A pandemia é o horizonte que nos cerca neste abismante período. Por onde olhamos, ela está lá, uma predadora voraz. Se avizinha mordaz, cáustica e corrosiva. Nos torna reflexivos e evidencia a volta galanteadora do livro A Peste, do argelino-francês Albert Camus. A obra foi publicada em 1947, quando o cheiro pútrido da maior das guerras ainda era fresco na memória permanente de cada sobrevivo.
Filosóficos nos instauramos em nossas possíveis quarentenas. São para quem pode. Quem alternou a rotina de trabalho nos ritmos comerciais e demais prestações de serviço encara novas perspectivas, envoltos ao redemoinho do pânico. Crescem exponencialmente as dúvidas se os sistemas de saúde darão conta e, negativamente concebendo essa previsão, se pergunta até quando durarão as reservas.
A expansão do domínio territorial do novo coronavírus começa pelos aeroportos e entradas de maior circulação estrangeira nas grandes cidades, mas, ao se deparar com as placas mais distantes, as longe demais das capitais, o vírus sabe que suas vítimas estarão ainda mais indefesas. As menores cidades, vilas e aldeias não possuem recursos para combater a insuficiência respiratória e os capangas sintomas se proliferam sem a concorrente assistência médica.
Após o começo na China, os epicentros foram disseminados para Itália, Espanha, França e Estados Unidos. A Alemanha com o registro de muitos casos e poucas mortes, em oferecimento de uma resistência pouco vista. O Brasil vai sofrer muito nos próximos dias, em gráficos de contaminações que sobem como se fossem a trajetória suspensa e dramática dos ferros torcidos das montanhas-russas. Contabilizam-se mortos e outros fogem inclusive das estatísticas. A batalha para não contrair o vírus se torna mais pessimista ao nos depararmos que nem para os números muitas vezes se consegue entrar. O esquecimento das oficialidades é abominante.
De longe, caso fosse uma única massa uniforme, ou disforme, ou seja lá o que forme, a humanidade me agonia e posso desprezá-la. Porém, mediante esse novo caos, observando cada vez em lentes mais próximas, caso após caso, crio uma casca de sensibilidade adotada até a contragosto. Ou seria uma ponteira que rompe a grossa casca insensível que me dominava enquanto tudo isso parecia distante e somente os números me disseminavam a situação estatisticamente? Pontos de vista.
O olhar dianteiro da caótica situação é que tudo isso está próximo. No retorno proposto para a primeira oração: "A pandemia é o horizonte que nos cerca neste abismante período". Ela pode ter aparecido em um vizinho de minha tia, morto antes de chegar aos 80 anos, operado por um médico que contraiu o vírus e ficou em estado agravado de saúde, transferido do interior para uma capital. Tendência entre os mais abastados financeiramente. A pobreza observa a chegada.
A pandemia começou a percorrer trajetos capitais, como se ela se apropriasse das linhas aéreas da Sibéria à África. Os países mais periféricos sentem os efeitos depois. As populações periféricas sentem o efeito depois. A pobreza vai coagular o sistema de saúde. Na concorrida vaga para um lugar ao céu no pós-vida, veremos a concorrência por vagas em leitos equipados. Triste cenas desumanidade humana a seguir. É importante lembrar que ela sempre esteve presente, em maior ou menor grau. Interessante como doações dos mais ricos surgem somente agora, como se a epidemia tivesse fabricado pobres. Muitos caminham apenas pelo gesto de boa ação, de publicidade, de não faz mais do que obrigação mediante o caos instaurado. Outros têm o peito pressionado para reagir, atuar de alguma forma e assim se projetam. Consciência abalada e remorsos em ação.
A cena mais danificante de meu psicológico nesses dias, perfeita para apontar o dedo às chagas do capitalismo, foi no estado de Nevada, o que comporta a famosa Las Vegas, nos Estados Unidos. Lá houve a proposta de orientar o distanciamento social entre os moradores de rua. Uma iniciativa indignadora, pouco objetiva e inefetiva, baseada em pinturas de áreas no chão das ruas, para que os sem-teto não se aproximem. Uma imagem que desafia nossos sensos de crença, dificultando acreditar que aquilo possa estar mesmo acontecendo. Mas está. Orientações capengas em que a preocupação real é tão rasa que nos faz questionar se era melhor nem tocarem no assunto. "Se for para fazer assim..."
Masquei essa goma para cuspir essas linhas e o cuspe saiu à distância de meus anseios iniciais. Não percorri o trejeito, o balancete que eu imaginava, mas expus um pouco da causa e o total desassossego para as consequências vindouras. Estão por vir orações para quem é de orações, mas acendo a vela com a medalha que minha mãe me emprestou pensando na racionalidade dos que ainda a possuem e precisam utilizá-la. Tempos de somente sobrevivência.
"Sobrevivência é a questão muito mais do que opção. Para o mal triunfar basta que os bons não façam nada. Essa vida terrestre é o teste" - quem vai passar nessa parada?
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