A ideia de que "amanhã não se existe mais" justifica existências ruins, mas também justifica ou justificaria existências boas.
31/03/2025
24/03/2025
Tragédia no Amor Europeu
Escrevo estas linhas após ver dois filmes em um domingo. Estou afetado dos nervos. Não sinto dois dedos de cada mão, que, de alguma forma, estão mal abastecidos. Pensei em fazer uma crítica de Blanche (1972), filme de diretor polonês e linguagem francesa. A ver tem também com o mais recente Little Ashes (2009), que se passa na Espanha, mas é dirigido por Paul Morrison e a linguagem toda é em inglês, com exceção de mísera fala ou outra.
Blanche é a esposa de um rei velho. O filho do rei está muito mais para sua idade. Em uma festividade no castelo durante a Idade Média, mais dois candidatos se apresentam à formosa Blanche: outro rei e seu galanteador filho. Obviamente lançadas as diretrizes de tantos candidatos não poderia acabar em boa coisa. Tive um afeto especial no filme por Nicolas, o filho do velho esposo de Blanche. O amor entre eles pareceu o mais verdadeiro da obra, tanto que ele, desesperado, não seria oposição em colocar sua própria vida em proteção de Blanche.
No desenvolvimento da tragédia há momentos cômicos. Um dos religiosos veste a roupa do filho do rei visitante e é interceptado, ameaçado e inclusive tem sua mão cortada pelo valente Nicolas, que obviamente vigiava para proteger Blanche de galanteios terceiros. Nisso o frade aparece de mão cortada no dia seguinte, levantando suspeitas que o religioso é quem queria dar uma fugida até o quarto da jovem. Uma pouca vergonha medieval. É interessante que na relação de pais e filhos terem se apaixonado por Blanche, nenhum teve a comunicação necessária, ou a falta de vergonha de abrir o jogo pelo qual estavam interessados. Nenhum pai soube dos interesses de seu filho. E o filho visitante, enquanto punha seu nome em risco pelo almejado amor de Blanche, não sabia que o rei visitante mais velho também sonhava com mais um casamento.
Desenhada a tragédia, não houve quem contasse a história, talvez um destino mais parelho entre tanta perversão. Apesar de minha afeição por Nicolas, deparei-me com a reflexão de que ao mesmo tempo estava tentando fugir com a esposa de seu próprio pai - que pese a galopante diferença de idade.
É a época da Europa Medieval entre os séculos depois de Cristo e antes dos ideais iluministas. Pesquisei algo sobre a população desses pequenos reinos e a curiosidade veio sobre mim no fato de que a Europa Ocidental chegou a ter 22 milhões de habitantes na Alta Idade Média. Em 1348, segundo Le Goff, a população europeia era de cerca de 54 milhões de pessoas. Interessante como o continente de tantas descobertas e navegações mal superaria um estado de São Paulo.
Em Little Ashes, ou Pequenas Cinzas, a história de amor é entre dois personagens centrais da arte no Século 20, em especial na Espanha. Foram colegas de estudos artísticos o escritor e poeta Federico García Lorca e o pintor Salvador Dalí Domenech. Mais do que isso, a relação desenvolvida entre ambos é uma crescente aproximação e inspiração em seus trabalhos. Também estava envolvido no grupo o cineasta Luis Buñuel, que depois desenvolveu carreira na França, que depois desenvolveu carreira no México.
Entre uma amizade pulsante e as proibições à homossexualidade, a relação entre García Lorca e Salvador Dalí também sofreu impasses sobre o que consideravam mais benéfico para suas promissoras carreiras, causando discordâncias de ideias. Desde jovens esses artistas estavam alcançando status de destaque na Espanha madrilenha, mesmo em meio aos domínios fascistas que ameaçavam as artes e a todos os cidadãos com ideais dissonantes ao governo.
O final trágico da morte prematura do escritor novelesco García Lorca, o cão andaluz (?), evidencia que, apesar de suas duras e perigosas críticas ao regime espanhol, a homossexualidade seria de seus grandes crimes, interpelado pela polícia em sua localidade de nascimento, Granada, e chamado de maricón. Fuzilado distante dos holofotes do mundo, sua morte seria lamentada dias depois em notícias de jornais velhos e radiofônicas. Little Ashes era o nome que Lorca soprou para um quadro feito pelo amigo Salvador Dalí. O nome propunha explicar que futuramente, com suas mortes, as lembranças que as pessoas teriam deles seriam apenas cinzas, eles como mero fantasmas após o que suas obras artísticas realmente representavam, ou queriam representar.
Histórias fascinantes podem ser escritas, mas restam apenas cinzas. "Cinzas e madeiras" sobre o caixão lamentava o rei velho após a morte do filho Nicolas no duelo realizado em Blanche. Dos idealizadores, noveleiros, cavaleiros, reinados e castelos, restam apenas pequenas cinzas. Em outra cena de Blanche, o rei velho sente o peso material de toda aquela construção em pedra. "Vai durar mais do que muitos de nós" e o jovem Bartolomeu, um dos postulantes à bela Blanche, apenas concordava, já estes por cima do cadáver do jovem Nicolas.
De amores idealizados pela bela princesa do reino ou mesmo homossexuais perseguidos por regimes fascistas, seremos apenas cinzas no futuro.
![]() |
| Little Ashes (direção de Paul Morrison, 2008) |
10/03/2025
Montanhas de Canguçu
Te procurei em todos nasceres do sol
Você fugiu em todos nasceres do sol
Talvez você nem desconfie
Se não um sol ao menos meu farol
Senti contigo uma conexão
Ou queria sentir contigo uma conexão
Queria um pouco mais de chão
Pra caminharmos em imensidão
Eu vi contigo a água em repouso
Senti o lugar certo pra pousar
A maré que não se mexia
Nem eu queria sair do lugar
Te procurei em todo nascer do sol
Você fugiu a cada nascer do sol
Talvez você nem desconfie
Se não um sol ao menos meu farol
Eu vi o sol me cumprimentar
Subir a linha do horizonte
Escrever de novo com suas fontes
Eu vi você não estar
Estou cansado de imaginar-te
Troco ter mais vida e menos arte
Subiria as montanhas de Canguçu
Por tu, por tu
Porto seguro encontraria em ti
Em ti, em ti
Subiria as montanhas de Canguçu
Por tu, por tu
Viveria na imensidão azul
Do céu do Sul
Por tu, por ti
Por ti, por tu
07/03/2025
Carnis Levale
São Lourenço do Sul é especial na minha vida há muito tempo. Quando cursei o IFSul Rio Grandense de Pelotas na década passada (ou retrasada, a qual década pertence 2010?) tive pelo menos dois ótimos colegas que vinham diariamente da cidade. E não por acaso os dois sempre me são muito atenciosos quando por sorte nos reencontramos nas andanças da vida. Um gremista e um colorado, os dois com pelo menos algum sobrenome alemão. Assim na época de IF também notava as meninas que de lá vinham. E por que não ir?
Em um período muito difícil de conquistas e mais aproximação de conquistas do Internacional, lembro termos passeado em São Lourenço com a família. Almoçamos, aproveitamos a tranquilidade da praia que nos pareceu mais bela que o Laranjal pelotense, que chiem os chiadores, concordem os dotados de bom senso. Brincadeira, democraticamente discordem se quiserem. Tiramos algumas fotos. Eu tinha poucos registros de fotografia, porque na época ainda não portávamos celulares com boas câmeras. Com uma câmera-zinha Kodak registramos alguns interesses em paisagens e nossos sorrisos. Hoje em dia minha mãe faz belas fotos com o celular que comprou.
São Lourenço foi um belo passeio, um oásis em um ano em que muito me estressei em 2010, apanhando da física, convivendo com fracassos que eu ainda não havia experimentado e que os hormônios super dimensionavam em consequências. São Lourenço na verdade só voltou a ser pauta na segunda faculdade. Tentando alguma recordação da primeira, mas não houve.
Ah, teve uma menina em uma formatura. Amiga dos amigos das antigas. Na segunda faculdade surgiu a amiga Mariana, que de lá vinha. E da pandemia a amiga da amiga, que eu mal tive o privilégio de conhecer pessoalmente e que ainda me tremeria as bases com seu oblíquo olhar, nas palavras que Machado emprestou a Bento e que ele ora me empresta para descrevê-la. Cores tão distintas para dentro daqueles olhos que não me importaria passar horas analisando-os para tentar chegar a uma conclusão. E adiar para que a conclusão não se chegue. Apenas concluir que são belos. Ah, São Lourenço...
São Lourenço então voltei a conhecer melhor das praias do carnaval que fomos em 2024. Passada a pandemia, os hormônios jovens estavam novamente prontos para trocar suor em blocos e saliva em noites. Lembro que houve o convite para acampar em 2020, mas preferi ficar em casa ver o Grêmio perder uma final de turno de campeonato para a Sociedade Caxias do Sul. Ainda resgatou aquele estadual com título sobre os caxienses, mas nunca mais recuperei o tempo perdido. A pandemia foi avassaladora aos anos seguintes. Chegamos então ao carnaval de 2024. Eu ainda morava fixamente na minha Pelotas e poderia me deslocar rápido. Foram dias de descoberta no aluguel de uma casa com poucos amigos. Um casal e mais outro amigo, do qual tinha menos contato e o qual se ausentava maiores períodos. Não tínhamos o ingresso para acessar as festas e da rua bebíamos, eu sempre muito, num impulso dos proveitos da vida, de forma que ficava pilhado, conversava, investia piadas, tomamos chuva, procurei alguma briga e quase recebi. Mas nada comparado ao carnaval de 2025.
2025 foi de repetição da casa. A expectativa maior. O investimento maior, o ingresso para as festas noturnas, mas uma certa falta de companhia que perdurou. O casal de amigos de 2024 permanecia casal e restrito. Surgia mais um novo casal no grupo, com todas as contradições imagináveis e inimagináveis. Outro dos amigos estava interessado em alguma droga e nisso obteve êxito por mais de uma noite. Muito evoluído, maduro apesar de mais novo do que nós, ele já rejeitava o álcool e tentava apenas modificar o cérebro por outras vertentes. Foi exitoso, como comentei.
Por último, nos surgia o companheiro de Bagé. Mais um advogado e mais um dos nossos, poderíamos dizer. Permaneci sem as companhias de caça que desejaria. Pensarei sobre a confirmação da vinda para 2026, mediante que me apresentem caçadores para angariarmos juntos de nossa vila rumo às meninas do extremo sul. A maioria das pessoas com as quais falei são pelotenses. Há uma certa decepção quando isso acontece. De Pelotas já estou quase farto, apesar da crescente saudade que me entorpece. As canguçuenses foram as mais belas da vez, encontrei um amigo de Pedro Osório, mas que dessa vez o vi solo, sem os tantos amigos que pareciam fisicamente com ele ano passado, como um bloco de forma compacta e planejada ao padronismo da barba.
Vi colega de ex tapando a calvície com boné noturno. Vi amigo de ex perguntando por ela e eu que mais nada sei, tampouco quero saber, como parte da sequencialidade que nos implora a vida. Vi professor que havia prometido o envio de uma foto de minha formatura e foi obrigado pela acompanhante a me enviar de uma vez. Tirei foto com dinossauros de borracha e quase choro ao lembrar como é divertida a torcida do Liverpool quando a repórter brasileira Natalie Gedra perguntou o porquê deles carregarem um dinossauro de borracha. E de pronto respondeu: e por que não um dinossauro de borracha? E por que não é uma bela pergunta para nos fazermos em situações impactantes da vida. Qual o tanto que temos a perder em consequências?
Me impressionei a quantidade de advogados que conheço mesmo sem ter cursado direito. As pessoas hoje estão pelas imobiliárias, escritórios e salões de beleza. O dinheiro circula mais do que as pessoas. Por feriados ainda circulam as pessoas.
Posso me esquecer várias etapas da viagem mas não esquecer da circulação das baratas que me baixou o humor. Combateram com Jimo e resolveu, não sem antes roçarem os pelinhos de minhas pernas e me travarem o sono como se uma cancela de trem me impedisse novamente de dormir. Quando avançava bem uma conversa solitária com um grupo de intelectuais pelotenses, fui interrompido por meus amigos, que as deixaram ir. Até aí tudo bem, mas a acusação de que minha conversa não surtia efeito me revoltou a ponto de correr um pouco adiante. E circular a praia. E retirei a feia peça de roupa que servia de ingresso para festa. E me fingi de mais desconectado do evento, e encarei com um algum calafrio que havia gangues esperando algum deslize de turistas solitários. E caminhei em direção à volta, mas não queria voltar para dividir colchão. E esperei na rua. E enfrentei um pouco os mosquitos e o medo de quem poderia fazer-me mal, e o medo de quem poderia achar que eu faria mal. Passei por um grupo de duas bêbadas e um bêbado e fui recebido por um namastê, que retribuí em saudação. E se afastaram, e calculei que poderia ir atrás para atar alguma conversa. E cheguei até eles, mas não estavam indo à praia perto e sim para casa. Chegaram e ficou mais esquisito ainda. Agora eu sabia onde moravam. Relatei que estava na rua, etc, mas tudo bem, segui meu rumo. Estava maníaca demais a situação. Fiz a volta pela minha praia preferida. Irreconhecível ainda de escuridão da madrugada.
Tive que voltar ao meu posto de segurança e aguardar mais horas ao amanhecer. Um chegou de festa deixado de carona e, sem o responderem, teve que saltar o portão da casa. Era um muro baixo, mas exigiu minutos de cálculos e precisão. Caiu para o lado de dentro da propriedade, mas não sem fazer um barulhão. Foi cômico. Quase me ofereci para ajudá-lo como solidariedade e forma de passar o tempo. Não precisou, eu acho. Foi cômico que antes tentava se comunicar com os internos por assobios e o motorista, de dentro do carro, debochou que com aquele assobio chiado e chocho, passaria o resto da noite do lado de fora. O motorista cansou de esperar e se arrancou pela rua de terra. O cara completou a manobra do salto sobre o muro e perdi aquela ilha de diversão na longa e infrutífera madrugada. Ouvi ao longe, pela avenida principal de ligação, demais pequenos grupos voltando para casa. Mulheres entre o alcoolismo e o medo noturno da volta para casa. Homens primatas e suas macaquices. Enfim chegava pelas 5 e tanto da manhã a promessa do nascer do sol.
Voltei para casa, achei que Julia não acordava da rede, e busquei minha camisa do Botafogo para as fotos com a linha do horizonte em troca de cores. Julia depois relatou que acordou, que não era sonho que eu voltasse, forçasse a caixa de correio em busca de nossa chave e abrisse em relutância ao cadeado da frente. Dividimos a precária casa com um entregador de moto que alugava ao fundo da casa um quarto que Douglas usara no carnaval passado. Um quarto meio sinistro pelo acúmulo de sacos de coleta ao lado das janelas, janelas essas que não fechavam bem totalmente, entre a ferrugem e o endurecimento das válvulas. Um espaço meio sinistro mas que por ora nos fazia falta no aluguel da casa em 2025, que saltava de nossa parte de quatro inquilinos para seis - e nas últimas noites, com a chegada do bajeense, sete.
Busquei a camisa do Botafogo e rumei para praia. Não pensei em levar uma cadeira móvel e assim tive que aguentar a manhã e a escalada do sol escorado em uma árvore. Esta recebia ao lado as sobras, os lixos, e o cheiro próximo indicava alguma utilização sanitária, de humana ou dos cachorros. Com muito cansaço nas pernas eu aguentava a jornada. O celular baixava a bateria e não tinha fones de ouvido para me divertir. Esperei depois pelo bairro em frente a uma parrilla. Achava que era uma padaria. Procurei depois por uma padaria, vestindo a camisa do Botafogo e questionado por um maloqueiro de carro se eu tinha o telefone do milionário John Textor.
Nas outras esperas pela chegada da manhã, levei cadeira de praia e fones de ouvido. Procurava de música em música pela mesma menina de Canguçu que eu havia conhecido, inconsequente de minhas fábulas de que eu estaria apaixonado por aquele perfil intelectual, que lia na beira da praia, me fora humilde, conversava com idosos, tinha belezas específicas que me cativaram, se não de pronto, ao recordar o rosto dela, cabelos compridos, olhos pequenos, sorriso jovem, pernas digníssimas dos mais estonteantes elogios. Mas não a vi nos nasceres do sol. As canguçuenses, contrariando as estatísticas de presença em outra cidade comparável ao tamanho de Canguçu, continuaram brilhando, mas a saudade de uma específica é, o que se pode dizer?, a saudade de uma específica e isso dificilmente é acobertada, atapetada, suavizada, sanada em demais - isto quando bate forte, evidentemente, porque outras substituições são mais ligeiras e até precisas.
Poderia me alargar mais em falar de nossas diversões com o Louro José que encontramos na casa alugada. Em dívida por termos superado as baratas, coube levarmos adiante esse boneco para que conheça Pelotas e, daqui a dias, Santa Catarina. Louro José fez sucesso em posts, com as senhoras, com as mulheres e até o riso dos homens mais velhos. O pirata do tapa-olho buscava seu papagaio sumido. Os mais jovens, na arrogância constante da idade, fechavam semblante, me tiravam para o louco que não deixo de ser, embora quase inofensivo. Me espantou ver crianças, pré-adolescentes na saideira das festas. Falei com um grupo que não devia passar dos 14 ou 15. Mentiram que tinham 17 ou 18. Eu que não os denunciaria. Pareciam inofensivos. Mas o quê, na minha visão adulta, preocupava era se pessoas mais velhas se aproveitassem deles. Poderiam ser abusados, no sentido de abusar de álcool, psicológico ou coisas piores, ou também serem vítimas em alguma briga que estourasse. Por sorte ou ignorância vi estourar poucas brigas e os maiores relatos policiais dos feriados ficaram para outras localidades gaúchas. Assim espero, embora lamente pelos outros.
Houve muito lixo espalhado pela praia. Parece que custa investirem em grandes containers. Os banheiros me foram pouco inspecionados porque passados os primeiros dias e de festas mais cheias, eu tinha que recorrer à beira da lagoa e ao mato em forma dela, não de forma orgulhosa por conseguir tal feito, mas justamente em regime de urgência.
Também vale relatar o cachorro que os amigos viram com os intestinos pra fora. Chamaram ongs e possíveis resgates, mas apenas uma futura ação particular daria conta. A informação que se tem é que o cachorro sobreviveu, para honroso desfecho aos preocupados amigos da casa.
Na casa, não teve a mesma sorte do cãozinho a caixa do poste em frente a nós. Dentre milhares de turistas, coube a nós torcer pela CEEE pela volta da luz em uma das madrugadas, pois, além de carregar celulares, banhos frios, etc, precisávamos contar com ventilador para dormir. Inventei músicas de torcida de futebol para saudar aos trabalhadores da madrugada. Além da caixa do poste ter morrido, também foi-se de nossa parte uma cadeira de praia que cedeu à massa de um dos amigos e a rede, que fez outro cair quando me pousei com as mãos próximas ao nó que sustentava o tecido. Rompeu-se a rede, no que interpretamos como minha culpa ao escorar-me próximo ao nó de origem. A rede era amarrada na parte superior da varandinha da casa e só nos faltava a casa toda ceder em um terrível efeito cascata ou dominó.
Entre tantas tensões e (des)embaraços, foi um belo carnaval em que espero novamente sustentar e fortalecer amizades, ter visto sorrisos e conhecido novas pessoas. Saber que há de nos prepararmos ainda mais às próximas jornadas. Me considerar apaixonado acima de tudo pela praia da Barrinha. E encerrar esse texto todo com uma sequência de fotos desses dias maravilhosos para as eternas lembranças que me couberem.
02/03/2025
28/02/2025
Ah, Botafogo
Tem quem me acompanhe. Éramos tantos. Narradores, jornalistas, músicos, atores, torcedores. Não estou sozinho. Mas que impressionante e singular é a vida!
Tão rápida quanto a tua ascensão tão bela, jogadores fortes, promissores, ligados, ligando e dando liga. E agora um seguido clima de fim de festa. De fim de feira, de jardim mal cuidado. Todo o cuidado e o despertar apaixonante e reapaixonante viraram planta má podada, ervas daninhas crescentes, espaços de vácuo, de mau preenchimento. Ah, Botafogo. Restart na temporada que ainda era tempo de set fire. Reúna de novo a cachorrada. Era tempo de chegar-se o tempo, que não se vá o tempo. Esteja atento. Que vaciladas... Te amo e te quero e te assino sem mistério. Meu, seu, nosso amor, a tantos mãos, critérios. Nos leve a sério. Te desejamos.
Por amor, nosso amor, por quantos forem os anos.
Samba do Sonho
Essa eu comecei a compor durante um sonho e foi pra ela que me desgraçou fim do ano. Parabéns 🥳🥳
Eu e você Oceanos
Eu e você hoje
Ou em onze anos
Gosto de te imaginar
Nossos planos
Contigo explorar
Todo este plano
Eu e você
Não subtraiamos
Eu sem você
Já sofro tanto
Você sem mim
Queria fosse o fim
É só meu o pranto
Você e eu eu disse Oceanos
Não ofereça só lagoas
Na minha cabeça
Tão belo soa
Eu e vossa sua pessoa
Nossa história
Notório incauto
O que eu não te pauto
Não é importante
Na minha estante
Sua sobrancelha
Sobrevoa minha velha
Decaída
Cilada, fim da vida
Minha alma desacolhida
Entre eu e você
Estados inteiros
E eu tenho estado
Puro desespero
Seu olhar
Meu cativeiro
Não me livrei de ti
Foi-se o fevereiro
Me restrinja
Já é meu enterro
Março eu faço
Meu aconchego
Vou dormir até o fim do ego
E me nego
A sonhar mais erros
23/02/2025
Fernet
Tomo um fernet
Esqueço você
Lembro que você
Nunca será
O que sou pra você
Tomo um fernet
Inverto frases
Invento frases
Inferno! Frases
Incertas frases
Em certas frases
Frames e oásis
Faith! Kamikazes
Tomo um fernet
E a coca-cola
E me decola
E me descola
E me patrola
E acordo: olá
E não estou de acordo
E não estou decoro
Parlamentar
Para alimentar no soro
Case of sorrow
Piscinas, cloro
Claro que cloro
Coro que cala
Clara que atende
Pára
Ela e suas tatuagens
Não lembro de alguém ter concordado
Mas o corpo é dela
Alguém que fala
Que legal, Clara
Que legal que tal
Que tara, essa eu achei mara
Blablabla bala
Não tomo
Mas fernet e como
Mas fernet é sumo
Mas fernet nós somos
Parceiros
Por inteiro
Ao outono
Mas fernet é cult
Mas fernet, vermuche
Mas fernet fetiche
Mas fernet so much
Mas fernet mustache
Mas fernet que taxem
Vou ali, contraste
Vou ali, que traste
Vou ali a Melo
Treinta y Tres también la quiero
Vou ali, projeto
Vou ali direto
Fernet tchererê
Tchererê tchetchê
Vou ali sincero
Vou ali : já era
Vou ali : espero
Vou ali : quimera
Fernet pérola
Fernet nas células
Fernet mera
Fermentação
Pois então
To be continued
Tomara contigo nua e
15/02/2025
Love on the run (1979)
Esse filme encerra os episódios da vida de Antoine Doinel, personagem mais marcante na cinematografia do diretor francês François Truffaut. Com direito a várias passagens dos filmes anteriores, temos explicações e conclusões sobre a vida do polêmico e artífice personagem: sua relação com diferentes mulheres, sua dificuldade em manter relacionamentos e também conclusões importantes vindas dela sobre o homem em questão.
Em um acerto mágico de Truffaut, a carreira de cinema com o jovem Jean Leaud foi promissora. Estreando criança no filme traduzido ao português como Os Incompreendidos (1958), um dos pilares da formação da Nouvelle Vague francesa, a vida do personagem percorreu adolescência, início da fase adulta até a fase com mais de 30 anos, com aprisionamento em reformatório, perda da mãe que possuía amantes, namoros breves, casamento com a violonista do filme Domicilio Conjugal - o qual escrevi sobre neste blog - o divórcio, a criação do pequeno Alfonse, filho de Antoine e o relacionamento de surgimento um tanto stalker com a bela Sabine, loira personagem central n encerramento dessa trajetória em Love on the Run, ou Amor em Fuga.
Em sinopses, Antoine é apresentado como ainda adolescente, mesmo passados seus 30 e poucos anos. Não resiste ao charme das mulheres, também não sabe como se comportar adquiridos os relacionamentos e, pai divorciado, tem pequenas contribuições diante do crescimento do cabeludinho Alfonse.
Jean Leaud mantém seu humor surpreendente, em que a parceria com Truffaut nos põe em dúvida o que são ideias de piadas bobas de um ou de outro. Verdade que funcionam ao gosto deste escriba, que se sente mais familiarizado ao estilo drama-comédia das narrativas. Antoine atua por trocadilhos, literalidades, ironias passageiras. Seu estilo leve, jovial, interessado ao encontrá-las mantém os interesses das parelhas. Mas seu desenrolar passadas essas fases é insuficiente, resultando em separações, irritações, ansiedades mal resolvidas.
A adoração de Truffaut por seu personagem (alter ego de Truffaut, dizem, e faz total sentido pela riqueza de detalhes) lhe reserva um final satisfatório. Gera polêmica de considerarmos, de julgarmos o quanto merecia. Mas, aliás, o final seria um final? A loira Sabine conheceria o pequeno Alfonse? Que sequência o casal teria juntos? Ele, entre aspas, cresceria finalmente em companhia desta terceira? São questionamentos possíveis.
O filme tem o gosto agridoce da comédia-dramática, em meio a situações que não mais existem na contemporaneidade. Antoine trabalhando em uma gráfica, a troca de fax. Os telefonemas públicos, em cabines em locais ou mesmo na rua, como no Brasil seriam os orelhões em oposição ou semelhança a Paris. A facilidade para traições era maior? Possivelmente. Antoine que tem ações duplas, que salta para trens em movimento mesmo sem a passagem comprada. Antoine que escreve seus livros biográficos, fingindo, mesmo mentindo ser ficção. Que reconta sua vida, mas tem incapacidades às vezes por transformá-las às medidas que melhor se adequaria.
Antoine que agrada e desagrada. Agridoce. Assim, entre levezas, belezas e angústias de pontas soltas mal resolvidas está a vida de Antoine Doinel contada, mostrada pelas lentes dos filmes de François Truffaut.
07/02/2025
Querido Menino x Noites Alienígenas
Assisti em sequência a dois filmes que permitem estabelecer essa relação para contá-los. Querido Menino (2018) é baseado em um livro de um jornalista e escritor, David Sheff, que conviveu com seu filho viciado em diferentes drogas, em especial metanfetamina. Durante o processo de tratamento, o escritor chega a pesquisar sobre as drogas para melhor entender sintomas, efeitos e tratamento.
Em Querido Menino, está exposto o problema agravante dos Estados Unidos com as drogas que circulam no país. Heroína, cocaína, balas. A mensagem final do filme é sobre essas drogas serem a principal causa de morte no país em pessoas com menos de 50 anos (maioria da população?). Números alarmantes. Histórias individualmente castigadoras a quem convive com. O pai fica arrasado. Uma cena que marcou bastante foi quando este mesmo pai, com mais dois filhos pequenos de seu segundo casamento, observa uma das crianças cantar no Coral da escola. O olhar profundamente amargurado parece se perguntar sobre os riscos da história se repetir. Ele criou estruturalmente sua família e seu primogênito acabou imerso nas drogas. Como garantir que os seguintes escapem dessas realidades?
Escapar da realidade, aliás, parece uma temática do filme. O que levaria o adolescente de classe média a buscar essas saídas para sentir novos prazeres, outras sensações? No filme não é mostrada muitas relações amistosas do jovem Nick. Nem a relação com traficantes, que apenas aparecem cena ou outra. Sabemos que o contexto do enfrentamento às drogas envolve muito as autoridades, corrupções, polícia, aeroportos, fronteiras terrestres, vistas grossas, políticas de combate. O foco do filme, entretanto, é o enfrentamento familiar, as tentativas de recuperação de Nick e os esforços do pai em adequar os tratamentos necessários, internações e o que mais for possível.
Estrutura que está presente na família de Nick e mesmo assim o combate é aguerrido, complicado. Vale salientar que as condições de internação e de rede de apoio não estão presentes para muitos norte-americanos que acabam nas ruas, largados em banheiros públicos e praças sem com que as prefeituras e instituições os recolham e cuidem. Contextos relativos.
Relativamente diferente é a realidade em Noites Alienígenas (2022), filme brasileiro do diretor e roteirista Sérgio de Carvalho. A Rio Branco do Acre é mostrada a muitos brasileiros pela primeira vez, ainda mais neste contexto. A ideia do filme é demonstrar como as facções migram do centro do país, entre Rio de Janeiro e São Paulo, para outros cantos brasileiros. Rio Branco não é uma cidade pequena, oferece mercado às vendas de drogas. Assim, muitos jovens, nessa distante realidade, adentram ao mundo de vendas, cobranças, dívidas e riscos. O viciado não tem como pagar. Os vendedores os eliminam. As facções rivais, na concorrência das vendas, se enfrentam. Estudos, planos de vestibular e emprego ficam em segundo ou terceiro plano.
Se em Querido Menino, o foco é na vida de Nick e nos esforços de seu pai, em Noites Alienígenas estão famílias mais desestruturadas e sem opções. Ou entra para esse mundo ou passa fome. Que outro emprego arrumar? Rivelino tem a mesma idade de Nick, talvez menos, está em idade de conclusão de escola, tem 17 anos, suposta namorada que já tem filho de um dos viciados. Rivelino trabalha com Alê, homem de meia idade que por vezes assume uma identidade como pai de Riva, mas entre afetos e desafetos. A mãe de Rivelino, chamada de Loira, ao que parece, não tem emprego e dependia do então pai de Rivelino. Drama familiar. O garoto vira o homem da casa, luta pelo sustento.
Enquanto isso, um viciado que convivia com Riva está em dívida com os traficantes, à beira da morte. Pronto para ser apagado. O filme, segundo alguns críticos, perde pé e cabeça ao longo do desenvolvimento, mas cumpre a mensagem de transmitir essa realidade. Para o sul do Brasil não é diferente. Gangues de fora tomam conta, lutam para expandir seus mercados e envolvem novas cidades em batalhas sangrentas do tráfico de drogas. Cansado de ver os números de mortes e chacinas saltarem, Sérgio de Carvalho prontificou esse importante filme. Há presença das religiões evangélicas que tomam a floresta e várias partes do país, os rituais indígenas, a realidade das ruas na frieza do asfalto que desemboca nas periferias.
Dois filmes que demonstram os problemas com drogas sob diferentes contextos. Na vida dos Estados Unidos e o desarranjo de uma família classe média, da vida de um jovem promissor que poderia escolher uma das seis faculdades para qual havia prestado teste e passado. Do outro lado, o rincão afastado do periférico Brasil do Acre. Um menino sem perspectivas de colocar comida na mesa se não depender das facções e da venda de drogas. O tudo ou nada. A ausência de escolha.
Quem realmente pode escolher, quem pode fazer diferente? O que fazem os governos para evitar a perdição dessas vidas tão jovens, sejam impulsionadas por companhias, música e fantasias de composição ou pela crua realidade da falta de opções empregatícias?
05/02/2025
Mamma Roma (1962)
Filme de Paolo Pasolini 🇮🇹, Mamma Roma conta a história de uma mulher que trabalhou na prostituição no interior da Itália, juntou algum dinheiro para cuidar de seu filho, se transferindo à Roma, onde, ao que parece, também já havia feito carreira, e conseguiu comprar uma casa e administrar uma banca em feira local. Virou feirante e ainda completava renda com faxinas. Foi mãe e pai para o pequeno Ettore.
Crescido, jovem aos 17 para 18 anos, Ettore chega à Roma e começa a andar com outros jovens sem estudo e perspectiva. Vale a sempre válida lembrança dos tempos de Europa pós-guerra, onde nem tudo, ou na verdade quase nada eram flores. Ettore vagueia com os demais em uma formação entre o entretenimento e a formação delinquente. Conhece a amiga dos guris, chamada Bruna e logo se afeiçoam. Mas os demais não vão deixar barato para o caipira, como era reconhecido.
Ao mesmo tempo, a preocupada Mamma Roma tem de lidar com um velho caso da sua vila no interior. O rapaz, na época bem mais moço do que ela, a persegue em Roma, para cobrar como uma dívida, mas que se demonstra algo moral posteriormente, como se a então prostituta tivesse imoralizado o cidadão de bem. Ao mesmo tempo, Ettore desconhece o passado mais conturbado de sua mãe, acreditando que sua renda sempre era proveniente da feira, da faxina ou de outros serviços considerados honestos pela sociedade fofoqueira.
Ettore se apaixona por Bruna e a notícia chega aos ouvidos de Mamma Roma. Preocupada com a repetição caótica do que ocorreu em sua vida, ela arma um plano com uma amiga mais nova, para que ela seduzia o jovem Ettore, o que estava no papo para sedutora amiga. Sem saber, o cômico é que uma briga entre os guris já havia determinado um distanciamento, uma separação de Bruna com Ettore. Desconhecedora do desentrelace entre os jovens, Mamma Roma insiste em seu plano e crê que nele obteve êxito com a colega da noite. Ettore assim estaria curado da paixão pela andarilha Bruna, que, por acaso, também tinha um filho pequeno, em coincidências com a vida da então jovem Mamma Roma.
A construção do filme se dá entre a personagem Mamma Roma que tenta deixar para trás a vida errante e da construção do jovem Ettore, em que não teve formação escolar, tem dificuldade de opções de emprego e acaba caindo na vida de pequenos furtos e delitos. O desespero de uma mãe que só queria o bem para seu filho, mas não tinha muitos métodos nem ideias de como atingir seus objetivos.
Temáticas comuns para época do cinema italiano, em mais uma grande obra clássica. A rebeldia da juventude, os valores sociais contestados, o preconceito que atravessa de passado a presentes, o desespero de famílias capengas e desunidas, a falta de perspectiva das periferias. Tudo isso pode ser observado na hora e quarenta e dois minutos do filme Mamma Roma.
Nota final em 4,5 / 5.
04/02/2025
Aquarelar as coisas
Sempre gostei de aquarelar as coisas. Fazer literatura como relatórios e fazer relatórios como literatura, o que desagrada muita gente, mas eu não ligo.
Acredito que as criações de verdade sempre fugiram dos rótulos, com certa liberdade. As rotulações e classificações são posteriores, ocupações a quem não criou, não tem mais o que fazer ou simplesmente precisa planilhar, organizar o mundo em que vive - ok, em algum grau, todos nós.
Aquarelar são fusões. Misturas de cores. Misturas de gêneros, tão necessárias na evolução da música, da literatura, até da ciência e da vida humana. Fusão da filosofia que busca avançar conhecimentos.
O binarismo, os conceitos exatos podem ser muito importantes para o desenvolvimento de tantas áreas e tão prejudiciais para tantas outras de nossas naturezas humanas.
O que esperar do futebol
Durante 2023, o que mais queria em todo o mundo seria o Botafogo ser campeão brasileiro. E até pensei que esse título com meu pai seria a última coisa que eu gostaria de ter na vida. E o título não veio e eu pensava seriamente em me matar. Mas não me matei e o projeto do Botafogo retomou um rumo. Venceu não só o Brasileiro após 29 anos, mas conquistou a Libertadores da América, onde estive em Buenos Aires. E nada poderia ser maior na minha vida de entusiasta torcedor. Depois veio o fracasso no Mundial de Clubes sem direito à preparação, em uma das maiores palhaçadas já vistas. E a derrota agora na Supercopa do Brasil para o maior rival, um vice como em 1992 no Brasileiro ou os tantos vices cariocas para os desgraçados, que, a título de alfinete, levaram 6x1 no agregado do Campeonato Brasileiro 2024.
Vistos e comemorados os títulos, novas derrotas aos montes por vir, talvez algumas vitórias, o que mais esperar da vida? Hercílio Luz está muito mais próximo de não existir do que de uma conquista que relembre o bicampeonato estadual dos anos 1950. Deve ser rebaixado e minimizado a uma insignificância que ainda não havia experimentado presencialmente com ele.
Liverpool talvez volte a ganhar um Campeonato Inglês - e dessa vez com público - após 35 anos. Venceu o Inglês apenas em 2020 quando o desfecho foi sem público devido à pandemia de Covid. Então os últimos títulos ingleses dos Reds foram em 1990, 2020 e tentando a sua segunda conquista de Premier League em 2025. Muito pouco após as sequências vencedoras da cidade de Manchester e alguma graça dos londrinos Chelsea e Arsenal. Até o Leicester, brigando contra nova queda, foi campeão ali por 2015 ou 2016, não recordo.
Liverpool vencer o Inglês dessa forma encerraria um ciclo de vitórias que era conduzido pelo alemão Jurgen Klopp com Campeonato Europeu, Mundial de Clubes inédito ao Liverpool, Supercopas, duas Copas da Liga Inglesa e uma Copa da Inglaterra. Falta mais um título inglês para igualar o Manchester United e encerrar esse ciclo de diferentes conquistas por Inglaterra e planeta. E o quê depois?
Do Grêmio espero tão pouco. Quase nada. Começou bem com Gustavo Quinteros de treinador, mas se perder a histórica sequência estadual, será fritado por muitos, contra tantas instituições e arbitragens contra. O Grêmio talvez faça mais umas graças, é imprevisível, já se destacou nacionalmente e continentalmente quando poucos esperavam tanto. No estado, batalha para igualar o número de Campeonatos Gaúchos do Inter. E Gre-Nal nunca terá mais do que o rival. Ao que se tem visto, nem em títulos de base ou feminino, o que demonstra descompromisso com a história e certa pobreza na alma que uns tanto enaltecem castelhana.
O que ainda espero da vida e do futebol? Refém de conquistas recentes, alguma sede ao pote, mas o que mais? A queda do idealismo ao niilismo é sempre vertiginosa.
28/01/2025
Semana para Sempre
Assisti a mais um filme com tons biográficos. Ratcatcher (1999) ou O Lixo e o Sonho, que se passa em Glasgow, na Escócia, demonstrando a vida de um garoto chamado James, descobrindo coisas da adolescência, enquanto a greve do recolhimento acumula sacos de resíduos, ratos e mais problemas do que aquela comunidade pobre e operária já necessariamente passaria por.
Passei essa semana com minha vó, a única semana em nossas vidas sob essa condição de só nós dois. Me sinto tão culpado de várias formas. Ela sempre morava com minha tia e finalmente a liberei para passar férias no litoral de Santa Catarina, enquanto fiquei a cuidar de vovó. Lembrar que em 2022 elas tiveram a condição de morar com o restante de minha família em Santa Catarina, mas decidiram voltar ao estado mais ao Sul do país.
Essa semana com minha vó fez eu me sentir culpado de, embora ajudá-la, não poder fazer tudo por ela. Tudo mesmo. Embora eu saiba que ela se sinta mais útil, mais viva podendo exercer coisas que sempre fez pelas casas onde morou. E também penso que esses dias em que pode se contentar apenas com a vista dos prédios em volta pelo centro e pela televisão, em que ela prefere o entretenimento do SBT, ignorando a assinatura dos canais por assinatura, que não são baratos e chegaram a ser contestados por nosotros (eu e ela).
Me sinto culpado porque, principalmente, o distanciamento sentimental com minha avó se deve, além de minhas condições mentais, à falta de uma experiência anterior que nos unisse em tamanha proximidade. Essa semana possibilitou isso. Jogamos cartas nesse último dia a sós. Ela se divertiu com minha companhia, com a cerveja e com as verdades que compartilhamos, eu me diverti, além disso, por ter ganhado o jogo com certa tranquilidade, em um placar elástico de 15 a 4 no pife.
Além de adiar essa experiência entre avó e neto, ela agora em seu 92⁰ ano sobre a Terra, me sinto especialmente culpado por esse distanciamento ter me feito pensar, por vezes, que talvez não fizesse a mim uma grande diferença a sua partida. E hoje encontro minha avó muito mais próxima, mais humana do que nunca. Às vezes naturalmente provocativa e sonsa, como características do signo de leão, mas com uma vontade imensurável de acertar, de agradar, de me acompanhar disposta. Algo sem palavras para expressar o bom relato de seu companheirismo, nessa semana em que quase perdi por vezes o bom cabo da paciência, mas sempre consegui mantê-lo, como com outras pessoas talvez não conseguisse, e assim o convívio foi satisfatório e na agradabilidade do companheirismo.
Me sinto culpado pelas vezes em que pensei minha vó como o número de sua idade, agora recordista em nossa família ao cruzar seu 92⁰ ano. Mas ela, muito além de um número, é uma bela história de vida. Filha mais nova do imigrante alemão alcoólatra. Filha talvez preferida entre as filhas por ser a mais jovem, mas não mais do que o moço da geração delas que teve direito a investimentos para estudos e intercambiar fora. Minha vó tem quase nenhuma formação escolar e, mais do que isso, trabalhou de servente em escola por muitos anos. Característica do emprego essa ela levou para vida, sempre muito prestativa e disposta a ajudar os outros, sem luxo e apaixonada pelos pequenos gostos, refeições e momentos familiares, como sei que gostou dos que passei com ela.
Fazer algum paralelo com o filme que assisti. A agonia toma conta dos espectadores ao verem o lixo que se acumula em Ratcatcher, as crianças brincando em riacho poluído, com ratos e todo tipo de exposição a doenças. Minha avó jamais deixaria chegar a esse ponto. Acho que se fosse escocesa dessa época, sairia de casa ela mesma para colher o que conseguisse de lixo, em nome da vizinhança. Uma senhora inacreditavelmente disposta, que sobreviveu a tombos físicos, de cair na calçada ou em casa, a tombos que a vida pudesse lhe pregar em peças desagradáveis. E chegou para me orgulhar, para me atender, para eu me sentir quisto e amado, em pleno seu 92⁰ ano. Se cheguei a duvidar o impacto que teria sua futura partida, à qual nos programos de uma forma ou de outra, agora me é indubitável o poder que as recordações me trarão e tratarão dessa nobre senhora, de seu riso inconfundível, sorriso fácil e surpreendentemente fotogênico, acima até da beleza, cabelos vastos, feições grandes e simpatia simples. Pudera eu ser mais de ti do que o sangue que também sou.
23/01/2025
Nem onze
Nem onze da noite e todas as contas já foram feitas
Ninguém tem mais saco
Pra atos chatos
Ninguém tem mais saco
Pra insights fracos
Passo o tempo
Passo o dedo sobre a tela do celular
Navego insone
Navego anônimo
Navego mais um nome
Nesse mar
Tanto faz
Indiferença é maior que as desavenças naturais
Tanto faz
Os descartes são as pedras filosofais
Nem onze da noite
Nem ouse dar mais sinais
22/01/2025
Entendi que a vida passa mais rápido conforme somamos mais idade. Vi um cálculo sobre percepção baseado na porcentagem de vida que representa um mês, por exemplo. Quando se tem cinco anos, um mês equivale a muitos % de sua vida. Mas quando se tem 60 anos, um mês é um parcela ínfima do total de sua vida. Entendeu?
Porém também relembro as viagens que fizemos. Conhecer a estrada representa, muitas vezes, que o caminho passou mais rápido. Já se sabia, em parte, o que estava por vir. Assim também são os dias e os meses quando acumulamos mais idade. Já se sabe mais sobre as coisas e o aspecto da novidade se ausenta. Assim, os dias e os meses, conforme os conhecemos, saltam mais depressa. Talvez aprender coisas novas e lançar-se a novidades represente uma importante quebra nesse ciclo vicioso dos dias. Quem tem tempo? Quem tem dinheiro? Quem tem disposição para quebrar essa corrente?
21/01/2025
20/01/2025
Até que tem
Tem música que gosto de ouvir no fone
Tem música que gosto de ouvir ao vivo
Tem música que gosto de jeito nenhum
Preferia nem estar vivo
Então eu ouvi João Bosco
Me senti menos tosco perante o mundo
Então eu ouvi nosso oco
Do que parecia profundo
Então eu ouvi o Trump com sotaque traduzido
Preferia ser abduzido
A ouvir esse discurso
No decurso do tempo
Eu só lamento
O que ainda está por vir
Isabelle Huppert me avisou ¿e daí?
Me puxaram o tapete
Antes dele voar
E Alceu Valença me era uma lembrança
Somente protocolar
Tem música que eu gosto como um equinócio
Palavra nova é boa para os negócios
Tem música que fizeram de qualquer jeito
Feito um troço
Tem música industrial que nem a indústria da China
Faz tanta barbeiragem
Nem o Clube da Esquina
Nenhum outro Nascimento
Tem música que não definiria jamais um valor
Tem música que é troco
Tem música que eu troco quando mal começa
Tem música que ouço à beça
Tem música que eu queria ouvir de beca
Mas a formatura não queria comprometer os direitos autorais
Ai ai ais
Tem música que é sacada do baralho aleatório
Como um ás
Tem música que nunca satisfaz
Tem música que eu canso jamais
Tem música instrumental e tem de Recife
E tem corais
Tem música que me arma pra guerra
Tem música que é quase paz
Tem música que nunca me alcança
Por mais que sejam virais
Tem música que nunca mais ouço
Agora que somos rivais
Tem música que me dá um troço
Longe demais das capitais
Tem criança que não conhece Capital Inicial
Obriguei a ouvirem Soda Stereo
E Cerati sim me dá um revertério
Ferrari virando um cavalinho de pau
Tem música que sobra o doce
Tem música que falta sal
Tem música que antes nos fosse
Ao menos um sinal
Au au au
Mal
Você eu espero
Você espera um momento sublime
A vida te responde chinelagem
Você espera pela limousine
Olha o tamanho da sua garagem
Você espera pela autoestima
De cima ninguém te dá nada
Você espera de cabeça inchada
Pela hora exata, cristalina
Você espera um momento único
Unicórnios, micos passados e leões dourados
Você espera uma brecha na lei
Enquanto dormem os advogados
Você espera pela espera
E percebe tarde demais
Que já era
Você espera por perceber
Sinais divinos entregues do Céu
Você espera castelos de cartas
Torres de papel
Você espera pela espera
E percebe tarde demais
Que já era
14/01/2025
Ponteiro da Saudade (1945)
Primeiro que, contextualmente, escrevo este texto após saber de denúncias contra o escritor Neil Gaiman e outros, o que me faz sempre pensar na perversão, nos bastidores terríveis dos Estados Unidos da América a respeito de escândalos sexuais, o que se pode ampliar para o cinema, para os escoteiros e sabe-se lá o que de pior entre as paredes das casas. Uma sociedade doentia e que venera o sexo de uma forma que creio ajudar a deturpar os cérebros naturalmente deturpantes.
Todo esse contexto a respeito porque trata-se novamente de um filme dos Estados Unidos, passado em Nova York de 1945, recém acabando o grande acontecimento secular de Segunda Guerra. Um soldado chamado Joe chega de seu acampamento para passar dois dias em Nova York, a maior cidade do país, com mais de 7 milhões de habitantes, divididos entre Brooklyn, Queens, Manhattam, Richmond. Joe nunca havia estado em NY e, ao que parece por seus movimentos surpresos, nunca havia estado em cidades grandes. Surpreso com o tamanho dos arranha-céus que ele poeticamente classifica como coletores de nuvens, surpreso inclusive com o movimento simplificado e repetitivo das escadas rolantes.
Joe atabalhoadamente tropeça em uma jovem logo na chegada rodoviária e acaba quebrando o salto do sapato da moça, algo meio cinderélico. O encontro casual entre os dois evolui para se tornar a trama do filme, exclusivamente português para se chamar Ponteiro da Saudade, ótima tradução, diga-se de passagem. Solitário, Joe depende da moça para conhecer as primeiras atrações nova yorkinas, o que, vá lá, entre Central Park, museus e largas avenidas dotadas de diferentes transportes, dá o tom do que seria a corrida norte-americana para mostrar seus sucessos ao planeta durante a Guerra Fria. Mas não quebremos totalmente o encanto do jovem casal com politicagem (não muito).
O filme causa uma tremenda angústia ao pensarmos que o encontro casual transformado em desencontro em repetidas cenas poderia terminar a qualquer instante, sem redes sociais, endereço ou mesmo local de trabalho em que pudessem se reencontrar para prosseguimento. Se perdem entre bondes, ônibus, metrô, galerias, pontos turísticos de encontro.
Mais do que isso, o drama/romance parece criticar a vida militar de desencontros para viver longe da família, dos amigos, das amantes em acampamentos distantes, missões injustificadas, viagens para Europa: Joe iria à Inglaterra, ao que recordamos. Em apenas dois dias, esses jovens querem mudar suas realidades e transformar a insegurança e incertezas em algo mais absoluto. Joe parece mais acertivo de seus objetivos com a jovem Alice, enquanto ela, carregada de dúvidas, um tanto quanto consternada de apaixonar-se rapidamente por um militar, põe-se em dúvida diante de sua amiga e companheira de apartamento, além do papel social, sempre fundamental nessas escolhas.
O drama do soldado que precisa seguir em missão, mas torna-se determinado em, naqueles míseros dois dias, concluir missão antes de sair-se para Europa. Quase século depois e podemos pensar de que valem tantas escaladas longe de quem os ama e os faz viver, seja em Vietnãs, Kuwait, Iraque ou Afeganistão.
A segunda metade do filme se desenrola em burocracias de que o casal tenta desenrolar um apressado casamento, vá lá politicagem, não se sabe se em obscuro desejo de desburocratização e de provar que os jovens nessa cultura ocidental ao menos tem o privilégio das escolhas, mesmo impulsivos e apressados, que diabos, além desses jovens personagens e dos mais velhos burocratas organizadores de certidões, exames de sangue e, finalmente, casamentos, há nenhuma supervisão dos distantes pais de Joe ou Alice, que somente comentariam com eles após registradas as atas. É um contraste tremendo a vidas interioranas e de países asiáticos ou de prevalência da cultura muçulmana, por exemplo.
Havia prometido não misturar a tocante história dos jovens com politicagens, mas depois me tocou inevitável. Perdoem-me. O filme traz fragmentos bastante realísticos e outros um tanto forçados, mas sem obstruir totalmente seu brilho. Os encontros após desencontros são angustiantes e de tirar o fôlego. A chance de dar tudo errado era evidente, mas Joe e Alice estão imantados do magnetismo do cinema de finais felizes. Será? Pois a vida militar segue e os Estados Unidos da América, mr. Trump, segue em escalada internacional para separar os corações apaixonados de Joes e Alices, ou o nosso Green Day também não lançaria 60 anos depois uma música pedindo para ser acordado após o fim de setembro.
Entre escândalos sexuais de uma sociedade doentia e corrompida, entre queimadas criminosas ou má administradas na questão climática, que eles tanto deixam passar, os malditos ainda escrevem algumas histórias de amor que valem-nos 1h30 de atenção e conformismo, de amolecimento do conteúdo miocárdio e mansidão da mente.
Céus, eu e minhas notas altas
Nota final em 4,5 / 5
Direção de Vincente Minnelli
13/01/2025
12/01/2025
O Profanador de Azeitona
Ele achou que não seria pego. Desconfiava de um vizinho que não revirava o seu lixo, mas só faltava aparecer de binóculos na janela, atento a cada movimento. Aconteceu algumas vezes, ele não poderia negar caso a pergunta fosse feita no tribunal. Isto se ele tivesse direito a um tribunal, porque a sociedade o condenaria, na opinião pública, como um crime inafiançável.
Em casa, elas eram bem separadas. Eram pedaços pequenos, que passariam facilmente despercebidos, envoltos nos sacos plásticos descartáveis. Em casa, pelo visto, através dos meses, ele conseguia passar impune. Depois tudo ia para o caminhão do lixo e nunca saberiam quem era o responsável por aquele crime.
Mas um dia ele foi pego na saída da porta do apartamento. Achou que o vizinho, bisbilhoteiro mas alcoólatra, estava por dormir, mas surpreendeu-o parado, preenchendo o perímetro do espaço da porta como um goleiro à espera da chegada adversária. O profanador de azeitona se assustou. Deixou cair a sacola e as bolitas escuras se esparramaram pelo chão. O vizinho pinguço não podia acreditar no que via com seus próprios olhos - auxiliados por lentes de grau 3. As azeitonas preencheram o chão dos apartamentos do segundo andar como se fossem as bolinhas de borracha após uma partida de futebol sete em campo sintético. A prova do crime gritava urgência. O vizinho até gostava dele, mas tal chamado à justiça não poderia tardar. A denúncia precisava ser feita. Primeiro manifestou um grito, não dos mais altos, mas o suficiente para a outra porta daquele andar abrir-se e averiguar a bagunça, a cena imperdoável. As azeitonas deitadas, espalhadas por tudo.
- Eu posso explicar - disse trêmulo diante das testemunhas.
- Vá tentando - encorajou a vizinha do apartamento diante do dele. O alcoólatra era vizinho lateralmente.
- São... São... um amigo jantou aqui. Ele não come. É coisa dele.
- Eu bem que desconfiava - disse o bafo de cachaça. - Você tem hábitos muito estranhos. Parece sempre se esgueirar por esse prédio. É u gatuno - e deu uma risadinha, mas ninguém acompanhou nos sorrisos.
- De qualquer forma entendo que... que sou cúmplice. E na verdade a culpa parece recair só a mim. Mas é dele, eu juro!
- E você não tem vergonha? Encobrir uma porcalhada dessas? Azeitonas fora? - A vizinha estava incrédula.
- Eu... eu... Eu não sei o que dizer. - Roçava a testa com a chave da porta, único item que lhe sobrava nas mãos, que haviam perdido sacola e azeitonas para evidência criminosa.
- É nosso dever não só informar o síndico, mas autoridades competentes - disse o engenheiro aposentado.
- Logo tu! - Manifestou no gauchês mais rude e intimidador que conseguiu. - Um velho alcoólatra com ficha criminosa violenta de atos passados. Até coisa hedionda, velho burguês!
- Tive sim, acusações. Acusações, veja bem. E fui inocentado. Agora isso que estamos vendo. Eu por trás dessas gafas velhas. Isso não se pode tolerar. Eu mesmo saco o celular. - Se prontificava com a língua no canto da boca e os dedos ágeis mas embaralhados a discar o número policial.
- O Vieri tem razão. Uma cena dessas em pleno nosso prédio, diante de nossas portas, de nossos apartamentos, é intolerável. Disque, senhor Vieri.
Nisso, o síndico chegava também grogue, atônito, ao mesmo tempo curioso por aquela movimentação na calada da noite. De sacolas de supermercado na mão, inclusive preciosas azeitonas, ele assistia àquela profanação em tempo real. Bolotas por todo o corredor, talvez algumas mergulhando degraus de escada.
- O qué passa? - Invocava algo fronteiriço em sua pronúncia dos tempos vividos no Rio Grande.
- Estamos diante de um profanador de azeitonas - continuava furiosa a mulher.
- Um profanador de azeitonas?
- Um incontestável. Assistimos em flagrante, não é, senhor Vieri? - E deixava escapar uma lágrima de fúria no canto do olho.
- Evidentemente. - Terminava de discar o velho. - Alô, policial? Sim. Sim. Sim, no bairro da praia. Uma denúncia estapafúrdia, policial. Um profanador de azeitonas! Sim! Não ouviu errado. Sim, estou tentando ficar calmo. Já passei por um infarto, mas boletim igual a esse não é todo dia, não é mesmo?
O profanador de azeitonas parecia aceitar a denúncia, não obtinha mais reação. O síndico o encarava como criminoso que se mostrava ser. Parecia surpreso, curioso, mas o olhar já inquisidor diante da perversão presenciada.
- Gostaria de denunciar seu amigo, caro cúmplice? - Provocava o velho. A boca entre conversar com os presentes da cena do crime e para o policial ouvir do outro lado da "linha".
- Vou assumir a responsabilidade dessa sacola, mas mais nada! - Exclamava entre conformado e agressivo.
- De evidência só temos essa sacola mesmo... até o momento - dizia a mulher.
- A senhora não se meta! - Disse o profanador.
- Não me levante o tom de voz. O acusado aqui é você. Mais do que acusado, praticamente um setenciado. Espero que joguem a chave fora.
- Se for coisa de chave... - Arriscava um manifesto o síndico, senhor Nilton, para não ficar de todo calado. Havia certa reputação e valores a zelar. Também, embora conhecesse bem e até frequentasse o apartamento do réu, não queria que os demais pensassem que ele compactuasse com a prática criminosa. Isso abalaria inclusive sua posição sindical.
Enquanto o papo se estendia na espera pela polícia, o acusado calculava uma possível rota de fuga. O joelho que o atrapalhava para jogar bola fazia década agora era um problema maior, pois não teria como fugir no lento elevador, em que um cotovelo de Ana do 202 poderia impedi-lo inclusive de entrar na nave. E para descer as escadas, bom, eis o joelho canhoto problemático.
- A polícia vem em cinco minutos, meus caros. - Alertava o tratante da ligação. - Tinham mais duas ocorrências locais, mas esta, naturalmente, discorre em prioridade. - Falava muito polido e tentando transparecer a elegância que suas noitadas de bebedeira faziam desaparecer.
- Já tive um primo detido por questões assim. - Arriscava baixar-se a crista Ana do 202. Ficou com o rosto fora do alcance dos demais enquanto meditava. E acrescentou: - Nunca mais soubemos dele.
- Lembro do conflito pelos tomates. - Deixou marejar os olhos o velho Vieri, já de telefone novamente disposto ao repouso do bolso. - Coisas que nem queremos lembrar. - E ameaçou retirar da carteira a foto da falecida mulher por quem, passadas algumas latas de cerveja ou goles destilados, ele rememorava inutilmente, sem sequer obter o apoio moral dos demais inquilinos.
- O conflito dos tomates, sim... - Acrescentou Nilton, querendo demonstrar experiência com o assunto, voz ativa de síndico, ao mesmo tempo que percebia transparecer demais a idade, algo que ele tentava ocultar ao pentear os poucos fios de cabelo para o lado, na tentativa de disfarçar a crescente calvície.
Vieri, que, apesar de notoriamente mais velho, tinha mais cabelo, se encorajou a prosseguir. - Foram dias angustiantes. Nunca se perdoou aquele desperdício de safra. Muitos agricultores foram enforcados, outros tantos foram depostos de suas terras e o rigor das leis chegou a esse ponto sobre o desperdício de azeitonas. Vocês sabem, se comprou com azeitona, há de comer a azeitona.
- Há de comer - recitaram os vizinhos em coro, com exceção, é claro, do acusado.
Calculando seu tempo de fuga eram menos de dois minutos e meio, se houvesse precisão na previsão de Vieri, até os policiais, armados até os dentes, adentrarem o prédio e, amparados pelas testemunhas, como se precisassem delas para agir com violência, encarassem a situação do acusado, o botando para o chão com revólveres apontados para sua nuca, enquanto o rosto mergulharia no piso, profanando, esmagando, cheirando aquelas azeitonas esparramadas.
Pensou nas consequências de seus inegáveis atos e resolveu agir. Ignoraria a presença do Nilton e passaria por cima de todas as dificuldades, incluso do joelho que o ameaçaria tornar-se manco. Valia o risco em busca da frágil liberdade condicional - ou seja, como fugitivo.
Surpreendeu as testemunhas e saltou em desabalada carreira para vencer o pequeno corredor, deixando para trás as portas dos vizinhos em questão (menos Nilton, que morava no andar de cima), vencendo as evidentes azeitonas e ganhando rapidamente a estreiteza dos degraus, que mal cabiam seus pés, que quase não os tocavam, esvoaçante, cintilante fugitivo. A demora das reações demais se confundia entre o apavoro diante da petulância e mesmo a falta de reflexos para agir, pois se tratavam de um homem de meia, quase idoso, um idoso alcoólatra (que passara por infartos, como seguidamente recordava) e a Ana bisbilhoteira e nada atlética, que para serviços mais dinâmicos mesmo de limpeza necessitava do marido.
Os três ficaram atônitos até começarem a se mexer, quando o suspeito (na melhor das hipóteses para ele à essa altura) ganhava a primeira condicionalidade de sua liberdade, a porta do prédio, que abria tranquilamente para quem quisesse sair, mas necessitava de chave a quem quisesse voltar/entrar. Mais sorte ainda ele teve quando outra vizinha, dona Maria de Fátima, entrava também alvoroçada pelas sacolas que trazia fora de horário da farmácia. A corrida desabalada do suspeito fez com que ela tomasse também tamanho susto, jogasse parte dos conteúdos com sacola e tudo para cima e quase emulasse o senhor Vieri com seus micro infartos.
O profanador de azeitonas ganhou a rua. Ele pela primeira vez, já imaginado diante do júri (se houvesse júri), agradeceu à administração municipal pela iluminação pública deficitária, que agora lhe conferia abrigo contra os inquisidores. Enquanto corria pela rua, nem tão rápido que fosse impossível caçá-lo, nem tão lento que o joelho tenebroso estivesse em conforto, notou mais pessoas dispostas a prender o agressor da tolerância, o violador dos bons costumes. O boato, o fato se espalhava rapidamente pelos grupos virtuais. O que era fato logo era acrescido de boatos. O que era boato logo recebia colheradas do fato. A história ia e vinha, misteriosa, aguçadora da curiosidade, chamativa para que os indignados saíssem de suas casas e buscassem a justiça, nem que fosse com as próprias mãos. A polícia estava a par do caso. Duas viaturas já não eram suficiente. Melhor chama reforço para além da praia. O profanador poderia estar saindo do bairro. Situação lamentável para a pacata região, rodeada de coqueiros, palmeiras, acolhedores bancos de praça que os vizinhos utilizavam no cair das tardes para compartilhar conversas, chimarrão nos costumes do Rio Grande depositados ali, além de calçadas largas e geralmente limpas, pois na cidade se honravam as azeitonas e também o hábito de recolher o que os cuscos encerravam por digestão.
Ele foi zigazagueando muros e árvores e bancos de praça. Fugindo da luz. O gatuno fugitivo - e lembrou da risada infame do velho Vieri. O velho maldito importunara seus planos. Ele era o culpado. Ele quem jogava as azeitonas fora. Não teriam provas antigas, mas aquela evidência bastava. Testemunhas. Confissão de crime. Enquanto fugia na carreira que todavia era desabalada, o profanador pensou que poderiam pedir opinião de lixeiros e outros vizinhos e os malditos testemunhariam contra ele. Que havia algo de estranho naquela lixeira comunitária sim e só poderia ser do inquilino do 203. Que era um vizinho esquisito, de hábitos noturnos, insone, que fazia barulhos no apartamento em alguns horários inoportunos. Inoportuna era aquela situação como um todo. Não haveria necessidade de acrescer paranoia. Era concentrar-se nos planos de esconderijo. Lembrou do clássico Homem Nu de Fernando Sabino. Ele não estava fugindo nu, mas, se no conto premiado do escritor mineiro, o protagonista lutava mais contra a vergonha mor do que a condenação da Justiça, ali ele estava, não ficcionalmente, lutando pela liberdade do seu ir e vir, se a polícia repressora não desse um jeito de sumir com ele, profanador das ditas azeitonas.
Enquanto infiltrava-se astuto no mundo das severas sombras, ouvia os ruídos apetitosos dos sedentos por justiça com as próprias mãos. Deveria ser apenas delírio e paranoia que até tocha de fogo, como nos clássicos antigos filmes em preto e branco ele viu moradores carregarem. Porém o breu das ruas em que se metia era tão pesado, que ele mal enxergava 10 metros adiante e as tochas ou as mais modernas lanternas de led ou celulares viriam bem a calhar na busca, na caçada dos cidadãos.
O blasfêmio tentou um golpe de mestre após praticamente sair dos limítrofes do bairro. Fazendo um caminho inverso, mas por outras ruas, seu destino era voltar para casa, onde os cidadãos estariam ou dispersos ou já tomando remédios para dormir após tamanho infortúnio. No caso de Vieri, a pinga daria conta de romper com a disposição do vizinho de porta. O profanador perdeu a noção do tempo em que esteve fora do apartamento. A madrugada conforme se estendeu também dava traços de entrega. Os primeiros raios da manhã apareceriam tímidos.
Sem exagero, já apareciam em poste que outro, em muro que outro sua foto estampada com direito a código para acessar maiores informações do caso. A polícia, mesmo em cidade pequena, estava a toda em prontidão. O próprio acusado não recordava a última vez que algo hediondo como profanar azeitonas havia ocorrido não só naquela comunidade, mas no estado, tido como dos mais seguros do Brasil. Um crime como esse poderia, inclusive, tentar ser abafado, sumindo com o indivíduo, ocultando o corpo. A internet, nesse caso, poderia jogar a favor dele, pois o caso em poucas horas já estava registrado, porém, tão rápido como eram divulgadas, as informações também poderiam sumir e dele não se saberia mais. Pensou em familiares distantes. Será que lembrariam dele? Exigiriam investigações que não ocorreriam? Além do mais, a opinião pública pouco ligaria para um criminoso desse calibre. A maioria setenciaria que o que tivesse ocorrido foi justo e que o inferno, ou o que o valha, lhe aguardava.
Se aproximando dos fundos do prédio, faltando apenas mais um muro, tentaria ele se esconder pelos fundos da garagem até que pudesse, de repente, arrancar com o próprio carro, na distração dos que ainda rondavam por ali. Não era o melhor dos planos, ele admitia, mas o labirinto de ruas o levava para casa de volta. À chave do carro tateada no bolso, era possível, sim, interceptar o carro e tentar uma fuga motorizada. Claro que ele tentou arrombar um ou outro carro no caminho, obviamente sem sucesso pela falta de prática. Mas profanar azeitonas, blasfêmia dessa forma era bem pior.
Pulou o último dos muros que o separavam daquela aparente breve segurança. Um vão atrás da garagem, suficiente para escutar e até cuidar visualmente movimentos da garagem do prédio, que, apesar do escândalo, precisaria aparentar alguma normalidade na rotina. Se o quisessem eliminar, como poderia ser o plano, ele imaginava, não totalmente desconexo da realidade, a vizinhança teria que persegui-lo, mas sem um total de alarde - além dos nada discreto cartazes que o próprio fugitivo já havia visto. Estaria ele procurado em rodoviárias?
Enfim, saltando de volta para propriedade que englobava aquele microcosmos de condomínio, tomou um susto tão grande ou até maior do que os condôminos haviam tomado na noite anterior. Diante daquele espaço, daquele recôncavo, daquela câmara, daquele vão que talvez muitos nem sabiam existir atrás da garagem/estacionamento, ele viu o que os olhos demoraram a crer: eram sacas e mais sacas de azeitonas. Azeitonas profanadas por quem? Por seus vizinhos.
Estilo Narrativo
Percebi que meus contos têm um estilo narrativo. Bastante reflexivos no início, pouco diálogo e depois algum acontecimento só para dizer que algo ocorreu.
############################################
Nos próximos dias irei concluir alguns contos e tirar da ideia para o papel outros tantos que apenas rascunhei assunto. Achei divertidas algumas propostas que consigo recordar do que eu pretendia. Outro sobre coveiro e aventura sexual não faço ideia do que eu pretendia escrever à época, mas posso tentar reaproveitar a ideia.
Espero que não seja apenas impulso de ter bebido duas cervejas e estar escutando Fleetwood Mac (impressionante a qualidade dessa banda).
11/01/2025
No Decurso do Tempo (1976)
Direção de Wim Wenders em um filme que propõe vários assuntos, como se espera que decorram as três horas de sua duração. Um assunto só provavelmente seria esgotável em bem menos tempo. A solidão dos personagens é dividida quando um marido agora divorciado pega seu Fusca e o joga contra a água, numa frustrada tentativa suicida. O motorista Bruno, que dirige um caminhão-cinema pelas estradas alemãs, na itinerância de levar filmes e consertos a lugares mais ou menos inóspitos, observou (risonhamente) a cena do incidente dantesco e se propôs a ajudar o pobre "kamikaze", como veio a chamá-lo.
De uma parceria inesperada, o pesquisador, que se separou da mulher em Gênova, Itália, e o motorista, que morava no próprio caminhão, pegam a estrada a refletir sobre suas vidas. O título em inglês ficou como Kings of the Road, em uma tentativa, creio, de tornar a nomeação mais vendável e épica - justamente uma das principais críticas apresentadas no próprio filme, vejam só (imagens do diálogo final aqui trazidas).
Enquanto levava e consertava cinema e salas de cinema pela(s) Alemanha(s) setentista(s), Bruno analisava com os demais trabalhadores da indústria cinematográfica sobre as mudanças, o amadorismo, a falta de estrutura e o caráter do público, muitas vezes, como era comum à época, limitados a filmes pornográficos exibidos em sessões adultas. Salas de cinema caindo aos pedaços e que iam perdendo espaço para televisão - crítica comum em outros filmes, como o brasileiro Cinema Aspirinas e Urubus ou o Cine Holliúdy.
Enquanto rodavam pelas estradas alemãs, a inusitada dupla preparou algumas peças, entreteve crianças, descolou uma motocicleta como as utilizadas em tempos de guerra, e, principalmente para filosofia do filme, conheceu um outro solitário, despreparado para esse novo momento - um marido que recém havia perdido sua esposa, que consumou o suicídio com o choque do carro em alta velocidade contra uma árvore. Os três solitários chegam a dividir algumas cenas, cada qual com seus entendimentos, ruminações e perspectivas.
Bruno parecia o mais calejado, acostumado com seu estilo de vida, mas também revela em cenas suas ambiguidades e ambições. Sempre se sentia saudoso pelas mulheres, então justamente não queria pertencer a uma única. E ao mesmo tempo queria. E assim prosseguia sua vida de estrada. Robert, o suicida frustrado, aproveitou da viagem também para resolver questões passadas com seu pai, em uma nova oportunidade de colocar assuntos pendentes em dia.
As reflexões de No Decurso do Tempo são as mais diversas sobre as escolhas, em que o casamento frustrado quase causa a morte de Robert, causou outra morte por onde eles passaram e deixava sem rumo mais um marido, enquanto Bruno estava livre e preso no existencialismo de suas decisões, nowhere man. Em uma cena interessante, o motorista dos cines, após ter voltado à pequena cidade onde crescera, afirma que pela primeira vez sentia-se pertencente, com um passado, com uma história, algo para agarrar-se, onde situar-se.
Robert, por sua vez, em certo diálogo com Bruno, quando este lhe perguntou quem ele era, que isso interessava, só soube responder que ele era o que são suas histórias. E assim cada um seguia percorrendo seu caminho, construindo a história como as letras que um aluno analisado por Robert, espécie de "pediatra" (como se referiu) com pesquisas de aquisição de linguagem e escrita para crianças, como as letras construíam sua própria história conforme as linhas. No alemão é comum as vogais i - e andarem juntas. Bruno brincou que ele seria o "e" entre eles. As letras compunham histórias com personalidades distintas. O "L", segundo a criança, seria deitado e preguiçoso.
Em um universo muito mais amplo do que as 23, 26 ou sei lá quantas letras em um alfabeto, a humanidade compõe suas posições talvez como se cada pessoa fosse uma letra, não se repetindo, não se restringindo como se todos os "a" ou todos os "f" fossem iguais, mas cada pessoa uma letra em um infinito texto, de infinitas possibilidades. Mas essa analogia, embora ampla, não satisfaz, porque não estamos fixados em posições restritas. Não somos as pedras solitárias, como o "p" de pedra, desta pedra específica, ou mesmo o duvidoso "o" que forma a palavra alternativa "ou". Os seres humanos têm a possibilidade de se deslocarem no tempo-espaço, construindo suas curiosas histórias. Assuntos do filme No Decurso do Tempo.
E o cinema, como um todo, o que conta? O que mostra? O que nos entretém ou traz para reflexão? Wim Wenders fazia suas escolhas marginais.
Nota final em 4,5 / 5
Profundezas
Sou todo profundezas
Que pena
Que a sociedade me apequena
Dezenas
De verstas subterrâneas
Reações espontâneas
E verdades subcutâneas
Natureza
Profundezas
Que pena
A sociedade me obriga a ser raso
A caber em pequenos vasos
A explorar os casos sempre os mesmos
E assim ir-me sempre mais cedo
Decepcionado
Racionado, tão pouco irrigado
Desavantajado
Profundezas
Mergulho cada vez mais fundo
Bato a cabeça no que é raso
Na parede do labirinto
E a sede seduz no instinto
E a luz logo se apaga
E o preço que se paga
Pagonismo
Profundezas
Na sociedade das certezas
Dúvidas surgem sempre imundas
Queimadas já foram muitas
E muitas serão
Escuridão
08/01/2025
Reflexão após Um Dia na Rampa (1960)
Me interessa o ser humano apaixonado e verdadeiro, desnudo dos disfarces do cotidiano, em que deve fingir para proteger seu emprego, fingir para discursar vantagem, fingir para aparentar normalidade, fingir para não chamar atenção das autoridades que o podam, fingir para caminhar pela multidão, fingir para ser bem avaliado no aplicativo, fingir para vender produto, fingir que gostaria se vestir assim, fingir que assim está bom.
Me interessa o ser humano despudorado com suas verdades, com seus gostos, mesmo ridículos e considerados ruins, manifestos, me interessa suas falhas e passo a entender melhor as minhas. Me sinto menos alien, menos alienado e menos sozinho. Me interessa que suas buscas não cessem e que na outra esquina o lampião ou os mais modernos postes a led se acendam. Ou não se acendam, mas que possam se acender.
Não me interessa o fingimento dos negócios, a capa que somos obrigados a vestir quantas horas por dia, quantos dias no mês, quantos todos meses de um ano, quantos anos na vida? Não me interessa o fingimento que é ordem, que é lei, por sobre as leis de nossa natureza, capa invisível, mas que visualizo tão fácil em ti, sorriso difícil, olhos tristes e desesperançados, não me interessa o que te causa isso, me interessa tirar-te disso. Me interessa o ser humano ainda esperançoso, que chegue ao fim do dia agradecido e ao mesmo tempo esperando que na outra esquina o lampião ou o poste a led se acenda, que a colheita valha o vigor de seu esforço, que a mesa farta não seja só a obrigatoriedade da refeição. Me importa que seu sono seja sonho e que seu sonho possa ou não ser realizado, mas que a possibilidade esteja a teu alcance, que possas acreditar tatear a parede no escuro esperando encontrar o interruptor que o salve da escuridão. Ou talvez encontre a mão amiga que necessites.
Me interessa que teu céu tenha estrelas, ou quando não tenha, que saibas esperar as nuvens dissiparem, a chuva parar e que até dela tenhas colhido água. Me interessa que te hidrates e bebas e nutra teus sonhos, não demais também, que não percas contato com tão vasto solo, que nos é tanto, os japoneses creio que sabem.
Me interessa do ser humano que seja humano e não engrenagem do capitalismo ou outros achismos que comandam a vida dos outros. Me interessa que assumas um pouco o timão de teu próprio navio e ao final vejas, e talvez até compartilhes, algo que ninguém mais viu. Não o que todo mundo tenha visto - pois nem queriam ver.
############################################
Acredito que quando respeitados os desejos e o direito de sonhar do ser humano, incluso este mesmo indivíduo se sinta assim mais humano, possa ser mais bondoso e não tão automático, não tão somente concorrente contra seus semelhantes, não somente um instrumento de usufruto dos mais poderosos. Acredito que respeitado o direito ao sonho, este possa olhar com mais carinho para seus semelhantes, possa desejar que eles também sonhem e, alcançando, desejar que os demais alcancem, em uma aliança até utópica - corrente do bem.
Direção do curta: Luiz Paulino dos Santos
07/01/2025
Estado Itinerante (2016)
Análise de curtas brasileiros. Estado Itinerante é um curta brasileiro, dirigido por Ana Carolina Soares, que conta uma história de Minas Gerais. O espectador acompanha a trajetória de Vivi, uma jovem trabalhadora, que mora na periferia, provavelmente de Belo Horizonte ou de outra grande cidade da conurbação mineira.
Vivi trabalha como cobradora de ônibus e o itinerante no filme está na vida em transição da passageira. No serviço, em que recém havia começado na empresa, a chance de recomeçar, mas também passando por muitos perrengues entre queixas, fofocas, estranhamento com motorista, má conduta de passageiros e outras histórias. Apesar disso, a amizade feminina com outras trabalhadoras pode ser o caminho para superação de seus próprios dramas.
A organização do filme surpreende com cenas de reviravolta, a violência que cerca a periferia, que persegue a figura da mulher, a tentativa de imposição masculina, seja pela figura de motoristas (que não aparecem, ouvimos só as suas vozes impositivas), seja pela família de Vivi, a qual também não vemos. O relacionamento abusivo é evidente, sabe-se dele pelo depoimento da própria protagonista ao confirmar que seu anel é de casamento, e a violência doméstica deixa marcas na pele e no psicológico.
A jovem tenta se virar e ainda, através da bebida de fim de expediente, rotina comum dos assalariados brasileiros, vislumbrar alguma saída, no broto das ideias, na música, no fundo do copo, no cigarro a intervalos ou em alguém. Vivi surpreende nesses apenas 25 minutos de curta-metragem, que de fato contam muito sobre nosso Estado e a itinerância dele. A rotatividade, a busca sempre transicional pela sobrevivência, entre as fugas e as feridas, a procura por se encontrar.
Nunca é demais lembrar que são várias as Vivis (e, vá lá, os também, trabalhadores brasileiros) que necessitam de um ombro extra, a terceirização de um ombro ao fim do turno, esse direito trabalhista tantas vezes surrupiado, gente que necessita de compreensão por parte dos clientes e usuários, do comércio aos sistemas. Sairmos do automático para enxergar histórias que estão diante de nós, refletidas nas comunitárias janelas de ônibus.
Data de lançamento: 3 de setembro de 2016
Diretora: Ana Carolina Soares
Duração: 25 minutos
Produção: Denise Flores
Roteiro: Ana Carolina Soares
Elenco: Lira Ribas, Cristal Lopez, Maria Aparecida, Diane Rodrigues, Daniela Souza
-
Há dias em que naturalmente estou abatido. E há dias que naturalmente me abatem.
-
Eu tentei ficar impassível, mas não consegui. Não consegui ficar impassível às fotos das crianças desaparecidas que voltam a estampar caixas...
-
A linha tênue entre enjoar e esquecer.
-
Já não me cobro mais velocidade ou desempenho, mas os demais e a sociedade me cobram. Posso mandá-los às favas? Posso?
-
A máquina se torna humano Humano se torna máquina A máquina é programada O ser humano é descartado
-
Não se apaixonou mais, nem precisou conviver mais com desequilíbrios emocionais descabidos. Sorriu a isso. Mas meio amarelo. Meio, pela meta...
-
Consigo sentir Quintana Que não me engana Me aconselha Ou ao menos ergue a sobrancelha Consigo sentir Quintana em cada passo Que eu galgo ...
-
Cansei. E deixarei de legado muito menos do que se não tivessem me cansado.
-
Onde joga meu time estarão eu e meu futuro.
-
Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.













.jpeg)
.jpeg)

.jpeg)

.jpeg)



