04/07/2025

In Search of Famine (1981)

Em setembro de 1980, uma equipe de filmagem aluga um palácio para gravações, internas e externas, em paisagem do interior da Índia. Em volta do estimado castelo semi-abandonado, a população vivia em condições antagônicas, justamente o objetivo a ser mostrado pelas filmagens. In Search of Famine (Em Busca da Fome) é um filme indiano com direção de Mrinal Sen, um dos principais nomes deste Cinema Novo que surgia na Índia. Corretamente mediante pesquisas, influências corriam para aquele lado do mundo, como o neorrealismo italiano e as novas ondas da França que também respingavam ao Brasil; cinema com críticas sociais e elementos cotidianos.

Um filme sobre um filme também é um tema comum de apreciação dos críticos. Filmes assim fizeram sucesso como em Noite Americana, de François Truffaut ou também uma obra do alemão Rainer Werner Fassbinder, em que equipes de produção e direção e atores demonstram entendimentos e desentendimentos nos bastidores. Em In Search of Famine, um jovem diretor quer retratar as agruras da fome, em especial no período 1943, como consequências de guerra: elevação de preços e escassez de distribuição na produção. Enquanto a equipe se reúne uma noite em um quarto, é disparada uma frase derradeira: mesmo sem a Segunda Guerra adentrar em território indiano, sem tiros ou bombas disparadas, naquele ano de 43 morriam cerca de 5 milhões de bengalis, estes vítimas da Fome.

O desenrolar do filme expõe a diferença de classes, um cinema que, para ser produzido, necessitava de certas técnicas, equipamentos e orçamento, algo totalmente novo ou em falta nos arredores, na aldeia. A fome de 1943 não estava totalmente superada. Um jogo com isso ocorre durante outra reunião da equipe responsável pelo filme. Sem gravações naquela noite, a atriz principal propõe o jogo: adivinharem de que ano era cada foto. Notam as semelhanças entre 1943, 1959 e o período atual das filmagens: 1980. A fome não estava superada, como também não estaria nos próximos tempos hindus.

A diferença da vivência e dos valores sociais apresentados entre a equipe de cinema e os aldeões causa conflitos. Quando procuram uma jovem para desempenhar no filme o papel de prostituta, os empolgados indianos pelo cinema se voltam contra. Não querem que as filhas, que as moças da aldeia sejam representadas dessa forma. Nem cachê, pagamentos podem comprar essa parte da honra, em conflito, embora ali estivesse apenas o trabalho da ficção. A diferença nos costumes, na superação da fome também é evidente. Tensões sociais surgem, a polícia local por vezes é acionada para apaziguar qualquer tentativa de rebelião. O clima é adverso e causa reflexão nos trabalhadores da sétima arte.

Um sábio da região é convocado para aconselhar a equipe de filmagem e ele ganha destaque na parte final do filme, com visão muito apurada a respeito do panorama geral e dos possíveis conflitos surgidos a partir das diferenças entre as castas indianas. Escutar o velho sábio é entender o objetivo do cinema em Mrinal Sen. O filme dentro do filme cumpre seu objetivo. Um dos baratos dessa temática é exatamente embrulhar, misturar na mesma panela a realidade e a ficção. Muitas pessoas não gostam da mistura de gêneros cinematográficos, quando acusam filmes de não terem roteiro definido, mas considero o mix de sentimentos e temáticas justamente o plus para essas obras. Não saber onde começa ou termina realidade e ficção é o feito maior dessas iniciativas. O filme dentro do filme, o rompimento de paredes pode ser um acerto arrematador. É o caso de Em Busca da Fome, obra em cinema já colorido, diferente dos anteriores vistos de Mrinal Sen, em Entrevista e Calcutá 71. Porém, todos foram aprovados com aclamação de notas.

Nota final para In Search of Famine (1981)

⭐⭐⭐⭐½

03/07/2025

A Garota da Fábrica de Fósforos (1990)

Um filme bem ao estilo do finlandês Aki Kaurismaki, cineasta de diversos lançamentos, do drama e das pitadas de comédia. Neste filme de 1990, a personagem principal é Iris, uma adulta que vive com os pais, trabalha exaustivamente na maçante missão de comandar uma esteira de caixas de fósforo. Quando tenta se divertir, não é notada pelos homens; quando recebe seu salário, mira um bonito vestido colorido em uma vitrine, o compra, mas é reprimida por seus pais; o velho o chama de vagabunda e a mãe prontamente adverte que ela devolva à loja.

Apesar do aviso, a loira Iris vai a uma festa com o vestido e chama a atenção de um homem esquisito. O breve relacionamento deles é um tremendo fracasso, conforme ele revela, em encontro seguinte, que nada mais lhe dava pena e desinteresse do que o amor que ela sentia; Iris fica arrasada. Mas tudo poderia piorar na crueza deste filme de Kaurismaki, conhecido pela ironia, destinos trágicos e atrapalhados de seus personagens marginais. Iris descobre estar grávida. Apesar da represália sofrida pelo antes companheiro, ela escreve uma carta e lhe entrega em mãos. O homem é categórico na resposta: livre-se do filho.

Socialmente analisada, a condição de Iris é de uma trabalhadora sem perspectiva de crescimento na empresa, com dificuldade para fazer amigas, não recebia apoio sequer de casa, por onde não é explicitado, mas provavelmente era considerada uma solteirona sem solução. Ao se acidentar, parar no hospital e tomarem conhecimento do azar de ter engravidado no único encontro em que isso era possível, os pais de Iris desejam que ela deixe a casa e arrume outro lugar onde morar. Ela até conta com ajuda e começa a bolar seus planos de vingança contra os que a humilharam em sua trajetória.

É um filme cru, na crueza e na crueldade, um filme frio como o clima portuário e provavelmente ventoso da Helsinki, capital finlandesa, confins de parte do mundo coberto de gelo. A atriz Kati Outinen, que realizou outros trabalhos com o diretor Kaurismaki, dá vida a uma personagem quase inanimada, uma espécie de Macabeia, da Hora da Estrela de Clarice Lispector, em plena terra antes pertencente aos russos (incluso as Lispector sendo de origem ucraniana, pois mirem a coincidência a que se chega).

Iris precisava de pouco para se contentar: uma refeição simples, um café, um ombro amigo, um homem que a notasse, a consideração e o respeito familiar. Ao perder cada sonho, degrau a degrau, a saída definitiva foi mirabolar planos de vingança aos desafetos. Em uma cruzada feroz por Helsinki, Iris não deixaria barato sequer para futuros homens interessados em sua pessoa: desejos de vingança completa. Mas, é claro, vindo do podador de sonhos Kaurismaki, nada de brilhante e excepcional, apenas a vida sendo coberta como um campo pela geada. As trilhas sonoras típicas contribuem para isso.

Nota final para Garota da Fábrica de Fósforos:

⭐⭐⭐⭐

02/07/2025

Calcutá 71

Segundo filme assistido de Mrinal Sen, Calcutá 71 foi lançado no ano seguinte ao nome, ou seja, 1972. O longa de mais de duas horas inicia como uma sequência do final de Entrevista (Interview), com um tribunal que julga o caso do personagem principal, Ranjit Mallick, que destruiu a fachada de vidro, a vitrine de uma loja de roupas, quando se vingava do terno que o manequim usava e ele não possuía em mãos para realizar a devida entrevista, derradeira para os rumos de sua acanhada vida.

O manequim estava convocado ao júri como vítima, testemunha da ira do revoltado Mallick, julgado entre as barras de ferro de uma ridícula jaula. O filme, na verdade, não se foca dessa vez nas peripécias do rapaz. Ele desenvolve um panorama da vida na Índia, em que a pobreza, a miséria e as dificuldades de sair delas são o epicentro da trama. Ao longo de décadas e mais décadas uma família ilustra a desgraça da estada indiana, em que se pode ressignificar inclusive a chuva feroz que muitos atribuem ao aclamado filme Parasita (2019).

A família de indianos sofre com a desproteção em uma noite chuvosa. As telhas não dão conta, a água infiltra pelo cômodo onde todos os familiares tentam dormir, uns ainda aconchegados, outros em vão na luta contra a força aquática. Os guarda-chuvas também não suportam a pressão da água sobre suas cabeças. A única solução naquela periferia, uma espécie de favela com pequenas casas conjuntas, era abandonar a residência. Assim a família de pai, mãe e filhos junta poucos pertences, o cachorro, e partem para tentar alcançar um local seguro. Lá, se defrontam com várias pessoas na mesma situação. Abandonaram suas casas e se reuniram em tentativa de abrigo da devastadora tempestade. O pai era o mais conformado, mas também o mais surpreso: "quanta gente!", é o que se resume a dizer.

Na ilustração da passagem do tempo, o filme avança décadas, o que postula a dúvida se a saída da ocupação britânica realmente libertou os indianos. Se as agruras da vida permaneceram sobre outras formas de dominação, seja pelo capitalismo tardio, na tentativa de imitar ocidentais, ou mesmo na invasão desses ao lograrem suas multinacionais que comandam, exploram recursos, trabalhadores e espaços fisicos dos indianos. A miséria de uma família que já não contava com o pai de família é postada em um dos capítulos em que um parente distante os visita. Ele viajou de trem de Nova Déli para Calcutá, a cidade escolhida maior para trama. O parente se surpreende com a desgraça que assola os conhecidos, permanecendo como espectador que pouco tinha a se meter e a contribuir durante sua curta estadia em Calcutá. Briga entre vizinhas, entre a mesma família, desentendimento digno de recordar novelas brasileiras, tudo na gravação de orçamento simples feita no alvorecer dos anos 1970. Na hora que o básico falta, qualquer boca a mais a ser alimentada, ou cama a ser improvisada, pesa e vira motivo para desavença.

A impressão desse filme é de uma espécie de Cinema Novo, como o proposto por Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos no Brasil, ao ritmo dos bengalis. A extrema pobreza, a terra inexplorada pelos nativos, assim improdutiva a seus consumos, o desespero que se sobressai a quaisquer possíveis luxos ou escolhas. Se destaca no capítulo da miséria familiar a informação que corria sobre pessoas que lutavam para ter uma única refeição, mendigos, pedintes que morriam de fome a cada dia e, principalmente, aqueles que, ausentes da possibilidade de comer a simplicidade do arroz, se contentavam em beber a água que havia fervido o arroz. Beber a água do arroz, para muitos, era a única refeição. Quantos milhões de indianos desprotegidos de chuvas, desalimentados do sustento básico?

Seguindo a saga do arroz, um menino sai para tentar a sorte entre cidades com um único saco de suprimento: um saco de arroz. Ele era contrabandista do estimado produto. Junto a outros meninos, viajava de trem para transportar a mercadoria. A polícia estava de vigília e prometia a apreensão do contrabando e dos jovens obrigados a trabalhar como única maneira de driblar a fome. Algo visto em transformações sociais que lembram também os entregadores que transportam marmitas, lanches a grandes distâncias, mas ao mesmo tempo são impedidos de comer. Os "contrabandistas", como chamados pela polícia, se amontoam em vagão com adultos, são desamparados pelas leis, por elas apenas perseguidos. Convivem com adultos, provocam e apanham de adultos, vivem à margem de entrar sem pagar passagem e tentar fugir pela estrada dos trilhos, mesmo que os salvadores trens também possam servir de algozes, ao tentar cortar distância entre vagões enquanto os mesmos estão em movimento: um desequilíbrio pode ser fatal. É a vida de caminhar sobre brasas, sobre lâminas de facas, fazer malabarismo com canivetes para sobreviver; um dia a mão escapa.

Continuação da saga indiana nas lentes, na direção de Mrinal Sen, que dessa vez não assina o roteiro, a cargo de Samaresh Basu, Manik Bandopadhaya e outros, Calcutá 71 é o retrato da época setentista, mas com advertência da frase que encerra/abre cada capítulo, em imagens do filme trazidas abaixo. 

A nota final de Calcutá 71 repete Entrevista:

⭐⭐⭐⭐⭐





Interview (1970)

Filme da Índia, Interview é uma produção muito interessante. Traz imagens da época, de como era uma grande cidade indiana, no caso Calcutá. O personagem principal é um ator de verdade, o jovem adulto Ranjit Mallick. Ele vive com a mãe e com a irmã. O filme consiste na preparação de Mallick para a entrevista mais importante de sua vida, quando um tio lhe garantiu uma oportunidade de emprego. Tendo experiência com jornais, o jovem considera que a oportunidade estava no papo e que a entrevista seria apenas mera formalidade.

Em preto e branco, o filme lembra outros clássicos da época, produzidos, por exemplo, em França e Itália, os maiores vencedores de Oscar estrangeiros e de demais festivais na época. A direção e a assinatura de roteiro ficam a cargo de Mrinal Sen, diretor bengali que esteve vivo até recentemente, com sua morte ocorrida aos 95 anos.

Ao longo do dia, Ranjit Mallick passa por muitas peripécias, tendo em conta de que a missão que parecia simples, torna-se complexa. Desde atividades simples como fazer a barba e arrumar o cabelo até procurar seus amigos para conseguir terno e sapatos adequados, a principal tramoia do filme. A crítica social final é deveras válida, sobre como a sociedade capitalista, ainda mais no capitalismo tardio indiano, em meio a engatinhar pós superar a sugativa ocupação britânica, levava em conta a aparência acima das qualificações. A dificuldade para um jovem sair da vida extremamente simples de viver com a família em busca de um emprego em uma considerada importante multinacional - no começo do filme, o tio de Mallick afirma que os investimentos vinham da Escócia - também levantando a questão de até que ponto havia superação do domínio britânico.

O fluxo das vias, o trânsito desorganizado, os becos e pequenas ruas onde milhares de pessoas vivem, os bondes e os barbeiros abarrotados do vai e vem diário. A busca pela aparência correta, por um bom nó de gravata, por um terno sob medida - visto que o do pai de Mallick não lhe servia, o pai tinha muita pança e sobravam as calças.

Mallick se envolve na denúncia de um pequeno assaltante em um bonde e acompanha as testemunhas até a delegacia. Nisso precisa registrar rapidamente a queixa e ter tempo de realizar a entrevista na pontualidade das três da tarde. O terno torna-se o grande problema, pois o aspirante ao emprego esqueceu-o no vagão. Como recuperar o tecido perdido? Telefonar para quem? Quem poderá lhe socorrer?

Em instantes no filme, nas técnicas também ensaiadas no cinema europeu, Mallick rompe a parede, como é dita a expressão, e conversa com o público. São momentos interessantes de críticas sociais e questões suscitadas para audiência, convocada a participar. É o primeiro de uma série de alguns filmes recuperados de Mrinal Sen para assistir nos próximos dias. Sem promessas, novas críticas podem ser apresentadas na desbravação do cinema do agora país mais populoso do mundo, ao recentemente superar a China. 

Nota final para o filme Entrevista, dos bengalis:

⭐⭐⭐⭐⭐



30/06/2025

Huo Zhe (1994)

Filme chinês dirigido por Zhang Yimou. O título em inglês ficaria To Live. Em português, Tempo de Viver. É uma obra complexa em suas 2 horas e 12 minutos.

O personagem principal é Fughi (You Ge) e inicia com a trajetória nos anos 1940, tempo da Segunda Guerra, com o exército a recrutar combatentes contra os japoneses. Fughi é um jovem pai de família, pouco dedicado à esposa Jiazhen (Gong Li) e à sua pequena filha e, nas dificuldades de obter renda e sustento, é viciado em jogos de azar: jogo de dados. Ele aposta em demasia mesmo que a esposa o alertasse. Acaba por perder a casa onde vivem, propriedade que era de seu pai, então ainda vivo. Abatido, adoentado com a desgraça da perda, o pai ainda o condena pelas palavras, sofre um ataque e cai morto. É apenas o início do drama. Em seguida, Fughi precisa ir para frente de guerra, em meio à neve do inverno e com outros combatentes. Aprende os extremos da vida, vê batalhões inteiros serem dizimados. 

Capturado pelos japoneses, sua arte em lidar com fantoches chineses entretém os guerrilheiros adversários, que poupam sua vida. Ele finalmente conseguirá voltar para casa. No tempo em que esteve fora, enquanto sua esposa se desdobrava para manter a família, sua filha teve uma doença grave, com a qual infectou a garganta e perdeu a voz. Seu filho pequeno, com o qual a mulher ameaçava abandonar Fughi, já está caminhando. Uma reviravolta é quando o apostador de dados que herdara a casa de Fughi é acusado por conter a propriedade privada diante do novo regime, da revolução chinesa que colocou Mao no poder. Se não tivesse perdido a casa nas apostas, Fughi igualmente perderia a propriedade para a requisição do Estado. Sem entregar a casa, o apostador foi condenado a ser baleado.

O filme transpassa as décadas e traz temáticas comuns à vida chinesa. O desenvolvimento comunitário, as restrições e regulamentos do regime comunista, a expansão econômica através da demasiada produção de aço; o trabalho infantil denotado disso. O drama familiar de encarar a adversidade aos filhos, o machismo que delegava às mulheres uma posição submissa e de casamentos arranjados; uma sociedade que migrava do predomínio agrário ao industrial; o vício nos jogos de azar, prática comum também ao mundo ocidental. A dificuldade para manter um relacionamento diante desse vício; a travessia de gerações, desde a morte do pai de Fughi até o desenvolvimento de seus descendentes.

O drama é bastante forte em algumas partes do filme. O humor é escasso. A base do filme é o desenvolvimento de situações adversas para serem superadas, agoniadas, vividas e talvez vencidas por Fughi e sua esposa. Drama familiar que acompanha o desenvolvimento, as controvérsias do regime chinês. Não é uma crítica grosseira, escrachada, traz sutilezas, suscita dúvidas, amplia debates, se inscreve nas diretrizes do que o povo chinês passou e pode passar, com bons e mau momentos, alternados como a vida. Da alimentação básica à necessidade de regulamentações no trabalho, de que a expansão não pode ser a qualquer custo, ao custo de vidas humanas, da necessidade de que a saúde seja enxergada com mais prioridade, mais carinho e dedicação pelo governo.

Apesar de lançado em 1994, passados 30 anos, o filme chinês ainda abre e reabre debates sobre ideologias políticas, erros e acertos, repercussões que podem ser feitas abertamente onde não haja restrição da possibilidade de críticas: e no Brasil há possibilidades, tanto que aqui são publicadas essas análises. Analisar que o Brasil não possui liberdade de expressão, ou que ela esteja ameaçada e controlada nas redes, é um equívoco interpretado por quem defende, provavelmente, quem se beneficia pela propagação de mentiras e difamações criminosas. A regulação é contra crimes contra outrem, não para restringir o uso da opinião; é para criminalizar crimes de ódio e leso a minorias sociais e indivíduos, não para encerrar debates e possibilidade de oposição. Para quem tenha dúvida sobre a impossibilidade de oposição, que assista aos momentos deste filme em que Mao não pode ser criticado, que o regime não possa ser duvidado ou rebatido, com a pena prevista até a morte ou a prisão definitiva. Isso sim caracteriza restrições máximas dignas ao caráter de ditadura. Esta semana também foi tempo de conferir um novo filme brasileiro sobre a ditadura militar (1964-1985), chamado A Batalha da Rua Maria Antônia, em que a polícia militar certa prédio e combate estudantes universitários e secundaristas durante o ano de 1968, na capital São Paulo. São exemplos de episódios ditatoriais, diferente do que alegam sobre a história recente em regulação de redes sociais no Brasil. 

26/06/2025

Inverno Litoral

As ruas no inverno enrugadas 

E as folhas desfraldadas 

Pelas calçadas 

E os esgotos na cidade ninguém conserta

E pelas ruas um carro não dá a seta

E a cidade assim tão deserta


A umidade, a pista molhada

As dunas crescem sem adversário

A fauna hiberna escondida

Só surgirá quando estiver esquecida


Dias cinzas, guarda-chuvas duplos 

A tarde vai vestida de luto

Amiga é um café, um café, um suco

A marca da roupa, o preço, insulto 

As marquises, guarda-chuvas, tumulto


No inverno quase zero movimento

Ruas vão mal iluminadas

Asfalto esburacou pro porto

Lá é caminhão a torto e a direito


Containers contém os IOS

A preços que o pobre não merece

Que o rico taxa 

Não paga e se esquece


As ondas da maré que abocanha 

A duna que é o abrigo dazaranha 

O som que não falha hasta mañana 

O som que não falha hasta mañana


25/06/2025

Adeus, Pai (1996)

Sigo rendido ao cinema de Portugal. Um pouco surpreso, um pouco não, porque um país com tantos conflitos, contradições históricas e sanguíneas, formado e influenciado por diferentes povos deve ter o que contar. O diretor Luis Filipe Rocha provavelmente investe no autobiográfico para contar a história do pequeno Filipe, que sente o pai ausente e, somente aos 13 anos, corre atrás do tempo perdido com seu progenitor. Na verdade, o pai sente que tem um filho e por isso tira férias do escritório de advocacia e ministra um tempo com Filipe em uma viagem especial para o arquipélago dos Açores, região com entre 200 e 300 mil habitantes, conhecida por simplicidade, destino para vacaciones e belas paisagens. Arquipélago que resultou em muitas navegações e colonizações passadas.

Tema presente para Portugal, a relação com as colônias africanas também é abordada. É um motorista que de lá veio. Há também um cadeirante que na guerra foi salvo por um africano, após ter matado muitos nativos. O africano que salvou o cadeirante, conduzindo-o por dois dias em seus esforçados ombros até o acampamento mais próximo, pediu para que o deficiente nem lhe agradecesse. Pois o ferimento e a lástima pelo que havia feito no território o acompanhariam para sempre. E assim ele segue a contar essa passagem para todos que o conhecem. Sujeito que dessa forma ganhou o apelido de Rodinhas. "Dito isso, alguém quer pagar uma cerveja ao Rodinhas aqui?"

Filipe apaixona-se por uma violinista um pouco mais velha, chamada Joana. O irmão de Joana logo percebe, tendo 14 anos e nenhum pudor, o irmão da rapariga passa a ensinar conselhos amorosos ao garoto, enchendo-lhe de ideias novas, desde masturbação a tentar entender a cabeça das mulheres. Assim desenvolvido no assunto que lhe faltava com o pai, Filipe passa a conversar com o velho sobre esses temas, causando embaraço, constrangimento, mas também divina aproximação. Ele entende o conflito de sua geração. O pai trabalhava no escritório do sogro e se encantou pela que seria a mãe de Filipe. O menino já entendia como funcionava o processo. Com a filha grávida do mero estagiário, o avô de Filipe não queria ganhar o neto. A moça contrariou a decisão e resolveu ter o bebê: assim nasceu o protagonista Filipe, filho de um estagiário em advocacia e da filha do responsável pelo escritório.

Em diálogos duros e frios, o pai explica a Filipe que na época preferia não tê-lo, que sentia que filhos prendem as decisões da vida. Tudo é abordado de uma forma de tamanha crueza. O menino, porém, reage bem e o aprendizado faz parte de seu desenvolvimento, cativando também muita empatia por parte do público.

O filme com foco no amadurecimento traz Filipe diante de seu primeiro amor, vindo à primeira vista. O aprendizado que ele tem com um adolescente mais velho do que ele, o safado irmão de Joana. A comparação com outras histórias: a proprietária da casa que alugaram havia perdido o pai, marinheiro, quando ela tinha apenas três anos - de nada lembrava, embora guardasse quadro, pintura e boas impressões do misterioso homem o qual a gerou. Já o pai da adolescente Joana tinha se apaixonado por outra mulher nos Estados Unidos e deixou os filhos. Filipe passa a perceber que sua história não era perfeita, mas a das pessoas à sua volta muito menos, tampouco. Por que não dar nova chance a quem ainda estava com ele? Como escolher entre a família próxima, com sua mãe e sua avó com que ele morava ainda em Lisboa, e o repentino e fortificado amor sentido em relação a Joana? As escolhas e renúncias são tema crucial no filme de Luis Filipe Rocha. 

Um Portugal que também amadurecia, agora em corner da Europa, sem impérios além-mar, reflexivo sobre os Açores, cercado de água, limitado por terra pela Espanha. Um Portugal com seus escritórios onde percorrem dinheiro dos ouros que de Brasis levaram, mas com novos filhos para criar, meio a novos africanos, velhas paisagens, velhas histórias, novas impressões. Outra vez rendido ao cinema português.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐⭐




19/06/2025

Será que os pássaros percebem a beleza que eles veem 

E que gostaríamos de ver?

14/06/2025

Notas sobre Fernanda Young

Descobri a Ana Amaral, Fernanda Young no documentário recente (2024) sobre sua vida, roteirista, escritora que se almejava e considerava assim desde antes da alfabetização. Criativa, rebelde, reconhecendo em si a crítica de que poderia ser egocêntrica, mas quem não é? Lidar de frente com isso é honesto e a palavra que marca sua trajetória: coragem.

Coragem não exclui o medo. Só não sente o medo quem está totalmente medicado, drogado ou já é louco de pedra. Nós com discernimento não somos assim. Fernanda era corajosa. 

Viveu entre Niterói e Rio de Janeiro, realidades que ela postulou como próximas e distantes. Aponto palavras e termos que ela própria usou, como autobiográfico. Acho interessante assim, porque rotular os demais é perigoso e quase sempre um tanto injusto. Lamento ou não pelas vezes em que faço isso e também somos vítimas.

O documentário traz passagens frasais de sua vida e história. Dá vontade de conhecer mais de sua obra. Até a inspiração desde os desenhos mais ou menos toscos que fazia, pois ela destaca: os desenhos vêm (na vida das pessoas) antes da palavra escrita. Isso é bem verdade. Seja na história da humanidade, das pinturas em cavernas, ou na vida dos bebês, das crianças, que antes podem desenhar ou reconhecer desenhos do que escrever o próprio nome. 

A relação dela com a procura de definições e situações para o amor é tema de autores, músicos, escritores, artistas que veneramos. Em certa altura ela questiona se do vazio enquanto não se ama brotam sentimentos negativos. E não é assim que vivemos e passamos o tempo amargurado em sociedade? Nos preocupando e enchendo-nos de distâncias, ânsias e repúdios; repugnar. 

Ela almejou por um tempo de diversão em que não houvesse reticências. E concluiu sobre a liberdade e a cura. De um coração quebrado, a cura é enxergar que não mais se espera pela perfeição que nem existe. 

Entre a idealização social da noiva vestida, se deseja na verdade a nudez. Abaixo das maquiagens, das fotos, dos sorrisos falsos, há um ser muito mais complexo. A liberdade é se desprender da imagem que a sociedade impõe. Fernanda enxergou isto.


12/06/2025

Primeiros filmes de Kiarostami + Clerks (1994)

Acompanhando uma coletânea com todos os filmes do diretor iraniano 🇮🇷 Abbas Kiarostami, as conclusões referentes aqui se devem até o 7⁰ filme do especialista. Ele iniciou a carreira com curtametragens de baixíssimo orçamento passou a desenvolver mais técnica, estilo e maior tempo de duração aos seus projetos. Em destaque, o 7⁰, primeiro com duração superior a uma hora, é O Relatório (1977).

Abbas tem características onipresentes em sua obra, na preferência de trabalhar e contar histórias a partir de personagens crianças ou, mesmo quando adultos, inocentes. Assim foram seus primeiros curtas, de um garoto perdido em um bairro desconhecido e de um garoto que isolou a bola de futebol dos amigos e fugiu para não sofrer as represálias, se escondendo e depois peregrinando pela beira de uma estrada. Em outras obras, destaque para O Terno do Casamento, o mais hilários dos vistos até aqui. Esse considerado média metragem de quase uma hora envolve garotos em seus serviços de aprendizes, mas, como nem sempre frequentavam escolas, seria considerado trabalho infantil na sociedade de hoje em dia. No Irã urbano, tratando-se da capital Teerã, muitos garotos, ao invés de estudar, se dedicavam a ofícios de ajudante, garçons, caixas, officeboys, serventes, vendedores e, no caso, ajudante de alfaiate.

Em O Terno do Casamento, um garoto com sua mãe encomendam um terno para ficar pronto na quinta-feira, quando haveria a consagração de um matrimônio na família. Outros dois garotos pedem ajuda ao ajudante do alfaiate para que este os alugue o terno antes que os clientes regressem e o levem em definitivo. Ou seja, queriam o terno na quarta-feira. A trama gira em torno dos pequenos inventando histórias e tentando sabotar um ao outro para que o ajudante do alfaiate os escolha para o empréstimo. São dois garotos disputando um terno, que, como visto, pertencia a nenhum deles. Várias peripécias até que se decida o vencedor, como farão para pegar o terno escondido, usar e devolverem até a hora limite da data limite. Suspense e emoção.

No curta chamado Experiência, um garoto, órfão, 14 anos, sem perspectiva na vida, trabalha num estúdio de fotografia, aceitando o abuso de autoridade por parte de seu chefe, que o deixava morar e dormir na loja, ao mesmo tempo em que nisso não havia conforto. A história cambia de rumo quando o garoto conhece uma adolescente de uma casa de classe média alta e deseja trabalhar na casa para ficar junto de sua obsessão. Verdades cruas pela frente nessa história de Abbas. Mais uma vez a crítica à sociedade e os sub-empregos, sub-condições sub-urbanas para jovens sem escolaridade e perspectivas. 

Finalmente no longametragem O Relatório, os empregos são criticados nos escritórios, na burocracia e na corrupção em que desenvolvem suas ocupações no serviço, seja privado ou público. O assunto do suborno, se deveria ser aceito ou não, percorre a trama. Um funcionário folgado e que também tomava conta de um cassino nas ausências de seu colega começa a ver o seu mundo desabar quando escorrega no emprego, é acusado, coagido e vê seu casamento ir por água abaixo em uma escalada de enlouquecer. Aluguel do apartamento atrasado, má relação com a esposa e mais os gritos da filha pequena tornam insustentável a situação na crise daquela meia idade. Recorrer a contatos obscuros ou à bebida em um boteco não parece suficiente para salvar o protagonista da catástrofe anunciada, ladeira abaixo no departamento do qual fazia parte e no casamento. Até é cômica a passagem em que leem sua situação de que não estaria todavia demitido, mas apenas "afastado por um tempo". Nuances e figuras de linguagem pata suavizar o caos no serviço burocrático.

Finalmente no drama/comédia norte-americano chamado Clerks (1994), dois jovens de 22 anos, Dante e Randal trabalham em lojas pequenas. Dante em uma lojinha de conveniências, frequentada por viciados em cigarro, pervertidos e clientes com perguntas idiotas, enquanto Randal é um atendente folgado em uma pequena locadora de vídeos, profissão inclusive praticamente abolida da humanidade à esta altura do século 21. Mas em 1994 ainda era comum e estava em alta.

Dante detesta sua rotina. Sonhou com o descanso no sábado da sua escala 6x1 (olha, temas atuais) para jogar uma partida de hóquei com os amigos, mas seu chefe o convocou para abrir e cuidar da loja durante a manhã. Período que se estende para tarde, impossibilitando o jogo e seu possível tempo com a namorada Veronica (alô, 12 de junho).  Até é interessante a escolha de nome do personagem. Dante estaria frequentando uma das etapas do inferno? Inclusive esse livro aparece em outro filme visto recente, um português chamado À Flor do Mar, de João Cesar Monteiro, mas esta é outra história.

Dante está insandecido pelo dia desgraçado que está levando e Randal, embora um grande amigo para ele, não consegue melhorar as notícias e atuações, mas muito pelo contrário. Randal, que trata mal seus clientes, fala pornografias, chega a cuspir em um senhor e, no que complicará Dante adiante no filme, vende cigarros para uma garotinha, este personagem honorário de tantas besteiras desempenhadas é o retrato de um jovem sem ambições na vida, que aceitou a cercania das desgraças e apenas tenta tirar proveito das situações como pode, ironizando os demais, tirando sarro e procurando trabalhar o mínimo possível nas funções às quais foi delegado. Dante, por outro lado, nota-se ainda ambicionar-se, seja no que aspira em sua relação com Veronica ou como trata de um ex-caso seu na escola, com uma moça que ele descobre, por meio de Randal e um anúncio de jornal, que estaria noiva de um asiático que trabalha no ascendente ramo de design. Portanto, Dante ainda possui ambições em relacionamento ou deixar o seu subemprego no subúrbio da cidade não nomeada, mas que, em descoberta de uma passagem policial, seria pertencente ao estado de Nova Jersey. 

O final do filme une as peripécias e críticas propostas por Kiarostami no, por vezes aliado, por vezes inimigo dos Estados Unidos, o Irã. A crítica ao tratamento e oportunidades destinadas aos jovens, sobretudo os de cidades menores e monótonas ou de cidades grandes, mas que não acompanham o universo dos estudos. E, mesmo os que estudam, como poderiam acompanhar o ritmo dos melhores empregos em sociedades tomadas pelo nepotismo, as corrupções e burocratas? E o desfecho dessa droga toda? Randal, que apesar de sarcástico, transbordava muitas verdades na cara de Dante, como reza a lenda assim um amigo deve ser, sem passar a mão no cabelo diante das desgraças que se avizinham, este personagem interpreta as falas colocadas abaixo da crítica/resenha, com reflexões que podem ser feitas por quem viu os filmes ou apenas leu estas pretendidas linhas que esperam ser lidas por ínfimo público no mundo, a exemplo de locadoras péssimas ou lojinhas de conveniências, ou departamentos escondidos em repartições públicas, ou cúbicos onde trabalham alfaiates, estúdios fotográficos e seus ajudantes menosprezados. Estamos todos juntos nessa droga, Randal. 

Primeiras obras de Abbas Kiarostami variam entre
⭐⭐⭐⭐ e ⭐⭐⭐⭐½

Clerks (1994)
Direção se Kevin Smith
⭐⭐⭐⭐






09/06/2025

Todo Modo (1976)

Com elenco recheado de estrelas do cinema italiano, o longa (2h05) Todo Modo, com direção de Elio Petri, conta os entrelaços de igreja e política na Itália. De forma humorada e exagerada, a tensão ora cresce, ora se dissipa quando figurões da política e da religião Católica se encontram em exercícios de fé, em uma espécie de retiro, distante dos holofotes dos jornais e das grandes cidades italianas.

Após a queda do Fascismo com a derrota na Segunda Guerra Mundial, a Itália passou a ter dois partidos de maior força, um mais progressivista e outro mais conservador, sob a doutrina e a asa da Igreja Católica. Sem usar nomes oficiais sequer para identificar qual seria o Partido do filme, a ligação é evidente. Quando mencionam durante todo o filme sobre afirmados 30 anos de poder, é ao conservador que se referem. Justamente o tempo entre a queda da Segunda Guerra e a realização do filme de Petri. 

Os velhos brancos, engravatados e de terno se reúnem em um fim de semana para rezas, mas também, cada qual tramando em seu quarto, para um perigoso jogo de gato e rato em acerto de contas. Dom Gaetano é o padre principal que organiza o cronograma e as realizações cristãs do encontro. Logo ao começo uma cena entre ele e o dito Presidente (provavelmente mencionado assim por dirigir o Partido) dá indícios de uma relação homossexual entre ambos. O filme é repleto de sátiras. 

Os políticos e religiosos lavam as mãos nesses encontros. O Partido é tomado por donos de empresas, banqueiros, empresários e influenciadores do sub-mundo financeiro. Do meio para o fim da história aparecem, também de forma satírica, uma verdadeira salada de siglas para tentar compreender quais empresas estariam envolvidas e na reta dos escândalos. A tensão passou a tomar conta quando ocorre a primeira morte. Um investigador é contratado para entrar em cena, enquanto o escândalo ainda é abafado das famílias, dos populares e dos jornais.

Tão logo chega o investidor, os homens de terno demonstram seus temores, suas inseguranças, no velho ditado de quem não deve, não teme. Mas como ali estão figurões dos mais corruptos da Europa, o aspecto de máfia se sobressai e o pânico se instaura. A crítica proposta é conhecida pelos problemas de corrupção que a Itália sempre atravessou, além de burocracias e nepotismos, heranças que parece terem sido bem transportadas com os imigrantes ao nosso Brasil. O nepotismo aparece com maior força em cena para o final do filme, quando cobranças de esquemas vêm à tona e ninguém mais mantém a calma durante o alarido das investigações e consequências.

A ligação entre igreja e política denuncia tanto uma instituição quanto a outra, a do Partido. O próprio Dom Gaetano afirma que se a Igreja Católica logrou êxito nos últimos séculos foi mais por competência dos padres ruins do que dos bons. O suficiente para bom entendedor.

Além dos escândalos financeiros e da possível tentativa de eliminar denunciantes ou opositores, ainda percorrem o filme os escândalos sexuais, outro tormento para as instituições lidarem e se protegerem das investigações e da opinião pública. O comentário sobre o filme vem em imaculado momento, pois recém divulgaram-se os dados sobre as religiões em território do Brasil, com o catolicismo ainda sobressaindo na casa dos 56% das pessoas, queda em relação a outras pesquisas, mas o suficiente para manter vantagem sobre o crescimento dos evangélicos, já representantes de pelo menos um quarto da população brasileira. Os sem religião representariam cerca de 10%.

A ligação entre Igreja e Estado (Política) no filme italiano denuncia as hipocrisias, farsas, inaptidões e desinteresse dos engravatados pelos reais problemas de sua população, enquanto miram lucro e boas relações interpessoais para vantagens exclusivas. Em um momento de crise, após o estopim dos problemas no encontro, alguns dos políticos discutem os problemas e se não seria vantagem então pular o muro rumo à oposição, pois os riscos de permanecer no Partido em crise eram evidentes.

Escândalos financeiros, interpessoais, acusações, falsidade, escândalos sexuais, tentativa de manter a ordem e as práticas de doutrina: tudo isso se encontra nas confusões reservadas ao filme Todo Modo, nome importante e que deve ser prestado atenção para descobre os enigmas que envolvem essas corruptas instituições mandatárias secularmente na maior parte da Europa, antes mesmo de unirem os fragmentos e a Itália ser Itália, visto que o país é relativamente novo, saindo dos impérios e denominações feudais rumo às fragilidades ditas democráticas.

Drama, comédia, suspense e até o terror dos cadáveres estão reservados em Todo Modo, um filme que desafia as instituições regulamentadas a exercer o poder, denuncia práticas obscuras sem citar nomes oficiais, apenas alguns símbolos, sem crucificar quem já não estivesse crucificado há quase dois mil anos do prazo de lançamento em 1976. Aventura sagrada e profana muito bem-vinda na exploração de diferentes temas.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐½

05/06/2025

Doente de si mesma + A Substância

O filme norueguês "Doente de mim mesma" (2022, direção de Kristoffer Borgli) é comparável ao de maior sucesso recente, A Substância (Estados Unidos, 2024, direção de Coralie Fargeat). No filme escandinavo, Signe tem um relacionamento competitivo e pouco saudável com Thomas. Mas tudo vem a piorar.

Com problemas familiares e necessitada de atenção e sentimento de sucesso, Signe procura uma saída rumo aos holofotes ao tomar um medicamento russo, estrangeiro, proibido, que causa feridas severas no corpo. Ela toma em overdose e isso a coloca à beira da morte e com uma condição cutânea das mais lamentáveis. O aspecto grotesco acompanha o desenrolar do filme. À medida que o espectador se acostuma, os movimentos do filme até se tornam cômicos pelos exageros. Os personagens são caricatos e extravagantes. Signe é, na verdade, uma mentirosa compulsiva, que forja sua própria doença através dos desconhecidos medicamentos, não identificados pelos poucos médicos com os quais ela consulta, justo que não queria curar-se, pelo contrário. Passa por algumas internações, exames e sai enfaixada para ocultar as graves feridas.

O filme então questiona diferentes pontos da sociedade. O traficante de classe média que mora com a mãe e fornece as drogas para protagonista. Também oportunista e mentiroso compulsivo, ele justifica o envio de pornografia para Signe pois teria supostamente conhecido uma garota por aplicativo de relacionamento e o nome dela ficava imediatamente acima ou abaixo de Signe na lista de contatos. Envio por engano, sabemos. Para proteger de onde conseguiu as drogas, Signe chega a inventar que o traficante vizinho inclusive teria morrido. Tudo para não levantar suspeitas de seu plano maquiavélico. 

Entre as críticas mais suaves ou escrachadas, a indústria farmacêutica que cura doenças provocando outras, cura sintomas e gera novos. A medicina incapaz de diagnosticar. A sociedade capitalista que impõe necessidades financeiras e de sucesso. Os jovens que se cobram em demasia e sentem as necessidades de serem considerados especiais. O preço descontrolado da fama a qualquer custo na era digital. Signe tenta demonstrar na internet que é uma vítima, que está bem. Tenta desesperadamente alavancar uma carreira de modelo, por meio de uma marca que apresenta-se moderna ao mercado por oportunizar PCDs.

Além da rejeição de seu pai, o relacionamento com Thomas é foco, é problemático. O namorado se diz artista, mas na verdade ele e Signe apenas roubavam cadeiras, estofados, os mudavam de posição e consideravam obras de arte. Uma crítica também ao subjetivo artístico desmiolado, non-sense. Thomas usufrui de alguma fama, é requisitado para exposições em salões e entrevistas em revistas e Signe o inveja, se sente improdutiva sendo ela atendente de um café, sente-se escanteada, degraus abaixo no sistema compulsório. 

A partir disso, a corrida para se vitimizar e ser valorizada é essa corrida desenfreada para uma glória de mentiras e, como sabemos, mentiras temporárias que vestem calças em tamanho pequeno. Apesar dos exageros, ou justamente por eles, Doente de si mesma ganha uma nota 4 estrelas por abordar tantas problemáticas, com humor, terror, exageros típicos da era digital e críticas ora veladas, ora escrachadas.

O comparativo com o mais conhecido A Substância é válido, pois neste filme estadunidense a abordagem é pela indústria do corpo perfeito, os holofotes, os quinze minutos de fama, o sucesso a partir da televisão. A luta das mulheres para se encaixarem em um padrão abusivo, competitivo, sórdido, tão rápido atingido como substituído e obsoleto. Obsolescência programada. Em resumo, no filme uma famosa apresentadora e modelo começa a envelhecer, recebe, ilegalmente, a exemplo de "Doente de mim mesma", uma substância misteriosa que promete ser uma fonte da juventude. Ela acaba com um duplo, saindo de seu corpo, no mais alto padrão da separação biológica, em cenas marcantes para história do cinema, mas sua versão mais jovem também é competitiva e exige mais poder, mais beleza, mais jovialidade. Elas competem entre si em um mundo que coloca as mulheres, as pessoas umas contra as outras pelo brilho e o estrelato, com ênfase no hollywoodiano de Los Angeles, onde se passa a estória.

A crítica ao mundo comandado pelos homens de terno e idade a exigirem corpos impossíveis, plásticos para televisão e não respeitarem o envelhecimento alheio. O comportamento abusivo e muitas vezes tosco das personagens aproxima os dois filmes. A mescla de gêneros cinematográficos entre o humor, o drama, o terror, o grotesco todavia a mostrar-se. 

Com notas semelhantes pelo site brasileiro de análises fílmicas, Filmow, Doente de mim mesma (3,8) e A Substância (3,9) são recomendações da década para discutir padrões de beleza, indústrias e competições, sociedade do espetáculo, sociedade do cansaço e afins. Assistam com estômago preparado a cenas grotescas e extravagantes, não recomendadas a menores de 16 anos.

Doente de si mesma ⭐⭐⭐⭐
A Substância ⭐⭐⭐½

Imagens abaixo: reprodução dos filmes



30/05/2025

O avô de seu bisavô

O avô de seu bisavô era escravo.

Ou era senhor proprietário de escravos. Um escravocrata.

Ou era agressor. Bêbado.

Marinheiro ou portuário. Ou estava aprendendo as novas ferramentas. Sonhando com um novo mundo. Morrendo em um velho mundo.

O avô de seu bisavô era um europeu antissemita.

Era um racista ou talvez nunca tivesse visto um negro.

Ou veio ao Brasil de navio. Escravo. Ou era neto de quem veio ao Brasil. De navio. Escravo.

Ou se revoltou com as monarquias. Ou serviu as monarquias. Ou comprou escravos. Ou trabalhou com escravos. Ou teria direito a terras. Ou teria direito a nada.

O avô de seu bisavô talvez se achasse mais importante do que outros. Que teria mais direitos. Sobre as propriedades de terra. Sobre pessoas. Sobre a esposa arranjada. Sobre a esposa comprada. Sobre a venda da alma da filha. Para outra família. Que ele escolhesse.

O bisavô de seu bisavô talvez fosse angolano. Mas nem existia o país. Talvez fosse moçambicano. Mas nem existia o país. Talvez fosse camaronês. Mas nem existia o país. Talvez fosse ganês. Mas nem existia o país. Era de alguma aldeia ou de alguma etnia. Era de guerrear na própria África. Ou era da paz. Não mais.

O bisavô de seu bisavô era indígena. Ou trabalhou escravo ao lado de indígenas. Ou caçou indígenas. Ou lavou as mãos nos afluentes brasileiros.

O avô de seu bisavô te daria orgulho e resistência. Ou vergonha. Ou ele não te entenderia. Nem mais entenderia o mundo tão mais profundo. Será? Mas a maioria nem pensa nisso. Segue o fluxo e as leis vigentes. Mais uma geração de gente. Quantas mais? Quem será o último neto?

27/05/2025

Em uma rede social a sua foto de perfil estava tão bela que eu ampliei as partes do seu rosto até não haver distinção e contornos. Eram somente pixels. Nenhuma definição. Talvez sejamos assim, né? Apanhado de células, bactérias, ou só átomos misturados.

Será que é assim que se perde a razão? Se amplia tanto a pessoa que nada mais se enxerga? Contigo senti assim.

22/05/2025

Grande Liberdade + Noite de Sexta, Manhã de Sábado

Costumo considerar que sou agraciado ou desgraçado por mais coincidências do que a maioria das pessoas. Mas também sou mais observador, é bem verdade. Ao assistir filmes em sequência, coincidentemente estabeleço conexões entre eles.

Em Grande Liberdade, filme austríaco/alemão logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, o cidadão Hans Hoffmann seguidamente é prisioneiro pelo crime do parágrafo 175: atos homossexuais. O filme traz uma perspectiva nova em relação ao que observo das histórias prisionais: a perspectiva do homossexual. Negligenciado e até temido por outros carcerários. Esculachado, corajoso. Há quem negue dividir celas como se ali se tratasse de um cometedor hediondo. Há quem se aproxime por experimentação ou jogos de sedução. Como funciona a mente do sujeito enquanto está de cárcere?

As costumeiras manobras para escapar da prisão em muitas películas, em Grande Liberdade tornam-se maneiras de driblar a fiscalização para namorar um pouco. Curtir uma noite. Dividir uma cela, enviar presentes. Seria o amor um crime? Hans Hoffmann desafia corações, tempo de cárcere, novos crimes dentro de um espaço já reservado aos criminosos. Encontrará ele o amor ou apenas aventuras obsessivas? E o quanto isso muda para nós prisioneiros do lado de fora? Homo ou heterossexuais?

O virtuoso Hans chega a preferir a prisão a estar preso fora das grades sem um grande amor. Dramático. Em Noite de Sexta, Manhã de Sábado, o diretor recifense Kleber Mendonça Filho, aclamado por Bacurau, Aquarius, Retratos Fantasmas e outros filmes voltados aos espaços e temas de suas origens, traz essa trama do curta centrada no casal Pedro e Dasha. Pedro está nas ruas do Recife em uma noite de sexta-feira, como condiz o nome. Dasha, no exterior, acorda pela madrugada, amanhecer de sábado. Pedro lamenta poder tê-la acordado com a ligação telefônica, após ser consumido pela solidão de uma festa. 

Pedro circula a noite recifense, encontra um posto 24 horas para nova ligação. Os telefones celulares dos atores são arcaicos para pensar na nova era dos smartphones. Ligações de voz eram a tônica. Eles se encontram mesmo a milhares de quilômetros. Ouvir a voz um do outro, mergulhar pés nas areias de mar ou de rio, onde amanhece Pedro podendo ser assaltado no lusco-fusco do Recife, uma das capitais mais violentas do Brasil. Onde Dasha tenta relembrar com ele as ruas da capital cosmopolita onde está, e onde passaram algum tempo juntos, ao que tudo indica o labirinto de lembranças: as saudades.

Os atores apresentam sintonia. Sintonia que uma simples ligação de voz pode ou não oferecer. No inglês enferrujado e tímido de Pedro com a acostumada estrangeira Dasha, seja de onde Dasha for, com esse nome meio russo, com os 20 graus que ela afirma serem o verão de onde está. E o que importa realmente onde esteja? Importa a Pedro saber o telefone dela, com ela conversar. Os atrativos da era pré-smartphoneana. O prazer de encontrar uma sonhada mesma água, mesma areia, mesma vibe. Uma verdadeira mesma lua, mesmo sol, mesmas estrelas. Quantas vezes pensamos ver o mesmo que as pessoas que estão distantes? em outros fusos, inclusos.

Em Grande Liberdade, reunem os presos numa única cena mais para final, em que assistem ao televisor que exibe os primeiros passos do homem à lua. Cena que Hans esperava mais marcante, mais poética. Seu companheiro de cela queria alienígenas e tudo o mais. Quem saberia como era o universo naquela época das primeiras imagens transmitidas via satélite? Até hoje há quem duvide da Terra redonda e azul predominante dos mares.

Para Hans Hoffmann não interessava a distância para fora das grades ou até a Lua, se o amor se apresentava para ele em meio às ferrugens, nos pequenos intervalos para banho de sol pela vitamina D, em noites improvisadas após provocar os guardas com erros de contagem. Amor que custava o enfrentamento da cela solitária em represália de seu crime favorito. Ao Pedro, na liberdade da noite de Recife, mais valia pagar o alto preço da ligação internacional para Dasha do outro lado do mundo. E quem de nós solitários do mundo tem coragem e certeza e audácia para condenar? Condenar o amor entre as grades ou do outro lado do planeta azul. Ou onde for.

18/05/2025

Buena Vista Social Club

Pelas ruas de Havana

Eu me vou desde pequeno

Ou me disse uma cigana

Ou foi um outro moreno 

Se não fosse Havana

Preferia fosse a morte

A Santiago de Cuba 

O meu abraço mais forte


A Santiago de Cuba

Santiago de Rio Grande

A Santiago de Chile 

Ou por onde mais deixei amante 


Jamais deixei de amar-te 

A arte dessa salsa

Jamais em alguma balsa

Jamais deixei de amar-te

Tú eres mi à la carte 


Ao controle dos cartéis 

E dos papéis das autoridades

Quero nos meus registros

O meu crime de amar-te

Quero anunciado em alto-falantes 

Quero que conste nos autos 

Os meus prantos de saudade 

O meu crime de amar-te


Jamais deixei de amar-te 

Pela arte dessa salsa

Jamais em alguma balsa

Jamais deixei de amar-te

Tú siempre mi à la carte 


Te dedico o sol que me nasce

Te dedico as minhas preces

Mesmo que nada aconteça

Te dedico más de mil veces 

Tus besos son lo que me vale 

Por lo vale de la utopía 


Te dedico o dia que me nasce 

O amanhã e o mesmo de julho 

Te dedico calendários 

Aqueles que ainda nem penduro 


A Santiago de Cuba 

E toda sua luta

Buena Vista Social Club 

Som que me faz permuta

15/05/2025

Há algumas espécies de filmes ou documentários baseados em homenagens preocupadas em serem feitas em vida, como se diz. E conforme se tornam filmes ou documentários mais antigos, assiste-se sabendo que os então homenageados em vida já morreram. E isto é bastante triste.

Nessa passagem chamada vida, encontrei em algumas pessoas negras a bondade e a humildade que não consegui discernir nos melhores brancos.

Visto o Buena Vista Social Club, sobre a música cubana, documentário do imprescindível Wim Wenders.

Tenho

Tenho

Problemas médicos de todas as ordens

E até os médicos desistiriam 

Como uma criança além dos trilhos 

Abandonada à própria sorte


Tenho

A companhia como uma úlcera 

Algo que pulsa como um ser vivo

Tão nocivo 


Tenho 

A madrugada como o meu tempo

Um alento 

Como se os outros tempos não existissem 

Partissem 


Tenho 

A saúde perdida como um escambo 

Time acoado jogando na Argentina 

Sem mando

Sem brilhantina 

Caminha 


Tenho 

Os capítulos enlatados de final 

Tão fácil 

Prever o mal que já não tem raiz 

Tem galhos folhados 

Me diz o que eu fiz 

Se há outro lado

Que eu nado 

Um refugiado do próprio corpo 

Alado 

Desabado 

Fado


Tenho 

E às vezes nem me lembro 

O que mereço 

O que agradeço

Gessos 


Tenho

Metamorfose em último brilho 

Martírio 

Cílios sublinhados de lágrimas 

Feitas em fábrica 

Aguardando a última cartada

De nada 

06/05/2025

Samba bossa qualquer fossa

Vão seus olhos

Vão-se as vozes

Doses

Alucinógenos

Me dá mais desse negócio

Há nada melhor

Ao redor

Do mundo

Profundos

Escudos de realidade

Nada desde la navidad

Nenhuma novidade

Nada

Tudo adia 

Tudo ardia 

Nada, minha poesia

Brasas

Tudo tudo engasga 

Nem Lady Gaga no Rio 

Nenhum outro arrepio 

Nem um outro arrependimento

Nada mais se concretiza

No cimento dessa brisa

Nenhum outro tormento

Nenhuma outra coriza 

Nada más pide prisa 

Nenhum outro Uruguai 


Paranoico vivo eu

Nem mais estoico 

Nem mais heroico 

Do que posso ser

O que posso querer?

Se não você 

Se não você

Então você

Está...

Em qualquer outro lugar 

Deixa pra lá 

Deixa pra lá 

Deixa aqui

A saudade vai continuar


Samba - bossa - qualquer fossa

Trincheira dessa guerra cheia 

Chega fácil, chega míssil 

Sem avisar

Explode, ninguém acode

Morde no ponto fraco 

Morde forte sem suporte

Vou continuar 


Samba - bossa - qualquer fossa

Qualquer banco de praça

No Uruguai cesta chamam canastra

Nenhuma carta vai me fechar

Ferida erguida de solidão 

Dai-me os pontos 

Dai-me tua mão 

Vamos continuar



"Eu saúdo o milagre econômico, mas o que quero mostrar são as festas do bairro"

Em Chris Marker 🇨🇵 Sem Sol (1983), documentário a partir de anúncios que estavam em cartas escritas ao redor do mundo.

Um causo chamativo é de um casal de japoneses que foi até um ritual, um templo de adoração aos gatos. Nesse espaço, como se fosse um mural ou muro de homenagens aos bichanos, há esculturas de gatos brancos em algum material entre a cerâmica e a porcelana. São depositadas velas e orações. Após a curiosa manifestação, a explicação da ida do casal de idade avançada é emocionante. Sua gata não havia morrido, mas fugido de casa, sem paradeiro definido. Foram pedir benção e que ela seja protegida, para esta vida ou depois. Não sabem se está viva, mas quando morrer não saberão e não haverá quem ore por ela. É uma das súplicas mais pura possível em todo planeta. Chris Marker sempre sensível ao extremo, seja a cada animal selvagem que morra na seca da África, transformando savanas em desertos, ou para mostrar sorrisos islandeses naquela ilha tão distante, na cena de abertura do documentário.

05/05/2025

Frases do Dia

A memória não deve ser obrigação moral. Deixe que venha naturalmente. 


Os feitos revolucionários são suprimidos para esconder a real força de um povo.


Após leitura de Espelho das Cidades, de Henri Pierre Jeudy e assistir a Pesadelo Perfumado, filme sobre as Filipinas, respectivamente.

02/05/2025

De Jueves a Domingo (2012)

Primeiro filme da chilena 🇨🇱 Dominga Sotomayor, uma diretora já conhecida por sua alta sensibilidade em dramas lentos. São mais lentos do que a maioria das pessoas tolera, o que confere status Cult. A pré-adolescente Lucía viaja com seus pais para um fim de semana estendido, perfeitamente como se fosse este em que escrevo, entre o 1⁰ de maio dos trabalhadores e o fim de semana.

Ela tem um irmão mais novo e consideravelmente pentelho, Manuel. Seus pais iniciam a viagem no que parece mais um fim de semana familiar qualquer. O filme mescla tons de comédia com o drama infantil, mas sobretudo perpassa uma nostalgia de nossas infâncias. A identificação criada com a película é muito por conta das viagens de carro que eu mesmo presenciei ao longo da vida. Meu pai mais descontraído ao volante, minha mãe mais preocupada ao lado dele, como Ana se preocupava superprotetora ao filho Manuel. Minha irmã sendo mais velha, eu o mais novo. Dominga prepara uma direção sensível no filme, onde as respostas sempre se apresentam nos detalhes e sutilezas para o atento espectador. Ou para própria Lucía, observadora das conversas adultas.

Lucía desvenda os mistérios daquela viagem. Percebe o clima de apreensão entre o casal. Uma carona às jovens de recém completados 18 anos, causando incômodo na imagem da mãe, que logo reforça seus cremes faciais. Uma acusação sobre a empregada roubar joias, uma conversa sobre alugar um apartamento. Uma lembrança de infância do pai sobre aquela região do Chile quando tinha 7 anos, mesma idade do pequeno Manuel.

Brincadeiras de um amadurecimento, de Lucía herdar um terreno há muito não visto, sobre sua curiosidade para aprender a dirigir. Uma menina curiosa que nota as mudanças de comportamento de seus pais. O pai que atola o carro num trecho de riacho. Recebe ajuda de outrem. A mãe que conversa ao pé de ouvido com um amigo com o qual se encontra na estrada. As crianças, Manuel e o filho do amigo, brincam à parte desses acontecimentos mais sérios. Mais velha, Lucía não passa despercebida pela guinada na história.

A tensão final em uma conversa que dá a entender que o amigo apenas consolaria a mãe chamada Ana. O findar do casal então não parecia assim definitivo. Ela se desespera ao saber que o marido já havia alugado um apartamento (com a intenção deixa-los? Ao menos assim interpretei). Desesperada pela informação bombástica, Ana começa a caminhar sem rumo, fugidia no deserto chileno. Para quem o drama considerar muita água e demasiado açúcar, lágrimas de nostalgia, se não brotadas, ao menos informadas pela fábrica de que poderiam, na meteorologia dos olhos, cair. Para quem achar muita água com açúcar, a distração com as paisagens chilenas de retirar o fôlego são uma pedida. Manuel insistia, inconsolado, pela praia, mas as montanhas, a estrada, o mato e o deserto estão de bom tamanho. Um drama de amadurecimento infantil em que nos vemos em Lucía, seja por lembrança de idade, perspicácia, aventura, reflexões. Uma afeição construída pela centrada diretora sensível, seja autobiográfico ou não, o que pouco nos interessa à essa altura, espelhada e espalhada a imagem com o toque da empatia. 

Nota final: 4,5 / 5

 
Atenta aos fatos, Lucía percebe a separação de seus pais, em imagem no deserto em que a sensibilidade do jogo de câmera constrói a semi-ótica da cena: um para cada lado (Reprodução / De Jueves a Domingo, 2012)




01/05/2025

A Pista + A Erva do Rato

"Ele não sabia se inventava ou se sonhava"

Em "A Pista" - curta-metragem de Chris Marker (1962)

E não é a mesma coisa?

A obsessão aproxima tanto a singularidade que a suprime, a esfacela, objetifica a pessoa amada.

Passa a se conhecer mais a obsessão do eu-lírico/ narrador do que as reais condições, pensamentos e opiniões do ser idealizado. Quem está do outro lado? Como reage e se manifesta a tudo isso?

"A memória de um tempo duas vezes vivido"

Em A Pista, um homem é submetido a experiências de laboratório após a deflagração da terceira guerra mundial. A expectativa em polvorosa na Europa deveria ser grande para projetar essa realidade ficcional em pleno 1962, alguns 17 anos após o término da chamada segunda. O homem viajou no tempo nas experiências dos cientistas. Voltou ao passado para uma forte imagem de mulher na infância, algo que lhe conferia paz em meio a tempos bélicos.

Também foi projetado ao futuro, quando uma nova espécie de civilização rejeitava o que hoje consideraríamos civilizados, pois eles enxergaram esse tempo passado como sendo formado por bárbaros. Com somente um componente, uma caixinha de energia, o narrador confere que o viajante no tempo-espaço poderia alimentar toda a indústria humana daquele período do século XX.

A memória de um tempo vivido duas vezes surge como última lamentação daquele homem condenado a experiências, lembrança de Marker de um período recente em que os nazistas usavam seus prisioneiros como fontes de experimentos macabros. Apesar de ter a oportunidade de vivenciar acontecimentos como testemunha em dois tempos, o homem selecionado pelos cientistas, e portanto protagonista do curta, não passava de um mero instrumento para os experimentos de viagem no tempo.

E a nossa mente? O que nos assegura, sem podermos nos transportar em matéria a outros tempos, quem nos assegura que o passado assim foi como lembramos ou que o futuro assim será? Nos resta apenas a construção tijolo a tijolo do tempo presente, por mais cansativo, paliativo e mórbido que possa parecer, é o que nos existe. Será?

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Quanto à obsessão do homem em A Pista, me recorda ao filme que assisti recentemente  chamado "A Erva do Rato", um nacional com toques machadianos. A obsessão do personagem interpretado por Selton Mello pela mulher interpretada por Alessandra Negrini também anula as singularidades dela. As singularidades físicas dela são fotografadas dos mais variados e aproximados ângulos, mas me refiro às singularidades no sentido de como ela se sentiria, aprisionada e sem familiares, naquele ambiente estranho, usada para as concepções de fotografia que ele, antes e depois ainda solitário, projetava em laboratório de revelação de fotos.

Ela que no diálogo inicial, um dos poucos do filme, revelara ser professora. Mas quê tipo de professora? O que poderia ensinar e para quem? Anulada e escanteada, trancafiada em uma casa pelo obsessivo parceiro que lhe prometia os mais recatados cuidados até o fim de sua vida. Que assim se encaminharia em sequência do filme.

Em A Pista, posso pensar numa duplicidade de significado para esse nome entre a pista, como a de aterrissagem de um avião, que a banda uruguaia La Vela Puerca promete infinita, a pista entre o primeiro toque das rodas que já é passado, o caminho contínuo que é presente e o ponto de frenagem que nos é futuro. Ou podemos pensar no caminho do voo (aéreo) que aborda maior trajeto para essa metáfora. A Pista também que nos fica é sobre os segredos da mente humana, que apenas revela pistas, sem sua totalidade - inalcançável, impossível. São negativos de fotografias não revelados. A Pista também é deixar apenas pistas sobre quem era a mulher da obsessão do escolhido cobaia dos laboratórios subterrâneos de um mundo devastado pela radiação. E o risco da radiação desde 1962 que permanece como risco em 2025.

Sem ser o assunto principal em A Pista, minha interpretação baseada em vivências recentes confere as dúvidas do quanto uma situação é realidade e o quanto são projeções somente, projeções que anulam as manifestações legítimas de outrem; pessoas com direitos democráticos de pensar e des-oprimirem-se. Desopilarem. Fugirem das pilhérias aprisionantes que um pode formatar como armadilha.

Em A Pista, existe a mulher projetada nas visões, a quem quase nenhuma informação temos, mas também o homem aprisionado como cobaia pelos cientistas, do qual, embora rato de laboratório, sabemos o que ele pensa e projeta, afinal, é parte da transposição da experiência. Relatórios anotados.

28/04/2025

"Toda certeza é um mero fanatismo"

Os governos ou desgovernos que assumem e proferiam suas certezas enquanto oposição, não dão conta. Serão os hipócritas do amanhã. Não se sustentam. Não sustentam suas sistemáticas.

Os milagres econômicos logo se corroem. As produções em larga escala ainda dependem de muitas mãos que ganham pouco. Ou poucas mãos ocupadas enquanto outras tantas mãos queriam ocupação para depois se ocupar de comer.

26/04/2025

Pampa de teus olhos não me poupam

Queria interromper nunca o último café que tivemos. Sei que pra você nem foi o momento mais importante de atarefado dia, mas pra mim foi um momento que sinto dos mais importantes da minha vida. Às vezes me irrita e desencanta sua indiferença. Tenho que aquecer sempre água para dois e pelos dois.

Desculpe minha paixão assim tão repentina. Assisti a muitos filmes. Mas o que tem? Você também assistiu. Me desencanta que nossos filmes não coincidam o mesmo. Na vida tudo se resume e se dissolve a melhores momentos. Os meus não são os teus. Não são os nossos.

Iria ao mesmo café e pediria o mesmo que o teu infinitas vezes para reviver ou ao menos relembrar. Manter a boca do fogo acesa. Mas se  não queimei a boca em café, queimei meu nome no estabelecimento. Sou tão idiota que você nem imagina. Ou imagina e por isso se distancia. Mas nos entendíamos tão bem. Será que busco uma palavra sua para confirmar o porquê é não? E nenhum buquê e nenhum sermão resolvem. Será que eu quero ouvir suas palavras definitivas para poder mexer meus lábios de forma estranha, suspendê-los em meio a gesto incompleto? Inaceitando. Gesto labial como seguido fazia William Hurt nos filmes de nossos diretores favoritos. O seu diretor, a minha diretora belga, os nossos.

Desculpe confundir pronome tu com você, o que é teu, o que é seu, o que seria nosso. Desculpe confundir nenhuma outra contigo. A profundeza de seus olhos venceria a profundidade de todos aqueles copos descartáveis jogados ao lixo de um café. A profundeza de seus olhos me convidaria a infinitas sessões. A uma única seção: seus olhos. Olhar, sem cessar. Seus olhos talvez foram o que mais belo eu vi de tão perto. O café, a boca, queríamos um tanto mais. Queríamos eu e minha boca, exagerados. Eu e meus gestos, exagerados. Eu e meus exageros, que formam eu. Eu que firmaria meu nome ao teu. Sim, sim. Sim! Eu que formaria um nome: o nosso. Eu que me apaixonei por ti quando te vi me vendo. Quando te vi. De perto. Quando te ouvi: dizendo. Quando te perdi: deserto. Quando te revia em imaginação: incerto. Quando um dia irei me despedir de ti ainda sem desapaixonar: honesto.

Tu dizes que infinito é o pampa ou a sampa falsa de concreto. Infinitos são teus olhos e minha cólera longe deles. O cinema não acabou. A poesia não acabou. O amor que eu queria te dar não acabou. Quer mais café?

19/04/2025

Mustang (2015)

Aceito que filmes retratem todos os homens como idiotas porque acho que já fizeram filmes demais em que eles não são. Ou fizeram filmes demais em que as mulheres todas eram retratadas como idiotas e/ou histéricas.

Em um filme, as várias ideias de roteiro e desenvolvimento podem ser feitas pela produção, por mais gente. É diferente desse trabalho solitário a uma só mente feito pela escrita. O escritor, solitário, tendo de pensar em tudo.

Já percebi que um livro, para sociedade de hoje, é tempo demais a uma só voz, quando os aplicativos e redes sociais dão em shorts o tempo de alguns segundos para cada exibição, teoria, bobajada. Um livro são horas e dias geralmente dedicados a um único narrador, uma única voz. Intolerável para essa geração.

Sobre as ideias de roteiro, quem será que teve a ideia genial das cenas inicial e final do filme Mustang (2015)? E os sentimentos evocados a partir disso? O contraste, a solução, a volta por cima, a esperança? Tudo começa com a pequena Lale se despedindo da professora, que iria embora da cidadezinha delas para grande capital Istambul. Istambul seria a alternativa final para as irmãs prosperarem, se libertarem.

Mustang começa animador, libertador, com as meninas voltando da escola, brincando, se divertindo e buscando os primeiros flertes. Ao serem descobertas na aldeia, ficam difamadas e a família, envergonhada, começa a trancafia-las e a organizar os casamentos, antes que seja tarde, antes que, segundo eles pensam, percam a virgindade ou difamem mais aos familiares. Assim, são treinadas para serem donas de casa, cozinheiras, faxineiras e, é claro, esposas, inclusive não retomando os estudos, como as ex-colegas estranham suas ausências na escola local.

A vida das cinco irmãs, apesar de criadas juntas, sem os pais, com a avó, é bastante diferente. Seja em atitudes ou nos desfechos. Elas possuem personalidades distintas, um dos trunfos da trama, fator que não as resume em cinco menininhas, como se fossem homogêneas. Lale, a menor, conforme vai sobrando na casa, também ganha protagonismo. É rebelde, decidida, entusiasmada e não se dá por vencida.

A mais velha é a que consegue melhor destino, ou mais rápido se resolve, podendo até escolher seu marido, que grande vantagem! As demais não terão a mesma sorte, conforme evolui o roteiro. No desenvolvimento, a paixão de Lale pelo futebol ainda conduz as demais até uma partida grande em estádio, em que precisaram de fuga, de carona, de várias manobras, o que contribuiu com alguma comédia à trama. Os homens haviam brigado em estádio e a partida que desejavam ir era somente para mulheres, medida que até no Brasil já foi feita em partidas, como no estado do Paraná.

Sobre a proibição ou permissões restritas às mulheres de verem jogos de futebol na cultura do Oriente Médio, ver Offside (2006), sobre as meninas impedidas de ver o jogo decisivo para classificação do Irã para Copa do Mundo da Alemanha. Um filme entre o dramático, o documental e também a comédia. O filme em questão é iraniano e utiliza muito bem o cenário, os bastidores, as ordens militares e o olhar inocente e infantil perante os sonhos de absorver cultura e viver emoções.

Voltando a Mustang, cabe dizer que considero o filme mais complexo e culturalmente envolvente que o norte-americano As Virgens Suicidas, de direção de Sofia Coppola. A personalidade mais bem definida das meninas turcas contribui para essa conclusão. O envolvimento de cada uma com a situação, o como lidar, o que fazer trazem momentos angustiantes em que torcemos contra as injustiças que as cercam. Como não se emocionar com a prometida cena final da película?

Nota final, facilmente:

⭐⭐⭐⭐⭐


Chegada a Istambul com vista marcante para cidade, a esperança e o futuro
(Reprodução do filme Mustang)


14/04/2025

Two on the Edge (2021)

O filme japonês 🇯🇵, dirigido por Yusuke Kitaguchi, conta a história de duas garotas (ou serão três?) com dificuldades semelhantes e diferentes. Ainda muito criança, Otose Nishizono vivia com sua mãe e um padrasto violento, que, sem explicitar no filme, pode ter abusado da jovem. Ao menos tinha nenhum pudor, como visto, de usar o banheiro na frente da criança, o que já configura esse excesso.

Em uma noite, sem aguentar mais os maus tratos e o estado constantemente embriagado da mãe, Otose foge. Em uma casa que, segundo sinopse, fazia as vezes de um orfanato, ela permanece o restante da infância e alcança uma maioridade de 18 anos. Assim, deixa o cuidador Yoshi e as demais crianças e sai para procurar emprego, conseguindo a referência em um hotel chique. 

Paralelamente, uma cantora de um grupo tentando estourar em sucesso após pequenas exibições em casas noturnas (ou diurnas com iluminação artificial? São matreiros os japoneses). Ela faz o teste e descobre que está grávida. A jovem está grávida do produtor delas, uma espécie de agente, empresário. E abusador de suas tentativas de fonte de renda, portanto. Deixando claro que apesar do conflito-chave ser entre Otose e sua negligente mãe, existe a denúncia (em mais de um caso) sobre o comportamento abusivo dos homens.

A cantora tem o apoio, mesmo também existindo conflito, da sua mãe. Elas atendem em um pequeno restaurante, por onde Otose passa pela rua a caminho de seu novo apartamento, sente o cheiro de comida, namora a vitrine, mas nunca entrava. Isso muda quando a mãe de Otose descobre o paradeiro da filha. Yoshi, do orfanato improvisado, falha e, sem autorização do que gostaria Otose, fornece o novo local de trabalho de sua até então protegida. Sem mudar de seu passado nebuloso, a mãe de Otose a procura com a desculpa de estar feliz em vê-la, querer recomeçarem e passarem um tempo juntas. Mas tão logo vão a um café e confessa precisar de milhares de yenes (a moeda japonesa).

Otose desconfia, tem uma consciência que lhe sopra perguntas e soluções, quando congela estática. O conflito do drama japonês é bastante forte, ácido. Por vezes a jovem fica nas entranhas da pergunta entre matar ou morrer. O suicídio lhe aparece como saída possível. O emprego no hotel, por conta das reaparições da mãe bêbada, se torna insustentável. Cobrada pela gerência, só lhe resta sair pela porta dos fundos do prédio.

Ela acredita que não tem como ter uma vida digna enquanto viver sua mãe. Otose fica desestimulada e sem respostas e sem emprego. A dura vida acompanha a jovem cantora, que, após uma última apresentação, decide parar e se dedicar só ao restaurante, pensando na criação do bebê. Ela não avisa o produtor, que seguiria simplesmente sua vida em busca de outros talentos. Em uma passagem, a mãe da cantora alerta: "ser mãe não é como ser cantora. Não pode desistir". A jovem de pronto responde que sabe. Nessas horas fica a pergunta se a própria dona do restaurante, que criou a menina sozinha, não teria desistido. Isso se ela tivesse a opção.

São vidas diferente entre as meninas em conflito. Uma teve a mãe que a negligenciava e precisou fugir de casa. A outra, bem ou mal, teve o suporte caseiro. Uma nem mais sonhos parecia apresentar, queria apenas uma vida digna. A outra aspirava à fama, mas acabou tendo de contar com o básico da maternidade que se aproximava.

O filme traz a crítica quanto aos homens, mas também às possíveis negligências praticadas pelas mulheres - e suas enormes consequências. As dificuldades de mudar de vida na sociedade japonesa também estão em alguma camada presente no filme. A cena final de Otose desfrutando de certa liberdade com sua nova bicicleta demonstra esperança. Contrasta com a crítica a sociedades, como nos países do Oriente Médio em que as mulheres não podem usufruir de carteira de habilitação e, muitas vezes, sequer sair de casa de bicicleta. Lembra o filme "Wadja", sobre a menina árabe que sonhava ter uma bike.

Quanto ao questionamento sobre o nome do filme na presente resenha, seriam duas meninas (Otose e a cantora) ou três, contando a confusa e arrependida mãe de Otose como terceira vivendo ao limiar de caminhos difusos? Vidas que se atravessam nos desafios entre a superação e a continuidade.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐


Depois de ler Correio Literário - ou como se tornar (ou não) um escritor, em qualquer merda que eu escreva está a polonesa Wyslawa Szymborska apitando no meu ouvido, que acho que era o objetivo dela ou de quem preparou a coletânea para o livro.

09/04/2025

07/04/2025

Jeanne Dielman (1975)

Para muitos, a grande obra da cineasta belga e judaica Chantal Akerman. Confesso que Notícias de Casa e "Retrato de uma Garota do Fim dos Anos 60 em Bruxelas" me interessaram mais diretamente. Porém, ao completar a terceira parte de Jeanne Dielman, pois assisti em três pedaços, visto que é um filme de 3h21min, ao terminar de vê-lo me surgiu o insight de achar ter entendido o filme.

Jeanne Dielman tem a vida monótona e parada propositalmente no filme que nos encerra a ver. Sua rotina de dona de casa. Viúva, mãe solteira, apesar de não muita idade. O filho às vésperas de deixar o apartamento deles em zona central da Bruxelas que não conheço. O filho adolescente e pouco reagente à rotina da esforçada mãe. Ela que procura cozinhar, lava louça, cuida das roupas, da limpeza do apartamento, entre outras tarefas.

O pai do garoto morreu há poucos anos. Seria um anseio e uma naturalidade que Jeanne queira reconstrução e novas ocorrências. O filme se desenrola com ela obstinada a resolver o dia a dia. Assim adiando soluções maiores para sua trancafiada vida. Alguns diálogos entre ela e o filho revelam as barreiras da mulher criar o menino. Assuntos de puberdade e até de filosofia entre as gerações os escapam.

É interessante como filmes europeus muitas vezes ganham pela falta de diálogo e os muitos silêncios permitem a interpretação possivelmente correta. Assim foi na leitura anterior da Harmonia de Werckmeister, filme húngaro de Béla Tarr e sua esposa Ágnes Hranitzky. Em Chantal Akerman, os silêncios também são constância na maioria de suas obras. No "Retrato de uma Garota em Bruxelas", os jovens conversam mais efusivamente, em um raro encontro àqueles estranhos personagens deslocados de outras realidades. Enfim, em Jeanne Dielman, de 1975, o silêncio está vibrante, enlatado. 

Jeanne representa as mulheres que perderam seus maridos em guerras, que perderam seus maridos ao silêncio, à rotina, ao desmanche das relações que igrejas queriam eternas. Jeanne é a mulher fechada entre quatro paredes com mais funções do que lhe caberiam, do que caberiam às pessoas em suas individualidades e direitos.

Jeanne é uma luta contra outros silêncios. No encontro frustrado ao final do filme, passadas mais de três horas de película, o homem que está sobre ela e não ouve seus apelos, ou não quer ouvir. Assim, ela reage finalmente.

Antes, temos Jeanne relutando em suas tarefas diárias. A bebê que ela cuidava para alguma vizinha por algumas horas e Jeanne não conseguia fazê-la parar de chorar, em frustrantes cenas. Jeanne que precisava da cafeína para sua força cotidiana, mas passou a repunar café. Seu café, café de restaurantes. Jeanne que não conseguia achar um botão de casaco para seu filho, igual ao que sua irmã havia trazido da América do Norte, quando os visitara com sobrinho e tudo. O marido de Jeanne ainda era vivo, havia muitos anos esse episódio citado no apelo às impassíveis vendedoras belgas. Os botões se perderam. Os anos se vão. Quando essa mulher iria reagir, iria se frustrar, iria se reconstruir?

Após a parte final, compreendi mais o proposital tédio e o porquê muitos críticos consideram a obra marcante da cineasta belga Chantal Akerman, a qual eu quase confundo o nome com Jeanne Dielman, tamanhas citações ao filme.




06/04/2025

Harmonia de Werckmeister (2000)

A Harmonia de Werckmeister é um filme extraordinário de realização do cinema húngaro, especificamente do diretor Bela Tarr e sua esposa Agnes Hranitzky.

Em uma pequena cidade da Hungria, Jaros é um jovem trabalhador que se encanta por vários temas curiosos. Na cena inicial, demonstra aos bêbados em um bar sobre os funcionamento da astronomia básica, de como a Terra gira em torno do sol, gerando os dias e as estações do ano, e de como a Lua é seu satélite natural. Durante o filme, Jaros trata com pessoas mais velhas, as quais ele chama sempre por tio ou tia, sem sabermos o parentesco real que tenha com esses personagens. Um deles é uma espécie de tutor, que ensina conhecimentos variados, como a astronomia, e música, ao que batiza-se o filme com Harmonia de Werckmeister - um organista alemão, definidor de muitas propriedades musicais para os teclados.

A associação com a harmonia parte também da desarmonia que começa a imperar no filme. Um circo chega na cidade anunciando duas principais atrações: uma baleia e a presença de um nomeado príncipe. A aldeia se divide com a ideia da chegada dos forasteiros, uns o tanto preocupados, outros resolutos a conferir a novidade.

A baleia, por sua anatomia e pensar na falta de conhecimento prático marítimo do jovem adulto Jaros, leva à fascinação o personagem principal. Entretanto, muitas outras pessoas estavam interessadas nos discursos de ódio proferidos pelo dito príncipe. Com uma legião de seguidores, ele é o fio condutor da exploração das cidades visitadas, promovendo uma escalada de violência. As cenas mais grotescas ocorrem em espancamento em um hospital, sem poupar nem cortes, até que um velhinho desnudo faz com que os manifestantes cessem a onda de terror por seu aspecto frágil.

Nisso, Jaros e seus ditos 'tios' estavam em plena ação para mobilizar a população contra essa desordem dos forasteiros. Apesar da aquisição de assinaturas em um abaixo-assinado, nada poderia ser feito e os elementos são inclusive perseguidos. O paradigma do filme se desenvolve entre a desordem provocada pelo falso príncipe dos exploradores visitantes do circo e depois a "ordem" estabelecida pelo exército em "resgatar" a cidade. As imagens e os diálogos são frios e a dizimação e destruição da cidade são iminentes.

Jaros tenta fugir pois seu nome aparece, segundo é avisado, em uma lista. A perseguição não dura muito. O futuro é nebuloso como o forte inverno que age sobre as sombreadas terras húngaras.

Em um apêndice à escrita, há uma impressão tão forte no tio interpretado por Peter Fitz que parece até que esse personagem é um alter-ego experiente de Jaros Valuska. Ele mobiliza o jovem, rumina monólogos disfarçados de diálogos com Jaros, aparece como uma grande consciência a balbuciar tentativas de soluções e reparos, acerca da inóspita região húngara e filosoficamente sobre o mundo.

Impactante é a cena final do esquecimento do forte mamífero perante as atrocidades do ser humano na cidade, a resignação do velho tio diante da cena são avisos ultimatos sobre a escalada da barbárie humana, em um alarme ecológico, e ao mesmo tempo sobre o crescimento das manifestações fascistas na Europa e em todo o mundo. Com muita sensibilidade o casal de diretores definiu as diretrizes, os planos-sequência do estimado filme, cuja nota final só poderia desempenhar-se em resultar cinco estrelas.

⭐⭐⭐⭐⭐





03/04/2025

Funk

A favela, a produção 

O gosto é aderente 

Como é que vai gostar

Se não tem espaço pra gente?


Os estúdio, a produção 

É tudo muito bonito 

Mas com o batidão 

Da favela eu ainda fico


A indústria musical

É uma competição 

Enquanto na favela 

Vamo ouvindo os irmão 


Na favela a janela

Aqui segue aberta

E na selva deles

Eles fecha e ainda concreta


Os estúdio, o roquenrol 

É tudo muito bonito 

Mas com o batidão 

Da favela eu ainda fico 


Repara na beleza

Que a gente ainda preza

Aqui tem os devoto 

Onde a deles não chega


(Lá na deles os empresário 

Botam o pau na mesa

Aqui entre os irmão

Ainda existe gentileza)