Pele clara como a lua e no restante era soturna como a noite. Entretanto, era uma figura bem quista nos meios por onde andava, apesar de ser considerada estranha ou, no mínimo, peculiar. Ela era uma amiga fiel para os momentos mais difíceis, aqui repito depoimentos que me foram passados. Aconselhava em conversas demoradas de meia ou mais de hora. Assim era bastante requisitada quando a coisa apertava e se mostrava solícita em prontidão. Essa característica principal, tão repentinamente ressaltada, mostrava sua voraz vontade de ajudar o próximo. Não se limitava aos amigos, portanto até as noites de bares e os raros acompanhamentos que fazia em festas rave resultavam nisso. Ela percebia um mundo em que muita gente necessitava de cuidados ou o mínimo de quem as ouvisse.
Laís entrava na fase dos 20 e poucos, um tanto chocada pela passagem do tempo, mas "faz parte", como ela própria poderia frisar ao final de suas reflexões. Quando não encontrava saída ao labirinto de fauno, o "tanto faz" poderia ser invocado para o término de seus raciocínios, como quem se cansa da leitura e pousa delicadamente o livro com a fita vermelha a demarcar a página onde cessou-se a atividade de correr os olhos pelas linhas.
Ela tinha o hábito das tatuagens, mas sua grande paixão eram os piercings, personagens centrais de nosso enredo. Ela preferia a noite e preferia o frio, de modo que sempre imaginei sua cidade-natal como alguma regravação brasileira de Crepúsculo. A pouca luminosidade, as araucárias e outras árvores a povoar a região em seus exércitos abastados, todos de continência a seus postos. Os jovens com suas camionetes a cortar o asfalto nas noites, driblando fiscalizações em missões não como os contrabandos dos Estados Unidos no início do século passado, mas portando e consumindo bebida alcoólica no revezamento dos motoristas, designando a infração contra a lei. Sabiam que uma rápida observação com a lanterna para dentro do espaçoso carro resultaria em apreensões e problemas federais com os de uniforme azul e amarelo.
Mas "faz parte". Ela própria, em geral, respeitava as mais obtusas leis de nosso Estado. Difícil bancar a mãe dos outros, de idades semelhantes ou às vezes inclusive maiores, o tempo todo. O alerta por ela era dado, o registro era feito, mas a decisão, a escolha eram dos demais ocupantes. Os amigos e os amigos dos amigos. Out of control.
Era bem dedicada aos estudos, mas não sabia exatamente o que estudar. Tinha aptidão para diversas áreas, da saúde, com seus instintos protetores, ao direito-penal. Não era difícil imaginá-la em discurso bem ponderado, coerente e obstinado perante Vossa Excelência. Em fechamentos discursivos que não raramente dariam início a uma salva de palmas e uma unânime condenação, caso escolhesse esse lado, ou uma unânime absolvição, como no dia a dia lhe era mais frequente.
Possuía uma empatia muito grande pelos demais seres humanos e animais. Conhecida nossa personagem de olhos e cabelos negros e de preferências totalitárias noturnas em relação ao brilho do dias, chegamos aos pequenos personagens. As minúsculas esferas brilhantes, porém tímidas. Fieis aliados como um exército devidamente equipado da arma à qual ela precisava nas mais distintas situações. Os obedientes (ou desobedientes) piercings eram estruturas centrais para entendermos Laís.
Você deve estar pensando "ok, ela gostava de piercings, mas e daí?" mas a questão ia muito além disso. Ao ter os piercings com ela, espalhados por regiões visíveis cotidianamente ou não, ela adaptou a melhor desculpa possível para fugir de situações constrangedoras, ou cansativas, ou maçantes em geral. Sempre que algo se encaminhava para resultar nesse enredo pouco confortável, Laís de prontidão preparava sua melhor atuação - atriz desse porte semi-profissional que era - e após uma ou outra engolida em seco, disparava a frase: "perdi minha bolinha do piercing".
Tudo bem, o pessoal que entendia mais ou menos das complexas estruturas piercierianas, iniciava o mutirão pela recuperação do mais legítimo elo perdido. Após uma vasculhada pelo solo, em que todos se propunham na dura missão de visualizar o desafio à miopia e, ao mesmo tempo, tentando não pisar por cima do sumido dito cujo. Laís defensivamente sensata esperava alguns movimentos, uns cabisbaixos como se estivessem preparando-se para a mais fidedigna imitação de um avestruz, ou de pombo a catar os grãos jogados nas praças, e então a menina protagonista (ou eram os piercings?) abdicava da ideia e dizia ao público-geral, informando a suspensão das buscas: "acho que perdi antes, já volto".
Ela saía do recinto e recusava qualquer auxílio-extra. "Não, não, podem continuar aí, não quero atrasar vocês". E, coração bom que ali pulsava, não queria mesmo, somente a paz que tanto zelava e estava ameaçada segundos antes. Mais eis o singelo sabor da liberdade em poder tirar um tempo de tanta socialização, de tanto barulho e conversa alta. Tirava um tempo para contemplar a natureza, um de seus escapes favoritos, principalmente nas noites estreladas em que se deliciava a procurar - e a encontrar! - constelações. Ou ela ia a um banheiro e se fechava na cabine para refletir sobre a imensidão da expansiva vida, aquele universo que fugia ao seu perfeito alcance, mas não ao interesse.
Teórica, filosófica, exploradora da natureza. De fato que, como possuía os piercings em áreas de total desconhecimento do que a cercavam, ninguém duvidava de seu curioso método de retirada. As tropas saíam em debandada, ela e seu exército de orientandos piercings. Moça peculiar - no adjetivo dos mais elegantes - até esquisita - nas mais diretas palavras em tons veladamente ofensivos. Ela sabia que era impossível fugir desses comentários maldosos, mas as saídas dos ambientes tóxicos - palavra da moda para época - eram cruciais para a manutenção da sua saúde mental. Ela sabia disso e assim vivia.
Mesmo em excursões, viagens a locais novos: "perdi minha bolinha do piercing". E Laís sumia no horizonte para receptores estupefatos daquela repetitiva cena. "Ah, não, Laís, de novo" e ela mal ouvia, apressada, rumando para seus tramados esconderijos. Dizem que a primeira coisa que a pessoa tímida nota em um novo recinto é a porta pela qual ela pode escapar. Laís ia além e preparava verdadeiras táticas de guerra, estratégias ademais do conhecimento dos maiores generais. Justo ela, menina interiorana gaúcha, tão distante de ocupar um apropriado e nada exagerado cargo de Ministra da Defesa. Sim, capitã.
Ela fazia nenhuma evacuação como descer em um cano escorregadio com uma maquiagem militarmente camuflada, nada disso. Nem saltos de dublê pelas janelas dos prédios para se acocorar nas árvores. Os piercings faziam o trabalho duro por ela e depois era só meditação e autoconhecimento, orgulho para o ET Bilu e demais praticantes das teses elaboradas desde a Grécia de Sócrates, Xenofontes e Platão.
Não importava a ocasião, Laís imaginariamente riscava sobre a pele clara e sardenta das bochechas as pinturas guerrilheiras abaixo dos atentos olhos. Estreitava aquele par de amêndoas e botava em prática a frase mais vital para ela do que estourar uma granada em cerceamento inimigo: "gente, perdi a bolinha do piercing". Ela se acostumou a ouvir dos amigos e amigas mais próximos que precisava dar um jeito nisso. Comprar de outra marca, ser mais atenta, tirar logo essas porcarias, bradavam os já impacientes ou propositalmente implicantes contra a moça, que mergulhava vez a vez para um campo de suspeita. Afinal de contas, espiã de guerra de tantas e recorrentes missões acaba se tornando alvo das linhas adversárias. Não é sempre que o contexto de infiltração nas linhas inimigas saía com a mais perfeita distinção e discrição. Mas ela era boa, confiem na Laís.
Não raras vezes salvou bêbados em bares underground, mas prudentemente não esperava pelo avanço das tropas aliviadas em hálito vômito-fresco. Boa hora para perder a bolinha do piercing, com certeza. Outra vez eram os amigos dos amigos, eles achavam que "ah, mas agora vai, ela tão solitária, tão na dela, esse é um bom rapaz e nem bebeu demais", mas que nada. Laís ao banheiro, Laís para o corredor mais rápido, Laís para longe, procurar a bolinha de alguns dos revezados piercings na missão de proteger sua hospedeira.
Das amigas, que ela tanto ajudava nos anos anteriores, passou a ganhar títulos e apelidos curiosos pelo seu comportamento excêntrico, mas no fundo as mais próximas, sim, elas bondosamente reconheciam o papel fundamental de Laís na formação do grupo, perfil conciliador, entendedora das dores alheias melhor do que qualquer enfermeira ou mapeadora googleana de perfis esquizóides. Laís reconciliava amigas prontas para se darem tesouradas, juntava casais separados, lia a sorte nas borras do café e o futuro cartomante nos naipes do baralho. Mentira, não trazia o amor de volta em três dias. Não sempre, o que significa que uma propaganda no outdoor aqui poderia caracterizar publicidade enganosa e não queremos isso. Nem Laís nos pagou mensalidade de anúncio em 199,99 reais.
Leitora assídua de autores conturbados, poetas marginais e das periferias dos países mais ou menos periféricos, fazia uma boa ponte desse conhecimento tão desconhecido da sua geração brasileira aprendiz das versões traduzidas por Herbert Richers. Transpunha olhar para o céu e ver as estrelas que memorizava e tão natural para ela era recordar dos nomes, mas olhava para si mesma, em espelhinhos de bolsa ou espelhos pichados a batom ou canetas góticas nos banheiros e não saber o que via. Laís se viu só escudo naquela batalha, tão solitária era ela e suas bolinhas de piercing. Defendia-se mesmo de quem estava próximo e querendo ajudar.
De piercing em piercing perdido, logo logo eles podiam ficar quietos no contato com sua pele, porque era ela mesma quem não aparecia nos locais. Não tinha tempo ao cinema, não iria à festa da Fulana porque ela já não se sentia à vontade e não tinha mais idade para festa, dizia diretamente ou para si mesma - cansada de cuidar bêbados conhecidos ou desconhecidos - deixem meus piercings quietos!
Sua mãe estranhava ela mais para dentro da prisão domiciliar de seu quarto, ela que há meses nem para piercing mais saía de casa. Não pensem que ela andava com o rosto refletindo cada raio de sol. Não, os piercings eram discretos, uma orelha, um mamilo, uns mais para baixo. Mas nenhuma ida ao agulheiro para novas ideias ou renovações no exército dos piercings e suas artilharias de bolinhas perdíveis. Laís andava realmente cansada.
Para as aulas, na terceira graduação que iniciava, ela ainda ia. Os novos colegas estavam tão pouco familiarizados à moça que nem sabiam que ela perdia as bolinhas dos piercings. Ou, perdão, não perdia. Vocês entenderam. Mas a Laís não se entendia. O que havia crucialmente mudado? As pessoas eram as mesmas, ou pelo menos semelhantes, não estava no ser humano a resposta. Ou estava? Nas noites com ou sem lua, nas constelações da Cruzeiro do Sul, das Ursas ou da Fênix. Pássaro vindouro era o que ela precisava ser. Renascer praticamente, porque assim já não dava, não havia condições de suportar esse atordoante sofrimento. "Laís, pelo menos a janta, minha filha." "Já vou, mãe", respondia, mas não ia, não saía daquele quarto.
Foi então que estava prestes a tomar medidas drásticas: arrancaria todos os piercings. Uma revolução que não seria televisionada, nem pelo rádio. No silêncio daquela operação. Entretanto, ela nunca ocorreu, porque, na véspera do dia derradeiro, da tomada de coragem, na respiração em garganta profunda para essa decisão, veio um acontecimento marcante para servir de reviravolta.
Ela era magra, roupas escuras como as de Laís, cabelo escuro e com uma franjinha que tapava levemente o olho direito, em uma união com sobrancelha que nossa heroína jamais esqueceu. Ela apareceu pelo campus e era a primeira vez sem dúvida que Laís a viu naquela graduação chamada vida. Ela comprou um sanduíche e um suco e Laís, metódica que sempre foi, olhou cada sumiço de queijo e alface e o desaparecimento do líquido na garrafa até o final do conteúdo naquele fatídico intervalo. A informação que estava sendo destrinchada foi concebida em seguida pelos piercings: pessoal, nós vamos ficar.
Laís não mexeu nos piercings no dia seguinte, nem no outro, nem na semana posterior. Mas mexeu suas atitudes e foi de encontro àquela figura que lhe havia tomado o ápice da atenção. Conversaram sobre Beatles, esporte, aquecimento global e o que Gessinger acrescentaria em hora certa, crime e religião. Se traduziram da melhor maneira possível, da forma como estava inimaginável para Laís sair de seu cronograma frustrado rumo à derrocada definitiva de seus amáveis piercings. A melhor parte era essa: Júlia gostou dos enfeitados piercings.
E foi nesse trajeto de crescente amizade, Laís no curso de administração, Júlia na antropologia, que elas seguiram se encontrando entre intervalos e sextas que viravam sábados e, por que não? domingos. Laís voltando ao cinema e retornando a sair para comer alguma coisa, não só a janta que sua mãe insista nas repetidas batidas na porta pelas noites. Laís reencontrou velhos e novos amigos, tão novos que ainda nem tinham sido feitos, mas começavam seus laços. Júlia foi uma grande resposta. Laís olhava para o céu e não entendia com as estrelas a sorte que teve de encontrá-la, naquele intervalo de aula, naquele intervalo de tempo, no que ela realmente precisava, mais do que nunca, que digam os agradecidos piercings. Você os salvou, Júlia.
E Júlia merecidamente os conheceu. Foi os conhecendo e reconhecendo e totalmente acostumada um após o outro. Conheceu em salas fechadas, tateou em aulas experimentais em meio à natureza. Conheceu nas cabines de banheiro muito bem ocupadas. Deixaram iniciais naquele espelho e Laís já se entendia melhor com as novas manias com a beatlemaníaca. Entendia sua amiga em harmonia com os astros, com Freud, Carl Gustav Jung, Edgar Morin, Melanie Klein, Ana Mercês Bahia Bock e toda a sorte de autores e autoras. Entendia sobretudo a certeira tomada da boa paz quando, com ela ao lado, ombro a ombro, peito a peito, corações ritmando ora fortes, ora calmos, bem suaves, um cilindro com vida própria entre o indicador e o dedo médio e Paul McCartney e John Winston Lennon a repetir o que se propaga há anos: all you need is love.
Créditos rolando na tela. Intactos na formação inicial dessa Laís, que concluiu a sua terceira tentativa de graduação no ensino superior, diplomada em administração, as bolinhas dos piercings jamais, em momento algum, sumiram na presença de Júlia que, sim, arrepiava os quase imperceptíveis pelos em volta delas. As minúsculas esferas ainda desaparecem estranhamente em cotidianos sublimes, mas Laís, confidencialmente, garante que o percentual de vezes é cada vez mais verdadeiro. "Faz parte."
22/04/2020
21/04/2020
especulação do mercado do amanhã
é mais comum para mim o anoitecer
teia que captura minha sanidade
todos com pressa para chegar em casa
eu com ânsia de sair do ser
táxis nervosos: sabem que vão correr
ônibus monótonos: itinerário a cumprir
corredores, placas e pausas:
uns subir e outros descer
motoboys e seus faróis
rasgam o trânsito entravado
deitam nas curvas, capas de chuva
asfalto quente no ar gelado
vendedores ambulantes se recolhem
itens que eles próprios não escolhem
há sempre o que vender amanhã
um bilhete, um sonho, um divã, um chaveiro
um devaneio: é inteiro, moço, ou é meio?
teia que captura minha sanidade
todos com pressa para chegar em casa
eu com ânsia de sair do ser
táxis nervosos: sabem que vão correr
ônibus monótonos: itinerário a cumprir
corredores, placas e pausas:
uns subir e outros descer
motoboys e seus faróis
rasgam o trânsito entravado
deitam nas curvas, capas de chuva
asfalto quente no ar gelado
vendedores ambulantes se recolhem
itens que eles próprios não escolhem
há sempre o que vender amanhã
um bilhete, um sonho, um divã, um chaveiro
um devaneio: é inteiro, moço, ou é meio?
poeminha
fui espremer uma espinha
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca mais fui quem eu fui
fui espremer uma espinha
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca mais parou de sair pus
fui espremer uma espinha
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca mais parei de escrever
fui espremer uma espinha
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca consegui terminar o poeminha
fui espremer uma espinha
e
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca mais fui quem eu fui
fui espremer uma espinha
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca mais parou de sair pus
fui espremer uma espinha
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca mais parei de escrever
fui espremer uma espinha
e
nunca mais parou de sair pus
faz jus àquela vez
que fui espremer um poeminha
e nunca consegui terminar o poeminha
fui espremer uma espinha
e
dorso urbano II
doce urbano
teu corpo na íntegra
corpo humano
integra minhas vontades
vacilamos
integra nossas necessidades
lá se vamos
dorso urbano
poema segundo
escondido ao quarto
que recriamos
um novo mundo
admirável e novo
como um Huxley transiberiano
Aldous de errado
não está certo
quando estás por perto
me afasto de todo o resto
do conteúdo urbano
ficamos
teu corpo na íntegra
corpo humano
integra minhas vontades
vacilamos
integra nossas necessidades
lá se vamos
dorso urbano
poema segundo
escondido ao quarto
que recriamos
um novo mundo
admirável e novo
como um Huxley transiberiano
Aldous de errado
não está certo
quando estás por perto
me afasto de todo o resto
do conteúdo urbano
ficamos
o canto dos cartórios
é tão raro para mim o amanhecer
que é mais comum eu emendar
do que acordar e ver
porém desse nascimento
que os pássaros anunciam
no cartório da Terra rotatória
ouço o som que provém
da assinatura de mais um dia
que é mais comum eu emendar
do que acordar e ver
porém desse nascimento
que os pássaros anunciam
no cartório da Terra rotatória
ouço o som que provém
da assinatura de mais um dia
dorso urbano
o último sol da tarde
é poesia
a quem você dedica
essa harmonia?
o último som da tarde
é a poesia
que estica esse momento
na noite após o dia
o último tom da tarde
tu adora o sol dourar-se
reclinado esconder-se
em dorso urbano desses
é poesia
a quem você dedica
essa harmonia?
o último som da tarde
é a poesia
que estica esse momento
na noite após o dia
o último tom da tarde
tu adora o sol dourar-se
reclinado esconder-se
em dorso urbano desses
18/04/2020
o ruim de conhecer a existência, o princípio e, posteriormente, os mecanismos da indústria cultural e do mercado, é que a partir disso restam poucas ou quase nenhuma opção para além da sombra de suas temíveis garras, trucidadoras do âmago de quem as ousa combater. o mercado às vezes sussurra e às vezes grita ao teu ouvido: sirva-te ilimitadamente das limitações. a indústria cultural é uma criatura elegante e graciosa. choca seus ovos e cuida delicadamente dos filhotes. só rouba e mata pomposamente em outros ninhos.
12/04/2020
viagem besta
a rede range
range
range
range
nenhum carinho
a cabeça vazia cai no poço
oco
Viagem Besta. Poeta Charles em '26 Poetas Hoje' - 1974 (organização de Heloísa Buarque de Hollanda)
range
range
range
nenhum carinho
a cabeça vazia cai no poço
oco
Viagem Besta. Poeta Charles em '26 Poetas Hoje' - 1974 (organização de Heloísa Buarque de Hollanda)
Rocketman
Elton John é um artista que sempre admirei. As músicas são tocantes, balançam como a chama das velas ao vento, as velas dos barcos ao vento e conversam com a alma, que é quem realmente precisa se sentar para beber um chá de vez em quando. Ou algo mais forte, como o próprio pianista diria.
Após assistir ao desfecho de Rocketman, filme sobre a vida do britânico Elton John, a apropriada metáfora de um queijo suíço me desfalece o corpo. Sinto os poros e os vazios, o ar atravessar-me. A solidão que ele sentiu mesmo rodeado em dinheiro e fama, e sexo e drogas, é preocupante. Converso com muitas almas, revezo cafés, chás, cervejas, mas todas me parecem passageiras. Seja espiritualmente, no que não podemos conciliar de mais denso para tratar, filosoficamente incompatível, seja pelos planos que - quais são eles? Me distanciam e mexem comigo. Afastar-me de portos seguros em direção apontada para onde?
Tudo que despejo em conversas sobre os mais variados assuntos, tudo que desaguo mesmo no encanamento à correnteza dessas linhas, tudo ainda perpassa como ponta do iceberg, como pedaço de fóssil não catalogado. Nem cabeça do fóssil pode-se afirmar, pois cabeça seria a parte mais importante ao desvendo de mistérios. Um braço, uma perna, um membro, uma pata. Só isso encaminhado.
Penso qual resposta seria-me dada ao ser mais sincero. Aprendi a desconfiar das pessoas pelas maldades - com ou sem motivo, planejada ou oportuna, surpresa ou improvisada - que ocorrem. Não posso abrir-me de todo, mantenho-me. A linha da estrada, os faróis à noite, é preciso deles. Ainda é. Não posso me permitir sair, para onde me levariam? Receio internações, medicamentos pesados. Ao menos que modifiquem na raiz do que compreendo e tento sobre a vida, de que adiantariam? Remédios preencheriam nada.
Pelo que se luta se, aos mais diversos exemplos, grandes realizações são distantes e só surgiriam a grandes custos e com quais benefícios? Com quem caminhar para elas? Quem te entende? As pequenas coisas, o dia a dia, o sol da manhã, o pão do café, o copo dele, ou de suco ou voltemos ao chá? Onde estão as almas? Estão sentadas à mesa? Estão em qual recinto, se é que estão na casa? Estão na cidade? Onde elas estão?
Agradar ao outro. Responder o 'sim' querendo dizer o 'não. Não esperar que o outro, que o próximo entenda o 'não'. Sabe o preço, sabe o desgosto, conhece o desaforo de cada 'não'. Mas conhece também por não ter dito. E isso engasga. Não! Não necessariamente a estrada é por ali. Não é por onde tantos passam. Não é o que tantos ouvem. Não é o que tantos escolhem. Não é onde o asfalto até gasto está de tantos os que passaram. Será a beleza de uma estrada em terra? Poeira na roupa e o que importa? Com quais roupas e onde, o que significa? Mas com quem? Que almas juntam a bagagem quando juntas, encara os desafios quando resolve-te a eles? Quem tem o luxo dessa companhia? Solidão. Poço fundo, escuro, soturno, lago onde não se enxerga o que há antes do fundo - muito menos o fundo.
Quem você permite? Quem te permite? Em quem você confia? Quem confia em você? Quem faz bem caminhar, unir pegadas, decidir pela mesma hora do almoço ou onde acampar? Dividir o quarto ao lado, não se importar com a televisão até altas horas da madrugada, seu mau humor diário, suas confidências estranhas. Chão frio. Banheira. Banho quente. Mente. Shampoo esfregado em movimentos circulares. Dedos ao teclado. Piano. Planos.
Toalhas de secar suor e outros fluídos. Tênis na lavanderia. Manchas, lençóis de verão, cobertores de inverno. Varandas. Cigarros, cinzeiros, quadros, papel de parede ou tinta, parquê, tábua corrida ou piso. Buraco na parede ali ou mais adiante, o que vai? Eletrônico, really? Inseticida, mais spray tsssssssssss tSSSSS até matar, não, melhor o mata-moscas. Cigarros, cinzeiro. Cinzas. Fênix. Voos. Não vou? Quem? Quem vai? Estar lá.
Após assistir ao desfecho de Rocketman, filme sobre a vida do britânico Elton John, a apropriada metáfora de um queijo suíço me desfalece o corpo. Sinto os poros e os vazios, o ar atravessar-me. A solidão que ele sentiu mesmo rodeado em dinheiro e fama, e sexo e drogas, é preocupante. Converso com muitas almas, revezo cafés, chás, cervejas, mas todas me parecem passageiras. Seja espiritualmente, no que não podemos conciliar de mais denso para tratar, filosoficamente incompatível, seja pelos planos que - quais são eles? Me distanciam e mexem comigo. Afastar-me de portos seguros em direção apontada para onde?
Tudo que despejo em conversas sobre os mais variados assuntos, tudo que desaguo mesmo no encanamento à correnteza dessas linhas, tudo ainda perpassa como ponta do iceberg, como pedaço de fóssil não catalogado. Nem cabeça do fóssil pode-se afirmar, pois cabeça seria a parte mais importante ao desvendo de mistérios. Um braço, uma perna, um membro, uma pata. Só isso encaminhado.
Penso qual resposta seria-me dada ao ser mais sincero. Aprendi a desconfiar das pessoas pelas maldades - com ou sem motivo, planejada ou oportuna, surpresa ou improvisada - que ocorrem. Não posso abrir-me de todo, mantenho-me. A linha da estrada, os faróis à noite, é preciso deles. Ainda é. Não posso me permitir sair, para onde me levariam? Receio internações, medicamentos pesados. Ao menos que modifiquem na raiz do que compreendo e tento sobre a vida, de que adiantariam? Remédios preencheriam nada.
Pelo que se luta se, aos mais diversos exemplos, grandes realizações são distantes e só surgiriam a grandes custos e com quais benefícios? Com quem caminhar para elas? Quem te entende? As pequenas coisas, o dia a dia, o sol da manhã, o pão do café, o copo dele, ou de suco ou voltemos ao chá? Onde estão as almas? Estão sentadas à mesa? Estão em qual recinto, se é que estão na casa? Estão na cidade? Onde elas estão?
Agradar ao outro. Responder o 'sim' querendo dizer o 'não. Não esperar que o outro, que o próximo entenda o 'não'. Sabe o preço, sabe o desgosto, conhece o desaforo de cada 'não'. Mas conhece também por não ter dito. E isso engasga. Não! Não necessariamente a estrada é por ali. Não é por onde tantos passam. Não é o que tantos ouvem. Não é o que tantos escolhem. Não é onde o asfalto até gasto está de tantos os que passaram. Será a beleza de uma estrada em terra? Poeira na roupa e o que importa? Com quais roupas e onde, o que significa? Mas com quem? Que almas juntam a bagagem quando juntas, encara os desafios quando resolve-te a eles? Quem tem o luxo dessa companhia? Solidão. Poço fundo, escuro, soturno, lago onde não se enxerga o que há antes do fundo - muito menos o fundo.
Quem você permite? Quem te permite? Em quem você confia? Quem confia em você? Quem faz bem caminhar, unir pegadas, decidir pela mesma hora do almoço ou onde acampar? Dividir o quarto ao lado, não se importar com a televisão até altas horas da madrugada, seu mau humor diário, suas confidências estranhas. Chão frio. Banheira. Banho quente. Mente. Shampoo esfregado em movimentos circulares. Dedos ao teclado. Piano. Planos.
Toalhas de secar suor e outros fluídos. Tênis na lavanderia. Manchas, lençóis de verão, cobertores de inverno. Varandas. Cigarros, cinzeiros, quadros, papel de parede ou tinta, parquê, tábua corrida ou piso. Buraco na parede ali ou mais adiante, o que vai? Eletrônico, really? Inseticida, mais spray tsssssssssss tSSSSS até matar, não, melhor o mata-moscas. Cigarros, cinzeiro. Cinzas. Fênix. Voos. Não vou? Quem? Quem vai? Estar lá.
11/04/2020
10/04/2020
brinde aos autores
na dúvida esse meu costume
de defender o autor
é ele quem põe a cara à tapa
e tu tens o tapa
com a cara em máscara
de defender o autor
é ele quem põe a cara à tapa
e tu tens o tapa
com a cara em máscara
notas
você entende nada de poesia
nem que ela te assaltasse
talvez assim você reclamaria
dela com alguma razão
nem que ela te assaltasse
talvez assim você reclamaria
dela com alguma razão
05/04/2020
rocks gaúchos
sou capaz de muitas coisas
de outras coisas sou incapaz
sou da paz pra muitas coisas
pra outras coisas não sou da paz
a gente faz muitas coisas
outras coisas não sei como faz
de outras coisas sou incapaz
sou da paz pra muitas coisas
pra outras coisas não sou da paz
a gente faz muitas coisas
outras coisas não sei como faz
04/04/2020
é sobre isso tudo
Man on the Moon é uma canção da banda norte-americana R.E.M., presente na disponibilidade dos mais diversos meios, de fitas a cds e ultimamente na internet e por que não pen drives, desde 1992. Sou posterior a ela. A música inaugura o disco-coletânea com as melhores da banda de três letras, sigla para Rapid Eye Movement (Rápido Movimento dos Olhos). Poético, não?
Essa música me lembrou a menina da fronteira da qual todos gostávamos no ensino médio. Todos, isto é, o resumido grupo de meus amigos próximos, dos quais hoje um está praticamente casado na cidade, um apareceu disfarçado dia desses por esses textos e outro é acrobata no circo mais reconhecido do mundo. Adianto que nenhum teve sucesso com a fêmea em questão.
E por que Man on the Moon lembra a moça, levava vocês ao mundo da lua? Não exatamente. Simplesmente um post meu na internet em que ela curtiu a dita cuja música. Ainda trocamos alguns likes políticos mas sem a pendência de uma conversa. Acredito que ela hoje esteja quase casada e em São Paulo. Isto mesmo, dor de corno maior ainda é adquirir tal condição para paulista. Mas quem sabe voltou à cidade? Algo me indicou isso por esses dias. Confusos dias pandêmicos, entendam. Vida confusa como a América Central, etc.
Entreguei várias pistas no texto que eu colocaria adiante numa organização mais organizada. Mas é que continuo ouvindo o disco das melhores do Movimento Rápido dos Olhos. Losing my Religion, sucesso que o DJ Rui Jordão tocava nas noites de Programa Replay na Rádio Cultura de Pelotas invade meus instintos. E conta o negro velho que essa música era presença constante nas festas pelas quais assumia a trilha sonora. "O pessoal gostava de colocar outras coisas, mas eu mandava rock também, não tinha ruim", garantia meu amigo de companhia esportiva nos debates semanais, muitas vezes transformado em mim de monólogo.
Voltando à fêmea-figura-chave desse texto (obrigado Jordão pela participação, diferente de Miguel na música histórica, atravessamos o (rio) Jordão, vejam só), voltando a ela, creio que a principal história de nosso envolvimento foi quando ela tentava vender ingressos para sua festa de formatura. Na verdade vendia ingressos para uma festa, erroneamente denominada churrasco, que arrecadaria cash, money, grana para a futura formatura de final de ano. Se não me engano ela era ano mais nova e se formaria só no ano seguinte. Organização de escola elevada, top 20 do estado e 100 nacional, se não me engano. Não confiem, muito posso me enganar, mas entendam que era um colégio de primeiro mundo.
E nós, voluntariado chinelão de saída do Centro rumo às Três Vendas para comprar os ingressos da moça. Fomos retardadamente a pé em um calor insuportável, recordo que uma das primeiras vezes em que precisei tirar a camiseta na rua tamanho o sol escaldante. Utilizei-a para proteger a superfície da fronte e aliviar a queimadura inerente aos cabelos. Nosso ginasta também adotou essa medida, com um físico esbelto muito mais atlético, evidentemente. Os demais nos acompanhavam em um grupo com quatro pessoas. Falávamos das mais diversas bobajadas nerds e conhecimentos por qual caminho deveríamos seguir para chegar em tempo recorde nessa jornada imprudente. Nos encontraríamos em ponto médio entre ambas as partes (mentira, quilômetros mais perto delas do que de nós).
Sim, educação fazer as damas caminharem menos nesse período em que ninguém ali sequer tinha idade para a carteira habilitadora ao trânsito. Exceção era o alto alemão de São Lourenço que dirigia sem carteira, mas aqui não iremos dedurá-lo. Educação, educação, please, monsieur. d'accord, mon ami. s'il te plait, para quem ficou curioso de como é 'por favor' en Français.
Caminhamos naquela lua braba do meio-dia em direção ao ponto de encontro e, quando telefonados, que algum dos debilóides possuía o contato, descobrimos que elas já haviam encerrado o almoço e regressado à escola que ficava ainda milha adiante. Diabos, seguimos porque queríamos chegar lá, embora já não disfarçássemos a irritação com a enrolação das ditas criaturas. Ao que estávamos informados (embora muito mal informados!), a soma de garotas disponíveis nessa compra de ingressos se dava em duas: ela e + uma amiga. Ok. Éramos quatro. Apesar das conversas variantes, no fundo todos devíamos imaginar quem ali tinha chance com as preciosidades. O ginasta, ano mais velho, era nossa aposta sigilosa, embora o mais alto também levasse algum currículo consigo. O hoje quase casado e eu gostávamos apenas de esticar as pernas em tardes escaldantes. Ééé, vai vendo.
Quando chegamos ao destino da escola chique, estava se encerrando o intervalo deles entre as aulas matinais e vespertinas, também conhecido como horário para almoço. Elas almoçadas, nós completamente suados e desconfigurados da boa aparência. Ao chegarmos, reparamos que a tal amiga não era de nosso total agrado, que teu Deus nos perdoe. Meio sem jeito e, embora cada um quisesse falar e expressar suas mais singelas emoções peito pra fora, estávamos quase mudos, talvez do cansaço somado à mórbida timidez de cada um. Efetuamos a compra em tempo recorde (ademais que o recorde não viria na tortuosa caminhada, ao menos algo para o guiness book faceirar-se).
(será que as capas do Guinness Book já utilizaram todas as cores existentes ou a humanidade segue a inventar colorações para compor esse modo chamativo de ilustrar as coisas curiosas?)
Cada um com seu bilhete premiado, só faltava um dos abobados deixar o vento levar a entrada até a boca de algum boeiro e aumentar o drama dos gaúchos que saíram sem noção a pé pelas ruas da cidade. Mas todos os bolsos estavam impecavelmente costurados e ninguém mosqueou a esse nível. Mal terminamos a compra e elas precisavam entrar para as aulas da tarde. Rigorosa que era a escola, tomariam uma senhora mijada em caso de atrasos, ainda mais se vissem nosso baixo nível ali, como se não bastasse, uniformizados com as cores da outra escola. Barbaridade.
Ainda deu tempo de tirarmos uma foto com um cão de rua que nos acompanhou nessa jornada. E digo, moças e rapazes, foi um dos mais fieis companheiros vistos por essas bandas. Não se importou de andar lado a lado com os guerreiros por dobras e dobras, quebradas, calçadas e meios de rua não movimentadas, patas sobre o concreto quente e nós com tão pouco a poder oferecer. Vira-latas, não por acaso, venceram a copa de enquetes do colega jornalista León Sanguiné. Melhor raça com sobras e ganas de vantagem. Nenhuma dúvida.
Pois bem, crianças e crianços, encerramos a lida naquela batalha árdua por quase merda nenhuma, não fosse o espírito puritano da aventura adolescente entre amigos. Sinto saudades desses tempos. Sinto falta desses tempos, melhor dizendo, na possibilidade de um dia quererem traduzir essa bagaça. Embora bagaça e outras gírias não sejam o mais indicado para futuras traduções. Sobre os amigos, é aquilo que recordo. O quase casado, o ginasta hoje em terras estrangeiras - preciso me atualizar como ele está em meio a esse caos mundial, me cobro a fazer isso - e o amigo que, se eu enviar mensageiro veloz o link certo, será o primeiro a relembrar essa epopeia de hormônios em alta na época e saudosismo latente nos cansados olhos da atualidade.
Como disse um dos músicos, o do violino do filme Titanic (1997) - que pela primeira vez assisti não digo esses dias porque foi exatamente ontem - "cavalheiros, foi um prazer tocar com os senhores". A menina-flor-campestre do Alegrete merece felicidades, o máximo que possa colher na lida dessa vida. Recordei dela pela última vez para remendar com o começo dessas linhas ao som de The Sidewinder Sleeps Tonite (A Cascavel Dorme Hoje à Noite), do mesmo disco referido do R.E.M. Agora a faixa cambiou para Stand, a de número 13. E é em um Rápido Movimento dos Olhos que encerramos aqui, para agradecermos sobretudo aos amigos que entrincheirados conosco encararam essa e outras. Ah, sim, há outras... Vontade de uma rapadura de amendoim com suco de limão...
02/04/2020
cobranças de falta
Eles haviam marcado o encontro para o final daquela semana. Conversaram bem e estavam passos adiante do que sugere algo surgido pela internet. Ambos aos 20 e poucos anos. Alguns interesses em comum, principalmente o clube da cidade, que vinha bem nos últimos anos, o que fez render o assunto. Restaurante no sábado. Jantar. Promissor. O papo e o vinho resolveriam onde acabar.
Gostou do sorriso de gengivas aparentes, dos olhos e dos cabelos escuros, das fotos disponíveis na internet. Ela se agradou do senso de humor e que ele era bastante alto, acima dos 1,90. Ele cursava direito e ela era formada havia dois anos, finalmente arrumando emprego na cidade vizinha, mesmo assim não exatamente na área imaginada por ela, nas repartições dos uniformes brancos da saúde. Demoraram um tintim para definirem a logística da saída deles, porque os horários de ambos era apertado. Ela com leituras e turnos longos, o cansaço, o abatimento, a persistência no fim das contas para mais uma labuta. Ele nas leituras e leituras e mais leituras, as aulas pela manhã, o estágio de tarde e os lanches disfarçados de janta para encerrarem o dia, solitários. Gostou de ter companhia para aquele sábado.
E o restaurante não era um qualquer. Ele pensou que não daria vencimento sempre frequentar tais lugares, mas que para uma primeira vez valeria a pena. A decoração era agradável, a meia luz oscilava um jogo de sombras propício para novas angulações do rosto de cada, sorrisos ao vivo que ainda não se compram e vendem no instagram ou em outra rede. Ele tinha facilidade em fazê-la rir e ela também se saía bem quando arriscava-se no humor, não restrita as risadas e bebericadas no champanhe que acompanhava a entrada.
Quando retornaram ao futebol, perceberam que era a praia deles, o caminho das minas exposto ao mapa por ali. O time andava bem, somando mais vitórias do que derrotas, o que nem sempre ocorria. Grandes sinais, subidas de patamar, duelos marcantes contra os gigantes, corridas a goleadas contra os menores. Estava tudo onde imaginavam. O time, o jantar, o encaminhamento nos estudos, os empregos na prática em ascensão. Ele era daqueles que decoravam a escalação e, de tanto ouvir no rádio os debates esportivos, fabricava suas próprias teses e destrinchava com êxito a escalação como um locutor, em poucos segundos. Goleiro, lateral, zagueiro, zagueiro, lateral, volante, volante, meia, meia, atacante e centroavante. Vírgulas facultativas, vivacidade a mil, garganta secando, mas sem cessar. Se aplicar metade desse entusiasmo na noite estariam ambos de jogo ganho.
Ela já remexia a taça em movimentos circulares, agitando o conteúdo da champanhe em segunda rodada. Todo o entusiamo natural do assunto, todo o engajamento que a motivava topar a ideia mesmo na cansativa rotina, estava descarrilhando e dando lugar ao tédio de ouvi-lo falar empolgadamente sobre as teorias passadas. Se ao menos depositasse algo no cartão sobre o futuro do time. Seria tudo pretérito o debatido naquela noite? As aventuras vivenciadas no amor também não sairiam do engessado passado?
Quando ela própria filosofava dessa forma, o pensamento que se afastava foi estourado como um balão-surpresa ou entrecortado por um taco como uma pinhata quando ouviu um nome que ela muito bem conhecia. "Era o que ditava o jogo o volante Gabriel." Sim, o Gabriel que ela recordava e sabia detalhes até demais. "Tu namorou com ele, não foi?"
Sim, sim, foi, ficou imaginando onde havia esquecido foto entre os dois ou qual amiga ou qual amigo, quem rompeu a barreira do bom senso e divulgou tal acontecimento que ela de súbito, desde que se separaram, cisão antes entre eles, anterior à saída dele do clube para outro distante, no Centro-Oeste, de prontidão ela já queria tomar total desconhecimento, apagar da memória, manter-se distante a qualquer referência sobre. Mas, além de não atingir esse objetivo pelos longos meses e agora passados anos que sucediam, agora se deparava com o fantasma frente a frente. O fantasma da memória com coberturas extras de ectoplasma.
Se o par da noite já havia demonstrado entusiasmo e euforia anteriores, agora estava radiante, rasgava a meia luz do restaurante com o seu semblante em chamas, os olhos arregalando-se, o hálito da janta atravessando a mesa até ela, quando não saltitavam teimosas gotas salivares, frutos do júbilo crescente que o envolvia. Ele não só recordava os debates esportivos dos locutores no rádio como se transformava na sua própria versão. A voz a cintilar, a empolgadura no talo, o personagem do momento chamando mais a atenção do que os garçons pelas mesas ainda não atendidas. A expectativa dos arredores pairava nele, era o centro dos acontecimentos, o ponto final para a trajetória dos olhares cada vez mais atônitos.
O cerimonialista a reverberar e bendizer na rememoração dos lances mais incríveis puxados pelo cordão da memória: "E teve aquela cobrança de falta na gaveta, foi aos 36 minutos, eu estava na arquibancada de trás da meta e..."
"Outro feito extraordinário foi numa infração dessa vez pela meia esquerda, o centroavante Juninho queria a bola no cruzamento para tentar o gol de cabeça, os dois zagueiros se escalaram para área adversária, como era de praxe, mas o Gabriel confiou no seu potencial e mandou direto, um tirambaço, o chamado pombo sem asas, nem tanto ângulo para cobrança havia, uma façanha, um gol antológico, nenhuma chance para o aparvalhado arqueiro que ficou atapetado ao solo!"
O vocabulário surgia, as luzes pareciam dirigirem-se a ele, não bastavam os olhares antes migrados, tudo era a exibição de nosso showman, o locutor daquele sábado pacífico em que antes se ouviam poucas vozes, mas sobretudo as que vinham dos chamados da cozinha. No ambiente, da mesa de quase centro, antes eram discretos o tricotar dos talheres, as bolhas dos habitantes do graúdo aquário ao fundo, a música clássica quase inaudível, mas de tudo isso agora nada importava. O que realmente estava suspenso no ar era que
"ele pegou a bola pela ponta direita, trocou de posição com o Carlinhos, investiu pela banda, saiu do primeiro marcador, recolheu a bola enganando o segundo e aí sim partiu por dentro da zona inimiga, em velocidade, passadas largas que tinha, quando ficou de frente para a meta, bicou a bola como um bem gizado taco de sinuca e completou o serviço tirando do goleiro, este também, a-ta-pe-ta-do no chão onde a grama não cresce".
Saíram os primeiros aplausos dos convivas que torciam pela camisa ressaltada. "Ele beijava o escudo, sorria para as arquibancadas...", ela lembrou de beijos e sorrisos. "Na entrevista, lembro que ele falou que...", ela recordou as piores coisas que ele tinha dito. "Mas no último jogo, no último dos jogos, o Gabriel...", o Gabriel era um exorcismo que ela precisava fazer e não teve dúvida.
Ciente da condição do futuro advogado, ou procurador, ou juiz que agora ela nem lembrava e pouco se importava qual das funções ele queria, prestou ainda essa última dúvida para saber se estava tudo bem com ele quanto a pagar a conta, o pagamento que deviam ao restaurante naquela noite lastimável para ela como tomar um elástico 5x0 do rival. Sabia que não havia como se desculpar ao ambiente como um todo pelo ocorrido, mas, sabedora que ele teria como pagar inclusive as malfadas gorjetas, juntou pela alça a bolsa das costas da cadeira, ajeitou o vestido sem esbarrar na decoração da toalha da mesa e se movimentou rumo à placa de indicação da saída.
Pensativa, pronta para respirar o ar gelado daquela noite úmida, ainda tascou uma olhadela para trás para verificá-lo em seu estado máximo de êxtase. Parado, em pé em meio a duas mesas, organizava uma formação de barreira com os aturdidos garçons, que eram puxados pelos colarinhos e ombros como se fossem orientados por um capitão ou goleiro. Ela não ficou para observar como a bola, em chute milimétrico, encobriria a barreira para aconchar-se às malhas. Já havia ouvido essa história muitas vezes.
Gostou do sorriso de gengivas aparentes, dos olhos e dos cabelos escuros, das fotos disponíveis na internet. Ela se agradou do senso de humor e que ele era bastante alto, acima dos 1,90. Ele cursava direito e ela era formada havia dois anos, finalmente arrumando emprego na cidade vizinha, mesmo assim não exatamente na área imaginada por ela, nas repartições dos uniformes brancos da saúde. Demoraram um tintim para definirem a logística da saída deles, porque os horários de ambos era apertado. Ela com leituras e turnos longos, o cansaço, o abatimento, a persistência no fim das contas para mais uma labuta. Ele nas leituras e leituras e mais leituras, as aulas pela manhã, o estágio de tarde e os lanches disfarçados de janta para encerrarem o dia, solitários. Gostou de ter companhia para aquele sábado.
E o restaurante não era um qualquer. Ele pensou que não daria vencimento sempre frequentar tais lugares, mas que para uma primeira vez valeria a pena. A decoração era agradável, a meia luz oscilava um jogo de sombras propício para novas angulações do rosto de cada, sorrisos ao vivo que ainda não se compram e vendem no instagram ou em outra rede. Ele tinha facilidade em fazê-la rir e ela também se saía bem quando arriscava-se no humor, não restrita as risadas e bebericadas no champanhe que acompanhava a entrada.
Quando retornaram ao futebol, perceberam que era a praia deles, o caminho das minas exposto ao mapa por ali. O time andava bem, somando mais vitórias do que derrotas, o que nem sempre ocorria. Grandes sinais, subidas de patamar, duelos marcantes contra os gigantes, corridas a goleadas contra os menores. Estava tudo onde imaginavam. O time, o jantar, o encaminhamento nos estudos, os empregos na prática em ascensão. Ele era daqueles que decoravam a escalação e, de tanto ouvir no rádio os debates esportivos, fabricava suas próprias teses e destrinchava com êxito a escalação como um locutor, em poucos segundos. Goleiro, lateral, zagueiro, zagueiro, lateral, volante, volante, meia, meia, atacante e centroavante. Vírgulas facultativas, vivacidade a mil, garganta secando, mas sem cessar. Se aplicar metade desse entusiasmo na noite estariam ambos de jogo ganho.
Ela já remexia a taça em movimentos circulares, agitando o conteúdo da champanhe em segunda rodada. Todo o entusiamo natural do assunto, todo o engajamento que a motivava topar a ideia mesmo na cansativa rotina, estava descarrilhando e dando lugar ao tédio de ouvi-lo falar empolgadamente sobre as teorias passadas. Se ao menos depositasse algo no cartão sobre o futuro do time. Seria tudo pretérito o debatido naquela noite? As aventuras vivenciadas no amor também não sairiam do engessado passado?
Quando ela própria filosofava dessa forma, o pensamento que se afastava foi estourado como um balão-surpresa ou entrecortado por um taco como uma pinhata quando ouviu um nome que ela muito bem conhecia. "Era o que ditava o jogo o volante Gabriel." Sim, o Gabriel que ela recordava e sabia detalhes até demais. "Tu namorou com ele, não foi?"
Sim, sim, foi, ficou imaginando onde havia esquecido foto entre os dois ou qual amiga ou qual amigo, quem rompeu a barreira do bom senso e divulgou tal acontecimento que ela de súbito, desde que se separaram, cisão antes entre eles, anterior à saída dele do clube para outro distante, no Centro-Oeste, de prontidão ela já queria tomar total desconhecimento, apagar da memória, manter-se distante a qualquer referência sobre. Mas, além de não atingir esse objetivo pelos longos meses e agora passados anos que sucediam, agora se deparava com o fantasma frente a frente. O fantasma da memória com coberturas extras de ectoplasma.
Se o par da noite já havia demonstrado entusiasmo e euforia anteriores, agora estava radiante, rasgava a meia luz do restaurante com o seu semblante em chamas, os olhos arregalando-se, o hálito da janta atravessando a mesa até ela, quando não saltitavam teimosas gotas salivares, frutos do júbilo crescente que o envolvia. Ele não só recordava os debates esportivos dos locutores no rádio como se transformava na sua própria versão. A voz a cintilar, a empolgadura no talo, o personagem do momento chamando mais a atenção do que os garçons pelas mesas ainda não atendidas. A expectativa dos arredores pairava nele, era o centro dos acontecimentos, o ponto final para a trajetória dos olhares cada vez mais atônitos.
O cerimonialista a reverberar e bendizer na rememoração dos lances mais incríveis puxados pelo cordão da memória: "E teve aquela cobrança de falta na gaveta, foi aos 36 minutos, eu estava na arquibancada de trás da meta e..."
"Outro feito extraordinário foi numa infração dessa vez pela meia esquerda, o centroavante Juninho queria a bola no cruzamento para tentar o gol de cabeça, os dois zagueiros se escalaram para área adversária, como era de praxe, mas o Gabriel confiou no seu potencial e mandou direto, um tirambaço, o chamado pombo sem asas, nem tanto ângulo para cobrança havia, uma façanha, um gol antológico, nenhuma chance para o aparvalhado arqueiro que ficou atapetado ao solo!"
O vocabulário surgia, as luzes pareciam dirigirem-se a ele, não bastavam os olhares antes migrados, tudo era a exibição de nosso showman, o locutor daquele sábado pacífico em que antes se ouviam poucas vozes, mas sobretudo as que vinham dos chamados da cozinha. No ambiente, da mesa de quase centro, antes eram discretos o tricotar dos talheres, as bolhas dos habitantes do graúdo aquário ao fundo, a música clássica quase inaudível, mas de tudo isso agora nada importava. O que realmente estava suspenso no ar era que
"ele pegou a bola pela ponta direita, trocou de posição com o Carlinhos, investiu pela banda, saiu do primeiro marcador, recolheu a bola enganando o segundo e aí sim partiu por dentro da zona inimiga, em velocidade, passadas largas que tinha, quando ficou de frente para a meta, bicou a bola como um bem gizado taco de sinuca e completou o serviço tirando do goleiro, este também, a-ta-pe-ta-do no chão onde a grama não cresce".
Saíram os primeiros aplausos dos convivas que torciam pela camisa ressaltada. "Ele beijava o escudo, sorria para as arquibancadas...", ela lembrou de beijos e sorrisos. "Na entrevista, lembro que ele falou que...", ela recordou as piores coisas que ele tinha dito. "Mas no último jogo, no último dos jogos, o Gabriel...", o Gabriel era um exorcismo que ela precisava fazer e não teve dúvida.
Ciente da condição do futuro advogado, ou procurador, ou juiz que agora ela nem lembrava e pouco se importava qual das funções ele queria, prestou ainda essa última dúvida para saber se estava tudo bem com ele quanto a pagar a conta, o pagamento que deviam ao restaurante naquela noite lastimável para ela como tomar um elástico 5x0 do rival. Sabia que não havia como se desculpar ao ambiente como um todo pelo ocorrido, mas, sabedora que ele teria como pagar inclusive as malfadas gorjetas, juntou pela alça a bolsa das costas da cadeira, ajeitou o vestido sem esbarrar na decoração da toalha da mesa e se movimentou rumo à placa de indicação da saída.
Pensativa, pronta para respirar o ar gelado daquela noite úmida, ainda tascou uma olhadela para trás para verificá-lo em seu estado máximo de êxtase. Parado, em pé em meio a duas mesas, organizava uma formação de barreira com os aturdidos garçons, que eram puxados pelos colarinhos e ombros como se fossem orientados por um capitão ou goleiro. Ela não ficou para observar como a bola, em chute milimétrico, encobriria a barreira para aconchar-se às malhas. Já havia ouvido essa história muitas vezes.
ode ao boçal
ó querida que fazes de negócio
negação do ócio desses dias
enquanto o idiota de Brasília
cada vez boçal que fala
faz crescer o nosso bócio
cê acredita?
poesia sem rima
não me anima
parte minha inclusive
abomina
é sério, não encontro de toda fantasia
como árvore que não frutifica nem floresce
fantasma que nunca desaparece
escada que não se sobe nem se desce
entendeu o que me parece?
pensa naquela bebida que não te apetece
não importa se festa pobre ou festa rica
te oferecem e tu desabilita nem beberica
é verdade que assim não bebo, cê acredita?
não me anima
parte minha inclusive
abomina
é sério, não encontro de toda fantasia
como árvore que não frutifica nem floresce
fantasma que nunca desaparece
escada que não se sobe nem se desce
entendeu o que me parece?
pensa naquela bebida que não te apetece
não importa se festa pobre ou festa rica
te oferecem e tu desabilita nem beberica
é verdade que assim não bebo, cê acredita?
31/03/2020
Pensamentos Endêmicos em Pandemia - vol. I
A pandemia é o horizonte que nos cerca neste abismante período. Por onde olhamos, ela está lá, uma predadora voraz. Se avizinha mordaz, cáustica e corrosiva. Nos torna reflexivos e evidencia a volta galanteadora do livro A Peste, do argelino-francês Albert Camus. A obra foi publicada em 1947, quando o cheiro pútrido da maior das guerras ainda era fresco na memória permanente de cada sobrevivo.
Filosóficos nos instauramos em nossas possíveis quarentenas. São para quem pode. Quem alternou a rotina de trabalho nos ritmos comerciais e demais prestações de serviço encara novas perspectivas, envoltos ao redemoinho do pânico. Crescem exponencialmente as dúvidas se os sistemas de saúde darão conta e, negativamente concebendo essa previsão, se pergunta até quando durarão as reservas.
A expansão do domínio territorial do novo coronavírus começa pelos aeroportos e entradas de maior circulação estrangeira nas grandes cidades, mas, ao se deparar com as placas mais distantes, as longe demais das capitais, o vírus sabe que suas vítimas estarão ainda mais indefesas. As menores cidades, vilas e aldeias não possuem recursos para combater a insuficiência respiratória e os capangas sintomas se proliferam sem a concorrente assistência médica.
Após o começo na China, os epicentros foram disseminados para Itália, Espanha, França e Estados Unidos. A Alemanha com o registro de muitos casos e poucas mortes, em oferecimento de uma resistência pouco vista. O Brasil vai sofrer muito nos próximos dias, em gráficos de contaminações que sobem como se fossem a trajetória suspensa e dramática dos ferros torcidos das montanhas-russas. Contabilizam-se mortos e outros fogem inclusive das estatísticas. A batalha para não contrair o vírus se torna mais pessimista ao nos depararmos que nem para os números muitas vezes se consegue entrar. O esquecimento das oficialidades é abominante.
De longe, caso fosse uma única massa uniforme, ou disforme, ou seja lá o que forme, a humanidade me agonia e posso desprezá-la. Porém, mediante esse novo caos, observando cada vez em lentes mais próximas, caso após caso, crio uma casca de sensibilidade adotada até a contragosto. Ou seria uma ponteira que rompe a grossa casca insensível que me dominava enquanto tudo isso parecia distante e somente os números me disseminavam a situação estatisticamente? Pontos de vista.
O olhar dianteiro da caótica situação é que tudo isso está próximo. No retorno proposto para a primeira oração: "A pandemia é o horizonte que nos cerca neste abismante período". Ela pode ter aparecido em um vizinho de minha tia, morto antes de chegar aos 80 anos, operado por um médico que contraiu o vírus e ficou em estado agravado de saúde, transferido do interior para uma capital. Tendência entre os mais abastados financeiramente. A pobreza observa a chegada.
A pandemia começou a percorrer trajetos capitais, como se ela se apropriasse das linhas aéreas da Sibéria à África. Os países mais periféricos sentem os efeitos depois. As populações periféricas sentem o efeito depois. A pobreza vai coagular o sistema de saúde. Na concorrida vaga para um lugar ao céu no pós-vida, veremos a concorrência por vagas em leitos equipados. Triste cenas desumanidade humana a seguir. É importante lembrar que ela sempre esteve presente, em maior ou menor grau. Interessante como doações dos mais ricos surgem somente agora, como se a epidemia tivesse fabricado pobres. Muitos caminham apenas pelo gesto de boa ação, de publicidade, de não faz mais do que obrigação mediante o caos instaurado. Outros têm o peito pressionado para reagir, atuar de alguma forma e assim se projetam. Consciência abalada e remorsos em ação.
A cena mais danificante de meu psicológico nesses dias, perfeita para apontar o dedo às chagas do capitalismo, foi no estado de Nevada, o que comporta a famosa Las Vegas, nos Estados Unidos. Lá houve a proposta de orientar o distanciamento social entre os moradores de rua. Uma iniciativa indignadora, pouco objetiva e inefetiva, baseada em pinturas de áreas no chão das ruas, para que os sem-teto não se aproximem. Uma imagem que desafia nossos sensos de crença, dificultando acreditar que aquilo possa estar mesmo acontecendo. Mas está. Orientações capengas em que a preocupação real é tão rasa que nos faz questionar se era melhor nem tocarem no assunto. "Se for para fazer assim..."
Masquei essa goma para cuspir essas linhas e o cuspe saiu à distância de meus anseios iniciais. Não percorri o trejeito, o balancete que eu imaginava, mas expus um pouco da causa e o total desassossego para as consequências vindouras. Estão por vir orações para quem é de orações, mas acendo a vela com a medalha que minha mãe me emprestou pensando na racionalidade dos que ainda a possuem e precisam utilizá-la. Tempos de somente sobrevivência.
"Sobrevivência é a questão muito mais do que opção. Para o mal triunfar basta que os bons não façam nada. Essa vida terrestre é o teste" - quem vai passar nessa parada?
Filosóficos nos instauramos em nossas possíveis quarentenas. São para quem pode. Quem alternou a rotina de trabalho nos ritmos comerciais e demais prestações de serviço encara novas perspectivas, envoltos ao redemoinho do pânico. Crescem exponencialmente as dúvidas se os sistemas de saúde darão conta e, negativamente concebendo essa previsão, se pergunta até quando durarão as reservas.
A expansão do domínio territorial do novo coronavírus começa pelos aeroportos e entradas de maior circulação estrangeira nas grandes cidades, mas, ao se deparar com as placas mais distantes, as longe demais das capitais, o vírus sabe que suas vítimas estarão ainda mais indefesas. As menores cidades, vilas e aldeias não possuem recursos para combater a insuficiência respiratória e os capangas sintomas se proliferam sem a concorrente assistência médica.
Após o começo na China, os epicentros foram disseminados para Itália, Espanha, França e Estados Unidos. A Alemanha com o registro de muitos casos e poucas mortes, em oferecimento de uma resistência pouco vista. O Brasil vai sofrer muito nos próximos dias, em gráficos de contaminações que sobem como se fossem a trajetória suspensa e dramática dos ferros torcidos das montanhas-russas. Contabilizam-se mortos e outros fogem inclusive das estatísticas. A batalha para não contrair o vírus se torna mais pessimista ao nos depararmos que nem para os números muitas vezes se consegue entrar. O esquecimento das oficialidades é abominante.
De longe, caso fosse uma única massa uniforme, ou disforme, ou seja lá o que forme, a humanidade me agonia e posso desprezá-la. Porém, mediante esse novo caos, observando cada vez em lentes mais próximas, caso após caso, crio uma casca de sensibilidade adotada até a contragosto. Ou seria uma ponteira que rompe a grossa casca insensível que me dominava enquanto tudo isso parecia distante e somente os números me disseminavam a situação estatisticamente? Pontos de vista.
O olhar dianteiro da caótica situação é que tudo isso está próximo. No retorno proposto para a primeira oração: "A pandemia é o horizonte que nos cerca neste abismante período". Ela pode ter aparecido em um vizinho de minha tia, morto antes de chegar aos 80 anos, operado por um médico que contraiu o vírus e ficou em estado agravado de saúde, transferido do interior para uma capital. Tendência entre os mais abastados financeiramente. A pobreza observa a chegada.
A pandemia começou a percorrer trajetos capitais, como se ela se apropriasse das linhas aéreas da Sibéria à África. Os países mais periféricos sentem os efeitos depois. As populações periféricas sentem o efeito depois. A pobreza vai coagular o sistema de saúde. Na concorrida vaga para um lugar ao céu no pós-vida, veremos a concorrência por vagas em leitos equipados. Triste cenas desumanidade humana a seguir. É importante lembrar que ela sempre esteve presente, em maior ou menor grau. Interessante como doações dos mais ricos surgem somente agora, como se a epidemia tivesse fabricado pobres. Muitos caminham apenas pelo gesto de boa ação, de publicidade, de não faz mais do que obrigação mediante o caos instaurado. Outros têm o peito pressionado para reagir, atuar de alguma forma e assim se projetam. Consciência abalada e remorsos em ação.
A cena mais danificante de meu psicológico nesses dias, perfeita para apontar o dedo às chagas do capitalismo, foi no estado de Nevada, o que comporta a famosa Las Vegas, nos Estados Unidos. Lá houve a proposta de orientar o distanciamento social entre os moradores de rua. Uma iniciativa indignadora, pouco objetiva e inefetiva, baseada em pinturas de áreas no chão das ruas, para que os sem-teto não se aproximem. Uma imagem que desafia nossos sensos de crença, dificultando acreditar que aquilo possa estar mesmo acontecendo. Mas está. Orientações capengas em que a preocupação real é tão rasa que nos faz questionar se era melhor nem tocarem no assunto. "Se for para fazer assim..."
Masquei essa goma para cuspir essas linhas e o cuspe saiu à distância de meus anseios iniciais. Não percorri o trejeito, o balancete que eu imaginava, mas expus um pouco da causa e o total desassossego para as consequências vindouras. Estão por vir orações para quem é de orações, mas acendo a vela com a medalha que minha mãe me emprestou pensando na racionalidade dos que ainda a possuem e precisam utilizá-la. Tempos de somente sobrevivência.
"Sobrevivência é a questão muito mais do que opção. Para o mal triunfar basta que os bons não façam nada. Essa vida terrestre é o teste" - quem vai passar nessa parada?
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29/03/2020
por duas quadras
Interessante o desenvolvimento da natureza. Como resplandecem suas aplicações e propriedades em seres que se adaptam ao meio ambiente em que vivem. A natureza e sua paleta de cores, suas nuances, ideias que a nós, meros humanos, passavam batidas até ser estudadas e catalogadas. Insetos com suas camuflagens e predadores de rapina com as garras torneadas de uma determinada forma.
Para exclusiva atuação dessas linhas, serve de exemplo a seriema, ave característica do cerrado brasileiro, que também pode ser encontrada em alguns vizinhos de América do Sul, mas que não existe em outros continentes. Procurem pelas imagens da seriema, ave mimosa e simpática por demais. Na catalogação brasileira também aparece a arara azul, que, caso procurada para observações de nossos curiosos leitores, é uma ave da família das psitaciformes com a cauda longa e bico curvado e, evidente, sim, são azuladas. Belíssima riqueza de tons edificantes a preencher seus contornos de elegância.
Ao passo que essas espécies citadas são tipicamente brasileiras, do outro lado do planeta, na Austrália e na Nova Zelândia, dentre outras ilhas do continente de nome Oceania, muitas espécies são específicas, restritas, somente encontradas nessas regiões. Há muitos animais australianos que desconhecem a sequência do globo, existem somente no país da atriz Marny Kennedy. Outros, neozelandeses, tampouco sabem haver uma vasta ilha como a Austrália, ou mesmo ilhas menores em outros lugares, próximos ou distantes. Além de ser o chamado paraíso dos marsupiais, a Austrália também concentra espécies curiosas como o demônio da Tasmânia ou o famoso cisne negro. Especula-se que porcentagens tremendas da fauna australiana seja endêmica, ou seja, exclusiva desse país. Emus e cangurus vermelhos, equidnas, que são semelhantes aos porcos-espinho, e os de aparência carinhosa dingos estão entre os nomeáveis nessa categoria de exclusividade australiana.
O planeta Terra está repleto dessas maravilhosas espécies e procurar por elas, para aprendizado repassado em prosa, seria um exercício de completude para este curto período da alma. A junção das amigáveis sensações de aprender e, de bate-pronto, sem deixar a bola cair, estar ensinando. Entretanto, curiosa foi a atuação de como pude perceber que mesmo a um curtíssimo espaço, a fauna e a flora estão à disposição em ordens variadas. Explico.
De prontidão, minha percepção modificada foi em relação a nossos predadores quando mudei de casa para duas quadras de distância de onde sempre vivi. As moscas apresentaram-se mais perdidas, sobretudo nas noites, como é de praxe. Esses animalescos detestáveis em suas rotas pouco objetivas, senão o alvo atingido de cessar minha quietude através de um pseudo ataque de nervos. Entretanto, ao menos as moscas mais toscas de quadras ao lado mostraram-se com uma disposição para a morte, desfecho muitas vezes proferido com as próprias mãos, para passageiro gozo da mortificação dessas abominações e uma consequente e enojante necessidade de lavar as extremidades dos membros assassinos.
Além das moscas, os mosquitos também se dispuseram mutantes. Os da casa anterior eram uma fase anterior da evolução. Os da moradia nova foram mais insolentes, desagradáveis, cruéis e adversários de duradouros combates. Notei não bastar um arremate para que desistissem em suas vontades de vida. Vagavam pelo cômodo ainda trôpegos, em planos de voo estranhos, mas insistentes. Resolutos, obstinados a me provocarem, a me encarregarem de suas respectivas eliminações. Não eram fáceis. Após verdadeiros duelos travados, o saldo dos cadáveres a esperar um balde de lixo ou uma privada sanitária.
Para além dos insetos aqui mencionados, o encerramento dessa passagem é justamente ao que ela deu origem. Contraditória alimentação da cobra textual, não é mesmo? Minha mãe ao pátio da frente (único pátio que aqui dispomos), arremata uma pérola certeira para o gatilho crônico. Ela, na despreocupação de quem estende roupas com o único objetivo de estender as roupas, entre uma ou outra pregada no varal, cumpre a sentença prometida: "as pombas daqui são mais magrinhas, as da casa anterior eram abastecidas pelos grãos de milho sobráveis das galinhas".
E assim, a partir de humilde frase, acende-me essa diferenciação de fauna, ¿e por que não flora?, entre duas residências, ecossistemas variantes, separados somente por duas quadras, 200 ou pouco mais, pouco menos metros de distância. Entre as moscas, entre mosquitos, entre as pombas e, consequentemente, no somatório de fatores, quais as diferenças entre nós mesmos em tão pouca mudança geográfica, segundo se pode constatar no Google Maps?
Para exclusiva atuação dessas linhas, serve de exemplo a seriema, ave característica do cerrado brasileiro, que também pode ser encontrada em alguns vizinhos de América do Sul, mas que não existe em outros continentes. Procurem pelas imagens da seriema, ave mimosa e simpática por demais. Na catalogação brasileira também aparece a arara azul, que, caso procurada para observações de nossos curiosos leitores, é uma ave da família das psitaciformes com a cauda longa e bico curvado e, evidente, sim, são azuladas. Belíssima riqueza de tons edificantes a preencher seus contornos de elegância.
Ao passo que essas espécies citadas são tipicamente brasileiras, do outro lado do planeta, na Austrália e na Nova Zelândia, dentre outras ilhas do continente de nome Oceania, muitas espécies são específicas, restritas, somente encontradas nessas regiões. Há muitos animais australianos que desconhecem a sequência do globo, existem somente no país da atriz Marny Kennedy. Outros, neozelandeses, tampouco sabem haver uma vasta ilha como a Austrália, ou mesmo ilhas menores em outros lugares, próximos ou distantes. Além de ser o chamado paraíso dos marsupiais, a Austrália também concentra espécies curiosas como o demônio da Tasmânia ou o famoso cisne negro. Especula-se que porcentagens tremendas da fauna australiana seja endêmica, ou seja, exclusiva desse país. Emus e cangurus vermelhos, equidnas, que são semelhantes aos porcos-espinho, e os de aparência carinhosa dingos estão entre os nomeáveis nessa categoria de exclusividade australiana.
O planeta Terra está repleto dessas maravilhosas espécies e procurar por elas, para aprendizado repassado em prosa, seria um exercício de completude para este curto período da alma. A junção das amigáveis sensações de aprender e, de bate-pronto, sem deixar a bola cair, estar ensinando. Entretanto, curiosa foi a atuação de como pude perceber que mesmo a um curtíssimo espaço, a fauna e a flora estão à disposição em ordens variadas. Explico.
De prontidão, minha percepção modificada foi em relação a nossos predadores quando mudei de casa para duas quadras de distância de onde sempre vivi. As moscas apresentaram-se mais perdidas, sobretudo nas noites, como é de praxe. Esses animalescos detestáveis em suas rotas pouco objetivas, senão o alvo atingido de cessar minha quietude através de um pseudo ataque de nervos. Entretanto, ao menos as moscas mais toscas de quadras ao lado mostraram-se com uma disposição para a morte, desfecho muitas vezes proferido com as próprias mãos, para passageiro gozo da mortificação dessas abominações e uma consequente e enojante necessidade de lavar as extremidades dos membros assassinos.
Além das moscas, os mosquitos também se dispuseram mutantes. Os da casa anterior eram uma fase anterior da evolução. Os da moradia nova foram mais insolentes, desagradáveis, cruéis e adversários de duradouros combates. Notei não bastar um arremate para que desistissem em suas vontades de vida. Vagavam pelo cômodo ainda trôpegos, em planos de voo estranhos, mas insistentes. Resolutos, obstinados a me provocarem, a me encarregarem de suas respectivas eliminações. Não eram fáceis. Após verdadeiros duelos travados, o saldo dos cadáveres a esperar um balde de lixo ou uma privada sanitária.
Para além dos insetos aqui mencionados, o encerramento dessa passagem é justamente ao que ela deu origem. Contraditória alimentação da cobra textual, não é mesmo? Minha mãe ao pátio da frente (único pátio que aqui dispomos), arremata uma pérola certeira para o gatilho crônico. Ela, na despreocupação de quem estende roupas com o único objetivo de estender as roupas, entre uma ou outra pregada no varal, cumpre a sentença prometida: "as pombas daqui são mais magrinhas, as da casa anterior eram abastecidas pelos grãos de milho sobráveis das galinhas".
E assim, a partir de humilde frase, acende-me essa diferenciação de fauna, ¿e por que não flora?, entre duas residências, ecossistemas variantes, separados somente por duas quadras, 200 ou pouco mais, pouco menos metros de distância. Entre as moscas, entre mosquitos, entre as pombas e, consequentemente, no somatório de fatores, quais as diferenças entre nós mesmos em tão pouca mudança geográfica, segundo se pode constatar no Google Maps?
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sábados pela manhã
Acelero meu processo de envelhecimento. Sinto que posso percorrer em voo baixo a infância que já se desenha há duas décadas passadas. Nos confinamentos dessas páginas de cimento recordo os sábados em que eu almoçava fora. E isso ficou bem marcante como uma divisória, como se uma régua posicionada sobre a folha induzisse a mão jeitosa a rasgar o papel em duas partes. Almoçar fora, em restaurante propriamente, era um exercício civilizatório resguardado a esse período da minha vida. Conforme minha adolescência e início da fase adulta, meu pai trazia a comida de restaurante e mantínhamos o hábito de almoçar em casa, com a salva diferença de que, aos sábados, minha mãe não se atarefava no preparo da refeição.
Mediante essa linha cronológica traçada, voltamos ao sol sobre o calçadão envolto de comércio nas matinês de sábado. Era o período que minha mãe, já aposentada, saía de casa. Pelo menos uns dois traumas, pensando durante a oração, talvez três, surgiram em decorrência dessa repetição de episódios. O primeiro que me acercou a memória era encostar nas monótonas vitrines de lojas, com os seres inanimados a exibir artigos de luxo e acessórios que os seres animados (demais para meu gosto) ansiavam adquirir. Definição dicionária de vitrine, com os vidros impecavelmente limpos e bonecos intactos em poses estilosas. Até que era interessante notar em lojas de menor recurso como os próprios manequins perdiam seus estados incriticáveis no desgastar do tempo. Deviam eles aguardar sofregamente pela aposentadoria dessa função semi-desnuda em exibição para desconhecidos (e sem adicionais salariais).
Passado o trauma das inquietantes vitrines, que, quando parávamos, faziam com que eu olhasse tudo ao meu redor, com exceção das próprias vitrines, o segundo trauma seria o de palhaços. Creio que mais do que desgostar dos palhaços, a perturbação era virtude da forçada interação social. Aquele ser pintado das mais diversas cores já programadas em paletas e que, avidamente com sorriso fixo, estimulava as crianças para elas contraírem a concavidade da boca em mesmo ângulo, mostrarem seus dentes (ou a ausência deles, dependendo a troca na formação de porteiras). Doravante que muitas vezes o efeito desejado era simplesmente o oposto, com muitos cedendo ao choro do desespero. Eu, pelo contrário, apenas aguentava, como também aguentava as vitrines, em sofrimento interno e não repassado para minha mãe ou demais familiares.
O momento de cruzar pelos palhaços parece ficar estagnado na infância. Se repararmos, apesar da mudança dos tempos, os palhaços ainda estão por lá, a entreter - ou tentar - nas calçadas envoltas de comércios. Passam despercebidos, como os tatus-bola (ou seja lá qual for o plural de tatu-bola) nos jardins olvidados. Contornadas as vitrines que não mais sou obrigado a parar e os palhaços que procuram novas vítimas (e vítimas novas, mediante o critério da idade do público-alvo), o terceiro trauma pode ser considerado o da quantidade de pessoas ou mesmo do consumismo.
Essas organizações comerciais centrais nas cidades foram gradualmente ou até bruscamente substituídas pelos shopping centers, assunto o qual já abordei muitas vezes em meus textos críticos ao consumismo exacerbado, locomotiva desfreada. Posicionaria esse terceiro trauma nas lembranças desses sábados matinais exatamente na larga presença de pessoas e seus barulhos típicos, conversas cruzadas desprovidas de significado, passos, vendedores anunciando obrigatoriamente ofertas em que 95% não está interessado, posteriormente cambiados pelos de mesma função em empresas de telefonia celular (vale sempre ressaltar que recordistas de reclamações!) e até mesmo artistas de rua que, separadamente, podem trazer um benefício cultural interessante, mas naquelas organizações desorganizadas dos centros comerciais, disputam espaço aos solavancos e confunde-se o som de um com o de outro, as apresentações teatrais e dançantes sem um palco se tornam bizarras e mesmo a poluição sonora das lojas aos microfones ou com outras músicas completam um cenário horripilante.
Orgulho de Allan Poe, Alfredo Hitchcock ou H.P. Lovecraft, que, por sorte, jamais presenciaram meus sábados matinais ou terminariam de sepultarem-se no horror compilado de suas mentes. Brincadeira de bom ou mau gosto, a ideia inicial era transcorrer pelos restaurantes de minha infância. Ou o restaurante, visto que frequentávamos sempre o mesmo, um de nome alemão e tradução Tudo Azul (nada mal, embora o prédio sequer fosse azul). Contudo, as lembranças acumuladas, como aquelas cenas errôneas de desenhos animados na prática do futebol americano, em que um jogador pegava a bola oval ao chão e os outros amontoavam-se como uma cordilheira sobre falhas tectônicas, as lembranças desvirtuaram o plano e me convidaram, como se me apontassem uma faca, para que eu descrevesse alguns dos traumas passados pelas voltas desferidas aos sábados de, naquela hora, contrafeita infância. Mas o restaurante depois valia pena. Valia muito.
Mediante essa linha cronológica traçada, voltamos ao sol sobre o calçadão envolto de comércio nas matinês de sábado. Era o período que minha mãe, já aposentada, saía de casa. Pelo menos uns dois traumas, pensando durante a oração, talvez três, surgiram em decorrência dessa repetição de episódios. O primeiro que me acercou a memória era encostar nas monótonas vitrines de lojas, com os seres inanimados a exibir artigos de luxo e acessórios que os seres animados (demais para meu gosto) ansiavam adquirir. Definição dicionária de vitrine, com os vidros impecavelmente limpos e bonecos intactos em poses estilosas. Até que era interessante notar em lojas de menor recurso como os próprios manequins perdiam seus estados incriticáveis no desgastar do tempo. Deviam eles aguardar sofregamente pela aposentadoria dessa função semi-desnuda em exibição para desconhecidos (e sem adicionais salariais).
Passado o trauma das inquietantes vitrines, que, quando parávamos, faziam com que eu olhasse tudo ao meu redor, com exceção das próprias vitrines, o segundo trauma seria o de palhaços. Creio que mais do que desgostar dos palhaços, a perturbação era virtude da forçada interação social. Aquele ser pintado das mais diversas cores já programadas em paletas e que, avidamente com sorriso fixo, estimulava as crianças para elas contraírem a concavidade da boca em mesmo ângulo, mostrarem seus dentes (ou a ausência deles, dependendo a troca na formação de porteiras). Doravante que muitas vezes o efeito desejado era simplesmente o oposto, com muitos cedendo ao choro do desespero. Eu, pelo contrário, apenas aguentava, como também aguentava as vitrines, em sofrimento interno e não repassado para minha mãe ou demais familiares.
O momento de cruzar pelos palhaços parece ficar estagnado na infância. Se repararmos, apesar da mudança dos tempos, os palhaços ainda estão por lá, a entreter - ou tentar - nas calçadas envoltas de comércios. Passam despercebidos, como os tatus-bola (ou seja lá qual for o plural de tatu-bola) nos jardins olvidados. Contornadas as vitrines que não mais sou obrigado a parar e os palhaços que procuram novas vítimas (e vítimas novas, mediante o critério da idade do público-alvo), o terceiro trauma pode ser considerado o da quantidade de pessoas ou mesmo do consumismo.
Essas organizações comerciais centrais nas cidades foram gradualmente ou até bruscamente substituídas pelos shopping centers, assunto o qual já abordei muitas vezes em meus textos críticos ao consumismo exacerbado, locomotiva desfreada. Posicionaria esse terceiro trauma nas lembranças desses sábados matinais exatamente na larga presença de pessoas e seus barulhos típicos, conversas cruzadas desprovidas de significado, passos, vendedores anunciando obrigatoriamente ofertas em que 95% não está interessado, posteriormente cambiados pelos de mesma função em empresas de telefonia celular (vale sempre ressaltar que recordistas de reclamações!) e até mesmo artistas de rua que, separadamente, podem trazer um benefício cultural interessante, mas naquelas organizações desorganizadas dos centros comerciais, disputam espaço aos solavancos e confunde-se o som de um com o de outro, as apresentações teatrais e dançantes sem um palco se tornam bizarras e mesmo a poluição sonora das lojas aos microfones ou com outras músicas completam um cenário horripilante.
Orgulho de Allan Poe, Alfredo Hitchcock ou H.P. Lovecraft, que, por sorte, jamais presenciaram meus sábados matinais ou terminariam de sepultarem-se no horror compilado de suas mentes. Brincadeira de bom ou mau gosto, a ideia inicial era transcorrer pelos restaurantes de minha infância. Ou o restaurante, visto que frequentávamos sempre o mesmo, um de nome alemão e tradução Tudo Azul (nada mal, embora o prédio sequer fosse azul). Contudo, as lembranças acumuladas, como aquelas cenas errôneas de desenhos animados na prática do futebol americano, em que um jogador pegava a bola oval ao chão e os outros amontoavam-se como uma cordilheira sobre falhas tectônicas, as lembranças desvirtuaram o plano e me convidaram, como se me apontassem uma faca, para que eu descrevesse alguns dos traumas passados pelas voltas desferidas aos sábados de, naquela hora, contrafeita infância. Mas o restaurante depois valia pena. Valia muito.
27/03/2020
o socorro da porta
a porta que range abrange
a fronteira, a divisória
do que ficará por dentro
ou fora da história
a porta com seu rangido
gritante, alto-falante
incessante no vai e vem
transitória
a porta que range e incomoda
estridente e insinuante
como uma mola, uma agulha
que arranha e arranha
o mesmo trecho em uma vitrola
a porta com seu rangido
estampido ensurdecedor
insurgente, emergente
clemente em pedidos de socorro
a porta da dobradiça amaldiçoada
fazendo uníssono do chão ao forro
socorro! socorro!
pede a porta e ninguém cancela
meu maior desejo: um óleo nela
ou então sou eu quem morro
a fronteira, a divisória
do que ficará por dentro
ou fora da história
a porta com seu rangido
gritante, alto-falante
incessante no vai e vem
transitória
a porta que range e incomoda
estridente e insinuante
como uma mola, uma agulha
que arranha e arranha
o mesmo trecho em uma vitrola
a porta com seu rangido
estampido ensurdecedor
insurgente, emergente
clemente em pedidos de socorro
a porta da dobradiça amaldiçoada
fazendo uníssono do chão ao forro
socorro! socorro!
pede a porta e ninguém cancela
meu maior desejo: um óleo nela
ou então sou eu quem morro
chama clara
ela é a chama acesa como vela que me faz querer olhar novamente
pela janela da humanidade
como é bonita a colaboração da sintaxe
para que eu traga essas linhas e seus encaixes
para mover maxilares que libertam
as palavras em mim contidas para outros lugares
ela de modo sem jeito sobre as pedras
flechada ao peito do sujeito em révoa
perpétua em sua altivez
não tanto, não tanto, a se pensar
pela terceira vez
mas hemorrágica, isto é, de fato
de sus colores como um colibri
que dentro de mim colore-se abstrato
é a chama clara
chamariz que agarra
quem seria iara nessa fila
se tudo que ela claramente
destila é reflexo pousado
ousado sobre a pupila
e iara que vá se misturar
ela e outras cigarras
a cantar
porque aqui
ah
aqui jaz
pela janela da humanidade
como é bonita a colaboração da sintaxe
para que eu traga essas linhas e seus encaixes
para mover maxilares que libertam
as palavras em mim contidas para outros lugares
ela de modo sem jeito sobre as pedras
flechada ao peito do sujeito em révoa
perpétua em sua altivez
não tanto, não tanto, a se pensar
pela terceira vez
mas hemorrágica, isto é, de fato
de sus colores como um colibri
que dentro de mim colore-se abstrato
é a chama clara
chamariz que agarra
quem seria iara nessa fila
se tudo que ela claramente
destila é reflexo pousado
ousado sobre a pupila
e iara que vá se misturar
ela e outras cigarras
a cantar
porque aqui
ah
aqui jaz
ecos
Talvez todo esse barulho, todo esse depoimento não passe de um grito ecoado para dentro em busca da própria razão. É querer, em um futuro próximo, olhar para trás e descobrir-se certo. Um solo, um chão para pisar em terra firme em polpa de sanidade. E nesse espaço desenrolar elegantemente um tapete vermelho sem rugas. É só isso e mais nada.
22/03/2020
semi-cemitério
o domingo que não levantou
eu levantei
nem era tão cedo, bem depois das seis
a grama por cortar
o café por fazer
o puro prazer a se esquivar
guardado em nenhuma gaveta, nenhuma dispensa
dispensado desse jogo amistoso que nada valia
iria para a próxima rodada a fortificar
como um café que pode ser mais forte ou mais fraco
quando o gosto do asco permanece ao final da xícara
é preocupante
teus passos soam pesados sempre consoantes
a memória é um lago que esconde monstros
se tudo mostrasse não sobraria turista
ao alcance opaco e diligente da minha vista
se paramos assim a pensar o café esfria
assoma-se o asco com o fiasco do desperdício
indício de que coisa melhor não há por vir
o momento é o souvenir que nos acompanha
como uma chave no pescoço
ou de bolso em bolso até o pijama
e quando me dispo é lanterna ao porão até as entranhas
peças estranhas se movem, outras permanecem
rasteiras, tacanhas
mas falava eu de um domingo que não levantou
eu levantei
como de lei a fazer o café e tudo bem
a grama ainda por cortar
e eu a contar os passos nesse terreno escasso
de mão de obra
o tempo que me sobra é o de cortar grama
barulho a fazer para o domingo que não se levanta
do silêncio da rua até se espanta
apostava adélia prado em uma das três
opções que estão sempre a suceder
latido de cachorro, grito de criança ou alguém a chamar
que o café está pronto, vem ou vai esfriar
como o café estava bebido e o trigo comido
comigo ninguém falou mas era a criança
que se levantou para suas andanças
no espaço sombrio de um pátio vazio
de um domingo que não se levanta
fica ele a chutar a bola contra a parede
na sede que algo suceda
eu a pensar nas sedas que não tenho
nas sagas erradas que não se desenham
domingos sem comércio e sem carteiros
como outros domingos, mas esse releio
no calabouço exótico da memória
que separa umas e outras histórias
vida afora nessa releitura
a tua é só tua, a minha é só minha
carinhos, carimbos, assinaturas
borras de café e digitais cruas
minhas pontas de dedos de unhas roídas
folheiam as páginas a transmitir vida
vida, salvo um ou outro chute do garoto
não se passava naquele domingo
poucos pingos de cada espírito
que deixavam marcas, no máximo pegadas
no chão combativo
passos arrastados, florescimento só de espinhos
de que serviriam os espinhos sem as rosas para proteger?
as cercas elétricas acopladas aos muros
em quintais sombreados seguros
em missão nesse domingo moribundo
apenas evitando que a bola suba
e caia no outro quintal adjunto
era o culto do todo oculto
cada um para dentro de sua miséria
a cabeça entre o trabalho e as férias
as quimeras revoltadas aos resmungos
o domingo que não levantou
foi o primeiro de uma série
como uma cárie devoradora contagiosa
séria sequência impetuosa
mistérios, impérios e adultérios
silenciosos
aos ociosos de um semi-cemitério
eu levantei
nem era tão cedo, bem depois das seis
a grama por cortar
o café por fazer
o puro prazer a se esquivar
guardado em nenhuma gaveta, nenhuma dispensa
dispensado desse jogo amistoso que nada valia
iria para a próxima rodada a fortificar
como um café que pode ser mais forte ou mais fraco
quando o gosto do asco permanece ao final da xícara
é preocupante
teus passos soam pesados sempre consoantes
a memória é um lago que esconde monstros
se tudo mostrasse não sobraria turista
ao alcance opaco e diligente da minha vista
se paramos assim a pensar o café esfria
assoma-se o asco com o fiasco do desperdício
indício de que coisa melhor não há por vir
o momento é o souvenir que nos acompanha
como uma chave no pescoço
ou de bolso em bolso até o pijama
e quando me dispo é lanterna ao porão até as entranhas
peças estranhas se movem, outras permanecem
rasteiras, tacanhas
mas falava eu de um domingo que não levantou
eu levantei
como de lei a fazer o café e tudo bem
a grama ainda por cortar
e eu a contar os passos nesse terreno escasso
de mão de obra
o tempo que me sobra é o de cortar grama
barulho a fazer para o domingo que não se levanta
do silêncio da rua até se espanta
apostava adélia prado em uma das três
opções que estão sempre a suceder
latido de cachorro, grito de criança ou alguém a chamar
que o café está pronto, vem ou vai esfriar
como o café estava bebido e o trigo comido
comigo ninguém falou mas era a criança
que se levantou para suas andanças
no espaço sombrio de um pátio vazio
de um domingo que não se levanta
fica ele a chutar a bola contra a parede
na sede que algo suceda
eu a pensar nas sedas que não tenho
nas sagas erradas que não se desenham
domingos sem comércio e sem carteiros
como outros domingos, mas esse releio
no calabouço exótico da memória
que separa umas e outras histórias
vida afora nessa releitura
a tua é só tua, a minha é só minha
carinhos, carimbos, assinaturas
borras de café e digitais cruas
minhas pontas de dedos de unhas roídas
folheiam as páginas a transmitir vida
vida, salvo um ou outro chute do garoto
não se passava naquele domingo
poucos pingos de cada espírito
que deixavam marcas, no máximo pegadas
no chão combativo
passos arrastados, florescimento só de espinhos
de que serviriam os espinhos sem as rosas para proteger?
as cercas elétricas acopladas aos muros
em quintais sombreados seguros
em missão nesse domingo moribundo
apenas evitando que a bola suba
e caia no outro quintal adjunto
era o culto do todo oculto
cada um para dentro de sua miséria
a cabeça entre o trabalho e as férias
as quimeras revoltadas aos resmungos
o domingo que não levantou
foi o primeiro de uma série
como uma cárie devoradora contagiosa
séria sequência impetuosa
mistérios, impérios e adultérios
silenciosos
aos ociosos de um semi-cemitério
21/03/2020
árvore das dores
o poeta está sempre com dores
uma ou outra já nem o afeta
redundante ser poeta das dores
adiante com a cruz do profeta
o poeta está sempre com dores
carrega as suas; outras são meta
se sua árvore fosse de dores
nenhum período é o de seca
criação estranha na área deserta
mas prova
o doce das dores do poeta
uma ou outra já nem o afeta
redundante ser poeta das dores
adiante com a cruz do profeta
o poeta está sempre com dores
carrega as suas; outras são meta
se sua árvore fosse de dores
nenhum período é o de seca
criação estranha na área deserta
mas prova
o doce das dores do poeta
19/03/2020
prédios e nuvens
as nuvens ainda passam sobre os prédios
ao menos aqui
aqui, onde nem havia prédios
mas sempre houve nuvens
ao menos aqui
falo daqui porque aqui me estabeleço
e daqui entendo
mas bem queria voar-me
livre e sem adendos
com e como se fosse o vento
ao menos aqui
aqui, onde nem havia prédios
mas sempre houve nuvens
ao menos aqui
falo daqui porque aqui me estabeleço
e daqui entendo
mas bem queria voar-me
livre e sem adendos
com e como se fosse o vento
pontas soltas
tenho dores de cabeça
durmo pouco
fazia dias que não escrevia
ainda seguro estranho a caneta
canhoto
tenho problemas de memória
e agora?
o que viria nessa outra linha
torta
tanto faz, enrolo outra
resposta
como faço quando me perguntam
e não sei
muitas vezes não sei
não que eu precise
os outros exigem
não que eu precise
mentir
mas enrolo
até a última ponta
e vejo os minutos passarem
como pontas soltas
que eu desejaria penteá-las
mas de nada adianta
em uma sucessão
de pontas soltas
como um mar tem ondas
sei que me sondas
sei que tu sofres
sei que o enxofre imunda
o mundo
e, por mais que corras,
quem, além de ouvir,
realmente socorra?
durmo pouco
fazia dias que não escrevia
ainda seguro estranho a caneta
canhoto
tenho problemas de memória
e agora?
o que viria nessa outra linha
torta
tanto faz, enrolo outra
resposta
como faço quando me perguntam
e não sei
muitas vezes não sei
não que eu precise
os outros exigem
não que eu precise
mentir
mas enrolo
até a última ponta
e vejo os minutos passarem
como pontas soltas
que eu desejaria penteá-las
mas de nada adianta
em uma sucessão
de pontas soltas
como um mar tem ondas
sei que me sondas
sei que tu sofres
sei que o enxofre imunda
o mundo
e, por mais que corras,
quem, além de ouvir,
realmente socorra?
alter nuances
a vida vivida nas alternâncias
aos poucos
estar sempre em inquietude
insatisfeito
e morrerei cedo
mas paz que perdura
tampouco é a cura
tampouco viveria a vida
aos poucos
estar sempre em inquietude
insatisfeito
e morrerei cedo
mas paz que perdura
tampouco é a cura
tampouco viveria a vida
02/03/2020
vazio da existência (passagem)
Arthur Schopenhauer em O Vazio da Existência
"Assim, conquistar algo que desejamos significa descobrir quão vazio e inútil este algo é; estamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, enquanto, ao mesmo tempo, comumente nos arrependemos e desejamos aquilo que pertence ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporário e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo. Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte das pessoas perceberá que viveram-nas ad interim [provisoriamente]: ficarão surpresas ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida — isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo. Então se pode dizer que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!"
"Novamente, há a insaciabilidade de cada vontade individual; toda vez que é satisfeita um novo desejo é engendrado, e não há fim para seus desejos eternamente insaciáveis. Isso acontece porque a Vontade, tomada em si mesma, é a soberana de todos os mundos: como tudo lhe pertence, não se satisfaz com uma parcela de qualquer coisa, mas apenas como o todo, o qual, entretanto, é infinito. Devemos elevar nossa compaixão quando consideramos quão minúscula a Vontade — essa soberana do mundo — torna-se quando toma a forma de um indivíduo; normalmente apenas o que basta para manter o corpo. Por isso o homem é tão miserável."
"Assim, conquistar algo que desejamos significa descobrir quão vazio e inútil este algo é; estamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, enquanto, ao mesmo tempo, comumente nos arrependemos e desejamos aquilo que pertence ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporário e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo. Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte das pessoas perceberá que viveram-nas ad interim [provisoriamente]: ficarão surpresas ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida — isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo. Então se pode dizer que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!"
"Novamente, há a insaciabilidade de cada vontade individual; toda vez que é satisfeita um novo desejo é engendrado, e não há fim para seus desejos eternamente insaciáveis. Isso acontece porque a Vontade, tomada em si mesma, é a soberana de todos os mundos: como tudo lhe pertence, não se satisfaz com uma parcela de qualquer coisa, mas apenas como o todo, o qual, entretanto, é infinito. Devemos elevar nossa compaixão quando consideramos quão minúscula a Vontade — essa soberana do mundo — torna-se quando toma a forma de um indivíduo; normalmente apenas o que basta para manter o corpo. Por isso o homem é tão miserável."
zelador do sono
zelador do sono
patrono das últimas
e das primeiras horas
tempo, sei que me devoras
mas faz o seguinte
morde um pouco e cospe fora
não me queres
não agora, papo reto
nenhuma prova ou decreto
volte outra hora
o meu voto é pelo veto
patrono das últimas
e das primeiras horas
tempo, sei que me devoras
mas faz o seguinte
morde um pouco e cospe fora
não me queres
não agora, papo reto
nenhuma prova ou decreto
volte outra hora
o meu voto é pelo veto
o que na pele não aparenta
o que na pele não aparenta
por dentro faz sua senda
trabalha, remenda
paga até imposto de renda
ocupa e alimenta
faz mistério não declarado
ao ministério da fazenda
inventa na fantasia
travessura e travessia que inventa
o que na pele não aparenta
por dentro assina emendas
rasga protocolos e vence a burocracia
por dentro me devoro
por fora até sorria
o que na pele não aparenta
por dentro me corroía
motim na minha cabeça
motivo me corrompia
zumbido de marimbondo
teu ombro minha confessa
o que na pele não aparenta
senta lá que vem história
e lá fora outro dia
por dentro faz sua senda
trabalha, remenda
paga até imposto de renda
ocupa e alimenta
faz mistério não declarado
ao ministério da fazenda
inventa na fantasia
travessura e travessia que inventa
o que na pele não aparenta
por dentro assina emendas
rasga protocolos e vence a burocracia
por dentro me devoro
por fora até sorria
o que na pele não aparenta
por dentro me corroía
motim na minha cabeça
motivo me corrompia
zumbido de marimbondo
teu ombro minha confessa
o que na pele não aparenta
senta lá que vem história
e lá fora outro dia
imprevisto
tudo o que enxergo é com os óculos
de já ter te visto
é assim que ajusto meu foco
parece inócuo
mas é um convite ao pessimismo
desisto
desisto
é isto
é isto
insisto
esperando algum imprevisto
além do que tenho visto
é isto
de já ter te visto
é assim que ajusto meu foco
parece inócuo
mas é um convite ao pessimismo
desisto
desisto
é isto
é isto
insisto
esperando algum imprevisto
além do que tenho visto
é isto
tous les jours
A informação é o bem mais valioso, mas circula pelos ares. Quem a pega? Quem a precisa pegar? Ela não é tateável, se ela circula das bocas aos ouvidos. Tateável no máximo das escritas aos olhos, mas armazenada novamente na cabeça. Quem a tem? Quem a rouba? Quem a influencia? Quem a transfere? Quem a reescreve? Quem a edita? Quem a reedita? A quem beneficia? A quem desagrada? A informação.
A informação circula como prioridade nos seus dias. Não é mais aquela imagem do senhor que acorda e lê o jornal no café da manhã, mas está no seu celular, no seu computador. Alguém a escreveu. Quanto vale? Alguém escreveu a sinopse para aquele filme, para aquela série, para aquele jogo. Quem escreveu? Quanto vale?
Alguém escreveu sobre o jogo de futebol que não foi visto, ou outra modalidade que aconteceu, que está acontecendo, que vai acontecer. Quem? Quanto vale? Alguém escreveu divulgar o evento, para informar do protesto, para informar o dia e o horário disponíveis no feriado, para anunciar o tipo de sangue que está em falta do hemocentro, para informar o dia e a hora do enterro, para informar onde o trânsito está bloqueado, como e o porquê de estar, alguém escreveu para informar o dia do pagamento do parcelado salário proposto pelo governo. Quem escreveu? Quanto vale?
Alguém esteve em contato com as principais autoridades, foi atrás. Alguém foi onde ninguém tinha ido, naquele momento, naquele contexto. Alguém foi atrás, foi buscar. Alguém traduziu o que diziam os técnicos, os meteorologistas, os químicos, os engenheiros, os médicos, nos laudos da ciência, nas perícias medicinais, nas avaliações dos peritos, alguém ouviu, analisou e traduziu. Quem? Quanto vale?
Alguém acordou cedo, alguém dormiu tarde, alguém correu para leres, ouvires, perceberes parado, alguém esteve lá, alguém está lá, alguém estará lá e vai enviar para leres, ouvires e perceberes parado. Para dar assunto no barbeiro, no salão de beleza, no ponto de ônibus, no consultório odontológico, na estação do trem, no restaurante, na televisão no canto, no rádio no interior sobre as janelas das construções sobre minifúndios. Alguém no verbo está. Quem? Quanto vale?
Alguém deu aula a todas essas profissões, mas alguém também informou a todas essas profissões, nas matérias, reportagens, revistas, sinopses, críticas literárias, telejornais, radiojornais, resumos, resenhas, boletins informativos diários. Fichas, designes, cadastros, programas e seus preenchimentos. Alguém. Quem? E quanto vale? Laboral, autoral, o que circula, além dos lombos dos pesos de mulas, grãos, safras e sal, pulula e não pula um dia sequer, em todos marca presença, marca novidades, nascenças, mortes, barreiras, proenças, registros e crenças opinativas. Aditiva a locomotiva da vida no dia a dia da ciência do cotidiano.
Por anos e anos. Sempre alguém. Mas quem? E quanto vale?
A informação circula como prioridade nos seus dias. Não é mais aquela imagem do senhor que acorda e lê o jornal no café da manhã, mas está no seu celular, no seu computador. Alguém a escreveu. Quanto vale? Alguém escreveu a sinopse para aquele filme, para aquela série, para aquele jogo. Quem escreveu? Quanto vale?
Alguém escreveu sobre o jogo de futebol que não foi visto, ou outra modalidade que aconteceu, que está acontecendo, que vai acontecer. Quem? Quanto vale? Alguém escreveu divulgar o evento, para informar do protesto, para informar o dia e o horário disponíveis no feriado, para anunciar o tipo de sangue que está em falta do hemocentro, para informar o dia e a hora do enterro, para informar onde o trânsito está bloqueado, como e o porquê de estar, alguém escreveu para informar o dia do pagamento do parcelado salário proposto pelo governo. Quem escreveu? Quanto vale?
Alguém esteve em contato com as principais autoridades, foi atrás. Alguém foi onde ninguém tinha ido, naquele momento, naquele contexto. Alguém foi atrás, foi buscar. Alguém traduziu o que diziam os técnicos, os meteorologistas, os químicos, os engenheiros, os médicos, nos laudos da ciência, nas perícias medicinais, nas avaliações dos peritos, alguém ouviu, analisou e traduziu. Quem? Quanto vale?
Alguém acordou cedo, alguém dormiu tarde, alguém correu para leres, ouvires, perceberes parado, alguém esteve lá, alguém está lá, alguém estará lá e vai enviar para leres, ouvires e perceberes parado. Para dar assunto no barbeiro, no salão de beleza, no ponto de ônibus, no consultório odontológico, na estação do trem, no restaurante, na televisão no canto, no rádio no interior sobre as janelas das construções sobre minifúndios. Alguém no verbo está. Quem? Quanto vale?
Alguém deu aula a todas essas profissões, mas alguém também informou a todas essas profissões, nas matérias, reportagens, revistas, sinopses, críticas literárias, telejornais, radiojornais, resumos, resenhas, boletins informativos diários. Fichas, designes, cadastros, programas e seus preenchimentos. Alguém. Quem? E quanto vale? Laboral, autoral, o que circula, além dos lombos dos pesos de mulas, grãos, safras e sal, pulula e não pula um dia sequer, em todos marca presença, marca novidades, nascenças, mortes, barreiras, proenças, registros e crenças opinativas. Aditiva a locomotiva da vida no dia a dia da ciência do cotidiano.
Por anos e anos. Sempre alguém. Mas quem? E quanto vale?
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