16/12/2025

El Sur - de Victor Erice

O filme O Sul (El Sur) do diretor espanhol Victor Erice é interessante por muitos aspectos. A história narra o contato e a distância entre a menina Estrella e seu pai, Agustín. O filme é repleto de lacunas a serem preenchidas pela mente em desenvolvimento da jovem ou pelas leituras do espectador. Sabe-se que Vitor gostava de posicionar questões políticas veladas em suas obras.

Também com a presença infantil da menina em Espiritu de la Colmena em 1977, a inocência e o descobrimento, a imaginação e as reinterpretações estão presentes nas obras. No filme mais antigo, é na presença de um soldado buscando refúgio da guerra que a menina defronta as questões que permeiam a Espanha da Guerra Civil (1936-1939), movimento de interesse e fundamental acontecimento na Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Também sobre esse período, assisti ao Terra e Liberdade (1995), direção e história britânicas a permear a Espanha com os confrontos inclusive entre Anarquistas e Stalinistas em Barcelona, quando ambos os grupos deveriam unir forças contra as tropas de General Franco.

Em O Sul, esse dito Sul permanece inexplorado, no imaginário, saudoso e idealizado. A menina Estrella não o conhece, mas lê em registros, ouve falar. Seu pai é de lá, da região mais ensolarada de Espanha, onde mais habitaram os mouros, ocupantes, desenvolvedores, e relativamente expulsos na história. É lá que há noites luminosas, dançantes, comida árabe, arquitetura distinta. É a terra do pai, o médico Agustín. Esse está cada vez mais fechado, distante da família, trancado em um quarto para desenvolver projetos e experimentos não bem descritos. A visão do espectador é oculta como a de Estrella, que fica a imaginar o passado e o presente desse pai, que está ali, mas se ausenta.

Até em manobra para chamar atenção, Estrella se esconde embaixo da cama. A mãe e a empregada se desesperam em turnos para procurá-la, mas o pai não transmite palavra, não deixa seus aposentos. Estrella está em crescimento, o filme navega sua puberdade, ela conhece um menino, chamado de El Carioco, levado, inexistente nas imagens (apenas uma chamada telefônica entre eles aparece). Ele picha um muro, quer Estrella para ele, comunica que já teve outras meninas e é capaz de muito. A jovem não se assusta muito, nem seu pai, quando os trâmites lhe são comunicados. É um sujeito bonachão e saudoso de aventuras, no fim das contas.

O Sul é mais uma obra sensível de Victor Erice. O filme é composto nos detalhes, o pêndulo que a menina carregava, explicado pelo pai, para seu uso e precisão. Uma volta deles de moto quando ela ainda era a garotinha. Ela sozinha de bicicleta pela mesma alameda de muitas árvores, uma beleza natural de cenário estonteante, mas a mudança de puberdade, de idade, de significado e reações. Incluso o filme é feito para um aspecto frio, de silenciamento, de inverno, de alguma solidão. São personagens introspectivos com questões mal resolvidas. São investigações silenciosas. A menina que busca conhecer um pai que cada vez menos se abre, que cada vez menos conversa e interage com a família. Será outra mulher? Será uma atriz de cinema, Irene Rios, que seu pai conheceu no passado e sente falta? Ou o que mais lhe falta ao médico trancafiado? O que representa esse Sul inalcançável?

Fontes afirmam que Victor Erice pretendia prolongar o filme com uma segunda parte que o levaria para casa de três horas de duração, em que Estrella, cada vez mais crescida, independente e disposta, viajaria para encontrar esse Sul da Espanha com a família de seu pai, desvendando mistérios inculcados em sua cabeça. Porém, a não realização dessa segunda parte permitiu que o Sul se tornasse metafórico, inalcançável, inconcebível. Uma espécie de exílio dentro de um próprio país. Essa ideia muitas vezes passa despercebida pelo espectador, pelo apreciador de arte que não vive ali. Que imagina uma Itália unificada, apesar da evidente separação entre as diferentes regiões do país, uma Alemanha unificada mesmo com o que separou o século passado entre Ocidental e Oriental, mesmo a Baviera podendo ter sentimentos de independência, mesmo um Reino Unido apenas no nome para as ilhas ao Norte desses acontecimentos. A Espanha, então, viveu os conflitos de Guerra Civil, de unificação anterior após muitos reinados desfeitos, tem a questão evidente dos separatistas bascos e dos catalães em questões já tidas como históricas - e até hoje polêmicas e pouco solucionáveis para ambas as partes, separatistas e unificadores, população geral e economistas. 

Esse Sul que permanece inexplorado, a não ser pelas cartas e pelas tentativas imaginárias e investigativas de Estrella desvendar. Essa menina que se sentia deslocada, tem universos novos a explorar, como os estudos, o sexo oposto e que precisava mais da palavra do experiente, sensato e bonachão pai. Mas são utopias. São famílias que muitas vezes estão juntas apenas na moradia, aos olhares de quem vê de fora. E vendo de fora, como é o Sul ou o Norte que se imagina? Na vida de cada um.

13/12/2025

Sidarta, de Hermann Hesse

Sidarta foi publicado originalmente em 1922, período entre guerras, após uma viagem de Hermann Hesse a Índia, por 1911. O aclamado escritor alemão ficou maravilhado com a cultura local e dedicou ensinamentos na escrita baseada em preceitos budistas. Sidarta é o nome do Buda original, que teria fundado a religião ainda antes de Cristo, pela comparação temporal - mas não muitos séculos antes (anos 566-486 a.C). Na história de Hesse, Sidarta é um menino indiano que ao alvorecer da adolescência decide sair de casa, influenciando o amigo Govinda. Eles deixam a aldeia onde viviam e aprendem sobre sobrevivência e a vida na selva. Cruzando por peregrinos do budismo, aceitam a missão de esperar, pensar e jejuar, sobrevivendo com oferendas, com o mínimo necessário, nas extrações da natureza e na solidariedade das pessoas com quem cruzavam no caminho.

Sidarta tinha um espírito irrequieto e, passados alguns anos, caminhando para idade de jovem adulto, resolve deixar a doutrina do Buda para tentar a vida na cidade. Ele conhece a encantadora Kamala e com ela, indiana possuidora de um parque, de casa grande com criados, pretende descobrir os encantos do amor. Kamala apresenta para Sidarta uma outra proposta de vida, com luxo, com jogos de possuir, ensinando a ele que necessitava de um emprego, de roupas e sapatos dignos do posto que ocuparia, inclusive ao lado dela, que recebia outros homens, convidados e figuras de realeza. Dessa forma, foi agendado para Sidarta um emprego com o comerciante Kamasvani, um dos mais ricos da região. Sidarta tinha a vantagem sobre outros meninos ao saber ler e escrever, assim, logo conquistando a confiança de Kamasvani como um importante sócio. Nesse período, Sidarta faz cobranças, cálculos, conquista mercados e bens pessoais. Embora encarasse o que Kamasvani e os demais consideraram essencial como um mero divertimento, uma tolice, Sidarta aos poucos cede a diferentes vícios, o do amor por Kamala, o dos bens materiais arrecadados e até o vício em jogos como o jogo de dardos - o que poderia se atualizar ou descambar em jogos de cartas, apostas, etc.

O cansaço dessa situação leva Sidarta a abandonar essa vida tempos depois, assim como havia deixado a peregrinação dos chamados samanas, seguidores do iluminado. Então Sidarta volta para selva, onde se reencontra com um balseiro, um remador chamado Vasudeva. Eles já haviam se cruzado pelo caminho enquanto Sidarta vivia dos bens materiais proporcionados pelo comércio. Dessa vez, interessado na vida simples do homem solitário, Sidarta resolve acompanhar o cortês remador na vivência em uma cabana isolada, ribeirinha, descobrindo um pouco mais sobre a solidão daquele senhor que escutava o que o rio dizia. Sidarta reconhece na figura do ermitão um grande ouvinte. Passagem interessante do livro, em que, desde a publicação há mais de século, em 1922, já era identificado o problema maior das gerações vindouras: não escutar o outro, não ser um ouvinte atencioso, não se "absorver", não se compadecer dos problemas de outrem com objetivo de ajudar. Pelo contrário do que as pessoas demonstram em seus egos inflados, em sua exaltação ao umbiguismo, o veterano Vasudeva era um grande ouvinte, inspirava compreensão, com olhar cúmplice, sorriso benevolente e mão amiga a repousar sobre os ombros do confidente Sidarta. O viajante contava a vida, seus obstáculos e apreensões ao balseiro.

Mais do que preceitos, dogmas e religiões, Vasudeva acreditava em ouvir a natureza, a torrente das águas, adquirindo respostas para questões existenciais. Reaprendendo a sobreviver da natureza, Sidarta tem um derradeiro reencontro com Kamala, que estava em peregrinação, pois o grande buda dos samanas estava para morrer. Pessoas cruzavam o rio onde viviam Sidarta e o balseiro em busca da despedida do líder pregador. Sem saber, nessa viagem, Kamala se despedia das riquezas materiais. Ela levava consigo o filho criança, o pequeno Sidarta, que o pai Sidarta todavia ainda não conhecia. Mas era o destino. Na travessia pela floresta, antes de chegar ao rio, Kamala foi mordida por uma cobra e o veneno a deixava nos piores lençóis. Levada para cabana do balseiro, o protagonista tenta salvá-la, mas percebe a vida a extinguir-se dos sinais de Kamala. Assim, Sidarta herda a criança para seus cuidados. Eles logo percebem que não havia aptidão, pois a vida do pequeno Sidarta com criadagem, com pessoas a realizarem as tarefas por ele era totalmente diferente dos perrengues da selva. Sidarta tenta ser paciencioso, amoroso, zelador pelo menino, mas a incompatibilidade entre ambos logo é sentida pelos três moradores da cabana florestal.

Apesar do livro percorrer uma trajetória de filosofias e pensamentos sobre como levar a vida, é a partir da separação do Sidarta pai com o Sidarta filho que as questões se aprofundam. Sidarta nota o ciclo da vida, relembra de como se separou de sua família para nunca mais vê-los, como se tornava incompatível viver na aldeia e assim preferia, ao lado do fiel, Govinda, investir na selva, a seguir os samanas. Govinda, por sua vez, persistia na busca pelas respostas, na dedicação às orações, na procura pelo eu. Era seguidor ferrenho da filosofia dos samanas, mesmo após a morte do grande líder.

Sidarta encara o ciclo da vida, pensa em seu pai, que não teve mais contato com Sidarta até uma desconhecida morte, e nota sua situação semelhante: separado, incompatível ao filho que escolhera retornar à cidade, não sem antes proferir ofensas ao modo de vida isolante do pai. Sidarta envelhecia e escutava o rio, que simboliza as mudanças. Sidarta anula a percepção do tempo, pois ele era ao mesmo tempo o menino aldeão e o idoso, assim como o rio corre a todo tempo, da sua nascente, à foz e onde desagua.

Para o final, vem à tona a conhecida frase em que amar e mudar as coisas (Belchior vive) interessava mais à Sidarta do que qualquer teoria, qualquer dogma, quaisquer ideias que, para Sidarta, eram apenas palavras. Essa era a diferença fundamental no encontro final entre ele e o envelhecido Govinda, eles se cruzando pelo caminho em uma terceira oportunidade. Sidarta que havia experimentado de tudo, Govinda ainda fiel aos ensinamentos samanas. Govinda tentava encontrar respostas. "Parece que meu destino é jamais abandonar a busca" (P. 114) Mas Sidarta acreditava no gesto, na ação, na natureza, na escuta do rio, que teria todas as resoluções.

À essa altura da história, já haviam falecido o balseiro, o buda de tantos milhares de seguidores, Kamala, a cortesã de casta abastada, e o filho de Sidarta tinha realmente fugido para não mais voltar. Solitário, Sidarta trava essa última conversa com Govinda, sempre fiéis amigos nesses reencontros, cada qual crente em suas buscas. 

"Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos acha-la, podemos vivê-la, podemos consentir com que ela nos norteie, podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la" (Sidarta, P. 117) Assim, o protagonista acredita que não era possível chegar a esse brama, a esse nirvana. Eram apenas palavras, não uma doutrina com regras, como modus operandi. Mais do que tentar seguir conselhos com palavras valeria escutar o rio, as vozes e transformações da natureza. É uma forma de encarar a vida, em que, para nós cidadãos citadinos, conhecimentos técnicos, instalações, programações e construções são mais valoradas do que os que conseguem da natureza viver e extrair o que precisam, sem subjugar, sem destruir, sem desviar o que pode causar efeito rebote amanhã. "Nada é totalmente Sansara ou totalmente Nirvana. Homem nenhum é totalmente santo ou totalmente pecador", concluía Sidarta. Ele que há muito tempo havia deixado de debochar, de se sentir soberano e prepotente sobre os acumuladores de bens materiais, os seguidores cegos da beleza carnal, adeptos da luxúria. Ele que procurava entender o próprio filho, porque aos viciados em jogos, em poder, em dinheiro, assim era a vida que haviam sido ensinados, que haviam tomado contato e conhecimento, assim eram os valores a eles demonstrados e ensinados a perseguir. Sidarta procurava a humildade de entender que o ser humano percorreria diferentes buscas e, independente desses objetivos, procuraria ele Sidarta amar e mudar as coisas, como ensinar seus passageiros de jangada a escutar e respeitar as vozes do rio. Entendia ele que os preceitos eram importantes no que levasse ao companheirismo, ao amor pelas criaturas e que, no fim das contas, não caberia a ele Sidarta julgar os demais com as diferentes réguas a que ele havia conhecido e se medido. Respeitosamente nessa despedida de Govinda, quando se unia a todas as criaturas, de tempos imensuráveis, Sidarta estaria se aproximando do devido nirvana, ou ao menos do conceito que imaginamos.

12/12/2025

Charles Baudelaire - Cuadernos de un Disconforme

Neste livro reúnem-se anotações, pensamentos, poemas, contos e finalmente ensaios do escritor Charles Baudelaire, um dos mais importantes da França do século XIX. Em seus poucos mais de 40 anos, Baudelaire causou polêmica, foi censurado, foi acusado de flertar demais com o mal - como está nas Flores do Mal - e terminou a vida em padecimento, doente sobre uma cama - nada de tão anormal quanto a isso.

Através desse livro lido em espanhol, nessa reunião interessante de diferentes gêneros e assuntos explorados pelo icônico escritor, desafia-se a ordem ao tragar-se novos conhecimentos sobre as relações de amor, de religião e de saberes e valores sociais, como a interessantíssima discussão final sobre os flaneurs, os dandis (que aparecem no decorrer do livro) e sobre a posição do artista frente a arte, no desafio da criação e da reprodução.

Envolvido pela história de um certo Sr. G, que Baudelaire mantém em segredo a identidade pela vontade do criador, o escritor debruça os atos da criação proporcionados pelo Sr. G, na arte da pintura e da escrita. Acredita Baudelaire que os grandes criadores são aqueles impulsionados por espasmos de criação, reféns das interpretações e das lembranças, e não meros reprodutores naturalistas, como a muitos acreditaram. Cita grandes pintores de sua época e desde o Renascimento na Europa, em que o vislumbre, a contemplação, o alarde, o marcante das obras era soberano sobre as próprias impressões realistas. Uma espécie de "Quem viu não esquece".

Outro debate importante é sobre as escolas dessas artes, pois Baudelaire acredita na mudança dos tempos e que os aprendizados servem para reprodução, para os ensinamentos de uma determinada época, mas a humanidade persiste em avanços, em novas etapas, em novas técnicas e percepções. O mesmo poderia ser observado incluso na própria ciência que, por meio de novas experiências, descobre caminhos, benefícios e malefícios antes ocultos, não se restringindo aos resultados de outrora, em contínuos avanço e descobrimentos. Quanto à arte, as impressões, os traços, as batidas, os costumes de uma época não serviriam para representar um século seguinte, ou tão mais rápido sejam as mudanças dos ventos de nosso cotidiano.

Nesse processo de criação para além do aprendizado, do sabido, do conhecido, Baudelaire demonstra confiança e interesse em artistas cujas mentes tenham esse poder de ir além, essa inquietação, esse transbordo por sobre os trejeitos já aceitos. Baudelaire elogia e usa de exemplo o tal sr. G, o qual ficamos sem conhecer a identidade, de gostos refinados, flaneur e cosmopolita de atuação francesa.

No livro dos registros desses ditos cadernos, Baudelaire também oferece notas pouco traduzíveis ou inteligíveis pela falta de contexto das anotações, recados e comentários sobre artistas e pessoas públicas da época, e aforismos, como o que acredita que Deus é o único que nem precisa necessariamente existir para exercer seu poderio. Algo como o aforismo da dúvida de se os deuses criam os homens ou os homens que criam os deuses.

O eterno combate ao fastio e ao tédio é a luta de Baudelaire e do que ele acredita ser um exemplar artista. A imaginação, a mente em constante inquietação e necessidade criadora tornam as caminhadas, o ato constante de indignação dos dândis e a exploração dos flaneurs como instrumentos para criação artística. O próprio amor também é debatido à época sobre sua volúpia inicial que praticamente inevitavelmente resulta a posteriori no fastio devorador e derrotado do ser humano. A convivência com sociedade devassa e com uso de ópio e outras substâncias conferiu a Baudelaire lendas e maldições (maledicências). É gratificante o reconhecimento de sua filosofia, suas rimas e poemas traduzidos e aforismos que em algo nos acrescentam para conclusão da leitura do livro com nota em:

⭐⭐⭐⭐



11/12/2025

É Noite na América (2022)

É Noite na América é um documentário de 1h06 em uma co-produção entre Brasil, Itália e França com assinatura de direção da jovem Ana Vaz. Nascida em Brasília, sendo ela um pouco mais jovem do que a jovem capital federal, Ana tinha à época 36 anos e mostrou o comportamento brasiliense em relação com a fauna local.

O ponto de vista dos animais é fundamental na narrativa, em cena marcante que, enquanto nosso olhar não se volta aos bichos, no filme se volta aos bichos, mas, mais do que isso, é elaborada uma reflexão em que o interno dos olhos animais confrontam a relação com a humanidade. Os animais nos olham de volta. O filme avalia a situação de onças pintadas, ariranhas, saguis, serpentes e tamanduás bandeira e mirim, entre outras espécies, muitas delas na ameaça pela extinção. A culpa humana é delegada em imagens e entrevistas. O crescimento desordenado de nossas cidades em contraponto à perda de habitat da natureza é o resultado da mostra documental.

Brasília é exibida desde sua fundação, desde imagens antigas de zoológico, passando por seu crescimento em novas ruas, arquitetura e rodovias que cortam o Planalto Central brasileiro. O zoológico aqui não é mostrado como culpado ou capturante para excluir da natureza. Pelo contrário: o zoológico é uma resistência de animais que foram salvos, mas não tem maior condição de voltar para o habitat natural. Dessa forma, espécies são realocadas em cativeiros e convivência com semelhantes em menores espaços artificiais, mas como forma de manutenção do indivíduo, não de desproteção ou exclusão da espécie.

Como forma narrativa, o documentário traz entrevista e imagens de cuidadores, exemplo de chamada telefônica para o controle ambiental e demais autoridades em como lidar com o resgate e captura de espécies ameaçadas - e às vezes ameaçantes - na perigosa cruza entre ser humano e animais nativos. O filme de Ana convida à reflexão do papel humano em seu crescimento desordenado, desordenante de recursos e de proteção animal e vegetal. Como a selvageria das rodovias cortam o habitat de animais como os tamanduás, os maiores ameaçados de extinção ao passo que ao menos os mirins estão mais seguros, mas muito em função de estarem espalhados pelo território de diferentes países, inclusive ao território andino, mais afastado. Os bandeira, ao contrário, estão extintos em alguns estados como Santa Catarina e necessitam de grande proteção onde ainda resistem. Triste pesquisa resulta após o filme em descobrir que a pequena cidade de Ariranha no estado de São Paulo tem população humana superior à população total estimada das lontras ariranhas em nosso país. Mais uma perda preocupante da ordenação humana descontrolada, das caças e da violência de nosso convívio agressivo com as espécies nativas.

De Brasília, cidade criada mais artificial que outras artificialidades das construções brasileiras (nem entremos na invasão europeia à mata nativa sobre os indígenas), de Brasília percebe-se o estimulante centro cada vez mais em densidade populacional, em exploração de recursos e transposição comercial para dificultar a manutenção e sobrevivência das espécies. É importante o trabalho relatado no documentário de Vaz porque alerta sobre risco de explorações que podem se tornar irreversíveis, às pobres espécies cada vez mais indefesas e à própria humanidade em seu convívio desarmônico no que tange o clima e a natureza geral. A cena final da queda d'água dá ideia entre o mutável e o imutável, da avalanche de desgraça que o ser humano provoca e da avalanche de resistência que a natureza se permite em seu fluxo, por assim dizer, natural.

Nota final para É Noite na América:

⭐⭐⭐⭐

08/12/2025

Stray Dogs (2013) de Tsai Ming Liang

Filme lançado em 2013, Cães Errantes tem esse nome forte para provocar impacto, seu objetivo como um todo. Comparar a família de humanos a cães pode remeter ao mau tratamento que o capitalismo, que as grandes cidades, que as demais pessoas prestam aos semelhantes, apenas, no caso, mais pobres. Mexe inclusive com os protetores de animais, guardiões de cães e gatos, pessoas que não prestariam tratamentos tão ruins sequer a outras espécies como essas.

Tsai Ming Liang é um diretor malaio, conhecido por filmes de narrativas lentas, mas profundas, com a densidade na produção de imagens impactantes, jogos de cena com o aproveitamento de cenários e cores. Exige muito que seus atores mantenham a compostura, o enquadramento e a fissura ocasionados pelas cenas. Explora temas como a solidão, o sentimentalismo, a nostalgia, e aqui em Stray Dogs joga com o sofrimento da família protagonista - em um filme de pouquíssimos atores. A família é composta por um pai e suas duas crianças. Enquanto ele tenta ganhar a vida pelas ruas de Taipei, norte da ilha de Taiwan, as crianças vagam (errantes) pelo espaço urbano, rural desabitado, ribeiro, mas sobretudo ao lançar mão do contraste de ambientes e dos perigos que as cercam. As crianças sozinhas poderiam se meter em grandes enrascadas, visto que o irmão maior, responsável nessas horas pela caçula, é poucos anos e centímetros mais velho e mais alto. No espaço rural, os perigos de animais peçonhentos ou mesmo de caírem, de se machucarem, de fuxicarem onde não devem. No espaço urbano, a errância por ruas, em meio a estranhos, na impessoalidade característica das novas organizações sociais das metrópoles. Os irmãos percorrem ruas e shopping centers onde buscam transcorrer essa infância entre brincadeiras, imaginação e necessidade fisiológicas. Para se alimentarem, necessitam de provas, amostras grátis de supermercados. Vivem de cafés, misturas, molhos e o que for possível arrecadar. Em uma escolha duvidosa, a pequena opta por comprar um repolho, que acaba por se tornar, na verdade, um brinquedo para dupla, que a disfarça em forma de mulher. 

O desespero do pai, inclusive, traz cena impactante em que, na ausência feminina, se deslumbra com a boneca de repolho deitada ao seu lado. Cospe o disfarce fora e se alimenta da verdura aos pedaços, com o gosto amargo da verdade que lhe saltava à vista. Além da alimentação precária, os hábitos de higiene são por meio de banheiros públicos desses locais, os shoppings centers e os supermercados. A moradia para passarem as noites, em busca de proteção de chuva e insetos, é com o teto de prédios e casarões abandonados. Eles são como nômades à procura de um espaço e do mínimo de dignidade. Uma figura que fez parte de minha infância e aparece no filme é a da rede tida como mosqueteiro para impedir a passagem de insetos durante o sono. Quando em minha infância vivia para proteção dos mosquitos, as crianças do filme poderiam ser importunadas por criaturas piores, de barata para pior.

O emprego informal do pai delas é das contribuições mais destoantes, no mergulho à desigualdade da proposta de exibição do diretor malaio. O pai nada mais é do que um outdoor humano, um cartaz nas sinaleiras, nos semáforos de Taipei. Enquanto carros e motos se digladiam pelas avenidas de luxuoso asfalto em veículos custosos, o sujeito perambula na desorientação de segurar letreiros com promoções que não lhe competem conferir. Por exemplo, promoções de quartos de hotel e anúncios de classificados fora de sua pouca enverdura financeira, para fora de seu alcance.

É com esses anúncios que ele retira misérias de garantia para tentar refeição junto aos filhos no cair da noite e retomarem a jornada para moradia improvisada. Recordo post recorrente nas redes sociais sobre os imóveis parados e as pessoas sem teto. Quantos vendedores ambulantes, camelôs, flanelinhas, limpadores de vidros e outdoores humanos pelas ruas e sem bem para onde ir ao final de cada extenuante e desesperançosa jornada? Trabalham informais aos montes, estatisticamente até contabilizados, mas diariamente ignorados por ineficientes e desinteressados poderes públicos. Pelas Taipei de Leste a Oeste do Mundo se escondem em moradias improvisadas, insalubres e construtoras de infâncias capengas e perdidas.

É com suspiro de esperança que na parte final de lento filme uma mulher surge para condicionar a família a novos rumos e as crianças passam a receber maiores atenções, histórias infantis, fábulas, novas possibilidades, como e principalmente a de estudar. Fazendo lições de casa com o acompanhamento da mulher surge um sorriso de esperança ao espectador congelado pela perspectiva antes tão ilhota e fria. Ao mesmo tempo, na crítica que sempre lhe cabe, o espectador se pergunta sobre o papel social da mulher em diferentes culturas, parecendo atrelar a ela e somente a ela o equilíbrio familiar, o cuidado infantil e ainda por cima a figura de tutora dos primeiros anos de alfabetização, resultados garantidos em números estatísticos e totais da grande maioria de professoras no ensino e na pedagogia. É no acúmulo de tarefas que muitas dessas mães e professoras se frustram no cotidiano. Cabe ao pai nesse filme somente após longa cena de mais de 7 minutos dos atores parados perante um quadro de paisagem na moradia antes abandonada, cabe a ele com abraço agradecer a presença nova no convívio familiar, seguradora e garantidora de restabelecer equilíbrio àquelas pobres vidas, não como solução definitiva, mas apaziguadora.

Nota final para Stray Dogs:

⭐⭐⭐ e meio



O Carroceiro (1963) + Tauw (1970)

Ousmane Sembène é um diretor do cinema senegalês, responsável por grandes trabalhos que demonstram a vida no país sub-saariano. Os filmes aqui explorados remontam ao período em que a influência francesa ainda era tremenda sobre os colonizados, em um ambiente de crescimento das cidades como Dakar, com as dificuldades de sobrevivência com as novas exigências para empregos e moradia a famílias.

Mais aclamado entre esses dois filmes é o Carroceiro, de 1963. Um sujeito sai para trabalhar todos os dias com sua carroça puxada por um cavalo. Ele vive de fretes e pequenos serviços sob contratação. São transportes para mercadorias ou de pessoas. A função do carroceiro, mediante um trânsito que começava a congestionar da presença de carros, se assemelha à função dos motoristas de aplicativo nas selvas de pedra recentes, passado mais de meio século. Entre histórias que ilustram seu cotidiano, há contratação para frete e para buscar uma mulher grávida e levá-la até a maternidade, a tempo para que seja amparada pelo trabalho de parto. Na viagem, um incômodo lhe acomete com uma roda que ameaça a travessia, rangendo e preocupando o transporte.

Em uma missão ousada, o Carroceiro é contratado para uma encomenda em um bairro de ricos, evidenciando o tremendo distanciamento entre os bairros que convive, entre casebres e mazelas e a área asfaltada, mais urbanizada, arborizada e floreada por apartamentos modernos e de arquitetura deslumbrante. Antes da partir pela missão, ele conversava e era alertado por um companheiro dos riscos de trafegar nesse bairro nobre, local de proibido acesso aos pobres. Ignorando o alerta, o carroceiro parte na busca, interceptado por um guarda que lhe pergunta por documentos, habilitação e autorização para dirigir ali. Humilhado e multado, o carroceiro, sem alternativa financeira, é obrigado a abandonar sua charrete (termo escutado igual em francês) e volta de cabeça baixa apenas com seu cavalo. Ele foi abandonado pelo senhor que o contratou, sem sequer o dinheiro do frete para que havia sido contratado, deixando para trás seu meio de trabalho para que os homens ricos lhe aplicassem a multa. O Carroceiro reclama de ter sido enganado, é vítima, foi surrupiado.

"Eles aprendem a ler e a mentir", reclama na viagem de volta. A desigualdade pela cidade é evidente, ele resmunga sobre a diferença das casas, observa o crescimento da cidade como um crescimento impessoal em que não se pode confiar nas pessoas, diferente da convivência aldeã. Com apenas seu cavalo, ele ainda precisa retornar para casa, para o convívio com a mulher, com o peso da humilhação sofrida em mais um dia de trabalho, do qual ele se pergunta os valores de todo o esforço empreendido, se o dia de anteontem, se o de ontem, se o de amanhã nada mais reservam para seu usufruto.

Em recordo do desenvolvimento do filme, em jornada de trabalho ele chega a desistir de almoçar em casa para que aproveite um dia mais movimentado, em que estava sendo bastante requisitado em serviço. Sem saber o que a mulher inventaria para dar conta do almoço, ele se contenta, se satisfaz com um punhado de nozes que havia recebido de um dos amigos de semelhante profissão. O coleguismo entre os pobres ainda existia, ao passo que entre os ricos ele não poderia se confiar. Ao mesmo tempo, os alertas denunciados em Maria Carolina de Jesus e O Quarto de Despejo, de semelhante época em São Paulo, na chamada favela do Canindé - em que a autora apontava que a inocência da união entre os pobres existia na cabeça de quem não fazia parte daquele mundo. No livro, ela aponta brigas entre a vizinhança, desentendimentos severos provocados pela cachaça e até pelas pirraças provocadas pelas crianças, gerando apedrejamento, vinganças com fezes e tudo mais. São retratos de possibilidades de solidariedade ou do desenvolvimento mesmo da raiva entre pessoas em situação precária, debilitada, em déficit econômico, sem ter como proverem o cotidiano com alimentação e dignidade. Em O Carroceiro, Ousmane Sembène prefere optar pela demonstração da desigualdade e pela vilania dos verdadeiros culpados da manifestação de uma pobreza, ao passo que residem em casas nobres, protegidas, supervisionadas e sem interferências que possam ocasionar transtornos. A segregação na África colonizada ocorria sem a necessidade de um apartheid por cor da pele como na África do Sul, mesmo que muitas vezes fosse, sim, francesa a soberania nas terras africanas, como em Senegal, formando ela, França, uma elite ou impulsionando a formação de uma elite negra local.

Nota final para O Carroceiro:

⭐⭐⭐⭐ e meio


Em Tauw, a continuidade da temática da pobreza está nas dificuldades do protagonista em conseguir emprego. Aos 20 anos, ele é acusado por seu pai de fazer corpo mole, de não prover sustento na casa. Tauw, reunido a amigos em situação semelhante, protagonistas de pequenos furtos na cidade, vão em busca de um emprego mais formalizado. Se reúnem a outros tantos jovens que esperavam um chamado como estivadores ou o que fosse. Em uma oportunidade de aparecerem para serviço no Porto de Dakar, Tauw descobre que o bilhete para simples entrada, travessia da cancela do Porto em Dakar, custava o equivalente a 100 francos. 

O dinheiro francês novamente aparece em peça de Ousmane Sembène, evidenciando a influência da França sobre o país na luta por sua libertação e direitos em autonomia. Enquanto não havia essa possibilidade, Tauw e outros senegaleses lutavam pelos francos pela sobrevivência. Enquanto um dos amigos conseguiu o dinheiro, o bilhete e foi trabalhar no porto, Tauw voltou para casa para pedir dinheiro à sua mãe. Ela entrega uma peça de roupa, uma calça do marido para que Tauw venda e possa trabalhar e voltar para casa com mais dinheiro.

Tauw encontra uma mulher e descobre-se que a gravidez dela possa ter sido ocasionada pelo rapaz. Ele gosta dela, quer ajudá-la, ao passo que a moça também passaria naquele dia por uma consulta médica e necessitava do dinheiro para longa passagem de ônibus- visto que obviamente moravam para as equivalentes periferias das cidades grandes, no caso, Dakar. A mulher chega a oferecer ajuda para Tauw, mas não seria a melhor alternativa e ele insiste em tentar vender a calça. Ao mesmo tempo, a falta de dinheiro o irrita, de modo que chega a duvidar ser ele o pai da futura criança. Em reencontro entre eles, a crise se agrava com a mulher necessitando de 2 mil francos para comprar um dito remédio. Tauw se desespera porque nem ele, nem ela teriam condições. 

No avanço final do curta-metragem de 26 minutos (O Carroceiro tem menos tempo, mas ambos abrem espaço para muitas críticas e observações sociais), Tauw toma a medida drástica de contar para seu pai sobre o ocorrido e, para lamúria e discordância da mãe, resolve sair de casa ao pedir a mulher em casamento e tentarem desbravar a difícil jornada da vida juntos. O filme é permeado ainda por tentativas de ensinamentos escolares e religiosos (na verdade adjuntos) em que as crianças leem lições e versos islãs para um mestre. Enquanto percorre as ruas em busca da salvação da sua eminente crise financeira, Tauw ainda se depara com os demais apelando para as rezas diárias para Allah. A salvação, vista nos filmes, não seria da boa índole dos ricos para os carroceiros ou os que tentassem serviços ocasionais no porto, jovens impedidos de uma educação formal e de garantias de trabalho mesmo braçal. O carroceiro que perdeu seu veículo e o rapaz que precisava arranjar primeiro 100 francos que sobrassem para um dia de serviço sob a chancela da administração portuária.

Nota final para história de Tauw:

⭐⭐⭐⭐


Senegal foi colônia da França entre 1817 e 1960. Apesar da data oficial de emancipação ser em 1960, a influência francesa, em dinheiro, costumes, autoridades e burguesia eram constantes nos anos vindouros, conforme denúncia o cinema de Ousmane Sembelé nesses dois curtas apresentados. A influência está desde o idioma ao dinheiro utilizado na exploração do desenvolvimento senegalês. Quanto à exploração dos recursos da terra, caberia mais do que um capítulo à parte dessa análise.

Na curiosidade com o futebol, Senegal derrotou a França na Copa do Mundo de 2002. Os senegaleses venceram a colonizadora e assim a eliminaram do torneio ainda na fase de grupos. Em 2026, novamente Senegal e França foram sorteados para o mesmo grupo e vão realizar novo duelo. Outros países que passaram por enfermidades sob domínio francês, e que costumam se destacar no futebol e nas artes, são Marrocos, Argélia, Camarões, Tunísia e Congo.

06/12/2025

Le Petit Voleur (1999)

Filme francês do diretor Erick Zonca, Le Petit Voleur (1999), ou o Ladrãozinho, conta a história do adolescente Esse. O garoto se tornando um jovem adulto primeiro é expulso após uma série de mancadas da padaria onde trabalhava. Ele promete vingança e ganhar a vida custe o que custe, a outros modos. Em momento nenhum do curto filme (1h06) aparece a família do jovem da cidade de Orleans. Após confessar seus planos a uma namorada, Esse, então sem mais dinheiro com a expulsão da padaria, dorme na casa dela, rouba o salário da moça e foge para Marselha, uma cidade grande e portuária, com saída para o mediterrâneo, cosmopolita o suficiente para esconder-se em uma vida criminosa com uma gangue que pratica diversos negócios ilícitos.

O filme ganha contornos que cada vez mais fogem ao controle de Esse, trazendo surpresa ao jovem e ao espectador. A uma hora de filme torna-se alucinante, pois os episódios de violência são escalantes, contrastando com uma função de caixa baixa que Esse exerce ao ter de cuidar e fazer faxinas para uma idosa. As nuances do filme apresentam sutilezas gratificantes de acompanhar e descobrir. Sem diálogos, é por meio de sucessões de imagens que descobrem-se verdades e apontam-se hipocrisias dos mais diversos tipos. São desigualdades salariais e de tratamento, são leis e hierarquias criadas pelas próprias gangues e pelas ruas. São subordinações que Esse passa muito piores do que o emprego inicial que ele amaldiçoou e prometeu se vingar. O padeiro está ganhando espaço na gangue, mas será sempre assim?

O filme encontra o realismo e explode em adrenalina em diversas passagens. São cenas chocantes de violência urbana, roubos, furtos, linguagem imprópria, prostituição, até descambar em cenas finais cada vez mais alucinantes. A recomendação não é para menores de idade assistirem e mesmo algumas pessoas mais experimentadas podem se ver conflitadas por imagens fortes.

A ideia do filme é o velho jogo de ascensão e queda no mundo do crime, em uma indústria que fabrica funções e, tão rápido recruta novas pessoas sem emprego ou sem estudo, logo se livra delas. Mesmos os apontados reis não possuem lugar cativo no esquema, pois as coisas mudam muito rápido. No jogo de extrema violência com que são resolvidas as questões de acertos de contas a eliminações, as mulheres estão reduzidas a prostitutas ou meras acompanhantes, ou, no caso da idosa, ela apenas sobrevive em condições abaixo de uma classe média com dignidade.

Sabe-se que a escalada criminosa na França e em outros países da Europa conta com a convocação de jovens sub-urbanos e imigrantes desamparados por leis nacionais e observações de senso comum racista. Apesar da dura realidade para muitos jovens de origens diversas de africanos a asiáticos muçulmanos, passando pela comunidade judaica, o filme retrata a vida de um jovem do interior da França, Orleans, desamparado pela falta de estrutura familiar e do que chamam rede de apoio. A transformação do perfil de Esse são os últimos pregos no caixão de sua juventude, o conflito entre o jovem que tenta performar como gângster criminoso, mas também enxerga-se na condição tímida do abandono, do interiorano perdido na metrópole cerceada por crimes. As ruas de Marselha tornam-se palco de desventuras das mais cruéis e cruas que o cinema possa oferecer a corajosos espectadores, que saciam-se pela transparência de uma sociedade suja e corrompida.

Nota final para Le Petit Voleur em

⭐⭐⭐⭐

04/12/2025

Debaixo do alpendre

Você não me entende 

Debaixo do alpendre

Com muita chuva

Nem posso sair


Você não me entende

Dor que se estende

Você que me vende

Frete a combinar


Você de repente

Surge como serpente 

Você que me vende

Preço a parcelar


Você não me entende

Nem eu me entendo

São tantos remendos 

Semi-novo já não sirvo pra

Usado, mas a calhar


Mas se você se rende

Ainda depende

De eu me entender

De eu vir a comprar



*canção iniciada em um mês com ideia inicial que não faço ideia ao concluir; por isso a mudança de postura do eu-lírico que muda o foco para ele mesmo não se entender aonde quer chegar

Umberto Domenico Ferrari (1952)

Umberto Domenico Ferrari ou Umberto D é um filme italiano do consagrado diretor Vittorio de Sica, realizado em 1952. Ele mostra e prevê uma Itália difícil aos aposentados, aos anciãos, aos trabalhadores. Salários indignos e protestos marcam o início da trajetória do personagem principal, homônimo ao filme, morador de aluguel, cuja moradia consome muito de seus vencimentos. 

A Itália é retratada com a constância das obras, das ampliações, dos restauros, da luta entre passado e presente de ruas muito antigas, monumentos e arquiteturas que, apesar da beleza, são de trabalhosa manutenção. E os salários dos ocupados com tais serviços não reflete dignidade nos ganhos.

Umberto vive as agruras do pós guerra que assolava a Europa, mais radicalmente nas reconstruções e misérias de Alemanha, França, mas sem poupar a Itália de Sicca. Na companhia de um fiel cachorrinho, ele percorre as ruas entre manifestações, tentativas de um companheirismo à italiana que já dava lugar à indiferença e individualismo das sociedades plenamente capitalistas, tentando desesperadamente penhoras como as de um relógio.

"TODOS SE APROVEITAM DOS IGNORANTES" - Umberto tenta instruir a jovem Maria, que trabalha na pensão, na qual Umberto está prestes a ser despejado por uma dívida de 15 mil liras. Ele inicialmente consegue apenas 4 mil e luta bravamente para manejar o dinheiro necessário, pensando até em uma greve na sua alimentação. Maria, por sua vez, está grávida de três meses de um rapaz de Nápoles ou de um Florença. Nem ela sabe. À essa altura também se nota os fragmentos de uma Itália unida a menos de século, onde a nascença de um canto ou outro do unificado país ainda são motivos de preconceito, desconfiança ou desavenças - como, a bem de verdades, parece nunca ter deixado de ser.

Conforme diminui o prazo para Umberto quitar as dívidas com o pensionato, ele arma planos para poupar dinheiro. Chega a se internar em um hospital de caridade, liderado pelas freiras franciscanas. O maior problema não era fingir problemas maiores que sua amigdalite, mas sim se manter distante do cachorro Flike. Por sua vez, o cachorro Flike ganha destaque na parte final do filme, pois seu destino estava atrelado ao dono desesperançoso, cansado da vida sem tostões, da batalha constante pela sobrevivência mesmo após, diz ele, ter servido ao ministério do trabalho por 30 longos anos. Ele decide deixar definitivamente o pensionato, não aguentando mais os desaforos recebidos da condutora da pensão. Ele convivia com invasões a seu quarto quando estava fora, um tragicômico que até gerou reações de riso por parte de espectador que assim relatou na rede social Filmow. O quarto chegava a ser usado como aluguel de motel, cobrando liras a hora de uso. Por fim, a patroa resolveu operar obras de demolição de parede lateral que acabava de vez com a privacidade do impassivo Umberto D.

Sua única confessora, além de Flike, era a funcionária Maria, para qual ele deixa pertences em sua despedida. O destino para os últimos minutos de filme reservam a cruel despedida com Flike. São cenas fortes para qualquer tutor animal, anseios e agonia pela frente. Cenas fortes mesmo passados mais de 70 anos da gravação, o que torna Umberto D um clássico de drama, de neo-realismo, de apontes sobre as dificuldades da época pós-guerra e para os aposentados do mundo todo, sem família por perto, sem dinheiro no banco, sem ter com quem contar e com o quê contar.

O protagonismo final de Flike faz lembrar personagens como a cachorra Baleia no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, levado ao cinema pelo excelente diretor do Cinema Novo brasileiro, Nelson Pereira dos Santos. A despedida entre Umberto e Flike desespera os espectadores para desfechos inevitáveis. Diariamente, quantos se separam por saúde, por impossibilidades de prosseguir juntos, mudança de casa? Final reflexivo de um clássico do neo-realismo italiano, concorrente aos maiores prêmios das academias de cinema.

⭐⭐⭐⭐ e meio.



02/12/2025

My Dinner With Andre (1981)

Um dos filmes mais ousadamente filosóficos que já vi sendo gravado nos Estados Unidos. A direção, é bem verdade, é assinada pelo francês Louis Malle. Como o nome aponta, o desenrolar todo do filme ocorre durante um jantar entre dois amigos, os originais Wallace Shawn, narrador e interlocutor para o papo com o amigo Andre Gregory. Não são propriamente grandes amigos, mas, passados alguns anos, foi sugerido por um terceiro que eles retomassem contato e assim foi feito. Em comum, ambos desenvolviam peças de teatro. Andre obtinha maior sucesso e muito do assunto transcorre de suas longínquas viagens. Shawn, por outro lado, vinha em uma decadência, a qual ele apresenta em resmungos e cuspes ao introduzir a história e o porquê do encontro com Andre.

Shawn aparenta mais idade, mas tem apenas 36 anos. Se sentia meio fora do círculo de aceitações e sucessos em Nova York - outra protagonista na história de poucos personagens, complementados pelas esposas que não aparecem, apenas são citadas, e pelos atendentes do restaurante chique. O filme é considerado prolixo e pedante por parte da crítica, porque Andre descarrega suas teorias e assimilações a um atento ouvinte Shawn, o qual tenta colher novidades e refletir sobre sua vida a partir dos ensinamentos e teorizações do verborrágico Andre. Shawn escuta atento e às vezes até cômico ou incrédulo e raramente parte para suas objeções e complementos. Andre garante protagonismo na conversa ao controlar os assuntos, as passagens, as histórias de seu conturbado e atabalhoado passado. Ele conta como foi parar em experiências em floresta na Polônia, com o dramaturgo Grotowiski, no Tibet ou em Israel com a esposa. Andre alternava sua vida conjugal fechada em Nova York com aventuras de viagens longas. Além da esposa, ele tinha dois filhos, chamados Nicolas e Marina. 

Sem o mesmo leque de experiências diversas, Shawn escutava atento ao amigo desenvolver suas teorias sobre enxergar a vida sob outras óticas, outros prismas. Nas mais radicais das ideias, Andre considerava suas experiências válidas para um despertar de verdade, uma consciência sobre a vida e a morte. Segundo ele, um dos problemas dessa consciência por demais atenta seria a conscientização sobre a proximidade da morte, tal qual filósofos antigos já haviam previsto e anunciado. 

A preocupação dos amigos passa pela amortização da vida na sociedade ocidental, preveem a robotização futura e a automaticidade com que percorrem suas vidas. Shawn chega a defender seu direito a acordar e enxergar seu conforto em uma xícara de café, os dias com a namorada Debbie e seu emprego de ler, pesquisar, ler críticas e escrever suas peças teatrais, sem algo de acontecimento extraordinário. Andre rebate se o conforto é escolha dele ou apenas uma imposição, um modo automático de encarar a vida. Pesada crítica está na comparação de Andre entre a metrópole Nova York e um imenso campo de concentração. Citando outros críticos, Andre aponta que a Grande Maçã seria como um campo de concentração construído, vigiado e administrado pelos próprios prisioneiros. Ele cita a quantidade de conterrâneos que desejam sair da cidade, mas nunca o fazem, cita sua própria situação e, ao mesmo tempo, a incapacidade de definir junto à esposa um futuro, um local para investir, pois enxerga as prisões invisíveis em que é transformado o mundo. As armadilhas da globalização que davam as caras desde o início da década de 80. Em determinada passagem, Andre acredita que a década de 60 do século passado seria a última em que o ser humano ainda foi autêntico. Será?

Outro ápice no filme é Andre discorrendo sobre a falsidade das relações humanas, em uma crítica ao mundo de aparências da sociedade ocidental, isso muito antes das armadilhas das redes sociais online, embora até um notebook seja citado por Shawn, nos primeiros passos da computação ao alcance da população mais abastada. O próprio Shawn se considerava um filho de família de considerado prestígio, iniciado e atentado às Artes, a erudição, à música e assim perdendo a consciência de outras ações práticas que o levariam à bancarrota, à necessidade de procurar ocupações, a andar de metrô, à necessidade de que sua companheira trabalhasse incluso de garçonete durante algumas noites semanais. Quanto à hipocrisia da população, ele cita que Debbie servir de garçonete ou secretária causava uma distorção, uma repulsa, uma pena nos demais interlocutores como se ela estivesse condenada a um grande castigo, a um individual inferno. Em acordo com essas falas, Andre denuncia as máscaras sociais, a necessidade constante das pessoas fazerem piadas fora do tom, jantarem, rirem, sem na verdade se abrirem, repensarem suas ações e práticas do cotidiano. Ele conta as dificuldades que passou com a morte de sua mãe e que, passadas umas semanas, duas ou três, foi convidado por amigos a um jantar. Em meio a tantas piadas e descontração que propunham inadvertidamente, em nenhum momento questionaram sobre como Andre se sentia com a perda, se gostaria de um ombro amigo, de um real desabafo. Em contraponto, Andre apresenta as versões sinceras e introspectivas de monges para os lugares distantes em que viajou na Ásia, como o Tibet. Em certo momento, Shawn declama suas dúvidas quanto às teorias de enxergar a vida, de se descobrir e libertar, se eram necessárias viagens às florestas da Europa Oriental, ou ao Tibet, ou um retiro em Israel. Segundo o dramaturgo de 36 anos, nem todos podem ter oportunidade desses retiros sabáticos, então mais valeria uma autodescoberta ao revisitar seu bairro, como a um restaurante ou a uma tabacaria vizinha;  a autodescoberta estaria em suas próprias redistribuições, reorganizações, na redescoberta de hábitos. Andre nisso tudo aponta os perigos que os governos, de uma forma fascista e proposital, amolecem as expectativas, drenam as vontades e os sonhos, amortizam a população a viver como construtora, vigia e responsável pela manutenção dos campos concentradores e vigilantes da sociedade ocidental. Uma população não reflexiva, automatizada, em busca de pequenos confortos e nenhuma verdade. As duras críticas, as palavras de um experiente Andre amarguram Shawn a se questionar e ele confessa repassar essa conversa para Debbie após redescobrir, recolorir com novos olhares para o bairro na volta de táxi - que ele se permitiu pegar na volta para casa, segundo confessa. Enquanto conversavam nessa profundidade à parte de um cardápio que Andre dominava em francês ou no idioma que precisasse, e Shawn pouco sabia, os demais clientes foram sumindo até a bruma que antes cobria os pensamentos sombreados de Shawn se dissipar. Com novas atenções para suas ocupações, vivência e atento à falta de transparência nas pessoas em suas convivências e conveniências, Shawn voltara para casa, para seu casulo na Grande Maçã.

⭐⭐⭐⭐

14/11/2025

The Only One

Talvez eu tenha sido o melhor escritor que conheci. Mas também o único com o qual andei em tempo integral fui eu mesmo.


Cada um tem suas verdades.


Já discordei muito de mim. Isso pode provar que aprendi. Ou não.

Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade (2014)

Mais uma pela incursão ao cinema nacional. Joli é uma mulher que se recupera do vício em drogas. Ela está de volta a Recife. Seu pai é um importante deputado, chamado Antônio. Antônio concorre a um novo cargo,  a prefeitura da capital pernambucana. O regresso de Joli pode atrapalhar os planos do bon vivant. 

Quanto vale o preço para vencer uma eleição? Talvez vender a própria filha.  Poderia ser a frase que inicia a análise. O filme Prometo um dia deixar essa cidade traz muitos assuntos, ampliados e esmiuçados até as cenas paralelas ao subir dos créditos finais. De um filme com tanta pretensão e ideias pode-se tirar coisas positivas. O longa é um dos poucos até hoje lançados pelo diretor Daniel Aragão. Seus pôsteres são artísticos, um comentarista afirma lembrar a arte do alemão Werner Fassbinder. As propostas tornam-se ousadas, desafiadoras e polêmicas. Detalhes não passam despercebidos. Qual será a intenção ao utilizar a sigla fictícia para o partido do matreiro Antônio como PSTB. No filme podemos ouvir errado até que a sigla se destaque em painel diante de nossos olhos. A semiótica e as cores em vermelho estão lançadas.

Marcado pelo episódio negativo na família, Antônio anseia sua campanha em uma disputa para erradicar as drogas, para financiar projetos como os de um pastor em comunidade carente. A Recife é demonstrada entre as reuniões de terno e gravata, as casas com jardins e os apartamentos caros que contrastam com comunidade carentes, com ruas de terra, sem esgoto, difícil acesso para chegar ou sair, e crianças marginalizadas em diversões improvisadas, como jogar bola sobre a cancha de terra.

O retorno de Joli desafia a campanha de Antônio. Ele exerce um paternalismo doentio, arranja um casamento para filha se manter fora de enrascada. Em vão. O casamento arranjado não é suficiente para drenar a fúria e a revolta de Joli, que, se havia se curado do antigo vício, não suportava a vida de mentiras e de campanha difamatória, falsa e moralista proposta por seu pai no almejo ao cargo maior no município. Joli convive com personagens contraditórias. A amiga em recaída com o crack, o marido da amiga que acredita ser Joli a permanente má influência da esposa, mesmo a ruiva estando livre das drogas ilícitas.

Um debate aberto, proposto pelo filme é o entre as drogas, os fármacos lícitos e os ilícitos. O poder de decisão vindo de um político influente torna inclusive a saúde da própria filha como um experimento. Ele pretende sedá-la e até seduzi-la para manter a estrada da eleição aberta e encaminhada. Enquanto algumas drogas que fogem ao controle dos políticos, por efeitos ou principalmente pela fuga de lucro e fiscalização de impostos, são combatidas, outras são assinadas em convênios, testadas sem perspectiva exata a longo prazo, incentivadas sobre corpos ratos de laboratório. Mesmo as pesquisas nacionais e internacionais podem ser fraudadas. Mesmo os estudos assinados podem ser comprados. Mesmo um ente querido, quando interfere na caminhada rumo ao poder, pode e deve ser derrotado pela lógica maior do lucro.

O filme possui alguns elementos fantasiosos, simulações da mente e dos efeitos dos narcóticos sobre a mente de Joli. O ponto de vista é alternado dela para também mostrar o desespero do político que se vê encurralado em sua campanha de talvez precisar apoiar um adversário, que também deveria ser derrotado. A volta de Joli causa burburinho, mobiliza noticiário, exprime agenda negativa, causa desconfiança e precisa ser combatida como consequência.

A falta de escrúpulos e limites nas agendas e métodos políticos são abordados no filme; da campanha envolta em falsidade e publicidades enganosas na aplicação de fundos partidários, da corrupção aos convênios de eliminar adversários, de desbloquear o caminho a qualquer custo. A conveniência e o poder movem o jogo, contra quem for. Na metodologia utilizada por António estão a participação da indústria farmacêutica e da medicina a serviço do poder, do terno e da gravata. A farda policial na mesma linha, forma de atuar idem. De sabotadora à sabotada estava selado o destino de Joli, na promessa fantasiosa de um dia deixar essa cidade: custe o que custar.

Nota final para Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade:

3,5 / 5



12/11/2025

Carruagem Fantasma (1921) + Sudoeste (2011)

No Decurso do Tempo é um filme de Wim Wenders, mas poderia ser o nome deste texto. A relação temporal em Carruagem Fantasma e em Sudoeste é muito interessante. Em Carruagem Fantasma, a história sueca conta a vida perversa levada pelo personagem principal, David Holm.

Beberrão e despreocupado, David aguardava o ano novo com seus capangas em um cemitério. Eram as últimas horas daquele ano e uma enfermeira do Exército de Salvação, chamada Edit, estava para morrer. Seu último desejo? Receber no leito de morte a David Holm. A família estranhava o desejo repentino, mas providenciaram a procura pelo sujeito. Febria, ela viria a morrer poucas horas depois. Mas antes, David causara uma última briga com seus capangas, com um consequente desafeto e assim levara uma garrafada fatal na cabeça. Ficou estendido definitivamente ao solo do cemitério: caiu morto.

Sem que o mundo dos vivos saiba, estabelecido era o pacto de que o último morto no dia 31 de dezembro deveria ser o cocheiro da carruagem da morte, condutor da carruagem fantasma pelo próximo ano. Pelo próximo ciclo. Mas é também explicado que o trabalho interminável do cocheiro em serviço de Morte era multiplicado incontáveis vezes pela seguinte fórmula: de que cada dia do ano poderiam ser o equivalente a um trabalho centenário. Por que essa passagem de tempo diferente? Porque o serviço consistia em buscar cada alma que partisse do corpo, como se imagina a imagem de capuz e foice da Morte. Apenas não especifica o território a serem buscadas as almas, mas a história, o filme restringe-se à Suécia.

David recebe o cocheiro da morte e o anúncio de que precisará cumprir essa pena no próximo ciclo. Antes, como trama de Carruagem Fantasma, ele revisita os eventos que marcaram sua vida e o levaram até a tragédia: dele e da enfermeira febria. David estava com tuberculose e fazia absurdos, por exemplo, tossir contra pessoas para que também contraíssem a doença, "ou acha que são melhores do que eu para não ficarem doentes?". Inclusive crianças. Inclusive sua primeira esposa, que ele perseguida o paradeiro de seu sumiço por toda a Suécia. O comportamento perseguidor e contagioso quanto à doença nas atitudes de David o tornam um dos maiores desgraçados já vistos na História do Cinema. Passado mais de século da narrativa sueca, o rótulo permanece. É difícil encontrar personagens tão tacanhos quanto David.

O personagem principal amaldiçoou a vida da enfermeira, com a doença contagiosa e a incrível saudade de ter se interessado pelo perverso. O filme tenta amenizar a figura de David por meio de um arrependimento para metade final do longa, o que não convence a este escriba, após tamanhas sem-vergonhices. A relação temporal estabelecida entre o serviço de cocheiro da Carruagem Fantasma, condenação tremenda por um tempo incalculável em relação à vida humana, e o filme Sudoeste pode ser entendida a partir de agora.

Em Sudoeste (2011), filme nacional de 2008, com direção de Eduardo Nunes, a vida de Clarice transcorre ao contrário da eterna demora a que seria condenado David. A menina Clarice nasce de uma magia, de uma considerada bruxaria, em uma minúscula comunidade ribeira ou litorânea. Os pais originalmente acreditam que a menina havia morrido, mas na verdade ela está sob uma condenação bem diferente a do cocheiro. A vida de Clarice transcorre toda durante um dia. Ela de bebê se torna menina, de menina se torna adolescente e assim por diante.

A perspectiva de vivência do tempo é alterada, transformada pelas diferença comensal entre as experiências. David com uma jornada de castigo, de retratação, de azar, pode-se dizer, pois justamente sua briga derradeira resultaria na última morte sueca daquele ano. Clarice condenada a observar os demais personagens em suas vidas naturalmente sequenciais de um dia após o outro, enquanto ela, inocente menina de nascença, sem conhecer o que seria uma chuva, o que seriam as coisas da vida até o avançar de sua idade conforme declinava-se a tarde de um aparente dia comum.

Clarice perspassa pelos personagens camponeses e de sua própria família. O pai Sebastião e a mãe que conheciam o luto imediato da perda de bebê - Clarice. O irmãozinho João nem desconfiava que a menina que surgia na comunidade era na verdade sua irmã. O roteiro e a relação entre as personagens não oferece muita história. O destaque do filme está por conta da fotografia, das composições todas em preto e branco, lembrando dos melhores longas do próprio Wim Wenders, que abriu este texto, ou, melhor lembrança, o cinema do húngaro Bela Tarr, especialista em histórias lentas mas impactantes, pela composição de imagens, planos, escolhas de posicionamento e construção semiótica das narrativas.

Sudoeste se aproxima desse cinema sensível, impactante, emocionante de Bela Tarr. As diferenças óbvias são em relação ao comum de cada cenário geográfico construído. A frieza, a aspereza da natureza na Europa profunda contrasta com o clima tropical brasileiro, com os personagens mais experimentados na sociabilidade, apesar das profundezas rurais. Bela Tarr experiencia e oferece mais silêncios, mais frieza, ao passo que Nunes em Sudoeste também oferece os espaços, os períodos de respiro e reflexão, a composição proposital com o ermo das paisagens, mas sem perder o calor e a sociabilidade da latinidade nas personagens. Ou seja, há traços que se aproximam entre as culturas e o modo de fazer cinema, mas diferenças fundamentais permanecem no que é próprio de cada região do mundo.

A proposta de comparação temporal se deve, portanto, nas condenações distintas: a demora de um dia durar anos de serviço ao condenado cocheiro da morte, e a vida ligeira e tão difícil de discernir, de atinar, de compreender e aproveitar para a inocente Clarice. A menina, logo adolescente, logo mulher, logo anciã, anseia pelas descobertas ao passo que as personagens que cruzam por ora seu caminho apenas estranham sumiços e transformações da Clarice a que haviam começado a reconhecer e a se acostumar. A diferença de perspectiva do que pode ser um dia qualquer, um dia comum, OU um dia decisivo, derradeiro, único, singular. Ímpar (ou seja, sem par). Dias decisivos de escolhas e arrependimentos e remorsos que definiram os rumos trágicos para David Holm e seu amor desperdiçado. Oportunidades e desperdícios que Clarice não teria o luxo de experimentar em uma única experiência de 24 horas. Quem nunca comparou seu tempo vital com as larvas, as borboletas, as moscas, ou, no outro vértice, as tartarugas, outros répteis e alguns urubus?

11/11/2025

Trabalhar Cansa (2011) + Quando Eu Era Vivo (2014)

Ao assistir esses dois filmes em sequência, o que me chamou atenção é que o final de Trabalhar Cansa termina com um grito e o início de Quando Eu Era Vivo começa com outro. Se emendam. Com crítica social mais apurada, ao estilo incessante das denúncias sociais de Que Horas Ela Volta?, o longa Trabalhar Cansa (2011) tem direção dos paulistas Marco Dutra e Juliana Rojas.

Otávio é um pai de família recém desempregado. Ele sabe que será difícil arranjar uma nova oportunidade e o filme gira em torno disso. Para manter o padrão elevado da família do executivo, do trabalhador de escritório, a esposa Helena resolve alugar um espaço para reabrir um supermercado de bairro, o Curumim. Eles alugam do senhor Alfredo, mas as coisas nunca se encaminham como planejavam. Helena vai se tornando uma tirana, tem dificuldade em lidar e orientar os funcionários (antes da mania nacional de chamarem a todos de colaboradores). Os problemas estruturais do prédio e relacionais entre patrão e empregado são o atemperamento do filme. 

Além de lidar com o Curumim, Helena contratou a jovem Paula para ser empregada doméstica. O filme cita questões polêmicas como a assinatura de carteira de trabalho, os benefícios e garantias para os trabalhadores e a dificuldade dos patrões em cumprirem as normas e leis empregatícias. O movimento do reaberto supermercado nunca agrada. São problemas estrururais, infiltrações em parede, entupimento de esgoto, clientela exigente, saudosista ou insatisfeita, funcionários suspeitos de desvios de mercadorias.

Enquanto Helena se espezinha em contratar jovens funcionários, Otávio luta em agências de emprego para cargos que procuram gente mais proativa, jovem e capacitada. Sua experiência de cabeça calva não agrada aos contratantes. "Afrouxa a gravata, tira uma foto sem para o currículo". E os meses passam com uma casa onde o marido perdeu protagonismo. A sogra, a mãe de Helena ainda passa a ajudar financeiramente a família e a interferir cada vez mais nas decisões, inclusive se estranhando com Paula, a empregada. O casal tinha dois filhos, que por ora aparecem em cenas de estranhamento com o corte de energia elétrica, em planejamento de viagem de férias familiares e episódios da escola, não especificada assim, mas com elementos do filme com os quais podemos concluir que era particular e elitista. Até o uso da chamada black face em apresentação da escola gera polêmica para quem assiste - objetivo atingido na escolha da direção do filme.

Trabalhar Cansa denuncia as polêmicas relações de patrão e empregado, aponta as diferenças nos serviços, na forma de tratamento, na tomada de decisões, por exemplo Helena, que se nega a reduzir gastos em casa com a família e insiste com o supermercado até medidas drásticas, como abrir o Curumim em pleno feriado de carnaval, quando os estabelecimentos concorrentes estariam fechados, causando maior desagrado e ruído de comunicação entre os funcionários do super. 

A obsolescência de Otávio com o mercado de trabalho permanece até o final do filme. A figura do funcionário descartável, ultrapassado, preterido por mais jovens e proativos. A figura das crianças alheias a decisões, mas vítimas das mesmas, sem entender a crise familiar que tenta excluí-los dessa tomada de conhecimento. A união dos funcionários em tomar decisões por eles próprios, alheios ao desconforto que poderiam gerar ao patronato.

Para parte final do longa, a mescla com o terror apimenta um pouco o suspense e as reações, mas sem transfigurar o objetivo maior do filme. Trabalhar Cansa fica subordinado à temática do nome proposto, sem adentrar tamanho espaço à lenda urbana que se desenvolvia no próprio supermercado. Antes a figura monstruosa a surgir poderia ser metáfora do escravismo, derrubado a marretadas estruturais na parede do supermercado. 

Em Quando Eu Era Vivo (2014), além dos gritos do louco que vivia na rua do prédio para onde o protagonista se desloca para encontrar o pai - e viver polemicamente com ele - a relação com o filme Trabalhar Cansa está na situação desse personagem principal com o papel de Otávio no primeiro filme. Ambos são homens desempregados, cada vez mais solitários, excluídos e pressionados pela dependência e pela pressão social de serem novamente provedores e tomadores de decisão.

O protagonista recebe o nome de Júnior, mas aos poucos começa a se estranhar com o pai, que ele diz "não ser mais o mesmo de antes". No apartamento eles recebem a estudante Bruna, musicista interpretada pela cantora e atriz Sandy Leah (ela mesma). Junior obviamente, na vida solitária e despropositada, se interessa pela jovem Bruna, a qual tem um namorado que pouco aparece.

Júnior faz buscas em caixotes aprisionados no apartamento e descobre heranças familiares, vídeos antigos, cartas e enigmas escritos pela falecida mãe e pelo irmão Pedrinho, que está desaparecido na primeira metade do filme, mas, a quem não viu, talvez ele não esteja morto. Nas brincadeiras antigas com Pedrinho, gravadas ou documentadas por meio da escrita, Júnior reúne provas para avançar uma pesquisa ao encontro de verdades ocultas: justamente o caminho para o suspense e o terror em Quando Eu Era Vivo. Os contatos espirituais intrigam pessoas ligadas à família e até uma medium contratada para leitura e melhora espiritual da situação de Júnior, este cada vez mais trabalhoso para seu pai lidar com isso.

Em comum em outro longa assinado pelo Marco Dutra, os personagens Otávio e Junior avançam na paranoia e não na solução de arrumar um emprego e cessarem, ou ao menos reduzirem, a loucura daquele tempo de ócio. As pesquisas aprofundadas de Júnior geram contatos com o além e uma porta aberta para outros seres estarem entre eles.

O segundo filme comentado aqui tem muito mais da temática do terror comumente abordado nessas produções, não tanto o terror social do desempregado, da dificuldade empregatícia e dos apertos financeiros pelos quais passam a sociedade  brasileira. São duas formas de se abordar o terror. São dois legítimos representantes do cinema brasileiro, em que o primeiro faz por merecer uma melhor nota, se pensarmos em uma avaliação final.


07/11/2025

Contra Todos (2004)

Um dos poucos longas do diretor e produtor paulista Roberto Moreira. Contra Todos conta uma história cheia de reviravoltas sobre uma família já inicialmente polêmica e posteriormente desmantelada na periferia da maior cidade da América. Theodoro é um pai de família que vive com sua filha Soninha e com a (segunda) esposa Cláudia. As desavenças entre os três são crescentes e os motivos são os mais diversos nesse carrossel de climas e situações.

Theodoro aos poucos demonstra que não é o sujeito respeitado e respeitável que aparenta ser. No submundo em que faz parte, ele tem amigos próximos, mas talvez próximos demais. A trama gira em torno da confiança e da desconfiança implantada na relação entre as personagens. Quem errar pode pagar caro por isso, pois a lei da selva e de quem possua maior poder - de fogo ou de decisão - é bastante levada em conta.

A ambientação para o início dos anos 2000 é interessante, com a estética de ídolos do pop e do rock, a aparição da filha rebelde com Guns and Roses, Nirvana, Ozzy Osbourne, Bob Marley e outros ídolos. A temática do tráfico de drogas como uma crescente na vida desses jovens e dos sub-empregos adultos. A vida dupla controlando as ações na trama.

Theodoro busca mais outra esposa e pode até se apoiar na fé evangélica para deixar para trás o rastro de erros de seu caminho. Cláudia se mostra insaciável em seu desejo por quem apareça. Soninha vive entre a rebeldia adolescente e a falta de regras e de controle, encontrando consolo e algum apoio em mais figuras distintas que irão proporcionar esses crossovers.

Os personagens fabricam suas leis e diretrizes demonstrando comportamentos desruptivos, impulsivos e inconsequentes. As reviravoltas ocorrem a cada poucos minutos, retendo a atenção do espectador e convidando a adivinhar os destinos dessa trama de sonhos despedaçados, readequados ou mesmo completamente perdidos.

Contra Todos não é um nome por acaso. A casa pode cair a qualquer momento e o jogo de confianças pode mudar muito rapidamente. Ou nem tanto. Apesar da produção baixa em valores e dos improvisos de locações, isso não compromete o produto final, feito também com atores de crescente aparição ou mesmo desaparição das telas de maior sucesso a seguir.

🌟🌟🌟🌟

16/10/2025

Uber

Subi ao carro do Uber, era um motorista de meia idade, entre pardo e negro, barba bem feita, praticamente calvo. Não houve muito diálogo. Lembro de perguntar-me a rua. Primeiro ponto estranho. Confirmei que era a Rua Tubarão, para o lado oposto da cidade. Sou professor estagiário, é minha segunda vez lá recém, menti, porque era minha primeira vez, mas, diante da desconfiança que aquele sujeito frio provocava, querendo ou não, eu não quis parecer totalmente iniciante, pelo menos em termos de endereço. Na verdade eu nunca tinha ido àquele colégio e esperava que o motorista guiasse porque previamente soubesse. Tive que fingir que ao menos eu sabia onde iria. Rua Tubarão.

Ele prosseguiu em um tremendo silêncio. Se assustou quando surgiu no asfalto de qualidade duvidosa um bloqueio de cones que o obrigou a uma curva mais brusca do que a original. Assobiou uma onomatopeia e desencadeei a falar como se houvesse necessidade, como se eu lhe devesse alguma coisa, além do dinheiro, já depositado pelo cartão, na corrida. Falamos do trânsito, do mais banal e corriqueiro possível. Ele atravessou as ruas necessárias e novamente, sem ajuda tecnológica, perguntou por qual rua seria o destino. Já estávamos no bairro correto: Rua Tubarão. Salteei para ele também o número do prédio, 300 e algo. Estávamos próximos, creio.

Corríamos por uma avenida paralela à Rua Tubarão - depois confirmei no mapa. Eu disse que poderia parar, que estava tudo certo. Ele fez questão de descer do carro e me acompanhar. Havia uma outra escola que ocupava quadra inteira pelo caminho. Se pegássemos o atalho passando dentro daquela escola, sairíamos na Rua Tubarão. Minha surpresa foi tamanha receptividade. Na verdade ele conduziu o carro até onde cabia o carro, no estreito já do pátio interno da escola, roçando os vidros retrovisores no coquetel de paredes. O motorista antes frio fazia questão de terminar a corrida até o meu destino final mesmo. Eu notei que precisava chegar pelas nove horas da manhã. Já eram dez horas. Nem sei para quê exatamente me dirigia à escola. Para justificar minha ausência, meu atraso?

As surpresas não cessavam. O sujeito uber me posicionou então em uma cadeira de rodas por onde o carro dele não mais passava. Mas eu seria conduzido com toda certeza e mordomia pelos labirintos do bem pintado colégio. Naquela semelhança entre presídios, hospitais e escolas, navegava pela condição dos braços do uber à cadeira de rodas pelas aventuras de um hotel do filme Iluminado. Havia uma escada alta, indicando que do anterior pátio já estávamos em um nível superior, a escada conduzia abaixo. Era meio alucinante ser conduzido rapidamente de uma cadeira de rodas escada abaixo. Velocidade e perigo em constância. Chegamos à porta corta-fogo de saída. Um pátio dos fundos deserto, espaço suficiente para estacionamento de muitos carros. Não era um jardim, antes era uma grande terreira, um alaranjado ermo com fagulhas de teimoso capim. Olhei para os lados e o sentimento negativo abundava. Um suspeito veio em sentido oposto, no largo e antes desabitado portão de entrada-saída daqueles fundos. Um capanga.

Eles me cercaram. O motorista queria minha pasta, meu celular, eu, pobre coitado, nem professor efetivado ainda, com eletrônicos a consertar em casa para no mínimo poder trabalhar, gerar atividades, planilhas, imprimir. Me negava a entregar o que fosse e iria para o confronto corporal ou para tentativa de fuga. As impressões suspeitas estavam confirmadas. Não poderia aquele sujeito não saber o destino, que deveria estar registrado em seu aparelho na corrida, não perguntando seguidamente pela tal Rua Tubarão - e que tamanho atraso eu estava dela. Não poderia aquele sujeito frio do nada querer me acompanhar até meu destino final mesmo a pé, ainda mais me conduzindo por meio de uma cadeira de rodas, que sabe-se lá de onde arranjou - minha vó necessita uma. Do confronto de dois contra um conseguiu manter-me íntegro com uma dose de coragem e outra de sorte. Do colégio que atravessamos juntos somente a lembrança dos alunos inquietos e de algumas coordenadoras estranhando a cena, como se fôssemos cientista maluco e criatura pelos caminhos errôneos. Do outro colégio, o que eu necessitava alcançar na Rua Tubarão, apenas a lembrança do atraso e um trauma para continuidade de buscar ele longo caminho por horas de estágio. Vocês não vão acreditar no que me ocorreu hoje, disse ofegante, quase às 11 horas da manhã.

15/10/2025

Cinema Russo: My Joy (2010) + Hard To Be a God (2013)

Destacar tópicos dos filmes:

- cinema russo como pessimismo e de denúncia da violência social gratuita

- personagens encontrados em My Joy: prostitutas, saqueadores, policiais corruptos, vilarejos que recebem mal a estrangeiros

- jornada dos personagens principais como salvadores inoperantes em meio ao sistema corroído e adoecido

- crítica da Idade Média e possibilidade de refletir o que seria do mundo não houvesse avanços científicos, tecnológicos e iluminismos 

- escatologia em Hard to be a God, evidenciando a falta de saneamento e de soluções na Idade Média

- crueza do sexo e os duelos como forma de resolução de desavenças - comuns à história russa

- a crueza com que os russos muitas vezes lidam com a religião. entre o respeito ou a total descrença com as divindades. a frase definitiva é o nome do filme: é duro ser um deus.

- em My Joy ocorre a transformação do personagem principal entre um idealista a praticar seu ofício para um ser descrente, frio, transtornado e corroído pelo meio que o subjuga, o distingue, o violenta. sai da figura de uma colaborador para um praticante, um ator ativo do cenário violento proposto pelo filme e pelos interiores da Rússia

- em Hard to be a God, o personagem principal, humano em outro planeta atrasado, perde a compostura de salvador, de ser eficiente e evoluído perante as agruras que o cercam. ele convive com imagens que o sequelam, o adoecem, o maltratam, entre escatologia, má alimentação e violência de duelos seguidos.

- a ambientação de ambos os filmes é excelente e inclusive se sobrepõe à história, aos roteiros. a Rússia de devastação, longe das capitais, sem leis ou de vilarejos que fabricam suas próprias leis (comum ao Brasil?). com policiais que impõem suas vontades acima do que constituições traduziriam.

em Hard to be a God, a ambientação se deve ao uso do preto e branco, à entrada e saída de personagens constantemente, em uma dinâmica de eterna movimentação, um bailado infernal, em que seres cada vez mais grotescos e asquerosos passam pela frente da câmera, alguns a encarando como forma de surpresa e rompimento das barreiras do que seria apenas uma gravação neutra: os personagens se inserem, participam, compõem uma filmografia da aberração, do doentio, do mundo distópico que na verdade é histórico e de fato, em grande parte, existiu.

ambos os filmes trazem atmosferas aprisionantes, de ar rarefeito. é importante pensar e concluir que, se apenas de mirarmos tais cenas se têm uma ideia de degradação, de aprisionamento, de asfixia, imagine a vida sem possibilidades de desligar a tela, de fazer outra coisa, de superar as adversidades de contexto, de corrupção, de violência, de brutalidade e crueldade.

07/10/2025

The Last Black Man in San Francisco (2019)

Um retrato cada vez mais atual dos Estados Unidos, O Último Homem Negro em São Francisco (2019), direção de Joe Talbot, foi gravado e lançado antes da grande pandemia de covid-19, que seria ainda mais devastadora para o país. A história de Jimmy Fails e sua obsessão por recuperar a casa de seu avô, em zona nobre de uma das mais nobres cidades na América do Norte e no mundo (será?), uma casa do que chamam traços vitorianos e que tem toda pinta de ser construída durante o século 19 (1800 e lá vai pedrada).

A história de Jimmy aproxima os Estados Unidos muito mais do chamado Terceiro Mundo do que eles gostariam. Um jovem sem perspectivas, que vive em uma zona metropolitana, mas na periferia, anda de skate ou aguarda ônibus que nunca chegam no horário que ele deseja. Com ajuda do seu amigo Mont, eles rumam diariamente para São Francisco para manter conservada a casa que foi do avô de Jimmy, mesmo que outras pessoas, brancas, vivam nela atualmente. É com uma morte na família dos atuais proprietários e com a casa se transformando em uma briga judicial entre irmãs que Jimmy enxerga a possibilidade de morar novamente na casa, enquanto a questão na Justiça não fosse tratada. Mas a especulação imobiliária fortíssima, predadora e voraz nos EUA não dará muito tempo ou sossego ao personagem principal.

Quanto a seus familiares, Jimmy tem um pai envolvido com tráfico de drogas e pirataria, onde aparece cortando encartes de CDs e DVDs piratas. A mãe de Jimmy é totalmente ausente, ele nem sabia por onde ela andava, acreditando que ela teria se mudado e permanecido em Los Angeles. A grande esperança para ajudar Jimmy é o amigo Mont, fiel escudeiro desse Dom Quixote, e escritor de teatro, mais uma missão difícil, tratando-se de investir culturalmente àqueles lados. Por conta da casa promissora em região nobre, Jimmy acredita com algum ar de superioridade levar vantagem sobre outros moradores de seu bairro original, jovens como ele que passam o dia na calçada se xingando e inventando passatempos suspeitos.

O filme é preenchido por coadjuvantes e figurantes típicos dos subúrbios estadunidenses (e que os aproximam do Terceiro Mundo mais do que eles gostariam de admitir). Um fanático religioso recitando discurso para poucos ouvintes - geralmente o próprio Jimmy na espera pelo ônibus. Um velho que aparece totalmente nu em ponto de ônibus de San Francisco. Uma multidão de turistas em bondinho que ovaciona o velho pelado como símbolo de loucura e autenticidade. Duas jovens sem perspectiva em um ônibus falando sobre as desvantagens de morar em uma aparente decadente San Francisco, que, literalmente, mantém a(s) fachada(s). Moradores brancos de classe média alta, maioria de idade avançada, que estranham a movimentação de negros no bairro torneado de nobreza. Guia turístico e seus clientes em patinetes eletrônicos em visita ao bairro e às casas nobres, procurando saber sobre as respectivas histórias das construções. Corretores imobiliários nada empáticos, devoradores de oportunidades e sonhos - mais do que vendedores de sonhos e oportunidades. Um maluco, amigo/conhecido de Jimmy que transformou o carro em sua própria moradia, com luzes de natal, varal de roupas, bancos/cama reclináveis, mesclado entre a loucura e a lucidez.

São vistas vítimas da violência urbana, da falta de oportunidades de emprego, da desigualdade racial entre brancos e negros, da desigualdade social entre classes econômicas; aparecem os bicos, os sub-empregos, as lembranças guardadas em caixas pela tia de Jimmy, a mistura entre realidade e a fantasia na mente do jovem adulto, a mescla entre história, identidade e projeção futura nas ambições de Jimmy; a busca desesperada e afunilada de Jimmy pelo direito à moradia que um dia foi de sua família. No enfrentamento ao tema da devoração imobiliária, que mantém casas históricas, espaçosas e bem construídas, reforçadas, paradas, sem uso, enquanto milhares de norte-americanos em todas as capitais vivem em barracas, veículos e parques urbanos. A luta pela ocupação, ao menos a oportunidade como direito, sendo vista, sendo tratada como um sonho, uma alucinação, um devaneio, um delírio. Aqui lembra o filme francês sobre o edifício Gagarine, e a velha pergunta - quantos edifícios Gagarine não estão nos cines? Estão no cotidiano das grandes cidades.

Nota final para The Last Black Man in San Francisco:

🌟🌟🌟🌟

05/10/2025

Crossing (2024)

Comentar sobre:

- A história individual de cada personagem

- Os plot twist convertidos aos espectadores

- A relação interior - cidade com a metrópole Istambul

- Comparação entre Istambul e São Paulo / tratamento a LGBTQI+ em Turquia e Brasil

- A busca por Tekla como uma busca por si mesmo


O filme Crossing (2024) ou Caminhos Cruzados, direção de Levan Akin, conta a história de uma busca pela jovem trans Tekla, que deixou um vilarejo litorâneo da Geórgia para tentar a vida em Istambul, uma das maiores e mais complexas cidades do mundo. Complexa de várias formas, como a miscigenação, os vários idiomas lá falados e o tratamento de aceitação ou preconceito referente a essa miscelânea de cidadãos de muitos países. É comparável ou até mais complexa do que São Paulo. 

A professora aposentada Lia (Mzia Arabuli) visita o vilarejo com o intuito de encontrar a jovem, sua sobrinha. Tekla vivia com outras trans em uma casa que causava desconforto aos moradores da remota e conservadora região. A própria Lia declama ainda ao começo do filme de que as jovens na Geórgia costumavam ser respeitáveis e elegantes, não como são hoje. Nessa busca, ela visita a casa de Achi, um jovem sem pais que vive com a família do irmão bem mais velho - com esposa e sobrinhos para Achi. Desinteressado pela vida em local ermo e remoto, Achi percebe na visita de Lia a oportunidade para sair da Geórgia, rumo a Istambul. Era a busca dele por um emprego, uma nova vida. Ele se considera útil para lidar com o idioma inglês e um pouco de turco, pois a aposentada se comunicava apenas no georgiano. Geórgia e Turquia são países vizinhos, mas com restrições e diferenças. A sobrevivência em uma cidade grande é totalmente diferente ao que eles estão acostumados.

Achi termina de se desentender com seus familiares e, de carro, parte com Lia para essa aventura. Ele precisa deixar o carro do lado da fronteira e, com a confirmação por documentos, adentram ao território turco. Embora Achi conheça a referida Tekla, eles têm apenas um suposto endereço para encontrá-la e não fazem muita ideia de como chegar a ele. Começam a pedir ajuda, hospedagem, são interpelados por diferentes figuras locais, por exemplo as crianças que espreitam as ruas atrás de turistas, para ajudas, golpes ou números artísticos. Assim também ocorre com pessoas mais velhas, como se pode observar no filme através de motoristas improvisados, prostitutas, guias improvisados, assistentes em restaurantes, garçons e até empresários. Todos lutam por espaço na Istambul.

A direção e o roteiro pregam uma tremenda peça sobre qual mulher eles estariam buscando, quando a história se divide entre a procura feita por Achi e Lia e sobre a vida das pessoas trans na Istambul. Existe toda uma luta para registro de documentação, para garantia de direitos, de espaço para moradias, de aceitação entre preconceituosos. Existe o risco de perambular, de fazer trottoir pelas ruas, existe o preconceito para conciliar profissão com identidade de gênero. Existe o perigo da captura pelas controversas leis, existe a desconfiança nos próprios familiares sua do se é uma pessoa transgênero. Será que conhecidos de Tekla devem confiar nessa estranha dupla formada pela tia, que não a via há muitos anos, e o denominado amigo do povoado na Geórgia? Se Tekla fugiu, ela deveria ter seus motivos para o afastamento da família. Sabe-se logo cedo que a mãe de Tekla, a irmã de Lia, já era falecida. Era a procura da tia para se conciliar com a sobrinha.

Lia confidencia que esteve na Istambul quando criança, uma viagem com seu falecido pai. A velha evoca memórias, fica ébria de lembranças e bebida, pois é alcoólatra, conflito que tenta conter o ímpeto do impulsivo Achi, mas em vão. É mais uma das contradições, das conservações que a sociedade tenta impor aos mais jovens, mas sem a presteza do exemplo. Eles vagam, cruzam com personagens, se encontram e se perdem pelo caminho. Caminhos Cruzados, como a tradução do título do filme.

Istambul é projetada entre seus fluxos fluviais, a alta concentração urbana e aglomerada, suas ruelas estreitas, suas subidas, descidas, escadarias, restaurantes com mesas distribuídas pelas calçadas, vendedores ambulantes, prestadores de serviço, pedestres dia e noite, vida noturna movimentada, a presença dos conhecidos gatos de rua na cidade - que aí aproximam Istambul mais do Rio de Janeiro do que de São Paulo. Os gatos são figurantes em diversas cenas, entre espera em rodoviárias, departamentos jurídicos ou simplesmente pelas ruas à espera de sobra de banquetes. Istambul permeada por trânsito intenso, pontes, barcos que atravessam o público pela ampla área da complexa cidade. Istambul que, como confidenciado por um personagem, parece que é uma cidade para se esconderem pessoas, para não serem encontradas. Pode ser a busca de Achi também pela sua fugidia mãe, que não entrou mais em contato com ele. Ele enxergará em Lia também uma figura materna? Impulsivo e sem maiores estudos, terá condições de pedalar, de batalhar sozinho uma vida de altos e baixos na metrópole cosmopolita?

O filme é uma busca pela sumida Tekla, mas quase se desiste dela entre desenvolvimento dos personagens e clímax, tamanhas já são as missões individuais de cada personagem, que apreendem e desafiam a compaixão e atenção do público. Os personagens tem tramas individuais, são impulsionadores da empatia e da construção de suas narrativas, vagueiam, refletem, dividem conflitos, desconfiam e confiam; se importam. Importam. São apresentadas vidas marginais, tentativas de sobreviver, de recomeçar, forças de autoridade, desafios das noites, perseverança e possibilidades. Uma Istambul com seus defeitos, mas com oportunidades, de preconceitos e tabus a serem quebrados e vencidos; de surpreender.

Exageradamente em reconhecimento para Crossing (2024)

🌟🌟🌟🌟🌟

04/10/2025

O Azarento, Um Homem de Sorte (1972)

Um filme brasileiro de comédia com humor até bastante escrachado, mas com caprichos do cotidiano que conferem comicidade. Direção de João Bennio. Se mudando do interior para Goiânia, um sujeito apático, solitário e sem o intuito de criar problemas é na verdade o Azarento. Ele atrai situação de desastre, desregula de motores a eletrônicos, destrói vidraças, distrai trabalhadores em curso. Um perigo por onde anda.

O dito Azarento nasceu em uma sexta-feira 13 de agosto, o mês dos cães loucos, de um ano bissexto. Aí calculem qual ano desse calendário gregoriano poderia Lazarento ter vindo ao mundo. Não aprontava tanto em seu pequeno sítio, até mulher apaixonada e prometida esposa havia, mas ele foi para ganhar a vida. Ou perdê-la ou fazer com que percam. O filme não traz tanta história: o princípio é que Lazarento passeia de um lado a outro e por onde por acaso passa é fait diver na certa. Uma confusão que pára o trânsito goiano com engarrafamento, falhas mecânicas e colisões é digna do videoclipe da canção do Green Day, Walking Contradction, quando Billie Joe Armstrong e seus capangas caminham por uma cidade do interior dos EUA fazendo pifar semáforos, postes, placas e veículos. Uma balbúrdia. O Azarento era dessa radicalidade.

Além da cômica cena de parar o trânsito e causar transtorno aos motoristas e pedestres goianos, o sertanejo avança para um páreo de turfe no jockey club. Tudo ocorria bem nas arquibancadas e na arracanda com os cavalos e jóqueis, até que o efeito da presença dele traz quedas, pinotes, andanças em círculo e uma situação de caos que revolta o rápido narrador da corrida. É uma sequência de eventos sem explicação, denunciavam e procuravam resposta entre rádios e jornal impresso. É no jornal que uma conferência se forma ao perceberem um rosto em comum entre fotos dos diferentes desastres que povoariam as páginas do periódico. Mas esse sujeito parece comum a mais eventos, está nesse também e, vejam só, também em outro. Está portanto lançado o apelido maldoso de Azarento para o cidadão presente nos desastres. Ele é ordenado de prisão e afastamento do convívio das ruas.

Após lançada a campanha pela captura do responsável em colocar o cabelo da cidade em pé, uma ligação anônima vinda de um restaurante identifica o herói da trama. A polícia se aproxima da casa onde estão diversos machucados, vítimas das peripécias do Azarento e o procurado estava a tomar café tranquilamente, quando é surpreendido por três guardas. Ele tem voz de prisão decretada, mas nenhum dos homens ousa se aproximar de tamanho azar. À distância e sem algemas, Azarento é conduzido até a penitenciária local. As confusões estariam enfim cessadas? Óbvio que não. Com o azar pendente ao sistema carcerário, os guardas cochilam, os presos armam um plano certeiro apenas com a presença de Azarento, que sequer deixa sua cela, cabisbaixo e recolhido a seu status desprezado. Os demais aproveitam, roubam chave, abrem os portões e ganham as ruas. É caos novamente na pobre Goiânia, não bastassem episódios de Césio na localidade.

Azarento é encontrado pelo diretor da prisão no dia seguinte ainda na solidão da alcova. É expulso. Setenciado que não volte mais, que vá para o mais longe possível. Estava danado o pobre diretor com a debandada de sua farta safra de presos e com o caos novamente a orbitar e a estrebuchar as pacatas terras sertanejas de centro-oeste brasileiro.

Entre episódios de desolação e comicidade, a publicidade é um grande trunfo no filme de João Bennio. Descobrem que o herói passou a calçar sapatos que lhe eliminavam o azar. Se até dele o azar se dissipou, a população estava então obrigada a consumir. Propagandas em rádio, em alto-falantes, em jornais, publicidade até nos começos da televisão em cores para todo Brasil. Azarento vira sujeito famoso e bem quisto, cidadão homenageado, requisitado, entrevistado. O que ele pensa sobre aborto, guerra, política, atores, gente famosa, tudo é questionado ao herói de quase nenhuma convicção e de personalidade nada marcante. Azarento é apenas a personificação do azar, a ambulância dos desprazeres do caos. Mas até para Azarento a vida sorriria. Um garoto traquinas que ele só importunava passageiros de um voo onde sentado ia o herói. Entre outras vítimas enquanto a mãe fazia a egípcia, Azarento tem seu famoso sapato arrancado pelo badboy mirim e assim começa uma turbulência frenética quando o voo da VASP já estava próximo do destino final em terras cariocas. Os passageiros lutavam pela sobrevivência e contra o desespero de uma eminente queda quando percebem o rosto famoso de Azarento na classe da aeronave. Denunciado, aturdido, sem escolha, Azarento deve saltar de pára-quedas para salvar o destino do voo. O calçam com o equipamento de ousado pulo e o empurram para fora. Boa sorte ao Azarento e a todos que chegariam para o Galeão.

Azarento recuperaria sua sorte ao aterrissar justamente em uma piscina lotada de boas pintas cariocas, gente da socialite, de alta recomendação, da classe abastada. Para maior sorte, recorre-se aqui ao spoiler final, ele vai direto para os braços de uma solteira convicta e herdeira, desejada por todos os rapazotes. Azarento estaria recuperado das diversas crises de azar que como uma rinite de espirros o perseguiam em vida? Aí é descobrir nos minutos finais da história genuinamente brasileira e que inspira humor para quem a vê.

Nota final para comédia proposta pelo diretor João Bennio:

3,5 / 5

03/10/2025

La Grande Noirceur (2018)

Philip é um imitador de Charlie Chaplin que vence um concurso entre imitadores do ídolo. O filme tem origem no Quebec, mesclando as falas em inglês e francês, mas Philip está longe de casa, tentando sobreviver em lados ermos do Oeste dos Estados Unidos. Apesar de recente e apocalíptico, La Grande Noirceur é ambientado pós Segunda Guerra Mundial, entre crise e violência, resquícios de nazismo e crueldade.

Logo ao vencer o concurso, Philip sofre nas mãos dos concorrentes derrotados. Tem sua carteira roubada e lhe sobra também somente sua roupa do corpo. O filme é bastante introspectivo, na solidão e nas dificuldades enfrentadas pelo personagem principal. Ele perde e corre atrás de trens. Passa dias endesertado, entre a terra árida e o gelo. Encontra carona com um francês que lhe compreende e ambos podem conversar no idioma que mais lhes convém. O francês conquista a confiança de Philip e se anuncia como um procurador de talentos como o dele. É bonita a cena em que pede para Philip exibir seu número e o protagonista dança solitário pelas terras do deserto, montanhoso ao fundo. Os passos descontraídos e descomedidos são interrompidos por um anúncio de rádio que corta a magia da canção. Os Estados Unidos seguem retrucando pela guerra. São um país que se recusa a perder, que só ambiciona vitórias, que admira os melhores do beisebol, de outros esportes e precisa desse sangue jovem, atrevido e vencedor em busca das conquistas na Europa. Os EUA não toleram os perdedores, então não seja um - Philip, revoltado com a propaganda belicosa, salta para o carro do francês (que talvez nem estivesse entendendo toda a mensagem) e desliga o rádio, enquanto desaba em exaustão e emoção pelo período de crise.

Philip deixa a carona e prossegue sua jornada. Ele encontrará vilarejos remotos e uma casa que parecia a acolhida necessária, com uma loira atraente, mas cada vez mais estranho. La Grande Noirceur é de 2018, mas parece incorporar cenas como Good Boy, de 2022, em que seres humanos são tratados em tempo integral como cachorros. Assim foi a captura da chamada Rosie, uma jovem atada por coleira, controlada pela estranha loira. Rosie revela que foi capturada há cinco anos e seu verdadeiro nome é Esther. Ela se alimenta e dorme no chão, distribui lambidas e vive amarrada na incorporação de ser uma cadela. Está sob controle absoluto dos párias psicopatas. Embora a loira diga que seu marido havia morrido, essa é só mais uma das crescentes suspeitas e dúvidas de Philip nesse universo diabólico e violento.

Philip tem uma jornada introspectiva, fugidia e permeada de personagens bizarros que demonstram a cultura de violência sobrevivente dos Estados Unidos da América, mesmo entre não idos à guerra. Sintomático dessa nação de guerrilheiros que pregam uma liberdade para acorrentar pessoas como cachorros. O desejo do canadense era voltar para casa, onde desejava se encontrar com sua mãe. Alguns elementos do filme permitem identificar a época remota, mas fazem pensar justamente em um tempo atual após eventos catastróficos (como uma nomeada guerra distante ou local, civil). O contato com a mãe no Canadá é feito por telefones interpelados por telefonistas, profissão em desuso. A tecnologia aparece pouco, mas é possível ser vista em automóveis como o dirigido pelo francês na erma estrada. As armas de fogo estão sob as mãos dos verozes habitantes, pela sobrevivência ou para realizar ataques contra fragilizados. Onde haverá espaço em um mundo como esse para palhaços imitadores, dançarinos e musicais apreciadores de arte, performadores de arte?

Então, a produção do filme não necessariamente transporta para época do século passado. É uma crítica aos Estados Unidos atuais, um interior armamentista, uma população convocada por forças ditas patrióticas, fomentadora de guerra, dos artefatos bélicos, da liberdade que restringe a liberdade estrangeira, do outro. La Grande Noirceur une elementos dos filmes noir da época, do pós guerra, das décadas de 1940 e 1950, com a crítica que permanece válida em uma nação comandada pelo reeleito e sedento Donald.

Nota final para La Grande Noirceur:
🌟🌟🌟🌟