13/08/2018

escritório

no escritório
se esquivavam ideias cheias de vontade
de terem asas e serem sonhos

no escritório
haviam números, gráficos e polinômios

no escritório tudo se traía
principalmente sonhos
como somos
e também hormônios

no escritório tudo se submetia
a números, gráficos e polinômios

se eu já disse
saiba que se repetia

todo dia
todo dia

tudo se subtraía

no escritório
contrário à poesia
a poesia se contraía
não se elegia
sem ter quórum
nesse forum
dos que não foram
do que seria

vaga leme

vaga
vaga leme
gira gira gira
geme geme geme
fecha a escotilha
e volta nossa fênix

vaga
vaga lume
noite noite noite
surge surge surge
vaga mente
urge urge urge

08/08/2018

saltemos

sumir
sou mar
estou aqui
e também lá
venci
vem cá
águas prontas
para te curar

vem a
doçar
vem a
dançar
mesmo que o sal
nunca vá se acabar

06/08/2018

Malgi Mágica

Começo esse registro ainda no domingo referente ao evento. Mas o concluo na segunda-feira seguinte. De forma especial, a equipe local de futsal, a Malgi se tornou campeã gaúcha pela primeira vez. Uma conquista inédita para a cidade no futebol de salão feminino. Um projeto de dez anos com vários parceiros, com começos e fins, mas a persistência falando mais alto. Ecoando pelos quatro ou mais cantos do estado. Adversárias da região metropolitana, extremo norte, centro gaúcho, Rodeio Bonito, Cruz Alta, Uruguaiana. Enfim, dessa vez ninguém foi páreo para o futsal pelotense. Uma conquista que muito orgulha em saber que a região ainda revela talentos e capta e acolhe bem aos talentos de fora. Assim desejamos.

De ano para cá, entendo cada vez mais a importância e subsistência dependente dos patrocinadores. Com cada nome lembrado e agradecido, a Malgi Futsal chegou lá. Após uma primeira fase invicta, vencendo pela primeira vez na sua (nem tão, hein) recente história o bom e tradicional time de Uruguaiana na fronteira oeste, a Malgi passou pelas adversárias do Figueira na semifinal com duas goleadas. Prontas para voos maiores, a decisão colocou de novo frente a frente as pelotenses e as uruguaianenses.

O jogo de ida saiu do habitual e terminou em placar final de 7 a 1. Simbólico e desagradável. Irreversível na primeira olhada. Mas o jogo da volta resolveria essa situação. A Malgi buscava seu primeiro título, enquanto a Celemaster de Uruguaiana tinha estrelas bordadas na camisa. Mas o belo uniforme predominantemente verde das pelotenses queria ostentar o estrelado no lábaro.

De pênaltis, nasceram os três primeiros gols na tarde de domingo (05/8) no ginásio do Paulista, tradicional clube rubro-negro do que se convencionou chamar zona norte da cidade de Pelotas, embora esteja situado num cruzamento que para alguns seria Centro, outros Cohabpel e outros Três Vendas, nas proximidades da chamada Curva da Morte.

Voltando da localização geográfica, os pênaltis. Cota foi a batedora oficial. A experiente jogadora cobrou os dois para a Malgi. O segundo para recolocar a vantagem no placar em 2 a 1. Duda, a que mais correu em quadra, se esforçou, batalhou, perdeu muitas no ataque, mas ganhou quase tudo na defesa, aproveitou um escanteio e fez 3 a 1. Detalhe que o escanteio foi cedido pela goleira adversária, que espalmou um chute forte, mas que iria para fora. Falei com meus botões que poderia ser bem aproveitada essa rara oportunidade. E assim foi.

O panorama da partida era de muita pressão das uruguaianenses. Imprimiam mais velocidade, mais jogadas combinadas. A goleira Dani desde o primeiro tempo segurava-se para sagrar-se a melhor em quadra na decisão. Defesas de todas as formas. A competência, o treino, o reflexo, a sorte nas quatro letras de Dani.

Uma dividida não ganha, uma bola que sobrou melhor na área e a Celemaster voltou ao jogo reduzindo o placar para 3 a 2. Assim zerou o cronômetro do primeiro tempo. A etapa final seria de uma demora tremenda. O relógio não caminhava. A pressão era enorme. A Malgi precisava da vitória no tempo normal para levar para prorrogação. Com unhas e dentes e bicos e todo tipo de doação na marcação, as alviverdes se fechavam na defesa. Dani seguia sua tônica no jogo. Maurício arrumou a Malgi em um esquema de 3-1 (só uma jogadora na frente) para defender o 3-2 no placar.

Evelyn era um raio de sol na quadra, cortando como um saibro de luz a marcação das adversárias. Raras saídas em velocidade e desafogo para a defesa. A pressão maior foi no último minuto. No placar imóvel da etapa final, goleira-linha na Celemaster. Alguns trabalhos explorando a amplitude da quadra com jogadora a mais na armação, mas aproveitamento ruim e marcador congelado no 3 a 2 que serviu para Malgi.

No arranque da prorrogação, o placar zerado. Caso de persistência de empate, pênaltis. Mas Cota, sempre ela, estourando qualquer sistema de cotas de participação dela sendo decisiva, girou em cima da marcação e chutou sem chances para goleira. O golaço da partida, o golaço da final, sem dúvida alguma. Vibração no ginásio de novo e Malgi na frente agora pelo desempate.

O panorama do fim dos fins foi semelhante ao final do segundo tempo. Pressão e pressão e desejo da passagem do tempo. O estouro do cronômetro finalmente veio e o ginásio enfim comemorou. Malgi campeã pela primeira vez. Cota, a artilheira da experiência no jogo, Dani, a segurança, Duda, a guerreira corredora, a esforçada Bruna, a praticamente assistente técnica Dani mais alta, a habilidosa Evelyn, a multifuncional Paola e demais combatentes. Título mais do que merecido em um clube que faz trabalhos físicos, técnicos, táticos, nutricionais e, importante item, psicológicos. Malgi cada vez mais referência no Futsal Feminino.

Malgi Campeã
Foto: Gabriel Huch - Diário Popular
  



Texto do site da Malgi sobre a conquista
Por: Victor Thompsen
A Taça RS 2018 é da Malgi/CAVG. Jogando em Pelotas, as meninas reverteram o resultado adverso do primeiro jogo da decisão e após uma vitória por 3 a 2 no tempo normal, derrotaram a Celemaster por 1 a 0 na prorrogação e ficaram com o título do primeiro turno do Estadual 2018.
Reforço importante
Para a partida deste domingo, a Malgi contou com um reforço de peso. Melhor fixa do Estadual 2017, Keka voltou as quadras após sete meses se recuperando de uma cirurgia para corrigir uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo.
Primeiro tempo movimentado
Reforçada por Keka e pela torcida que lotou o ginásio do Paulista, a Malgi buscou o gol no inicio da partida, Na primeira chegada Cota recebeu de Dudinha e finalizou para fora. No lance seguinte, após bate rebate na área a bola bateu na mão de uma das jogadoras da Celemaster, o arbitro da partida assinalou pênalti, Cota foi precisa na cobrança e abriu o placar. Dois minutos mais tarde em lance semelhante na área da Malgi o arbitro da partida marcou pênalti para a Celemaster, Gabriela foi para a bola e deixou tudo igual 1 a 1.
A ala da Celemater era a principal jogadora das visitantes e aos 12 minuto, ela só não virou por que Karina de carrinho tirou a bola em cima da linha. Pouco depois, após ataque rápido da Malgi, Evelyn tentou a finalização e mais uma vez a bola bateu na mão da jogadora da Celemaster, Cota foi para a bola mais uma vez e mandou no ângulo, Malgi 2a1
.
Após o segundo gol, a goleira Dani começou a se destacar pelo lado da Malgi, foram ao menos três intervenções cirúrgicas da goleira evitando o empate da Celemaster. A resposta da Malgi, por sua vez foi certeira, quando faltavam pouco mais de três minutos para o final do primeiro tempo, Cota em cobrança de lateral achou Dudinha na área, a ala finalizou de primeira para marcou o terceiro. Um minuto mais tarde Becha aproveitou sobra dentro da área e mandou para as redes, 3 a 2. No fim, Dani voltou a aparecer e com duas grande defesas evitou o empate.
Segundo tempo nervoso
Se as emoções já eram grandes no primeiro tempo, elas ficaram ainda maiores na segunda etapa. Com o resultado que levava o duelo para a prorrogação, Malgi e Celemaster fizeram um segundo tempo eletrizante, onde quem chamou a atenção foram as goleiras. Logo no primeiro minuto, após jogada ensaiada de lateral, Larissa chutou de bico, raspando a trave.  Pouco depois foi a vez de Dani aparecer, Becha fez jogada individual e chutou forte, a goleira da Malgi mandou para escanteio. No lance seguinte Tiphane acertou a trave e no rebote Dani operou um milagre para evitar o empate da Celemaster.
Atrás no placar e precisando de um empate para garantir o título, a Celemaster se lançou ao ataque e Dani brilhou mais um vez ao fazer grande defesa em chute de Gabriela. Quando Dani não defendeu, Dudinha e Tuigui se jogaram de carrinho e evitaram o empate.
Inspirada, Dani voltou a aparecer mais uma vez para evitar o gol de Becha. Na sequencia Dani fez outra grande defesa para evitar o gol de Duda. A resposta da Malgi veio com Cota que completou lançamento de Keka para defesa de Laís.
Muito disputada a partida contava com forte marcação de ambas as equipes e aos 15 minutos do segundo tempo, a Celemaster estourou o limite de faltas. Na cobrança do tito livre, Karina chutou forte a direita de Laís. No minuto seguinte Evelyn fez grande jogada individual e finalizou de bico na trave.
Numa das últimas oportunidades de conquistar o empate, Gabriela avançou pela direita e chutou rasteiro, Dani apareceu mais um vez e garantiu a vitória. Com o resultado a partida foi para a prorrogação.
Gol relâmpago
Sem nenhuma vantagem na prorrogação, as equipes precisavam ir para cima para buscar o título e a Malgi foi cirúrgica em seu primeiro ataque. Em bela jogada ensaiada de lateral Dudinha achou Cota na área, a pivô girou sobre a marcação e chutou no canto, para marcar aquele que seria o gol do título, o 12º dela no Estadual em oito jogos. O gol animou a Malgi e Dudinha em duas oportunidades, quase ampliou. Lais apareceu bem e evitou o segundo gol da Malgi. Pouco depois foi a vez de Larissa para na goleira adversária que espalmou para escanteio,  Definindo o placar do primeiro tempo.
Força defensiva garante Taça
No segundo tempo da prorrogação, a dedicação defensiva da Malgi fez a diferença. Incansáveis, as meninas brecavam todas as investidas ofensivas da Celemaster. Quando ninguém interceptava as ações, Dani mostrava segurança lá atras. Ela apareceu mais uma vez nos minutos finais para defender chute de Dani Fleitas.
Na última oportunidade do jogo, Keka por pouco não coroou o título com um golaço. Evelyn pegou a bola na quadra de defesa e foi enfileirando as adversárias, foram três jogadoras da Celemaster que ficaram para trás, com direito a caneta. A ala ajeitou na entrada da área e rolou para Keka que dominou e chutou no canto, Lais espalmou. No fim a Celemaster até colocou a goleira linha, mas não evitou a vitória das Pelotense.
Com o resultado a Malgi se sagrou Campeã da Taça RS, primeiro turno do Estadual. Garantiu uma vaga na decisão geral do Estadual e de quebra garantiu vaga em uma competição nacional para 2019, Taça Brasil (caso seja campeã Estadual) ou Copa do Brasil (em caso de vice-campeonato Estadual).
Agora as meninas voltam o seu foco para mais uma decisão, na quinta-feira dia 9, as meninas entram m quadra para tentar o tetracampeonato do Jogos Abertos de Pelotas.
Campanha
8 Jogos
7 Vitórias
0 Empates
1 Derrota
35 Gols Marcados
16 Gols Sofridos
19 Saldo
87,5% de Aproveitamento

05/08/2018

cronocrimenes

Cada vez que me deparo com os espaços em branco que predestinam e se amostram no aguardo de minha escrita, é o embarque de uma nova viagem. Sei ou pelo menos creio saber, ter alguma ideia do que vou em seguida escrever, mas a construção final é sempre distante de qualquer molde.

Assim também é a vida real aí fora. E bom que seja. Posso conhecer para onde estou viajando, mas o destino final, as ações e interpretações sempre terão um quê, um teor, um sublime de novidade. Posso saber onde vou jogar bola, mas não sei como virão os chutes, os passes, a sucessão das jogadas. Posso saber as falas de um filme, mas alguns detalhes das cenas, antes despercebidos, me serão novidade. Posso conhecer, ou achar que conheça certas pessoas, mas as pessoas também se modificam entre elas. Sequência de experiências e acontecimentos que não ficamos sabendo, ou ficamos sabendo de forma incompleta, ou ficamos sabendo pelo ponto de vista de terceiros.

Cada embarque num texto é diferente. É como um embarque em uma linha de ônibus. Conhecemos a pontuação, as palavras e o tamanho dos parágrafos em média. Conhecemos quanto tempo demora o ônibus ou o trem ou o veículo que for para fazer determinado percurso. Mas com quem estaremos? E quem vai cruzar nosso caminho? Entre demais passageiros, pedestres e motoristas nos trajetos. Gente que cruza pela gente.

Fazendo os mesmos percursos de quantas e tantas vezes, me nascem, me ensaiam, me florescem novos textos. Novas perspectivas. Estão o tempo todo em rotação. Dançam com novos autores que possa estar lendo, com novas pessoas e pontos de vista que eu possa estar convivendo. Brindam com imagens, notícias, manchetes e reportagens. Brincam com músicas ou com outros barcos em nossos ancoradouros.

Metamorfoses ambulantes na linguagem conhecida do que possa ser música popular brasileira. Metamorfoses ambulantes, mas quem tem as bulas que mudam a todo instante? Em outras citações de sabedoria popular, aprendemos que a graça, o objetivo dos portos e suas embarcações é a coragem de novamente partir.

15/07/2018

refaz

queria eu me desculpar
pelo poema passado
que deixei suspenso no ar
completamente incompleto
totalmente inacabado

deixei o poema no varal
corretamente esticado
a secar no sol
mas veio a chuva
fazendo o que a chuva faz

que azar o meu, mas que paz
aquele poema todo molhado
abandonado, encharcado
mas novamente enxugado
pelo sol que refaz

13/07/2018

sinto muito

sinto tristeza quando não consigo
sinto tristeza quando não conseguem
sinto muito

sinto quando o prédio ergue
tão imponentemente cheio nesse mundo
sinto o vazio de um vagabundo
deitado
sem saber onde se insere
sinto muito

sinto quando a febre vem, vem feito lebre
vem pesar a cabeça antes leve
vem cabecear de tourada minha pele
nessa toada adentra como um germe

sinto muito

08/07/2018

Dois Trintas

Era mais um aniversário. O trigésimo da parente que conheço desde a infância. Todos nós envelhecemos. Ela sempre foi mais popular, jogava voleibol, se bronzeava e teve namorado na adolescência. Teve poucos até os 30 que somou de idade, mas tinha e tem.

Faltou luz antes de meus pais e eu sairmos. Era também aniversário da cidade que nos acolheu. Mesmo dia. A fiação elétrica em tamanha localidade pampeana e úmida jamais foi consertada. Estávamos em dúvida se o salão alugado em um condomínio mais novo estava com luz. Felizmente às festividades, os bairros atingidos pelo apagão não incluíram o do evento.

Antes de sair, obviamente quase refuguei o convite. Contato social é um grande cansaço e me pergunto se ainda o sei fazer sem a companhia do álcool. A verdade é que, independente da minha tentativa de demora, partimos na hora pré-programada, porém erramos a rua em que deveríamos entrar, ligamos para celulares e finalmente encontramos a entrada correta, com meu pai demorando minutos para decidir o estacionamento que mais lhe agradava. Então descemos pela cortina de frio da noite com uma leve garoa, a tônica do final de semana e talvez de todo o inverno na cidade.

Os familiares que chegaram antes escolheram uma mesa no canto do salão, com minha avó, minha tia e sua acompanhante de anos, quase década se bem me lembro. Mas logo as mesas foram juntadas, justapostas com outras pessoas. Foram menos convidados do que eu pensava, mas acho que a vida é assim quando se chega aos 30 anos. Não sou de planejar e muito menos executar esses tipos de festas, por não querer e nem poder, cá pra mim. Não teria saco para a mesma responsabilidade. Esse lance de receber convidados e dividir atenções nos intermináveis contatos sociais. Ser o primeiro a chegar e o último a sair. Não me agrada e precisaria talvez de uma semana para recuperar-me em repouso na companhia dos mais significantes silêncios e introspecções.

Uma senhora que até agora não sei exatamente a ligação com a família da parente apareceu e veio se chegando à nossa mesa. Sequer tivemos a oportunidade de nos entreolharmos e questionar sua presença assim tão próxima e, para alguns, invasiva. Mas o julgamento rápido do ingresso dela na bolha logo dá lugar a uma espécie de pena por perceber-lhe a solidão. A solidão que hoje carrega seja pela idade ou pela ineficiência de seus mais recentes contatos, a falta de com quem conversar e nosso papel de interlocutores enquanto rola a música e começa a festa.

Ela logo se mostrou mais fã do quentão do que deveria e a pena se estenderia para reavaliar seu estado de saúde debilitado, causado pela quantidade de álcool ingerido. Eu, tão jovem, não sinto o impacto das cervejas bebidas em teor não recomendado pelos demais familiares, mas que não me causam estranheza mesmo diante da mistura do pouco de quentão do início da festividade.

A senhora essa puxa assuntos de quando em quando ao se aproximar da gente. Ela pergunta por meu trabalho na rádio e nada me motiva a falar muito sobre, mas esclareço que meu turno é da noite e ela afirma gostar do horário para o serviço. Sobre não gostar de acordar cedo, outro de nossos pontos em comum, ela brinca que eu seria seu filho roubado da maternidade. Até me divirto e simpatizo com a conversa.

Ela cuida de uma menina pequena que tem apenas um menino pilchado e agauchado como companhia para as brincadeiras. Tentam se esconder pelo salão, mas o local não é tão grande, nem dotado de opções para esse jogo estratégico e embaixo das mesas é um esconderijo incômodo aos pares de perna cruzados em volta. Até arriscam a brincar um pouco na volta do salão, onde há uma espécie de pracinha. A menina tem problemas de fala, um pouco gaga, problema que talvez se acentue pelo nervosismo e alguns julgamentos que ora recebe das demais crianças. O menino, por sua vez, me parece hiperativo, corre, pula e às vezes grita. Gostou mesmo é de jogar o famoso voleibol com balões, bons treinos para os reflexos e coordenação desses pequenos atletas.

Lá fora eles fizeram amizade foi com um cão de rua (ou de condomínio, um laço comunitário dos novos moradores do local?). Só os descubro assim após a terceira ida ao banheiro, ocasionada pelo efeito diurético do que ingeri por meio das latas. Ao estar na rua em determinado desses momentos, meu padrinho chega acompanhado da sua e me perguntam se estou na rua fumando. Logo abro os braços em questionamento dessa anedota e me vem à mente que meus pais jamais me viram em posse de um cigarro. E procuro manter minha lógica de jamais comprá-los, mas, às vezes, casos esporádicos, sofro a baixa moralizante que me faz tragá-los mediante convites.

O horário avança comigo com pena de diversos personagens presentes. O taxista que perdeu uma das pernas e usa prótese desde 1998; minha tia, viúva há quase 10 anos e sem acompanhantes posteriores, seus filhos às vezes tão desunidos e às vezes unidos somente superficialmente ou perante testemunhas, como ocorre na internet; meus pais que pouco dialogaram na noite em questão como se o relacionamento deles próprios fosse um quentão ou um café frio. Minha vó divorciada faz uns 30 anos e que perdeu o companheiro para a velhice tratada em lar de idosos na capital do estado. Converso sobre isso sob o efeito do álcool e noto seu olhar distante, talvez memorando o passado ao seu lado. Se bem que agora me recordo que ela o trouxe à conversa quando determinado negro de chapéu adentrou ao salão, um dos músicos da banda que animou a noite com os clássicos do samba, entoados pela maioria, acompanhados em instrumentos por alguns e dançado por ainda alguns outros, e estes se revezando enquanto bati meus pés no maior tempo sentado, nas proximidades do ex-taxista Ricardo e sua prótese que não mais se reclina, não articula como sugeriria um joelho, além de outras pessoas mais contidas, seja pela idade ou pelo rubor de tampouco não saberem dançar.

Semeando essas diversas mágoas, a noite se termina na costumeira desculpa que minha mãe insiste há mais de década, apesar dos últimos longos anos de ineficácia. Colocar a culpa nos filhos para ela, a interessada, se render ao sono ou ao descanso que sua mente também pouco disposta às assembleias lhe exige. Embalado pelo álcool, distribuo franqueza de que ela, na verdade, nos invita a sair e não sou eu o culpado, como ela sugere. Ademais me despedindo dos organizadores e das demais pessoas, as sendo mais ou menos conhecidas, a senhora lá do início da festa se retira conosco, passando um pouco mal. Ela segue tagarela atiçada pelo álcool anterior e, mais tarde, minha mãe afirma que a ajudou a vomitar um pouco no pequeno pátio ao lado do salão. Coitada. Fragilidade que assim nos comove.

Na companhia desses jovens idosos, me retiro da festa antes da uma hora da manhã. A senhora essa mora na avenida mais movimentada da cidade, onde atravessamos um trânsito de motos barulhentas sem escapamento, alguns carros com som e bonés e capuzes que escondem fisionomias suspeitas sob eles. Ela desce sacando a chave de casa e felizmente consegue terminar essa parte da missão não sem antes agradecer-nos. Em uma noite de tantas reflexões e espaços na filosofia, espaço que circulava e circundava na extensa pista de dança desocupada do salão, com exceção de uns dois casais por vez, percebo a tão óbvia constatação de que logo chegam os 30 e destes para o dobro, os 60, são passos mais curtos do que podem parecer. Castiga-nos o tempo que tão rápido nos assola, enquanto o vento lá fora, en una nueva noche fría, assobia e cantarola alguma cantiga que nos empurra novas percepções, descobertas e significados.

03/07/2018

ou não é?

a vida nos depara páginas
em que lamentamos a não perfeição
e logo em seguida
nos deparamos com os fins
a tortura
a fome
a pobreza
a riqueza irregular
as leis da natureza
gatos comendo cabeças de pássaros
rabos de lagartixas
depois miam fino e pedem mais
mais comida
bocas que beijam avós e mães
saboreiam pães
lambem paus e vaginas
nas diferentes páginas
repaginadas da vida
 

02/07/2018

festa junina

estávamos juntos na zona de rebaixamento
com pensamentos cruzados
enfeitados ou enfeiados naquele momento?
eu que amodeio rotina
e não curto compromisso
comemorava ou só lamento?
eu estava ao seu lado
mas você não estava
ao menos
do meu

29/06/2018

o que seria?

fico feliz quando escrevo
um poema e o acho
o melhor de minha vida

pode ser, pode ser mentira
ou pode ser até que seja

mas o que seria de mim
sem a boa crítica
e uma boa cerveja?

drummond do mundo

carlos drummond de idade
avançado como era
sabia do fogo
do ar
da água
e da terra

reflita aflita

um beija-flor sempre pousa
sobre margaridas, tulipas e rosas
e ninguém liga

um mosquito sempre pousa
sobre quadros, paredes, camas e lousas
e ninguém liga

mas o avião quando pousa
nos obriga
a pensar
no amor de nossas vidas

um mês inteiro

demorei um mês inteiro
para trazer aqui
esse humilde poema
parto anormal
tal qual seus irmãos
em suas dezenas

aguardou na incubadora
apesar da demora
hoje chora e chora
esse peso pena

na soma da calculadora
e da balança
não sei quanto vale
não sei quanto pesa
essa criança

demorei um mês inteiro
a parir
e parei
parei aqui
pai solteiro

seria este um poema verdadeiro?
não tem problema
se só eu no mundo inteiro
o leio agora, leitor primeiro

não havia

não havia navios
não havia cios
não havia frio
não havia

não havia avião
nem passarin
não havia sim
não havia não
não havia

não havia bússola
nem mapa
não havia guia
nem placa
não havia

não havia sol
não havia lua
nem farol da noite
nem nascer do dia
simplesmente não havia

não havia estrada
nem havia chão
não havia nada
na escuridão

não havia
enquanto
não a via

27/06/2018

As Amazonas

Não tinha jeito ruim a batalha, hoje, dia de São João. Dos bergantins, os homens de Francisco de Orellana estavam esvaziando de inimigos, com rajadas de arcabuz e de balestra, as brancas canoas
vindas da costa.


Mas aí, a bruxa deu as caras. Apareceram as mulheres guerreiras, tão belas e ferozes que eram um escândalo, e então as canoas cobriram o rio e os navios saíram correndo, rio acima, como porco-espinhos assustados, eriçados de flechas de proa à popa e até no mastro-mor.

As capitãs lutaram rindo. Se puseram à frente dos homens, fêmeas garbosas, e já não houve medo na aldeia de Conlapayara. Lutaram rindo e dançando e cantando,as tetas vibrantes ao ar,até que os espanhóis se perderam para lá da boca do rio Tapajós, exaustos de tanto esforço e assombro.
Tinham ouvido falar destas mulheres, e agora acreditam. Elas vivem ao sul,em senhorios sem homens, onde afogam os filhos que nascem varões. Quando o corpo pede, dão guerra às tribos da costa e conseguem prisioneiros. Os devolvem na manhã seguinte. Ao cabo de uma noite de amor, o que chegou rapaz regressa velho.


Orellana e seus soldados continuarão percorrendo o rio mais caudaloso do mundo e sairão ao mar sem piloto, nem bússola, nem carta de navegação.

Viajam nos bergantins que eles construíram ou inventaram a golpes de machado,em plena selva,fazendo pregos e bisagras com as ferraduras dos
cavalos mortos e soprando o carvão com botinas convertidas em foles. Deixam-se ir sem rumo pelo rio das Amazonas,costeando a selva,sem energias para o remo, e vão murmurando orações: rogam a Deus que sejam machos, por mais machos que possam ser, os próximos inimigos.


Eduardo Galeano
Os Nascimentos.

19/06/2018

Lutas e Gratidões

Minha irmã acorda tarde, toma o café da manhã tarde e reclama do almoço, que é servido em um intervalo de tempo curto entre as duas refeições. Minha mãe acumula cabelos brancos que ela não mais esconde e estresse que não mais segura, entrando em erupção de quando em quando. Hoje foi um desses quando.

Mais tarde, entre o almoço e um jogo da Copa do Mundo na televisão, minha vó aparece de jaqueta rosa e óculos escuros bastante chamativos. Em um horário que muito bem poderia ser de algum pedinte, geralmente uma senhora negra com uma filha com necessidades especiais e que pede leite ou algum ser adulto não disposto ao trabalho para o ganha pão. Confiro para confirmar pelo olho mágico e abro a porta para minha vó na certeza que o jogo entra em segundo plano, porque ela insistentemente e incessantemente puxa assunto ou narra com detalhes episódios cotidianos de pouca relevância. O encontro com as mesmas vizinhas, uma ou outra palavra trocada na frente de casa ou no caminho para ônibus ou em armazém. Pequenos causos de pessoas as quais não conheço e que para minha mãe pouca diferença faz também são uma constante.

Porém, ela conta de uma conhecida, alguma família que adotou uma menina. E minha vó a caracteriza que dizem ser muito alegre, muito obediente. E sobre algo que a ofereceram, se manifestou com "tudo isso é para mim?", com as mãos cruzadas sobre o peito, em claro e universal gesto de agradecimento. Tem três anos, completa os dizeres minha vó. E tudo isso me leva a uma reflexão sobre gratidão, uma reflexão que na minha mente ocupa e ocupa o primeiro plano. O jogo passava ao segundo posto, mas logo voltaria à tona por outros encaixes.

Às 14 horas na pontualidade terminava a partida da Copa do Mundo com a surpreendente (para alguns nem tanto) vitória de Senegal sobre a Polônia em plena capital russa de Moscou, local de muitos acontecimentos de injúrias raciais. Racismo não escondido. Jogadores negros na atualidade, mais e mais pessoas em antigamente. Ou talvez menos antes sem o advento da globalização dos dias atuais. A globalização que coloca jogadores negros em praticamente todos os times titulares das seleções da Copa, com exceção do extremo oriente, Argentina e a própria Polônia. Outras, se não tem na titularidade, tem reservas imediatos que costumam adentrar nos jogos.

No mesmo horário de término do jogo com triunfo senegalês, uma senhora que aqui é pedinte há bastante tempo retorna em busca de mínimo sustento. Seus filhos já não são pequenos e agora buscam driblar as condições desfavoráveis em busca de emprego ou desviando do mundo mais ilícito de drogas e assaltos. Nada fácil. Frutas e leite e um papo cordial são o que minha mãe oferece à senhora. Um de seus filhos é Romário e, não recordando o nome dela, apenas a lembro como Romária.

Com outros endereços, certamente não são poucas as pessoas nessas condições no município e região. Políticas públicas insuficientes, políticas privadas desinteressadas, procurando apenas por consumidores e não por fazer caridade ou procurando apenas a solidariedade como troca por promoção de carisma e serviços aos olhares dos aí sim consumidores, potenciais clientes. Trocas de favores e espelhos. Reflexos e vitrines.

Em outras cidades gaúchas, incluindo Pelotas, como estão os imigrantes senegaleses? Um momento de cessar o trabalho ambulante, as vendas nos centros e focar um pouco no jogo, na ginga. Um resultado favorável, uma vitória consistente. A alegria nos olhos e nos corpos. Vencer o preconceito é uma batalha muito mais árdua, mas que tal esse tapa no frio, tapa aos que oprimem, deixam mal vistos os imigrantes de hoje, esquecendo suas raízes italianas, alemãs e de outras etnias que um dia foram imigrantes, estrangeirismos nessas mesmas terras.

Numa primeira rodada em que a Alemanha perdeu e numa Copa em que a Itália nem está, a vitória imigrante do Rio Grande do Sul na estreia da competição foi senegalesa. E são tantos os homens e tantas as mulheres, tantos os descendentes, mais diretos ou de povos passados do continente africano, tantas as histórias de linhas torcidas a procurar seus triunfos no dia a dia nesses lados do mundo.

12/06/2018

é é é

sai, sai da toca
olha a música que toca
sai, sai da toca
olha a música ecoa
sai, sai da oca
outra vez é hora boa
é a copa

sai, sai da toca
vem ver
é carnaval na rua
é barulho de motoca
tanta gente na rua
tanto bloco que embloca

a música que entoa
é tema e ninguém troca
o canal emissora
é o que tem e ninguém troca

outra vez é hora boa
é a copa
é a copa

meios

quando não sei por onde começar
começo pela poesia
ela é o início
o fim, o meio
no meio de tanta agonia

preocupações

são tantas tantas antas
tantas tantas preocupações
que não sei por onde começar
a me preocupar...
em um passado
fui católico
hoje sou caótico

06/06/2018

28/05/2018

Todos infelizes

Respeito e estimo melhoras a nós sintomáticos da depressão, que ora brota de trás de um quadro ou debaixo do tapete. E realmente desconfio dos que nada sentem perante os problemas que nós comunitariamente atravessamos enquanto sociedade doente.

No dia de hoje, houve sol, calor que interrompeu uma sequência invariável de dias frios. Nem sinal de chuva. Nem sinal de pedra no peito. Nas caminhadas, nos trajetos que faço, sempre me pedem moedas. Uns se justificam que não são ladrões. Geralmente desses desconfio que em algum momento com algumas pessoas, são ladrões. Geralmente eu não os julgo, porque a formação deficitária e a falta de oportunidade são o que leva muitos a serem assim. Ou, ao menos, a me pedirem trocados, os quais não tenho saído com para evitar maiores volumes nos meus bolsos que circundam minhas pernas magras.

Preocupantemente já saio com o celular criando volume ao bolso da minha perna direita, os fones de ouvido brancos conectados em músicas de tempos passados e raramente sucessos da atualidade. Passo por catadores de lixo seguidamente, em malabarismos e desafios de equilíbrios em carrinhos ou sacolas ou até na cabeça se conseguissem tais quais aquelas pessoas que recolhem galões de água no deserto. Procuram plásticos e demais recicláveis em meio às sobras. Infelizmente se acostumam dessa maneira. Felizmente que ao menos devem se acostumar a esse programa que nos enjoa somente de ver. Infelizmente se acostumam por não acharem outra saída imediata para combater a fome ou as mais diversas necessidades que passam.

Semana passada a prefeitura lançou a campanha do agasalho. Mas falta tanta coisa a essa gente. A mim, falta a saúde mental, como a tantos outros. Não nos espanta isso diante dos cenários que nos cercam. Mesmo o pessoal que ascenderia da pobreza para uma classe média estaria sujeito às mais diversas presas pecaminosas, coabitando com pressões e com os mais diversos problemas. Arrumar um emprego é estar se adequando a regras que não queremos seguir e convivência com gente com a qual não queremos conviver ou, algumas vezes, sequer desejamos que a pessoa exista, tamanho o desgosto de sua presença. Invejas, cobiças, ostentações, intolerâncias, ignorâncias, estupidez em seus mais raros e possíveis estados físicos ou mentais.

Pilhas de e-mails não respondidos. Já nem esperamos que os respondam. O mesmo asco que sinto ao lê-los não respondidos, os que recebem do outro lado devem pensar pela lotação de bobagens em suas caixas de entrada. Todos infelizes.

Os dilemas entre pressionar por respostas, procurar alternativas e se gastar, gastar energia com isso ou apenas deixar passar e partir para outra. Se perde pela insistência e o cansaço. Ou se perde pela falta de insistência. Todos infelizes.

A lua que me acompanha na volta para casa a pé é muito bela. Um cenário perfeito para roubarem o celular que eu já temia perder à luz do dia. Felizmente sobrevivo mais esta jornada. O asfalto e a iluminação estão bem posicionados nessa rua, as paradas de ônibus novas levam vidro em suas confecções, mas o clima de insegurança permanece em alto teor. Quase tudo certo, mas alguns erros são grotescos.

A saúde mental sabe que o básico dos básicos está em condições quando chega-se em casa. Na internet, lê-se os mais diversos absurdos das mais diversas pessoas. Anarquistas que debocham, gente que acha que político é tudo igual, estes debocham, pessoas pedem intervenção militar em um país castigado antigamente pelos militares no governo. Inflações altas, corrupção deslavada, vozes silenciadas, torturas, exílios e mortes. Tudo ignorado por esses infelizes desconhecedores da história brasileira. Ou simplesmente pessoas de mau caráter. Não duvidem, anda por aí gente sem escrúpulos, canalhas e calhordas das piores espécies que existem.

Interrompem ao parágrafo os gritos dos coletores de lixo oficiais do governo. A coleta dos reciclados está suspensa pela crise no setor dos combustíveis, paralisações de caminhoneiros e de petroleiros na semana. Pautas diversas sendo jogadas, arremessadas espalhafatosamente ao ventilador. Um país em pleno caos. Todos infelizes.

A cadela pertencente aos vizinhos segue latindo desde que o caminhão passou. Ela deixa meus pais infelizes enquanto eles assistem à televisão da sala. A cadela parece seguir incomodada e outros cães da vizinhança se manifestam. Pedem intervenções ou querem intervir. Todos infelizes.

21/05/2018

Poesia que fores

Suas mãos fazem uma poesia de flores
Eu queria fazer parte
Nessa sua palheta de cores
A mais bela das artes

Suas mãos fazem uma poesia de flores
Ramalhete e arremate
Junção, laço e gene
Genialidade da arte

Suas mãos fazem uma poesia de flores
Espinhos visíveis, vizinhos de dores
Dedo médio, dedo mínimo
Incisivos que forem
Poesia de flores
Poesia que fores
A mais bela das dores...

18/05/2018

Fins (de semana)

Minha tia fofoca na cozinha. Sempre sobre as mesmas pessoas e raramente sobre outras. Não sei aonde leva esse assunto. Não sei aonde leva a loucura e a lógica do sistema. Cheguei em casa e suo mais nas mãos agora do que enquanto caminhava à alta velocidade.

Um amigo de infância confidenciava entre uma de nossas primeiras rotas traçadas a pé e sem supervisão adulta que ele gostava de caminhar rápido para 'evitar problemas' ou seja lá o termo usado na época. Ele tinha, e ainda tem até hoje, grande poder aquisitivo, o que talvez justifique essa atitude estratégica. Seus celulares de cinco, seis anos atrás deveriam ser melhores do que o que eu tenho atualmente. E às vezes é o tipo de gente que carrega dinheiro demais para ocasiões em que necessitariam trocados ou notas baixas, para evitar constrangimento de trocos.

Enquanto eu digitava a palavra dinheiro, minha mãe a entoava na cozinha. O dinheiro é sempre o centro das questões. É o dinheiro, ou o produto celular no meu bolso, ou meus óculos escuros já devidamente pendurados no colarinho, que fazem eu apressar o passo, relembrando a distante fala do amigo que hoje tenho tão pouco contato para com ele. É o dinheiro que me faz correr atrás dos mais diversos comércios e estabelecimentos em busca de subsídios para meus hobbies e futura sobrevivência.

São os 82 reais que devo ao Ministério da Educação através da inscrição do Enem e preciso quitar até a próxima terça-feira para realizar uma prova objetiva de questões a b c d e, na interpretação, no susto, na sorte, no chute, na grade, em busca de cento e poucos acertos e mais uma graduação. Em busca de terminar e me livrar no menor tempo possível para me livrar de procurar comércios e estabelecimentos e ter um horário fixo para desenvolver a mesma função repetidas e repetidas vezes. C'est la vie, alguns se orgulham em compilar a fala em suas fotos de capa em redes sociais online.

Achei que seria assaltado ao lado de um grande supermercado que fechou nos últimos anos. Ao redor da colossal escultura que antes abrigava movimento de clientes, carrinhos de compras e barulhos de código de barras liberados, existia uma tela, mas ela foi roubada. Aí foi reposta, como se nada houvesse acontecido. Agora estou no aguardo de quanto tempo para que seja novamente roubada. Uma escadaria que leva a um segundo andar na construção foi grafitada e pichada como os norte-americanos gostam de fazer nos estabelecimentos desocupados pelas inflações imobiliárias e crises inventadas do mercado mundial e wall street e etc. Ao lado desse super abandonado, achei que seria assaltado.

O ciclista vinha sorrindo e olhando para o lado, parecia para mim. E segui caminhando, mas voltei meu olhar a ele e ele continuava sorrindo e eu caminhando e ele pedalando e sorrindo e uma cara de quem ia se dar bem. E ele segue sua trajetória à beira do meio fio pela rua e ao meu lado na calçada passa uma criança também de bicicleta, que deveria ser o irmão mais novo dele ou talvez um filho, é possível. Dessa vez senti o perigo tão iminente que nem me arrependi de ter duvidado de sua índole. Em outros tempos eu teria me chateado e deprimido comigo mesmo. Mas são tantos e tantos motivos para isso que prefiro não empilhar mais esse. Postes acesos e cachorros levando suas donas para passear. Estou falando dos quadrúpedes, alguns vestidos de roupinhas no inverno que se aprochega na metade sul do globo terrestre.

Eles cagam o meu caminho nos fundos dos apartamentos da rua Brasil e pelo menos o novo prédio, um dos mais altos da cidade, tem calçada nova, até ciclofaixa e os cães o tem respeitado, sabe-se lá porque, mas continuam cagando nos mesmos espaços que depositavam desde antes.

No posto de gasolina da esquina, a placa que sinaliza a marca do posto não combina com o resto da decoração e da sinalização dele, eu estranho. Os funcionários estão agora equipados com jaquetas mais grossas, num tom de vermelho berrante e uma das funcionárias ajeitava a postura da roupa sobre o colega funcionário.

Durante o trajeto, notei muitos rostos de clipes do System of a Down, o que significa gente observando o nada e o tudo e seja o que for pela janela, a vida passando diante de seus olhos, enquanto trabalham encaixotadas em endereços decorados na cabeça para indicar onde comerciam e para aumentar as vendas. Trabalham encasulados e encarcerados, mais empacotados do que as próprias mercadorias que vendem, que pelo menos vão mudar de endereço quando são vendidas. Enquanto elas, as pessoas, vão continuar ali, observando os fins de tarde na infindável melancolia e na expectativa recortada no calendário em denominação de fim de semana.

Enquanto descrevi tudo isso, minha tia segue na fofoca no cômodo da cozinha. Bom fim de semana a todos os leitores. Se estiverem lendo no início de uma semana posterior, não se preocupem pois o desejo do bom sempre se reserva aos finais de semana. Enclausurados, encasulados, empacotados nas folhinhas espetadas nas cozinhas em doações feitas por armazéns próximos.

08/05/2018

Segunda-Feira, 7 de Maio

Terminei de ler mais um livro. Um grande livro. Em tamanho e significado, recomendado por um dos meus amigos da atualidade. Na verdade, me joguei a essa leitura através de uma lista dos livros que nos desafiavam sobre termos lido ou não. Esse eu não havia lido, mas agora posso marcar, confirmar e condizer que sim: li.

Ao terminar essa vasta leitura, o relógio ultrapassa as temíveis três horas da madrugada. O maior temor é o despertar do dia seguinte. Ó, que contradição, se o maior temor seria não acordar no dia seguinte? Mas me refiro aos desrespeito com o horário. Mais uma madrugada atravessada entre as pálpebras. Uma leitura estonteante, um folhar de páginas que pode mudar a vida de vários indivíduos, configurando o porquê da obra ser um clássico respeitabilíssimo.

Para este amigo, devo ações políticos. E será que devo? A quem devo? No que acredito? Quais são os próximos passos? Um maldito ano eleitoral em que estamos cercados das mais diversas maneiras. Quem matou a vereadora carioca Marielle Franco? Pode manifestação política defendendo político específico em estádio? Por que afirmam que Ciro Gomes não é de esquerda?

Um colega de jornalismo, conhecido virtualmente, desabafa neste horário sobre o pouco ânimo vital. A gente nem se espanta mais. É tão comum o desânimo. A gente aprende a conviver consigo mesmo e a não arregalar os olhos nos demais casos. É preciso ser muito forte, paciente e domado espiritualmente. Domado como um animal que obedece quando o dono arremessa uma bola e se corre atrás.

Este colega não está mais no site em que eu estava. Somos ex do mesmo portal. Não tenho tamanha intimidade e nem fôlego agora para indagá-lo sobre sua situação atual. E, a bem da verdade, nem sei quais são as palavras certas para ajudá-lo neste momento. Ele reclama que não se sente à vontade com o que está produzindo ou para que possa produzir o que deseja. Entendem? Ele sabe que está fazendo algo, mas não aprova. Ou não está fazendo algo porque simplesmente não consegue configurar-se para tal função. Falta de manejo físico ou psicológico atualmente. Um problema, um problemão que atinge a muitos e muitas.

Os que buscam emprego se apertam contra portas estreitas da atualidade. Um colega de escola forma-se engenheiro civil e não tem contrato e não tem  por onde ir no exato momento. É possível que a construção lhe abra passagens futuras, literalmente, mas por enquanto é um cenário de tensão e espera. Outro formado há mais de ano também não conseguia o que exercer. Um terceiro está para se formar e tem sonhos utópicos que necessitariam de uma responsabilidade enorme, de um capital de giro inicial bastante alto e que sabe-se lá de onde espera tirar. Devaneios de um Brasil que, ao invés de ser pista de decolagem está mais para terra movediça. Sacam?

No Jornalismo meu e do colega acima citado, o problema é se defrontar com o que produzimos e em nome de quem e para qual retorno. O financeiro é irrisório, qualquer obra simbólica ou de menor esforço físico valendo mais. Nos desgastamos em deslocamentos para cobrir pautas, em horas escolhendo e editando as palavras certas nos resumos jogados nas lixeiras dos calçadões ao fim do dia. Ao buraco do esquecimento no migratório e acelerado circuito virtual que nos engole como pequenas presas de leões.

A outra companheira que destrincha umas linhas, uns podem chamar de thread, resmunga a respeito do barulho feito pelos vizinhos de cima do apartamento. Taí outro problema comum dos deseducados moradores de condomínios Brasil adiante, mesmo essa sendo uma legítima pelotense. Reclama sobre barulhos de móveis ou de que for que está sendo arrastado teto acima para ela. Três horas da madrugada e essa situação humilhante, o sono, ainda gratuito, sendo dizimado em nome de algum absurdo para o horário.

Desânimo dela que conta aos leitores madrugadores ser uma cena comum. Gravou vídeos com o celular para provar o horário e o estampido dos sons impertinentes no apartamento de cima. Mais cedo, uma outra menina reclamava do sexo dos vizinhos, mas essa é outra história. Outra história que pelo menos era mais justificável e mais cedo.

A boa notícia, segundo o portal da emissora mais famosa do Brasil, é que os imóveis baixaram 0,01% do preço no mês de abril. É a grande chance de trocar de endereço, desanimados e desanimadas deste país. Assim foi-se a segunda das feiras.

05/05/2018

Morros

Era um morro. Naturalmente era um morro, relevo esculpido pela mãe geografia desde muitos e muitos séculos. Também é lógico que trata-se de um morro ocupado. Famílias e famílias periféricas, mas visíveis, talvez de binóculos, aos olhos do reinante asfalto, que no Rio de Janeiro tem seu reinado no ponto mais baixo.

Mas o morro tinha lá seus impérios. Lugar melhor para alguns comércios não há. E os que sabem, se escoram e se encorajam nisso não perdem chance. Ocupações para o bem ou para o mal. Ou além disso, pela sobrevivência. Algo que orgulharia a teoria de filósofos alemães que jamais viram tais cenas e nem as imaginavam no europeu século dezenove.

De fato, era um morro. Um morro que aqui não representa nome. Um morro desses que o turista conhece olhando lá de baixo para cima, com olhos arregalados, a boca abismada em formato de caverna e, se não é assim que observa, é porque teme representar demais a expressão turística, chamadora de atenção de quem tenta se aproveitar deles. Morro desses que o estrangeiro a essas terras observa como uma junção de peças muito semelhantes, como um quebra-cabeças, mas que tenta, ao mesmo tempo, registrar as diferenças, entre uma casa de tijolos à vista, outra pintada em cor de rosa, outra na mão de tinta em verde limão. Tenta observar uma bandeira do Flamengo pendurada, umas peça de roupa em outra corda, uma bicicleta ali jogada ou uma bola de plástico instantemente abandonada. Tenta entender como a fiação funciona naqueles enroscos que desafiam a lógica e a física. Desafiam aos vizinhos descobrir quem é o responsável quando a luz se vai ou quando o incêndio atinge uma dúzia de barracões. Os desafios do dia a dia.

Cada vez mais convencido de que o ser humano é adaptável. Pra quem mora ali desde a infância, nada disso é cenário para bocabertices, para espanto, caras pasmas ou a mão trêmula tentando sacar dali fotografia com o celular ou com a Canon ou Nikon. Um casal de jornalistas ali vivia há cerca de um mês. A primeira semana sempre é a mais difícil. O trabalho de conseguir alugar um espaço de dois quartos, uma cozinha e um banheiro quase comunitário com os vizinhos não foi tranquilo aos olhos dos controladores.

A adrenalina e a ânsia da reportagem falavam mais alto. Gritavam e abriam espaço em seus peitos. Precisava ser feito. O início era como se adaptar a um quarto de hotel, com suas peculiaridades estudadas nos primeiros dias, nos primeiros acenderes do fogão, nos primeiros banhos para regular o pouco que podia ser feito com a água do chuveiro. Armazenar água da chuva para fundos de emergência, saber a intensidade da descarga do vaso sanitário. Entender o horário e os incômodos que os vizinhos poderiam causar.

Preconceitos à parte da sociedade dos bairros abaixo, nada ali estranhava muito. Crianças brincam e fazem barulho, naturalmente. Das mais ricas às mais pobres. Experiências de observar crianças haviam tido, embora, casal junto há menos de quatro anos, não tinham filhos e, nos custos de tempo e estresse na dedicação ao trabalho, não pensavam e mal discutiam essa hipótese, mesmo para um futuro que não sabiam se existiria.

Se conheceram ao final de suas faculdades e a oportunidade de trabalhar juntos uniu-os de vez. É possível que já haviam se visto nesses rios de janeiros de zonas sulistas, mas somente os encontros para a definitiva oportunidade de trabalhar no mesmo ramo meses depois causaram uma união mais estável. Dividiam um apartamento anteriormente, com alguns custos de auxílio das famílias, pois jornalista tinha um alto custo com internet, telefonia e outros serviços. Até mesmo com deslocamentos com transportes, que, mesmo nos aplicativos novos, somavam uma nota desconfortável ao final dos meses.

Aquele espaço no morro era para uma produção que ganharia destaque em chamada e páginas e páginas de uma revista. O veículo entrava em contato com eles praticamente diariamente. A negociação para obter o lugar estratégico demorou mais tempo do que passariam ali. Os contatos com os controladores eram seguidos. Queriam saber a intenção da reportagem, saber um pouco sobre suas identidades e histórico recentes, o que foi passado em resumo bastante resumido, mas sem invenções ou ocultações que poderiam complicar a pele do casal enquanto estivessem lá em cima.

Conforme avançavam no currículo que os controladores desejavam, a isenção de pagamento foi conseguida. Era um dos raros espaços desocupados anteriormente entre as construções tão adjuntas do morro. Famílias e mais famílias os cercavam. A bem da verdade, o ponto de vista antropológico os interessava muito. A parte criminalística deixava de ser o ápice da reportagem durante vários e vários dias. Muitas vezes o olhar direcionado ao conhecimento daqueles humanos preferia fotografar as crianças em brincadeiras rudimentares de futebol, nas versões de altinha e em gols improvisados, as quase extintas bolas de gude, ou mirar o deslocamento das constantes lavadeiras, que pareciam carregar e trabalhar com mais peças do que caberiam em pilhas ou cabides no aperto dos quartos das casas.

E no que se conseguia capturar de seus assuntos, as palavras, os discursos e os diálogos inalados de sabão iam dos homens, dos ex-acompanhantes, dos bêbados da região, da novela, algo mais vago sobre futebol, sobre o desempenho dos que estudavam e o lamentar dos que não estudavam naquelas famílias tão jovens, de mães adolescentes a crianças que começavam a se encarregar do perigoso e mortal tráfico.

Esta era uma das palavras as quais evitavam a todo custo. Certas palavras pareciam perigosas e distintas até mesmo para colocá-las no papel, das anotações aos registros do notebook. A sensação era de cometer um grande delito e que sempre alguém os observava como se fosse o Cristo Redentor, ainda mais ao alto, a aconselhar que utilizassem sinônimos ou tomassem o extremo cuidado naqueles delicados assuntos.

Também pelo receio de abordar esses temas é que muitas vezes o cotidiano das famílias mais simples, necessitadas e pouco estruturadas tomava espaço nos registros, nas anotações e nos álbuns construídos. Aprendiam o nome de alguns vizinhos, embora a maioria demonstrasse interesse, mas receio de se intercomunicar por muito tempo. Qualquer estouro em relação aos jornalistas poderia acarretar em problemas entre os mais próximos, como tortura, ameaças e necessidades de confessar até o que não sabiam.

A relação com a vizinhança foi um dos tópicos bastante abordados durante as conversas para definir o aluguel. Muitos dos moradores, principalmente os mais antigos e de confiança dos controladores, foram indagados sobre a possível presença dos jornalistas ali em dia e noite. Uns torceram o nariz, mas a maioria foi aceitando. A liberação da concordância foi acontecendo em processo de confiança dos primeiros dias. Mas, para os jornalistas, a sensação era sempre de que alguém os observava. E era possível que realmente os observavam nos mais diferentes horários e locais, como na ida aos mercadinhos da zona ou da cerveja que Gabriel arriscava beber nos botecos, colhendo mais alguns depoimentos dos frequentadores, uns mais exaltados ou confessores após os pileques.

Gabriel era mais moreno e Patrícia era muito clara. Ela atraía olhares masculinos, mas teve dificuldade era em convencer as lavadeiras, as jovens mães acompanhadas ou solteiras de que sua presença era meramente trabalhista. Não ia lá para roubar homem, muito pelo contrário, afirmava.

Os preconceitos correm fácil por esse Brasil, talvez tão fáceis como circulem os córregos da vasta bacia hidrográfica de Norte a Sul, ou fáceis como as valetas e os esgotos a céu aberto. Ou fáceis como o voo das veranistas andorinhas e outras aves nativas. Tão fácil quanto a fumaça do cigarro no bar que Gabriel frequentava às vezes com Patrícia. Tão fácil quanto a mercadoria financiadora descia morro por meses sem a mínima interferência estatal e o controle era todo daqueles que intermediavam pela população, ameaçavam e empunhavam suas regras e seu armamento por vezes à luz do dia.

Faltavam poucos dias para fechar um mês de trabalho. Eles não projetavam estender muito mais a jornada por aquelas bandas, conforme inclusive haviam acordado com os controladores da região. Eram 28 dias completos na missão para a revista, mas então houve a noite derradeira. Foram 28 dias completos, mas na vigésima oitava noite...

02/05/2018

aforismos do deus mercado

É estranha a vida de prostituto comercial. Aqueles que continuam a conversa quase uma semana depois como se nada houvesse acontecido.

Por horas, tenho ideias mirabolantes de possíveis anúncios e me sinto um empresário renomado e de sucesso, em boas roupas de cima a baixo e comentarista de revistas de coworking. Por outras, não confio em vender esses espaços falidos e me sinto um desgraçado, um pobre inválido diabo que não terá hipoteca, aluguel ou teto de privacidadindependência.
 

Transportadoras, restaurantes, farmácias de manipulação. Todos têm lucro... Só queremos pequenas fatias. Fatias chamadas oportunidade. Ou fatias como o pedinte da entrada do supermercado queria apenas uma das suas 23 sacolas do rancho. Fatias.

No mais, prostituir-se comercialmente em nome dos anunciantes denota um grande trabalho entre os diferentes processos mais ou menos organizados por: explicar a proposta, decorrer aprovação sem implorações ou choros demasiadamente degradantes e indignos, desenvolver o contrato mediante assinaturas, recolher a grana mensalmente, preencher recibos, pressionar pela renovação e finalmente, talvez o mais seguido e preocupante para qualquer paranoico: manter o nível de conteúdo a cada mês.
 

Ou será que sou dramático?

“Sacrificamos os antigos deuses imateriais e pusemos no templo o deus mercado... Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando já não aguentamos mais, sucedem a frustração, pobreza e até a autoexclusão”
José Mujica, ex-presidente do Uruguai.

debutes

Ao dia 1º de maio de 2018, minha irmã adentrou um estádio para um jogo de futebol oficial pela primeira vez. Justamente, por coincidência ou por aproveitamento da data, no feriado do dia do trabalhador. Justo minha irmã e eu que tanta dificuldade temos em arrumar empregos, por aptidões, qualificações ou socializações que nos faltam. Mas ela tem se virado no meio autônomo no campo artístico no desenvolvimento de desenhos, pinturas e moldes para as mais diversas personagens. Eu tenho começado a me virar radiando anunciantes na amplitude modulada, com um pouco do talento advindo comigo e com um pouco do que aprendi nos anos da faculdade de Jornalismo. São tempos difíceis, todavia, ao que se sabe. Tempos complicados mesmo para quem possua maiores aptidões, qualificações, formações e socializações, sobretudo. Tanto minha irmã quanto eu tivemos desempenho notório no aprendizado escolar, o que mais uma vez prova o despreparo do ensino para preparar. A despreparação do estudante para encarar os passos a seguir, o caminho pós-diploma, saturado de conhecimentos vagos, desconexos e a grosso modo inúteis no cotidiano. Pois bem.

Feita a crítica, vamos à parte positiva, a parte boa da receita. Minha irmã no alto de suas quase três décadas voltou definitivamente a ser criança. O anseio manifestado de um desejo passado por entrar em campo acompanhada de jogadores dessa vez foi saciado das arquibancadas. Um jogo de público de médio a baixo para as perspectivas do clube local pelotense, na Série B do Campeonato Brasileiro. Partida de bom acesso e de bom horário. Peleia disputada à tarde, percorrida até o início de noite do feriado e que se mostrou acolhedora para ela em um ambiente muitas vezes demasiadamente hostil.

Ao mesmo tempo em que muitas vezes julgamos alguma fragilidade destacadamente maior à figura dela, enquanto mulher e mulher com especificações e problemas de socialização, demonstrou curtir, ao que contou, os momentos mesmo mais exaltados de alguns torcedores ou dos jogadores em campo, partindo para desentendimentos e princípios de brigas e confusões além do jogo de bola. Ela é acostumada a jogos eletrônicos virtuais com armas, personagens e objetivos dos mais diversos tipos.

Quanto ao jogo especificamente, uma boa partida, talvez a que narrei pela rádio com mais chances de gols por ambos os lados. Uma atuação positiva dos escretes das duas equipes, a gaúcha e a catarinense. Os gols que se escassearam na injustiça desse desporto. Apenas um, de pênalti, deu a vitória aos pelotenses sobre os florianopolitianos. A bem da verdade, também se apreciam as boas defesas praticadas por ambos os arqueiros, sobretudo o da representação alvinegra, evitando por puro reflexo e boa colocação o aumento do score dos locais. Placar final de 1 a 0.

Na volta para casa, na qual dividimos o pedido de um lanche bem aproveitado, para fechar com chave de ouro, por assim dizer, ainda fico sabendo de mais relatos, quase todos entre sorrisos dela, no seu aparecer dentário de humores duvidosos, como costumam ser. O gol da partida anotado no primeiro tempo e gravado para a memória póstuma através da gravação de imagem feita pelo celular. Além desse registro importante, captou fotos da torcida antes do jogo e na entrada em campo das equipes, aquele momento que ela confessava tanto apreço anteriormente, o qual não conseguiu aproveitar em infância, mas conseguiu estendê-lo (e entendê-lo!) agora, ao menos sentimentalmente.

Nesse relato feito, comum a tantas crianças e adultos que conviveram em centros menores ou mal financeiramente, distantes dos seus times coracionados, contempla-se a importância das canchas de futebol. Poderia ser, no que confere jogo da mesma data, um debute de excursão à luxuosa e majestosa arena financiada em Porto Alegre, mas quis o destino que a estreia dela em estádios fosse com uma vitória mais humilde, como confere nosso polo em relação a(o) capital. De bom tamanho e de sorrisos escalados para durante e depois, como ora-se e pede-se antes de cada partida. Assim foi um feriado para não mais esquecer.

01/05/2018

moinhos

e nesse mundo, esse nosso mesmo, estamos no mesmo barco e eu encontro ainda que com a resistência do tamanho e da idade, o colo de minha mãe, uma mentora que todavia me escuta. e posso falá-la e posso dizê-la, que não sei o quanto aguento nesse mundo, esse nosso mesmo. aguentar a multiplicação dos desempregos, os filhos e filhas pequenos com fome, as pessoas que batem à nossa porta ou me imploram trocados nas ruas, na entrada dos supermercados ou nos estacionamentos das poucas festas que nos resta fazer. não sei se consigo aguentar essa multiplicação de depressivos, essa desilusão em tudo em volta. a desilusão na mínima confiança ao próximo. ao próximo passo, ao próximo gesto, à próxima pessoa. reflito com ela, vitória régia de meu brejo, anjo de harpa em mãos e cabelos esbranquiçando. digo, mãe, que não sei o quanto aguento nessa subida de preços, nessa subida de grades, cercas e alarmes em nossos endereços. nessa subida de propagandas das mais falsas, picaretas e dizimadoras, propagandas contrárias ao que pregamos e acreditamos.

não sei mais quanto aguento nesse exercício de prender a respiração na manobra que antecede ao mergulho, prática de que nunca fui muito bom em ser duradouro. prender a respiração e procurar refúgio do mundo externo ao estar interno. e não encontrar a paz e tentar um conforto numa atividade externa e retornar e ficar no giro desse moinho que sufoca em águas. prenda-se, prenda-se, prenda-se. mergulhos nas águas das mais turvas e mais obrigatórias e mais uma sessão que se aproxima nessa roda giratória.

e tenho teu cloro e tenho meus braços para agarrar-me o quanto posso. e tenho cloro nos olhos e água nos pulmões. e mais sessões e sessões e sessões. à deriva, a naufrágios. o desejo da ignorância aos males que nos atingem externos e internos e que são incessantes, atormentantes e atuantes. sentinelas carrascos e garantidores do mecanismo. do moinho que joga-se em seu movimento e novamente afoga. e na tua mão me afago e no moinho afoga-me. e na tua mão afago-me e no moinho me afoga. e na tua mão me afago e no moinho...

despindo desperdícios

e novas linhas
linhas minhas eu teço
para isso
às vezes desapareço.
e no regresso
será que é progresso?
e não meço
o quanto andei
não meço o preço
que paguei pelos versos
não adianta tentar calcular
um custo-benefício
porque pertenço a só esse ofício
penso e escrevo
por amor ou por vício
às vezes mundo real
às vezes fictício
enchendo linhas
serão desperdício?

enseadas

ensereiada e aportada
na minha cama
com pernas pra ir onde quiser
mas fica se eu chamo
fica em chamas