24/08/2020

Haikai

haikai
não sei fazer
por não saber
daqui não sai

Edevan e o Hotel

Uma boa história deveria começar com uma boa motivação. Certo? Não sei. Esta então não é uma boa história ou, se considerarem que é, ela quebra o paradigma, porque havia nenhuma motivação decente para justificá-la. O fastio, o tédio, o desequilíbrio mental podem aflorar e descambar acontecimentos que se desentrelaçam como a um novelo de lã. Parece o caso aqui referido a seguir.

Edevan era um despropositado. Vivia entre a preguiça dos trabalhos considerados sérios e a traquinice incontrolável a respeito das bobagens que inventava. Certa feita já assomava seus 20 e poucos anos e, portanto, via os amigos em desenvolvimento na composição de famílias e escalas empregatícias. Ele? Nada. Avulso, entre camelódromo e farras inconsequentes. Mas Edevan queria praticar algum grande feito, por mais idiota que assim fosse. Foi comendo um sanduíche na praça de alimentação dos camelô, trocando uma ideia com Jones que brotou nele a seiva da ideia criativa.

Jones era bom fotógrafo, embora não tivesse uma câmera de assim alta resolução. Mas desembocou a mostrar fotos que tirara com o celular e o Edevan se interessou em especial numa noturna, que captava o letreiro do Hotel Manta. Palhaço autenticado que era, Edevan tinha a maestria na destreza com os tais dos trocadilhos e imaginou que uma falha proposital no letreiro concluiria seu plano. Acontece que o Hotel Manta era conhecido pelo mais alto da cidade, que escalonava um padrão de metrópole. "Megalópole" para os avoados megalomaníacos de plantão. Enfim, uma obra sua no letreiro iria expor a falha para meio milhão de pessoas. Pensava ele assim, porque meio milhão soava muito mais grandioso do que 500 mil.

O Manta era um hotel antigo e reconhecido, com seu glamour de receber os principais visitantes do, embora crescido, pacato município de pouca eventualidade. Alguns congressos, coisas universitárias que reuniam pessoas de fora, algo muito mais de micro do que de macroempresários, além eventuais partidas de futebol serviam de cardápio de eventos da cidade que ainda contava com uma praia para fugidas urbanas de sua própria população, atraindo poucos turistas pela dita cuja.

Mas o Manta. O Hotel Manta era bastante alto, postura grandiloquente de capitaneador das vistas de quem cruzava o centro da cidade. Edevan pensou em se alistar no quadro de hóspedes, mas reconheceu que não possuía muito do cargo e do encargo de contribuir com tais taxas. Precisava de uma postura mais empresarial, pensava ele, além do mais não desfrutava da grana para um eventual pagamento adiantado, requerido pelo atendente ali do térreo. Inferno.

Mas bolou que de altura não tinha medo e por isso poderia escalonar a missão pelo lado de fora mesmo. Homem-Aranha seria? Deu-se por conta de que não precisava de tal manobra tão arriscada, embora riscos houvesse. Havia no Hotel Manta uma virtuosa escada de incêndio. Não parecia utilizada havia vários anos, porque dali não se sabia de história de incêndio. Mas Edevan pensou pela comunicação entre os quartos. Correria o risco de ser visto por algum ocupante. Pela vista proporcionada do Hotel para as luzes (ou ausência delas) no centro da cidade e bairros mais adjuntos do que periféricos, muitos clientes poderiam estar vislumbrando a noite e serem surpreendidos pelo jovem pelo lado de fora. Pensou no risco de o verem lá de baixo e raciocinou que esse não corria, porque os moradores da cidade estavam acostumados àquele visual diário, em que nada mais os encantava, enquanto os poucos visitantes, pelos riscos da violência de se mostrarem designadamente turistas, evitavam olhar para cima em busca dos topos dos modestos arranhacéus.

A bem da verdade aí cruzam-se informações contraditórias, pois a escada de incêndio era um convite para os impostores e arruaceiros tentarem uma entrada triunfal para o interior das entranhas dos quartos. Disfarçado de sistema de alarmes, travas e seguranças, Edevan fez ele próprio o teste ao perguntar na recepção do hotel sobre a seguridade de seus hóspedes, oferecendo seus falsos serviços. O recepcionista não o decepcionou, apontando que os quartos eram muito bem trancafiados por dentro, a gosto e orientação de seus hospedeiros. Ao preencherem o formulário de requisição dos quartos, os clientes eram avisados para manterem-se de janelões fechados e alertas a ruídos que fugissem do estranho e subjetivo conceito de normalidade. Edevan seria essa exceção noites após.

O nosso (anti)herói estava em grau de obstinação de concluir sua abilolada missão que chegou a treinar seu temor por alturas no apartamento de um dos poucos amigos pelo centro da cidade. Em uma diferença gritante, entretanto, experimentou apenas a exposição da altura de um sexto andar, enquanto o Hotel Manta dispunha de pelo menos 16. Quase isso, quase isso, repetia para si mesmo. Questionado do porque fazia o experimento no apartamento de Gustavo, o Edevan temperava o suspense com frases de efeito como "quem viver verá". Um pegadinha esse tal de Edevan.

Edevan chegou a ler sobre os riscos de escalar um prédio de 16 andares e leu sobre um macaco que tinha feito a proeza na cidade de Araçatuba. Concluiu que ele, Edevan, superaria o fruto da natureza por sua massa cinzenta adiantada. Polegar opositor, etc, nunca viram o curto documentário Ilha das Flores? Edevan calculou então em qual noite de tempo bom e menos lua, para não ser tão visto, rumaria até o topo do Hotel Manta.

Lá era uma quarta-feira de futebol pelo Brasil e América do Sul quando Edevan, frustrado pelos maus resultados do seu Internacional, resolveu abandonar a visibilidade do jogo semanal e partir rumo a sua missão. Ele havia cursado os primeiros semestres da Eletrônica no Instituto Federal e, embora não trabalhasse exatamente com isso, apesar das vendas das mais variadas no camelô, ele sabia que isso de agora adiantaria para concluir o que pretendia.

Edevan sabia que a parte mais difícil era começar o trajeto pela escada de incêndio. Sabia que o hotel dispunha de seguranças pela frente e pelos fundos. Mas embora não fosse fã de futebol a ponto de não perder os jogos, percebeu que o segurança da escadaria dos considerados fundos estava um pouco distraído mirando para uma vidraçaria não espelhada de restaurante, ou seja, conseguia, em olhar biônico, absorver algo do conteúdo futebolístico. "Perder tempo com outro 0x0", murmurava Edevan enquanto, trajado todo de preto para melhor camuflar-se à noite, começava sua longa caminhada até o topo do trem.

Obstinado, seguia as lógicas de encarar (ou não encarar?) o medo e só olhar somente para cima. Para baixo daria ruim, sabia disso. Quando se percebeu o guarda já era problema passado e se avistava à altura do quarto andar. Mais três e já superaria seu recorde pessoal no apartamento de Gustavo. Ventava um pouco que o assobio da noite era inevitável. Edevan tremia sua casaca preta lá de cima, os cabelos aprisionados em gorro para absolutamente nada de sua genética-estética chamarem a atenção no sombreado vacilante da missão. Percebia enquanto engolia em seco pelo assombro do interior dos quartos que o hotel estava na verdade era muito vazio. Uma ou outra luz acesa em ação no ato de iluminar. Concluía que estão tudo em congresso os congressistas ou vendo o jogo os visores de jogo ou que a praga do hotel estava esvaziado por conseguinte. "Quem mandou cobrarem tão caro?"

Foi apegado à altura do nono ou décimo andar pelo sentimento de raiva daquela sociedade que possuía quartos do tamanho de casas, banheira, aquecimento, tudo o que fosse, televisão a cabo, frigobar e lá de baixo algumas das formigas não se mexiam no ir e vir dos carros, pois estavam a dormir nas ruas, embaixo de toldos e marquises, tapadas por suas improvisadas camadas acobertadoras. Sentiu o quão idiota era seu plano, mas já que estava ali, após dias de planejamento, prosseguiria.

Visualizava o topo nas já cansadas pernas de quem só vinha fazendo exercício para correr de trás de ônibus na Osório, após a subida da Floriano, de onde trabalhava em seu final de rua, quase Fragata, ainda Centro. Ofegante pelos pulmões esfumaçados de carteira diária de cigarros, Edevan sabia que agora nada o deteria. Checou os bolsos e estava com o necessário para desarmar o que desarmaria.

Percebeu que do último andar para aterrissar no terraço precisaria de um salto de mágico impulso. A escadaria de incêndio só ia até a última ocupação de leito na 16ª porta. Engoliu em seco, agora de saliva mais pesada que anteriormente. A faringe rugiu de assombro e protesto. Edevan primeiro jogou suas aparelhagens, bagulhos para cima do teto do magnífico Hotel. Em um lapso de segundo, se deu conta que, se ele Edevan não consegue o salto perfeito para ali também chegar, perderia suas ferramentas em frustrada missão. Mas ele tinha convicção de que yes, I can.

Nosso herói(anti) jogou toda a força dos braços para apoiar a dobrinha dos dedos flexionados em sumária força de que por um instante duvidou que fosse capaz, mas logo o sub-produto de força nos braços levava seu corpo para cima e as pernas, atingindo também o outro patamar, terminaram o serviço de jogá-lo para cima, no destino final da derradeira jornada. Suava frio, porque fria também era a noite. Então foi logo de encontro ao luminoso e antes invencível letreiro.

Ed já tinha visto aquela maravilha las veguiana falhar, mas não da forma que havia planejado, plano tão besta. Observou o que fazia ideia: o letreiro era duplo, iluminava em direção a qualquer ponto cardeal. Pegou alicates, demais ferramentas e apertou aqui, afrouxou ali e desarmou as duas letras que queria, em cada inscrição. O Hotel ficou então desfalcado de sua inicial escrita e agora apontava para um erro cômico de grafia. Ao menos assim pensava o autor da peça pregada.

Espalmou seus dedos, batendo-os uns contra os outros em busca de retirar a poeira acumulada lá de cima. Os cocôs de pomba também eram uma obra do destino da natureza, parece que Edevan não era o único a querer cagar com a atividade da linha hoteleira. Perdoou as pombas por sujarem a sola de seu sapato e colocar-lhe a saúde em risco, porque vocês sabem que pomba é bicho complicado de lidar, naturalmente. Sentindo arrepios de frio em meio ao suor que lhe brotava ainda em corpo quente da intensa atividade física e psicológica - do temor de ser pego em flagrante - Edevan percebeu que seria difícil, mas complicado mesmo, fazer o caminho de volta. O salto para o quadrante da escadaria precisaria ser executado com uma manobra ostensivamente calculada e suas pernas bambeavam ali de cima. Uniam-se contra ele o cansaço, a fadiga mental, o frio da noite e o psicológico e ao menos agradeceu estar enjaquetado, pois de dia trabalhava somente de camiseta. O gorro sobre os cabelos também o protegia de alguma maneira.

Pela vertigem que a altura impressionante de 16 andares lhe causava, percebeu que perderia sim para o macaco de Araçatuba e ficaria ali por cima naquela interminável noite. Nem onze e meia no relógio e não sabia bem porque de dia saltaria melhor, se a cidade lá de baixo estaria mais visível, visibilidade esta afetada pelos disfuncionais postes. Acontece que ele tremeu mesmo as bases, lacrimejou na umidade vertente dos olhos e não conseguiu sair do lugar naquele olho de furacão. Passou a noite encostado na entradinha para a escada interna, que ele checou rapidamente, comprovou fechada e resolveu não tentar arrombar, para não ser preso. Tinha passagem policial por gramas de maconha, o azarado. Não queria voltar àquela violência desproporcional contra si. Policiais selvagens.

Se encostou ao lado da portinhola e agradeceu ao curtíssimo toldo que protegeria de qualquer eventual chuva, se tratando da sempre incerta previsão climática de seu caótico município. Mas a chuva não veio, apenas o frio acentuou-se naquela madrugada. Apesar das pernas um pouco para fora do alcance ocasional do toldo, nenhuma pomba o pioraria a situação. Mas sentia-se já em contato com as infecciosas lembranças daqueles malditos pássaros.

Acordou tremido agora era de fome e chegou à beira de sua missão de volta, mas não arriscou pular, pelas pernas ainda mais enfraquecidas. Descansaram da longa subida, mas não foram nutridas. O nosso idiota não lembrou de uma barrinha de cereais que fosse, não planejava de forma alguma passar a noite ali em cima. Mas passou e com a manhã acumulada mais uma tarde, até que abriram a portinhola da escadaria interna e o rapaz, que o viu surpreendido, até meio queimado de vastíssimo sol, se identificou como o funcionário para consertar a "porra do letreiro", com essas educadas palavras.

Edevan estava quase inconsciente e foi baixado pela escadaria interna, nunca mais pisou naquela externa, nunca mais. Mas na interna também não pisou, porque estava sendo carregado até o elevador. 16 andares abaixo da interminável noite, ele deu entrada no Pronto-Socorro, complicou-se de tanto frio apanhado em roupa de suor úmido, jejum de comer, cigarros acumulados desde os 14 anos e cocô de pomba e acabou falecendo no segundo dia de sua internação.

Um fotojornalista do Diário da Manhã havia fotografado o inusitado letreiro com o desfalque das primeiras letras de cada palavra: "OTEL ANTA", o que foi noticiado em fait-diver como fato inédito naquele município de aventuras tão comuns, entre o tráfico de drogas e a rotineira violência. Algo diferente nas páginas de também anedótico periódico.

No fim do conto cômico-trágico da trajetória do anti-herói Edevan, o jovem foi enterrado no cemitério da avenida Ildefonso Lopes, aquele lá perto do Parque do Esporte Clube Pelotas, que, diferente do Farroupilha, apesar de também vizinho de cemitério, não recebe a alcunha de Fantasma. Enfim, Edevan só saberia desses últimos acontecimentos se fantasma for, porque o cobriram o caixão com a bandeira do Internacional que ele havia abandonado. O time naquela noite de sua enfermidade, venceu por 3x0 e saltou posições na tabela. Seria uma boa lembrança de despedida após os sonolentos 0x0. Após a obra sua do OTEL ANTA, nenhuma nota no jornal pela morte do jovem que, no estado de calamidade que seu organismo se encontrava, nem foi acusado pela pegadinha de cortar as letras lá de cima. Assim se foi Edevan, um amigo de um amigo meu.

23/08/2020

Reflexões acerca do trabalho universal do escritor

Fragmentos aqui intitulados reflexões acerca do trabalho universal do escritor.

O escritor traduzia histórias, sentimentos, reflexões, publicações oficializadas, políticas, o que estava vigente para ser escrito e carimbado para a História. No importante papel de tradutor de épocas para conhecimentos futuros. Uma oficialização a mais em relação aos causos repassados de boca em boca, dos contadores orais, dos velhos sábios para seus novos aprendizes, através das gerações. Ali coube ao escritor deixar registradas versões oficiais, fontes, se não inesgotáveis, mais próximas disso. Trabalhava o escritor para reduzir o pesado consumo da efemeridade, que torna nossos pensamentos, os acontecimentos, os atrevimentos, as coragens, os sonhos, as filosofias tão breves. Contra a brevidade de ausente piedade atuava e atua o escritor.

O escritor traduz desde as versões oficiais para a História, em encadernações cada vez mais vastas e acessadas, até suas subjetividades mais íntimas. Vangloria sonhos, ideias, filosofias vãs ou mais disseminadas e relevantes. Transpõe ao papel de hoje suas glórias e fracassos, histórias suas ou de outrem. Valoriza seu bairro, sua cidade, seu país, ou se arrisca sobre culturas diversas por onde obtém contatos. Se inspira no que vem de fora, em fontes que percebem suas determinantes participações ou mesmo são usadas sem se darem por conta.

O escritor, me peguei a pensar anteriormente, vencia muitos obstáculos nas remotas épocas. Era necessário ter a criação com o aprendizado da língua, depois da escrita e depois ter fontes e métodos para transpor suas escritas. Nem todos tinham papel. Nem todos tinham penas, nem todos tinham tintas. Seu povo era em sumo analfabeto, então era muito reduzido o alcance de suas escrituras. O trabalho era árduo em molhar a pena, passar ao papel, desenhar as letras, esperar secar, molhar a pena, passar ao papel na gravura das letras e esperando secar, acabava o papel, acabava a tinta, não acabavam as letras, passava-se o tempo. Duro o trabalho do antigo herói escriba.

Antes das grandes enciclopédias e dos acessos mais universalizados, como era limitado o alcance cognitivo para o desejoso escritor. Talvez, exatamente pela ausência das referidas ferramentas, ele nem soubesse o alcance que poderia sobrepor suas obras. Não saberia onde pode chegar. Hoje temos acessos seculares, História, Física, Astronomia, Astrologia, Química, Matemáticas, Geografia, Geologia, Linguagens, os mais diversos idiomas catalogados, Esporte, Política, os variados assuntos. Alguns trabalhos dessas épocas praticamente esquecidas são recuperados e atualizados e alavancam prestígios não antes almejados. Outros infelizmente perdem-se pelos distintos e incertos caminhos.

Os escritores tinham maior dificuldade de dominarem mais idiomas pela globalização ainda distante, pelo ensino não universalizado, mas é também de se lembrar e repensar quem tem acesso a essas chamadas globalizações e universalizações. Lados que incluem e lados que excluem. Colchas puxadas para tapar a cabeça e destapar os pés. É de se refletir. Mas, enfim, avançam os cargos poliglotas, os viajantes incessantes, os ensaciados em dividir experiências elevadas ou das mais mundanas.

A leitura também está presente na maioria das pessoas pelos países, a taxa de alfabetização se eleva, os conhecimentos estão mais prontos, embalados, postulados a serem disseminados. Há estantes com livros rotos e totalmente paralisados a acumularem pó, bibliotecas pouco acessadas e outros sedentos em beber cálices de leitura com seus pratos vazios para esta ceia. A circulação do conhecimento encontra várias barreiras, algumas propositais, outras não, não pensadas. Estradas ainda não pavimentadas ou fornecedores que não escoam suas mercadorias.

Aumenta o número de escritores, de jornalistas, de blogueiros, de fazedores de vídeos para passar conteúdo. Aumentam os leitores e sobretudo os visualizadores com seus cansados olhos e cérebros, que dispensam a leitura textual escrita. A democratização, o controle, a orientação pessoal, a orientação política, a vontade ou a inação, o incentivo ou o empate dos governos e desgovernos. Tudo isso pondo a prova o que vai ou não vai ser lido. Ou o quanto vai ser lido. Ou quem vai ser lido.

Os barrados, os censurados, os carimbados de loucos, os financiados, os financiadores, as editoras, os mecenas, os "o que eu ganho com isso??", todos envolvidos nesse complexo processo atual. Aumenta a gama de leitores pelo mundo, mas como está a divisão de conteúdos, a variedade, a pluralidade do que podem ou não acessar? Quantos escritores conhecemos da África, esta já produtora em idiomas que teríamos maior acesso, do português angolano ou moçambicano, aos ingleses e franceses, quantos escritores e escritoras latino-americanos? Quantos de nossa cidade? Quantos produtores, do cordel, do rap, dos repentistas? Poetas, bloggers, usuários de medium? Quanto valem seus trabalhos? Informativos, subjetivos, sufocantes, inebriantes, desconcertantes, verdadeiros, ilusórios?

E pensar que tudo isso que aqui agora escrevo foi por pensar que os escritores de antigamente escreviam sobre outros lugares porque por lá passavam e conheciam de fato, in loco, como se diz. E pensei quem tenha acesso a viajar, quem tenha acesso à escolaridade, quem tenha incentivo a escrever, quem tenha leitores para começar, 5, 10, 20, 50, 100, daqui a pouco lançar algo e 500 cópias e quem vai comprar, e quem vai revender, e quem vai nos ajudar? E quem vai nos salvar de estarmos provando sempre a mesma água salgada neste mar que nunca nos mata a sede? É isto.

20/08/2020

Campo do Estrela

A bola é chutada pela imaginária linha de fundo marcada pelas touceiras ou cocorutos. Ela vai lá atrás das traves sem redes, em uma pelada de futebol também imaginário, disputado com o objetivo de apenas uma área e uma goleira. Quando a bola foge assim, geralmente opta-se pela regra do quem chuta busca. Ela pode ter acertado um dos morrinhos atrás da meta e ser ricocheteada de volta ao campo de jogo, facilitando a reposição a ser feita pelo goleiro. Ou pode ir para o meio da rua de terra batida. Ou pode ter caído em uma das poluídas valetas, necessitando ser bastante rolada na grama ou esguichada de água de uma torneira vizinha para retomar a atividade entre os jogadores.

Eram dois irmãos e um primo deles. Os três com nomes bíblicos. O primo deles de pele bem negra, um dos irmãos também de pardo para negro. O outro irmão era mais claro, mas ainda assim de branco para pardo. Os irmãos eram mais velhos, o primo um pouco mais moço. O primo Josias era franzino, magrinho, de canelas finas o menino negrinho, mas o melhor jogador de futebol entre os três citados. Aprontava muita correria e só tinha que melhorar um pouco a finalização. Mas os dribles eram desconcertantes, de um lado ao outro e a preferência pelo chute no descalço pé direito. Raramente vinha de tênis ou chuteira. Às vezes, quando assim vinha, descalçava durante o jogo e sentia maior liberdade para conduzir a bola como veio ao mundo.

Mas o descrito chute pela linha de fundo foi de um dos irmãos, o mais claro, de cabelos encaracolados. A cada finalização, geralmente errada, já que ele tinha muita dificuldade em marcar os gols, ou de qualquer fundamento, movimento dentro do lúdico jogo, ele mostrava os dentes em uma expressão de desgosto, mas parecia mais por cacoete do que realmente externar raiva. Digamos que se acostumou aos errores na hora de concluir o momento mais importante da partidinha.

Seu irmão era mais malvado e violento. Também sem demonstrar muita técnica para o jogo, era impaciente, se irritava com seus movimentos imprecisos e daqui a pouco partia para a violência. Não foi uma única vez que foi para cima do irmão chamando-o de "filho da puta". Eu achava bizarro como ele não percebia que xingava sua própria geradora.

Os jogos se desenvolviam assim. Gostava muito de jogar com o Josias, mas seus primos eram dessa forma desengonçados para atuar e nunca deixávamos que jogassem no mesmo time, geralmente por dupla, se não surgiam novos jogadores. O interessante dos campinhos de rua, em amplos terrenos baldios como era esse, com traves para futebol de 11 e espaço retangular para tal disputa, era que qualquer um que vinha passando podia se candidatar a entrar no jogo. Também não foi uma ou duas vezes que interessados mesmo em calças jeans quiseram bater um pouco na bola.

Se jogávamos em dupla, era apenas um goleiro e as duplas tentavam fazer os gols naquela trave que ficava mais próxima. Aquela que, caso errassem o alvo por muito, para longe inclusive dos morros devolvedores automáticos da bola, era preciso buscá-la no meio da rua de terra batida ou na temida valeta. A trave oposta, distante em 100 metros ao fundo do extenso terreno baldio, tinha um matagal espesso atrás da meta e não raras vezes pintavam cobras no caminho. Resultado: era melhor poupar os 100 metros de corrida até aquela trave e correr o risco de acertar a borbulhante valeta.

Josias e eu seríamos a melhor dupla entre os titulares da nossa disputa. Mas não valia a pena jogarmos juntos, só apanharíamos nas canelas. As nossas extremidades finas. Não querendo apanhar, dividíamos as duplas e procurávamos ser os artilheiros das nossas, em disputas parelhas da atividade. Eu gostava mesmo na escola era de jogar de goleiro, mas ali arriscava meus chutes e dribles nada curtos, sempre adiantando demais a bola e tentando apostar na velocidade para completar os feitos. A canhota com alguma habilidade para acertar o arco.

Era certo que nenhum de nós chegaria à profissionalização no futebol. Os irmãos muito distantes, eu com alguma esperança, mas anos depois percebi que me voltaria muito melhor ao estudo e às atividades de imprensa, ou ao menos escrita. Josias parecia a grande esperança. Temia pelo fato dele ser muito pequeno e nada instruído para jogos sérios. Era um verdadeiro peladeiro. Ciscador, diriam também na linguagem apropriada. Malabarista da bola, que domava tanto pelo chão como em jogadas altinhas. Não raramente ensaiava o uso da bicicleta como recurso. Precisava reagir e muito em massa muscular. Anos depois o encontrei assim, bem maior, mas já dotado da condição de ser pai ao final da adolescência. Parece que arriscou meses no exército e depois não mais o vi.

O sorridente Josias trocou o nosso bairro pela ponta oposta da zona urbana da cidade, o bairro Fragata. Os primos ainda estiveram por ali por muito tempo enquanto convivi no espaço entre a avenida onde eu morava e o campo onde disputávamos esses finais de tarde inesquecíveis. Com amplo apoio familiar, segui linearmente minha vida dedicada aos estudos até os primeiros empregos já na casa dos 20 anos. Os primos em questão não recordo se eram mais velhos do que eu, apenas que eram mais velhos que o Josias, que era o mais novo entre nós todos.

Eis que os primos seguiram por ali na quadra. Eram da casa mais improvisada. As cercas tortas com madeiras de vários tipos, o pátio em materiais encontrados pelas ruas, as galinhas por ciscarem para o lado oposto da cerca, em direção ao meio da rua, em busca de suas incertas refeições. A vida dos primos não seguiu linearmente o caminho de estudos, como desde jovens não se desenhava assim. Omitiam em qual série estudavam e possivelmente deixavam de frequentar as aulas por vários dias. Às vezes eu chegava para aproveitar os filetes de sol do final da tarde e eles já estavam a postos para bater uma bola. Ou sentados no banco de madeira à frente de sua casa ou já correndo pelo campo em alguma atividade como arremessarem pedras um contra ou outro, ou, na melhor das hipóteses, improvisando uma pipa. Acho que as chamavam de papagaios. Nunca tive muita habilidade manual para constituí-las, mas isso eles conseguiam realizar com boa destreza. Pela pouca intimidade com a bola, muitas vezes se dedicavam mais tempo a aproveitar o vento com seu brinquedo em madeiras e tecido.

Os anos foram passando e eu já não jogava mais bola com eles. Quando muito corria pelas quadras da minha escola. Procurava outros hobbies como ir ao cinema ou tentar entender os jogos virtuais que muitos amigos aderiam nas tecnologias vigentes. O campo também ia piorando gradativamente seu já não antes belo aspecto. A falta de cuidados no corte da grama acarretava uma prática quase impossível. Era preciso força de vontade que já não me interessava para jogar bola naquela grama até a altura das canelas. Diversas touceiras, que poderiam gravemente torcer um pé ou mais amenamente estragar dribles, passes e chutes a gol, desanimavam os amadores de plantão.

Josias era meu melhor amigo entre eles. Tinha um caráter positivo, o sorriso abundante, sempre estampado em seu rosto. Uma das vezes que mais ri foi quando apareceu de cabelo completamente raspado. Disse que os primos, ou tio, não recordo, mas eles haviam raspado seu cabelo enquanto dormia. Me questionava como isso era possível. Como ele não havia acordado? Estava careca no dia seguinte e sorridente, sem se importar com a mudança radical em seu visual. Seguia o embalo, bastava a bola rolar e, como um brinquedo de pilhas novas, corria para lá da capital do Iraque, Bagdá. Elétrico, sempre em alta voltagem, independente dos problemas que poderiam se apresentar familiarmente e que futuramente o também poderiam atormentar.

Havia um primo de Josias que residia na curiosa Porto Alegre, que eu tão pouco conhecia. Assistia a todos os jogos do Grêmio na torcida e do Internacional na chamada secação. O Olímpico de aspecto Monumental, redondo como a bola que fazíamos correr pelas touceiras do nosso terrenão baldio. O Beira-Rio que mentia e eu acreditava que eles teriam a maior torcida do Rio Grande. Fato que, conforme avancei em idade, foi redundantemente desmentido, sempre com o Grêmio acima no percentual das pesquisas. O Grêmio, da maior torcida do Rio Grande do Sul. Eu entre eles, mesmo muito à distância. Entre os primos de Josias, um me parece que também era gremista e o outro não se definia. A camisa que dessem a ele, seja de qual time fosse, serviria e ele vestiria orgulhoso para tentar jogar o seu futebol. Ou mesmo empinar pipas ou projetar pedras contra irmão como alvo.

O primo porto-alegrense de Josias, entretanto, era colorado. Mas jogava pela base do São José, clube da zona norte da capital gaúcha. Um time ainda distante da sua projeção fixamente nacional, hoje em território da Série C, entre os 60 maiores clubes do país. Com a grama sintética e a mudança de nome do chamado Passo d'Areia para estádio Francisco Novelletto (com dois L e dois T, imprensa). Novelletto, presidente da Federação Gaúcha nos anos 2000 até o começo do mandato de Luciano Hocsman em 2020, também havia presidido o clube São José nos anos 1990. Alçou uma boa projeção à atual terceira força da capital. O Cruzeiro, embalado campeão gaúcho dos primórdios, residente de nova arena própria em Cachoeirinha, é conhecido como o clube do interior que mais vezes derrotou Grêmio e Internacional. Mas, distante da elite gaúcha, pode perder o posto em alguns anos para o Juventude. Projeções...

Pela terceira vez tento iniciar um parágrafo sobre o primo de Josias sem me distrair com curiosidades do futebol gaúcho. Ok, o primo de Josias. Se chamava Rodrigo. Era bem mais velho e tinha um físico adequado para tentar a profissionalização no futebol. Muita noção de jogo, mais experiente e bem treinado do que nós. Eu tentava rivalizar, incomodá-lo como o melhor das partidas, mas ele, pela idade, parece que levava ligeira vantagem. Era um bom adversário e sempre que ele vinha nos verões a Pelotas, era com felicitação que o recebia para nossos amistosos embates. Sendo mais velho, também nos introduzia em assuntos mais apimentados que nosso bate-bola. Mulheres já estavam na pauta daquele jovem que rumava a seus 15 anos. Josias era o que menos entendia. Rodrigo ria dele e disse que um dia ele saberia sobre como funcionava esse tipo de relacionamento. E soube mesmo, Rodrigo estava certo, com a comprovação através do fato de Josias ter virado pai antes dos 18.

Mas naqueles dias bem mais demorados e menos estressantes do que os atuais, o que nos importava era bater bola enquanto a visibilidade era possível e as nuvens de mosquitos não nos corriam do campo. Futuramente, adentrei ao campo antes das empreiteiras iniciarem os novos conjuntos habitacionais, prédios residenciais, apenas para fotografar o sol, que se punha ao fundo dos apartamentos do condomínio vizinho ao campo, um conjunto de prédios mais antigos, que recebiam asfalto para entrada de suas largas garagens. Eram quase uma mini-cidade. Possivelmente mais de mil pessoas moravam nos prédios dali. Mas, pelas condições de vida, estavam muito mais envoltos para jogar futebol de salão no centro da cidade do que correrem de graça e sem horário marcado no nosso terrenão baldio. Azar o deles.

Quando entrei em nosso histórico campo por uma das últimas vezes, portava a câmera comigo e, na volta do centro da cidade, fui para a grande área onde tantos gols marcamos e pude fotografar o astro maior alaranjado por dentro da trave. Uma das cenas mais bucólicas que me posso recordar. Aquela trave extremamente fina, mais difícil de acertá-la do que os canos grossos dos campos oficiais de jogos, mas que mesmo assim muito fizemos balançar a moldura tantas vezes. Particularmente eu gostava muito de acertar a trave, sentimento muito anterior aos programas de apostas de quem conseguiria acertar o travessão valendo dinheiro na televisão ou prestígio entre os postulantes ao título Gaúcho. Os times de Pelotas inclusive iam bem nessa competição estadual.

Cada vez que adentrei posteriormente ao campo de nossas tardes verdejantes, sentia que poderia ser a última vez. Agora, com o terreno começando a ser calcado em aterro para fundamentar a base dos futuros prédios, tenho certeza que o prazo está esgotado. Parece que o asfalto finalmente vai sedimentar a rua que era de terra batida. Onde corríamos atrás da bola antes que algum carro ou o ônibus acertasse a redonda, podendo estragar o couro de fora ou a câmara de ar de dentro. Ou antes que algum espertinho pudesse querer roubar, o que nunca ocorreu (para a sorte do espertinho). A maioria dos transeuntes, a pé ou de bicicleta, chutavam ou arremessavam a bola com as mãos para retornarmos a peleia. Reforçando, alguns curiosos até se convidavam para trocar uns chutes antes de irem para casa, provavelmente, pela direção que tomavam, rumo ao espaço das ruas em formatos de flores da Bom Jesus, no meio do Areal. Interessante que, desconhecedor do próprio bairro, só percebi que as ruas da Bonjo eram em formatos de pétalas através do Google Maps, por observação feita pelo meu amigo carioca. Que viagem!

Enfim, as máquinas do progresso então impulsionam o aterro para a construção do novo condomínio. A área do Areal vai ficar cercada de prédios, prédios que inexistiam, fora o condomínio vizinho do nosso antigo campo. E ali eram prédios baixos, no máximo com quadro andares. Estes novos devem ser maiores. Ou até não serão maiores, já que há muito espaço nos metros quadrados de nosso anterior tapete de touceiras e cocorutos. Podem construir vários não muito altos, ao invés de poucos bastante elevados. Independentemente de como serão exatamente, serão prédios que taparão parte de minha história e da história antes mais sadia daqueles garotos do bairro.

Serão prédios que trarão o chamado progresso para aquela rua de terra batida, cujo ônibus Bom Jesus passava e levantava muito mais poeira do que agradaria a Ivete Sangalo em sua música. Sacodia realmente o pó da terra batida, levando as donas de casa à paranoia pelas roupas nos varais. Jogando camadas e mais camadas de sedimento por cima das pinturas dos corajosos vizinhos.

Até havia me esquecido dos dias de chuva. O campo ficava inutilizável, mas foram numerosas vezes que corremos com a bola para jogar no gramado encharcado pós-chuva, com o barro na rua em frente, com o acesso cheio de poças, que procurávamos desviar por entre os lixos mal descartados. O lixo que sempre foi um capítulo à parte. Se encontravam roupas, calçados, descartes eletrônicos e todos os tipos de resíduos. Era sempre uma surpresa correr os metros que separavam aquele lamentável lixão do campo efetivamente para o futebol de 11.

Tudo isso é passado. Rodrigo, o primo porto-alegrense de Josias, nunca mais vi e agora sei um pouco mais sobre aquela misteriosa Porto Alegre. Ele que desde os 14 para 15 anos andava bem arrumado, até com alguma das marras para jogar bola. Cuidava do cabelo e das primeiras aparições de barba. Hoje deve estar próximo dos 30 anos em alguma outra profissão. Ao menos no futebol nunca ouvi seu nome pelo interior do estado. Josias entre o exército, alguma nova profissão e tendo que lidar com seu filho que nasceu. Espero que cuide dele de alguma forma. E que mantenha o sorriso estampado no rosto.

Os primos... bem, os primos de Josias continuam pelo bairro, mas fazendo cada vez menos jus aos nomes bíblicos que lhes puseram. Perceberam que futebol não era o forte, soltar pipa era apenas diversão, estudo não levavam adiante. Trabalho em mercearia ou pegar em obra, muita complicação de acordar cedo e seguir regras. Foram pelo caminho mais curto e vocês já sabem qual é.

"Há muitas situações tentadoras para entrar no mundo das drogas, mas há ainda mais situações assustadoras que impedem de deixá-lo." 

*Reflexões acerca da infância após assistir ao filme norte-americano Moonlight*

à noite

à noite você anda com medo de negros
e os negros andam com medo da polícia
a polícia tem muita gente corrupta
às vezes a pessoa nem vira estatística

17/08/2020

Reflexões pandêmicas sobre o mundo e meu próprio mundo - acerca de 'Branquinha', 'Eu Vos Saúdo, Maria' e o lamentável episódio da semana

O som das obras, do trabalho braçal, de meu pai em algum reparo pela casa, o som do menino vizinho, da criança brincando, dele ou das outras meninas da quadra em alguma brincadeira, esses sons me despertam do meu próprio mundo. É a realidade batendo à porta.

Um verso de 'A Dança de Tudo', do músico gaúcho Wander Wildner aponta que "sou parte do mundo e sou também o meu próprio mundo". Muitas vezes estou mais para dentro do meu próprio mundo do que à sorte do cotidiano real. É um refúgio, um casulo, uma caverna, uma cápsula de proteção.

Bebo duas cervejas aos finais de semana e escondo a terceira para a reciclagem que recolhe os materiais na segunda-feira. Nem sempre consigo descartar e acumulo algumas latas escondidas num pequeno armário. A vida traz várias falsidades à tona, mas a maioria das pessoas parece saber jogar naturalmente com isso. Fazem parte mais facilmente desse mundo ilusório. Não se questionam ou apenas usufruem dos rumos da maré. Aceitam rebaixamentos, humilhações, ofertas grosseiras, assédios de chefes em suas posições empregatícias.

Acabei de assistir ao filme 'Branquinha (White Girl), estadunidense recente, de 2016. A garota, meio que uma estagiária em uma agência de publicidade ou revista, ela se prepara para a faculdade em um bairro pobre de Nova York, passa a conviver com traficantes e tudo vira, literalmente, uma bola de neve. O novo namorado é preso, ela não devolve um pacote com drogas e tem que lidar com as milionárias consequências. É um filme bastante simplório em diálogos e para o entendimento do público, tudo muito direto, mas de certa forma verdadeiro, pelas tramas que o sub-mundo das drogas aprontam. É difícil dela sair desse trancafioso labirinto. Problemas com a lei, com os traficantes, com o advogado, distância para a vida que ela deve ter, em algum momento, planejado, de apenas seguir a maré rumo às aulas na faculdade. Com outros jovens de classe econômica média.

Fiz a comparação pela nota mais alta que eu havia atribuído ao que alguns consideram o pior filme do histórico francês Jean-Luc Godard. Em 1985, lançou a história de Marie (Eu Vos Saúdo, Maria), com alusões à passagem bíblica do nascimento de Jesus Cristo, traduzido para o cotidiano francês dos casais nos anos 1980. O que acontece? A jovem Maria é interpelada por uma representação de anjo Gabriel que lhe avisa sobre a concepção do filho. O namorado de Marie, Joseph, não acredita na versão e pensa que Marie foi infiel, porque ela não se deitava com ele, etc. A adaptação é uma grande ideia, mas as pessoas questionam a execução da obra. Gosto das interceptações nas cenas com filosofias e cenas da natureza. Mas o produto final realmente parece disperso, o que justifica as críticas de talvez ser a pior obra de Godard.

Na comparação entre a realidade dura e tão crua de Branquinha e a história tão viajada com quês de aterrisagem na Marie de Godard, eu estabeleci o parâmetro de como Branquinha está muito mais para o cotidiano real de tantos jovens (estudantes desviados de seus rumos, traficantes sem ter outro meio de vida após se lançarem ao tráfico), enquanto a vida da Marie de Godard está completamente suspensa pela subjetividade da obra, um voo filosófico (não dos mais inspirados de Jean-Luc Godard) e que os breves pousos ao chão fazem reflexão com a realidade em terra firme.

Branquinha está muito mais para o mundo, em que fazemos parte, embora essas tristes histórias nós ignoramos ou procurar ignorar no dia a dia. Jovens com traficantes, jovens que viraram traficantes, venda de drogas em boates, tribunais e advogados corruptíveis, acertos de contas entre os vendedores com tortura e não obstante morte. Há também breves críticas ao sistema no filme da White Girl. Em passagem do polêmico advogado.

No filme da White Girl francesa, na Marie de Godard, há muito mais elementos para a concepção do 'nosso próprio mundo'. Aspectos filosóficos, frases soltas que ficam emaranhadas ou boiando em nossa interpretação. Cada pessoa, com a sua vivência, as interpreta diferente. Enquanto a Branquinha projeta socos contra a face, em algo bem mais direto, produto típico das Nova Yorks e Estados Unidos, o francês tenta atravessar o âmago, como costuma fazer em suas obras. É bem verdade que pouco inspirado nessa crítica religiosa, provavelmente mais forte para a década de 80, mas que perde muito do efeito desejado em 2020.

Será? O assunto da internet foi o estupro da menina de 10 anos no Espírito Santo. Ela era abusada pelo seu tio há mais tempo, mas finalmente e tragicamente engravidou aos 10. Foi submetida ao aborto na cidade de Recife, após a negação judicial na sua terra natal. Em meio à toda confusão que se transformou a vida conturbada da criança, um grupo religioso - identificado como católico - ainda foi para a porta do hospital para protestar CONTRA a criança e o médico responsável pelo aborto. Movimentos feministas de Recife se organizaram pela justiça e para garantir o procedimento para a criança abusada pelo tio.

Questionamentos do poder da religião. Uma obra francesa tão distante em temporalidade e contexto, será que ainda tem validade em suas críticas em nosso Brasil? As pessoas conseguem apanhar os frutos das altas árvores de Godard? Conseguem apanhar os meus frutos nessas linhas? Mais importante do que apanhar frutos, é ver as pessoas lutarem pela justiça no dia a dia, como é o caso de garantir que a jovem estuprada tenha seu aborto concedido. Ela, que só precisava remover aquela parte do crime de seu organismo, e não ser mais criminalizada por isso. Parece que fundamentalistas religiosos, fanáticos que se dizem 'pró-vida', parece que se importam mais com criminalizar um aborto do que o estupro e o estuprador.

Se dizem pró-vida, mas não ligam para o trauma da criança capixaba. Se dizem pró-vida, mas, mesmo de máscaras, ó, hipocrisia, de máscara dão as mãos em frente ao hospital para bloquear a passagem. E as mais de 107 mil mortes NO BRASIL provocadas pelo novo coronavírus. Não ligam para essas vidas? Não ligam para a proliferação do vírus em seus ridículos atos? Criminalizam profissionais da saúde, talvez a maior negativa surpresa que tenho durante essa pandemia. Esperava eu que os salvadores por meio de processos cirúrgicos e receitas médicas estariam livres dos gabinetes de ódio, mas não estão. Médicos e enfermeiros condenados pelo tribunal genocida e seus diabólicos seguidores.

Mais um episódio triste na contemporaneidade do nosso Brasil. Por fim, que a criminosa Sarah Winter seja condenada. No meu próprio mundo, no dentro de minha cabeça, já está. Resta que o mundo à parte, o aí de fora, esse tão inalcançável por tantos momentos, a condene. Desejo, desde as arestas do âmago de meu próprio mundo, o pior possível para Winter do lado de fora. Desgraçados.

14/08/2020

Alfonso Cuarón

Os filmes de Alfonso Cuarón
São tristes
E eu também sou

Os filmes de Alfonso Cuarón
Fazem refletir
E refletir é bom

Alfonso Cuarón
Em alto e bom som
Que bom que existes

Os filmes de Alfonso Cuarón
São tristes
Mas são como devem ser
Se o bom mundo não está ali
Ainda está para nascer

Mexe com o México
Com o mundo, com o ético
Vai ao fundo das feridas
Tentando extrair da vida
Na película o que o léxico
Não encontrou
Assim é Cuarón

Florbela Espanca

Florbela Espanca, mensageira das violetas
Com suas violentas sutilezas
São lilases, vermelhas, amarelas, brancas
Ninguém escapa de Florbela Espanca

Florbela, acesa chama portuguesa
Na destreza de seus versos belos
Faz com o céu a ligação, o elo
Em corações que seus versos estanca

Florbela Espanca, repito teu nome
Nas palavras que meu lábio dome
Que elas soem seculares intactas
Aqui, em Portugal ou Via Láctea

13/08/2020

novo velho Brasil

o Brasil infortunado
em algum poema
de Gregório de Matos

o Brasil cheio de problema
com ou sem mecenas
e impostos nos livros

o Brasil de Paulo Guedes
só para os banqueiros
é que mata a sede

o Brasil da intolerância
Mata Atlântica e infância
ambas são perdidas

o Brasil amazônico
do povo que sofre
contra covid dezenove
só ideias de ozônio

o Brasil das milícias
e da falta de justiça
para Marielle Franco

o Brasil que anda manco
caminhou um tanto
mas já retrocedeu

Brasil do Pantanal em chamas
nem mais o Meirelles chama
e a gente só reclama
enquanto eles conclamam
trocam civil por militar
em novo velho Brasil
que ninguém quer imitar




10/08/2020

Pelas cercas embandeiradas que separam quintais

A censura em uma época é o regozijo para essa mesma obra em outra época.

Quantas obras ganharam notoriedade, destaque, ornamentos dourados por serem censuradas em determinadas ocasiões e contextos e depois, quando puderam ser lidas, alçaram um patamar de altivez perante aqueles curiosos, desejosos de desfrutar das antes proibidas aventuras?

Eis o risco para governantes censores, excludentes, conservadores, opressores das artes para suas lembranças históricas. Serão reconhecidos como os que tentaram tapar o sol com a paneira, tentar cessar o ir e vir do ciclo milenar dos dias e das noites. Tentaram evitar o inevitável, na ocultação da primavera que tarda, mas logo nos apetece.

Mal sabem esses desinformados que com a alarma censora acabam por ampliar o alcance e o interesse popular pelo que lhes era tomado à mão grande e repressora. A população deseja a informação, quer saber de seus contos, de sua cultura e a cultura lhe será dificultada, mas jamais omitida por completude. A fecundação e a polinização seguirão seus ritmos conforme conseguem superarem-se. 

Avante, inventores e tradutores das mais diversas épocas em suas linhas de produção própria, dos olhares atentos aos apontamentos de cordel. Ao passo que eles impeçam muitos de nossos companheiros, haveremos de, pelos que passam pelas opressivas cercas de arames, realçarmos o brilhante pomo da literatura. As épocas nos pertencem. A eles, que reste o duro julgamento, quando não o esquecimento por completo.

06/08/2020

Os contos de Fabrício #1

Fabrício esfregava o balcão com o pano em movimentos circulares, como cedo havia aprendido. Talvez não fosse a ideia de sua mãe quando dizia que ele precisava aprender um ofício, mas ali estava acossado nas necessidades capitalistas. O tempo havia passado, os pais não estavam mais com ele. Sua mãe havia partido e o progenitor estava em uma chamada casa de repouso, ou lar de idosos. A irmã, que vivia em outro estado, bancava a maior parte dos custos, mas Fabrício fazia questão de ajudar nas despesas. Os remédios também representavam um aumento de custo constante, na inconstância da elevação dos preços.

Após alguns minutos, no perfeccionismo a que se dedicava em suas funções, Fabrício havia encerrado a limpeza do balcão. O restaurante estava quase fechando. Ele resolveu adiantar essa limpeza, na esperança de que mais ninguém aparecesse. Mas ele era daqueles que tentavam acertar na loteria esportiva e erravam jogos fáceis, mesmo que acertasse aos difíceis. Perdia prêmios por uma ou duas partidas, o que era de muito se lamuriar, uma vez que as apostas chegavam até a 20 jogos. Estatístico, calculava ele que, na média de suas apostas, errava por três. Quando se aproximava da premiação, o máximo que arrecadava era o suficiente para cobrir as apostas por um período de dois meses. Então retroalimentava o ciclo de apostador convicto. "Um dia a sorte virá."

Enquanto a tal da sorte não fazia as honras de entrar no restaurante, o negócio era atender a clientes. Fabrício somava 28 anos e uma especialização em educação artística, que ele não sabia bem para que utilizar, mas seu bom gosto reservava palpites no cenário desolador daquele restaurante de beira de estrada. O chefe, um homem muito ocupado traindo a esposa e fiscalizando um mercado que havia deixado para um dos filhos, acatava as ideias de Fabrício. "É um bom rapaz, muito trabalhador e de ideias satisfatórias."

Diretrizes que rendiam a Fabrício, um salário pelo menos satisfatório para sobreviver sozinho. E nada mais. Como o restaurante era localizado às margens da BR, ele tratou de ocupar um dos poucos apartamentos do pacato município. O proprietário do prédio logo percebeu que não venderia fácil algo tão urbano em tão pacata comunidade. Um erro crasso dos gananciosos e hiperbólicos engenheiros de nosso país. Mas, construído, posto em pé o tal do prédio, Fabrício conseguiu uma ocupação no segundo andar por uma boa barganha. Uma pechincha. Algum desses termos deve servir. E, caso não sirva, ao menos o valor que depositava para o aluguel tímido das peças reservava um sorriso estampado no magro rosto de Fabrício.

Quando ultrapassava aquela margem dos 20 e poucos da canção ramundiana, Fabrício percebeu que já lhe chutavam em idade algo entre 30 e 36 anos. Mas procurava não ofender-se. Aliás, o jovem... o semi-jovem (como ele próprio se considerava) procurava ofender-se com nada. Nem com clientes arrogantes de passada, nem com aqueles que por puro prazer sádico emputeciam seu dia. Tampouco demonstrava irritação quando seu chefe lhe pedia (em total tom de ordem) para auxiliar na limpeza dos banheiros ou do saguão, na ausência da funcionária responsável, uma desleixada de meia idade.

"Adiante isso, por favor, Fabrício", pedia o chefe. Na educação que lhe denotava o momento, inclusive lembrar do nome de seu funcionário. Um esforço muitas vezes grandioso para o big boss.

Assim vivia Fabrício, agradecido de sua diplomação em educação artística, porque a ele parecia mais útil incutir conhecimentos na administração do restaurante junto a seu chefe, embora não recebesse um puto centavo a mais por isso. "Pelo menos não perdi meu tempo com filosofia", dizia para si mesmo, muitas vezes mirando no espelho o seu rosto que demonstrava cansaço após mais uma jornada diária. Impecavelmente barbeado, higienizado e bem dormido. Bééééé - sirene de errado para a última descrição, porque obviamente Fabrício vivia com uma tormentadora insônia. Sonhos que não vão dormir.

Mesmo assim o acolhedor despertador o preparava para o começo de outro dia na labuta. Banho, barba, café da manhã preparava lá mesmo, na cozinha do restaurante. Ao mesmo tempo que a redundância fazia parte de sua rotina, acreditava ele que por aquela porta de vidro poderia adentrar a qualquer dia, a qualquer hora, pessoas que mudariam sua vida.

Percebeu que não seria Juliana, a garçonete que arrumara um namorado no verão passado. O cara vivia em uma cidade próxima dali em uns 90 km. "Questão de menos de uma hora", ele se gabava. Na ausência do quase noivo, Juliana se gabava por ele, complementando o discurso da alta velocidade valorizada na 4 por 4. Além do mais, o encarregado e carregador de Juliana nada tinha a ver com ele.

Parecia que nessa novela se mudavam os endereços. Fabrício havia nascido na capital, estudou na capital, mas os custos de vida o levaram para o interior, também para mais perto do pai, que havia nascido por ali e deveria findar seus dias na região em que era oriundo. Enquanto o namorado de Juliana, aqui chamado de Thomaz, era um sujeito interiorano com toda a pinta capitaneosa, seja em suas atitudes ou demais modos de conduzir a vida. Os prédios e o trânsito pesado não o assustavam. Enquanto a Fabrício os edifícios e tráfego intenso causavam um misto de preocupação com a desorganização urbana e o prazer arquitetônico e urbano. "É, eu poderia ter cursado arquitetura, sim."

Mas não cursou. E lá o sol baixava no horizonte e o restaurante se temperava para servir o jantar a seus famintos e viajantes clientes, somados às moscas que se hospedavam em um simulacro de hotel de estrada, adjunto ao restaurante que, sim, era maior do que os serviços de hotelaria. O estábulo acolchoado ali reservava um total de seis habitações para clientes desesperados em descansar as pernas da rodovia. Ou para quem não gostasse de si mesmo, ou mesmo não se importasse com as baratas. "Nunca apareceram no hotel", garantia o chefe de Fabrício. Não sejamos misteriosos. Este se chamava Rodolfo.

A janta não pertencia a Fabrício, que, ao deparar-se com o que chamavam noite, estava dispensado para fazer "sabe-se lá o quê, mas não manche o nome de nosso estimado restaurante", pedia encarecidamente Rodolfo enquanto manuseava um charuto de procedência duvidosa. "Mas que faziam muito sucesso", ah, disso não tenhamos dúvida, patrão, oh, tenhamos a grata da certeza.

Mas Fabrício costumava fazer nada demais com o ânimo que lhe sobrava e o máximo que frequentava era uma das três discotecas da cidade. A cidade em si também se localizava próxima à rodovia, então alguns dos viajantes, também com a bateria em duração adequada, aproveitavam para conhecer alguma noite que não lhes apetecia anteriormente conhecer. "Na falta de opção..." ou até para livrarem-se de passar mais naquele hotel maldito de beira de estrada. Caso não encarassem o hotel adjunto ao restaurante poderiam muito bem escolher entre outras quatro ou cinco péssimas opções. Para todos os gostos ou sem gostos.

Com o paladar cada vez menos audacioso para comida, com menos ganas de algo maior na vida, Fabrício ali, naquela cidade parcialmente detestável (ao menos não há furacões, ciclones, terremotos, vulcões e nenhum sinal de alienígenas, agraciava discursivamente seu pai) se acomodava havia três temporadas e preparava em seu secreto diário a escritura de episódios sobre personagens que teve a excentricidade - mais do que a devota alegria - de conhecer. Assim serão narrados os contos de Fabrício.

05/08/2020

Sonhos de uma Noite de Agosto

A prefeita Paula acaba de anunciar o lockdown, o fechamento geral do município nos próximos dias, entre sábado e terça. Só serviços absolutamente essenciais podem continuar em funcionamento, como farmácias, clínicas médicas em regime de urgência, entrega de botijões de gás e postos de combustíveis, sem loja de conveniências. E estes ainda deve ficar fechados no domingo. Enquanto o ritmo da cidade no extremo sul brasileiro está assim por conta da pandemia do novo coronavírus, meus sonhos percorreram outros caminhos.

Meu pai dirigia por uma avenida muito larga e arborizada. Era como se fosse a conhecida Dom Joaquim. A avenida também se mostrou prolongada, com seu final incerto. Eu precisava chegar até um local afastado, uma escola grande e também arborizada em volta, com amplos pátios verdejantes. Buscava aquela que foi minha tentação maior nos vindouros anos adolescentes, de pele muito alva e cabelos muito escuros. Uma descoberta que meu desejo descobrira antes dos demais descobrirem. Arqueologia adolescente de resultados infrutíferos, mas ela era tremendamente bela, como ainda é, e pra mim sempre foi, mesmo que outros não notassem.

Untei esse desejo oprimido pelos posteriores anos de afastamento para seguir ao lado de meu pai para novo destino. Após chegar àquela escola afastada de cunho biologicamente sustentável, vê-la, distante como uma novela em que apenas assistimos, nada participamos, estive novamente eu na companhia de meu progenitor. Meu pai dirigia e chegamos para uma festa no Galpão Satolep, endereço da rua José do Patrocínio pelotense, que na verdade é apenas uma quadra, uma atravessa na região extremamente portuária da cidade, de frente para a incansável coletora de toras de madeira, que empilha seus trâmites à beira do canal São Gonçalo em pilhas até onde a vista e a contagem humana alcançam. O Galpão Satolep, antes chamado Galpão do Rock, mas cada vez mais descaracterizado pelos diferentes estilos que o lotam entre o funk e a música pop, estava com seu público habitual e uma penumbra tremenda, escuridão que confunde e possibilita novos formatos aos rostos juvenis.

Meu pai, à beira da idade idosa, me acompanhou no Galpão, como nunca fez em antes vivida vida. Estava ao meu lado, parcialmente deslocado, como muitas vezes o vi pelas conversas em que não participa, mas anseia participar, como a um cão à espera de ordens ou de aconchegos ou de mero carinho. Dele herdei um pouco desta expectativa viciante e ininterrupta, até que alguém em volta tome uma providência. Em sonho estávamos ambos parados tentando entender o objetivo daquela festividade fora de época e decência. Não sabia o dia da semana, nem a ocasião ou o que iria tocar na festa.

Procurei e ansiei por rostos conhecidos naquela trevosa obscuridade festiva, mas nada encontrava. Ficamos estaqueados, marcando ponto em proximidade do portão de entrada-saída enquanto outras criaturas aglomeravam-se em pequenos grupos para o fundo do espaço galponista de propriedade de Manoval. Nenhuma vivalma de meu prévio conhecimento, agonia sentida por ali estar envolto ao desconhecido. Apenas meu pai era uma companhia bastante desconcertada ao ambiente, uma vez que ele mantinha sua rigidez de lei seca, incluso talvez por estar dirigindo, enquanto eu também não tomava ilustre iniciativa de servir-me uma bebida ou copo.

Passados alguns instantes nessa apostólica situação à procura de ordens, duas garotas estavam de saída do ambiente. Uma delas me alcança um ticket, um papel, um fowder, um não sei o quê de formato estranho. Ela me pergunta ligeiramente, já em deslocamento em direção ao lado de fora, no apronto de quem aconchega e acomoda melhor a roupa ao espaço dos ombros e das costas, ela me questiona se desejo um big mac, da lancheria universal Mc Donalds. Meio desconcertado também com a indagação, respondo que sim, gostaria, comeria um, sim, sim. Ela então confirma que o papel entregue é para mim, sou o destinatário da entrega. Pergunto de volta se aquilo é um cupom, um vale, um o que quer que seja do tipo. Ela confirma "sim, sim" e segue com sua amiga ou namorada em direção ao portão de entrada-saída.

Ali prossigo parado ao lado de meu pai, diálogo praticamente nulo, mas agora com um cupom, um ticket, um folhetim, uma ordem impressa para retirar um hamburguer da lanchonete mais conhecida do planeta. Sei nada do que pode ser feito. Tão estranho como ter chego ao Galpão assim do nada, começam a aparecer voluntários para uma conversa descompromissada. Apesar do volume da música e da escuridão que nos cerca, alguns garotos aparecem para trocarmos uma ideia. Recordo que um deles é bastante alto e bastante gordo, mas nenhum dos que se aproximam é de minha ciência de quem fossem. Ficamos parados então em círculo, ou formato próximo a isso. Uns de frente aos outros, com quase nada a ser dito. Meu pai ainda ali, parecendo menor, baixo e magro, perante à presença do alto e gordo.

A festa se prorroga. Era melhor eu sair logo dali e ver o que meu cupom para um big mac poderia fazer por mim. Quando saio, é novamente dia, meu pai segue intacto ao volante em uma resistência diurna-noturna-diurna inacreditável. Ele conduz pelo centro em direção ao estádio do Brasil, porque entendi que eu deveria trabalhar naquela tarde.

A bem da verdade, os horários estavam mais confusos do que jogos simuladores, como The Sims ou GTA. Durante meu sonho, não durmo. Já se aproximava o horário de partida naquele dia difuso e complicado. Me despeço definitivamente de meu pai na ocasião, ele segue seu rumo, provavelmente para casa e para descansar após os cansaços de meus sonhos. Caminho por ruas absolutamente vazias, em um misto entre as mais abastadas zonas da cidade, em prédios equiparados para boa localização em cubículos sufocantes, entre boas e más calçadas, entre ruas de calçamento em paralelepípedo, mas ciente de que estava perto de meu destino final, o jogo do Xavante.

Deparo que estou próximo do estádio e me assusto com o traje que estou vestindo. Para entrar no jogo do Brasil, rubro-negro, era impensável acessar com uma camisa amarela. Nem tenho camisas amarelas, mas acontece que eu estava vestindo uma camisa amarela. Incrível. Percebo que tenho uma camisa por baixo. Ela é rosada, serve para um bom disfarce. Abro a mochila e verifico o espaço para conseguir a troca. Saco a camisa amarela de meu corpo e visto a rosa. Acabo tirando as duas camisas de uma vez só, fico descamisado na rua. Ninguém passa. Verifico, olho para os dois lados. Demoro muito nessa função, sinto a eminência de um assalto. Mas ninguém aparece. Estou quase finalizando.

Encontro meu crachá da Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos. Desenrosco da mochila, ponho auréola sobre a cabeça, colar envolto ao pescoço. Estou identificado para seguir minha missão, alguns passos distante. Mas enquanto finalizo a operação com a mochila, à minha esquerda, na rua que se atravessa à que parei, passa primeiro um suspeito. Depois outro. Eles aparentemente não se conhecem. Um deles está sem camisa. Eles param na esquina. Conversam, cochicham um com o outro. Olham em minha direção, riem. Há mais ninguém como alvo. Sou o escolhido.

Reinicio minha trajetória em caminhada. Camisa rosa, nada de amarelo. Nada do EC Pelotas. Os homes se aproximam. Um deles está montado em uma bicicleta. Estão sedentos. Caçam. Sou a caça. Eles estão próximos demais para que eu não os perceba, prefiro ir me virando aos poucos, apesar de ter apertado o passo. Vou tentar conversar para ganhar tempo. Eles tem olhares diabólicos. Estão maníacos.

A surpresa que me toma é inacreditável. Eles mostram as unhas, os olhares ainda sádicos em minha direção. Oferecem maquiagem! Isto mesmo: maquiagem. Apontam para as unhas em trabalhos de manicure. Não consigo entender como é possível. É o golpe para um assalto mais inusitado a que já me deparei. Continuo andando, nego o convite deles, não estou interessado. Não quero me maquiar. Não vou transmitir futebol para a televisão, é apenas áudio, é somente sonoro, é só rádio. Não preciso de maquiagem, obrigado, o-obrigado, senhores. Mas eles me perseguem, creio que irão me cercar. Não tenho escapatória.

Mas aparece o bairro popular a meu favor. Crianças também em bicicleta, mães em volta. Cestos de roupa. Tempo bom com sol, nada de nuvens a bloquearem meu caminho. Risos, brincadeiras, clima de domingo. Os homens saqueadores ficam para trás. Estou cercado agora pelos pequenos que brincam de se alcançarem. Quem for tocado pelo companheiro fica com a missão de tocar outra pessoa, no que costumávamos chamar na infância de pega-pega, mas alguns para cima do país devem chamar de pique. Estou a salvo. O estádio se avizinha.

O Bento Freitas está diferente, está virado em um canteiro de obras. Mas diferente mesmo das obras que foram feitas e continuam sendo feitas, quase concluídas. Está mais Baixada do que nunca, como se envolta a um lodo ou pântano. Me preocupo com essa situação. Faço o contorno por uma praça da chamada região do Cruzeiro. Os carros começam a disputar espaço para o estacionamento. O principal estranhamento com o estádio xavante creio que seja a total abertura da lateral do campo. É possível, desde o lado de fora, visualizar todo o trabalho de aquecimento dos guerreiros que se preparam para a partida. Um time em cada lado do campo no trabalho com bola. Os treinadores a fiscalizar, a torcida chegando para o espetáculo anunciado e prometido.

Eu também necessito entrar, mas preciso, com meu devido crachá da ACEG, contornar o estádio até a rua João Pessoa, para o credenciamento na entrada. O estranho é que o estádio está todo aberto, não sei porque eu precisaria cadastrar ou a torcida pagar ingresso para assistir, mas igual vou procurando madeiras, toras e tábuas no chão para onde pisar sem me embarrar naquele cenário desolador. E vou avançando. Percebo novamente meu amor de tempos juvenis, desta vez a pleno trabalho. Percorre o gramado, câmera em mãos, perfeita em minha acepção memorativa. Trocaria todo aquele infortúnio, todas aquelas mazelas do dia a dia por uma oportunidade com ela. Para que me ouvisse, para que me explicasse, para que me visse. Mas ela está focada, ela não me vê. Ela, a depender dela mesma, nunca me viu. Prossigo a passos firmes dentro do possível, pronto para não atolar em dois pântanos distintos, o real e o ficcional de meus pensamentos desvirtuados, desalinhados do ambiente onde caminho.

Percebo meu primo nas arquibancadas. Ele não está atrás da goleira, onde costuma assistir aos jogos, está no pavilhão chamado de social. Onde os mais velhos ficam. Eu abano para ele, ele me abana de volta. Nem somos tão próximos, mas é uma cena quase que emocionante. Um reencontro inusitado após meses de paralisação das atividades pela pandemia. Ele está ali sentado. Há poucas pessoas ainda dentro do estádio, poucas em volta. Eu atravesso o gramado. O estádio está com a lateral toda aberta pelo que seria a Avenida Juscelino Kubitschek, lembram? Então vou entrando. Depois vou credenciar-me, sim, porque sou correto. E que fim deu o meu hamburguer big mac?

Avanço pelo gramado, os jogadores parecem não se importar com o intruso, nem os flanelinhas que cuidam os carros e as vagas de estacionamento, nem os demais torcedores, nem os demais da imprensa que ali também deveriam de estar, inclusive chegando mais cedo do que eu. Atravesso o campo e vou para o alambrado. Dou um salto, subo na tela. Nunca fiz isso. O ex da menina era chamado de Homem-Aranha. Ele fazia isso. Será que é uma relação com esse fato? E eu quem sou? Subi na tela, escalei os arames, quero cumprimentar meu primo. Estendo a mão pra ele. Ele desce dois degraus. Vamos alcançar as mãos, um a ou outro.

Acordo.

músicas e pessoas

músicas e pessoas
que não significam mais
algo que caiu do bolso
e ficou pra trás
e agora outras coisas ouço
para buscar a paz

pessoas que ficaram para trás
mas a memória vem nos visitar
a sombra se projeta para frente
diante de nós em tempo presente

músicas e pessoas
que se entrelaçam
uma já é outra
ocupam mesmo espaço

milhões de pessoas
algumas a se identificar
muitas querendo chegar lá
se enquadrar quando ressoa
morar numa música
musicalmente ser seu lar

músicas e pessoas
que se entrelaçam
uma já é outra
ocupam mesmo espaço

sei que me notas
nessa nota musical
muito além do dinheiro
que circula pela capital

sei que te lembra
quando toca essa canção
como uma oferenda
que toca direto no coração

sei que te lembra
na canção de Nei Lisboa
como a vida é boa
é sua e de ninguém mais

03/08/2020

O brinquedo da Poesia

As palavras são brinquedos
Na estante de quem se dá conta
Que ao mirá-las apronta
Em uma afronta sem medo

As palavras são uma frota
Que eu organizo justapostas
Em uma mostra de meus segredos

Palavras de heranças dos gregos
Do latim, dos romanos
Que mesmo ao passar de tantos anos
Ainda somos os mesmos

Palavras são as folhas do arvoredo
De doce sombra verdejante
Que eu arreglo em um instante
Para o eterno sempre cedo

Cabeça de Prego

Ele era um cabeça de prego no seu emprego
Pancadas na cabeça
Pra que se esqueça
Que não era um prego
Antes dessas tarefas

Ele era um cabeça de prego sendo empregado
Sendo martelado, sendo amordaçado
Ele era um prego e não sabia
Já estava cego
Não via a luz do dia

Seu chefe era o martelo
Daquele prego
E usava terno, fingia ser feliz
E ele era um eterno prego
No seu emprego
Na mira do martelo

Amar e mudas as coisas

Acabo de assistir ao filme Beleza Americana. A tradução é exatamente referente ao título original. American Beauty. Esperava bem menos do filme, mas de vez em quando os estadunidenses me surpreendem positivamente. Um filme em que cada personagem apresenta uma perturbação. Não sei ao certo sobre os pecados capitais que chamam, mas com certeza alguns deles estão representados ali. É um filme que, apesar da narração inicial do que se supõe um personagem principal, o pai de família, os outros personagens se intrometem na trama e a gente acaba se conectando aos secundários, que alternam o protagonismo nas cenas. Boa trama.

Vim para o blog refletindo sobre o gosto pela minha vida ao me deparar com essas diferentes personagens em Beleza Americana, filme de 1999. Há questionamentos sobre capitalismo, materialismo, tratamentos destinados à família, falsas famílias, o que seria, de fato constituir família, o que seria, de fato, obter um relacionamento vindouro. Estar junto, participar, fazer parte, fazer o seu melhor por você ou por quem está contigo.

Repenso muito minhas condições trabalhistas e onde posso atuar. E onde eu posso me encaixar. E como eu posso sobreviver sem depender de meus pais, que com certeza são as criaturas que mais gosto no planeta. Porque eles me permitem conforto e estar confortável é o que de melhor anseio nesta vida, porque o desconforto é quase regra. Estamos sempre submetidos a procurar alimentação, e procurar confortos, e trabalhar para desfrutar de descansos. E graças aos meus pais passo boa parte da minha desfrutando ou me dedicando a conhecimentos, a obras de arte, à filosofia. Isso é ótimo.

Sou muito grato por eles. Muito grato mesmo. Mesmo que nem sempre nos entendamos. Me deram toda a base para o que eu pudesse alcançar com minhas forças, que me preocupam serem poucas. O futuro é nebuloso e incerto, mas o de quem não é? Pretendo aproveitar o máximo que me forneceram de base e de sustento até aqui para expandir-me futuramente.

Penso neste exato momento, enquanto dedilho, que não odeio tanto a minha vida, a posição que ocupo, o que tenho feito, o que tenho passado, onde estou e onde eu posso estar. O mundo dos desconfortos me proporciona, ainda, uma posição privilegiada pela sobrevivência. Sinto que preciso aproveitá-la de alguma forma. Sinto que preciso transmitir meus conhecimentos, meus recados, minhas inquietações, minhas fraquezas compartilhadas, meu ombro amigo, minhas escritas, o que eu puder deixar, porque gosto muito de ajudar pessoas e encontro poucos modos que não estes.

A perspectiva de um dos personagens por encontrar a beleza em Beleza Americana, em um saco plástico aleatoriamente aos contornos sugeridos pelo vento, a efemeridade da vida, as ruas como elas são, as pessoas como elas são, as famílias como elas são. Tudo é muito sugestionável de como podemos encarar as coisas por diferentes óticas. A percepção é importante, faz parte da instrumentação para a mudarmos a realidade. Somente é possível melhorar, mudar algo com a devida percepção do que ocorre. As condições precárias existentes que nos cercam e a partir disso ao menos questionar o que podemos fazer. Nos cobrar por agir.

Um filme sul-coreano chamado "Em Chamas", em determinado momento, exibe um ponto de vista vindo de provérbio africano. Para um povo, talvez na região do Quênia, existem duas fomes. A pequena fome, que é a busca direta por alimentos. E a grande fome, que é a busca por conhecimento. Enquanto muitos tentam combater a primeira fome, a pequena fome, saciar o organismo, existe a grande fome, a tentativa de alimentar o espírito, a alma, tentar uma elevação, uma altivez que, no meu caso, na minha ótica, seria a de ajudar muita gente também. Ajudar espiritualmente, fomentar projetos, ensino, possibilidades de subidas para aqueles e aquelas que estão ao nosso alcance.

Pretendo me aperfeiçoar no ensino de conteúdos de língua portuguesa e espanhola, procurar alguma estabilidade nesse sentido e, quanto ao jornalismo, talvez - grifado o talvez - livrar-me da área de jornalismo esportivo para rumar a projetos mais contundentes com a nossa sociedade. Mídias alternativas, como bem colocou em mensagens ontem o amigo Fred Mayer. Jornalismo que ouça mais vozes, que elimine invisibilidades sociais, que traga conteúdo e representatividade para quem mais precisa. Ir além dos resultados ou análises táticas do futebol masculino. Ou mesmo partindo para outras modalidades esportivas, perceber que praticantes de rally, tênis, golfe ou natação possuem o necessário, recursos para desenvolver suas atividades. Geralmente possuem outros empregos. Não vivem disso. Então, os projetos voltados à periferia seriam de maior interesse. Educar jovens, formar cidadãos. Amar e mudar as coisas, certo, Belchior?

Notas de rodapé: durante o filme Beleza Americana, enquanto algumas personagens surtavam, principalmente a mãe da garota, uma viciada em trabalho e ambiciosa capitalista, parei para pensar que não desejo exatamente o "mal" para essa gente. Não gosto de vê-las estressadas. Não gosto que essa gente sofra. Não sou punitivista. Definitivamente não sou. Torço muito pelo encontro da vacina para o novo coronavírus.

Que situação inédita! Uma pandemia com tecnologia. Na gripe espanhola de predominância e muitas e muitas mortes em 1918, mal havia sido criado o rádio. Agora temos todas essas tecnologias. Transmissões em vídeos, chamadas gravadas, webradios, aulas online. Aplicativos. Compras pela internet. O mundo conectado. Notícias internacionais em tempo real. Quanta mudança em um século...

Não torço pelo mal das pessoas, mesmo desgostando das atitudes da maioria. Repito: não sou punitivista.

02/08/2020

no fim das contas - enxertos e aforismos

pensando sobre os extremos da luta pela sobrevivência entre as classes extremamente pobres e o tédio e a falta de sentido que trazem grandes índices de suicídio nos países nórdicos.
no fim das contas, a vida se mantém suspensa por cordas invisíveis e às vezes elas são cortadas.

no fim das contas, a vida não é apenas a luta pelo recurso que nos confere sobrevivência. nas sociedades mais bem sustentadas, mais bem apoiadas em itens de conforto, as pessoas perdem suas motivações. é preciso encontrar remotivações quando a maioria das buscas já está saciada no labirinto de desejos. o egoísmo é uma vertente muito forte, porque é assim mesmo que se aparenta essa constatação. enquanto a maioria não tem o que comer ou precisa lutar diariamente por isso, há minorias enfadadas por rotinas tediosas e despropositadas, com vontade de findarem-se.

nessa perspectiva apresentada, há a extrema pobreza e a pobreza batalhadoras por recursos, há um meio termo que dispõe de certo conforto, de certa quantidade de recursos, situada entre a miséria e o tédio, e há um alto escalão tedioso, com rotinas bem definidas, que pouco almejam, que pouco se remotivam a estarem vivos. é bem provável que no alto escalão também residam pessoas que preenchem seus vazios facilmente e nem se deem conta disso, essas são as melhor assessoradas, nem percebem a futilidade da existência.

no fim das contas, exigir que uma pessoa esteja viva pode ser uma prova de egoísmo, mais do que empatia. através do egoísmo, se exige que a pessoa fique, impedindo-a de partir para outro local, mesmo que este seja a morte. o desejo intrínseco pela permanência do ente pode ser uma camuflagem do egoísmo, pois a pessoa na verdade espelha seus próprios anseios, busca suprir suas próprias necessidades, afetivas ou materiais, através do outro. assim, a pessoa egoísta necessita do outro, muitas vezes querendo arrebatar-lhe muito mais do que pode servir em troca, no que se diz respeito aos recursos para o corpo ou para alma.