28/08/2022

Nossos fins de semana

Cada fim de semana com a Larissa é como se o Grêmio houvesse ganho um campeonato. Claro que o tempo da sensação não é longo nem marco histórico como um título a mais nas estatísticas dos clubes. Mas o êxtase é assim para mais. Mesmo que repitamos nossos assuntos, interações e atividades. É deveras prazeroso estar ao lado dela nesses finais de semana.

Fomos ao show de Duca Leindecker, antigo líder da banda Cidadão Quem. Reunimos meus fiéis escudeiros do curso de Espanhol e fomos. Voltei a consumir álcool após muitos meses. Me saí bem quanto a isso. Também foi um final de semana para exercitar minhas tentativas de ser um bom anfitrião. Tenho muito a aprender, mas tenho comigo a intenção e a paciência dela para lidar comigo e minhas limitações.

O período desses dois dias foi repleto de nostalgia, pois além de relembrar os sucessos da banda Cidadão Quem, como o Amanhã Colorido, Pinhal, Ao Fim de Tudo, que lacrimejaram nossos úmidos olhos, também mostrei para Larissa o final do filme Tese sobre um Homicídio. Creio que após a saída dela do banho da madrugada antes de deitar, o filme estava tão para o fim que não fará diferença se um dia o revermos. Nesta madrugada estava passando no festival de filmes estrangeiros do Canal Brasil. Tese sobre um Homicídio na verdade se trata do que se convencionou chamar de Feminicídio e, estrelado pelo conhecido Ricardo Darín, trata de um professor de Direito que confronta ou é confrontado por seu aluno mais brilhante em um curso superior que o professor ministrava. Uma trama cheia de nuances, aproximações e atos de repelir. Afinal, o aluno Gonzalo matou ou não matou a mulher que apareceu caída no estacionamento em frente à faculdade? Que outro assassino poderia ter sido? Um jogo de gato e rato repleto de insinuações, planos quase infalíveis e irresistíveis ou simplesmente uma gama de coincidências?

Fiquei tempo demais atido ao filme Tese sobre um Homicídio, o qual nem assisti completo dessa vez, muito menos ela. A nostalgia do que assistimos na verdade foi em relação à série Todo Mundo Odeia o Chris, a qual assistimos alguns episódios na quase totalmente esquecida tv Record. Nos divertimos com cada um, ou com quase todos, os personagens dessas divertidas histórias evocadas pelas memórias do narrador nos anos 1980, no Brooklyn, em Nova York.

Enfim, mas cada minuto que podemos aproveitar juntos me remete aos belos sentimentos, alguns dos quais eu nem sabia que eram possíveis sentir. Nossa relação por ora está melhor do que minha encomendas e rezas passadas. Pensava eu que concluiria a vida sem viver um amor da forma que temos. Ainda mais com ela, que admiro de muitas formas, pela inteligência, pela beleza e pelas atitudes  É muito bom alimentar o verbo amar e também se sentir aceito. Não há precificação qualquer para isso. Sinto alegrias e momentos felizes que há muito não tinha ou nem sabia possíveis. Confesso retomando uma vez mais essas alegrias. Estamos escrevendo memórias e é muito bom saber que o livro ainda está em aberto esperando um capítulo a mais. O escritor aqui não tem a mínima pressa.

27/08/2022

Será que eu sei como contar um conto?

Aprendi nas aulas de Literaturas em Espanhol que eu entendia nada do formato de um conto. Mas já escrevi vários contos. O que faço com eles? Readapto? Deixo como provas fósseis de outros tempos em que eu desconhecia essa tecnicidade? Adaptarei os contos que futuramente escreverei ao que estou aprendendo? Os encaixotarei para bom gosto dos clientes? Me podarei para que o formato clássico floresça? Me debruçarei sobre e pela liberdade do formato crônica? São questões.

Tentarei beber das melhores fontes. Edgar Alan Poe, que, como ainda não havia basquete na época, é nome de contista mesmo. Júlio Cortázar que algo já vem me ensinando sobre latinicidades e humanidade em geral. Alguns russos perdidos que me encontram e despejam conhecimento.

Para além das aulas com as quais tento aprender algo, estou tentando me virar ao morar sozinho. Escrevo ao cabo da terceira semana. É o maior tempo que já completei sem meus pais. Me recuso a comemorar, porque sempre há a verdadeira esperança, que consiste em imaginar que o pior está por vir. Não nego que quando esse pior não ocorre, o custo da ansiedade já está feito. Está pregado. E muitas vezes me sinto mal pela minha imaginação ter criado pratos piores do que a realidade. Mas assim convivo com meus monstros e fantasmas.

Trafego pelas ruas portuárias a bordo de um ônibus. Geralmente consigo solitariamente sentar em uma duplicata de bancos e assim me acomodo à janela com minha mochila no assento ao lado. Reparo em apartamentos para alugar, grafites e pichações. Noto as repetidas na esperança de encontrar algo novo. Os dias assim se repetem. O ônibus que desafia a física ao dobrar esquinas evitando ao máximo contatar com algum veículo estacionado por demais ao canto. Comemoro a ação certeira do motorista na certeza de que na próxima esquina ficarei tenso novamente. E assim é a vida.

Próximo ao campus há um matagal com lixo e o cheiro ruim de algum esgoto com saneamento mal resolvido. Passo por escolas caindo aos pedaços. Assustado com o exterior e provavelmente mais assustado ainda caso visse seus interiores. Pelas entranhas de uma estarei a partir da próxima semana em meu estágio de observação. Já estou ansioso o suficiente tendo somente que assistir aos desafios de uma professora de nome Gisele. Imagino e fico ainda mais nervoso ao pensar que em algum semestre vindouro serei eu a vítima em dar aula para as mais diversas pestes distribuídas uma para cada pupitre- palavra em espanhol que gosto, simpatizo, e na verdade significa classe para cada aluno assim distribuídas.

Na faculdade bebo da fonte de que carrego esperança de mudar a vida de alguns estudantes através de meus ensinamentos. Não me sinto seguro o suficiente para ministrar os conteúdos fundamentais. Me sinto confiante o suficiente para doutrinar estudantes com ensinamentos críticos e políticos. Por vezes lamento minha falta de entusiasmo na hora de decidir o curso e ter chutado as possibilidades de avançar pela história ou pela geografia. Tenho pelo menos dois grandes amigos. Minto, já me recordo um terceiro, todos eles que avançaram sobre essas assinaturas. Eu fui para o campo das linguagens. Destrincho e combato as modalidades linguísticas na certeza de que minha paixão e o que me mantém matriculado é o campo da literatura. São nas literaturas que mais comparto ideias com os professores. Neste semestre as professoras. É na literatura que pretendo exercer participação em um projeto de pesquisa. Pois se obriga a pesquisa para complementar as horas de nossas formações.

É a literatura sobretudo que me faz sonhar, alçar voos mais altos que as rasteiras e ausentes de recursos significativos salas de aula. É a literatura que me permite pegar carona em um tapete voador de futuros inebriantes. É a literatura que escorre pelos cantos de minha boca porque dela bebo sedento em busca de mais e mais. Ela que empolga e me fascina. E por ela, a reboque das mudanças de mundo, me traslado adiante. Embarquemo-nos, seja qual for o formato desse delirante veículo.

20/08/2022

As calçadas

As calçadas 

Tão sempre cagadas 

As calçadas 

Tão sempre cagadas


Todo dia

As pessoas cagam 

Não é sempre

Que a chuva lava


As calçadas

Tão sempre cagadas

As calçadas 

Tão sempre cagadas 


Os cachorros no passeio

Parece

Que miram bem no meio

Das calçadas 

Do meu caminho 

Desvio para o lado

Escapo por pouquinho 


Os cachorros 

A culpa é dos donos

O ônus 

Se caminho com sono


As calçadas

Tão sempre cagadas

As calçadas 

Eles limpam nada 


Os japoneses

Sem sapatos em casa

Os iranianos

Entendem dessa pauta


Porque as calçadas 

Sempre tão cagadas

Os cachorros no passeio

Andarilhos madrugada

17/08/2022

Preguiça

PREGUIÇA


Eu tenho uma preguiça absurda

Quero fazer coisa nenhuma

Às vezes era melhor que eu suma

Que assuma no meio dessa bruma


Fragilidade

FRAGILIDADE


Eu preciso das minhas chaves, de ti, do meu celular e das minhas funções celulares

27/07/2022

Pensamentos soltos e talvez vagos

Ano pra cá tenho me sentido muito perto da morte. Se não estamos dançando tango juntos, estamos no mínimo no mesmo salão.


Tenho a tarefa de solitariamente trazer o que não querem ouvir. Não querem ouvir porque

A) Está errado. É mentira. Ninguém quer ouvir o que está errado. E é mentira.

B) Está certo. É verdade. Ninguém quer ouvir certas coisas certas. E é verdade.


Os insetos tilintam pelas minhas apagadas lâmpadas. Se não são eles, são os espíritos. Veja só. 


Penso que algumas obras escrotas são enaltecidas como geniais. Foram imortalizadas. Embora haja críticas, não retrocedem desse status fantásticos. Muitos desses gênios foram excessivamente escrotos, como ora invejo, ora abomino ser como eles. Penso em cenas em que pesam a mão sobre alguns valores ou realidades. E quando narram ou descrevem um estupro. Espero nunca em minha literatura narrar ou descrever um estupro. Fatalmente são episódios da realidade, mas não gostaria que existissem sequer na ficção. São o que representam de mais abjeto na sociedade humana. Portanto, prefiro ignorá-los e não trazê-los em minha literatura, mesmo que fosse para uma reviravolta de luta e combate a isso. Creio que uma vez cometido, o chão se abre, a dignidade esconde-se a sete chaves, o perdão torna-se o mais inativo e sedentário dos seres, porque o perdão não se exercita nesses casos. Dito isso, espero nunca confrontar-me com tal abjeta descrição. E do fundo de um coração que é fundo desejar que a maior das forças de recuperação para quem um dia passou por isso.


Para ser um gênio incompreendido varia a porcentagem do quanto se está sendo gênio e o quanto se está sendo incompreendido. Fico cauteloso sobre os entendidos por todos. Porque a capacidade de interpretação desse todo é muito limitada, então talvez estejam deixando passar pontos importantes. Ou essa minha analogia do incompreendido é apenas puramente incompreensão. Nada genial. Existe essa chance. Muito mais incompreensão do que genialidade. A capacidade de ser compreendido por todos é genial? Ou é apenas ser compreendido? A capacidade de ser incompreendido é genial? Ou é apenas ser incompreendido? Qual a balança que equilibra esses termos? Qual a receita? Qual a porcentagem? Qual a quantidade?

... E trazia consigo o olhar de quem viu muitas decepções e não teria tempo de revertê-las em agradabilidades ...

25/07/2022

Violência 1x0 Esporte

Produzo o jornalismo local do esporte para o segundo jornal da região. Visto que a vizinha cidade de Rio Grande também fechou seus departamentos impressos, Pelotas concentra os jornais mais afamados do extremo sul. Com muita tristeza, além de meu deteriorado estado físico, produzi a página para terça-feira, 26 de julho de 2022. Não temos mais edição impressa de domingo para segunda-feira, de modo que as informações do fim de semana concentram-se em nosso cardápio apenas para edição de terça. Vamos ao que ocorreu. Os dois times locais em campo perderam. O Grêmio Esportivo Brasil praticamente deu adeus para Série C. Precisa de 100% de aproveitamento nas últimas três rodadas para manter-se vivo na terceira divisão nacional e não se preocupar em ter onde cair morto. O Farroupilha, por sua vez, jogou a primeira em casa no estádio Nicolau Fico e perdeu a primeira em casa, ao ser superado pelo Riograndense por 2x1, com o gol da vitória, que desequilibrou o Grupo da competição contra o Farrapo, marcado aos 48 minutos do segundo tempo. Com o resultado, o Fantasma tem um ponto em três jogos e um Grupo com quatro equipes que duelam em turno e returno, dentro e fora. Passada metade das partidas, nenhuma vitória e a necessidade, também, de algo próximo aos 100% de aproveitamento nos jogos que restam. Praticamente sem chance.

Dados os apitos finais ou do lado de fora ou ainda do lado de dentro dos gramados, os motivos que completam a melancolia. O Farroupilha em briga campal, como se fossem garotos de rua brigando. Chutes, socos, violência gratuito aos olhos das crianças ou idosos que foram ao estádio. O Farroupilha quase não tem mais torcedores. Eles encolhem em número a cada ano. Muitos dos mais idosos já faleceram, ainda mais agora com a situação de pandemia da Covid-19. Outras, as crianças, dificilmente serão capitaneadas a torcer para um clube de Terceira Divisão Gaúcha. Ver a equipe perder em campo já atinge, demonstrar violência gratuita acresce em nada. Tristeza marca o fim de semana no estádio Nicolau Fico no bairro Fragata. Detalhes ainda que somente eu percebo. O patrocínio no centro da histórica camisa tricolor é um desenho animado. Como combina o desenho animado (uma raposa ou animal assim?) com as cenas de brutalidade entre os atletas. Uma imagem que poderia acrescer leveza ao ambiente contrasta com os socos e chutes trocados pelos ditos atletas. O Farroupilha perdido no futebol e eticamente.

No Xavante, a única diferença é o nível da competição. Joga a terceira divisão nacional, mas o vexame se repete. Jogou em casa e diante de um público histórico, acima das 8 mil pessoas. Não sei se tão histórico, mas mediante a diminuição da capacidade dos estádios, a falta de procura dos torcedores aos jogos, foi sim um público histórico, contextualizado pela situação na tabela de classificação. O Brasil era (e ainda é) o último colocado na competição. Ficou com 14 pontos através de 16 jogos disputados. Nos últimos três precisa de um aproveitamento de campeão. De lanterna a campeão, penso aqui que pode se tornar uma manchete caso milagres aconteçam.

Após a derrota em campo, onde até houve polêmico, mas definitivos acertos de arbitragem, um pênalti bem marcado no primeiro tempo e um gol bem validado para Aparecidense no segundo, a confusão decorreu na saída do improvisado túnel visitante. E novamente chamo atenção para cena que poderia acrescer alguma leveza e sai justamente o tiro pela culatra, a situação pela tangente. O túnel inflável encobriu imagens da briga entre atletas e comissão técnica. Como se não bastasse, torcedores organizados adentraram com suas jaquetas e calças brancas, roupas que para alguns permanecem na moda. A cena dantesca desta vez foi corretamente estancada pelos seguranças mas principalmente pela Brigada Militar. A mesma Brigada Militar, em outros batalhões evidentemente, que atacou gratuitamente o rapaz Rai Duarte em Porto Alegre, após a partida entre São José e Brasil pelotense pelo mesmo campeonato. Rai Duarte foi retirado de dentro do seu ônibus, foi levado pelas mãos militares, por essas mãos foi covardemente agredido. Desta vez, nenhum torcedor que estava dentro de campo detinha a razão.

Eis que o Brasil na mesma Série C teve casos de briga entre torcidas, com o São José, em Porto Alegre, denúncia de caso de racismo por parte de um lateral, Zé Carlos, do Atlético Cearense (e pasmem, em jogo que o Brasil ganhou de goleada, qual a necessidade se ocorreu isso?), e finalmente o caso da briga após o jogo com Aparecidense, com o mau exemplo vindo institucional de empregados do clube até o torcedor que, num volume de mais de 8 mil torcedores em torcida do interior, era evidente que alguma situação ruim poderia ser gerada a partir da derrota, da confirmação da lanterna na rodada e, pelo calor do momento, a insatisfação com o rendimento e a derrota.

Me atento ao caso do sofrido e quase falecido na ocasião Rai Duarte. Não participou de briga, mas só foi vistoriado o ônibus pelos incidentes anteriores. Só foi confrontado em função do que outros provocaram antes. Óbvio, mas óbvio, torcedor, que a polícia não tem um pingo de razão nisso tudo. Não tem. Nunca teve. Jamais vai ter. Mas Rai foi vítima da sequência dos fatos e sobrou para ele. Não adiantam campanhas pela paz nos estádios, faixas, balões brancos e frases bonitas, cartazes e campanhas de conscientização se jogos depois não houver o exemplo sendo seguido. As campanhas e as frases mergulham num abismo e são soterradas. É para torcida, para sociedade entender que não pode abrir precedentes, não pode dar margem, tem que fugir dessas temáticas, diminuir as margens errôneas. A polícia é truculenta e logo pode ocorrer um novo caso. Pode sobrar para quem fez algo, o que é mais comum, ou pode sobrar para um inocente vimitado pela violência que nos cerca. Termino essas linhas em reflexão e apenas tentando me livrar da tristeza que me somatizou durante o dia. Respira também por aparelhos o esporte e a ética na cidade pelotense.


22/07/2022

Café com Cebola

- Acredito que meus personagens devem conversar mais entre eles.

- Sim, também acredito.

- Assim trazer a pluralidade de ideias entre eles, não só a minha voz solitária.

- Sim, também acredito.

- Assim a literatura conversa entre si, deixando-me mais mudo. Os personagens que falem.

- Sim, os personagens.

- Apesar de aqui eu fomentar um eco, nem sempre concordo com o que eu acabo de falar.

- Nem sempre.

Tudo que eu poderia escrever nessa vida, o catarinense Manoel Carlos Karam já havia transcendido com o livro Cebola em 1995. E ainda nem li todo o livro Cebola. Nem metade da Cebola. Pode ter revolucionado minha escrita ou pode significar nada.

- Pode significar nada.

- Até porque tudo que eu possa escrever a partir disso pode soar somente como uma cópia.

- Só como uma cópia.

- Mas para quem não leu Manoel Carlos Karam, que deveria ter o nome ilustradíssimo nas principais galerias literárias, para quem não o leu, acredito eu que a maioiria das pessoas não o leu, não soaria como cópia.

- Definitivamente não.

- Porque só identificariam como cópia algo que eles conhecessem primeiramente.

- E se não conhecem...

- E se não conhecem não identificam. Manoel Carlos Karam, citar seus três nomes de uma vez e sempre soa numa seriedade avassaladora. Me lembra o nome dos árbitros, geralmente os quais não gosto por colecionarem erros arbitrais contra meus times.

- Mais de um time?

- Meus times... Não sou monogâmico de time como minha namorada.

- Infelizmente na linha abaixo da linha abaixo da qual a cito, preciso mencionar alguns como Sandro Meira Ricci e Héber Roberto Lopes.

- Justamente. Identificados por três nomes.

- Mas a literatura que parte de Manoel Carlos Karam é formidável. Aos menos dessas menos de 100 páginas às quais já me dediquei a conhecê-lo. Parece que as vozes de minha cabeça conversam entre elas.

- E isso é literatura?

- Pois veja que a partir disso posso distribuí-la por personagens. Os personagens os mais diversos. Ou talvez muito semelhantes.

- Ou muito semelhantes.

- De qualquer forma acho cômico que podem acrescentar algo ou somente fazer eco.

- Ou só fazer eco.

- Você gostava de bordões ou quando os filmes ou séries repetiam a mesma piada? Veja bem, às vezes nem chegava a ser uma piada, apenas ganhava força pela repetição.

- Sim, pela repetição.

- É uma forma de estruturarmos o texto, a distribuição do diálogo ou mesmo do monólogo.

- Diálogo ou monólogo.

- No caso entre nós um diálogo, embora eu esteja falando bem mais do que você.

- Bem mais.

- De qualquer forma você gosta dessa estrutura?

- Gosto dessa estrutura.

- Também tenho apreço e assim percebo que continuo.

- De fato continua.

- Peça mais dois cafés ou duas cervejas para gente. Não sei o que estamos bebendo.

- Você está pilotando.

- Pilotando esse diálogo, de modo que posso pedir duas cervejas se assim o quisermos. E você tem concordado comigo.

- Tenho concordado contigo.

- E gostaria de dois cafés ou duas cervejas?

- Compartilho consigo a dúvida.

- A dúvida que eu esperava que você quebrasse.

- Suplantar uma dúvida exige uma camada de certeza ou somente a mudança de assunto?

- Assim você está tomando o meu lugar de jogar os dados dessa conversa.

- Já percebeu que nas metáforas da vida pode-se jogar os dados ou os dardos? São jogos diferentes, mas metaforicamente se assemelham. Embora os dados parecem trazer a sorte de forma mais absoluta, enquanto os dardos podem definir o destino a partir de uma maior ou menor precisão.

- Assumiu meu posto.

- Portanto você quer dois cafés ou duas cervejas?

- Assumiu inclusive a minha dúvida.

- E tomarei a dianteira de assumir a resposta. São dois cafés.

- Então são dois cafés.

- Você também assumiu o meu posto.

- Assumi o seu posto.

- Diria que trocamos de lugar?

- Trocamos.

- Então venha se sentar aqui.

- Se assim o queres.

E trocaram de lugar, interveio o narrador. O narrador está acostumado a comandar as ações desses pequenos contos ou crônicas. Dessa vez ele também trocou de lugar e terá apenas essa pequena intervenção. Passou a intervenção.

- Já trocamos de lugar.

- Trocamos.

- E o narrador já fez a intervenção dele.

- O que está feito está feito.

- Só nos falta o recebimento do café.

- Café que você decidiu.

- Café que eu decidi. Embora quem nos ouça agora pode estar um pouquinho confuso.

- Um pouco confusos, com cacofonia e tudo.

- Eu sou o que originalmente concordava.

- Originalmente você concordava.

- Mas agora é você quem concorda.

- Eu quem concordo.

- Pois trocamos de lugares.

- O que acha do seu lugar?

- Quer reassumir o seu primeiro posto?

- Quero reassumir.

- Então troquemos novamente de lugar.

Eles trocaram novamente de lugar.

- E lá estão vindo nossos cafés.

- Estão vindo.

- Daqui a 5 segundos chegam aqui.

- Esperarei chegarem para concordar.

- Chegaram.

- Chegaram, sim.

- Estou vendo só um saquinho de açúcar caso você queira.

- Pois é.

- Vou pegar da outra mesa para que você apenas se restrinja a concordar.

- Concordo.

- Então estamos tomando nossos cafés com açúcar.

- Com.

- E eu falava anteriormente sobre a literatura.

- Sobre.

- Acha possível responder a todas essas frases somente com uma preposição?

- Em.

- Em ou hein?

- Em.

- 'Em' de fato é mais uma preposição. 

- ...

- Agora você não conseguiu nova preposição.

- ...

- Tudo bem pode parar com esse jogo.

- Com.

- Muito bem, mas você discordou de mim porque eu pedia para você parar.

- Para.

- 'Para' também é uma preposição.

Sorvendo o café.

- Você é um maníaco, se fosse um jogo, você ganharia.

- Se.

- Mas aí você perderia, pois 'se' é conjunção.

- Pois.

- 'Pois' também é conjunção.

- Pois.

- Estou deixando esfriar o meu café.

- Eu também.

- Assim será inútil ter pego o açúcar da outra mesa.

- Me sinto meio desconfortável com o que as mesas possuem ou não nos cafés e restaurantes.

- Está em pensamento por si próprio, devemos trocar de lugar.

- Devemos.

- Se vai concordar comigo pode ficar aí.

- Fico.

- Embora devêssemos trocar de lugar para eu concordar com você, concordo com esse desconforto causado nos restaurantes. Primeiro escolhemos as mesas e depois conferimos o que há nela, sobre condimentos, guardanapos, palitos de dente.

- Concordo com sua concordância.

- E sobre a literatura?

- O que tem?

- Concorda sobre investirmos mais em diálogos?

- Não sei.

- Não sabe?

- Não sei.

- Por que não sabe?

- Você também não sabe. Nos põe em dúvida.

- Me senti meio despreparado para esse começo.

- Acha que nos revolucionou a escrita?

- Não sei.

- Não sabe?

- Não sei.

- Por que não sabe?

- Você também não sabe. Os põe em dúvida sobre quem é quem agora.

- Eu sou o que pergunta.

- Eu sou o que responde.

- Concordo.

- Isso.

- Beba. Está esfriando o seu café.

13/07/2022

Mais um dia em Florianópolis

Há milhões de formas de escrever um texto. O que será abordado e como será abordado. Tenho feito minhas consultas e exames em Florianópolis, capital de Santa Catarina. Na última manhã dessas missões, quis aproveitar o fato da pluralidade de oportunidades de compra de uma capital para substanciar minha pequena coleção de livros. Para isso, procurei por sebos em Florianópolis e a rua com mais resultados foi a rua João Pinto, no final do centro, já próxima da Avenida Beira-Mar. O plano de sair um pouco mais cedo de casa não se concretizou e, pelo caminho, a tormenta de nebulosidade e muito vento formava um cenário antagônico para a travessia que me era necessária. O carro foi deixado no mesmo estacionamento de sempre, um pouco mais barato e com certa proximidade da consulta médica que eu deveria realizar na avenida Rio Branco, uma das cortantes do centro florianopolitano.

Do estacionamento em direção à rua dos sebos, um caminho guiado por GPS, que indicava o trajeto farovável aos carros, me fazendo quebrar por ruas em que não haveria necessidade. Perdendo no quesito de economia do tempo, consegui chegar com tempo hábil para conferir alguns resultados de compras. Antes disso, havia cruzado a famosa Praça 15 em que se ajuntavam jovens e velhos possivelmente bêbados, emendadores de uma noite de folia ou que haviam caprichado no despejo da pinga logo no café da manhã, visto que se tratava do meio para o final da manhã. Eles riam, gargalhavam e gritavam, provavelmente improbidades de quando em vez. Passei rapidamente pelo contorno da praça sem me ater às barbaridades que eram ditas. O cheiro da urina também se apresentava por algumas travessas e calçadas, das quais eu até preferir trafegar pelo meio das ruas em que isso era possível pela não-vinda de veículos. Trajeto feito no calculado tempo de 12 minutos desde o início do tracejar, consegui chegar até a um bar de esquina na baixada da praça e confirmei com um senhor que ali se tratava no que eu imaginava ser a João Pinto. ELe me confirmou com um breve movimento afirmativo com a cabeça, sem esboçar a mínima reação. Pela Rua João Pinto, alguns poucos desocupados, outros transeuntes apressados, aproveitadores e sacanas, trabalhadores e mensageiros, poucas pessoas por aquela travessa fria que pouco recebia sol, aparentava total aspecto de umidade e acinzentamento. Aquela travessa não permitia carros, mudando minha expectativa inicial de tratar de uma rua de calçamento antigo, estreita, mas que pudessem passar ao menos um veículo de cada vez. Não era o caso. Apenas pedestres eram permitidos, eu sendo um deles por ali pela primeira vez. Não tinha tempo a perder e adentrei ao primeiro sebo que se apresentou à minha vista, fato que comemorei silenciosamente com meus botões. Já havia passado por lojas de artigos de surf, locais para lanche, artigos de limpeza e manutenção, mas visualizar o meu destino, um sebo, foi a primeira vez.

O senhor dono daquele espaço me recepcionou e foi logo perguntando qual era o meu desejo, como se eu, apenas por ser levemente jovem, não conhecesse o funcionamento das lojas daqueles artigos. Eu conhecia a distribuição das prateleiras. Ou julgava conhecer. Confesso que a ajuda prestada por ele me direcionou mais diretamente a meu esperado destino. Alguns espaços ainda não haviam sido etiquetados, o que ele logo confessou se tratar de uma loja nova que havia posicionado. Confesso também nesse processo que essa afirmação me fez engolir em seco, pensando se ali se tratava do mais digno dos sebos que eu poderia adentrar. Um recém erguido em suas gôndolas poderia representar uma limitação de títulos que eu não desejava deparar-me. Afinal de contas, vindo de Pelotas e morador temporário de Imbituba, esperava encontrar em Florianópolis velhas novidades as quais eu não veria facilmente pelas gôndolas pelotenses. Mas ali estava no sebo do senhor que mais tarde naquele episódio conheci pelo nome de Marcos.

Fui diretamente aos títulos internacionais, perguntei mais uma vez por títulos do escritor Bolaño e não obtive sucesso. Esse insucesso tenho conquistado desde outras oportunidades. Os sebos não estão com os lançamentos até considerados recentes desse afamado escritor. Adio a leitura dele. Encontrei um volume grosso e russo, não de velharia, russo de origem, da literatura russa. Separei-o em um espaço sobre uma das prateleiras, que me permitiam criar breve pilha de meus destinados novos velhos livros. Depois dos russos avancei para um título que me trouxe curiosidade, sobre Cebola. O título de Cebola é de um escritor catarinense, mesclando contos e outras situações. Achei a descrição interessante e acolhi em minha improvisada pilha.

Ainda por aquele espaço, na prateleira mais para o fundo da loja, me deparei com os títulos de filosofia e encontrei o velho conhecido Erasmo de Rotterdam e seu Elogio da Loucura, que já comecei a folhar quando ora escrevo essas palavras. Erasmo compara a Loucura a uma poderosa deusa, influente sobre os homens e sobre os diferentes deuses. Ela está por toda parte, mesmo naqueles que mais querem reprimi-la e ignorá-la. Parece que não conseguiram nem a séculos anteriors ao século XVI de Erasmo, nem nos conseguintes nos quais ora estamos. A loucura, elogiada por Erasmo, como ele promete no título, é realmente poderosa.

E poderosa é porque assomou-se à minha pilha de libretos. O senhor Marcos andava de um lado para o outro, me deixando um pouco nervoso, mas provavelmente em sua tarefa destinada da organização de mais volumes. Minha mãe que atrasada chegava aos meus apressados passos, chegou à livraria e também procurou por títulos que a interessassem. Minha mãe é assídua leitora e consegue devorar livros a uma velocidade que eu somente invejo. Mas seus gostos duvidáveis a levaram para seção espírita, onde encontrou um volume com o nome de Como Vivem os Espíritos. Torci silenciosamente o nariz para aquele título, mas deixei que ela assomasse à nossa agora conjunta obra arquitetônica, a pilha de livros sobre a estante. Ela procurou mais alguns nos clássicos nacionais, despendendo crítica ao escritor José de Alencar, segundo ela, um dos mais chatos que ela poderia ter lido desde os tempos de escola. Concordei mesmo sem acompanhar a obra do antigo autor brasileiro. Também comentou sobre a demora nas descrições de Euclides da Cunha na conhecida obra dos Sertões. Me referi aos Sertões como importante processo geográfico e descritivo, situação de novidade pois não haviam livros escolares como as crianças carregam hoje em suas mochilas. Ou seja, ele possuía seu valor histórico, sem dúvida alguma.

Ainda fui para o lado oposto da loja, prateleira à esquerda, procurar por discos que ali se distribuíam. Muitos títulos conhecidos do pop e rock internacional, dos quais garanti finalmente uma edição da banda Counting Crows, os "Contando Corvos", que ainda não escutei em meu notebook, único dispotivo que por ora posso utilizar para ouvir esses compactos discos antigos. O senhor Marcos mais uma vez se demonstrou totalmente prestativo, oferecendo ajuda para ver se escolhi a melhor edição do Counting Crows, ou se haveria um melhor nas fileiras. Comparou que um estava mais inteiro a 15 reais e o outro um mais deteriorado a 10 reais. Aceitei o de 15 reais pelo aspecto inteiro. Comentei que já havia visto aquele CD em outros lugares, mas sempre com caixas arranhadas, não bem conservadas como as dele. Passei por outras bandas até tentadoras, mas economizei nesse aspecto, pois, como disse, estou apenas com o notebook para essa degustação com os ouvidos.

Pois bem, com o horário apertado, minha mãe já havia chamado atenção para nossa necessidade de retorno à Avenida Rio Branco, subindo aquele Centro, me encaminhei para a frente da loja. Havia ali uma mulher para trabalhar no caixa eletrônico, caixa este que na verdade consistia na calculadora do celular de Marcos. A negra mulher seria sua esposa? Me ficou essa dúvida. Parecia apenas um pouco mais jovem que o senhor de protagonismo em nossa narrativa. Ela retirou-se do espaço destinado ao caixa e o próprio Marcos tomou a dianteira para fechar a compra. Minha mãe nesse espaço de tempo procurou e encontrou um disco em capa com azul e preto de Nei Matogrosso, seu cantor favorito, e um dos, se não O, de minha irmã. Com a aproximação do aniversário de minha irmã em agosto, estaria feita importante compra para satisfazer os vinis colecionados brevemente por ela.

Marcos novamente prestativo tomou a dianteira, elogiou o disco como um dos melhores da música brasileira e somou no celular mais o preço dele, estimado em 30 reais. Um bom vinil, bem conservado, capa impecável. A princípio me assustei com o preço, mas logo também entendi que a maioria dos vinis que procurava por Pelotas eram de capas rasgadas e estados duvidáveis, inclusive para quando se encontrassem com a definitiva agulha de suas funções audíveis. Pois bem. Também aqui rememoro que os discos de vinil possuem em suas capas verdadeiras obras de arte a serem apreciadas. Diferente dos discos compactos, os CDs que eu coleciono, os vinis são maiores e suas capas e contracapas representam praticamente quadros a serem expostos nas paredes. Ou seja, uma capa bem conservada tem também um tremendo valor. Logo, 30 reais que agora me parecem mais bem pagos.

Do saldo dessa aventura, o horário me apertava os calcanhares, precisando eu praticamente correr na companhia de meus pais para voltar à avenida Rio Branco. Sim, meu pai, de tão pouco interesse pelos livros também estava na livraria, puxando assuntos com a mulher sobre o tempo e sobre a estrada necessária a nós até chegar a Florianópolis. Pois dessa mesma estrada percorre-se o assunto de que Marcos gostou muito de nossa compra, ofereceu um desconto que eu não esperava, finalizando aquela nossa velha pilha, o CD de Counting Crows e o disco de Nei Matogrosso por um total de 100 reais, os quais paguei no cartão em débito. Ofereceu um papel impresso com seus dados, o número do celular e a proposta de receber doações e trocas, de livros, DVDs, CDs, Gibis e Discos. O número é (48) 98449-0737, atendendo Florianópolis e região. E região eu que digo e assim espero, porque ele foi tão entusiasmado, enfático de que poderíamos voltar e tratar de negócios futuros que me entristeceu o coração lembrar que não era de Florianópolis, que era de Imbituba, havendo aí distância impermissiva de negócios recorrentes e, mais do que isso, que eu voltaria a Pelotas para ajudar, é claro, outros livreiros de minha região.

Mas o olhar apaziguador dele, a simpatia com que nos recebeu realmente me entristece. Aqui chego a um dos clímax dessa narrativa, perceber que, nesse mundo de tantos problemas, de tanta violência, de desocupados e agredidos pelo sistema nas ruas, poder desfrutar de uma boa recepção, de uma simpática conversa, de cordialidade e bom humor, isso me enche o coração de esperanças, mas ao mesmo tempo me vejo desviado dos rumos da vida, onde, tão logo, não tenho dúvida em meu pessimismo, seremos novamente jogados ao mau humor, ao desprezo, ao destrato, ao tanto faz do anonimato das ruas. Serei novamente endereçado àquela próxima esquina na travessa João Pinto a senhores bêbados que se expressam sem a mínima vontade ou emoção, ou pior, poder ser golpeado por camelôs, compradores de ouro, moradores de rua ou trabalhadores desprezados por antigas obras, ou pessoas afortunadas esnobes, que se acham melhores do que todas as outras, pessoas que andam de nariz empinado contra o que representar classe abaixo delas. A violência urbana é uma constante, está presente de rua a rua. E bastava eu, apressado, conduzir passo pelo mesmo caminho naquela travessa central da João Pinto, para encontrar um catador a fuçar uma lixeira e afirmar para sua provável companheira que "isso vem desde a escravidão pelos brancos safados", afirmação da qual minha mãe e eu tiramos concordância. Seja qual fosse o tema que ele, conhecedor básico da História, afirmava relutar desde a escravidão, provavelmente teria razão, pois este é o Brasil, o país dos processos mal-resolvidos. Da escravidão, da ditadura e da reabertura democrática, que encontra tantos limitadores em nossa frágil democracia.

Democracia. Espero ser esta senhora, no Brasil com idades questionáveis até anterior a núpcias, respeitada pelo meu bom vendedor. Penso no antagônico que é trabalhar com a venda de livros e de repente ser um cidadão não só de direita, mas de extrema direita. É claro que há muitos volumes e até bons deles, como os do peruano Mario Vargas Llosa, escritos por pessoas afinadas com o discurso à direita. Mas não deixo de pensar que é curioso, triste até, que pessoas ligadas aos livros possam replicar ideias até da extrema direita, como é a situação vivida no Brasil nos últimos anos. O bolsonarismo tão forte no estado de Santa Catarina pode encontrar replique nas palavras de meus escolhidos escritores locais ou mesmo nos gaúchos - ou de outros estados brasileiros. Pesquisa recente aponta que somente o Nordeste enquanto região já confirmou votação maioritária a Lula na próxima eleição. As demais regiões brasileiras, nas quais se encontra o Sul, estão indefinidas. Mas Sudeste, Centro Oeste e Norte não escapam desse paradigma. Pois bem, fico matutando sobre a possibilidade de meu nobre senhor conversador da rua João Pinto ser um bolsonarista. Espero que não. O Portal do Saber, nome que ele estampa em seus folhetos, e provalvemente em algo que chame atenção em frente à sua loja, não combina com o portal das censuras, dos dissabores democráticos, das desgraças oferecidas pelo desgoverno atual, que completará seu ciclo ao final de 2022.

Além do mais, fixou-me também a dúvida sobre a mulher que lhe acompanhara ser sua companheira ou apenas funcionária. Inclinaria meu palpite para primeira opção, assim ganhando força minha tese de que ali, naquele cordial senhor de encantadores e aprazíveis modos, não está representada a figura do bolsonarismo. Já não posso mensurar o tamanho de minha infelicidade em descobrir, caso um dia descubra, que ali conversava e fazia negócio com um bolsonarista, pois muitos daquela porta para fora assim são. Mas aí novamente estou relegado, labirintado com minhas expectativas, embolando-me em campos distintos da ciência e da comprovação. Sem saber a verdade - e no que me interessa? - crio expectativas que podem não ser correspondidas com a realidade. Espero realmente não ser tomado de assalto com o dissabor de uma descoberta de mais um bolsonarista em nosso cotidiano. Procurei afastar-me de todos quanto possível, mas é óbvio que convivemos com eles diariamente. Acontece, volto a ressaltar, que aquele senhor de aspecto tão amigável, acessível e desembaraçado em ajudar, me decepcionaria em muito caso confirme um bolsonarismo convicto. Assim torcerei eternamente, enquanto me perdurar essa dúvida, que ali não se tratava de um eleitor do pior de todos.

E eles estão por toda parte, como é fácil ver através das manifestações de bandeiras brasileiras pelas sacadas enriquecidas dos prédios que contornam o fluxo constante da Avenida Beira-Mar. Bandeiras do Brasil hasteadas, nesses tempos, e em outros tempos do 'ame-o ou deixe-o' representando apoio aos mandatários de instituições militares ou ligadas ao militarismo. Olho para elas, mas vejo o sol hasteado no lado oposto da avenida, sobre as águas, desbotando-as e me tecendo a certeza de que tão logo eles serão derrotados eleitoralmente. Mas, como constato em mais um dia em Florianópolis, não será fácil derrotar esses safados - alguns de resultados expressivos desde a escravidão.


Apêndices

Percebi o que me encabula de um bom atendimento. Estou acostumado a somente resolver as questões comerciais ou empregatícias a que me disponho e logo me livrar das pessoas, porque sou tímido e naturalmente encabulado. Um bom atendimento, uma boa explicação, muitas vezes sem que eu a peça, isso acaba me pegando desprevinido. Fico levemente constrangido e ao mesmo tempo agradecido pelo interesse o qual a pessoa me presta. Me sinto bem atendido, bem acolhido, bem tratado, o que, volto a dizer, não é a dinâmica do mundo, não em seu cotidiano, não nas grandes cidades.

Assim fiquei pensando naquele senhor de atitudes tão amáveis e como será que constitui lucro naquela venda de produtos antigos, em que a maioiria dos jovens se desinteressa por livros, CDs e DVDs. Espero que obtenha sucesso, mas situação que ponho em crescente dúvida, pois aquela travessa de tão poucos transeuntes, aquele espaço acinzentando de pouca recepção solar (ou será porque aquele dia estava nublado?), tudo isso vai em direção a pensar que a recepção de haver público não é muito animadora. Espero também que o preço do aluguel não seja muito, assim facilitando a obtenção de crédito com a loja.


27/06/2022

Santa Catarina - Fotos 2022 #2

 



 




 













Amor Nosso

Te amo como posso

Te amo do meu modo tosco

Te amo nos mais altos picos

Te amo no mais fundo poço


Te amo

Como amas meu pescoço

Suspiro meu amor vampiro

Te amo mais do que posso

Te amo de fala aos ouvidos

Te amo até o fim dos ossos


Te amo

Amor com o qual me viro

Amor que sai de meu rosto

Te amo e amo teu gosto

Te amo, é disso que eu gosto


Te amo

Registros que serão as fotos

Infinitos ou finitos mortos

Te amo esse amor que é nosso


25/06/2022

Estrada da Vida - Federico Fellini

Comecei bem essa reflexão, porque vinha errando o nome do dito filme. Mencionava e pesquisava Estrada para Vida, quando trata-se na verdade do filme Estrada da Vida, do diretor italiano Federico Fellini. É um filme de 1954.

Entre os tópicos que destaco, porque esse filme já foi asssitido e avaliado centenas e dezenas de vezes, trago uma proposta que Fellini bem abordava em seus filmes, característica talvez do cinema italiano em geral. O circo. As passeatas. As romarias. O autor procura dimensões e desenlaces muito humanos. Peregrinações. Procissões. Em Estrada da Vida isto é bem evidente. O filme é todo itinerante. Os personagens percorrem trajetos enormes. A moça principal, Gelsomina, sendo vendida ao artista de circo, Zampano, logo nas cenas iniciais. Seu destino assemelhando-se a uma parente mais velha que desapareceu sem direito da família enterrá-la. Esse ponto do filme fica bastante obscuro, sem o roteiro lançar luz do que ocorreu exatamente com Rosa, a personagem da qual só ouvimos o nome, evocado por sua irmã mais nova, ou seja qual for o grau de parentesco da atriz principal.

Em crítica que li sobre o filme, o destaque realmente está nos atores, que conduzem muito bem a obra, itinerantes e expressivos como sugere a trama. Artistas de circo, eles percorrem de tudo, ciganos em busca de renda. Nômades. Gelsomina cambiando de ideias e vivências como se muda de roupa ou de marcha em um veículo automotor. É bem verdade que o filme salta alguns períodos de tempo, mas a impressão que temos é de velocidade no percurso da obra. Zampano, sim, torna-se de glorioso e forte para repetitivo e enfadonho, limitado ao número de utilizar da força para romper as correntes. Gelsomina cansa-se, almeja rumos maiores, interagir, conhecer novas gentes e histórias, aprender instrumentos musicais como aprendeu o tambor e o trompete.

O relacionamento entre os dois é complexo, abusivo, ele é imponente, a maltrata, a isola, a subjulga . Na temática de Fellini, a problemática da sociedade da época (será só da época) de homens inseguros procurando controlar situações, controlar mulheres para que não saiam do campo magnético de seus respectivos egos. Zampano demonstra tanta força muscular para partir correntes, mas fracassa nas relações humanas, em seu matrimônio comprado a liras. O equilibrista surge como grata surpresa entre os personagens, aprofundando a filosofia presente na obra. É interessante quando trata da morte e se resigna, entendendo que, pela periculosidade de seu número circense, não duraria muito tempo. Embora pense dessa maneira, seu destino na trama seria distinto desse desfecho.

O equilibrista equilibra assuntos, não perde o bom humor mesmo quando fala sério. Talvez a melhor piada seja quando compara Gelsomina com uma alcachofra. Ele então também era um humorista, a rir e a consumir erva. Mantinha o bom humor apesar de não se tornar um enfadonho otimista ou positivista desenfreado. É de fato um caminhante sobre as cordas bambas - da vida.

O equilibrista ajuda Gelsomina em esclarecer suas confusões na mente. Para onde ela iria? Com quem ficaria? Qual seria o seu papel, para além do circo, dos afazeres? Que fim levou sua irmã? - que o roteiro não nos responde. Gelsomina vivia intensamente e intensamente mostrava-se confusa, às vezes solitária, incompreendida, isolada, desamparada. O equilibrista é importante nessa conversa que ela tão pouco tinha oportunidade, pois era brutalmente tratada por Zampano. 

Uma passagem interessante é quando ele define Zampano como um bruto cachorro. Apenas sabe ladrar, latir, vociferar, mas tem nenhuma experiência com o diabo do diálogo. O que dificultava demais o relacionamento entre os personagens principais.

No mesmo dia, minha namorada perguntou sobre uma canção que estava em um filme e ela não lembrava a qual filme pertencia. No filme de Fellini, Zampano identifica a canção de sua amada anos depois, por outra mulher a cantarolando. O que marca uma canção? Como pode ser relembrada dias, meses ou anos depois? Eu havia feito esses questionamentos no dia de ontem, e hoje me deparo analisando os personagens que a identificação da música é uma das raras vezes em que Zampano repara em sua esposa, lhe presta contas. Mas, como visto, era tarde demais. Zampano convive com o remorso, a culpa, o abandono, a falta de esclarecimentos no que devia respeito à Gelsomina.

Amargurado, o circense decai longe de seu auge físico, amargurado pela imoralidade, desafeto em álcool, desamparado callejero errante. Seu destino se demonstraria tão trágico quanto os recorrentes erros em suas decisões. Na estrada da vida, o destino trágico escapa a nenhum deles. Me torna refém das palavras do norte-americano Ernest Hemingway. O mundo mata a todos. Com especial pressa dedicada aos muito bons, aos muito meigos e aos muito bravos. Destino inegável. Se não te identificares com os muito bons, os muito meigos ou os muito corajosos, não tem problema, pois o mundo te matará igual. Só talvez não tenha toda essa pressa... É a inevitável estrada da vida, de Fellini às nossas autopistas em 2022.




O equilibrista enxergava Gelsomina como Zampano não a via.

Durante as reflexões, até confundi o nome da personagem principal Gelsomina com Macabea, heroína, entre muitas aspas, da história publicada pela ucrano-brasileira Clarice Lispector.


Reflexões em um final de Junho cinza

25 de Junho, um tremendo dia cinza. Resolvi para sair um pouco do apartamento caminhar com minha mãe pela praia. Fazemos o mesmo trajeto, agora que o inverno nos impede um caminho mais confortável pela areia. Há muito vento e as partículas atacam-nos. O dia de hoje reúne o tempo cinzento e muita ventania. Perde-se nas belezas naturais menos envernizadas pelo sol e ganha-se na solidão da praia, propícia a caminhadas reflexivas e menores distrações. Ou também é possível distrair-se por mais tempo com elementos banais.

Ando sempre procurando os contrastes das paisagens e sociedades. Ou esses elementos encontram-me mesmo quando estou distraído, não estando à procura deles. De qualquer forma, a primeira cena que me chama atenção é quando dobramos da avenida principal à beira-mar em direção à passarela de madeira que circunda as dunas. Uma viatura da polícia estadual contorna a avenida de acesso à praia rumo a que corre à beira-mar. Penso em nossos trajes encapuzados e minhas mãos soterradas aos bolsos, me avaliando em razoável atitude suspeita. A polícia segue seu trajeto, almoçados ou não, naquele começo de tarde. Adiante, na vazia passarela, os primeiros que encontramos estão justamente atuando como a polícia desgosta: fumando baseado. São dois rapazes. A erva mais me atraia do que repulsa, mas minha mãe sei avaliar de forma contrária. Entretanto, é isso que me chamou atenção. Nem um minuto atrás vislumbrávamos a viatura policial. No minuto seguinte, estão ali os meninos a emaconhar-se tranquilamente. Como atuam as forças repressivas policiais em casos como esse? Fingiriam que não veem ou atuariam sobre os meninos, de forma mais truculenta/violenta? Fico sem a resposta, mas é uma pergunta que causa curiosidade sobre as diferentes esferas que temos da população.

Contra os pobres, muito. Contra os ricos, nada. Embora aqueles jovens não transparecem-se pertencer nem a um extremo nem a outro. Seriam a chamada classe média? Eles ficam para trás e esse julgamento por ora me some, retornando somente para as páginas desse texto. Seguindo pela passarela, me deparo com dejetos que logo voltarão à reflexão dessas linhas. Prefiro por ora terminar o trajeto da passarela e seguir pela calçadinha ora de concreto, ora de madeira, que nos leva a outros limites oceânicos. O restaurante à beira mar que costuma nos exalar com cheiro de fritura dessa vez está mais vazio. A praia como um todo se encontra assim. Nem os típicos surfistas deram as caras tão cedo. Talvez cheguem no decorrer da tarde, pois trata-se de um preguiçoso sábado. Ou talvez, como eu observo, o mar não esteja tão propício aos nados e manobras hoje. Está bem mais calmo apesar dos impulsos do vento.

Uma mulher em roupa fluorescente rosa corre em busca dos limites desafiados pelo seu corpo. Um galho à beira da água dessa vez me confunde com uma bicicleta. Minha mãe outra vez disse que ele se assemelhava a um daqueles dragões ou lagartos grandes das distantes ilhas asiáticas. Pode ser, pode ser. Na verdade não concordei em cheio com ela nessa ocasião. Mas ter enxergado uma bicicleta tombada onde ali repousava um desses galhos/troncos preocupou-me quanto à minha capacidade visual.

Enxergo o rosto de minha menina por essas caminhadas. Acho que pode ser a coisa mais natural do mundo. Lembranças e flashbacks que nos misturam à mente enquanto pensamos justamente nessas, mas também em outras coisas da vida, do cotidiano. Ora presto mais atenção em algo que minha mãe tenha a dizer, ora me disperso. Recordo que na adolescência, quando talvez achasse possuir mais amigos, tinha certa ridícula vergonha de caminhar com meus pais, sair com eles. Uma tremenda bobagem que hoje só se demonstra como perda de tempo em que ainda posso contar com eles, visto que são idosos, estão se aproximando mais dos 70 do que dos 60 anos que possuíam. Hoje, pelo contrário da adolescência, eu bem adulto não vejo problema em caminhar com meus anciãos, fico feliz que ainda posso desempenhar essa função. Acompanho seus passos, procuro até reduzir minhas passadas para que não se esforcem demasiadamente para acompanharem-me.

Interessante a trasferência de opiniões e justificativas dos seres humanos. Eu que possuía a tola vergonha de acompanhá-los agora até me orgulho. Sentimentos vãos e bobos que ficaram para trás. Quanto às minhas amizades, se antes eu desconfiava, hoje tenho certeza que poucos ficam e esses que ficam me competem maior importância do que competiam. Percebo que na adolescência possuía eu maior dificuldade em lidar com os dividendos das amizades, em compartilhá-los com mais pessoas. Outra tolice fútil, mas incorporada inevitavelmente à nossa rotina e às nossas escolhas. Hoje percebo que os amigos remanescentes também estão mais solitários. As amizades cultivadas de mais tempo elevam-se como plantas que crescem demasiadamente, chegam a um topo um pouco mais solitário que a disputa intensa do solo pelas gramíneas e árvores rasteiras, populares arbustos. De qualquer forma, hoje os divido menos. Da parte deles, espero que não pensem que os divido com muito mais pessoas. Sou um lobo solitário, apenas agraciado numa tarde de inverno em poder caminhar na companhia da sexagenária senhora minha mãe.

Agradecendo à comunidade composta pelos escassos amigos e minha família, prossigo já no caminho de volta, agora contra o vento que colide fortemente em meu rosto. Ando cabisbaixo, dessa vez mais em manobra defensiva contra a ventania do que por estado de ânimo. Embora essa justificativa seja muito sensata também. Ao voltarmos pela passarela, cuido desde passos anteriores para não pisar nos excrementos que havia notado na ida. Pelo caminho humano, me parece que alguma pessoa os fez. Noto isso muito em calçadas, em ambientes públicos em minha cidade natal. Me faz pensar nos desalojados, nos sem-teto, ou talvez em pessoas inconsequentes em madrugada que a troco de nada precisariam se expor (e principalmente nos expor) dessa maneira. Contornada essa merda toda, não volto para avenida da beira-mar sem antes notar que o lixo também se acumula nas fendas laterais dessa passarela. Ao mirarmos para baixo, como eu andava cabisbaixo contra o vento, é fácil notar o acúmulo de sacolas, bandejas de isopor e outros descartes ilegais em meio às dunas cobertas por vegetação. Não fosse o mato alto e seria mais visível a nulidade a que se submete o ser humano. Não é exclusividade pelotense, de fato.

Entre reflexões mais ou menos aprofundadas, também obviamente noto que os rapazes pelo visto consumiraram todos os seus porros e já não se encontram encostados às muretas do mirante ao lado da passarela. A polícia também seguiu adiante, queimando combustível. Nosso caro combustível em 2022. Caro como nunca antes. Os policiais foram almoçar, ou já estavam almoçados. Fica também a inútil e infrutífera dúvida. Os jovens estavam abrindo o apetite, mesmo que já tenham almoçado.

Antes de dobrarmos em direção à nossa rua, saindo da avenida da beira-mar, minha mãe dispara uma frase certeira. "Essa cidade é a minha cara, não gosto do barulho, do tumulto." Perdão para minha mãe, porque não foram essas exatamente suas palavras, mas por ora servem para divulgar seu pensamento antes absorto. Em comunhão agora com minhas ideias, relaciono a certidão e retidão de seu disparo. Realmente a cidade é um achado. A cidade de brinquedo, como costumo brincar. Com as ruas que não costumam ultrapassar o limite de duas ou três quadras. As poucas avenidas, mesmo elas, de trânsito lento e pacato. As casas espaçadas na maior parte da cidade. As conveniências básicas atendidas em questão de padarias, supermercado, farmácias e lojas uma de cada coisa, algumas repetidas, obviamente. Conveniências de móveis, eletrônicos, materiais de construção e o que mais for preciso em nosso presente século.

A cidade é sim um aspecto favorável à minha mãe, parece ela se encaixar muito bem nela para seus últimos anos, já passados alguns de sua aposentadoria. Minha vó viveu a vida inteira em Pelotas e também por aqui terá seu desfecho quando ultrapassar ou não a casa dos 90 anos. E ela parece resignada e até arriscaria um tanto contente por explorar novas identidades e aspectos visuais, mesmo em sua idade avançada. Pelo caso de minha avó, penso até o contrário, que deveríamos tê-la trazida a novos horizontes tantos anos antes. Mas antes agora do que nunca. Ela terá estruturalmente, em termos de cidade pacata, segura, relativamente limpa (apesar de meus relatos anteriores) um desfecho digno. Saúde a reserve - embora dessa tenhamos nenhuma garantia do dia de amanhã.

Sobre minha mãe também agradeço pelo encontro casual - nã, na verdade estudado - com essa cidade, pois a outra investigação litorânea que a levaria à Palhoça parece que não nos agradou. Peço excusas aos palhocenses que poderão ler essas linhas. Mas o aglomerado rápido e selvagemente urbano que circunda Palhoça nos desiludiu à essa localidade. Parece melhor para jovens aventureiros na necessidade, primeiro de emprego, depois de aventura. Os contornos de Florianópolis são agitados. Aqui, mais de hora distante da ilha da magia, não tanto. Reina, no Junho desse inverno, a pacacidade nesse novo território que ainda estamos, após alguns meses, em fase de exploração. Conhecendo cada vez mais e às vezes nos resignando pelo convívio ocular não nos reservar novas surpresas. Mas os trejeitos e trajetos urbanos são assim mesmo. O crescimento de nossa nova cidadezinha litorânea é inevitável. Erguerão casas e prédios que nos sufocarão aos poucos.

Calculo junto à minha mãe quanto tempo durará. Colocamos década como previsão para mudanças mais drásticas, de novos moradores, construções agitadas em andamento. Ela concorda. Quando lá estivermos - se estivermos - ela já estará mais para os 80 que para os 70 que hoje se aproximam. Todos fazem aniversário, mesmo quando não estamos mais aqui. Isso, assim como o crescimento urbano e populacional, é inevitável.

Como último ponto daqui breve - nem tão breve - reflexão, penso eleitoralmente na eleição que se aproxima. Faltam exatos 100 dias na medida em que escrevo essas linhas. Muito se comenta do fascismo catarinense. Mas pouco se fala, aos defensores do Rio Grande do Sul, por exemplo, da quantidade de gaúchos com esses pensamentos encucados e enraizados que migram do RS para SC. Assim representam dois fenômenos. Primeiro que esvaziam o RS dessas práticas, o que é muito bom para o RS, parabéns ao RS. Segundo que aglomeram por essas abençoadas naturais terras com essas práticas anti-pobres. Uma pena para o estado que ora eu habito. Esvazia-se um lado, preenche-se o outro. Encontram comunitariamente pessoas de pensamentos aproximados com seus costumes e ideais um tanto questionáveis pela minha pessoa.

Quanto à minha família, para nossa cidadezinha, como enxugar gelo, garantimos mais pelo menos cinco votos contrários à essa máquina destruidora do país nos últimos quatro (ou seis?) anos. Ainda não revelo aqui a certeza de meu voto daqui aos estimados 100 dias, mas é possível que eu revele por este mesmo canal, em algum momento. Neste momento em que escrevo, meus amigos, ainda faltam reflexões a serem analisadas e feitas. Até um futuro breve na contagem regressiva dos 100 dias. Câmbio e desligo.

24/06/2022

Ao som de Rui tem o Giz

Ao som da trilha sonora de abertura do desenho Rui tem o Giz.


Neném te quis

Quis kiss kiss

Nem te quis

Neném te quis

Quis kiss kiss 

Nem te quis 

Neném te quis

Quis kiss kiss

Nem te quis

Saudoso desenho "Rui tem o Giz"




22/06/2022

Piedade


Talvez eu tenha tanta piedade porque minha vida é merda o suficiente.

Abril - de meus sonhos juvenil

Abril passou

Passou senil se não me lembro

Abriu um montão de presentes

Que já são passado 

Papelão reciclado 

Jornais forrados 

Abril que acabou 

Feito água de cantil

Abril que fechou com silêncio 

Fica a agulha, vai-se o vinil

Vai de novo espetar o rodopio

Gira o disco e é isto 

É abril que se fechou

Acabou, não insistiu 

Nem brinca com isso, amor juvenil

Que sem ti fico deitado sem cio 

Em contrapartida ao nosso estado

Algemado ao teu corpo, pernas e quadril

Ao roçar os vidros em rocío

Desviou os rumos de abril

Que eram planejados só uns versos bem vadios

Bem tardios meses depois

De um abril que já se pôs 

Que fez pose e despediu

Alertando maio que dele vem frio

Vai que vai, que vai abril

Folha de calendário fora do páreo 

O mês quatro que se foi

O mês claro que se foi

Como há de ser, foi tantas vezes

Até o dois mil e vinte e dois

Mais de dois mil abril

Até o abrir de nós dois



Pérolas e Ostras

A chuva bate em minha janela
Como aqui poucas vezes ouvi 
Muitas ouvi em outras janelas
Muitas vezes, mas não aqui
Estou em Santa Catarina
Sinto falta dela, minha menina
Quando a tenho nos braços
Minha senhora quando ela me tem
No conforto no abrigo no ato retem-me
Refém que sou dela e ela me tem
Nossas peles sob e sobre colchas
Sob e sobrecoxas 
Sub e sobre, sobre nós 
Ela pérola eu ostra 
Ela ostra e eu dela

21/06/2022

Plagiadores

Cada vez que se rouba uma ideia, nos âmbitos muitas vezes invisíveis (e mudos, inescutáveis) de nossa sociedade, o ladrão sempre será um impostor, um baixo, um vil, um incapaz, um insucesso. O verdadeiro autor sempre será o original, o portentoso, o realizador, mesmo que desprestigiado e irreconhecido.

O plagiador sempre será um falsário desnudo, embora o exercício da consciência não seja prática constante de nossos concidadãos.

O crime de plágio é dos mais rudes, dos mais impueris. Há muitos crimes em que desconhecemos o autor. Nesse caso, há uma realização, mas há um falso autor. Imperdoável.

Primo e prezo sempre pela originalidade. Saúdo e brindo e convoco a todos os originários a este tilintar de taças. Aos falsários e plagiadores, que o inferno mental que lhes preparo os esperem.



Moinhos Momentos

Caminho por esse momento

Às vezes com

Às vezes sem acostamento


Caminho mesmo a passo lento

Às vezes com

Às vezes sem direcionamento


Caminho ao passo contra o vento

Às vezes sinto

Às vezes só movimento


Caminho fora do ninho

Passo por outros ninhos

Outros duzentos

Às vezes reparo

Mas sei que nada acrescento


Caminho uma estrada atada

Atada a um início 

E a um finamento 

Passam por mim caminhões

Que levam grãos, arroz, feijões

Talvez alguns turbilhões 

De acontecimentos


Caminho por obséquio sozinho

Cético diluído 

Ao fluído do tempo 

A um instantezinho 

Na estante fotografia 

Um rato, um moinho

Fabricante de momentos

19/06/2022

O que está por vir?

Em um filme francês chamado "O que está por vir" algumas reflexões me chamaram atenção. A filosofia que a professora (interpretada por Isabelle Huppert), personagem principal da película traz: sobre a expectativa da felicidade, o almejo ser maior do que a própria felicidade quando esta chega. Eu já havia pensado a respeito desse assunto, mas esse filme trouxe novamente à tona.

Na vida da personagem principal, as expectativas são frustradas constantemente. O casamento de 25 anos a ruir, os filhos não serem exatamente como ela imaginava, como o menino brinca em uma passagem que o aluno dela era o ideal intelectual e físico que ela almejaria no próprio filho. Mas, como dito, o filho não atingiu esse ideal, seja este existente ou somente deboche do descendente. A mãe dela, má de saúde, delira e flerta com o suicídio. Acredito que os adultos não imaginem que cuidarão de seus pais após anos sendo cuidados por eles.

A gata da mãe da professora é somente um gato comum, chamada Pandora (esta de pronto me recordei do nome). Pandora é aquela mescla entre dependência e independência dos gatos. Percebo agora que ela sempre está contrariando os planos da professora. Quando é levada ao mato, desaparece e preocupa a personagem principal, mas pelo dia seguinte reaparece e com a caça feita de um camundongo, revivendo seus instintos e surpreendendo a surpreendida.

Quando a professora vai conviver com os intelectuais alemães mais jovens, juntamente com seu estudante favorito, em uma casa afastada de Paris, para os campos, ela possuía uma expectativa, mas que novamente é quebrada. O filme inteiro circula por situações cotidianas assim. Ela se vê na encruzilhada da idade, passados os 40 para os 50 anos, sem mais o casamento que lhe parecia estável, com os filhos em idade de adolescentes a adultos, a mãe dela idosa, somente por desfazer o nó que a separa da promessa do céu.

A expectativa, a ânsia pela felicidade, a busca por um ideal, assim são transformados seguidamente. Provavelmente não é o que a maioria das pessoas em vivências classe média esperam naquele degrau de idade. Flertam com a estabilidade, com o conforto de lares, com refeições seguras. Esse tipo de coisa. Quando ela se aventura em desventuras mais alternativas, em moradia comunitária, sente-se só e distante dos companheiros e da própria vida. Vida que era seguramente sua, palpável se possível, em questão de poucos dias atrás.

Cometo o terrível equívoco de esquecer de mencionar que a personagem é professora justamente de filosofia. Então o filme aborda muitas vezes as incongruências entre o pensar e o fazer. Entre a teoria e a prática. Esse tipo de desavença, muitas vezes hipócrita, cerceava inclusive a vida dos próprios autores. Ou seja, nem eles viviam a pleno o que escreviam. Sendo assim, como os desalinhos não vão aparecer na vida de pessoas surgidas décadas depois?

A transformação do mercado de trabalho. A professora-escritora que parecia segura no modo empregatício, criticada pelos jovens marxistas pelo seu estilo burguês, de repente começa a ser rejeitada pela sua editora. O motivo: seus livros já não são mais tão vendáveis. Não interessam como antigamente. Reedições estão fora de cogitação. Novos lançamentos precisam ser de fácil degustação para leitores fastiados e pouco aprofundados. Tapa de luva em nossa personagem.

E o que está por vir? Nada disso do que passou. Talvez o embalo de um neto em seus braços em noite natalina seja o suficiente. Talvez. A vida se adapta e termino o texto me sentindo uma espécie de Martha Medeiros conversando com outras professoras de filosofia divorciadas na faixa dos 50 anos. Mas não é o específico ou exclusivo público-alvo. Absorvo muito a me deparar com vivências como essa. E me adapto, como devemos nos adaptar, ao que me cabe de aprendizado e experiência.




15/06/2022

Sobre a idade idosa

Uma breve reflexão sobre os últimos anos de vida. Lembro perfeitamente quando, há quase uma década, me dedicava a fazer postagens sobre minha avó escalar a idade dos 82, 83, 84 anos em diante. Pois agora ela já está próxima dos 90. Está para subir ao degrau de 89 anos.

E essa expectativa que na infância é vista de forma tão vistosa e passageira, talvez com os pais lamentando o crescimento tão rápido e irreversível, nos últimos degraus da vida são dança em marcha lenta. É ponto morto em ladeira pouco íngreme. É travessia em calmaria, mar ou lagoa de poucas ondas, mãe ou avó de muitas rugas e ainda alguns sorrisos.

É como o andar de bicicleta, que na juventude é lisonjeiro e veloz, mas nas últimas idades é como voltar a colocar as rodinhas que auxiliam na bicicleta. Nada se assemelha mais aos anos infantis teimosos que os idosos e suas novas teimosias, 'que eu ainda consigo, que eu posso', e às vezes não pode mais. No caminhar trôpego, no passo devagar, a expectativa do inevitável. Quando se é jovem, muito se pode evitar no agir. Na última idade, a chamada única certeza da vida se aproxima. De carnê em carnê, de porta em porta. Ela geralmente bate algumas portas ainda antes do ser de esperada idade partir. É a vida.

28/05/2022

Música Sertaneja

Seu sofrimento é cadeia

Jogue a chave fora

Para não mais entrar


Hoje é sexta-feira

Dia de ir embora

Talvez nem mais voltar


Ouça, a noite te chamou

E lá fora já é tempo bom

Deixe o que for pra trás


Vem por essa noite

Pra curtir um monte

Direto da fonte

A ponte a atravessar


Sexta-feira é tempo bom

Sábado ainda tô pro som

E nos respingos de domingo

Antes do cachimbo cair


Seu sofrimento é cadeia

Jogue a chave fora

Para não mais entrar


Seu sofrimento é cadeia

Jogue a chave fora

Para não mais entrar

25/05/2022

Bye Bye Brasil (1979)

O filme Bye Bye Brasil (1979) retrata o Brasil profundo. Já escrevo aqui enquanto assisto. Um circo que circula pelos interiores do Norte e Nordeste. Um novo membro que se junta à trupe pelo sonho de percorrer novos lugares e ver o mar. E de que outra forma um morador do sertão ganharia a oportunidade em plena década de 1970? Cacá Diegues na direção está atento a isso.

O Brasil profundo ainda pouco explorado no imaginário nacional ainda hoje, imagine na década de 70. Nos tempos de guerrilhas em Araguaia, de heranças bandeirantes que até os dias atuais pouco discutimos. Um Brasil de garimpos e outras explorações. De trabalhadores miseráveis e empresas milionárias. Um Brasil de talentos ignorados e cantores que lucram às custas de dinheiro público de prefeituras, como o sertanejo Gusttavo Lima com show de cerca de 800 mil reais em Roraima, me parece. Dinheiro de prefeitura que cada morador é contribuinte. E a saúde e a educação como andam?

Bye Bye Brasil contrasta as imagens da natureza de extenso e continental e inexplorado - ou explodado demais, como dito - país. Contrasta essas cenas com a gama de personagens que se angustia e se adapta aos desafios da estrada e da necessidade de público nesses sertões e rincões. Eles saem do Nordeste para seguir o caminhão de forma itinerante rumo ao Norte brasileiro. Mencionam o sonho da Altamira do Pará, mas sentem as dificuldades da longa estrada, da falta de recursos, da luta pela saúde, das distâncias de afastados cantos. Observam o rio Xingu. À essa altura já ganham novo companheiro, pois a acompanhante do sonhador sanfoneiro pariu uma criança em região inexata.

O rural e o urbano se contrastam. Os jegues e as pessoas dividem o centro das ruas e dos projetos inacabados de cidades. Os carros de som disputam espaço nos anúncios. As fachadas dos rasteiros prédios alegam consertos e vendas do que é possível e talvez impossível fazer. Os anseios dos personagens esbarram nas limitações de inequipados terrenos. É retratado um país de poucas regras, em que os personagens entram a ponto de conflitos violentos, sem quem os impedisse. É o Brasil profundo onde os fabricantes de lei andam por fora do círculo dela. Onde os fiscalizadores, se presentes estão, são subornados. Onde as testemunhas mantém outras formas de silencioso agir. Não há tribunais que deem conta. A banda toca em outros ritmos.

É um Brasil profundo de sonhos e anseios antigos, mas ainda atuais. A luta pelo salário e o sustento. O sonhar de viver em caravana, passando por vários lugares, morando em lugar nenhum. A angústia e o cansaço da itinerância. O conflito da trama de personagens de origens distintas que são obrigados ou escolhem estarem juntos. O sanfoneiro que se apaixona pela outra artista. O companheiro deles que coleciona aventuras. Os diferentes talentos e as diversas formas de encarar as situações e agir. Os diferentes temperamentos e as distintas escolhas. A vivência como maleável e inesperada.

Um grupo de uma única caravana (do diretor Cacá- Cacáravana) mas com cada personagem pensando de forma distinta seu futuro. Um Brasil que flerta com a prostituição como renda. Um Brasil que cede a desejos e ao indesejável. Um Brasil entre o aceito e o condenável em uma mistura de opiniões, que de fato são o Brasil. Um Brasil que descobria que Manaus poderia, tinha já potencial para ser metrópole, ao menos para os acostumados ao nada conectado a quilômetros de mais nada. O sonho de alcançar Brasília, jovem capital federal, mais jovem do que os diluídos sonhos juvenis das personas gratas ou ingrata da estranha caravana.

Um Brasil que une folclores, talentos, trabalhos, rendas e a busca por rendas. Um Brasil que destoa entre os sertões sem água, os ribeiros à beira do rio, os litorâneos da pesca do mar, os transamazônicos e os mais novos moradores das selvas pedrosas. Os novos citadinos já periféricos e prontamente excluídos, que a exclusão costuma ser mais rápida que a "in" na batalha de prefixos. Fixam-se e desafixam-se. Preços e pessoas.

Um Brasil profundo formado pelo que tem de mais diverso para além de sua fauna e flora: formado por interiorizados cidadãos brasileiros, do sub-mundo das entranhas sertanejas e amazônicas. Nativos miscigenados por obrigação ou opção. "Atenção, rapaziada, muito obrigado pela atenção dispensada e até a próxima" - anuncia o circense em mais uma despedida dele e em ponto final onde aqui também por ora me despeço.

24/05/2022

Quem?

Será que vale a pena perder algo pelo caminho apenas pelo suposto prazer de reencontrar? Quem nos garante a sensação futura? Quem nos garante futuro? Quem nos garante reencontrar?


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Reflexões após o filme A Noite



Processos da loucura

Como não ficar louco em uma sociedade em que uma consulta médica custa 500 reais? Com desconto do plano de saúde 400. Nem a consulta o plano de saúde capta, absorve, abrange integral. Só um mero desconto. 500 reais, quase meio salário mínimo. Mais de meio salário para muita gente abaixo do mínimo.

Vai gastar meio mês para uma consulta em que o médico apenas olha para sua cara? Os médicos estão cansados da exaustiva pandemia. Concordo, muito eu penso neles. Mas muito penso em nossos abatidos pacientes. Atendidos com demora e muitas vezes atendidos de qualquer jeito. Chateados com os sintomas e com a forma como são tratados. Ou destratados. 

A pessoa muitas vezes volta para casa sem a resolução de seu problema. E ainda cansa mais o psicológico. E hoje em dia o que não cansa o psicológico? Na era de tanta informação. De tanta tecnologia que nos bombardeia assuntos. Imagina não ter assuntos, algo vai pousar para falarmos. De piadas às piores crueldades, mas algo vai. E aqui mesmo no texto de uma origem fujo pela tangente em outras raízes. Mas o psicológico. O psicológico cansado dessas notícias, dessa necessidade de interagir, da era do pós-trabalho para quem trabalha, de casa ou não, mas sempre sobrando para casa. Antes levava do restaurante um pouco de comida para o cachorro, hoje leva mais algum cliente insatisfeito que poderia ter sido tratado mais cedo. Consultorias e atendimentos. Preocupação e ansiedade.

A era do pós-trabalho para quem trabalha e quer garantir um sustento que lhe permita 500 reais em uma consulta particular,  ou 400 reais se você bancar a continuidade mensal do plano de saúde que não cobre todos os gastos, sinto-lhe muito. Como estiquei o ouvido para o caso da senhora que consultou as secretarias para tentar um atendimento o quanto antes porque depois que ela foi no dentista passou a sentir-se tonta. Será que é neurológico ou o que é? Ela, à beira de seus 90 anos, nascida em 1933, irá descobrir e minha fofoca ficará incompleta porque ela agendou retorno só para o dia seguinte, às 18 horas.

Não gostei das secretarias. Quando falaram do tempo, de casa ou apartamento frio e sujeito à umidade, ok, mas também falaram de outros pacientes, que uma mulher no exame dela nada apontava então não haveria necessidade de pressa na marcação de sua consulta. O desaforo. E eu ouvindo me sentindo tapeado porque eu mesmo havia sido remarcado já duas vezes, passando da suspeita de um ciclone que ao fim nem veio, e depois pelas prioridades médicas de atender um necessitado de cirurgia, sua especialidade, corta e corta. E lá se foi outro turno. E eu reagendado olhando ali cabisbaixo para meus próprios tênis que já foram mais brancos, sujam e já não limpo e minha roupa amassada e já não me importo se assim fica porque tenho prioridade é de resolver a minha saúde.

E cabisbaixo como eu aguardava, cabisbaixo eu saio porque sou eu reagendado, sem solução, não é com esse médico muito menos com as secretarias fofoqueiras que vou me resolver. Adio meus problemas e preocupações. Gasto tempo e dinheiro. E linhas que obviamente esse texto é sobre muita gente dependente de SUS ou apalermada mesmo na sorte de um plano de saúde, talvez incompleto. O texto é sobre mim  cabisbaixo, abatido e um pouco mais pobre, sim. Também mais pobre de espírito. Ah, o psicológico... Ainda não sou totalmente louco porque redijo essas linhas todas. Mas só por isso será?