29/10/2023

Sinto raiva das situações do mundo, depois um marasmo de pena de quem nem tem condições, mesmo de saúde, de articular diferente.

13/10/2023

Guerra e Humanidade (1959) - Amor Maior Não Há

Um filme que deveria ser visto e revisto até hoje.


O filme Guerra e Humanidade, do diretor Kobayashi, de 1959, retrata tempos de Segunda Guerra Mundial entre Japão e China. Os japoneses detinham o poder e escravizavam os chineses. A história conta o personagem principal enviesado entre muitas encruzilhadas, termo inclusive utilizado na narrativa. Ele estava para casar com o amor de sua vida, mas tinha o receio de ser convocado para o exército japonês. Em seus estudos sobre os campos de produção, acaba recebendo a oportunidade de controlar uma mina de extração, com milhares de trabalhadores chineses sobre o controle dos japoneses. Em estimativas do filme, eram mais de 10.000 homens em supervisão daqueles poucos japoneses.

Como recebeu este emprego para ser um dos supervisores da mina, levou sua nova esposa a este local afastado, uma terra hostil, dominada pelos homens e com pouquíssimas mulheres. Tão adverso e arisco eram o clima da localidade que os escravizados não possuíam a mínima chama feminina para atiçar seus corpos, de modo que um serviço de visitadoras, muito semelhante ao que veremos em Pantaleón e as Visitadoras, livro do peruano Mario Vargas Lllosa, acaba aparecendo na trama. São algumas prostitutas que serviriam de consolo e de aparição como recompensa aos exauridos trabalhadores chineses.

Esta primeira parte da trilogia Guerra e Humanidade chama-se Não Há Amor Maior (1959), contando a história do Sr. Kaji, o personagem principal. Ele possui livros do mundo ocidental e é um grande humanista, mas tem seus valores totalmente colocados à prova através das situações adversas que tem de encarar. São líderes oportunistas, corruptos, relatórios falsos, crimes de guerra, torturadores, trapaceiros e subordinados ao exército japonês tendo de conviver com a violência, a retaliação, os excessos de poder e uma tremenda injustiça. O Sr. Kaji e a esposa tem a convivência posta à prova durante toda a trama, escapando de uma situação e logo tendo de resolver outro infortúnio. As ordens superiores são injustas, os relatos dos acontecimentos, da violência gratuita são falsificados. Trabalhadores que são agredidos até a morte são postos em relatórios como fugitivos ou acidentados. A produção de alimento e a distribuição são escassas e injustas. Os chineses estão esgotados de trabalhar para os inimigos e sem recompensa, ameaçando fugas e rebeliões. O Sr. Kaji tem de pacificá-los, conter as investidas e negociar futuros ainda promissores para esses pobres prisioneiros de guerra.

O alto comando japonês, quando acionado, pressiona Kaji por mudanças, por uma produção efetiva. Eles esperavam angariar da colheita 20% de aumento na produção. Não importa pelo que tenham de passar por cima. Por mortos, por esgotamentos, por torturantes jornadas de sacrificante trabalho. Mas Kaji, como dito, é um humanista e observa essas situações incrédulo de tamanhas injustiças, prometendo e pondo em práticas soluções que obviamente desagradam seus superiores e parceiros no comando da interiorana mina em terras chinesas.

Kaji vivencia a traição por todos os lados. Seus negociantes do lado dos representantes dos trabalhadores chineses o traem. Ele se decepciona, ameaça não ligar mais para as reivindicações e condições trabalhistas deles. Mas o coração de Kaji segue posto à prova e ele vai até as últimas consequências por aqueles homens antes desconhecidos, não importando suas origens ou pequenos ou maiores erros passados. O filme todo se desloca em uma trajetória não de santos, mas de homens passíveis aos erros e questiona o valor das desgraças que podem ser depositadas sobre esses desafortunados sujeitos. Kaji circunda por suas temíveis encruzilhadas, sinucas difíceis, quase impossíveis de resolver. Nos questionamos durante as peripécias o que poderíamos fazer no lugar do jovem japonês, de 28 anos, um emprego inusitado e a constante ameaça de perder seu encargo e ainda ser ameaçado de torturas, agressões e até do sumiço como a morte que facilmente poderia ser falsificada em mentiroso relatório.

Kaji convive com as prostitutas que visitam os trabalhadores, com os próprios milhares de mineradores, com os controladores dos suprimentos, guardas, encarregados do exército japonês e outros fiscais e administradores. A corrupção é uma prática frequente, retrata os extremos que ação e pensamento humanos podem chegar em tempos de escassez, guerra, conflitos, animosidade entre etnias, e mesmo entre homens que - teoricamente - lutam pelo mesmo lado de uma guerra. Tantos tentando obter vantagens sobre seus semelhantes, os excluindo, os oprimindo, lutando por seus cargos ou simplesmente por seus pedaços de sobrevivência.

Guerra e Humanidade inicia a trilogia com esse episódio da vida do Sr. Kaji em cerca de 3 horas e 24 minutos de filme. Mostra os excessos da guerra, as injustiças, os comportamentos doentis e fanáticos dos exércitos nacionalistas que até hoje habitam nosso mais ou menos estimado planeta. Mostra a dificuldade da manutenção de valores humanistas iniciais, presentes na teoria bem desenvolvida dos livros, inebriantes na hora do vamos ver da prática. Os desafios do Sr. Kaji deveriam ser vista obrigatória a estudantes, pessoas de todo o mundo, pessoas que desconhecem as práticas sacramentadas e repetitivas da crueldade dos exércitos, os roubos, os excessos, as torturas, os estupros, as condições de vida precárias a que são submetidos seres humanos que como culpa carregam apenas sua etnia ou local de nascença. Um filme pouquíssimo comentado, mas, até a presente hora, contando com minhas cinco estrelas depositadas em nota e com um alta média 4,5 através do aplicativo de catálogo de filmes do Filmow.

Recomendação do primeiro ao último minuto das mais de três horas de duração e lançada minha ansiedade para conferir os outros dois episódios dessa trilogia do diretor Masaki Kobayashi.

12/10/2023

Elena (2012)

Há o que achamos genial. E há o que não entendemos.


Assim começou o documentário Elena, de 2012. Não havia entendido se a moça que havia ido a Nova York estudar teatro era Elena ou sua irmã, Petra, que nos mostra em imagens resgatadas por ela sua vida em convívio com a irmã. Petra Costa é a diretora que assina a obra.

Entre os comentários que vi sobre a película, o destaque é a sensibilidade apresentada nela e não podemos fugir do comentário sobre o grande acervo de imagens da vida das irmãs, que tinham ainda a influência de uma mãe que fez um pouco de cinema em sua juventude. O filme é repleto de referências de como Elena serviu como inspiração para Petra. Uma relação muito próxima entre irmãs, de mais velha para mais nova. Uma família que vivenciou as dificuldades do período da ditadura militar brasileira, suas restrições e possíveis perseguições políticas e depois tentou vivenciar, respirar a arte, em um ar ainda rarefeito no cinema e no teatro nacionais.

Elena tenta ganhar a vida em Nova York. É outra realidade, são outras oportunidades, a ansiedade pelo que pode ou não dar certo. O coração da jovem fica dividido. A espera por um sucesso que não vem. Um talento que não se desenvolve ou não é valorizado. A espera, o compasso longo de uma espera duradoura. Elena vai e a família a acompanha, no caso a mãe e a irmãzinha Petra, bastante criança, pequena, de lembranças vagas, suscitadas ou relembradas através do acervo de vídeos caseiros. Petra é treinada por Elena para também ser atriz. Vídeos caseiros em brincadeiras, vestuário, atuações, banhos e desempenhos. Muitos de nós sonhamos em ter imagens registradas para posteridade através de uma câmera vista de forma amadora.

Petra reconhece a dificuldade de adaptação em uma Nova York de costumes diferentes, de idioma diferente, pois tinha que aprender a duras custas o inglês, do frio diferente do Brasil mineiro ou carioca. Para além da dificuldade de Petra, que era contornada com o passar dos meses em adaptação aos Estados Unidos, Elena passou pelos percalços daquele longo compasso de espera. A depressão contínua, os dias e as noites em muito sonho e pouca atividade, em depressão profunda sobre a cama. A promessa de ligações que não vinham, convites não depositados, atuações que nunca existiram fora dos registros amadores. Sonhos despedaçados, até que ela não resistiu mais e concluiu-se de uma forma bastante estadunidense.

Para Petra ficaram as lembranças, os registros, a admiração jamais cessada, a saudade, palavra bastante portuguesa e contínua, os olhos distantes e jamais consolados no olhar da mãe. "O que houve, mãe? Está com o olhar estranho." "Estava pensando em Elena." Cena que se repetia no dia a dia das remanescentes neste plano.

Para parte final do filme, finalmente entendemos quem era quem. Ou não. Quem havia ido a Nova York estudar teatro. Quem depois estava proibida, ao chegar à idade de prestar vestibular, de escolher teatro e de escolher, entre tantos destinos possíveis pelo mundo, a mesma cidade de Nova York. Se respondem perguntas lá do início documentado, de como era impossível, e ao mesmo tempo tão palpável e presente, encontrar Elena por alguma das infinitas ruas paralelas da grande maçã Nova York, na terra das oportunidades, mas também de opressões, dos sonhos que vingam ou que se vão atrás de portas de repetidos apartamentos.

Fico pensando que pouquíssimas pessoas teriam a oportunidade de realizar um documentário desses, seja pela banalidade de nossas vidas, seja pelas poucas oportunidades de entender de direção, edição e adaptação para cenas, seja pelo pouco acervo que reservamos em nossas casas sobre nossas famílias, nossas infâncias. O filme corre muito mais por narração de Petra sobre o que lembra ou inventa, através das imagens salvas em filmagens, do que com entrevistas novas, que também estão presentes ao tentarem reconstituir o trauma que, na verdade, lhes ocupou eternamente o âmago. Esta é Elena, viva nas imagens, nas lembranças, em olhares distantes e no coração de sua mãe e de Petra, petrificada, mas insinuante e plena.

11/10/2023

O futuro do turismo

Ao mesmo tempo em que a modernidade, a globalização e as grandes empresas povoam os mais longínquos rincões da Terra, em um ar de familiaridade, de uniformidade e padronização de cada canto, tornando-os os mesmos, ao mesmo tempo perde-se a devota cultura ancestral, a particularidade, o enriquecimento, a soma, as diferenças que nos fazem mais fortes. Essas diferenças sejam elas étnicas na miscigenação, na beleza das diferentes arquiteturas, na soma gastronômica e culinária de nossos estômagos que anseiam o distinto. A diversidade de modelos, de possibilidades, de ruas, de escolhas, de cores, fragrâncias e estilos. A padronização global impõe as mesmas peças, os mesmos moldes, as mesmas formas e atitudes. Ao passo que nos dão a segurança de conhecermos como funciona um shopping center - palavras inglesas, estrangeiras, mas globais -, ou um aeroporto, nos tiram, nos podam o eterno anseio, a graça pelas novas descobertas, o calafrio inquietante diante do desconhecido, o enriquecimento cultural e uma das verdadeiras vontades que nos fazem deixar o sossego de nossas casas rumo a novas experiências.

Pontes estaiadas pelo mundo, numa uniformidade que nos orgulha estarmos defronte a uma delas como se estivéssemos nos Estados Unidos ou na China, mas que ao mesmo tempo nos bloqueia alguma das vontades de para lá nos deslocarmos. Fast foods globais, que nos dão a certeza do que pedir ao sair de casa, mas trazem um desnecessário conforto que não mais queremos. Queremos explorar o diferente, experimentarmos novas receitas e medicinas. Buscarmos novos gostos e tradições que nos acrescentem.

Um mundo que se uniformiza também se limita. A pobreza de opções nos sai cara. Os avanços milenares e globais também se deram pelos cultivos distintos, pelo comércio de importações e exportações e não pela boiada, eucaliptos ou soja que a tudo dominem entre nossas fronteiras.

10/10/2023

A vida é só o tempo entre o florescer e o perder as pétalas.

Ou se lamenta que não floresceu. Ou após se lamenta que perdeu as pétalas.

01/10/2023

Meu pensamento é uma cinemateca que jamais será exibida.


Melhor do que lembrar tudo que se deseja é esquecer tudo o que se quer.


Frases de Rogério Sganzerla

14/09/2023

Quero visitar muitas obras, mas as obras só servem para serem revisitadas.

Já cataloguei ter visto 2405 filmes.

E daí?

12/09/2023

10/09/2023

Mar de Rosas (1977)

Um surrealismo à brasileira, cheio das cenas mais absurdas com um elenco que apenas deixa prosseguir. A história de um casamento todo desfalecido entre a esposa de irônico nome Felicidade (Norma Bengell) e seu marido Sérgio (Hugo Carvana). Após uma discussão mais acalorada, a mulher reage e mata o marido no quarto de um hotel de estrada. Ou assim o pensa. Prontamente, Felicidade foge com a filha Betinha, que rouba a cena do filme.

Betinha ganha destaque sempre pentelhando a mãe e pensando nas situações mais absurdas, embora, também com um senso prático, demonstra vivacidade e instinto de sobrevivência. Ela percebe a perseguição de um carro atrás do delas na estrada, numa fuga do Rio de Janeiro a São Paulo (ou de São Paulo, onde moram, ao Rio de Janeiro, não recordo).

A perseguição se acentua até que o perseguidor percebe no posto de gasolina uma oportunidade para galantear Felicidade e oferecer-lhes ajuda. Sérgio era um empresário importante, réu confesso de passar gente para trás, segundo o próprio testemunho de Felicidade. Críticas pontuais a modelos econômicos, por que não? A um machista Sérgio de casamento infeliz, pai de família mais importado com a ideia de aplicar golpes financeiros para prosperar às custas dos outros. Desconfiado por natureza a ponto de contratar funcionário para que, por sequência e tabela, vigie a esposa. Este é Sérgio, que pouco vemos e só ao início da trama.

O ponto máximo do filme é quando recostam-se a uma cidadezinha de arquitetura tipicamente do barroco à brasileira, algo sudestino em direção ao Nordeste, de aspecto Minas Gerais, interior do Rio de Janeiro e não nos surpreenderia perdida ali se fosse uma Bahia. Lá o trio, entre as duas perseguidos e o funcionário perseguidor, choca-se com um excêntrico casal, de hábitos e costumes deslocados da realidade, sendo ele um dentista, de pouca comunicação e combinação com sua esposa. Servem-se a bom tom de uma hospitalidade enquanto a tensão segue crescente de qual será o destino para Felicidade e a espoleta Betinha.

Mar de Rosas colhe de grandes aspectos surrealistas, entregando um produto bastante peculiar, em que podemos ver traços de bons diretores europeus, como Buñuel, ao passo que só no Brasil transcorrem determinadas cenas. De 1977 para a atualidade de quem quiser conferir, sempre contextualizando as dificuldades de propor certas críticas em plena ditadura militar brasileira. Direção da detalhista Ana Carolina.

06/09/2023

De Cierta Manera (1977)

De Cierta Manera é um filme cubano que já inicia polêmico por sua data. Gravado substancialmente em 1974, foi concluído apenas em 1977. Direção da cubana Sara Gómez. O filme é centrado em relações conflituosas. São ramificações de um mesmo tema, de uma mesma problemática: as relações.

A relação central entre a professora e o operário após a revolução de Cuba em 1959. O país está mudando, as pessoas estão mudando, as pessoas estão mudando o país. O casal formado por Mario e Yolanda vive conflitos, nas diferenças de linguagem e de visões de mundo.

Mas todo o filme é uma mescla, uma sobreposição de relações. A relação dos homens com o país. A relação dos homens com os demais homens, seus companheiros, sua forma de agir, de parecer e de aparecer. A relação entre o casal, já mencionado. A relação entre Mario e seu pai, um dos membros do conselho local. A relação entre a professora e os estudantes, nessa nova etapa de Cuba, que tenta lançar a Educação como pedra principal da transformação do país. A relação entre as professoras no método de alfabetização e de ensino. A relação entre a professora Yolanda e as mães trabalhadoras, em que é difícil que se entendam, em funções tão divergentes. Uma das mães com 11 filhos, tendo que trabalhar até tarde e não conseguindo auxiliar na educação de suas crianças. Ela é cobrada por Yolanda e rebate a acusação.

O filme mostra as problemáticas relações de um país em tremenda mudança, em ebulição. Cada um ainda tentando entender seu papel no mundo, seu papel na sociedade, seu papel nesses conflitos vigentes. Mario se cobra que, para fazer sua parte dentro do papel da revolução, para cumprir as metas propostas, teve que denunciar a um companheiro, amigo seu. Ele fica lamuriando a questão enquanto Yolanda e outros companheiros lhe dão razão. O conflito é estendido em discussão entre os demais, muitos apoiando que são necessárias atitudes para cumprir as metas propostas pelo novo governo. O filme termina em uma conversa entre os personagens principais, que vão se afastando no plano da câmera, esta captando as mudanças estruturais, imagens reais que permeiam o filme, em uma mescla de ficção, neste drama, com o biográfico e o documental.

De Cierta Manera, expressão que demonstra dúvida, hesitação, perspesctiva, permeia esses conflitos e mostra como as coisas podem ser vistas de pontos divergentes. Uma Cuba que assegurava uma mudança significativa para as próximas décadas. Um filme que tem um importante valor documental para que não se deixe escapar que toda mudança brusca é sim bastante polêmica, transformadora e a luz não vira escuridão, a noite não vira dia de uma hora para outra. A bruma estará presente, os raios de sol que despertam o dia ou tingem a obsuridade da noite são graduais e conflituosos. De Certa Maneira é sobre isso.

Casal Yolanda e Mario, em discussão pelas ruas de Havana


Em um curto espaço de tempo, o filme aborda as difíceis relações sindicais, de Justiça, entre membros de um bairro e até toca no assunto de religiões de matrizes africanas. Cuba registrava muitos escravos, vindos para o trabalho no campo, mas também trouxe espanhóis, de cidades como a andaluz Sevilla.

É importante ressaltar que, com a Revolução em 1959, muitas pessoas foram readequadas de espaços urbanos. Prédios históricos eram demolidos em razão de que a considerada marginalidade ali prosperava. Novas habitações eram providenciadas pelo governo, em novos prédios ou bairros planejados, também procurando diminuir o volume desproporcional e preocupante das favelas. A relação das pessoas com seus novos bairros, serviços e vizinhos obviamente contribui para essa panela fervente entre sangues africano, europeu e latino.

19/08/2023

Eu, tolo, tinha pavor de reler as coisas e caçava experiências que, de tão carcumidas, nem poderiam se chamar metades.

11/08/2023

Interbairros

Passou incontáveis vezes por mim, enquanto eu caminhava ou vivia de caronas. Dessa vez, impaciente pelo próximo ônibus correto, me aventurei pelo Interbairros. Estou começando a lecionar em uma escola em bairro distante, na periferia das Três Vendas, bairro que talvez hoje seja o maior na cidade. Ele é fatiado em sub-bairros e linhas de ônibus. Nesse cenário de vários letreiros, corta-se a avenida Fernando Osório. Tudo começou ainda mais cedo, eu que não gosto das manhãs. Pensei que pior do que os ônibus em si são o cheiro deles por fora, entre combustível já processado e aquele cheiro que fica entre latarias e rodas.

Dentro do ônibus, quando ele faz uma curva mais brusca, o cheiro de suor dá também uma guinada da direita para esquerda ou vice-versa, confundindo e desagradando nosso nariz. Ainda não foi dessa vez que ninguém tossiu durante a viagem. Se é que é possível. Duas senhoras conversavam sobre suas famílias. Uma forma de manter vivos aqueles que já se foram. Nas conversas e nas memórias. Uma revelava muita saudade da mãe dela. Após dissecarem o assunto, uma desceu e se despediram.

Outra senhora, mais para o fim da viagem, comenta que à frente há um poste caído. Alarma a todos. Todos olham em polvorosa. Ninguém encontra o poste caído. "Tu que mora aqui perto" - comenta para outra velhinha. "Isso vai te causar um prejuízo."

Antes disso, na passagem pelo Fragata, o ônibus já teria bicado o espelho de um carro, fazendo com que nosso comboio estacionasse em regime de urgência. O motorista desceu rapidamente. Mais estranho mesmo foram se entenderem rapidamente. Talvez a tal bicada no espelho também tenha sido fake news, assunto na aula de Língua Portuguesa na escola.

Da Guabiroba se vê do alto a cidade, em uma das raras elevações. Vejo alguns comércios simples com siglas e imagino algum famoso com aquelas iniciais investindo na Guabiroba. Na avenida Duque de Caxias os taxistas, sem quem lhes dê serviço, conversam em roda de chimarrão, todos eles carecas. Esses dias caminhando passei por dois calvos que conversavam sobre seus carros estacionados em frente. Pensei que de carros entendo quase nada, mas cabelo eu ainda, por ora deste texto, conservo. Também vi um Fusca de calotas exageradas, chamativas. Um outro veículo com adesivo de carros rebaixados na favela. Ainda era Guabiroba neste caso.

Para os fins do Centro, nos fundos do Simões Lopes, vale dizer que as costas do Cefet, mesmo após quase duas décadas sendo IFSul, seguem feias. Outras casas carecem pintura e descascam até não poder mais, até quase casas não poderem mais ser chamadas. No Simões Lopes, a construção mais imponente, fora o reformado museu da viação férrea, por lógico é uma igreja.

Pelos bairros sigo conhecendo minha cidade que se transforma em imóveis que mudam de donos, em donos que mudam de imóveis, em imóveis que são mudados, também formada a cidade por quem nem tem onde morar. Um atendente que me vende uma água com gás porque sem gás não havia, me vende também umas bolachas de doce de leite e afirma que está calor hoje e que o tempo não dá trégua e "haja corpo para resistir a isso". O meu por incrível que pareça tem resistido ao inverno e mesmo aos seus veranillos. 

Próximo de minha casa canso de desviar de merdas de cachorro e talvez humanas. E pensar que almejavam lei que puniria quem não limpasse a sujeira proporcionada pelos pets. Bobagem das grandes. Na Câmara de Vereadores os trabalhadores de queixo e nariz em pé. Pelas escolas e abrigos infantis, creches, o vozerio das crianças me deixa alegre, triste e confuso. Quem serão os pais dessas crianças de hoje? Que futuro terão? O que a tecnologia modifica? O que, apesar da tecnologia, se mantém? Cantigas infantis que as pedagogas puxam.

Perto de minha casa, um espelho de uma loja especializada em venda de extintores me deixa mais bonito do que qualquer outro espelho, causando-me boa impressão e desconfiança. E cada vez que chego em casa não sei com quem vou cruzar. Gente me pedindo dinheiro, talvez em prontidão para me roubar, mantenho chave em mãos, vizinhos que reconheço ou não no semblante, carros de auto-escola, cães pernetas, lixo espalhado, lixo sendo recolhido, mais cocôs de cachorro, ferragem aberta, ferragem fechada, cães de raça em coleiras, vagabundos, trabalhadores, fofoqueiros, andarilhos e meus passos de escritor cada vez menos desocupado mas querendo estar, herdeiro que não sou. Herdo uma cidade assim.

25/07/2023

Portugal em "Frágil como o Mundo"

É um filme da diretora Rita Azevedo Gomes. A película portuguesa conta a história de dois adolescentes que, apaixonados, resolvem fugir do mundo que os cerca, mas, assim, enfrentarão novos perigos. Os incomodados Romeu e Julieta portugueses chamam-se João e Vera.

A mostra explora uma situação de Portugal rural, afastado, longe das maiores cidades do país, Lisboa e Porto. A falta de perspectiva é evidente no contexto dos jovens. Sem muitas alternativas, a saída das asas da família poderia ser uma solução. Mas, mal planejados, o destino é trágico aos novos pombos.

O filme perpassa diálogos filosóficos, ouvidos com intensidade, sem o intermédio usual de trilhas sonoras que muitas vezes tornam-se ruídos na comunicação. A palavra buscando ser sábia dos mais velhos. A palavra sonhadora e esperançosa da juventude. Ascensão e queda sendo construídos na simplicidade de um filme que desempenha uma narrativa feijão com arroz.

A melancolia de um povo português assentado após o tempo das grandes navegações e conquistas. Um Portugal que deixou Ásia, deixou América e deixou África. Um Portugal que mais lamenta a diminuição de seu poderio do que faz um minha culpa por tudo que ocasionou negativo a outros povos. Melancólico, refugiado nas entranhas de seu próprio país de atrasos e de agros campos distantes. Um preto e branco bucólico na tela de quase a totalidade do filme. Portugueses que já não mais guerreiros, mas mais recolhidos, resignados, observadores e maleados pelos campos, não mais enfrentando a severidade alentadora e destemida dos mares mundanos.

Um Portugal que se fecha e compõe músicas tristes. Sente saudades, aproveitando o bom Português, de quem não está mais, do que não é e nunca mais será. Fados contra os fardos do mundo. Portugal da narrativa de um Frágil como o Mundo, mas também como dica um filme mais antigo, em formato de imagens-documentário, o Movimento das Coisas, se não me engano, de 1985.

05/07/2023

Touki Bouki e Vidas Secas - Semelhanças e Diferenças

Touki Bouki foi apresentado recentemente por este escriba. Um filme que se passa em Senegal, retratando um jovem casal que sonha em deixar o país e suas mazelas, para uma vida melhor na Europa, desejando Paris. Em Vidas Secas, aqui se tratando do filme de 1963, com direção de Nelson Pereira dos Santos, inspirado diretamente na obra Vidas Secas, do escritor Graciliano Ramos, o casal também almeja uma vida melhor, tentando fugir dos rincões mais escassos de despovoado Nordeste.

Enquanto o casal em Touki Bouki - A Viagem da Hiena - é mais jovem, sem filhos e, portanto, com menos compromisso, os nordestinos brasileiros carregam consigo duas crianças, sendo dois meninos, e mais o cachorro da família, ironicamente chamado de Baleia, visto que a comida geralmente era escassa para todos os envolvidos.

No filme senegalês outrora apresentado, o casal discute seus sonhos à beira do mar, sonhando com outro continente. Estão dispostos a viver à margem da lei, aplicando golpes seja em quem for: autoridades, pessoas ricas ou mesmo artistas de rua. Como fuga, possuem uma motocicleta adaptada em que se destaca um dos símbolos máximos do filme: o crânio de boi - visto que são feitas várias metáforas entre a vida de gado dos humanos senegaleses e a vida dos bichos sendo ancorados rumo aos abatedouros. 

O casal brasileiro, Fabiano e Sinha Vitória, procuram viver dentro do que é possível nas agrestes terras. Eles conseguem um lar temporário, mas precisam trabalhar para o dono das secas pastagens, mais um jagunço que tenta passá-los para trás, depositando menos dinheiro do que o prometido, com a desculpa de que estão descontados os juros pelo 'empréstimo' de ter onde morar. Além do mais, Fabiano é analfabeto, jamais frequentou a escola, cena evidente quando defronta-se com o patrão, alegando que o dinheiro está a menos. O patrão mantém sua posição inflexível, reiterando que a soma está correta. Fabiano abaixa a cabeça, pede perdão e lamenta que a esposa, espécie de financeira da dupla, tenha feito conta que não devia. "Não é necessário barulho", se desculpa o peão vaqueiro.

Ainda dentro das regras de injusto jogo, o casal não consegue vender sua pouca produção de carne animal sem escapar de rigorosos impostos cobrados por prefeitura de pequena cidade - concentração de casas e gente. Fabiano é perseguido pelas autoridades, pois um metido oficial se envolve com a vida do vaqueiro, lamentando que ele tenha pulado fora em um jogo de cartas em que eram dupla. Assim, Fabiano perde o dinheiro, que a mulher acredita tenha sido desperdiçado em apostas, sem saber das injustiças que sofria com as corruputas autoridades locais. O jagunço sofre chibatadas, é vítima do abuso policial.

Na história senegalesa, a dupla vai conseguindo conquistar seus objetivos, almejando algo maior do que o Senegal recém independente após século de colonização francesa sobre aquelas africanas terras. Enquando Vidas Secas é rodado em uma espécie de conto cíclico, em que trilha sonora e paisagens iniciais e finais do filme se misturam, existe alguma perspectiva a mais na surrealista França imaginada pela jovem chamada Anta, no filme de África. Entretanto, o cíclico também está presente em Touki Bouki, pois o jovem Mori é vítima da vida emboscada em que são cercados os bois rumo ao matadouro.

Os bois. São figuras traçadas em ambos os filmes. As terras secas, o trabalho repetitivo e atencioso dos grosseiros vaqueiros em ambos os continentes. Semelhanças que aproximam um Brasil e um Senegal rurais, em épocas parecidas, sendo os filmes rodados com distância de exata década, o brasileiro em 1963, o senegalês lançado em 1973.

Em comparação, para finalizar breve análise, os pôsteres dos filmes em que as duplas protagonistas se destacam contra paisagem seca.




03/07/2023

Y apareci en un barrio del que no puedo salir

Era um show de rock, mas eu não havia definido ainda se tratava-se de um teatro, do ginásio Gigantinho ou outra acomodação. Fato é que a plateia se desenhava abaixo de uma espécie de mesanino (palavra a qual detesto) sobre o qual estávamos. O mesanino, na verdade, era um bar totalmente decadente, com um atendimento lixo, com um suposto dono da espelunca em aspecto carrancudo, ao mesmo tempo que pouquíssimo interessado nos acontecimentos que o rodeavam. Tão pouco se importou que os simulacros de brigas que ocorriam eram ignorados. Eu lembro de discutir com ela ou por causa dela, e assim arremessei meus óculos no chão, pela primeira vez, nesses três anos, destruídos, com um rompimento impossível de encaixar na lente.

Os óculos dispensados ao solo seriam somente meu primeiro problema naquela noite maluca. Meus familiares também se desenharam por ali, de uma forma bastante surpresa fiquei, porque não era costume deles aparecerem em qualquer evento noturno, naquela espécie de casa noturna recebendo um show uruguaio de rock, em que eu imaginei primeiro Cuarteto de Nos, mas descobri tratar-se de Attaque 77. Meu primeiro seguidor desconhecido em internet, ao menos na rede social que mais usei nessa vida, Diego Antônio - ou Diego Lokura - estava lá para setenciar que, sim, tratava-se da banda argentina Attaque 77, da qual ele era exímio fã. Éramos minoria naquela noite, pois os torcedores de bandeiras e camisas vermelhas estavam abaixo do pobre mesanino. As tribunas não estavam cheias, evidenciando um insucesso nas vendas ou divulgações, ou vendas e divulgações. Um show em casa noturna incompleta, com espaços para assistir, com bandeiras em vermelho e branco que tremulavam, tremulavam, e eu brinquei que levaria algumas daquelas para o maior colorado do mundo, o Hercílio Luz da cidade de Tubarão, cidade de meu pai.

Eu, bêbado, gritava impropérios que logo causariam algum simulacro de briga. Gritava que nunca havia visto tantos torcedores da Croácia ou do Hercílio Luz. Só faltou citar o Náutico para provocar ainda mais o pobre lado vermelho porto-alegrense. Cruzei com algumas figuras, pois lá estava o Lucas Pacheco, hoje dentista, com a mesma cara de quando o conheci na escola e um relógio de pulso que deveria custar mais do que meus futuros salários. Qual não foi minha surpresa quando pintou o aparecimento de meu colega Matheus, que havia sido agredido com um chute. Isto foi o que ele contou enquanto mancava. Eu pensei que tratava-se de uma brincadeira, ele praticamente imitando o mascote deles, um saci. Mas baixou um pouco a lateral de sua calça para constatar um tremendo roxão no quadril, algo que recorria a urgência da procura de um hospital na equipada capital gaúcha. Ofereci ajuda nos cuidados, o que ele negou e logo prosseguiu sabe-se lá para onde. Nisso tudo, eu precisava carregar a bateria do meu celular naquela casa noturna putrefata. Novamente surpreendido eu fui, pois haviam muitas tomadas, nos mais diversos formatos e posições daquelas paredes mal pintadas. Tentei plugar o aparelho com meu carregador desmanchando-se, o que em realidade assim está, bem ocorre, tive insucesso nas primeiras tentativas, mas logo consegui uma posição exata e delicada em que a barra de bateria poderia subir para meus gracejos.

Deixei o celular ali depositado sobre uma cadeira no canto do bar improvisado sobre o putrefato mesanino. Continuava a checar o movimento, sem prestar atenção se o esperado show havia começado, ou, se já começado, prosseguia, sem reparar mais na quantidade de camisas coloradas, muito menos nas bandeiras. O mesanino parecia uma espécie de mundo à parte, um espelho da desgraça, independente do que ocorreria no palco. As mesas eram poucas, os móveis velhos, sujos ou estragados. O horário da noite avançava sem maiores incidentes, quando eu percebi que amanhecia e precisava dar o fora dali, sem perder o que fosse: a carona da minha família ou o ônibus de excursão.

Percebi que meu celular faltava, pois havia só a cadeira branca, de madeira mal pintada, e, sobre ela, o velho carregador em frangalhos. Onde estaria o aparelho? Surgia assim meu segundo grande problema, o terceiro, se contar o coitado que levou o suposto chute que lhe causou tremendo roxão. Recolhi o carregador branco que tinha certeza ser o meu, sem nem pista do aparelho que alguém, naquela espelunca, havia roubado, obviamente sem sinal do enxugador de pratos ter presenciado o ato. Sem óculos, sem celular me dirigia para o lado de fora, quando avistei um casal que achei ser o de meus colegas de jornalismo, Wagner e Vitória, belos nomes quando posicionados juntos, diga-se de passagem. Comentei com uma terceira pessoa que achava que se tratava do Wagner, mas que na verdade era até uma mulher quem acompanhava a suposta Vitória. Erro meu.

Ao mesmo tempo reacendia a dúvida de que eram Wagner e Vitória lado a lado na porta de saída, pois Larissa, também do jornalismo, me puxou de vez para fora do estabelecimento, para uma noite que virava dia. As pessoas dispersavam-se em seus rumos, trôpegos bêbados, alguns motoristas, intactos ou não, eu ainda em busca de encontrar minha família ou o coletivo que me trouxera, eu pouco sabendo como. Larissa queria me mostrar seu filho pequeno, que brincava inocentemente na rua, alheio ao desconvidativo horário e a todos os demais acontecimentos.

Cheguei sim a reconectar-me com minha família, mesmo sem o melhor dos sentidos da visão na ausência de meus óculos, aproveitando o novo dia que raiava, feliz por encontrar meus pais. Mas logo os perdi novamente de vista, com o agravante de agora não contar mais com o celular para comunicações. Meu pai não sabe usar o whatsapp, minha mãe sabe, mas eu precisaria do quê? Pedir algum aparelho emprestado, encontrar o mito do orelhão de rua? De um posto de gasolina eles partiram sem mim, ou seria que em um posto desses me esperariam? Fato é que não encontrava mais o tal posto. Encontrei postos abandonados, casas abandonadas, todo o panorama de bairros pobres e sem-teto nos Estados Unidos, seja em Detroit, Cleveland, Baltimore, Nova Orleans ou algum recanto da Califórnia. Eram rincões do mundo ou da própria Porto Alegre que eu não conhecia. Nem seguidores perdidos da internet, nem ex-colegas de jornalismo, nem amigos agraciados com chutes, ninguém mais me libertava desse labirinto enquanto o dia, veloz, caminhava para novo anoitecer.

 Quantos edifícios Gagarine não estão nos cines?

Touki Bouki (1973)

A Viagem da Hiena. Filme senegalês do diretor Djibril Diop Mambéty. Exibido no Festival de Cinema de Cannes de 1973 e no 8º Festival Internacional de Cinema de Moscou. O filme foi restaurado em 2008 na Cineteca di Bologna, para registros de fichamento.

A história é de dois jovens revoltados com o descaso e a situação de seu país natal (Senegal) e que sonham uma vida de luxo em Paris. Eles desconhecem outras realidades, mas têm o sonho. O Senegal agrário e de paisagens desérticas é evidenciado. É impossível não capturar a força das imagens iniciais e finais da trama. A figura dos bois em última luta nos abatedouros. Sangria. Morte com o animal ainda em vida. Se debater. Morrer. Uma esteira de mortes, um chão de sangue. A crueldade humana, que em seguida é praticamente absolvida ao vermos como é o modo de vida do cidadão senegalês nas favelas, em meio ao lixo. As crianças correm atrás da moto do personagem principal Mori, interpretado pelo ator Magaye Niang. O veículo chama a atenção por possuir um crânio de boi depositado na frente. Sua companheira se chama Anta, interpretada pela atriz Miriam Niang.

Em rápida pesquisa, observamos que o filme é referência no cinema experimental africano. É uma produção bastante marcante, também se pensarmos que considerável dos países em África recém viviam o processo de independência. Senegal, em relação à sonhada França, não era diferente. As cenas urbanas e rurais povoam a obra clássica, que mostra a escassez de qualidade de vida na grande Dakar e suas imediações.

A dupla de protagonistas parte em uma jornada arriscada, roubando dinheiro ora de um golpista de rua, ora de uma arena que recebe combates corpo a corpo. O filme a todo instante mostra um país em dificuldade de progredir, de romper com seus traços mais violentos. O casal precisa driblar os moradores que também os roubariam, driblar a polícia, driblar um curioso taxista, driblar um rico idiota e conseguir embarcar em um navio que os levaria de Senegal a partir de Dakar. A conexão das cenas às vezes deixa a desejar sobre o plano lógico dos acontecimentos. É difícil entender como Mori e Anta não foram capturados no início de tão ousada fuga.

É mais fácil entender que os fugitivos tinham lá suas razões. Rebeldia, descontentamento, falta de perspectiva, ambições. O final é surpreendente, embora também nos deixe reflexivos do porquê tenha ocorrido assim.

A Viagem da Hiena é um retrato importante para registro histórico das cenas de um Senegal setentista. A independência do país em questão recém havia ocorrido em 1969. As marcas de século de colonização francesa estão grifadas durante toda a obra de Diop Mambéty. As citações, a irrupção casando ou colidindo com a ancestralidade africana, o sonho dos jovens. Um Senegal que ainda tenta(va) se encontrar e uma França mais pintada surrealista do que existente.

O ser humano em sua viagem de sonhos que muitas vezes morrem como um boi em um abatedouro.

⭐⭐⭐⭐



28/06/2023

Demência (1986)

Demência (1986), de Carlos Reichenbach, conta a história de um empresário do ramo de cigarros que está falindo economicamente e na condição de pai e marido. Assim, alucina situações das mais esdrúxulas, num surrealismo à brasileira.

Para época, mescla elementos que comparam Reichenbach a diretores mundialmente famosos, como o espanhol Luis Bunuel, ou o norte-americano David Lynch. O diretor brasileiro utiliza de imagens urbanas da metrópole São Paulo, pano de fundo das desventuras do protagonista. A articulação ocorre com o mitológico Fausto, do escritor alemão Goethe. O diabo se transfigura em diferentes encontros durante as paranoias do empresário paulista.

O filme transpassa por temas mais ou menos sutis no que se refere à política, às críticas ao capitalismo, mas também chega a debochar de uma visão que colocaria todo o bandido na condição de vítima da sociedade, conforme a cena em que uma prostituta aplicaria um golpe no protagonista e, numa reviravolta, ele assume o controle da situação, com o poder de sua arma contra a dupla de capangas que lhe passaria a perna.

No filme estão figuras excêntricas, marginais, prostitutas, amante, malandro aplicador de golpes, criminosos organizados, mas também oficiais, demais empresários sabotadores, jovens e velhas à espera de carona. Os mais diversos tipos de diabos travestidos no caminho do alucinado empresário da maior cidade do país. O filme mescla gêneros, pelo drama de elementos realistas, pela comédia também patrocinada pelo surrealismo, o suspense de até onde renderia a empreitada desvairada do ator principal, até o gênero road, quando, após peripécias, procura fugir das autoridades em escapada pelo interior.

Carlos Reichenbach consegue uma obra de média geral 4,1 no site brasileiro Filmow, para qual desprendo a quantia significativa de quatro estrelas.

⭐⭐⭐⭐

27/06/2023

O Inverno / L'hiver (1969)

"Havia um tempo em que eu não sabia se era feliz ou infeliz. Sinto falta dele."

"... disfarçava suas falhas por trás das pretensões artísticas"

Paisagens belgas bem representadas em L'hiver (1969)

O filme L'hiver (1969) do diretor nascido na Tunísia e com considerada curta carreira em França, Marcel Hanoun, retrata um casal, uma atriz desistente e um diretor frustrado. Eles estão na Bélgica na tentativa da gravação de um documentário. Além das conversas mais ou menos vagas, mais ou menos filosóficas, mais oh menos nostálgicas dos protagonistas, Sophie também troca ideias com o amigo do casal, o cinegrafista, que completa o enxuto elenco da trama experimental, que mescla imagens de Bruxelas, suas pontes, seus prédios, suas águas e um pouco de seu povo, com as incursões frustradas dos profissionais na corda bamba do fracasso.

A película mostra um pouco do cinema francês da época, com cortes de imagens reflexivas, colocações mais ou menos sutis para maiores significados. Interpreto algumas passagens, como por exemplo a adição de uma música despretensiosa, desconexa, como trilha para ambientar a falta de entrosamento do casal. Ela que decidiu seguir passos da carreira do diretor, ele que a nem escala para seus projetos de difíceis conclusões. Ela que caminha em busca de respostas, gastando sapatos sobre as seculares pedras calçadas da capital belga. Ela italiana, de Veneza, que revela nem ao menos conhecer Florença, possível destino prosseguinte deles.

O diretor insatisfeito com as realizações de seu trabalho, infeliz também no casamento mantido a persistências de uma época em que ainda havia a manutenção maior de matrimônios (em relação a hoje) enquanto já se aumentavam as hipóteses/possibilidades de divórcio.

O filme demora a engrenar, não transmite tantos elementos para uma narrativa de sequência de cenas, então pode ser proveitoso para observação de quadros, cenas, escolhas sentimentais, mescla com a arte que aparece em quadros de pinturas, exploração do espaço urbano, preenchimento de vazios, elementos cinematográficos- como o diretor pensando em sua obra-, além de questões comuns a casais de quaisquer épocas, em diálogos nos quais tentam novamente nortearem-se, seja dentro da relação ou em suas vidas, em geral. Para onde irão depois disso?

Minha avaliação foi constituída em quatro estrelas das cinco possíveis

⭐⭐⭐⭐

Casal distanciado é protagonista na trama do tunisiano Hanoun

Marcel Hanoun foi autor de poucos filmes, mas produziu na cinematografia com as estações do ano, das quais já assisti o filme sobre o Verão, em que uma jovem vai para uma casa de campo e reflete sobre seu tempo na cidade, seu relacionamento e a política através das manifestações de maio de 1968 na França. Pretendo assistir ainda às estações faltantes, Outono e Primavera.



15/06/2023

Que me perdoem os monogâmicos do futebol

Meu pai conhecia desde sua infância, nos velhos muros que, contrariando lógicas e passadas enchentes, mantém-se de pé. Vermelho e branco, perdoem-me, sempre foram cores que desprezei pela minha criação no Rio Grande do Sul. Nunca me imaginei torcendo efusivamente por um colorado. Perdoem-me, em especial, os monogâmicos do futebol que não entendem minha paixão por mais de um clube. Elas se complementam em ser quem eu sou. Afetado por uma cidade decadente após a grande enchente de 1974, o Hercílio Luz, bicampeão catarinense em 1957 e 1958, ainda assistiu ao então rival, Ferroviário, completar a trinca de títulos da cidade em 1970, ano especial em que o tri também veio para a seleção brasileira na Copa do México, no esquadrão de Clodoaldo, Gerson, Tostão, Jairzinho e Pelé. Em Tubarão, a enchente de 1974 destruiu casas e sonhos, causou mortes que desfalcaram uma ou mais gerações em diversas famílias. Com as benções sabe-se lá de onde, minha família passou intacta nessa tragédia. Já desfalcada de outras causas mais ou menos naturais, eu com metade dos meus originais tios, volto ao encontro de minha própria história familiar ao retornar para Santa Catarina ao final de 2021. Apenas tinha passado poucos dias em férias em cada ocasião a que vinha ao estado vizinho ao norte, mas, ao passo em que meus pais adquiriram posse no litoral do estado, posso experimentar uma vivência mais robusta, uma estadia mais longa. E aí surgiu a retomada desse amor perdido de meu pai, que durou de sua juventude até o começo da década de 1980, quando conheceu minha mãe ainda em Tubarão e logo passaram a morar em Pelotas, isto, mais ou menos, por 1987. Minha irmã e eu nascemos no extremo sul brasileiro, a pouco mais de hora da fronteira com o Uruguai, embora a influência charrua seja tão pouca por aquelas bandas, talvez no hábito do chimarrão e em poucos termos que ainda não configuram nossa linguagem como um portunhol mais escutado nas verdadeiras linhas imaginárias fronteiriças.

O Hercílio Luz Futebol Clube carrega vários vice-campeonatos, entre eles, o de segundo clube mais antigo do estado de Santa Catarina em atividade, perdendo a liderança que detinha para o retornável Carlos Renaux. Leão do Sul, como é conhecido o nosso Hercílio, acumula dois vice-campeonatos recentes na Copa Santa Catarina, além de três vices da segunda divisão catarinense. O Marcílio Dias, nome parecido com o qual muitos confundem Leão e Marinheiro, por exemplo, tem apenas um título de primeira divisão em SC, mas possui taças da segunda divisão, inclusive a taça da última Copa Santa Catarina, vencida exatamente sobre o Hercílio de Raul Cabral.

Raul é um personagem central nessa retomada do Hercílio Futebol Clube. Residente da região, assumiu o clube em 2021 e, até a escrita dessas humildes linhas, acumula 27 vitórias, 16 empates e 13 derrotas, um aproveitamento de dois por um em vitórias-derrotas, como podem ver, feito grande para um clube emergente do interior brasileiro.

A cidade de Tubarão comporta uma população pouco maior de 110 mil pessoas, podendo evoluir, talvez para 120 ou mais ao longo desta década. É uma cidade relativamente pequena para a busca, o sonho, o almejo de um futebol nacional. O Hercílio Luz em seu retorno profissional de 2008 para 2009, pela primeira vez reescalou um calendário brasileiro, com a Série D do presente 2023. E tem a vaga em garantia para disputa-la, caso não suba (e as probabilidades obviamente, em um campeonato em que de 64, apenas 4 conquistam o acesso, jogam contra), para o ano seguinte de 2024.

Além dos tubaronenses, que ainda se dividem, erroneamente ao meu ver, entre Hercílio Luz, vermelho e branco, e Tubarão, tricolor que tenta retomar um relâmpago tempo glório em que disputou o nacional e a Copa do Brasil antes da pandemia, mas atualmente está na vexatória terceira divisão catarinense, o público hercilista consiste em lagunenses, imbitubenses e demais moradores das áreas que pertenciam a Tubarão, como Capivari de Baixo. Assim as arquibancadas costumam-se povoar em pouco mais de dois mil torcedores por jogo no Catarinense - após duas grandes campanhas - em que caiu nas quartas de final em 2022 e nas semifinais para o campeão Criciúma, por conta de um gol - e controvérsias de arbitragem - em 2023. Na Série D, o público está mais baixo, a trancos e barrancos superando a barra de mil torcedores por partida, número que precisa ser ampliado nas rodadas decisivas aos fins de semana, não mais nas esvaziadas quartas-feiras à noite de um vindouro e desconvidativo inverno. É necessário novamente dobrar a meta, chegar aos dois mil torcedores e assim buscar a faixa de três mil em possíveis decisivos mata-matas. Orai por nós.

Imaginava um texto mais romântico e me restringi a muitos dados. É verdade que o sentimento nas arquibancadas antigas do Leão do Sul, que chegou a fechar durante vários anos, que retomou como Tubarão nos anos 1990 e durou até haver criação da startup do novo Tubarão, esse projeto que decolou e implodiu e tenta, teimosamente, decolar de novo, enquanto o Hercílio retomou profissionalmente em 2009, acendendo em mim, por agora, um sentimento novo, em vários um sentimento antigo. Por isso novamente peço as mais valorosas excusas aos rabugentos monogâmicos do futebol, que amam somente um clube, sofrem só por ele, em algum domingo que talvez se repita no seguinte. Eu peço a licença para declarar-me aqui ainda a Botafogos, Liverpools, e obviamente ao Grêmio. Mas o Hercílio em questão me aproximou de meu pai, que eu havia, silenciosamente, distanciado nos últimos tempos, em relutantes batalhas de humor e afastamento de quem tem por objetivos de vida escolhas diferentes, principalmente às habilidades e escolhas profissionais. Meu pai que muitas vezes não me entende, eu que muitas vezes não entendo meu pai, jovens como eu que cada vez mais, no avançar dos anos, passam a entender um pouco mais de seus antecessores na indústria da vida.

Nunca terei a resposta precisa do que meu pai sentiu ao retornar ao estádio Aníbal Costa tantos anos após sua juventude, tanto tempo depois daquele garoto de família humilde que pulava muros com os irmãos e/ou amigos, para ver minutos finais de partidas, driblar seguranças, quebrar guarda-chuvas aos gols perdidos, comemorar a braços e gritos os gols marcados, lamentando derrotas nos eternos clássicos diante dos mais bem afortunados criciumenses, sonhando em medir forças com os de Florianópolis ou os de Joinville - e hoje conseguindo contra os da capital e até ultrapassando o JEC do norte do estado. Tento imaginar aquele garoto que ele ainda conserva guardado em alguma parte do corpo ou da mente, que se confunde, eterno confuso, em lembranças difusas, em histórias que se repetem ou se embaralham em suas ideias ou problematicamente fonéticas elaborações. Meu pai que se enrola para contar, que busca pescar da memória e apresenta o mesmo insucesso de quando tentava pescar nas praias.

Por isso acredito que muito dificilmente terei a resposta do que passa por sua mente em reintegrar uma comunidade que ele havia deixado e hoje volta muito em minha insistência. Eu hoje pertenço a ela, através de já idos oito jogos, com seis vitórias, dois empates, uma invencibilidade e muitos sentimentos. Também, a exemplo de meu pai, os apresento confusos, confessando que, antes de iniciada esta jornada em escrita, imaginava ter mais bem definidos os sentimentos que passaria, tentando transcrever nessas linhas.

A verdade é que muitos torcedores, quando questionados o porquê de escolherem - ou serem escolhidos, vamos, Botafogo - tal clube de futebol, talvez não tenham essa resposta. Alguns culpam seus pais, outros foram para arquibancada ainda crianças com tios, amigos e aí deslubraram esse mundo de mais derrotas do que vitórias, ao menos sentimentalmente, porque, afinal de contas, ao final dos campeonatos, apenas um time é campeão e todos os demais não, por mais que se comemorem vagas em diferenciados sabores. Outros se descobrem mais velhos, como é meu caso, com, não é negada a influência de meu pai, mas também um sentimento familiar que se amplia, sabendo que meus tios, que posso visitar nas idas a Tubarão, também desejam o sucesso desse bravo e valente Leão do Sul.

Tenho um sentimento exatamente muito familiar ao passar pelas ruas do Aníbal Costa, um bairro ainda central de Tubarão, em ruas que me soam agradáveis com seus chalés antigos reformados, casas mais abastadas, calçadas que variam, ruas em paralelepípedos que também me recordam do interior gaúcho, até a avenida do estádio, que está localizado a uma quadra do colégio onde meu pai revela ter estudado. Um bar raiz na esquina, convidativo, em madeira. Um prédio de apartamentos em frente ao estádio, lugar propício para algum torcedor adquirir a sacada de frente para ver jogos sem pagar ingresso. A bilheteria de pouco movimento, com raras exceções, as camisas em vermelho e branco, a bateria da torcida organizada Império Vermelho. A contradição do nome império, mas vermelho, o que pode agradar e desagradar a todos. O povo que adentra conosco, negros, baianos, sergipanos, como já conhecemos, lagunenses, também imbitubenses e, é claro, os tubaronenses em maioria. Um maluco que cobra os assistentes de arbitragem na tela do estádio, eu que reclamo da demora da cera dos goleiros adversários, tento condicionar o árbitro no grito quando acredito ser falta, cobro, peço, imploro por cartões amarelos ao adversário, por acréscimo ao final se precisamos do gol. Gasto minha voz como obrigação e devoção de onde estou. Quero a vitória sempre, sabendo que em casa ela é imprescindível, necessária e a sequência atual oferece gulosos 25 jogos de invencibilidade no Aníbal Costa, como pude comemorar algumas vezes.

Vencemos a Chapecoense duas vezes, o Avaí uma vez, o campeão Brusque uma vez, empate com o Figueirense, empate com o Caxias, vitória sobre o Camboriú e sobre o Brasil. Golaços de fora da área, gols trabalhados em toque de bola sobre um gramado em bom estado, embora manchado, arrancando gritos da torcida, que acompanha, nas melhores horas, a bateria contagiante da Império Vermelho, incansáveis em busca do ritmo, da ajuda que os jogadores tanto tem reconhecido. É uma torcida ainda pequena, mas muito fiel, uma organizada que incentiva durante os 90 minutos, como pode ser até raro pelo território brasileiro. A bateria não para, a cantoria às vezes quase emudece, mas sempre algumas gargantas a mantém incendiada para o mínimo que se espera de uma torcida no estádio. Os demais seguem nas palmas, cantam as músicas de menos letra Hercílio oleoleole, Leão eô, Leão eô, HER-CIII-LIOOOOO O OOOO O OOOO HER-CIII-LIOOOO

Gosto do comportamento das torcidas barras bravas que nunca param de cantar e posso afirmar que o Império, embora em poucos membros, mantém o samba animado ao longo dos 90 minutos, mesmo que demais, mais corneteiros desanimem. E entendo até os desanimados, porque eu mesmo sou um que no íntimo, que às vezes repasso, desisto que saia um gol nosso, mas o time de Raul Cabral tem nos dado motivos para acreditar e voltar viagens a Imbituba felizes. Procuro orientar nossos atacantes para optarem pelo melhor caminho, cobro que o meio campo, que tem deixado a desejar, se movimente mais, varie as jogadas e assim o caminho das vitórias tem aparecido, obviamente não por intermédio meu, mas me sinto parte da comunidade de camisas vermelho e branca. Também me questiono como pode a camisa do Internacional, a do Náutico podem me desagradar tanto e a do Hercílio me orgulhar, me cair tão bem. As listras, o símbolo arredondado, as iniciais que tanto amo ver nos nomes meu e de Larissa, pela ordem das iniciais do clube.

As camisas de outro clube que expõem uma comunidade bastante ampla, pois já vi camisas, durante o Campeonato Catarinense, de todos os considerados 12 maiores clubes brasileiros. Você está fora aqui, Athletico Paranaense, por mais que tenha feito resultados em campo que o valham citação. A preferência pelos clubes cariocas é evidente, mas os demais paulistas também botam a cara. Creio que vi algum atleticano, mas cruzeirense agora não confirmo, então talvez possam deletar o depoimento deste parágrafo. Fato é que o Hercílio Luz se mostra bastante querido pelos torcedores de diversos clubes, daqueles que se aventuram em buscar os maiores títulos do país e da América do Sul. Dentro do Aníbal Costa, todos hercilistas em busca do mesmo objetivo, seja uma retomada épica às glórias antigas do Catarinense ou uma escalada nacional não antes vista na Tubarão de seus hoje pouco mais de 110 mil habitantes. A base do clube também tem feito bonito, disputando competições pelo Sul brasileiro e também fez boa campanha na última Copa São Paulo de Juniores, quando adentrou o universo dos 32 melhores clubes do país em categoria de base. Se foi apenas uma exceção dentro da competição, descobriremos, mas estes dias os guris conseguiram bater o forte Figueirense, mais uma vez. Tomara consigam novos triunfos e formar alguns atletas nos próximos anos. Não sejamos escravos do careca, quase aposentado, Renan Bressan, meio-campista de relevância a nível nacional, com passagem pela vizinha Criciúma, por Paraná Clube e outros.

Arremato o texto então nesse tom de breve despedida, em mais uma volta a Pelotas, que seguirei torcendo para o Leão do Sul na caminhada da Série D, mesmo estando distante. Procurando no rádio e nas imagens via internet, lejos do Aníbal Torres Costa. Espero que meu pai possa ir a mais jogos, embora ele não se encoraje muito de sair da cidade litorânea rumo a Tubarão, apesar da boa estrada e da oportunidade sempre bem-vinda de visitar seus remanescentes irmãos e talvez alguns sobrinhos. Espero que o Hercílio mantenha a chama do futebol acesa sobre Tubarão, uma cidade que tenta retomar seu espaço no mapa catarinense e também entre as maiores do Sul brasileiro. Um percurso árduo, mas que muito felicita ser cursado. Refletores que se acendem e se apagam. Um amor de verão chamado Hercílio Luz, que vem sendo mantido, abandonado agora nas escadarias frias do inverno, mas para logo ser reanimado. A camisa pode ir por cima da jaqueta ou direto na pele. Tubarão é boa no inverno, quando o frio teima em não baixar dos 10 graus, mas é escaldante no verão, que quase me derrubou em desmaio justo no melhor jogo, naqueles 3x0 sobre a Chapecoense. Espero ver mais senhores sonhadores, crianças em seus primeiros passos, mulheres que tomam cada vez mais gosto pelo futebol. Que as ideias ousadas de destrinchar um caminho tão estreito e íngreme não se percam nas tão comuns vias da vaidade no futebol, no desmanche, na incompetência e na falta de planejamento coerente. Sonhar sempre, com trabalho pela frente, para que mais pessoas possam construir suas histórias ou reencontrar aquelas em que a família já havia aberto percurso.

13/06/2023

Frances Ha (2013)

O filme é assinado pelo diretor do presente filme da Barbie (2023), Noah Baumbach. Escolhi assistir sem essa importante referência, mas fui guiado pelos ares condutores da sinopse. Frances é uma jovem já não tão jovem, ou, como diria meu amigo Damasceno, jovem há mais tempo. Aos 27 anos ela ainda sonha em ser bailarina em Nova York. Pelo que se capta de uma rápida conversa e aparição telefônica de seus pais, eles moram no interior e, obviamente, se preocupam com as peripécias a que se aventura a jovem na maior cidade dos Estados Unidos.

Frances vive com sua amiga judaica Sophie em um apartamento. A protagonista nega viver com o namorado porque acredita que continuará ao lado de Sophie. Mas, ao largo da trama, é surpreendida com muitas quebras de expectativa. As pessoas que ela considera serem... contínuas em sua vida sempre tomam outros rumos. Sophie se muda com uma amiga que ambas falam mal, mas que, ao viver com ela, passa a morar na rua que mais desejava, dando um salto positivo. Além do mais, saindo da amizade tão próxima de Frances, Sophie acaba se envolvendo em um relacionamento mais longo, com Patch (ou algo assim que o chamam).

Frances experimenta várias sensações de incertezas, desilusões e solidões em meio a uma das maiores cidades do mundo. A carreira que não decola, a dificuldade para pagar o aluguel, a vida sujeita a morar e dividi-la com antes estranhos e que, mesmo na sintonia do mesmo apartamento, nunca deixam por completo de serem estranhos. Exercitamos a empatia para entender como é o universo confuso e de desfeitas dessa jovem sonhadora, que pretendia adentrar uma grande companhia de ballet, viajar a turnês como artista pela Europa e nos próprios Estados Unidos. Frances vai cambiando de horizontes de perspectiva, de sonhos que mudam de cores nesse filme todo gravado em preto e branco. O ar cult nos dá a sensação de que estamos diante de uma obra europeia antiga, de um filme norteado pelos restaurantes fumegantes, regados a conversas embaraçosas nos cafés ou nos jantares improvisados diante dos amigos. Convites para cinema, passeios solitários pelas ruas abarrotadas de estranhos. Uma Nova York que se transforma e também, como de praxe, é cenário-personagem, ora de fundo, ora escalandosa aos nossos olhos. Talvez a questão do cenário poderia ser mais explorada. A cena de Frances correndo em busca de um caixa-eletrônico na noite usa esses elementos.

O mundo de desilusões também é feito de aparências. Assim que Frances desconversa muitas vezes sobre seu desconexo futuro, realinhado sempre em tempo real na mente iludida da (nem tão) jovem. A passagem do tempo, os amores que partem, o mais importante pela sua eterna amiga Sophie, que viaja ao longe com o namorado que evolui a noivo.

As referências à França estão desde o nome da protagonista, a atmosfera que se alinha a características francesas, a viagem intermediária como medida de urgência por uma tomada de decisão, em que Frances resolve no impulso ir a Paris, porque precisava, ora precisava fazer alguma coisa.

Todos necessitamos mover-nos. O que buscamos na vida? Para onde vamos? Quem nos acompanha? Somos nós por nós mesmos? A família que está distante, os amigos que partem  os amores que não ficam. O queísmo que me persegue em prosa. As rosas que não abrem ou abrem e logo desabrocham. Frances convive com o remanejar de seu sonho na grande maçã, mordida, mastigada e cuspida dos Estados Unidos, cada vez mais maçã roída pelos rincões de sua ideia (venda de ideia) de nação. A vida comum será tão ruim? Será que não era o que nossos avós queriam? E nossos pais, superá-los ou não? Ou apenas sermos? Se as décadas, as gerações, as cartas, os sonhos e as regras mudam, para viver ou para sonhar. A vida corre, nossa própria peça de ballet onde, em algum determinado ato, talvez já substituídos os atores de nossa vasta e acumulada idade, cerram-se as cortinas.

11/06/2023

Fome de Amor (1968)

Nelson Pereira dos Santos, diretor paulista e um dos fundadores do chamado Cinema Novo no país, com relevância na década de 1960, assina esta obra considerada confusa. O começo de Fome de Amor (1968) mostra um casal de namorados em Nova York e o desejo do homem, Felipe, retornar ao Brasil. Especificamente para uma ilha que ele afirma ser dono. Felipe é pintor, faz quadros e recebe o apoio de Mariana. Ela concorda em se deslocarem até a dita ilha.

Lá encontram um senhor cego e mudo chamado Alfredo, o qual seria o verdadeiro morador daquele espaço que Felipe acreditava (ou não) ser desabitado. Alfredo tem seu cão guia e a esposa, que logo se interessa por Felipe.

Acredito que a obra, ao mesmo tempo que se perde, se ganha em metáforas, citações de movimentos políticos da época, datados corajosamente por Nelson Pereira dos Santos. A narrativa fica descontínua, o entendimento envolto em névoa, mas o desenho de um país da época (e de tantas outras, portanto um clássico) atinge objetivos, quando podemos metaforiar os personagens.

Existe o esforço de Mariana para sair daquela ilha que receberia contornos de orgia - não totalmente demonstrada no filme - e assim conduzir o cego Alfredo para fora daquela traição devassa imposta por sua esposa. Vejo nessas imagens um Brasil censurado midiaticamente, debilitado no afastamento da esfera democrática, tentando sair desse círculo infernal inimaginável a Dante. Um Brasil que necessitava fugir desse caminho tortuoso em que a burguesia é retratada com deboche pelo sensível Nelson Pereira, autor de outros filmes como o clássico Rio Zona Norte, um de meus preferidos.

Um Brasil subvertido na verdade pela cegueira das festas esvaziadas em significado e apartadas das críticas sociais, que nosso povo constantemente precisa manter em exercício.
Acredito que meu esforço aqui para catalogar e deixar registrada minha opinião sobre a obra, esteja involucrado nos conteúdos que assisti imediatamente em dias anteriores. Vídeos sobre a pobreza e violência nos Estados Unidos, em ruas nefastas tomadas por moradores homeless, vivendo em barracas, em meio a lixo e usuários das mais diversas drogas, que devo abordar futuramente em outro texto. Também recém assisti ao Argentina 1985, filme premiado com a figura central de Ricardo Darín no papel de um promotor no caso considerado o mais importante da história argentina, o julgamento dos chefes militares no período atravessado em ditadura.

Enxergar imediatamente após essas questões, essas temáticas, abre horizontes acerca da visão sobre o filme Fome de Amor. Essa fome é metafórica, de um país que perdia rumos, um país alcoolizado e perdido, ilhado do mundo, como recentemente esteve na péssima repetição quimérica de um (des)governo Jair Messias Bolsonaro. Um país irreconhecível para quem acreditava nele, um país que trai seu próprio povo, um país de líderes descontrolados impunes. Um país também com sede de ser liberto, mas que ao mesmo tempo nos questiona que tipo de liberdade, pois as atuais ruas de Kensington, na Philadelphia, nos alertam para outros perigos, como o descontrole em gestação na ilha paradisíaca do filme brasileiro de 1968.

1968 é um ano que remete aos protestos e correntes formuladas na França. O Cinema Novo, pouco aproveitado em herança brasileira, condizia com técnica e semelhanças da Nouvelle Vague francesa, mas carrega sempre as especificidades de uma América Latina complexa, da qual o Brasil por oras se acerca, por oras se despede incomunicável em uma ilha que o torna ainda mais nativo, cativo de seus próprios problemas insolucionáveis ao largo da história, queiram escrever com H maiúsculo ou minúsculo. 

Por fim, não consigo encerrar essas linhas sem deixar trecho do texto do poeta equatoriano Jorge Enrique Adoum, em trecho de conferência pronunciada no V Encuentro de Poetas Latinos. México, outubro de 1990. Revista Blanco Móvil, de 1991.

Aqui o autor define nosso continente latino-americano com uma precisão impressionante.


17/05/2023

Sempre mudo

Acho que obedeço demais

A régua das morais e dos bons costumes 

Como um peixe que nada livre

Ainda dentro do cardume


Acho que às vezes fujo

Cuja fuga reconheço 

E retorno réu culpado

Pro lugar que me é berço


Acho que brasileiro é bicho triste

Europeu é pra pendurar em cabide

Do velho continente vem enfermiço 

Pra nessas terras sem permisso 

A mexer no que não é dele 


Acho que misturo assuntos

Elogios com insultos

Companhias, oleodutos 

E termino sempre mudo

16/05/2023

Você sonha com um fim dramático

Um grande fim

Mas na verdade amanhã segue crescendo o capim

Você sonha com um fim dramático 

Um grande fim

Mas na verdade amanhã ninguém cuidará do jardim 


Um fim hemorrágico 

Logo estancado; erradicado 

Um fim trágico 

Logo não mais lembrado

Um fim elaborado é igual 

A um fim pelo acaso

Em todo caso

É um fim

 

14/05/2023

E a ti te deixo minha alma

Só 

A banhar-se sauna

Antes de voltar ao inevitável

02/05/2023

... Vivo combatendo pela dualidade: não acho que vou viver mais muito tempo versus o que eu vou fazer caso, por um acaso, eu viva mais muito tempo ...

29/04/2023

Eu impreciso

Eu preciso marcar a consulta
Eu preciso de remédio
Eu preciso levar uma vida adulta
Eu preciso ser levado a sério

Preciso pagar pra não levar multa
E ser pago pra comprar remédio
Preciso de alguém que me escuta
Eu preciso me levar a sério

Preciso de alguém que não me refuta
Mas de alguém que dê acréscimo
Não me sentir só dentro dessa luta
Elevador ao quinto dos infernos

Idealismo fica no 'Eu Preciso'
Olho em volta, não vejo remédio
Comecei versos com 'Eu Preciso'
E nesse aqui 'Eu Preciso' é o término
O universo é confuso
Eu preciso terminar o verso


... Você me cobra literatura sobre você, mas você é mais bonita do que a literatura ...

22/04/2023

Tudo é caótico, a ótica se engana, mas serve... Acredito que hoje sou um dos maiores autores vivos do Rio Grande do Sul... Os que a gente estuda em literatura não oferecem tanto a mais do que eu... São vírgulas, migalhas, medalhas e anos de diferença.... Existe a crença... E existe a ilusão... Quando trago a ilusão e trago, e ninguém mais acredita em mim... Enfim...

A plebe

Ela também me destruiu mas nem percebe

O herói anda cabisbaixo, vai e bebe

É a plebe 

É a plebe

O amor idealizado como uma invenção burguesa... Mas a gente também sonha que os smartphones cheguem a todas as mãos ... nau à deriva...

... acordou disposto a derreter o gelo que ainda os cobre.... acordou como se não tivesse motivo... ou um motivo nobre... acordou como se devesse a um traficante... paranoid android...

... gosta de admira-la com uma certa distância, porque constata o quanto é bela, depois volta a abraça-la, porque já não o importa admirar sem sentir...

... acordou com a boca tão seca, como se tivesse testado a resistência de um camelo sem água, ou houvesse acordado com o sobressalto da notícia de que não existe mais ela...

... Levava tudo muito a sério, como se em todos os lugares, durante todo o tempo, houvesse fichas e atas de registro...

19/04/2023

Quem sabe faz (será?)

Pensando em um programa radiofônico, televisivo, um texto, uma aula, o que for. Claro que uma boa produção que dê conta e favoreça os encaixes é satisfatório.

Mas eu gosto do underground.

Do improviso.

Do chiado do rádio AM.

Do ruído de fundo que comprova o ambiente.

Do bagaceiro. 

Do imprevisível.

Do coelho que salta da cartola.

Da carta surpresa.

Da aventura.

Da imaterialidade.

Do anti planejamento.

Da organicidade.

Do fantasma que assombra o plano.

Do ao vivo.

Do equilíbrio sob pressão.

Do problema.

Desde que resolvido.

02/04/2023

Longa caminhada de 2023

Uma caminhada longa, das mais longas que pude fazer desde que um dia me mudei para os lados do Porto/Centro - preferencialmente Centro em questões de preços de fretes, preferencialmente Porto, em questões poéticas e mesmo geográficas, desafiando as placas de ruas. A saída na rua coincide com a venda de garagem no vizinho, que utilizou a escrita em inglês "GARAGE SALE" para se exibir ou chamar atenção não sei de quem - a minha talvez, para criticar a desnecessária forma estrangeira pra informar que tá vendendo uns itens velhos e vintage. Bom que os vizinhos desconhecem estas linhas traçadas. O vizinho da casa da frente, um sobrado em que na parte de baixo está instalada uma ferragem, sr. Nelson está desta vez no alto, sobre a casa, como assim o vejo pela primeira vez, parece mexer na caixa d'água e cumprimenta outros vizinhos que por ora passam na rua. Sorrio para essa curiosa cena.

Parece que Pelotas finalmente conseguiu e, com exceção da praça principal, no afastamento pelas ruas, o número de catadores e vasculhadores de lixo é maior do que o de pedestres à paisana. Que dessa vez não me culpem a Lulas, porque Bolsonaro governou os quatro anos anteriores a este texto e essa criação bizarra é de obra dele, angariada pelo biênio de Michel Temer entre 2016 e 2018. Trechos do centro da cidade estavam tão vazios que recordavam os meses mais agravados de pandemia de covid-19, praticamente em um formato de lockdown - por hoje não mais obrigatório. Quase ninguém nas calçadas e ruas. Durante essa caminhada, me dirigi rumo ao bairro Areal, onde morei quase toda a vida, desta vez para constatar, certificar de que não sinto saudades daqueles lados. Mas em parte estive errado, porque a nostalgia carregada naquelas ruas promove efeitos inevitáveis. Foi por onde muitas vezes andei, cumprimentei vizinhos, contornei por desconhecidos e por animais caseiros ou de rua. Na oportunidade tive a sorte de cruzar com três gatos pretos, que eu talvez componha foto ao final deste texto. Eles apareceram um a um, talvez a compreender em breves segundos que eu não seria ameaça a suas integridades. Apenas um se aproximou mesmo de mim e rocei pela nuca dele meus dedos e também a chave que carregava já nas mãos, pela não confiança justificada por um furo que só tem aumentado em meu bolso.

O trio de gatos causou reação, talvez mesmo de inveja, de um gradeado cachorro. Deixei-os para trás. Cumprimento a torcida gremista que massacrou sem dó nem piedade o Internacional em número de camisas na rua. Uma goleada talvez não antes vista sem que se trate propriamente de um dia de jogo. Um placar elástico em oito ou nove ou mais camisas contra uma solitária. Lembro das camisas porque por ali, visualizando minha dantesca cena de aceno aos gatinhos pretos estava um possível uber reclinado em seu banco e a utilizar uma camisa do Grêmio. Ao menos se fosser vizinho ou parente de alguém naquela localidade da Gonçalves Chaves, não demonstrou qualquer movimentação referente a isso. Quando retornei a passar pelos gatos, ele arrancou o carro e foi para outro lugar.

Entre ver os gatos pela primeira e pela última vez, fui até minha antiga casa no Areal, pelos lados da avenida São Francisco de Paula e fim da Gonçalves Chaves. A casa permanece na mesma cor em que meus pais a conservavam. A casa dos vizinhos está cada vez mais feia, como pude constatar. Por entre o mato que cresce desrregrado pelo final da Gonçalves, cruzei com o velho senhor de apelido Pica-Pau, que segue magro e montado sobre uma motocicleta. Aproveitou alguns metros na contramão da rua, que agora dispõe de sentido único, e logo tomou a São Francisco, talvez percebendo que nas minhas mãos brotava um celular para testemunhar mais momentos de nostalgia.

Outra casa que moramos naquela região está ocupada e transformada completamente, agora com o adereço de piscina à frente da casa principal, manutenção de apenas algumas das árvores frutíferas que eram conservadas. O asfalto finalmente cobre o final da Gonçalves Chaves, como nem sei bem se um dia sonhamos, mas não é o visual dos mais bonitos, embora funcional. Creio que meu pai, para não escangalhar o carro nas pedras desconjuntadas, aprovaria e muito esse asfalto onde alguns devem voar baixo aproveitando da honorária imprudência que podem se permitir. 

Passei pela casa de minha tia Arita. Ela revela ter 88 anos, idade que eu ponho dúvida, mas por ora acredito a ponto de reproduzi-la aqui (Na revisão foi dada sua idade em 92 anos). De seus filhos, nenhum está em casa. Revela que o que melhor conheço está pescando. Reconheço que o dia, de sol, embora um pouco de frio, era favorável a isso. Proponho no assunto o asfalto advindo na rua, em que ela, sem se lembrar, me questiona se já estive por aquelas bandas desde a nova conservação da via. Digo que sim, estive próximo do Natal, em dezembro, com meus pais, já naquela semana de distribuição de presentes, porque depois rumaríamos a Santa Catarina, onde meus pais hoje moram.

Pois bem, a chegada do asfalto naquela rua, fazia tempo que se reclamava do pouco cuidado prestado ao esgoto, às calçadas e às pedras desconjuntadas do meio da rua. A constatar que dentre esses três problemas, o das calçadas irregulares permanece, mas pelo visto não se pode ter tudo. E logo no trecho da rua em que morou o governador do estado. Foi antes de ser reeleito que veio a verba e a aplicação finalmente do asfalto. Também aproveito para osbervar tia Arita, que antes possuía grande disposição e vigor físico. Revela que a avó dela passou dos 100 anos. Ela ainda tem chance, embora tenha reduzido um pouco essas esperanças, mas ninguém sabe por antecipação do futuro. Chegou quase aos 90, a exemplo de minha avó, para finalmente o trecho da rua onde mais moraram ganhar a nova camada asfáltica, na transição do bairro Areal rumo à modernidade. Percebo também grades que meu pai fez naquela região, nos seus tempos de trabalhador autônomo. As grades feitas por meu pai duraram mais do que algumas vizinhas que por ali moravam, como recordo de uma senhora até bem abastada financeiramente, oriunda de Canguçu. Esta já foi. Outras pessoas da região simplesmente se mudaram. Parte estrutural das casas permanece. Às vezes o material dura mais do que as pessoas. Às vezes as pessoas veem grandes transformações, e duram mais do que o material. A vida é cíclica e imprevisível.

Não sei se tenho mais muito o que acrescentar em relação ao texto. Discuti com um policial ao querer colher informações sobre um acidente de carro em um cruzamento no centro da cidade. Penso apenas depois que poderia ser até enquadrado em desacato à autoridade. Depois dei dois reais para um sujeito que revelava sua necessidade de voltar de ônibus ao Laranjal. Reclamou que a passagem estava cara. Ele sem direito à meia-passagem ou qualquer outro auxílio. Por fim, na quadra seguinte, já bem no centro, no coração da cidade, presenciei um pai desferir um tapa forte contra a cabeça de uma criança. O chamei de mongolão e que não deveria fazer isso. Não sei o quão alto falei porque estava degustando música em fones de ouvido. Aliás, a playlista das músicas que um dia cliquei em curtir foi quase que totalmente satisfatória, o que revelo em tom de surpresa e contentamento.

Passados todos esses pormenores em episódios, consegui chegar até minha rua e concluir minha missão, minha caminhada de volta para casa. Não havia mais Nelson mexendo na caixa d'água, em lugar onde agora eu já o tinha visto. Mas havia fumaça em direção às últimas casas do bairro, praticamente ribeiras ao canal São Gonçalo. Porque a vida é assim: um incêndio após o outro.

Não escrevo se não pelos oprimidos e pelo oprimido em mim mesmo

um coitado

me olho no espelho e vejo apenas um coitado 

alguém que um dia teve ambição e percebeu suas limitações, as limitações da sociedade e a realidade

deixo a água do chuveiro correr sobre meu corpo, mas parece que sou eu e não ela que vai pelo ralo

28/03/2023

Cada noite que eu me deito

Cada noite que eu me deito

Sinto que estou morrendo

Sinto que estou morrendo


Sinto que não tem mais jeito

Mas o processo é lento

Mas o processo é lento


Cada noite me contento

Que ainda não estou morrendo

Que ainda não estou morrendo


Cada noite sou um detento

Detido por meu organismo

Detido por meu organismo


Tanta coisa já nem lembro

Tanta coisa é instinto

Tanta coisa é instinto


Tanta coisa que aprendo

Tanta coisa nem aprendo

Tanta coisa nem fudendo

E tanto que eu sigo fudido


Sou meu amigo e inimigo

Me absolvo e me condeno

Aciono o meu jurídico 

E perco horas a pleno


Tomo água e veneno

Bebo mágoas e vou sendo

Menos do que eu sonhava

Mais do que eu imaginava

Isso depende o momento

Às vezes já estou morto

Às vezes ainda vou sendo


Cada noite que eu me deito

O leito tá preparado 

Eu já estou acabado 

Ainda não tô acabado

E assim ainda vou sendo

18/03/2023

Entre gremistas, formigas e um cão perneta

A família que morava no quarto andar se mudou ontem. Eu vi o caminhão de mudanças pela manhã, desconfiei, mas não me despedi como deveria, agradecendo a boa e rara vizinhança conforme agiram neste ano e meio de convívio. Quase não os ouvi e, se os ouvi, só em horários aceitáveis. Lutamos bravamente juntos contra a ameaça paulista que ocupava o terceiro andar e nos incomodou madrugadas de conversas, fofocas, visitas, vídeo game e sabe-se lá quais bebidas e cigarros. Por mim que consumissem o que bem quisessem, desde que não enchessem o saco, mas logicamente enchiam e nos horários mais inoportunos possíveis. Pois bem, aguentamos isso em 2021 e ganhamos o alívio da ausência dos paulistas, em sua retirada em 2022. Porém, para 2023, a família, que tão bem ocupava o andar mais alto do prédio, está fora. Me acompanhava a dúvida se estavam apenas retirando uns móveis ou se um dos filhos do casal é que iria se mudar, mas partiram todos, como bem prometiam há um tempo atrás, sem eu imaginar que esse tempo de partida não tardaria, que já se avizinhava tão costeiro.

E quem sobra? Apenas nós do segundo andar. A senhora que me aluga tem um companheiro, entendo eu que por conveniência (de quem? de ambos), mas o que tenho eu a ver com a vida privada dos outros? Ela tem viajado às vezes e ele, dessa vez em que escrevo, é quem está cuidado do apartamento e, juntamente comigo, do prédio. Percebo em mim um passo a mais rumo à solidão, o que me desanima e me consola, me traz êxtase e vazio. O prédio cada vez mais silencioso, sem sequer passos mais pesados dos andares de cima ou o raro arrastar de algum móvel (tão mais comum no prédio que meus pais arrumaram em Santa Catarina), a possibilidade de um privado mais extenso. Esses dias, amigo meu, o qual considero um dos melhores escritores vivos que conheço, relatou o perigo de um jovem solitário morar sozinho, porque é a velha extensão de seu quarto, recinto fechado, dessa vez tratando-se de um apartamento inteiro à disposição. E o meu tem o quarto sobrando para quando meus pais oram voltam de Santa Catarina, como assim planejo no mês que vem, abril.

Pois bem: agora tenho não só um quarto para ouvir música, ver filmes, ler, chamar de meu, mas um apartamento e praticamente um prédio à disposição. Concorre a esse extasiar, o fato de que a segurança condominial diminui relativamente. Me sinto quase que enfrentando zumbis em uma pandemia. Me sinto como o protetor desse pequeno e quase desinteressante universo. Além de mim, as formigas fazem questão de aparecerem. Visitam minha cozinha diariamente, entram por trás do balcão embutido na parede, percorrem um espaço milimétrico por entre o buraco por onde passa o fio da internet. Se inserem na minha pia, buscam migalhas de torradas, bebericar um aguado refrigerante esperando o dia da entrega das garrafas para reciclagem, tentam alguma migalha de pão por sobre a mesa da cozinha/sala ou até se aventuram em terras mais íngremes, como o pote de bolachas ou a geladeira. As minúsculas formigas e sua organização invejável são um grande obstáculo na busca pelo sossego, mas por ora me deixam um tapa menos solitário.

Quando fui buscar meu almoço deste sábado, cruzei por um catador de reciclados com uma camisa de número 7 do Grêmio. Peguei o troco do restaurante e lhe depositei moeda em mãos. Fiquei depois pensando que valeria até deixá-lo com uns 10 reais, mas pensar na minha própria condição ainda me impede disso. Por que não cedermos um almoço para quem mais necessita de vez em quando? Elogiei sua camisa e falamos um pouco do Grêmio que ele, de alguma forma, acompanha, seja por transmissões cada vez mais por internet, menos na televisão aberta que facilitava a todos (hoje jogam Caxias e Inter pela semifinal), ou pelo rádio, bem um pouco mais universal, mas que, por tempos, Pelotas sofria de não ter transmissão da dupla Gre-Nal pelo meio do cada vez mais dispensável AM (que me perdoem os torcedores Bra-Far-Pel pela heresia de querer que algum gremista ou colorado acompanhe seu clube do coração em nossa terrinha).

O catador falou que já teve oportunidade de ir na Arena e que achou "muito massa". Mas quer mais também de Luis Suárez, pois este "é muito caro", o que concordei sobre querer render ainda mais um pouco - queremos sempre mais. Mas qual parâmetro possível de comparação entre o ser muito caro, o salário de milhões, em relação a um trabalhador braçal, autônomo, que agradece qualquer moeda que o entreguem? Como é difícil visualizar alguma justiça nesse mundo. Renato Russo - vejam só, do nada, Renato Russo e Luis Suárez no mesmo parágrafo - Renato, pessoa muito chato da qual não sei se seríamos amigos, creio que foi até bondoso quando afirmou que "o mundo anda tão complicado". Creio que o mundo está impossível, em suas injustiças, perda de valores, convívios, chantagens, relacionamentos entre as pessoas. Mas, de alguma forma, ainda acredito na solidariedade, dentro dos nossos possíveis - talvez um dia dar-lhe 10 reais e não apenas um. É preciso tratar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque, na verdade, não há muitos mesmo.

Por fim, após meu almoço, enquanto degustava a sobremesa dita gratuita - vai nessa - apareceu por nossa rua um cachorro que por vezes vejo, um perneta de três patas. Atropelado ou vítima de algum outro problema que lhe amputou, ele, maltratado pelo calor dos últimos dias, foi digno do que restou de minha marmita, a qual agradeceu deliciando-se tão logo depositei ao chão para que se servisse. Mastigou até o que eu não esperava e percebi que precisava dar-lhe água contra esse calor todo. Só depois percebi que lhe dei minha água mineral ao invés da torneira, mas vai que ele merece, pois água das torneiras pelotenses não é lá coisa que se recomende. Bebeu também e fez a expressão que me pareceu contente, como quando percebemos contentes os cachorros, sobretudo - porque os gatos são mais difíceis de leitura - penso eu. Fiquei feliz e talvez agora eu tenha um novo companheiro. Enquanto aqui ainda habito este velho prédio, antiho, surrado, pouco chamativo, quase desabitado. Eu, um casal de conveniência, as formigas, um cachorro perneta para ocupar nossa quadra e dar-me mais motivos por mais dias. Não sei se ele me agradece ou agradeço a ele. Enquanto escrevi percebo que da janela voou um pó para dentro do meu doce (vai nessa) gratuito de maracujá. A sorte nem sempre me sorri.