho reparado mais para cima, os cartazes de vende-se ou aluga-se, muitos espaços vazios. Muita gente nas ruas. O contraste é tremendo. Acumulam-se em portas de bancos, marquises, calçadas, prédios públicos e privados em busca de algum aconchego. Muitos preferem ficar assim e não seguir as ordens de abrigos municipais. Riscos contra as noites de temperatura quase negativa. Meu amigo relata que à porta do banco com o qual trabalha para suas transações, os moradores de rua o têm ocupado (invadido? a gosto de quem lê... barbaridade) para suas refeições mas também necessidades fisiológicas. O mundo selvagem do nosso centro. Haja trabalho para quem lida com a limpeza do espaço. Haja constrangimento aos clientes. E quem age pelos infratores, que permanecem nas ruas? Haja polêmica. Só fica também a lembrança que as instituições bancárias e seus banqueiros aumentam o lucro trimestral ano após ano, faturam de bilhões a trilhões - para quem sabe contar até tudo isso. Os bancários até sabem, mas nunca têm essa quantidade em mãos. Quanto aos ali depositados, contentam-se com algumas moedas para uma refeição. Embora não se faça mais refeição com pouco níquel.

Pela praça, quando eu ia em direção ao centro do centro, as crianças se enfileiravam para brincar nos espaços públicos, sobretudo nos balanços, escorregadores e gangorra. Os pais a vigiar, o vozerio a ecoar ao longe. Quando regressei, com a noite se aproximando os brinquedos já estavam vazios, a penumbra a tomar forma. As últimas poderiam protestar a ordem do recolhimento rumo às suas casas. Ordens dos pais. Enquanto isso, descia de um carro, a poucos metros dali, uma senhora com muita dificuldade de locomoção, necessitando da ajuda das mais jovens pessoas de sua família. Seguiram em passos retesados, os sapatos como âncoras, como revela a música de La Vela Puerca.

Os grafites contrastam ou muitas vezes complementam-se com a pintura viva de alguns prédios antigos. Os espaços vazios também se fazem notar, em uma ou outra esquina. O mato cresce desordenado. É o panorama do final do centro. Para outro lado, rumo ao bairro ferroviário (amo chamar assim) Simões Lopes, um maluco de esquina se assemelha a qualquer trabalhador marítimo, de touca, barba por fazer, dentes pouco cuidados e a balbuciar besteiras. Cumprimentou-nos e perguntou sobre as gurias. Disse que é bom e tem que ter, que a ele faziam falta. Me questiono se realmente fazem e confesso que - hoje - são raras noites. Para outro transeunte, ele cumprimenta um suposto primo. Tudo invenção daquela mente mirabolante. Logo adiante, um outro tenta adentrar um portão, provavelmente da empresa em que trabalha, portão extenso, de ferro e que serve para qualquer manobrista de caminhão contorná-lo com facilidade. Assim espero que seja e não uma cena de arrombamento...

Em outra madrugada, escutei um suposto assalto. Com as janelas todas cerradas como manda o horário - mas poderia ser desde mais cedo da noite - um suposto assaltante a atormentar um suposto passista. O ameaçado insistia em voz tentando manter a calma, porém um pouco trêmula na execução da fala. Dizia não portar objetos de valor em um traduzido "já te disse que tenho nada" e complementou "só queria dar uma banda". O relógio marcava 4 horas da manhã. Eles seguiram caminhando rumo aos fundos desse fim de Centro, para onde a vila se instaura e muitos anônimos para nós mas bem conhecidos entre eles, se empilham nos intuitos da sobrevivência, em busca do aluguel ou da moradia mais barata, em busca de um sonhado despertar melhor em algum dia.

No regresso para minha casa, pela narrada caminhada, antes de encontrar a família negra e pensar sobre a mão de obra dos 'portugueses' prédios, passei pelo edifício onde uma amiga morava. Ela transferiu-se para Brasília. O prédio está pintado de forma diferente e, aos meus olhos, nunca pareceu tão pequeno, assim em azul. A rua que por ali corre ganhou uma camada asfáltica, coisa que me inclina a dizer que chega a ser bagaceira. Passados alguns dias da operação de recapagem, o cheio da camada asfáltica ainda se ergue contra nossas narinas, é inebriante, um químico poderoso. Passo por portas de ferro baixadas - são as lojas - passo por igreja que também por milagre em pleno domingo encontra-se fechada. Mesmo em pandemia, a missa deve ter sido mais cedo. Pela rápida excursão aos rumos do Simões Lopes encontramos uma aberta. Enfim, a mais próxima de minha casa, histórica construção que ergue-se coberta por plantas, cartão postal local, apelidada carinhosa ou ofensivamente de "cabeluda", encontra-se  fechada. Seus singelos bancos ordenados e distribuídos para um gramado e um jardim também não recebem hóspedes. Pela pousada próxima de minha morada, um sujeito não alterou a posição entre o meu ir e vir, pois permanece com seus tênis Adidas depositados sobre a mesinha de centro. Tremendo tédio que o inebria tanto quanto a camada asfáltica afetou-me minuto atrás.

Com mais uma volta para abrir e mais uma para fechar, regresso ao último prédio da última quadra da última maior cidade do Brasil, um dos últimos países em alguns indicadores. O que estou fazendo comigo? Quais serão os próximos passos? Emaranhado de incertezas, mas com certeza a chave da porta vira menos do que eu achava que precisaria virar. E isso não é metáfora. Ou é?

Pensava que o inferno era quente

E o inverno era frio

Mas não era diferente

E frio foi o que sentiu

Sobre meu avô

Queria iniciar este texto com somente impressões de mais um domingo de movimento quase nulo no centro de nossa requintada cidade. Mas o estado de saúde terminal de meu avô, com quem logo destaco que pouco convivi, interrompe meus pensamentos e os redireciona. Imagino minha avó que foi casada com ele por muitos anos e com o qual teve duas filhas, minha mãe e minha tia. Meu avô que para exemplo dos mais positivos dentro de casa creio que não serviria, mas foi trabalhador nos caprichos da marcenaria, ramo com o qual eu precisaria renascer para tirar algum sustento/proveito. Aos seus chegados 90 anos, passava a queixar-se bastante de dores no quadril, situação comum aos carpinteiros.

A prima de minha mãe, portanto não filha de meu avô, mas que o tinha como um pai, por ter crescido sem o seu biológico, me contou certa vez das dores de cabeça que o atingiam pelo esforço repetitivo das batidas ou pelas algazarras que as mulheres da casa promoviam, em incessantes bate-bocas. Minha tia contou que meu avô posicionava a parte metálica e, portanto, gelada do martelo sobre sua testa, a fim de relaxar a pressão que a testa exercia. Hoje quem ameaça parar de funcionar não é a cabeça, mas a insuficiência cardíaca. Ele está transferido. Passados 90 anos desse imigrante filho de talvez alemães ou talvez poloneses pela inconstância total do sobrenome Venzke, nomenclatura que muito me faz pensar sobre minhas raízes mais para o centro ou mais para o leste da Europa. Na dúvida que me surge, simpatizo com a fragilidade da Polônia ao competir no mais visto futebol ou mesmo em outras modalidades, agora em clima olímpico e ela com dificuldades para somar um mísero ouro. Mesmo assim, ao longo da história é uma Polônia forte, muito por conta das polêmicas Olimpíadas realizadas nos tempos da Guerra Fria, em que o leste europeu competia forte com países como Bulgária, Romênia, Checoslováquia e a mais forte União Soviética, ainda insuperável por outro país que não sejam os Estados Unidos da América.

Mas voltando a meu avô, a única vez que o vi junto à minha vó, pois quando nasci já haviam terminado o relacionamento havia muitos anos, a única vez que os vi juntos foi no enterro de minha tia-avó. E conversaram como velhos amigos em uma conversa longa e até despropositada pela ocasião. Chegavam a se empolgar e a atrair a atenção dos demais comparecidos. Minha família e suas oportunidades como geradora de vergonhas alheias. No caso também a minha vergonha, pois eram meus ascendentes. Eles conversaram como um velho casal. E de fato eram, com o único porém de que não trocavam tantas palavras e de forma tão efusiva havia no mínimo um par de décadas - ao menos dentro do meu campo de visão - pode ser que tenham feito isso em outra ocasião. Mas como cada um passou a morar para uma ponta extrema de nossa cidade, creio que a raridade daquela ocasião era tremenda.

Pois imagino minha avó a chorar caso se confirme a notícia que nem tanto tememos, pois dentro de minha família há um consenso da passagem da vida e que, se não há mais o que tirar de positivo, qual o realmente mal dele partir? Não estamos em busca dos recordes por longevidade, embora sejam interessantes de observar nas famílias alheias. Meu avô hoje é o mais velho vivo, aos 90. Minha avó está prestes, na outra semana, se assim permitirem, completará 88. A família de minha mãe costuma parar de forma octagenária, como foi o caso da tia-avó do enterro em que minha avó e meu avô se encontraram - falecida aos 87.

Imagino minha avó a chorar pelas lembranças que com certeza evocará, das mais distantes às memórias ainda possíveis de acessar mesmo através da idade idosa. Por exemplo, ela deve ter em mente a longa conversa realizada no velório da irmã. Deve recordar juventude (jovens se casavam) e anos iniciais da vida adulta ao lado dele. Eles que tão pouco têm a ver, mas sinto como se completassem. Ele extremamente calado, ela extremamente falante. Ele calmo como água de poço, minha vó elétrica, tagarela, agitada, ansiosa como poucas pessoas. Se houvessem diagnósticos passados para essas doenças da mente, certeza que incluiriam medidas para conter tamanha ansiedade que a envolve. 

Imagino minha avó a chorar porque das pessoas que duram tanto em nossas vidas e assim partem, as memórias permanecem, mais ou menos mexidas, isto conforme a idade avança e urge a batalha incessante contra outro alemão, o identificado mal Alzheimer. Minha avó não chegou a ser assim diagnosticada, mas passa por um processo até considerado natural de esquecer coisas recentes e trazer à baila acontecimentos de décadas anteriores, sobretudo da juventude e dos primeiros anos da vida adulta. Às vezes evocando personagens que estão apenas no meu imaginário pela falta total de convívio, como "Tiemília", os "Mackdanze", entre outros. Talvez o chamado Adão Bom Vizinho. Pessoas de meu total desconhecimento. Só não totalizado porque minha avó os transporta à nossa casa com histórias desses tempos mais do que remotos.

Imagino minha avó chorar porque mesmo que falasse mal do ex-companheiro, algo de proveitoso teve, nem que seja minha sagrada mãe e sua irmã. Algo de positivo teve, do contrário eu não estaria aqui. Eu que já os amaldiçoei por aqui estar, mas reconheço a importância deles para esse processo evolutivo e progressor da espécie humana. Trecho positivista demais para meu duvidável gosto. Mesmo com tantos os problemas que os levaram à separação e em maior ou menor parte superação, algo de um permanece sobre o outro. Eles que nunca romperam de vez o matrimônio em processo de divórcio. Meu avô arrumou outra companheira para a ponta oposta da cidade e eu os visitei algumas dezenas de vezes - não muitas. Eram encontros anuais e mais algumas vezes. Recordo que meu avô também nos visitava. Eles vinham de moto, formigas atômicas como as do desenho animado. O trânsito se tornou cada vez mais violento e as dores nas pernas - e quadril - de meu avô logo limitaram também essas visitas.

A violência tomou conta de bairro e lembro algumas histórias de tentarem invadir-lhes a casa por meio de golpes de prestação de serviço e também de pedidos de auxílio. Diabos que enganam velhos parcialmente indefesos. A família para meu avô foi muito mais a dos netos de sua segunda companheira. Não reclamo, pois, tão pouco afeto a outras pessoas e mesmo parentes, ainda pude usufruir do outro avô que minha avó nos forneceu, o tenente Gedir, muito prestativo e companheiro, mais jeitoso e carinhoso do que meu avô jamais seria, mesmo distante ou mesmo próximo. Tanto faz. Jamais reclamo sobre isso e, diferentemente à minha irmã, eu o entendo e perdoo qualquer falta. De minha parte, estamos livres e quites. Eu o agradeço por eu estar aqui hoje. Hoje, agora.

Termino com meu reiterado desejo de que meu avô não sofra e, se tiver que ser essa a viagem derradeira, de moto ou seja qual veículo for, que ele a faça e livre-se das dores no quadril, nas pernas, na postura e que jamais tenha novamente que consertar uma cama, uma cadeira ou posicionar o frio do martelo sobre sua testa. Este foi um breve relato sobre meu avô.