19/10/2020

Medo dos Vivos

Tenho dúvidas se já explorei esse tema em tempos anteriores (obviamente), mas me proponho a esmiuçar ao menos um caso e citar outro. Mania feia a minha que desgosto os compromissos e já inicio essas linhas compromissado em relatar conforme informei que farei. O título remete ao segundo caso, mais curto, praticamente apenas a ser certificado, rubricado, ao final de página. Mas tem tudo a ver com a primeira situação, bairro Fragata, o bairro-cidade, na cidade de Pelotas.

Certa feita deixei meu trabalho mais cedo, quando cobria em assessoria de imprensa o clube da Avenida Duque de Caxias, a principal daquelas bandas. Gostava muito de fingir pegar o ônibus que me levaria ao centro, porém do centro necessitaria outro ônibus para casa, na ponta oposta da área urbana, no Areal. Somente eu para topar aquele emprego ingrato a troco de quase nada. Embora tenha-me dado parte do reconhecimento que timidamente desfruto. E também porque eu podia abandoná-lo a hora que quisesse em cada turno, justificado por outros secretos afazeres à chefia, como a desculpa por estudar, que eu tinha aula à noite. E assim saí, creio que em uma manhã ensolarada.

O Farroupilha é reconhecido como o Fantasma, tendo-o como mascote, além de ser o simpático tricolor da cidade. Um time das cores rio-grandenses, verde, vermelho e amarelo, mas que utiliza muito do branco, principalmente em seu segundo uniforme. O primeiro tem predominância verde, até porque os rivais locais são, respectivamente, um vermelho e outro amarelo. Melhor destacar os tons esmeraldas. Mas eu comentava que o Grêmio Atlético Farroupilha é o Fantasma e o apelido é bastante apropriado. O Fantasma pela proximidade entre sua sede na Duque de Caxias, 847, e o cemitério municipal de maior porte, o que contempla a maioria dos corpos e talvez almas da cidade, seus anonimatos e sub-celebridades, que colecionamos sub-celebridades.

Na proximidade com o cemitério, algo daquela manhã me atraiu para, quando circulava pela avenida, no concreto escaldante onde passam transeuntes e bicicletas pela avermelhada ciclofaixa, algo me sugeriu que eu devia dobrar para esquerda e, ao não haver sinal de carros, que ali muitos veículos passam na via, atravessei para a calçada sombria pelo cemitério que agora já se ergue em quarto andar pela quadra (àquela época eram só três).

Entrei pelos elevados portões cinzentos de ferro bem conservado, tamanha sua importância que ali testemunhavam entrar célebres encontros, reencontros e, é claro, o motivo maior, as despedidas. Aquelas arrebatadoras estruturas gradeadas levavam para o interior daquela úlcera e chaga interminável, onde alguns partiam para outros planos e a maioria ficava cabisbaixa a pigarrear e refletir sobre suas próprias existências. "Rômulo era tão jovem", "Ricardo há tanto eu não via", "Selma era tão querida", "não me despedi de Olga" e assim por diante. Pais, filhos, sobrinhos, primos distantes, parentes sem compartilhamento de mesmo sobrenome, amigos afastados, acompanhantes próximos, carregadores de caixões, portadores de discursos, trechos bíblicos, incensos e bitucas de cigarro pela caminhada irreversível.

Me certifiquei que ali nenhum velório ocorria e continuei percorrendo corredores em direção à parte que mais me toca, até porque lá que estão enterrados meus bisavós e demasiadas vezes percorri nos mesmos passos, com meus pés menores acompanhados de mão com meus pais ou em tons secretos de escondida brincadeira que eu meu interior conservava, porque embora achasse o cemitério grandioso e impactante, algo de misterioso e espetacular se acendia em mim com liberação de adrenalina. E assim repetia esses passos, naquele dia bem mais incertos do que certeiros das outras vezes. Tampouco, com a passagem dos anos, me recordo onde ficam os referidos túmulos de meus bisavós e seus parentes diretos, todos muito próximos em ala afastada para um jardim cada vez menos cuidado.

Nunca gostei da ideia de ser posto em uma parede, embora ali deveriam haver sepulcros de maior destaque na cidade e região. Letreiros correspondentes e melhores restauros e conservações. Minha tia-avó recentemente foi alojada nesse novo espaço após uma vida de 80 e poucos anos em mesma casa. Mas segui pelos corredores emparedados rumo aos fundos do referido cemitério São Franscisco de Paula - incluso padroeiro de Pelotas. Nome da principal catedral e também de avenida, na qual eu morava.

Para os fundos do cemitério predominantemente católico, mas também de abrigo protestante e judaico, por exemplo, havia ainda paredes bem menores, que muito se assemelhavam às dos quatro andares somente pelo método de depositar os corpos. Ali para o rumar aos fundos daquelas meio que duas quadras de extensão, ali estavam corpos e seus restos em estruturas verticais de aspectos similares a estantes. As estantes eram revestidas de pinturas esbranquiçadas, dando um tom monótono àquele trecho percorrido a pé.

Ao derradeiro da obra mórbida de natureza humana, estavam os jardins de grama cada vez mais entoada pelo crescer do mato, a escassez de antes primaveris flores. A extensão daquelas lápides até onde minha já deficitária vista (corrigida com 0,25 de grau em cada olho somente quatro anos depois) alcançava, formava um agradável cenário, como me gosta observar as grandes multidões. Por exemplo, em passeatas, estádios de futebol, protestos e, com menos afinco pela menor religiosidade, em procissões pelas graças de alguma santíssima entidade. Mas ali não era a multidão humana viva, pulsante, propriamente viva. Estavam depositados as cravadas pedras e suas inscrições, em que lemos muitas e lembramos poucas ou quase nenhuma, nos chamando atenção algumas mortes injustamente pregadas sobre corpos tão jovens, que nem consciência direito haviam tomado de nosso mundo. Embora algumas lápides de antigos tampouco poderiámos afirmar que viveram com a tomada de consciência. Mas isso é impossível tratar observando somente os túmulos - e mesmo que os abríssemos, nada revelariam, apenas vermes, organismos carcumidos e o revolver da terra.

Naquela espetacular visão, com a câmera em mãos, que eu havia já sacado da mochila da Nike que eu portava, comecei a percorrer o corredor principal entre tantos imóveis de pretensão eternizada enquanto nossa civilização assim durar. Os padrões de construções são distintos por poder orçamentário, condições financeiras, escolhas de cores, a gosto dos falecidos ou de opinião dos organizadores dos velórios e sepultamentos. Há túmulos violados, há pedras desgastadas, há vandalismo e também efeitos naturais de decomposição, atingindo abaixo e acima da terra.

Percorri alguns metros e fui parado por um dos trabalhadores daquela manhã, um dos cortadores de grama. Me chamou a atenção. Primeiro ele sinalizava ainda ao longe, depois resolvi me aproximar para romper o ruído de seus colegas cortadores de grama. Ele que já mostrava certa apreensão com minha presença, estava aturdido enquanto disse: "menino, essa câmera em mãos, que perigo! Aqui nessa região os craqueiros (usuários de crack), os drogados, te pegam com isso e te roubam quando não coisa pior", exclamava o homem. Se não com essas, com semelhantes palavras.

Direto e preocupado que ele foi, tomei seu depoimento como experiente naquele trabalho e demonstrei meu entendimento para me retirar. Ele baixou a tala protetora para o rosto, que agora está em moda novamente em função da pandemia do novo coronavírus. Religou seu aparelho e voltou a baixar o mato que crescia e impedia visões de maior privilégio aos transeuntes. Eu contornei o cemitério em caminho oposto ao de entrada, com algumas fotos da trajetória em registro do cartão de memória. Dos jardins - onde se escondiam dia ou noite, os "craqueiros" mencionados, ou usuários de outras drogas, voltei para os labirintos brancos das estantes seladas de caixões e terminei pelos andares verdes onde residem a maioria dos já não aqui residentes. As pesadas e cadeadas à noite portas de ferro são o limite.

Alguns guardas fazem as proteções pela área da frente, mas para os rumos dos extensos jardins já não há limites para os crimes ainda praticados pelos vivos - e talvez, pelas epidemias de drogas, cada vez mais praticados. O desespero pelas substâncias, a perda da noção, o distúrbio final dos conceitos de certo e errado. A necessidade daqueles organismos em acelerar os processos de um dia morarem definitivamente pelas covas deste ou de outro cemitério. Rezam as vozes que muitos até revolvem a terra e deitam-se por ali mesmo. Experiência mais freak impossível. Comprimidos os portões a cada noite, a segurança dos mortos dos sepulcros da entrada é garantida por alguns rondas. Quanto aos fundos, contemplaremos o medo causado pelos vivos.

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Na rápida passagem prometida, ela ocorreu quando eu ainda morava pela São Francisco de Paula, no Areal. Na casa imediata à nossa, nos vizinhos, a bisavó de Carolina havia morrido há anos. A jovem, já mãe de gêmeas, não queria ocupar aquele quarto, por causa da morta. A avó dela, dona Maria, que seguido usava nosso telefone fixo e nela reunia todas as características de avó (teu Deus também a tenha), disparou em frase que me ficou gravada na memória: "medo dos mortos. ora, essa. devemos ter medo é dos vivos".

15/10/2020

em Porto Alegre

paraaaaadooo

na frente do Ocidente

em Porto Alegre

a febre é uma lebre

me contagia

no ritmo dos dias


paraaaaadooo

na frente do Ocidente

em Porto Alegre

a música distante

e passa muita gente

a febre se expande

num instante tá doente


parado

na frente do Ocidente


paraaaaadooo

parado o taxista

no seu canto da pista

olhando o movimento

compara gerações

reza baixo seu lamento

em Porto Alegre


paraaaaaadooo

o uber dentro do carro

esperando no aguardo

pela próxima chamada

lá pra perto de Alvorada

nas bandas do Rubem Berta

o celular apita

motora quase levita

e sai com toda pressa

sem ligar a seta

em Porto Alegre


paraaaaadooo

pela Cidade Baixa

olhando o movimento

o ir e vir nas faixas

conferiu

o saldo no cartão da Caixa

mas levou o Banrisul

azul da cor do Grêmio

carregou

quando foi no Largo Glênio

Glênio Peres

no centro de Porto Alegre


paraaaaadooo

na principal do Moinhos

se sentindo sozinho

vendo o movimento

no Moinhos de Vento

atento

procurando por algo

que valesse a pena

ter descido o nível

ao nível do asfalto

e por alto

não encontrava

deu mais uma tragada

com nada a perder

em Porto Alegre


desceu

até o bairro da Tristeza

por uma mesa de boteco

um plano em anexo

pra tentar a sobremesa

se sentiu

descendo a tirolesa

que dessa vida ninguém sai

de forma ilesa

nem mesmo

nem mesmo ela mesma

em Porto Alegre

07/10/2020

Ensopado de Batatas

Foi em uma cidade média de Santa Catarina. Os mais antigos talvez recordem ou ao menos descubram onde se passa o inacreditável relato. Baseado em fatos reais com o imaginário atiçado para a construção da vida desses dois irmãos. Um trabalhava pela ferrovia do mesmo município, no qual pedalava no ir e vir do trabalho matinal à despedida dos companheiros de labuta nos meios para os fins de tarde, quando o sol declinava e muitas vezes a bebida lhe convidava para um aconchego de bar pelo caminho. Gastava bem uns 12 minutos, calculava, para se deslocar na bicicleta de casa para ferrovia e vice-versa. Dessa maneira, muitas vezes considerava positivo retornar ao conforto do lar para desfrutar do almoço preparado por sua mãe, que era lavadeira.

Essa havia parido há muitos anos um conjunto de quatro crianças. Adir, o mais velho, era o ferroviário. João Lucas, o mais novo, ainda vivia pela vizinhança, já iniciado no processo de pressão para arrumar também ocupação de emprego. Havia ainda Otávio, que morava na região mais frutífera de Florianópolis. E Magda, que também vivia com os irmãos na casa da mãe e trabalhava em cargo arranjado na prefeitura daquele pacato município.

Conhecidos os pormenores da família, sabe-se que a refeição é um ato sagrado. Dona Filomena era uma cozinheira de mão cheia, o que nos faz pensar que praticamente todas as Filomenas assim batizadas no mundo assim o eram. Habilidades manuais também para o corte e costura, embora a ocupação em si fosse de lavar os uniformes dos filhos e dos vizinhos imediatos. Caprichava tanto nas tarefas domésticas que até o Otávio, irmão ausente daquela moradia, resguardava seus melhores trajes aos cuidados da esmerada mãe. Reuniões, bailes ou encontros de maior importância requeriam as lavagens e armazenagens da mãe. Com Dona Filomena não havia margem para erros.

E no almoço o momento em que os irmãos poderiam agradecer por estar vivos em passagem tão segregada dos maiores feitos da humanidade ali naquela cidade parcialmente esquecida pelo mapa do Brasil e lembrada somente pelos habitantes dos arredores, hoje chamados sulistas. Eram aqueles polos de microrregiões, de acordo? Assim era o pacato município. Mas indo a pormenores dessa localização que a nós não tanto importa, vai esfriar a boia da refeição e dessa forma não queremos. "Comam enquanto está quente", encarecia a Dona Filomena, não que precisasse, porque os filhos zelosos eram por apreciar boa conduta à mesa para saborear os preparativos de nobre ocupação do dia.

Eram pela comida de Dona Filomena que Magda retornava da prefeitura, distante ali não mais do que cinco minutos a pé, enquanto o Adir fazia maior esforço, pedalava e, com o calorão que se formava principalmente no sol a pino de meio-dia, vinha com a camisa parcialmente suada, o que gerava os lamentos e lamúrias de sua estimada mãe. "Ó, mas Adir, querido..."

E Adir, reconhecendo no trabalho de nobre coração em agradar aos filhos, coração desconhecedor até de outras maiores façanhas, importunada desde jovem à criação daqueles antes fedelhos com ausência de pai, Adir deixava a camisa de manchas nas axilas e no colarinho e por vezes na dorsal para trocar por outra, o que lhe rendia piadas na firma como um filhinho de mamãe. Mas ele sabia sua realidade socioeconômica e possuía consciência de classe, não nos termos sonhados pelo alemão Carlos Marques, mas reconhecia da maneira interiorana dele.

Acontece que o almoço de Dona Filomena lhe dava energias para aguentar o sol descer daquele sol a pino e reclinar-se como em cadeira que obedece dono até esconder-se pelas encostas que tornavam aquela cidade em formato de vale superaquecido, justamente pelo pouco escoar dos vindouros ventos. A cidade, portanto, era abafada pela má circulação dos interrompidos ventos litorâneos e o esforço de Adir por pedalar aquela distância precisava sempre ser recompensado com a boa comida de preparação magnífica de dona Nena, como era conhecida pelos vizinhos mais próximos.

O ensopado de batatas era um prato de luxo naquela humilde residência. Quando, ao amanhecer, Dona Nena avisou os despertados de que aquele seria o prato principal para o encontro entre manhã e tarde, Adir de súbito teve sua melhora de humor necessária para pedalar até o Tour da França. Beijou a testa da mãe, se despediu do irmão de 18 anos e também de Magda, que estava ainda retirando a cama do corpo, como se diz, sem tanta pressa, pois, embora o batente com a prefeitura era mais rigoroso, a distância para o trabalho era menor e portanto ela poderia espreguiçar-se um pouco mais além, de esperar o café esfriar mais um pouco, calor que já se ameaçava acometer por aquele dia de outubro.

Adir esfregou com certa violência os cabelos do caçula João Lucas. "Não esqueça que venho ao almoço", confidenciou somente ao irmão em frente à casa, após já ter se despedido da mãe e da fã de café, Magda, no interior da casinha. "Temos uma tarefa das grandes nos trilhos, mas eu regresso, hein", deixou claro.

A manhã percorreu-se naquela subida gradual de temperatura e do astro maior ao alcance de todos, por cima daquelas montanhas ao fundo da paisagem e fazendo possível fritar um ovo sobre o avançado das telhas de fibrocimento e também dos chalés. O trabalho de Adir estava excepcionalmente cruel para aquela parcela de funcionalismo público em que muitas vezes assistem ao trabalho dos cupinchas. Mas Adir sabia que aquele serviço de solda era com ele mesmo. Com a máscara ampliando a temperatura contra seu rosto, pensava somente no degustar do ensopado de batatas.

O irmão mais velho era o único deles, fora o Otávio que parecia já estar noivando novamente por Florianópolis, era o único a ser casado, mas o casamento se desmanchara após três anos e voltou para casa de Dona Nena. Magda começava a encarar uma realidade de tia solteira, embora os sobrinhos ainda não haviam surgido de outras barrigas. Talvez o Otávio... porque o Adir empacou essa questão de relacionamento desde o divórcio, se tornara ele mais bruto para com as mulheres e, dizem, na ampliação das fofocas, que inclusive em casa, paciência mesmo era só com a mãe, a sagrada Dona Nena. Com os irmãos era mais seco e ríspido nos diálogos e ações, tomado ele pela conversão em sujeito pai da residência, como se era tremendamente aconselhado à época e muitas vezes se vê pelas casas de humilde embrutecido Brasil.

"Ah, as batatas... o ensopado, o sólido e o líquido nas medidas exatas..." e quando o horário de almoço já estava quase no findar é que arreglaram de vez o trilho e estavam dispensados.

- Precisam nem voltar à tarde - afirmava o engenheiro chefe do esquema ali. Ou seja, além de degustar as batatas, Adir poderia aproveitar a tarde como descanso após demasiado cansaço matinal.

Deixava para trocar a roupa suada em casa, poderia tomar um belo de um banho e se esticar numa rede, comprar algo que precisassem, seria da família naquela tarde. À essa altura, o horário de almoço de Magda, naturalmente já mais cedo, estava expirado e ela já havia comido sua porção de batatas e retornado à prefeitura. Dona Nena tinha seguido para lavar roupa também dos vizinhos, deixando o conforto do lar. O problema surgiu porque o menino João Lucas estava com fome. Comeu e não se satisfez, esperou e esperou o irmão e nada. Comeu mais um pouquinho. Esperou e viu que a panela poderia ser rapada. O irmão, que gostava, sim, bastante de batatas, deu um jeito em restaurante ali perto da ferrovia, não tinha mais dúvidas.

Mas estava errado. Ouviu a chegada da bicicleta de Adir, som inconfundível após tantas repetições rituais. Encostou a magrela ao lado da porta, limpou as solas no tapetinho de entrada como manda o complemento ritual. Subiu os degrauzinhos e vinha já se aprontando simbolicamente como se a uma majestosa refeição de reinado, faltando apenas o tapetão vermelho, o lenço ao pescoço e a bandeja com o prato principal coberto por aqueles objetos de prata que escondem o que está por baixo deles. Se fosse o caso, ele seria plenamente surpreendido não pelo que havia embaixo da proteção de prata, mas pelo que dali não havia.

Estava tirando a camisa já encharcada em suor, a excitação por seu pleno almoço favorito contribuindo para aquela formação superficial em sua pele. Enxugava a distribuição sudorípara da testa com as costas das mãos, surgia ainda sem camisa para averiguar uma última olhada antes de devorar de vez aquela porção. Foi quase de ponta de pé até a cozinha e prosseguiu até o pequeno fogão. Destampou a panela e deparou-se com: nada. Ficou zonzo, Adir subitamente estava plenamente desconcertado, sem reação. Olhou em volta, ninguém pela casa, a porta assim aberta. A Magda já na prefeitura, já com certeza. A mãe nas tarefas pelas roupas que o sol lá em cima é dia de lavar e secar, claro que é. O pirralho onde que estava? Gritou pelo nome de João Lucas que deveria ainda estar ali dentro. Ora, se avisou que voltaria para almoçar por que haveriam de comer tudo? Só poderia ser culpa do moleque.

Para azar maior de João Lucas, a casa, pequena que também era, não tinha tanto esconderijo e a cortina o denunciou. Mas Adir de certeza que ali estava o responsável pela sua fome nem confirmou com o rosto visível de João e já o arrebatou de trás do tecido com uma pancada do cinto que havia tirado. Repetiu sucessivos golpes até o garoto já estar marcando e pedindo perdão. Adir estava recuperando a consciência que lá no fundo ele ainda tinha e o João Lucas cavou seu sepulcro ao atacar-lhe pelas costas, querendo uma revanche da briga em que apanhara instantes atrás. Adir, ainda enfurecido pela fome, terminou de carregar as barrinhas vermelhas de cólera e pegou da pia uma faca para atingir o irmão.

João Lucas gelou, expressão facial impotente diante da força bem maior do irmão encorpado ainda com objeto prateado, reluzente e cortante. Ferrou para João que disparou pela rua tentando ganhar vantagem naquela disputa completamente injusta para ele que jamais havia temido pela vida como assim estava. Adir foi no encalço do rapaz e mal ele tomava o meio da rua, o atingiu com uma facada firme nas costas. O garoto não chegou a tombar, mas parou um pouco de correr, entrecortado pelo instrumento. Tomado da mais excessiva cólera de sua passagem, Adir, não satisfeito, retirou o objeto do irmão e lhe acertou mais três vezes. Pelo avaliar futuro do médico, a quarta, pelo local e incisão, teria sido a fatal. O corpo de João Lucas estava no meio da rua. O griteiro e a correria foram poucos, foram ligeiros, mas despertou alguns vizinhos da sesta naquela tarde quente. Com a faca nas costas do irmão, Adir ajoelhou para juntá-la. Passou por seus olhos a imagem do desespero que seguiria eterno para sua mãe, a irmã que fazendo contabilidades em prédio público de nada ainda saberia, o Otávio que viria de Florianópolis inconsolado pela perda do irmão caçula, sem dúvida seu favorito. Ele que estava sem para onde correr.

Pensou retornar os passos trôpegos até sua bicicleta. O casamento que dera errado, ele era agressivo com Maria Lúcia. Ela não o suportara. Ela foi-se da cidade, foi-se com encontro, disse que não toleraria mais. Adir enxergando somente lembranças, passado diante das pestanas, quando visualizou sua bicicleta, ela estava montada por outro jockey. E estava acompanhado por mais dois. Os vizinhos haviam chegado. Tentou retornar o passo então para onde estava caído para sempre o irmão João Lucas, mas o menino estava cercado por outros quatro vizinhos, duas senhoras, um marido e o filho do casal, de uns 14 anos.

Era muita gente que se acercava, mesmo com faca em mão não havia para onde fugir. Tentou correr, mas a polícia já ficou de imediato sabendo e, sem a companheira bicicleta, com Maria Lúcia só nas recordações e o irmão para sempre no relatório de sua ficha criminal, logo foi pego. Não havia testemunha direta pela janela daquele crime à luz não do meio-dia, mas de passada uma hora da tarde, quase duas. Os vizinhos que de casa viram o desfecho do macabro espetáculo, relataram para assinatura final que a morte fora às 13h41. Com a faca em mãos, o corpo do irmão estendido e ensanguentado ao solo de terra batida e nenhuma batata na panela, Adir foi sentenciado rapidamente pela corte.

A mãe quase que parou sua história por ali também, porque até desmaio sofreu. Felizmente, para ela, Otávio a levou para morar em Florianópolis, para conhecer sua nora e o neto que enfim nasceu dali oito meses - já estava grávida a noiva de Tatá. Sem Nena, a casa permanecia ali em humilde bairro, Magda quis aproveitar seu emprego na prefeitura e no fim das contas agradeceu que ao menos a morte foi na rua, não amaldiçoando para todo sempre a residência de sua vivenda. Ela continua solteira e talvez vá morar em Florianópolis também.

O Adir divide uma cela com outros seis apenados. As refeições eram servidas por baixo da porta e raramente eles poderiam ir para refeitório. A comida é tão ruim que costumam fazer misturas em que nem necessitem de talheres, muito menos uma faca. Talvez de colher se tomem os devidos cuidados. Quando, ao findar de quatro meses, finalmente um ensopado de batatas havia chegado pela portinha, um dos líderes da facção, que, naquela cela era acompanhado por outros dois, e no total da penitenciária por outros 40, disse que gostava muito de ensopado de batata e Adir iria comer não. Ele sentiu a falta de sua mãe.

06/10/2020

Desfibrilador

Às vezes penso que os conteúdos que escrevo são muito tristes. Mas repensando, não importa. Contemplo ao lado mais triste que necessita companhia. É fossa. Para os que se surpreendem, é talvez porque não desceram o suficiente ou não atingiram o patamar de conhecimento sobre essa melancolia toda. Acontece que ela está aí. É cinza no ar, é fumaça de cigarro. Está nos metrôs na volta para casa, nos carros parados, nas bicicletas e motocicletas fechadas, nos pedestres que vacilam ao atravessar e quase passam por cima deles. Está nas rádios interioranas, nas menores audiências, nos músicos que não têm como se sustentar, além de outros artistas e suas artes. Está nos códigos ambientais ignorados, rasgados, demolidos. Está nos hospitais.

Estava vendo um filme espanhol chamado 'Seu Filho', cujo personagem principal é um médico em que o filho é agredido brutalmente e agora ele quer vingança. Mas independentemente desse longa, me recorrem os ambientes hospitalares e suas peculiaridades, a morbidez, a preparação para morte em requisitado Santo Afonso de Ligório. Poderia ser um livro bem requisitado para essas horas. O cheiro hospitalar, os corredores, as conversas apressadas dos servidores, dos profissionais da saúde, os tons monocromáticos e a espera de quem não tem para onde ir. Seja o paciente ou os familiares e amigos que aguardam em cadeiras nada confortável, pois, independente do conforto, a situação de aguardo se torna muito desconfortante.

Horários de almoço em hospitais, comida de hospitais, comida em volta dos hospitais, nos restaurantes, nos botecos dos arredores. Imagino os atendentes desses locais, como costumam receber pessoas com olheiras, cansadas, esbaforidas, como as bitucas de cigarro se acumulam nos pátios, nos lances contínuos às escadas e rampas, principalmente rampas, onde estacionam às pressa e saem ainda mais às pressas ambulâncias, paramédicos, medicamentos, plantões, urgências.

Enfermidades e angústias que se misturam em comidas também monocromáticas, em sabores monocromáticos. Em paladares que já não sentem, em rotinas que se incorporam. Em realidades redesenhadas. A vida muda de um dia para outro, nos surpreende. É bem verdade que a maioria das vezes negativamente. Por isso me preparo, me precavendo. Sei de diversas possibilidades ruins que podem cercar-me, nem imagino outras. Se eu fosse negativo, saberia mais delas, mas ainda estão aí, como feras, como bestas na natureza que nos fôssemos largados e pelados.

Não há idade, não há segurança, não há sabedoria, não há preparação que dê conta muitas vezes. Acometidos jovens, acidentes, acasos, azares, catástrofes e tudo muda. A ti e a quem cuida, a quem está perto, quando há alguém por perto. Rotinas arrastadas, como carros rebaixados em ruas irregulares. Indecisões, incertezas, inexperiência para lidar. Mais quantos dias? E quando sai da UTI? E os medicamentos fazendo efeito? E o tratamento é assim mesmo? E esse sintoma é esperado? E esse colateral já aconteceu? E esse caso é comum? E esse outro é inédito? Na vida de quem acompanha quase sempre é. É inesperado. É um chão que se abre, é um rio caudaloso e há de se apoiar em algo. E há quem condene as religiões. Geralmente quem tenha tempo para isso e não tenha passado por, ou quem sucumbiria de qualquer maneira nesse mar tormento, porque nem religião há de ter. Lucidez, coragem ou despreparo?

Ah, as tristezas, vulgo aparições que deram início à série de hoje. Tantas as são, muito mais do que as estrelas, ao menos as visíveis a nós. Há tristezas invisíveis e há estrelas invisíveis. Há sofrimentos solitários, há ruínas escondidas, há tumbas preparadas para o recebimento. Não sabemos a hora, não sabemos quando. Há de estarmos cientes, mas a ciência segue em baixa por aqui. Medição de batimentos. Enfermeira, desfibrilador.

01/10/2020

Momentos de Lucidez

As pessoas costumam querer o contrário de seus pais, ou ao menos almejar querer o contrário de seus pais. No 'momentos de lucidez', o pensamento de hoje foi justamente me vendo muitas vezes como imagem e semelhança de meu pai. Eu que o considero tão contraditório à minha pessoa, mas que, no fim das contas, reagimos de forma muito semelhante em diversas situações. A biologia deve explicar de várias formas.

Percebi, nesse raciocínio, que para mim estaria bom repetir os passos galgados por ele no passado. Seria mais feliz, não tenho a mínima dúvida. Mesmo que lhe falte a tão importante consciência de classe, é minha própria consciência que me suga de canudinho a cada dia. E um dia o canudinho roncará pelo fim da linha.

Na síndrome por fazer diferente também se escondem as velhas políticas em períodos eleitorais, em que sempre se camuflam de novo. O exemplo mais óbvio por agora deve ser o tal de Partido Novo, que nas câmaras de deputados é incoerentemente o partido mais alinhado às péssimas, devastadoras e cruéis políticas bolsonaristas. Novo só pelo nome e pelo estrondoso mau gosto de alaranjar nas cores.

Na síndrome por fazer diferente, o jovem acaba muitas vezes querendo apenas modificar o que seus pais ou geração passada, em geral, faziam, sem dali colherem frutos, que, em uma visão ampla e analítica, sempre existem. Fazer tudo ao contrário também é copiar, diria algum sábio do passado.

Reitero o ponto de que estaria mais contente caso eu pudesse, de alguma forma, copiar os passos que meu pai traçou, mas tenho total ciência de que não posso ser como ele. Faço do meu jeito, no meu caminhar trôpego e seguidamente desvairado em nossas filas para lugar nenhum. Chama-se vida, eles disseram.

Se me alargar mais por essas linhas, perderei totalmente a ideia inicial, que era tão curta para registro. Mas fui ao banheiro e arrisco mais umas. Percebi o cheiro positivo dos produtos de limpeza (nem sempre assim o são, mas dessa vez fora). Percebi num raciocínio que os banheiros cheiram como banheiros em qualquer lugar, mesmo em casa, caso não cuidemos com o limpar necessário de tempos em tempos. A única diferença é a quantidade de usuários, podendo ser só você ou até uma família, quatro a doze pessoas, enfim. Se você não limpar, ele terá o cheiro de urina que os banheiros públicos têm. Os públicos apenas possuem o vai e vem, o trânsito, o anonimato, os desconhecidos que entram e saem daquelas cabines e não tratam como se fossem o de suas casas, errando o alvo e vocês sabem o quê mais.

De óculos, pensei em minha imagem estética e como eu poderia usá-los havia mais tempo, porque minha visão definha, de alguma maneira, desde os 18 anos quando frequentei as idas ao exército, no interminável processo de seleção. Cumprimentei meus amarelados dentes, da cor da toalha para enxugar as mãos. Lembrei da apresentação de rede social de grande amigo meu, que inclusive mandou mensagem nesta madrugada após longo período sem falarmos: sinais? Ele que se apresenta como "escovando os dentes de um estranho todas as manhãs". Filosófico. Experimentem o duro praticar de se olhar no espelho, apreciar ou horrorizar-se com o reflexo. No fim de tudo, procurar a aceitação dessa passagem. Eu poderia ser como meu pai em vários aspectos e assim eu preferiria. Tenho certeza que me estressaria menos.

25/09/2020

Velhos Olhos Verdes

Seus olhos eram bem verdes. Era a primeira característica, pois assim eram realmente marcantes. Inauguravam sua personalidade como a fachada de uma mente, se não meticulosa, sem dúvida inteligente escondida. Senti hoje vontade de descrevê-la após assistir a uma comédia boba, agora nem lembro qual foi o fio condutor, mas dela me lembro dos tempos de faculdade. Fomos colegas em poucas disciplinas e ela era fenomenal, bela. Assim rapidamente a descreveríamos e atrairia a atenção de quem a visse. Foi isso que pensei logo quando a via.

Tinha essa personalidade que parecia, sim, forte, tomadora de decisões, líder por instinto. Assim rápido eu a notava, como era impossível não notar. Para além de suas características de liderança, a beleza física. Pontuado que ela se fazia visível de uma maneira ou de outra. Quando pareceu tomar iniciativa de termos contato, obviamente eu não sabia como reagir. E por inexperiência perdi as chances, como fichas telefônicas mal depositadas ou moedas em uma máquina de refrigerantes sem retorno. Todos nossos diálogos foram migalhas, fora grãos de areia e em seguida o vasto oceano devorador, o que limpa e absorve na prática, mas na memória ainda me são momentos presentes.

Quando torceu por nós da arquibancada e eu ouvia meu nome, ou ao menos o nome que estava em meu uniforme, pois as vestimentas eram emprestadas de outro time. Eu gostava muito de sua voz também, era forte como todo o conjunto. Era estridente, marcante, ímpar, singular, perceptível ser dela. No alvoroço das tribunas, eu a ouvia, mesmo concentrado ao máximo no jogo, minhas marcações eram impecáveis, meu adversário direto, na individual, não jogava. Eu também pouco jogava, praticamente reduzindo o número de jogadores de cada equipe. Eu a ouvia.

Nasciam naqueles momentos oportunidades de conversarmos entre os jogos, mas repito que tínhamos apenas migalhas de conversas, mal poderiam ser batizadas de diálogos. E, caso haja esse batismo, o próprio diálogo nem chegaria a ir às primeiras missas em busca da primeira comunhão. Acabamos eliminados por pouco da competição. Na verdade, acho até que foi por muito, mas estivemos muito perto de ganhar o jogo da despedida e bobeamos. Eu com ela bobeei também. A gente percebe a enxurrada de chances depois que é passado o tempo. Antes nunca estava bom, propício, favorável, mas depois é impossível. Um amigo meu utilizava a metáfora de janelas. Como um salto que precisa ser efetivado, saltar de uma estação de trem em movimento, saltar de paraquedas para as correntes de vento o conduzirem para a melhor aterrissagem, a mais segura, ou janela de transferências nos mercados de futebol, com prazos para inscrições. Acontece que perdia a janela, seja lá qual delas fosse o caso em questão. Não saltei. Não me arrisquei a ela, mesmo sabendo que nosso futuro seria de pouca contribuição, gostaria de termos trocados açúcares e fluídos, flor e beija-flor, acasalamento.

Uma vez marcaram festa de nossas turmas perto de minha casa, exatamente a ocasião propícia em que necessitaria de ser arrojado, mas acabei não indo porque meus efetivos melhores amigos não foram, ou por serem de outras cidades ou não estarem afim de compactuar com os demais presentes. Peixe fora d'água, borboletas no aquário. E no estômago. Eu fora. Não apostou na rodada do pôquer e perdeu igual, perdeu de ganhar. Jovens, bebida, álcool, medo de ferimentos, vencer os ferimentos, arriscar, tenes que saltar, aquela canción de No Te Va Gustar, grupo de rock e reggae uruguaio. Não gosto de recordar que não saltei, mas por vezes recordo as vezes em que não saltei.

O real arrependimento do que não fiz, do que não fizemos. Mas somos cruéis conosco. Deveríamos enumerar as vezes em que ficamos em casa, em que não arriscamos e posteriormente descobrimos que seria inútil, que não valeria a pena, que seria apenas desgaste, entre físico e emocional. Mas até onde me consta, não foi o caso. Eu poderia ter tentado. Sedução juvenil, ela somente um pouco mais velha, talvez interessada. Lembrar das vezes em que encontrei aqueles olhos verdes e eles algo me diziam, embora muito pouco. Não saberia apontar até onde ou até o quê eles poderiam me dizer. Apenas sei que a comunicação visual era propositiva. E nada mais. Ocorria nada além disso.

A festa perto de minha casa talvez fosse o maior chamado dessa ocasião, mas eu ainda bem jovem e sem querer me arriscar. Houve tempo para isso depois? Houve, mas nenhum acontecimento tão propício e conciliador dessas duas separadas almas. Houve outra festa em local que nunca me dei bem. O fracasso prefere a superstição do que assumir a culpa. Ela com brilhantes chifrinhos de diaba. Parte da remota fantasia, acréscimo erótico à envolvente figura. Não era festejo em que necessitava-se a incorporação de personagens por meio das vestimentas ou acessórios, mas ela desfilava sua beleza realçada com os inesquecíveis chifrinhos de diabo. Eu seguia aquelas luzes vermelhas dentre todas as outras luzes coloridas, uma ou outra garota também conduzindo os acessórios diabólicos na cabeça. Mas ela, bem mais baixa do que eu, meus olhos eram conduzidos por aqueles brilhosos córnos rubros. Do tapete mais baixo da humildade e humilhação, desse piso solitário em degraus frios, não me importaria que tivéssemos uns momentos juntos e que ela passasse definitivamente para mim os requisitados chifrinhos, metaforicamente ou de verdade, tanto faz.

Muitas vezes o filtro do passado é um ornamento para falar sobre qualquer coisa. É mais fácil de analisar o acontecimento depois que passou. Mas enfim, eu perseguia aquele par de chifres por entre as multidões, desviando, me reconciliando ao encontro dos amigos presentes na festa, mas sem despistar de meu alvo preferido. Relembro a dificuldade de ir ao banheiro naquela ocasião, já que estava completamente lotado e tenho complicações para urinar sob tanta bagatela de pressão. Ela passava próxima do acesso ao banheiro e que também era o portão de entrada-saída, me parece que dessa vez em direção à saída, mas não definitiva. Antes que eu a pudesse alcançar, eufórico e totalmente ébrio, senti o súbito transpor dele: o vômito. Um grande amigo me acompanhava poucos passos atrás daquela missão e ajudou-me, explicamos rapidamente ao segurança e ele deixou que nos dirigíssemos ao estacionamento, onde pude despejar um pouco do vomitar sobre a grama natural. Me refiro à grama natural porque havia quadras de futebol sete logo ao lado e nelas os gramados eram artificiais. Recuperado do péssimo momento, sem ideia onde estava minha dama, passei a filosofar sobre a vida e a arremessar pequenas pedras de brita contra o gramado sintético, contente pela traquinagem altamente desnecessária e que daria trabalhos desconcertantes para alguém, maldito vadio que eu estava. Meu amigo ameaçou-me para parar com isso, mas acabou cedendo ao humorístico motivo e também lançou lá suas pedrinhas contra o futuro palco dos atletas amadores que pagam para jogar, ao contrário dos que recebem.

Também no estacionamento estava hoje importante radialista da cidade e região e gritei seu nome como se fôssemos íntimos, abanei com entusiasmo e ele, de leve, pouco à vontade com a inusitada situação, abanou-me de volta e logo em seguida saiu dali acompanhado de dois ou três amigos. Minha visão já estava duplicada ou até triplicada pelo efeito alcoólico. Depois daquela vergonha, lembro de retomarmos o rumo da festa, com aprovação do segurança da entrada que já não era o mesmo, mas nos autorizou mediante estarmos naquele ambiente fechado, vestidos de acordo com a demanda e naquele horário. Entramos e ainda a pude ver acompanhada de uma amiga e mais dois rapazes, os chifrinhos já com bateria, ou seja lá como funcionam, fraca, indicando que a noite e esse caso de não-acontecimento se aproximava do desfecho em inevitável findar.

Anos depois, no final de 2019, todos nós já formados e sei lá o que exercemos, ela de volta para sua cidadezinha ou ao encontro de uma cidade grande, nunca abrindo relacionamento nas redes sociais em que nem a sigo (talvez até possuindo alguns namorados para coleção neste período, porque, como dito, não a sigo diretamente - só quando usa acessórios diabólicos em festas ébrias), eis que puxei assunto sobre ela com um colega direto dela, visto que fui estudante ao lado dela somente em raras e escassas cadeiras. Ele elogiou meu nítido gosto e afirmou algo que me surpreendeu, mesmo bêbado que novamente eu estava: ninguém havia tentado ela, ou ao menos conseguido. Tranquilamente, sem saber da relevância daquele assunto para mim, ele disparou: "nem sei qual a dela". E senti novamente todo aquele turbilhão de oportunidades, insensatez, inexperiência, inoportunidade e tantas outras palavras de prefixo in. Eu out. Eu fora.

Vez por outra talvez eu ainda relembre aqueles velhos olhos verdes e toda sua escultura facial...

21/09/2020

Visita familiar (ao passado)

Os sonhos matinais são aqueles mais fáceis de ser evocados à memória, tudo está fresco no vasto campo das ideias e daí alimentamos a prosa no dia seguinte. É o caso aqui mencionado. Sonhei que estava saindo da frente de nossa casa, na verdade, de nossa casa que está sendo exatamente vendida nesta semana, então o sonhar necessitava de um update, mas são detalhes. Eu saía pela porta da frente, em visita anunciada pelo chamado de uma buzina. E do carro saía a mãe de um antigo colega de ensino fundamental.

Era tudo muito estranho porque, ao volante, estava seu ex-marido, eles divorciados. Mas ela desceu efusivamente do banco de trás e veio a meu encontro me parabenizar por algo concretizado, agora sem eu saber se uma formatura, nova oportunidade de emprego ou o que seria. Ademais, no banco imediatamente ao lado do motorista estava um dos filhos do casal, no caso, irmão de meu colega de ensino fundamental. Minha visão turva para dentro dos limítrofes delimitados pelo insufilm do carro me fazia identificar a dupla, o pai e filho nos bancos dianteiros. Não desceram durante a ligeira visita. Veloz, mas emocionada por parte da senhora, que continuava gordinha e aparentemente nova como era na época em que fomos colegas, eu e aquele justamente ausente da visita, mas ponto comum para que eu conhecesse aquela família estacionada ao meio fim imediato à nossa garagem.

A dona veio em prantos, quase vertendo as lágrimas e abraçou-me em tamanho envolvimento de braços e corpo. Fiquei quase constrangido, como se espera que eu reaja diante essa situação. Observava sua extravagância em lidar com o que estava acontecendo enquanto os demais sorriam amarelados de dentro do veículo. Lembrei de meu ex-colega do fundamental. Ele era o mais gordinho entre nós todos, caso que chamava a atenção naquele começo de novo século e milênio, a obesidade infantil só aumentou de lá para cá, mas ainda era raridade na época. Ele, ao longo do desenvolvimento daqueles fecundos anos, permanecia na condição do mais gordinho da classe e porventura sofreria bullying em relação a isso. Acredito até que sofreu pouco, pois era camarada da maioria, tinha esse determinado prestígio e uma boa concentração de força física para se defender de ofensas. Lembro uma vez que empurrou e minha canela sangrou ao chocar-me com um degrau, uma parelha de altura em tijolos que cercavam a caixa de areia da pré-escola. Só para ficar em exemplo.

Ele, ao mesmo tempo, naquele ano de pré-escola que cursei, foi o primeiro a se oferecer a visitar minha casa. Eu nem sabia como lidava com isso, porque não estava acostumado ao recebimento de visitas dessa forma. E, pelo recordar da sonhadora e inesperada visita do restante de sua família, ainda não evoluí o suficiente nesse quesito. Nesse quesito esquisito. Mas aceitamos essa ida combinada às pressas após um dia, uma tarde normal de aula pré-escolar. Lembro que esparramamos meu máximo de brinquedos pelo quarto e deu uma senhora trabalheira juntá-los ao término da visita. Isso eu recordo. Eu não era de demasiados recursos, nada eletrônico ou muito extravagante, eram brinquedos de camelódromo, entre dinossauros e animais de fazenda em plástico, algumas pecinhas para construir humildes cidades, não maiores que Turuçu ou Canguçu. E um baralho de cartas que ainda temos guardada aquela caixa que rachou a fronte plastificada, no material transparente que antecede o manusear das cartas ali depositadas.

Lembro disso tudo esparramado sobre meu tapete e o trabalho que dá receber pessoas, limpar tudo ali depois. Hoje em dia recorreríamos a essa sensação ao lavar a louça de jantares, ou mesmo o recolhimento dos reservatórios de bebida alcoólica vazios, além dos possíveis estragos vindouros, como louças, principalmente copos ou taças despedaçados por descuidadas ações ébrias. Faz parte.

Do menino ausente na visita familiar inesperada em sonho, hoje afirmo que está por formatura de engenheiro civil e tem uma das namoradas mais belas entre nossos amigos de alguma forma próximos. Um dos últimos encontros com ele foi quando voltava a pé para casa pela rua onde hoje moro, ele que mora por ali em prédio, na descida para avenida Juscelino Kubitschek. Trocamos uma ideia sobre a ida que teve por um período passando pelo leste europeu, o que achei bem diferente das cordiais visitas que pessoas com recursos financeiros fazem pelo lado ocidental da Europa. Recordo fotos dele pela Bulgária por exemplo. E não deixamos de nos ater a condição socioeconômica de nosso desestruturado município e prontamente ele recordou a vez em que acabou assaltado exatamente no local, na calçada em que nos postávamos a conversar sobre. Estremeci ligeiramente, chequei meus humildes pertences em dinheiro para no máximo duas refeições, como segurança, porque geralmente gastaria com nenhuma àquele horário da tarde, e também meu celular, na época ainda sem estar com a tela trincada, enfim. Conversamos em resolutas e desemaranhadas lembranças e seguimos nossos rumos, que eram opostos, o que nos impedia de prosseguir a conversação. Se bem associo, justamente ele mantinha hábitos de seguidas idas à academia, para manter a forma física que ele havia combatido, agora distante da obesidade que lhe caracterizava nos primeiros anos de vida. Fico feliz por ele.

Creio nele um exemplo de superação desses paradigmas, porque, nunca indaguei-o de frente, mas imagino que somente ele possa responder sobre como se sentia, naqueles preconceitos ora mais abertos, ora velados e sobretudo psicológicos que volveavam por sua mente. Hoje ele supera isso no que demonstra fisicamente e com aparente melhor qualidade de vida e alimentação. Creio que cada um deve cuidar de seu corpo da forma que lhe convém, mas fiquei matutado com essa história ao encerramento de matutino sonho. Abracei somente sua mãe, sorri e acenei para os rapazes, seu pai e seu irmão, no carro. Fiquei agradecido com tamanha lembrança a que recorreram à visita neste corriqueiro mundo, então válida a sensação de importância para encerrar aquele momento dormente e iniciar o dia. Boa semana a quem está lendo, lhe desejo, desde o fundo do peito até a época em que estão a colher essas rabiscadas linhas. Até a próxima.

20/09/2020

Pelos becos

NOS REFLEXOS das janelas dos ônibus EU ME ENXERGO e enxergo os outros

NOS COMPLEXOS casos imaginados O NEXO em anexos guardados

PLANOS ÉTICOS
diante de demônios nem sempre funcionam nem sempre funcionam PELOS BECOS de onde saem ônibus moram moradores que não têm garagens nem para si mesmos

14/09/2020

Esquemas

Estava solitário bebendo em um bar. Primeiro apenas bebia, depois me percebi em solilóquio com minhas ideias e o copo de líquido espumado defronte. Olhei em volta para a agitação natural desses happy hours combinados, camisas de serviço, mangas arregaçadas, sorrisos esculpidos pela distração que mais a cerveja do que a companhia proporcionam. Eu estava só. Bebia a goles interrompidos, até que um cardápio diferente sobre o balcãozinho de canto, nem bem uma mesa, apenas uma prateleira de madeira onde apoiávamos os copos, quando muito alguma improvisada refeição, mas deparei-me com aquele folheto revestido de plástico que me chamou a atenção.

Não era um cardápio, olhei para os lados se mais alguém me percebia, mas seguiam todos no ritmar festivo e descontraído. Do topo da página, desci os olhos percorrendo sinuosamente o caminho antes digitado. Fiquei contente com o que vi. Era um anúncio promocional de um site que eu já havia escrito, a BABEL Brasil (solicitavam chamá-la em letras garrafais mesmo e sempre no feminino, não O site Babel; tinha inspiração na torre maluca aquela). Na promoção, em troca de algum préstimo ao site, você concorria a uma viagem para congresso de jornalismo e afins onde quer que fosse em todo o mundo. Fiquei pensativo quem bancaria os custos, já que o comum era não remunerarem seus colaboradores, uma escola para o aprendizado, mas longe de qualquer sustento no mundo real. Enfim, o espanhol de Madrid ou alguém aqui do Brasil arcaria com as vantagens de quem vencesse a referida promoção. Eu entornei meu copo, pousei-o com certa força em atitude de súbito raio de confiança e resolvi que iria participar.

Participei. E venci. Formado na área e sem maiores interesses em contínuo estudo em jornalismo, após longo período enclausurado em função da pandemia de coronavírus, queria aproveitar a maneira turística. Pensava em países distantes, mas sabia da dificuldade para driblar as barreiras dos idiomas, então, ao que me parece, optei mesmo pela Espanha. Transportado para as terras ibéricas, percebia que só me ressarciam pelo tempo de congresso, geralmente curtos em três ou, com otimismo, cinco dias. Mas igual fui, com o pensamento totalmente voltado para o turismo, sem ao menos saber a programação exata do congresso. Será que levei a vaga de outro mais interessado? Me perdoava que merecia, após o sofrimento da monotonia de anos vindouros em desfazimento.

Mal largava minhas tralhas no hotel e tentava caminhar o máximo possível pelas ruas ao redor, encontrando-me com um dia nublado com nuvens grosseiras e aparentemente aproximadas com a superfície terrestre, além de árvores altas, mas com pouca folhagem. Um bálsamo em ar pesado envolvia o ar, prosseguia com a dificultosa respiração que retardava meus passos. Olhava em volta em busca de bonitas paisagens e arquiteturas, as quais costumo fotografar por onde viajo. Passeava pelas calçadas largas que me lembravam certos bairros de Porto Alegre. Os prédios também possuíam fachadas semelhantes, notava em janelas amplas e colunas de sustentação. Grafites e pichações me acompanhavam como um trailer de um filme. Terrenos baldios começavam a aparecer conforme eu me afastava da segurança hoteleira. Comecei a perseguir, a esmo, os matagais que cresciam até quase a altura de nossos joelhos. Contornei o que percebi ser uma praça próxima a uma biblioteca. Na verdade, a biblioteca como figura central, que se erguia como motivo maior para a extensão concretada do chão da praça. Ali, em breves degraus, que saltei, dormiam ou se preparavam para isso, moradores de rua. Enquanto o crepúsculo não denotava o encerramento da tarde, um velho senhor em cadeira de praia observava o movimento e percebeu-me como legítimo estrangeiro. Acho que estava acompanhado de sua velha senhora ou fingia estar, acontecimento comum aos viúvos sem maior rumo para os últimos anos de vida. Pela visão e audição periféricas a meu ainda desconhecido objetivo, percebia eu que o velho tecia comentários para sua esposa ou simulacro de. Era uma cidade estranha, mas o mundo assim o é.

Contornei a grande biblioteca, ali próximo uma catedral, como há de se, no mínimo, empatar esse jogo. Pensava dias atrás na quantidade de igrejas e suas isenções de impostos, enquanto as escolas definham em investimentos, mais tomadas pelos congelamentos do que chamam gastos. Mundo estranho. Os prédios, apesar de serem majestosos me pareciam surgir em área afastada à grande localidade central do município espanhol (ou brasileiro?). Sem um aglomerado urbano o suficiente para ser reconhecido como centro, defrontei-me ali com um pequeno e tosco hotel de arquitetura nem nova nem velha, prédio branco com contornos em bordô para janelas e portas, algo até mais alemão e que me lembrava os ares de Joinville. Sem saber bem o porquê, rumei àquele espaço, certificado que o subir da noite se fazia em substituição aos vestígios de sol. Ultrapassei qualquer impedimento ao não ser questionado por atendimentos portuários, o que obviamente atiçou minhas suspeitas quanto à qualidade dos serviços ali prestados.

Subi a escadaria e entrei em um quarto, altamente surpreendido, porque ali estavam a representação de meus pais com um outro casal. Eles já conversavam e os lençóis não eram mais participantes protagonistas. Meus pais ajeitavam-se para retirarem-se, mal dando-me a atenção necessária em extraordinária descoberta. Meu pai adiantou-se que iria seguir para o carro e que esperava minha mãe por lá. O casal proprietário do alquiler mostrava-se decepcionado. "É sempre assim, podem ir, podem ir..."

"As pessoas nos acham estranhos", completava o companheiro daquela dama, que já punha-se a fumar com habilidosa transição dedal entre dedo médio e indicador. Eu olhava estarrecido para todos os personagens ali depositados. Meu pai que já apressado descera, já ausentado, minha mãe pronta para ser a próxima a deixar o recinto. Pensava que diabos poderia ser aquela prática em ambiente suspeito e com qual objetivo. Como poderia eu encontrá-los de maneira surpresa e completamente inesperada. Eu viajava sozinho, havia ganho a promoção, havia me deslocado centenas ou até milhares de quilômetros. Sim, sim, milhares, sem dúvida. Como assim?

O casal tentou convencer-me a ficar e conversar um pouco. Ela era bastante atraente e sabia como conduzir uma conversa inicial, o que praticamente me punha em dúvida. Sem deixar-me seduzir aos vigaristas, fiz menção ao avançado da hora e estava pronto a retirar-me como há instantes haviam meus pais feito. Tomando fôlego ao ultrapassar o perímetro demarcado pela porta, o estreito corredor me revelava uma alucinação, só poderia ser. A escada estava fatiada, exatamente aquela em que eu havia subido para chegar ao quarto derradeiro. Havia um vão bastante acentuado entre o começo, o topo da escadaria que dava para aquele andar e a sequência até o estreito corredor de baixo. Impossível. Calculei minhas possibilidades de salto e senti-me ineficaz para tal missão. Maldição. Precisava encontrar alguma alternativa para sair daquela enrascada. O casal ajeitava-se também, abotoares de cinto, de botões de camisa, cuidado com franjas ou mechas de cabelo. Eles logo viriam atrás de mim.

Avancei por aquele corredorzinho já apercebido pela presença da mulher que segurava o final de sua bituca de cigarro e despejaria esse descarte sobre um pálido cinzeiro ao canto do corredor, parecendo mais propício que ele estivesse do que um vaso de plantas ornamentais, por exemplo. Segui até o final daquela obra para ser surpreendido pelo profissionalismo de um segurança. Uniforme, mesa de escritório como se fosse um advogado ou atendente de alguma publicidade. Ele parecia esperar pela minha confusa chegada. Sem demonstrar na face alterações significativas, ao explicar para ele que eu queria saber se havia algum elevador no prédio, ele se adiantou por sua saleta até a abertura de outro corredor, paralelo, mas em lado oposto ao que caminhei. Era uma passagem relativamente de aspecto secreto. Quem poderia saber? Por onde meus pais saíram? Será que eram meus pais? Eram a representação de meus pais.

O outro corredor, esse interno, de ligação com a saleta do fiscal, era escuro, entranhas trevosas e uma aparelhagem tecnológica que irrompia luz; conjunto de câmeras e sensores que em nada combinavam com a fachada inexpressiva do prediozinho. Um hotel afastado, quase de campo. Quase mais rural do que urbano. Equipamentos de última geração, captadores de movimentos, câmeras espalhadas de cima a baixo do hotel. Ou seja lá o que fosse aquela construção cada vez mais macabra. Segui o referido segurança, ele de uniforme como um policial, cinto apertado, porrete ao alcançar das mãos, pendurado à cintura. Era melhor não me meter em problemas com ele, mas queria apenas ir embora. Surpresa para minha desconfiança, ele passou por aquela ante-sala de câmeras, dobrou para esquerda em outro corredor cercado de portas que deveriam significar novos quartos como aquele que eu havia entrado e meus pais saído, e finalmente demonstrou-me uma abertura em porta como a de um elevador. Senti determinado alívio, mesmo pressentindo que o desfecho estava longe do findar.

Antes adiantado ao meu caminhar, agora eu media os passos lado a lado com o segurança, atento para qualquer movimento suspeito daquele. A mulher, ao que parece, havia desistido de suas técnicas de sedução. Vá saber quanto dinheiro pode ter tirado de inocentes. Já não nos seguia, como conferi com olhadelas discretas para trás. Mas o acesso ao elevador não levava diretamente a um elevador. Era um imenso galpão, como o de uma indústria. Era como um ginásio, teto alto, horizonte aberto aos olhos até onde, finalmente pude focar, havia sim um elevador discreto ao fundo de toda essa magistral estrutura. Caminhamos lado a lado pelo galpão extenso, eu ainda atento a cada movimento do servente, que mostrava-se tranquilo, assobiava e se remexia quase contente. Notei bazares como os de bichos de pelúcia. Tudo era completamente inacreditável. Dezenas para centenas de animais de pelúcia esquecidos em galpão de elevador secreto.

À metade do caminho, andados uns 30 metros, comentei com o guarda que já havia visualizado o elevador e que ele poderia voltar para seu trabalho, sem mais delongas ou interrupções. Ele franziu a testa, movimentou sinuosamente as sobrancelhas, as rugas de seu rosto acentuaram-se, a resposta lhe tardou de vir à boca enquanto processava meu dito. Finalmente manifestou-se: - tudo bem.

Girou em seus calcanhares e retomava o caminho por onde vínhamos. Eu senti-me aliviado pela segunda vez, a primeira sendo o encontro com a portaria de elevador, embora aquela fosse falsa, agora eu estava próximo da verdadeira. Mas meu plano era esconder alguns animais de pelúcia, queria roubá-los, senti grande impulso por essa missão. Já estava ali, eles estavam abandonados, eles precisavam de mim. Era maníaco meu pensamento. Precisava dos apeluciados em meus braços, pensei em escondê-los sob a camisa, não caberiam, trariam muito volumes, eram senhores animais, quero salvá-los. Percebi perifericamente o olhar sobre meu ombro uma alça, direcionei os braços para trás e dei-me conta de portar mochila. Fazia sentido, deixei o hotel logo cedo para prolongado passeio e uma mochila sempre vem bem a calhar para eventuais compras, carregar câmera, enfim. Embora não lembrasse de maneira alguma carregar a câmera naquelas intranquilas ruas. Mas espaço na bolsa havia e eu poderia colocar quase uma dúzia daqueles bichos sem fazer peso, pois eram de pelúcia, além de concluir meu súbito plano de resgate.

Quando estava ainda escolhendo quais levaria, minha mãe surgiu de uma - a ironia - escada ao lado da porta do terminal elevador. Ela me alcançou aturdida e disse que eu precisava me apressar "que essa gente é louca, não temos o que fazer aqui, não devia estar aqui, vamos, vamos" e eu contei-lhe o plano de carregar animais de pelúcia, que eles precisavam de nós, havia ninguém vendo, poderíamos recolher vários, ela poderia ajudar, seria perfeito, custo-benefício, presentear amigos, levar para gente, que não fazia sentido os animais trancafiados ali, logo eu entusiasta das questões ambientalistas, contrário aos zoológicos e

Ela quase me interrompeu com um tapa, estava mais histérica, gesticulava com pressa, mas sem alterar a voz para que não ecoasse naquela estrutura povoada de animais de pelúcia, mas ainda assim muito aberta para o propagar do som até as outras partes do hotel ou seja lá o que fosse. Ela me agarrou pelos ombros, disse que deixasse de besteiras. Eu, em ultimato, em tentativa de convencê-la a capturar algumas espécies, disse que poderíamos doar para crianças, que seria importante presenteá-las e que não fazia sentido os bichos de pelúcia presos. Ela me olhou atravessada em expressão duradoura de uns longos quatro segundos. Então topou a amalucada ideia, mas disse para eu baixar por aquela escada ou elevador, que ela veio da escada, elevador não conhecia, enfim, mas que desse o fora o quanto antes. Ela preencheria a mochila, tomou-me a mochila, eu contrário à permanência dela, que se fosse inseguro para mim, para ela tanto mais, embora não perguntasse o que ali faziam, que contato tinham com o casal suspeito daquele quarto. "Seu pai lhe espera a duas quadras daqui", disparou em seriedade enquanto avançava para as prateleiras e mesas de serzinhos inanimados, amontoados como naqueles cassinos do gancho para pegá-los. Eu já estava uns três degraus mais baixo que o nível dos acontecimentos anteriores, quando notei que quatro funcionárias voltavam. Conversavam alto e riam, gargalhavam, uma mexia no cabelo de outra, uma mascava chiclete em crescentes bolhas logo estouradas contra sua própria face.

Minha mãe, vendo que elas se aproximavam, fez um último gesto para eu seguir, ir embora, zarpar dali. Após muita hesitação e desconfiança anteriormente, resolvi obedecê-la, mas completamente incerto do que sucederia. A escada estava íntegra, os degraus nem sequer rangeram a meus apressados passos. Não houve interrupção novamente na câmara de entrada do decrépito prédio. Nenhuma alma para encerrar meu aterrador check in naquela casa maligna. Minha mãe seria atacada pelas demais funcionárias? Minha mãe fazia parte daquele plano? Eram traficantes? Que tipo de práticas ou cultos ali realizavam? A noite estava cerrada, a umidade crescente tornava até o próprio solo escorregadio quando ganhei novamente as largas calçadas da rua, os terrenos baldios em volta formulando uma escuridão espessa, rompida a distantes postes e a iluminação de raros prédios, que começavam seu aglomerar de estruturas urbanas conforme eu avançava e o resfolegar representava o esforço praticado pelos passos em desabalada corrida.

Nem sinal de meu pai. Queria apenas retomar, de alguma maneira, perdido por aquelas ruas, já sem minha mochila que havia ficado com a representação de minha mãe, o caminho para o hotel. Pegar o restante de minhas tralhas, roupas, sapatos e voltar para o Brasil, sem me atentar ao congresso da promoção vencida pela BABEL. A promoção surgida em bar em que eu bebia solitário e tranquilo, o vencer da promoção, o congresso perfeito em datas logo após o resultado da promoção, minha facilidade com o idioma espanhol para ali congregar-me. Meus pais. Tudo parecia armado, simulacro, falso. Tinha a certeza que voltando para casa, eu não os encontraria na cidade.

11/09/2020

Dia de Limpeza

tem que tirar o pó do quarto
tem que varrer o tapete
tirar o pó dos objetos
tirar o mofo da parede

dia de limpeza é um porre
e ninguém nos socorre
pra quê tantos objetos?
coleção de chaveiros
discos que não escuto
livros que não mais reflito
tantos objetos sem uso
lá se vão os meus turnos
afoga a folga
afoga a folga
afoga a folga

tem que por veneno pra rato
e as baratas dos bueiros
tem que aspirar o quarto
passar um pano no espelho
e trocar os lençóis
enquanto há sóis o dia inteiro

dia de limpeza é um porre
e ninguém por nós corre
faremos isso semanalmente
até o dia que se morre
e aí finalmente
tudo em trouxas se recolhe
e segue a prole
e segue a prole
e segue a prole

tem que tirar roupas da corda
que já está vindo a chuva
e remédio para pulgas
no colarinho dos pets
e o processo se repete
até o dia que se morre

dia de limpeza é um porre
e ninguém nos socorre
pra quê tantos objetos?
coleção de chaveiros
discos que não escuto
livros que não mais reflito
tantos objetos sem uso
lá se vão os meus turnos
afoga a folga
afoga a folga
afoga a folga

ao ritmo de Amor e Morte de Wander Wildner

10/09/2020

Começos de Fins

A lei e a ordem pareciam distantes em um Estado (com inicial maiúscula ou sem?) de abandono. Era o centro da cidade em desolação e decadência, evidentemente decrépito. Ainda havia os prédios, mas a iluminação com o envolvimento da noite era precária e caminhávamos a passos incertos, sem saber onde exatamente pisávamos, entre calçadas que nunca foram boas e pioraram de aspecto. Mas sabíamos que o apartamento de Gomes era uma saída contra a desproteção noturna. Ou ao menos costumava ser.

Ao chegarmos na derradeira quadra onde fica o edifício de moradia de Gomes, notamos que a situação das ruas permaneciam a mesma naquele projeto de inferno apocalíptico. É bem possível que a caída da noite tenha acentuado nossas impressões, mas todavia o aspecto era lastimável. O prédio, entretanto, ainda era verde, o que nos permitiu identificá-lo em local exato mesmo à distância. Primeiro notei a ausência de porteiro. Nada do sr. Dornelles ou do outro companheiro que esqueci o nome, mas que era bastante simpático. Tiago! Tiago, ele se chamava. Nada de Dornelles ou de Tiago, aumentando a ansiedade perante tanta consternação. Arquiteturas gastas, pinturas mal acabadas, o ar pesado como se a sede da violência poderia descambar a qualquer instante. A putrefação sanguínea em odor opressivo comum a hospitais muito cheios e consequentemente mal ventilados.

Contornando aquela entrada em breve saguão de edifício, que mais se assemelhava a uma sala de espera, pudemos avançar rumo às entranhas do prédio verde, levemente decorado com pichações internas e vidros em estilhaços de sua desorganizada fachada. Sem Dornelles ou Tiago para trocarmos ligeiros cumprimentos, a tensão permanecia em cada um de nossos rostos. Éramos um grupo reduzido, talvez cinco pessoas contando comigo. Parecíamos muito mais em missão da procura por abrigo do que para uma reunião amistosa. E logo na entrecurva para esquerda rumo às escadarias e notamos não sermos os únicos com essa majestosa ideia.

Moradores de rua aproveitavam a confusão de desgovernada cidade e montavam acampamento nos corredores dos prédios. Tentavam espalhar seus apetrechos de forma organizada para demarcar territórios, alguns ousavam erguer redes como se indígenas. Se distribuíam pelos corredores a cada lance de escada e a maioria permanecia silenciosa em sono resguardado por sacos de dormir, na ausência de colchões ou maiores estruturas de travesseiros. Eu olhava para aquela cena com certa horripilância transparecida, pois recordava o prédio em perfeito estado anterior, com a portaria, com o cheiro constante dos não menos nauseantes produtos de limpeza. Mas agora estávamos cercados pela atmosfera de uma guerra civil e de locais incertos para cada um se proteger.

Passei a pensar que muitos daqueles refugiados dos corredores poderiam ter casas destruídas, ou mesmo hipotecadas anteriormente pela alta dos preços, sem condições de arcarem com os impostos ou com os aluguéis elevados. De qualquer forma, uniam-se no denominador comum de não possuírem mais onde morar. O prédio de Gomes, de fachada liberada pela quebra de vidros, interior desprotegido com a ausência dos guardiões da portaria, tudo isso convidava para que levantassem o acampamento com o que podiam trazer consigo.

Mas Gomes, indiferente a esses pensamentos sensíveis ou disfarçando o melhor que podia, como muitas pessoas costumam fazer, mantinha a fronte em direção a seu apartamento, que ele aguardava manter-se intacto em meio ao furdúncio do mundo externo. Desviávamos dos novos inquilinos da região com passos cuidados, para não os acordarmos e não aumentarem as nossas enrascadas. A luta por espaço poderia se tornar sangrenta ao menor deslize.

Finalmente Gomes conseguiu chegar à sua porta de entrada, em madeira bem talhada, uma nogueira, sem dúvida alguma. Girou a chave esperando pelo estalar crepitante que lhe garantiria o desejado acesso. E ele ocorreu com um ranger contínuo de dobradiça enquanto cada um de nosso seleto grupo se apressava em adentrar ao abrigo de prometida segurança. Nos estiramos sobre o chão, não diferentes aos do lado externo. Alguns proveitosos deram melhor utilização para os sofás, que traziam sobre si as trouxas de roupas dobradas prontas para serem embaladas nos roupeiros, mas que ali seguiam à espera do pó, em partículas que, embora não inicialmente percebidas, sempre se formam na superfície dos objetos.

Respirávamos ainda ofegantes das aventuras do lado externo daquela segurança, tentávamos absorver a nova camada de ar, certamente menos densa do que a respiração grosseiramente desenvolvida de instantes atrás. Nossos pulmões, tais quais motores de carros forçados pelo engate de menor marcha, se aliviavam no exercício do ir e vir do ar. Ao que pareceu, nos primeiros momentos ninguém arriscou palavra sobre tudo aquilo que se passava, antes em movimentos delicadamente inéditos, agora diante de nossos olhos, no resguardo incendiado da memória recém recebida.

Apesar da população crescente pelos corredores e espaços que eram conhecidos por reproduzir o eco dos passos e quaisquer sons, em meio aos vazios, o prédio mantinha um silêncio ensurdecedor. Enquanto retomávamos o estimado fôlego, ouvíamos apenas o zumbir de nossas próprias vozes, através da narrativa interna que carregamos como pensamento. Ou seja, cada um ouvia a si mesmo e não arriscava palavra que rompesse esse cordão muito bem traçado e produzido, como uma teia em fibra ótica.

O anfitrião se adiantou perante nós.

- A coisa não estava assim.

- Como começou? - Perguntei em voz barganhada.

- Há algumas semanas. Perderam o controle. Governo. - Gomes tinha dificuldade de formatar as frases àquela altura.

O nítido aspecto apocalíptico que tanto me apetecera em filmes e livros agora estava diante da gente, formulando uma solução de alta contenção de adrenalina disparada ao sangue. E eu queria manter o sangue dentro de mim, não espirrado em jorros como poderia acontecer em qualquer batalha campal a ser travada pelo lado de fora daquela bonita e grossa porta de madeira talhada.

Estávamos no oitavo andar, mas o que notei minutos atrás é que havia mais uma infinidade para cima naquelas escadas nem tão quadradas, nem tão de caracol. Elas davam vista para os espaços reservados acima, mas não eram de contornos arredondados. Não sei como melhor me explicar, necessitaria de um engenheiro naquela pitoresca construção para descrevê-la. Mas o que acontecia era uma ocupação andar a andar em que os novos moradores procuravam se organizar entre seus bandos, entre suas famílias, entre seus pertences batalhadamente acumulados.

- E se os seus vizinhos foram despejados? - Perguntei novamente, dividindo o pensamento com os demais, que mantinham-se quietos.

- É possível. Mas não estabelecemos contato.

- Você é meio eremita. Falava com eles nem antes, acha que isto é São Paulo. - Brinquei. Gomes não riu. Nem os demais, que pareciam seres inanimados. Pensava o que estava acontecendo ali.

Procurei sinais de arrombamento, ou ao menos tentativa, na porta do apartamento de Gomes. Nenhum sinal. Ao subir o desgastante lance de escadas em oito andares, também não havia notado os sinais de apelo contra as entradas, mas é bem verdade que estava concentrado demais naquela visão sinistra de acampamentos inteiros de refugiados e para não pisar porventura em algum deles, causando tumulto. Só sabia, àquela altura, que a situação estava periclitante, densamente crítica.

Gomes abriu a geladeira e mostrou alguns produtos que desde já me preocupavam em data de validade. Queria lembrar da última vez que deixei meu bairro, mais distante ao centro. Meus pais, minhas duas irmãs, por onde andariam e em que estado de segurança em meio àquela calamidade generalizada. Os três demais componentes de nosso grupo, que pude analisar melhor naquela pausa, também eram nossos amigos. Havia uma menina chamada Jasmine e que estava bastante quieta. Tinha o olhar concentrado para baixo, enquanto mantinha a coluna bastante ereta apesar da possibilidade de maior repouso sobre o sofá.

Jones e Claudia ficaram próximos um do outro, em tamanho silêncio também. Eram grandes amigos e geralmente agitavam as rodas de conversa, mas o panorama estava muito diferente. Naquele caos, lembrei do professor Eduardo que sempre mencionava sobre as lojas de colchões e as garagens desocupadas nos edifícios enquanto milhares de pessoas vagavam e procuravam espaços desconfortáveis para dormir nas ruas. Não mais, professor Dudu... não mais.

08/09/2020

olhar pra frente

achava que o momento chegaria
olhei pra trás pro momento que nunca chegou
achava que algo melhoraria
programas sociais, tecnologia
olhei pra trás para o que me decepcionou

achava que tudo passaria
e tenho em mãos ainda aquele dia
achava que até me esqueceria
olhei pra trás com a marca de seu batom

olhava à frente, o momento chegaria
e coincidia, insidia em não chegar
olhei pra frente, eu não desistiria
e já olhei pra trás
para o que me decepcionou
olhava à frente, o horizonte se abria
olhei pra trás, para a porta que se fechou
mas eu olhava à frente, frente a frente ficaria
e de repente percebi que já passou

eu prometi, isso eu não rimaria
e agora não há outra forma de dizer
eu olhei pra frente, segui minha romaria
e de repente outro dia vai nascer

tanto faz, o ás na manga cairia
e não adianta mais me esmorecer
é entender que nada adiantaria
e todavia outro dia vai nascer

07/09/2020

a rua do poeta

triste poeta esquecido. para que não fosse esquecido, uma rua lhe dedicaram o nome. mas hoje, ao abrirmos a internet, na curiosa pesquisa, na busca por seu quase esquecido nome, ele é lembrado somente pelas ofertas imobiliárias de algumas casas em tranquila rua que lhe dedicaram o nome.

Brasil Parasita

era um país tão triste
nem mais mata existe
choro por ti, pantanal
se digo que não choro
estou a mentir, afinal
choro por ti, pantanal

o cosmos se alinhou na maldade
contra o homobrasilis-saudade
saudasos ministérios mais sérios
juízo aposentou emérito
ficamos em país sem critério
um barco aos destroços à deriva
olhar na fronte sem perspectiva
na cadeira cativa doutores
taça de vinho, peixe sem espinha
quando a nós nos sobra espinha
se atiram em meu dorso
gritam "essa já é minha!"
Brasil-paz para os parasitas
nada ao povo das palafitas
Brasil-paz para os parasitas
sub-versões não escritas

era um país tão triste
nem mais mata existe
choro por ti, pantanal
se digo que não choro
estou a mentir, afinal
choro por ti, pantanal

Brasil parasita se propaga
labareda ninguém apaga
Brasil propagado parasita
propaganda deles é infinita
das ruas reles de Brasília
invade circunda nosso litoral
tal qual
abominável avanço do mal
tal qual, tal qual
abominável avanço do mal

novos versos

tenho dificuldade em recitar os versos
dos poetas dos universos passados
em lembrar-lhes os traços como de berço
mas posso inventar sempre algo novo, inédito
antes desconhecido, agora recém calcado
posso inventar só por sair do tédio
posso inventar para te ver de novo

03/09/2020

O Fantasma e A Canção - Antônio de Castro Alves

Então, nas sombras infindas,

Se esbarram em confusão

Os fantasmas sem abrigo

Nem no espaço, nem no chão...

As almas angustiadas,

Como águias desaninhadas,

Gemendo voam no ar.

E enchem de vagos lamentos

As vagas negras dos ventos,

Os ventos do negro mar!

“Bati a todas as portas

Nem uma só me acolheu!...”

— Entra! — Uma voz argentina

Dentro do lar respondeu.

— Entra, pois! Sombra exilada,

Entra! O verso — é uma pousada

Aos reis que perdidos vão.

A estrofe — é a púrpura extrema,

Último trono — é o poema!

Último asilo — a Canção!...

Bahia, 13 de dezembro de 1869


02/09/2020

poetrix

poetrix
nunca mais
não sei como faz
nem sei se já fiz

haikai
não sei fazer
por não saber
daqui não sai

poeminha
minha anja
põe eminha
tua franja
na minha

01/09/2020

misérias morais

misérias morais 

são arbustos

e quais são seus pseudofrutos?

e onde eles jazem?


misérias morais

em toda parte contrariam

aquele sentimento augusto

inventado em nome da paz


misérias morais

das sociedades mais distintas

cobiças, infortúnios, inveja

sombras formatadas quimeras

com duas três mãos de tinta


misérias morais

acalentadas nos seios sociais

composições sérias do incapaz

de se satisfazer? nunca mais

miséria moral que orbita

junta ao seio se unifica

moscovita anseios carnais

no dostoievs-cais


um porto ao morto

as luzes: misérias morais

e pontos finais

Horas Vivas - de Machado de Assis

 Noite: abrem-se as flores...

          Que esplendores!
Cíntia sonha amores
          Pelo céu.
Tênues as neblinas
          Às campinas
Descem das colinas,
          Como um véu.

Mãos em mãos travadas,
          Animadas,
Vão aquelas fadas
          Pelo ar;
Soltos os cabelos,
          Em novelos,
Puros, louros, belos,
          A voar.

— “Homem, nos teus dias
          Que agonias,
Sonhos, utopias,
          Ambições;
Vivas e fagueiras,
          As primeiras,
Como as derradeiras
          Ilusões!

— Quantas, quantas vidas
          Vão perdidas,
Pombas mal feridas
          Pelo mal!

Anos após anos,
          Tão insanos,
Vêm os desenganos
          Afinal.

— “Dorme: se os pesares
          Repousares,
Vês? – por estes ares
          Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
          E lascivas,
Somos – horas vivas
          De dormir!” –

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

31/08/2020

Machado de Assis chorava

Machado de Assis dizia
que vertia lágrimas aos pares
nessa comunhão de jorrares
lágrimas ao fim dos dias
nos declínios solares
lágrimas e melancolia
a encherem chão dos lares

Machado de Assis dizia
que vertia lágrimas aos pares
será que refere como cairia
lágrimas a cada duas
formam pares
ou será que se referia
a chorar com quem casares
fica a dúvida que se debata
dúvida que não se debita
e que habita nesses mares

28/08/2020

O Cãomício de Wolf

Era uma época de simulacros. Estavam por toda parte. Desde a dissimulação necessária nos meios políticos, entre os doutores, deputados, juízes, desembargadores, promotores, oficiais dos mais diversos cargos, até os astros esportivos, simuladores de falta de ataque no basquete, de pênaltis no futebol, de bloqueadores no vôlei que nunca encostavam na bola que ia direto pra fora. Alguns desses casos esclarecidos pelo salvo conduto garantido pelas imagens da arbitragem de vídeo. Nos casos políticos, vocês sabem, a dificuldade era maior de conseguir flagrantes e respectivos aprisionamentos previstos nas legislações.

Havia também os simuladores conjugais, maridos e esposas dissimulados para suas fugidias galanteadoras. Rompedores do fastio diário que acometia dois a cada três casais, sendo eu bastante bondoso ao inventar tal estatística. Tudo para facilitar a compreensiva esperança que vocês querem alimentar. Mas esse caso a seguir desafia a lógica do pensamento humano, uma intervenção divina da natureza em uma época em que tanto objetificamos pessoas. O caso referido é da personificação animalesca, que também não é o maior absurdo que vocês já ouviram sobre. Provavelmente conhecem ou até são os donos (pais) de pet que humanizam ao máximo seus queridos mascotes.

Parece que a dona tinha a grafia para as idas ao veterinário como Wolf, o legítimo lobo alemão. Mas aqui escreveremos Rolf, que era como a dita cuja mãe de pet pronunciava. O Rolf era um cão sabujo criado em um quintal meio triste, de concreto, mas a Alessandra garantia que assim era mais fácil de limpar suas fezes. Começando a descrição me vem à mente o filme Roma, do nosso querido mexicano Alfonso Cuarón. Parece que ele quis ilustrar da forma mais direta possível que é pra pensarmos na merda que é a vida. Enfim, a do Rolf não era tão ruim assim, porque ele dispunha do seu espaço, embora concretado em suma. Havia para ele umas proibidas hortinhas nos cantos do pátio. O cão era esperto e subia ao canteirinho de tijolos quando Alessandra ou seu marido Vinicius não estavam de olho.

Ademais do espaço, o sabujo contava com brinquedos de borracha e tempo para curtir a companhia humana, agitando seu rabinho como comprovação de lhe apetecer esse período. As refeições eram o principal caso em questão. O Rolf se alimentava, sim, pelo menos duas vezes ao dia garantidamente, mas mesmo assim não parecia contente com os horários e se fazia de louco.

O almoço de Alessandra era pontual, ao meio-dia. Vinicius nem sempre voltava em casa para almoçar, atarefado que era. Mas afirmamos o compromisso com a inocência do Vini quanto ao matrimônio, sendo o caso discutido do simulacro o do cão do casal. À essa altura, na descoberta protestante de Rolf, os dois humanos já haviam procriado, um pequeno cabeçudo com a alcunha de Francisco, o Chico. O Chico era uma verdadeira comemoração virtuosa de Alessandra e Vinicius porque era muito comportado, nada manhoso, respeitador dentro do possível para uma criança de três anos.

Eis que surgiu o problema em quatro patas. O Rolf almoçava cinco minutos antes da Alessandra servir o que ela e Chiquinho (e/ou mais Vini) iriam comer a cada metade de dia de cada dia. Mas o aventureiro sabujo percebia que o estômago lhe advertia antes das 11h55, então por que esperar? Rolf emitia um latido enjoado, manhoso, ardiloso em busca de atenção. No primeiro dia foi às 11h50.

Rolf manteve sua postura austera nos dois almoços seguintes, mas tornou a latir, já em curtas ondas sonoras de formato uivante, isso às 11h45. O prognóstico foi piorando para a cada vez mais escabelada Alessandra. Dali uns dias, às 11 e trinta já estava composto o solo canino do sabujo. Um espetáculo apreciado por exatamente ninguém da vizinhança. Vinicius esteve presente nesse almoço embrulhado após a irrupção ousada do quatro patas.

- Mas que diabos esse cachorro tá querendo?! - perguntava o inocente mediante a primeira vez que presenciava tal fastigante cena.

Como afirmado, era um espetáculo apreciado por ninguém da vizinhança. Ninguém humano, porque o complô canino prestava atenção na atuação simulacra de Rolf, que já nem mais tinha fome naquele horário matinal, mas gostava de gozar seus adiantamentos. Os cachorros vizinhos, inclusive, estes almoçavam era mais tarde, só a sobra dos adultos donos. Mesmo que implorassem à volta da mesa, eram convidados a se retirarem, esperavam de estômagos roncos até alguma sobrinha, um osso bastante desgastado em seu conteúdo em volta, uma sobrinha de arroz no carreteiro e coisas do tipo. O Rolf era o espertalhão daquela turma separada por grades.

Certa noite, eles foram até a divisa máxima, cabeça para o lado de fora, posição favorita para tentar morder o homem de azul e amarelo, o carteiro.

- Rolf, seu arruaceiro. - Liderava o grupo do bairro um esquisito bull terrier.

- Fui criado em casa desde nascença.

- Você é um fingido. Tem dado certo seu plano?

- Indubitavelmente. Eles me servem porque os chateio o bastante. E Alessandra sempre foi querida.

- Raios que os nossos nos fazem esperar a cada pecador dia.

- E por que não tentam como eu faço? Comecem um pouco mais cedo que o horário habitual. Nem perceberão.

No dia seguinte mandaram brasa e arrebataram um bife mais cedo do que sonhavam. A eficácia era comprovada de forma ligeira. O recado era passado de grade em grade, percorrendo como corrente elétrica o bairro adiante. O alarido no horário de almoço, ou melhor, pelas manhãs, estava acabando com qualquer concentração filial para dever de casa, adulta para home office e até dizem para a concentração dos próprios cozinheiros e cozinheiras para as requeridas refeições. A cachorrada ficou ensandecida.

Um vizinho, disposto a dar um basta na estonteante situação, chamou Alessandra e Vinicius de lado para conversar. Falaram na calçada, em direção ao centro da pouca movimentada rua, porque não queriam que os cachorros ouvissem.

- Sei que o seu, o tal Rolf começou a rebelião.

- A rebelião?

- Não se façam de bobos. Ele era quieto, nem dávamos por sua presença e de mês para cá começou a invocar esses satânicos rituais que embriagam nossos descontados ouvidos. Estou fazendo projetos para o filho do prefeito e mais dois vereadores e não posso me concentrar com essa balbúrdia diariamente.

- O Rolf até que anda quieto. Não tem nos incomodado... não tão cedo.

- O problema é que esse sabujo de uma figa plantou a semente nas cabeças terroristas. Agora o bairro inteiro reivindica o direito a almoço e antes mesmo da gente! Vou denunciá-los por perturbações à ordem, percebam que para mim, arquiteto renomado, é fácil que colha assinaturas dos mais diversos para encurralar vocês. Queridos, vocês não têm escolhas, ouviram?!

- O que quer que façamos?

- Livrem-se do líder do bando. Isso vai acalmar a revolta dos demais.

Alessandra ficou sem chão enquanto Vinicius era a própria expressão reflexiva. Com o dedo indicador ainda em riste, o vizinho arquiteto renomado, amigo de prefeito e vereadores e juízes, desembargadores, com e sem vergonhas retirou-se. De costas para o casal, ele ainda falava sozinho mas isto porque era meio amalucado das ideias.

À noite, os cães se reuniram, até onde poderiam se reunir, lembrando episódios de passagens históricas em que presidiários se comunicavam com outras celas em códigos, principalmente os presos políticos em suas acomodações denominadas solitárias. Mas no caso o código dos cães eram os latidos que os donos entendiam nada, embora eles sim entendiam o legítimo português (brasileiro) praticado em oratória por seus donos.

- Ouvimos que você será removido, Rolf. É um ultimato.

- Como sabem? Estive dormindo boa parte do dia.

- Eles ignoram nossos ouvidos hipersensíveis - gabava-se o mesmo bull terrier da outra vez. Por ser o futuro assumidor da chapa, será idenficado aqui. Chamava-se Sam.

- Iremos dar uma trégua? - Perguntava uma poodle aqui não identificada, porque tanto faz a raça, naquela lei canina eram todos iguais.

- Não daremos. Mesmo que me custe a remoção dessa casa, senhoras e senhores, vocês devem continuar lutando por seus direitos. Peço somente que não percam a razão em atos descambados em violência, mas usem-a a seus favores se forem ameaçados, como provavelmente serei, conforme me dizem. Estarei preparado para o que der e vier.

- Nunca o esqueceremos, capitão.

- Você nos ensinou lições incríveis - reforçavam outras vozes caninas de casas adiante.

A verdade é que aquele coro, o falatório que avançava madrugada foi o estopim para que o arquiteto, com a cabeça pressionada pelo travesseiro, tentando ouvir seus próprios pensamentos, agir. No dia seguinte começou a protocolar o ato contrário ao sabujo Rolf, pela perturbação da ordem alheia. Nem três dias depois, foi de casa em casa, para o desconhecimento de Alessandra e Vinicius, e colheu assinaturas contrárias ao líder da gangue. Apenas a senhora dona da poodle não assinou, mas dizem que ela é meio surda mesmo. Os pais de pet na categoria gato assinaram todos. Eterna rivalidade.

Com um mandato em mãos, a famosa carrocinha dos desenhos apareceu naquela pacata rua e para os que presenciaram, foi a maior batalha campal de todo ano, em que, ao final dele, pelas épocas natalinas, os vizinhos comemoravam o fato de não haver roubos, assaltos e coisa pior naquela temporada. Mas a remoção de Rolf foi uma trabalheira poucas vezes vista para aqueles fiscais da prefeitura, que perderam quase hora inteira naquela humilde casa de chão concretado. Com muita relutância, Rolf subiu na carroceria do veículo e com um aceno de pata e longos uivos periclitantes, despediu-se de seus saudosos companheiros.

Os dias seguintes foram de tranquilidade, mas não demorou para Sam e seus capangas recomeçarem a exigência de comida o quanto mais cedo fosse possível. Entre as assinaturas caninas em um documento passado de boca em boca, de grade em grade, com a marca da pata carimbada de cada um, queriam o almoço antes dos humanos, mínimo de duas refeições diárias a todos os companheiros, água trocada diariamente e limpeza diária dos resíduos, que eles, coitados não tinham culpa ou opção melhor, diferente dos gatos e suas caixinhas de areia (que também precisam ser sempre higienizadas).

Sobre este último fato, Alessandra, em entrevista, garante que até dessas coletas escatológicas sente falta e tenta reaver na Justiça a guarda de seu querido Rolf, hoje já se encaminhando para uma idade respectivamente idosa entre os cães. Os colegas o aguardam de patas abertas para uma saraivada de uivos. A prática na luta pelos seus direitos passou de grade em grade e percorreu do bairro para o sentido centro da cidade. Vinicius já nem consegue se concentrar direito no trabalho, porque os cães centrais do município já lhe perturbam em função do processo iniciado, mal sabe ele, na sua própria casa.

- Mas que diabos esses cachorros estão querendo?! - Brada o Vinicius, repetitivo e infortunado enquanto produz bolinhas de papel que são sempre arremessadas contra sua lixeira no canto do escritório (ele nem sempre acerta).

As reuniões caninas, que são combinadas entre meia-noite e 1h30 da manhã, que também não é para abusar do sono dos seus donos, que ainda os alimentam apesar das represálias, as reuniões agora são para debater o futuro dos cães de rua, circundantes das casas em busca da sobra dos almoços dos gradeados. Sam é contrário a fornecer comida para esses ditos por ele vagabundos, mas Diva, uma jovem sem raça identificada, acolhida por um outro casal e que dá muito valor a seu novo lar, sabendo das dificuldades de ser órfã nas ruas, está disposta a aplicar um golpe no bull terrier. Ela quer se candidatar no próximo pleito. Os debates caninos, esses ainda vão longe. Enquanto isso, os "pais de pet" da cidade entendem cada vez menos o que está acontecendo.