Quero visitar muitas obras, mas as obras só servem para serem revisitadas.
Já cataloguei ter visto 2405 filmes.
E daí?
Um surrealismo à brasileira, cheio das cenas mais absurdas com um elenco que apenas deixa prosseguir. A história de um casamento todo desfalecido entre a esposa de irônico nome Felicidade (Norma Bengell) e seu marido Sérgio (Hugo Carvana). Após uma discussão mais acalorada, a mulher reage e mata o marido no quarto de um hotel de estrada. Ou assim o pensa. Prontamente, Felicidade foge com a filha Betinha, que rouba a cena do filme.
Betinha ganha destaque sempre pentelhando a mãe e pensando nas situações mais absurdas, embora, também com um senso prático, demonstra vivacidade e instinto de sobrevivência. Ela percebe a perseguição de um carro atrás do delas na estrada, numa fuga do Rio de Janeiro a São Paulo (ou de São Paulo, onde moram, ao Rio de Janeiro, não recordo).
A perseguição se acentua até que o perseguidor percebe no posto de gasolina uma oportunidade para galantear Felicidade e oferecer-lhes ajuda. Sérgio era um empresário importante, réu confesso de passar gente para trás, segundo o próprio testemunho de Felicidade. Críticas pontuais a modelos econômicos, por que não? A um machista Sérgio de casamento infeliz, pai de família mais importado com a ideia de aplicar golpes financeiros para prosperar às custas dos outros. Desconfiado por natureza a ponto de contratar funcionário para que, por sequência e tabela, vigie a esposa. Este é Sérgio, que pouco vemos e só ao início da trama.
O ponto máximo do filme é quando recostam-se a uma cidadezinha de arquitetura tipicamente do barroco à brasileira, algo sudestino em direção ao Nordeste, de aspecto Minas Gerais, interior do Rio de Janeiro e não nos surpreenderia perdida ali se fosse uma Bahia. Lá o trio, entre as duas perseguidos e o funcionário perseguidor, choca-se com um excêntrico casal, de hábitos e costumes deslocados da realidade, sendo ele um dentista, de pouca comunicação e combinação com sua esposa. Servem-se a bom tom de uma hospitalidade enquanto a tensão segue crescente de qual será o destino para Felicidade e a espoleta Betinha.
Mar de Rosas colhe de grandes aspectos surrealistas, entregando um produto bastante peculiar, em que podemos ver traços de bons diretores europeus, como Buñuel, ao passo que só no Brasil transcorrem determinadas cenas. De 1977 para a atualidade de quem quiser conferir, sempre contextualizando as dificuldades de propor certas críticas em plena ditadura militar brasileira. Direção da detalhista Ana Carolina.
De Cierta Manera é um filme cubano que já inicia polêmico por sua data. Gravado substancialmente em 1974, foi concluído apenas em 1977. Direção da cubana Sara Gómez. O filme é centrado em relações conflituosas. São ramificações de um mesmo tema, de uma mesma problemática: as relações.
A relação central entre a professora e o operário após a revolução de Cuba em 1959. O país está mudando, as pessoas estão mudando, as pessoas estão mudando o país. O casal formado por Mario e Yolanda vive conflitos, nas diferenças de linguagem e de visões de mundo.
Mas todo o filme é uma mescla, uma sobreposição de relações. A relação dos homens com o país. A relação dos homens com os demais homens, seus companheiros, sua forma de agir, de parecer e de aparecer. A relação entre o casal, já mencionado. A relação entre Mario e seu pai, um dos membros do conselho local. A relação entre a professora e os estudantes, nessa nova etapa de Cuba, que tenta lançar a Educação como pedra principal da transformação do país. A relação entre as professoras no método de alfabetização e de ensino. A relação entre a professora Yolanda e as mães trabalhadoras, em que é difícil que se entendam, em funções tão divergentes. Uma das mães com 11 filhos, tendo que trabalhar até tarde e não conseguindo auxiliar na educação de suas crianças. Ela é cobrada por Yolanda e rebate a acusação.
O filme mostra as problemáticas relações de um país em tremenda mudança, em ebulição. Cada um ainda tentando entender seu papel no mundo, seu papel na sociedade, seu papel nesses conflitos vigentes. Mario se cobra que, para fazer sua parte dentro do papel da revolução, para cumprir as metas propostas, teve que denunciar a um companheiro, amigo seu. Ele fica lamuriando a questão enquanto Yolanda e outros companheiros lhe dão razão. O conflito é estendido em discussão entre os demais, muitos apoiando que são necessárias atitudes para cumprir as metas propostas pelo novo governo. O filme termina em uma conversa entre os personagens principais, que vão se afastando no plano da câmera, esta captando as mudanças estruturais, imagens reais que permeiam o filme, em uma mescla de ficção, neste drama, com o biográfico e o documental.
De Cierta Manera, expressão que demonstra dúvida, hesitação, perspesctiva, permeia esses conflitos e mostra como as coisas podem ser vistas de pontos divergentes. Uma Cuba que assegurava uma mudança significativa para as próximas décadas. Um filme que tem um importante valor documental para que não se deixe escapar que toda mudança brusca é sim bastante polêmica, transformadora e a luz não vira escuridão, a noite não vira dia de uma hora para outra. A bruma estará presente, os raios de sol que despertam o dia ou tingem a obsuridade da noite são graduais e conflituosos. De Certa Maneira é sobre isso.
| Casal Yolanda e Mario, em discussão pelas ruas de Havana |
É importante ressaltar que, com a Revolução em 1959, muitas pessoas foram readequadas de espaços urbanos. Prédios históricos eram demolidos em razão de que a considerada marginalidade ali prosperava. Novas habitações eram providenciadas pelo governo, em novos prédios ou bairros planejados, também procurando diminuir o volume desproporcional e preocupante das favelas. A relação das pessoas com seus novos bairros, serviços e vizinhos obviamente contribui para essa panela fervente entre sangues africano, europeu e latino.
Touki Bouki foi apresentado recentemente por este escriba. Um filme que se passa em Senegal, retratando um jovem casal que sonha em deixar o país e suas mazelas, para uma vida melhor na Europa, desejando Paris. Em Vidas Secas, aqui se tratando do filme de 1963, com direção de Nelson Pereira dos Santos, inspirado diretamente na obra Vidas Secas, do escritor Graciliano Ramos, o casal também almeja uma vida melhor, tentando fugir dos rincões mais escassos de despovoado Nordeste.
Enquanto o casal em Touki Bouki - A Viagem da Hiena - é mais jovem, sem filhos e, portanto, com menos compromisso, os nordestinos brasileiros carregam consigo duas crianças, sendo dois meninos, e mais o cachorro da família, ironicamente chamado de Baleia, visto que a comida geralmente era escassa para todos os envolvidos.
No filme senegalês outrora apresentado, o casal discute seus sonhos à beira do mar, sonhando com outro continente. Estão dispostos a viver à margem da lei, aplicando golpes seja em quem for: autoridades, pessoas ricas ou mesmo artistas de rua. Como fuga, possuem uma motocicleta adaptada em que se destaca um dos símbolos máximos do filme: o crânio de boi - visto que são feitas várias metáforas entre a vida de gado dos humanos senegaleses e a vida dos bichos sendo ancorados rumo aos abatedouros.
O casal brasileiro, Fabiano e Sinha Vitória, procuram viver dentro do que é possível nas agrestes terras. Eles conseguem um lar temporário, mas precisam trabalhar para o dono das secas pastagens, mais um jagunço que tenta passá-los para trás, depositando menos dinheiro do que o prometido, com a desculpa de que estão descontados os juros pelo 'empréstimo' de ter onde morar. Além do mais, Fabiano é analfabeto, jamais frequentou a escola, cena evidente quando defronta-se com o patrão, alegando que o dinheiro está a menos. O patrão mantém sua posição inflexível, reiterando que a soma está correta. Fabiano abaixa a cabeça, pede perdão e lamenta que a esposa, espécie de financeira da dupla, tenha feito conta que não devia. "Não é necessário barulho", se desculpa o peão vaqueiro.
Ainda dentro das regras de injusto jogo, o casal não consegue vender sua pouca produção de carne animal sem escapar de rigorosos impostos cobrados por prefeitura de pequena cidade - concentração de casas e gente. Fabiano é perseguido pelas autoridades, pois um metido oficial se envolve com a vida do vaqueiro, lamentando que ele tenha pulado fora em um jogo de cartas em que eram dupla. Assim, Fabiano perde o dinheiro, que a mulher acredita tenha sido desperdiçado em apostas, sem saber das injustiças que sofria com as corruputas autoridades locais. O jagunço sofre chibatadas, é vítima do abuso policial.
Na história senegalesa, a dupla vai conseguindo conquistar seus objetivos, almejando algo maior do que o Senegal recém independente após século de colonização francesa sobre aquelas africanas terras. Enquando Vidas Secas é rodado em uma espécie de conto cíclico, em que trilha sonora e paisagens iniciais e finais do filme se misturam, existe alguma perspectiva a mais na surrealista França imaginada pela jovem chamada Anta, no filme de África. Entretanto, o cíclico também está presente em Touki Bouki, pois o jovem Mori é vítima da vida emboscada em que são cercados os bois rumo ao matadouro.
Os bois. São figuras traçadas em ambos os filmes. As terras secas, o trabalho repetitivo e atencioso dos grosseiros vaqueiros em ambos os continentes. Semelhanças que aproximam um Brasil e um Senegal rurais, em épocas parecidas, sendo os filmes rodados com distância de exata década, o brasileiro em 1963, o senegalês lançado em 1973.
Em comparação, para finalizar breve análise, os pôsteres dos filmes em que as duplas protagonistas se destacam contra paisagem seca.
Era um show de rock, mas eu não havia definido ainda se tratava-se de um teatro, do ginásio Gigantinho ou outra acomodação. Fato é que a plateia se desenhava abaixo de uma espécie de mesanino (palavra a qual detesto) sobre o qual estávamos. O mesanino, na verdade, era um bar totalmente decadente, com um atendimento lixo, com um suposto dono da espelunca em aspecto carrancudo, ao mesmo tempo que pouquíssimo interessado nos acontecimentos que o rodeavam. Tão pouco se importou que os simulacros de brigas que ocorriam eram ignorados. Eu lembro de discutir com ela ou por causa dela, e assim arremessei meus óculos no chão, pela primeira vez, nesses três anos, destruídos, com um rompimento impossível de encaixar na lente.
Os óculos dispensados ao solo seriam somente meu primeiro problema naquela noite maluca. Meus familiares também se desenharam por ali, de uma forma bastante surpresa fiquei, porque não era costume deles aparecerem em qualquer evento noturno, naquela espécie de casa noturna recebendo um show uruguaio de rock, em que eu imaginei primeiro Cuarteto de Nos, mas descobri tratar-se de Attaque 77. Meu primeiro seguidor desconhecido em internet, ao menos na rede social que mais usei nessa vida, Diego Antônio - ou Diego Lokura - estava lá para setenciar que, sim, tratava-se da banda argentina Attaque 77, da qual ele era exímio fã. Éramos minoria naquela noite, pois os torcedores de bandeiras e camisas vermelhas estavam abaixo do pobre mesanino. As tribunas não estavam cheias, evidenciando um insucesso nas vendas ou divulgações, ou vendas e divulgações. Um show em casa noturna incompleta, com espaços para assistir, com bandeiras em vermelho e branco que tremulavam, tremulavam, e eu brinquei que levaria algumas daquelas para o maior colorado do mundo, o Hercílio Luz da cidade de Tubarão, cidade de meu pai.
Eu, bêbado, gritava impropérios que logo causariam algum simulacro de briga. Gritava que nunca havia visto tantos torcedores da Croácia ou do Hercílio Luz. Só faltou citar o Náutico para provocar ainda mais o pobre lado vermelho porto-alegrense. Cruzei com algumas figuras, pois lá estava o Lucas Pacheco, hoje dentista, com a mesma cara de quando o conheci na escola e um relógio de pulso que deveria custar mais do que meus futuros salários. Qual não foi minha surpresa quando pintou o aparecimento de meu colega Matheus, que havia sido agredido com um chute. Isto foi o que ele contou enquanto mancava. Eu pensei que tratava-se de uma brincadeira, ele praticamente imitando o mascote deles, um saci. Mas baixou um pouco a lateral de sua calça para constatar um tremendo roxão no quadril, algo que recorria a urgência da procura de um hospital na equipada capital gaúcha. Ofereci ajuda nos cuidados, o que ele negou e logo prosseguiu sabe-se lá para onde. Nisso tudo, eu precisava carregar a bateria do meu celular naquela casa noturna putrefata. Novamente surpreendido eu fui, pois haviam muitas tomadas, nos mais diversos formatos e posições daquelas paredes mal pintadas. Tentei plugar o aparelho com meu carregador desmanchando-se, o que em realidade assim está, bem ocorre, tive insucesso nas primeiras tentativas, mas logo consegui uma posição exata e delicada em que a barra de bateria poderia subir para meus gracejos.
Deixei o celular ali depositado sobre uma cadeira no canto do bar improvisado sobre o putrefato mesanino. Continuava a checar o movimento, sem prestar atenção se o esperado show havia começado, ou, se já começado, prosseguia, sem reparar mais na quantidade de camisas coloradas, muito menos nas bandeiras. O mesanino parecia uma espécie de mundo à parte, um espelho da desgraça, independente do que ocorreria no palco. As mesas eram poucas, os móveis velhos, sujos ou estragados. O horário da noite avançava sem maiores incidentes, quando eu percebi que amanhecia e precisava dar o fora dali, sem perder o que fosse: a carona da minha família ou o ônibus de excursão.
Percebi que meu celular faltava, pois havia só a cadeira branca, de madeira mal pintada, e, sobre ela, o velho carregador em frangalhos. Onde estaria o aparelho? Surgia assim meu segundo grande problema, o terceiro, se contar o coitado que levou o suposto chute que lhe causou tremendo roxão. Recolhi o carregador branco que tinha certeza ser o meu, sem nem pista do aparelho que alguém, naquela espelunca, havia roubado, obviamente sem sinal do enxugador de pratos ter presenciado o ato. Sem óculos, sem celular me dirigia para o lado de fora, quando avistei um casal que achei ser o de meus colegas de jornalismo, Wagner e Vitória, belos nomes quando posicionados juntos, diga-se de passagem. Comentei com uma terceira pessoa que achava que se tratava do Wagner, mas que na verdade era até uma mulher quem acompanhava a suposta Vitória. Erro meu.
Ao mesmo tempo reacendia a dúvida de que eram Wagner e Vitória lado a lado na porta de saída, pois Larissa, também do jornalismo, me puxou de vez para fora do estabelecimento, para uma noite que virava dia. As pessoas dispersavam-se em seus rumos, trôpegos bêbados, alguns motoristas, intactos ou não, eu ainda em busca de encontrar minha família ou o coletivo que me trouxera, eu pouco sabendo como. Larissa queria me mostrar seu filho pequeno, que brincava inocentemente na rua, alheio ao desconvidativo horário e a todos os demais acontecimentos.
Cheguei sim a reconectar-me com minha família, mesmo sem o melhor dos sentidos da visão na ausência de meus óculos, aproveitando o novo dia que raiava, feliz por encontrar meus pais. Mas logo os perdi novamente de vista, com o agravante de agora não contar mais com o celular para comunicações. Meu pai não sabe usar o whatsapp, minha mãe sabe, mas eu precisaria do quê? Pedir algum aparelho emprestado, encontrar o mito do orelhão de rua? De um posto de gasolina eles partiram sem mim, ou seria que em um posto desses me esperariam? Fato é que não encontrava mais o tal posto. Encontrei postos abandonados, casas abandonadas, todo o panorama de bairros pobres e sem-teto nos Estados Unidos, seja em Detroit, Cleveland, Baltimore, Nova Orleans ou algum recanto da Califórnia. Eram rincões do mundo ou da própria Porto Alegre que eu não conhecia. Nem seguidores perdidos da internet, nem ex-colegas de jornalismo, nem amigos agraciados com chutes, ninguém mais me libertava desse labirinto enquanto o dia, veloz, caminhava para novo anoitecer.
Demência (1986), de Carlos Reichenbach, conta a história de um empresário do ramo de cigarros que está falindo economicamente e na condição de pai e marido. Assim, alucina situações das mais esdrúxulas, num surrealismo à brasileira.
Para época, mescla elementos que comparam Reichenbach a diretores mundialmente famosos, como o espanhol Luis Bunuel, ou o norte-americano David Lynch. O diretor brasileiro utiliza de imagens urbanas da metrópole São Paulo, pano de fundo das desventuras do protagonista. A articulação ocorre com o mitológico Fausto, do escritor alemão Goethe. O diabo se transfigura em diferentes encontros durante as paranoias do empresário paulista.
O filme transpassa por temas mais ou menos sutis no que se refere à política, às críticas ao capitalismo, mas também chega a debochar de uma visão que colocaria todo o bandido na condição de vítima da sociedade, conforme a cena em que uma prostituta aplicaria um golpe no protagonista e, numa reviravolta, ele assume o controle da situação, com o poder de sua arma contra a dupla de capangas que lhe passaria a perna.
No filme estão figuras excêntricas, marginais, prostitutas, amante, malandro aplicador de golpes, criminosos organizados, mas também oficiais, demais empresários sabotadores, jovens e velhas à espera de carona. Os mais diversos tipos de diabos travestidos no caminho do alucinado empresário da maior cidade do país. O filme mescla gêneros, pelo drama de elementos realistas, pela comédia também patrocinada pelo surrealismo, o suspense de até onde renderia a empreitada desvairada do ator principal, até o gênero road, quando, após peripécias, procura fugir das autoridades em escapada pelo interior.
Carlos Reichenbach consegue uma obra de média geral 4,1 no site brasileiro Filmow, para qual desprendo a quantia significativa de quatro estrelas.
⭐⭐⭐⭐
"Havia um tempo em que eu não sabia se era feliz ou infeliz. Sinto falta dele."
"... disfarçava suas falhas por trás das pretensões artísticas"
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| Paisagens belgas bem representadas em L'hiver (1969) |
O filme L'hiver (1969) do diretor nascido na Tunísia e com considerada curta carreira em França, Marcel Hanoun, retrata um casal, uma atriz desistente e um diretor frustrado. Eles estão na Bélgica na tentativa da gravação de um documentário. Além das conversas mais ou menos vagas, mais ou menos filosóficas, mais oh menos nostálgicas dos protagonistas, Sophie também troca ideias com o amigo do casal, o cinegrafista, que completa o enxuto elenco da trama experimental, que mescla imagens de Bruxelas, suas pontes, seus prédios, suas águas e um pouco de seu povo, com as incursões frustradas dos profissionais na corda bamba do fracasso.
A película mostra um pouco do cinema francês da época, com cortes de imagens reflexivas, colocações mais ou menos sutis para maiores significados. Interpreto algumas passagens, como por exemplo a adição de uma música despretensiosa, desconexa, como trilha para ambientar a falta de entrosamento do casal. Ela que decidiu seguir passos da carreira do diretor, ele que a nem escala para seus projetos de difíceis conclusões. Ela que caminha em busca de respostas, gastando sapatos sobre as seculares pedras calçadas da capital belga. Ela italiana, de Veneza, que revela nem ao menos conhecer Florença, possível destino prosseguinte deles.
O diretor insatisfeito com as realizações de seu trabalho, infeliz também no casamento mantido a persistências de uma época em que ainda havia a manutenção maior de matrimônios (em relação a hoje) enquanto já se aumentavam as hipóteses/possibilidades de divórcio.
O filme demora a engrenar, não transmite tantos elementos para uma narrativa de sequência de cenas, então pode ser proveitoso para observação de quadros, cenas, escolhas sentimentais, mescla com a arte que aparece em quadros de pinturas, exploração do espaço urbano, preenchimento de vazios, elementos cinematográficos- como o diretor pensando em sua obra-, além de questões comuns a casais de quaisquer épocas, em diálogos nos quais tentam novamente nortearem-se, seja dentro da relação ou em suas vidas, em geral. Para onde irão depois disso?
Minha avaliação foi constituída em quatro estrelas das cinco possíveis
⭐⭐⭐⭐
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| Casal distanciado é protagonista na trama do tunisiano Hanoun |
Marcel Hanoun foi autor de poucos filmes, mas produziu na cinematografia com as estações do ano, das quais já assisti o filme sobre o Verão, em que uma jovem vai para uma casa de campo e reflete sobre seu tempo na cidade, seu relacionamento e a política através das manifestações de maio de 1968 na França. Pretendo assistir ainda às estações faltantes, Outono e Primavera.
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Meu pai conhecia desde sua infância, nos velhos muros que, contrariando lógicas e passadas enchentes, mantém-se de pé. Vermelho e branco, perdoem-me, sempre foram cores que desprezei pela minha criação no Rio Grande do Sul. Nunca me imaginei torcendo efusivamente por um colorado. Perdoem-me, em especial, os monogâmicos do futebol que não entendem minha paixão por mais de um clube. Elas se complementam em ser quem eu sou. Afetado por uma cidade decadente após a grande enchente de 1974, o Hercílio Luz, bicampeão catarinense em 1957 e 1958, ainda assistiu ao então rival, Ferroviário, completar a trinca de títulos da cidade em 1970, ano especial em que o tri também veio para a seleção brasileira na Copa do México, no esquadrão de Clodoaldo, Gerson, Tostão, Jairzinho e Pelé. Em Tubarão, a enchente de 1974 destruiu casas e sonhos, causou mortes que desfalcaram uma ou mais gerações em diversas famílias. Com as benções sabe-se lá de onde, minha família passou intacta nessa tragédia. Já desfalcada de outras causas mais ou menos naturais, eu com metade dos meus originais tios, volto ao encontro de minha própria história familiar ao retornar para Santa Catarina ao final de 2021. Apenas tinha passado poucos dias em férias em cada ocasião a que vinha ao estado vizinho ao norte, mas, ao passo em que meus pais adquiriram posse no litoral do estado, posso experimentar uma vivência mais robusta, uma estadia mais longa. E aí surgiu a retomada desse amor perdido de meu pai, que durou de sua juventude até o começo da década de 1980, quando conheceu minha mãe ainda em Tubarão e logo passaram a morar em Pelotas, isto, mais ou menos, por 1987. Minha irmã e eu nascemos no extremo sul brasileiro, a pouco mais de hora da fronteira com o Uruguai, embora a influência charrua seja tão pouca por aquelas bandas, talvez no hábito do chimarrão e em poucos termos que ainda não configuram nossa linguagem como um portunhol mais escutado nas verdadeiras linhas imaginárias fronteiriças.
O Hercílio Luz Futebol Clube carrega vários vice-campeonatos, entre eles, o de segundo clube mais antigo do estado de Santa Catarina em atividade, perdendo a liderança que detinha para o retornável Carlos Renaux. Leão do Sul, como é conhecido o nosso Hercílio, acumula dois vice-campeonatos recentes na Copa Santa Catarina, além de três vices da segunda divisão catarinense. O Marcílio Dias, nome parecido com o qual muitos confundem Leão e Marinheiro, por exemplo, tem apenas um título de primeira divisão em SC, mas possui taças da segunda divisão, inclusive a taça da última Copa Santa Catarina, vencida exatamente sobre o Hercílio de Raul Cabral.
Raul é um personagem central nessa retomada do Hercílio Futebol Clube. Residente da região, assumiu o clube em 2021 e, até a escrita dessas humildes linhas, acumula 27 vitórias, 16 empates e 13 derrotas, um aproveitamento de dois por um em vitórias-derrotas, como podem ver, feito grande para um clube emergente do interior brasileiro.
A cidade de Tubarão comporta uma população pouco maior de 110 mil pessoas, podendo evoluir, talvez para 120 ou mais ao longo desta década. É uma cidade relativamente pequena para a busca, o sonho, o almejo de um futebol nacional. O Hercílio Luz em seu retorno profissional de 2008 para 2009, pela primeira vez reescalou um calendário brasileiro, com a Série D do presente 2023. E tem a vaga em garantia para disputa-la, caso não suba (e as probabilidades obviamente, em um campeonato em que de 64, apenas 4 conquistam o acesso, jogam contra), para o ano seguinte de 2024.
Além dos tubaronenses, que ainda se dividem, erroneamente ao meu ver, entre Hercílio Luz, vermelho e branco, e Tubarão, tricolor que tenta retomar um relâmpago tempo glório em que disputou o nacional e a Copa do Brasil antes da pandemia, mas atualmente está na vexatória terceira divisão catarinense, o público hercilista consiste em lagunenses, imbitubenses e demais moradores das áreas que pertenciam a Tubarão, como Capivari de Baixo. Assim as arquibancadas costumam-se povoar em pouco mais de dois mil torcedores por jogo no Catarinense - após duas grandes campanhas - em que caiu nas quartas de final em 2022 e nas semifinais para o campeão Criciúma, por conta de um gol - e controvérsias de arbitragem - em 2023. Na Série D, o público está mais baixo, a trancos e barrancos superando a barra de mil torcedores por partida, número que precisa ser ampliado nas rodadas decisivas aos fins de semana, não mais nas esvaziadas quartas-feiras à noite de um vindouro e desconvidativo inverno. É necessário novamente dobrar a meta, chegar aos dois mil torcedores e assim buscar a faixa de três mil em possíveis decisivos mata-matas. Orai por nós.
Imaginava um texto mais romântico e me restringi a muitos dados. É verdade que o sentimento nas arquibancadas antigas do Leão do Sul, que chegou a fechar durante vários anos, que retomou como Tubarão nos anos 1990 e durou até haver criação da startup do novo Tubarão, esse projeto que decolou e implodiu e tenta, teimosamente, decolar de novo, enquanto o Hercílio retomou profissionalmente em 2009, acendendo em mim, por agora, um sentimento novo, em vários um sentimento antigo. Por isso novamente peço as mais valorosas excusas aos rabugentos monogâmicos do futebol, que amam somente um clube, sofrem só por ele, em algum domingo que talvez se repita no seguinte. Eu peço a licença para declarar-me aqui ainda a Botafogos, Liverpools, e obviamente ao Grêmio. Mas o Hercílio em questão me aproximou de meu pai, que eu havia, silenciosamente, distanciado nos últimos tempos, em relutantes batalhas de humor e afastamento de quem tem por objetivos de vida escolhas diferentes, principalmente às habilidades e escolhas profissionais. Meu pai que muitas vezes não me entende, eu que muitas vezes não entendo meu pai, jovens como eu que cada vez mais, no avançar dos anos, passam a entender um pouco mais de seus antecessores na indústria da vida.
Nunca terei a resposta precisa do que meu pai sentiu ao retornar ao estádio Aníbal Costa tantos anos após sua juventude, tanto tempo depois daquele garoto de família humilde que pulava muros com os irmãos e/ou amigos, para ver minutos finais de partidas, driblar seguranças, quebrar guarda-chuvas aos gols perdidos, comemorar a braços e gritos os gols marcados, lamentando derrotas nos eternos clássicos diante dos mais bem afortunados criciumenses, sonhando em medir forças com os de Florianópolis ou os de Joinville - e hoje conseguindo contra os da capital e até ultrapassando o JEC do norte do estado. Tento imaginar aquele garoto que ele ainda conserva guardado em alguma parte do corpo ou da mente, que se confunde, eterno confuso, em lembranças difusas, em histórias que se repetem ou se embaralham em suas ideias ou problematicamente fonéticas elaborações. Meu pai que se enrola para contar, que busca pescar da memória e apresenta o mesmo insucesso de quando tentava pescar nas praias.
Por isso acredito que muito dificilmente terei a resposta do que passa por sua mente em reintegrar uma comunidade que ele havia deixado e hoje volta muito em minha insistência. Eu hoje pertenço a ela, através de já idos oito jogos, com seis vitórias, dois empates, uma invencibilidade e muitos sentimentos. Também, a exemplo de meu pai, os apresento confusos, confessando que, antes de iniciada esta jornada em escrita, imaginava ter mais bem definidos os sentimentos que passaria, tentando transcrever nessas linhas.
A verdade é que muitos torcedores, quando questionados o porquê de escolherem - ou serem escolhidos, vamos, Botafogo - tal clube de futebol, talvez não tenham essa resposta. Alguns culpam seus pais, outros foram para arquibancada ainda crianças com tios, amigos e aí deslubraram esse mundo de mais derrotas do que vitórias, ao menos sentimentalmente, porque, afinal de contas, ao final dos campeonatos, apenas um time é campeão e todos os demais não, por mais que se comemorem vagas em diferenciados sabores. Outros se descobrem mais velhos, como é meu caso, com, não é negada a influência de meu pai, mas também um sentimento familiar que se amplia, sabendo que meus tios, que posso visitar nas idas a Tubarão, também desejam o sucesso desse bravo e valente Leão do Sul.
Tenho um sentimento exatamente muito familiar ao passar pelas ruas do Aníbal Costa, um bairro ainda central de Tubarão, em ruas que me soam agradáveis com seus chalés antigos reformados, casas mais abastadas, calçadas que variam, ruas em paralelepípedos que também me recordam do interior gaúcho, até a avenida do estádio, que está localizado a uma quadra do colégio onde meu pai revela ter estudado. Um bar raiz na esquina, convidativo, em madeira. Um prédio de apartamentos em frente ao estádio, lugar propício para algum torcedor adquirir a sacada de frente para ver jogos sem pagar ingresso. A bilheteria de pouco movimento, com raras exceções, as camisas em vermelho e branco, a bateria da torcida organizada Império Vermelho. A contradição do nome império, mas vermelho, o que pode agradar e desagradar a todos. O povo que adentra conosco, negros, baianos, sergipanos, como já conhecemos, lagunenses, também imbitubenses e, é claro, os tubaronenses em maioria. Um maluco que cobra os assistentes de arbitragem na tela do estádio, eu que reclamo da demora da cera dos goleiros adversários, tento condicionar o árbitro no grito quando acredito ser falta, cobro, peço, imploro por cartões amarelos ao adversário, por acréscimo ao final se precisamos do gol. Gasto minha voz como obrigação e devoção de onde estou. Quero a vitória sempre, sabendo que em casa ela é imprescindível, necessária e a sequência atual oferece gulosos 25 jogos de invencibilidade no Aníbal Costa, como pude comemorar algumas vezes.
Vencemos a Chapecoense duas vezes, o Avaí uma vez, o campeão Brusque uma vez, empate com o Figueirense, empate com o Caxias, vitória sobre o Camboriú e sobre o Brasil. Golaços de fora da área, gols trabalhados em toque de bola sobre um gramado em bom estado, embora manchado, arrancando gritos da torcida, que acompanha, nas melhores horas, a bateria contagiante da Império Vermelho, incansáveis em busca do ritmo, da ajuda que os jogadores tanto tem reconhecido. É uma torcida ainda pequena, mas muito fiel, uma organizada que incentiva durante os 90 minutos, como pode ser até raro pelo território brasileiro. A bateria não para, a cantoria às vezes quase emudece, mas sempre algumas gargantas a mantém incendiada para o mínimo que se espera de uma torcida no estádio. Os demais seguem nas palmas, cantam as músicas de menos letra Hercílio oleoleole, Leão eô, Leão eô, HER-CIII-LIOOOOO O OOOO O OOOO HER-CIII-LIOOOO
Gosto do comportamento das torcidas barras bravas que nunca param de cantar e posso afirmar que o Império, embora em poucos membros, mantém o samba animado ao longo dos 90 minutos, mesmo que demais, mais corneteiros desanimem. E entendo até os desanimados, porque eu mesmo sou um que no íntimo, que às vezes repasso, desisto que saia um gol nosso, mas o time de Raul Cabral tem nos dado motivos para acreditar e voltar viagens a Imbituba felizes. Procuro orientar nossos atacantes para optarem pelo melhor caminho, cobro que o meio campo, que tem deixado a desejar, se movimente mais, varie as jogadas e assim o caminho das vitórias tem aparecido, obviamente não por intermédio meu, mas me sinto parte da comunidade de camisas vermelho e branca. Também me questiono como pode a camisa do Internacional, a do Náutico podem me desagradar tanto e a do Hercílio me orgulhar, me cair tão bem. As listras, o símbolo arredondado, as iniciais que tanto amo ver nos nomes meu e de Larissa, pela ordem das iniciais do clube.
As camisas de outro clube que expõem uma comunidade bastante ampla, pois já vi camisas, durante o Campeonato Catarinense, de todos os considerados 12 maiores clubes brasileiros. Você está fora aqui, Athletico Paranaense, por mais que tenha feito resultados em campo que o valham citação. A preferência pelos clubes cariocas é evidente, mas os demais paulistas também botam a cara. Creio que vi algum atleticano, mas cruzeirense agora não confirmo, então talvez possam deletar o depoimento deste parágrafo. Fato é que o Hercílio Luz se mostra bastante querido pelos torcedores de diversos clubes, daqueles que se aventuram em buscar os maiores títulos do país e da América do Sul. Dentro do Aníbal Costa, todos hercilistas em busca do mesmo objetivo, seja uma retomada épica às glórias antigas do Catarinense ou uma escalada nacional não antes vista na Tubarão de seus hoje pouco mais de 110 mil habitantes. A base do clube também tem feito bonito, disputando competições pelo Sul brasileiro e também fez boa campanha na última Copa São Paulo de Juniores, quando adentrou o universo dos 32 melhores clubes do país em categoria de base. Se foi apenas uma exceção dentro da competição, descobriremos, mas estes dias os guris conseguiram bater o forte Figueirense, mais uma vez. Tomara consigam novos triunfos e formar alguns atletas nos próximos anos. Não sejamos escravos do careca, quase aposentado, Renan Bressan, meio-campista de relevância a nível nacional, com passagem pela vizinha Criciúma, por Paraná Clube e outros.
Arremato o texto então nesse tom de breve despedida, em mais uma volta a Pelotas, que seguirei torcendo para o Leão do Sul na caminhada da Série D, mesmo estando distante. Procurando no rádio e nas imagens via internet, lejos do Aníbal Torres Costa. Espero que meu pai possa ir a mais jogos, embora ele não se encoraje muito de sair da cidade litorânea rumo a Tubarão, apesar da boa estrada e da oportunidade sempre bem-vinda de visitar seus remanescentes irmãos e talvez alguns sobrinhos. Espero que o Hercílio mantenha a chama do futebol acesa sobre Tubarão, uma cidade que tenta retomar seu espaço no mapa catarinense e também entre as maiores do Sul brasileiro. Um percurso árduo, mas que muito felicita ser cursado. Refletores que se acendem e se apagam. Um amor de verão chamado Hercílio Luz, que vem sendo mantido, abandonado agora nas escadarias frias do inverno, mas para logo ser reanimado. A camisa pode ir por cima da jaqueta ou direto na pele. Tubarão é boa no inverno, quando o frio teima em não baixar dos 10 graus, mas é escaldante no verão, que quase me derrubou em desmaio justo no melhor jogo, naqueles 3x0 sobre a Chapecoense. Espero ver mais senhores sonhadores, crianças em seus primeiros passos, mulheres que tomam cada vez mais gosto pelo futebol. Que as ideias ousadas de destrinchar um caminho tão estreito e íngreme não se percam nas tão comuns vias da vaidade no futebol, no desmanche, na incompetência e na falta de planejamento coerente. Sonhar sempre, com trabalho pela frente, para que mais pessoas possam construir suas histórias ou reencontrar aquelas em que a família já havia aberto percurso.
Acho que obedeço demais
A régua das morais e dos bons costumes
Como um peixe que nada livre
Ainda dentro do cardume
Acho que às vezes fujo
Cuja fuga reconheço
E retorno réu culpado
Pro lugar que me é berço
Acho que brasileiro é bicho triste
Europeu é pra pendurar em cabide
Do velho continente vem enfermiço
Pra nessas terras sem permisso
A mexer no que não é dele
Acho que misturo assuntos
Elogios com insultos
Companhias, oleodutos
E termino sempre mudo
Você sonha com um fim dramático
Um grande fim
Mas na verdade amanhã segue crescendo o capim
Você sonha com um fim dramático
Um grande fim
Mas na verdade amanhã ninguém cuidará do jardim
Um fim hemorrágico
Logo estancado; erradicado
Um fim trágico
Logo não mais lembrado
Um fim elaborado é igual
A um fim pelo acaso
Em todo caso
É um fim
Eu preciso marcar a consulta
Eu preciso de remédio
Eu preciso levar uma vida adulta
Eu preciso ser levado a sério
Preciso pagar pra não levar multa
E ser pago pra comprar remédio
Preciso de alguém que me escuta
Eu preciso me levar a sério
Preciso de alguém que não me refuta
Mas de alguém que dê acréscimo
Não me sentir só dentro dessa luta
Elevador ao quinto dos infernos
Idealismo fica no 'Eu Preciso'
Olho em volta, não vejo remédio
Comecei versos com 'Eu Preciso'
E nesse aqui 'Eu Preciso' é o término
O universo é confuso
Eu preciso terminar o verso
Tudo é caótico, a ótica se engana, mas serve... Acredito que hoje sou um dos maiores autores vivos do Rio Grande do Sul... Os que a gente estuda em literatura não oferecem tanto a mais do que eu... São vírgulas, migalhas, medalhas e anos de diferença.... Existe a crença... E existe a ilusão... Quando trago a ilusão e trago, e ninguém mais acredita em mim... Enfim...
Ela também me destruiu mas nem percebe
O herói anda cabisbaixo, vai e bebe
É a plebe
É a plebe
Pensando em um programa radiofônico, televisivo, um texto, uma aula, o que for. Claro que uma boa produção que dê conta e favoreça os encaixes é satisfatório.
Mas eu gosto do underground.
Do improviso.
Do chiado do rádio AM.
Do ruído de fundo que comprova o ambiente.
Do bagaceiro.
Do imprevisível.
Do coelho que salta da cartola.
Da carta surpresa.
Da aventura.
Da imaterialidade.
Do anti planejamento.
Da organicidade.
Do fantasma que assombra o plano.
Do ao vivo.
Do equilíbrio sob pressão.
Do problema.
Desde que resolvido.
Uma caminhada longa, das mais longas que pude fazer desde que um dia me mudei para os lados do Porto/Centro - preferencialmente Centro em questões de preços de fretes, preferencialmente Porto, em questões poéticas e mesmo geográficas, desafiando as placas de ruas. A saída na rua coincide com a venda de garagem no vizinho, que utilizou a escrita em inglês "GARAGE SALE" para se exibir ou chamar atenção não sei de quem - a minha talvez, para criticar a desnecessária forma estrangeira pra informar que tá vendendo uns itens velhos e vintage. Bom que os vizinhos desconhecem estas linhas traçadas. O vizinho da casa da frente, um sobrado em que na parte de baixo está instalada uma ferragem, sr. Nelson está desta vez no alto, sobre a casa, como assim o vejo pela primeira vez, parece mexer na caixa d'água e cumprimenta outros vizinhos que por ora passam na rua. Sorrio para essa curiosa cena.
Parece que Pelotas finalmente conseguiu e, com exceção da praça principal, no afastamento pelas ruas, o número de catadores e vasculhadores de lixo é maior do que o de pedestres à paisana. Que dessa vez não me culpem a Lulas, porque Bolsonaro governou os quatro anos anteriores a este texto e essa criação bizarra é de obra dele, angariada pelo biênio de Michel Temer entre 2016 e 2018. Trechos do centro da cidade estavam tão vazios que recordavam os meses mais agravados de pandemia de covid-19, praticamente em um formato de lockdown - por hoje não mais obrigatório. Quase ninguém nas calçadas e ruas. Durante essa caminhada, me dirigi rumo ao bairro Areal, onde morei quase toda a vida, desta vez para constatar, certificar de que não sinto saudades daqueles lados. Mas em parte estive errado, porque a nostalgia carregada naquelas ruas promove efeitos inevitáveis. Foi por onde muitas vezes andei, cumprimentei vizinhos, contornei por desconhecidos e por animais caseiros ou de rua. Na oportunidade tive a sorte de cruzar com três gatos pretos, que eu talvez componha foto ao final deste texto. Eles apareceram um a um, talvez a compreender em breves segundos que eu não seria ameaça a suas integridades. Apenas um se aproximou mesmo de mim e rocei pela nuca dele meus dedos e também a chave que carregava já nas mãos, pela não confiança justificada por um furo que só tem aumentado em meu bolso.
O trio de gatos causou reação, talvez mesmo de inveja, de um gradeado cachorro. Deixei-os para trás. Cumprimento a torcida gremista que massacrou sem dó nem piedade o Internacional em número de camisas na rua. Uma goleada talvez não antes vista sem que se trate propriamente de um dia de jogo. Um placar elástico em oito ou nove ou mais camisas contra uma solitária. Lembro das camisas porque por ali, visualizando minha dantesca cena de aceno aos gatinhos pretos estava um possível uber reclinado em seu banco e a utilizar uma camisa do Grêmio. Ao menos se fosser vizinho ou parente de alguém naquela localidade da Gonçalves Chaves, não demonstrou qualquer movimentação referente a isso. Quando retornei a passar pelos gatos, ele arrancou o carro e foi para outro lugar.
Entre ver os gatos pela primeira e pela última vez, fui até minha antiga casa no Areal, pelos lados da avenida São Francisco de Paula e fim da Gonçalves Chaves. A casa permanece na mesma cor em que meus pais a conservavam. A casa dos vizinhos está cada vez mais feia, como pude constatar. Por entre o mato que cresce desrregrado pelo final da Gonçalves, cruzei com o velho senhor de apelido Pica-Pau, que segue magro e montado sobre uma motocicleta. Aproveitou alguns metros na contramão da rua, que agora dispõe de sentido único, e logo tomou a São Francisco, talvez percebendo que nas minhas mãos brotava um celular para testemunhar mais momentos de nostalgia.
Outra casa que moramos naquela região está ocupada e transformada completamente, agora com o adereço de piscina à frente da casa principal, manutenção de apenas algumas das árvores frutíferas que eram conservadas. O asfalto finalmente cobre o final da Gonçalves Chaves, como nem sei bem se um dia sonhamos, mas não é o visual dos mais bonitos, embora funcional. Creio que meu pai, para não escangalhar o carro nas pedras desconjuntadas, aprovaria e muito esse asfalto onde alguns devem voar baixo aproveitando da honorária imprudência que podem se permitir.
Passei pela casa de minha tia Arita. Ela revela ter 88 anos, idade que eu ponho dúvida, mas por ora acredito a ponto de reproduzi-la aqui (Na revisão foi dada sua idade em 92 anos). De seus filhos, nenhum está em casa. Revela que o que melhor conheço está pescando. Reconheço que o dia, de sol, embora um pouco de frio, era favorável a isso. Proponho no assunto o asfalto advindo na rua, em que ela, sem se lembrar, me questiona se já estive por aquelas bandas desde a nova conservação da via. Digo que sim, estive próximo do Natal, em dezembro, com meus pais, já naquela semana de distribuição de presentes, porque depois rumaríamos a Santa Catarina, onde meus pais hoje moram.
Pois bem, a chegada do asfalto naquela rua, fazia tempo que se reclamava do pouco cuidado prestado ao esgoto, às calçadas e às pedras desconjuntadas do meio da rua. A constatar que dentre esses três problemas, o das calçadas irregulares permanece, mas pelo visto não se pode ter tudo. E logo no trecho da rua em que morou o governador do estado. Foi antes de ser reeleito que veio a verba e a aplicação finalmente do asfalto. Também aproveito para osbervar tia Arita, que antes possuía grande disposição e vigor físico. Revela que a avó dela passou dos 100 anos. Ela ainda tem chance, embora tenha reduzido um pouco essas esperanças, mas ninguém sabe por antecipação do futuro. Chegou quase aos 90, a exemplo de minha avó, para finalmente o trecho da rua onde mais moraram ganhar a nova camada asfáltica, na transição do bairro Areal rumo à modernidade. Percebo também grades que meu pai fez naquela região, nos seus tempos de trabalhador autônomo. As grades feitas por meu pai duraram mais do que algumas vizinhas que por ali moravam, como recordo de uma senhora até bem abastada financeiramente, oriunda de Canguçu. Esta já foi. Outras pessoas da região simplesmente se mudaram. Parte estrutural das casas permanece. Às vezes o material dura mais do que as pessoas. Às vezes as pessoas veem grandes transformações, e duram mais do que o material. A vida é cíclica e imprevisível.
Não sei se tenho mais muito o que acrescentar em relação ao texto. Discuti com um policial ao querer colher informações sobre um acidente de carro em um cruzamento no centro da cidade. Penso apenas depois que poderia ser até enquadrado em desacato à autoridade. Depois dei dois reais para um sujeito que revelava sua necessidade de voltar de ônibus ao Laranjal. Reclamou que a passagem estava cara. Ele sem direito à meia-passagem ou qualquer outro auxílio. Por fim, na quadra seguinte, já bem no centro, no coração da cidade, presenciei um pai desferir um tapa forte contra a cabeça de uma criança. O chamei de mongolão e que não deveria fazer isso. Não sei o quão alto falei porque estava degustando música em fones de ouvido. Aliás, a playlista das músicas que um dia cliquei em curtir foi quase que totalmente satisfatória, o que revelo em tom de surpresa e contentamento.
Passados todos esses pormenores em episódios, consegui chegar até minha rua e concluir minha missão, minha caminhada de volta para casa. Não havia mais Nelson mexendo na caixa d'água, em lugar onde agora eu já o tinha visto. Mas havia fumaça em direção às últimas casas do bairro, praticamente ribeiras ao canal São Gonçalo. Porque a vida é assim: um incêndio após o outro.
me olho no espelho e vejo apenas um coitado
alguém que um dia teve ambição e percebeu suas limitações, as limitações da sociedade e a realidade
deixo a água do chuveiro correr sobre meu corpo, mas parece que sou eu e não ela que vai pelo ralo
Cada noite que eu me deito
Sinto que estou morrendo
Sinto que estou morrendo
Sinto que não tem mais jeito
Mas o processo é lento
Mas o processo é lento
Cada noite me contento
Que ainda não estou morrendo
Que ainda não estou morrendo
Cada noite sou um detento
Detido por meu organismo
Detido por meu organismo
Tanta coisa já nem lembro
Tanta coisa é instinto
Tanta coisa é instinto
Tanta coisa que aprendo
Tanta coisa nem aprendo
Tanta coisa nem fudendo
E tanto que eu sigo fudido
Sou meu amigo e inimigo
Me absolvo e me condeno
Aciono o meu jurídico
E perco horas a pleno
Tomo água e veneno
Bebo mágoas e vou sendo
Menos do que eu sonhava
Mais do que eu imaginava
Isso depende o momento
Às vezes já estou morto
Às vezes ainda vou sendo
Cada noite que eu me deito
O leito tá preparado
Eu já estou acabado
Ainda não tô acabado
E assim ainda vou sendo
A família que morava no quarto andar se mudou ontem. Eu vi o caminhão de mudanças pela manhã, desconfiei, mas não me despedi como deveria, agradecendo a boa e rara vizinhança conforme agiram neste ano e meio de convívio. Quase não os ouvi e, se os ouvi, só em horários aceitáveis. Lutamos bravamente juntos contra a ameaça paulista que ocupava o terceiro andar e nos incomodou madrugadas de conversas, fofocas, visitas, vídeo game e sabe-se lá quais bebidas e cigarros. Por mim que consumissem o que bem quisessem, desde que não enchessem o saco, mas logicamente enchiam e nos horários mais inoportunos possíveis. Pois bem, aguentamos isso em 2021 e ganhamos o alívio da ausência dos paulistas, em sua retirada em 2022. Porém, para 2023, a família, que tão bem ocupava o andar mais alto do prédio, está fora. Me acompanhava a dúvida se estavam apenas retirando uns móveis ou se um dos filhos do casal é que iria se mudar, mas partiram todos, como bem prometiam há um tempo atrás, sem eu imaginar que esse tempo de partida não tardaria, que já se avizinhava tão costeiro.
E quem sobra? Apenas nós do segundo andar. A senhora que me aluga tem um companheiro, entendo eu que por conveniência (de quem? de ambos), mas o que tenho eu a ver com a vida privada dos outros? Ela tem viajado às vezes e ele, dessa vez em que escrevo, é quem está cuidado do apartamento e, juntamente comigo, do prédio. Percebo em mim um passo a mais rumo à solidão, o que me desanima e me consola, me traz êxtase e vazio. O prédio cada vez mais silencioso, sem sequer passos mais pesados dos andares de cima ou o raro arrastar de algum móvel (tão mais comum no prédio que meus pais arrumaram em Santa Catarina), a possibilidade de um privado mais extenso. Esses dias, amigo meu, o qual considero um dos melhores escritores vivos que conheço, relatou o perigo de um jovem solitário morar sozinho, porque é a velha extensão de seu quarto, recinto fechado, dessa vez tratando-se de um apartamento inteiro à disposição. E o meu tem o quarto sobrando para quando meus pais oram voltam de Santa Catarina, como assim planejo no mês que vem, abril.
Pois bem: agora tenho não só um quarto para ouvir música, ver filmes, ler, chamar de meu, mas um apartamento e praticamente um prédio à disposição. Concorre a esse extasiar, o fato de que a segurança condominial diminui relativamente. Me sinto quase que enfrentando zumbis em uma pandemia. Me sinto como o protetor desse pequeno e quase desinteressante universo. Além de mim, as formigas fazem questão de aparecerem. Visitam minha cozinha diariamente, entram por trás do balcão embutido na parede, percorrem um espaço milimétrico por entre o buraco por onde passa o fio da internet. Se inserem na minha pia, buscam migalhas de torradas, bebericar um aguado refrigerante esperando o dia da entrega das garrafas para reciclagem, tentam alguma migalha de pão por sobre a mesa da cozinha/sala ou até se aventuram em terras mais íngremes, como o pote de bolachas ou a geladeira. As minúsculas formigas e sua organização invejável são um grande obstáculo na busca pelo sossego, mas por ora me deixam um tapa menos solitário.
Quando fui buscar meu almoço deste sábado, cruzei por um catador de reciclados com uma camisa de número 7 do Grêmio. Peguei o troco do restaurante e lhe depositei moeda em mãos. Fiquei depois pensando que valeria até deixá-lo com uns 10 reais, mas pensar na minha própria condição ainda me impede disso. Por que não cedermos um almoço para quem mais necessita de vez em quando? Elogiei sua camisa e falamos um pouco do Grêmio que ele, de alguma forma, acompanha, seja por transmissões cada vez mais por internet, menos na televisão aberta que facilitava a todos (hoje jogam Caxias e Inter pela semifinal), ou pelo rádio, bem um pouco mais universal, mas que, por tempos, Pelotas sofria de não ter transmissão da dupla Gre-Nal pelo meio do cada vez mais dispensável AM (que me perdoem os torcedores Bra-Far-Pel pela heresia de querer que algum gremista ou colorado acompanhe seu clube do coração em nossa terrinha).
O catador falou que já teve oportunidade de ir na Arena e que achou "muito massa". Mas quer mais também de Luis Suárez, pois este "é muito caro", o que concordei sobre querer render ainda mais um pouco - queremos sempre mais. Mas qual parâmetro possível de comparação entre o ser muito caro, o salário de milhões, em relação a um trabalhador braçal, autônomo, que agradece qualquer moeda que o entreguem? Como é difícil visualizar alguma justiça nesse mundo. Renato Russo - vejam só, do nada, Renato Russo e Luis Suárez no mesmo parágrafo - Renato, pessoa muito chato da qual não sei se seríamos amigos, creio que foi até bondoso quando afirmou que "o mundo anda tão complicado". Creio que o mundo está impossível, em suas injustiças, perda de valores, convívios, chantagens, relacionamentos entre as pessoas. Mas, de alguma forma, ainda acredito na solidariedade, dentro dos nossos possíveis - talvez um dia dar-lhe 10 reais e não apenas um. É preciso tratar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque, na verdade, não há muitos mesmo.
Por fim, após meu almoço, enquanto degustava a sobremesa dita gratuita - vai nessa - apareceu por nossa rua um cachorro que por vezes vejo, um perneta de três patas. Atropelado ou vítima de algum outro problema que lhe amputou, ele, maltratado pelo calor dos últimos dias, foi digno do que restou de minha marmita, a qual agradeceu deliciando-se tão logo depositei ao chão para que se servisse. Mastigou até o que eu não esperava e percebi que precisava dar-lhe água contra esse calor todo. Só depois percebi que lhe dei minha água mineral ao invés da torneira, mas vai que ele merece, pois água das torneiras pelotenses não é lá coisa que se recomende. Bebeu também e fez a expressão que me pareceu contente, como quando percebemos contentes os cachorros, sobretudo - porque os gatos são mais difíceis de leitura - penso eu. Fiquei feliz e talvez agora eu tenha um novo companheiro. Enquanto aqui ainda habito este velho prédio, antiho, surrado, pouco chamativo, quase desabitado. Eu, um casal de conveniência, as formigas, um cachorro perneta para ocupar nossa quadra e dar-me mais motivos por mais dias. Não sei se ele me agradece ou agradeço a ele. Enquanto escrevi percebo que da janela voou um pó para dentro do meu doce (vai nessa) gratuito de maracujá. A sorte nem sempre me sorri.
Outro dia vi um cachorro de um vizinho ir até o limite da grade da porta, ele apenas querendo ver o movimento da rua. Olhou, viu nada e deu volta para dentro da casa. Achei engraçado, mas logo percebi que eu também era um cachorro até o limite de meu apartamento, de frente para janela que dava para rua. Eu era aquele cachorro.
Outro dia um senhor caminhava solitário pela rua, passos lentos, ritmados em ritmo que ele gostaria fosse mais rápido. Sozinho por ruas bem mais antigas do que ele. Achei engraçado, mas logo percebi que eu também era um senhorzinho, menos elegante e menos realizado do que eu gostaria. Eu era aquele senhor.
Outro dia pelo começo da noite que ainda não havia nos cercado de todo, dois gatos à altura de uma janela me olhavam duvidosos, sem saber se seguiam pela rua ou entravam de volta na casa. Bichos soltos a tomar suas próprias decisões. Eu achei engraçado, mas logo percebi que eu também era um gato no começo da noite. Estava indo em direção a um bar a umas seis quadras de distância e precisava caminhar firme, sem retroceder de voltar para casa. Alguns gatos não têm casa. Eu era um daqueles gatos.
Quando você limpa o batom da boca, me arrebata uma sensação de ânsia, de excitação, de pólvora, de perspectiva, de expectativa. Porque sei que vamos beijar-nos. E digo que a vontade permanece a mesma da primeira vez. Na verdade ela é ampliada, porque agora já sei como é bom, e tenho a confiança dilatada de saber que nos queremos. Você limpa o batom silenciosamente no banheiro, sem eu saber. Eu, tonto, não percebo ao voltar. Posso pôr a culpa na luz que você tanto abomina por mostrar-nos. Ou então você deixa mais claro que, sim, vamos beijar-nos e manda a senha ao perguntar se o batom saiu todo ou permanece. E um pouco permanece, percebo em seu lábio superior. Mas estou de acordo que permaneça. Quero ser marcado. Quero você em mim. Quero trocar carícias e microrganismos. Quero ser colonizado. Quero que me imponha sua língua. Quero licença para essas barbaridades. Quero atingir os lábios que decoro formato. Quero sentir-me em casa e repousado. E quero a vertigem da primeira vez. Ampliada porque já sei o quanto é bom. E confiante, porque faço o teste sabendo da aprovação.
Espero por esse momento a cada noite. Sempre iniciamos contidos. Nem na bochecha nos tocamos. Somos discretos, não gritamos. Eu após umas cervejas grito. Faço bobagens porque só sei fazê-las. Nos momentos mais a sério, descontraio. Aprendo a meu modo que a vida é assim e tão inútil é fingir que não, que tudo é sério. Mas tão séria são nossas missões de cruzada e reconquista. Imposição permissiva. Termos de mau gosto. Mas eu gosto, sussurraria.
Suas roupas pretas que contrastam. Seu batom escuro que marcou algum papel na retirada, no fim da missão, na fronteira de volta às cores naturais disfarçadas em iluminação (ou falta dela) noturna. Seus resquícios de batom que me marcam e carimbam mais uma noite nossa, com bênçãos invisíveis após anos de rezas infernais. Lamento os gritos ao redor, a música que não combina, a fila do banheiro e ele em si. Lamento o preço da cerveja que nos desagua e lubrifica. O engov que a idade patrocina e entrega, a disposição que prefere as cadeiras à pista. Comemoro a combinação ajeitada para lá ou para cá. Lamento que ajuste não seja uma palavra que nos soe bem. Mas ajeito para que ela não seja problema.
Me encantam expressões faciais com as quais me divertes. Seus olhos de mulher que promete algo entre o fim precoce e a idade idosa. Seu sorriso que me rejuvenesce, me batiza e me acompanha. Suas mãos cuja pele eu deslizo aos braços. Seu nariz que me diverte em bonito formato. Seus olhos, volto a eles, grandes e profundos. Que mundo escondem e que mundo ainda veem? E o que ainda vem? A alegria com a qual sempre te vejo. Cercania que abre alas, lá está meu desejo. Sua pele alva, meu alvo, saliva que me salva. Algo se repete, algo novo fica. Me invita novas linhas. Novas noites de um batom que antes de mim te encontra. Azar dele porque a ele o limite é a boca. Mais bela, além do que mesmo de longe chamamos ela, é sua alma.
Às vezes tenho grandes sonhos
E às vezes não tenho saúde para vencer o dia seguinte. De modo que não considero que os venço, mas tenho passado pelos dias. Inevitavelmente a vida nos lança a pergunta de "até quando?".
Oi. Estou mal dos nervos de novo. Me afetam da cabeça ao pé. Talvez eu morra amanhã ou outro dia. De um dia nenhum de nós passa. Mas talvez o meu seja mais próximo. Quem sabe? Posso ter até uma hemorragia interna na forma como sinto. Eu não sei muito de medicina, reconheço. Mas que os nervos me afetam todo o organismo, tenho certeza e qualquer opinião diferente disso não perderei tempo em escutar.
Mas caso eu morra amanhã ou hoje mesmo, quero que saiba que parto muito feliz de um dia termos nos conhecido, conversado, nos aceitado e por nos amarmos. Te amei da única forma que consegui e acho até que fiz um bom trabalho. Você me amou como és e na verdade me sinto lisonjeado de receber tamanho retorno, que realmente não sei se mereço. Por isso sempre convivo contigo momentos lindos em que me vem tendência para gratidão - embora não gostes que eu agradeça tanto. Mas eu agradeço. Também te doei dias de minha vida, horas de conversa, pensamentos, experiências, conhecimentos e muitas, muitas piadas tolas. Sinto gratidão também por reconhecê-las. Meu humor não é fácil ou para qualquer um. Ponto de corte altíssimo.
Lamento não ter sido perfeito, embora eu ache que ninguém realmente almeja a perfeição. Ela assusta mais do que os defeitos. Te amei assim como és e, no fim das contas, no fechamento da comanda, é preferível ter vivido assim do que idealizado o impossível.
Não fujo de uma questão, de que em caso de morrer cedo também lamento não ter vivido mais. Talvez mais amores poderiam ter sido, não para obstruir o que vivemos, mas explorarmos novas possibilidades. Gosto de pensar que a vida é experimentação. Mas também gosto de experimentar e viver contigo. Quando falamos tristes e deprimidos, adorei compartilharmos isso em uma mesa de bar diante de garrafas de cerveja - e alguns drinks terminados em gelo. Se a depressão nem sempre se vence, mas com ela bastante somos obrigados a conviver, vamos tentar lidar com ela da melhora maneira possível. Não acredito em soluções mágicas ou em palpites de terceiros que nem suas vidas conseguem resolver. Vejamos as nossas. E, quando olho para minha, agradeço fielmente estares ao meu lado. Você fez valer minutos, horas, dias, meses preciosos em que consigo destacar o positivo e ignorar até mesmo os nervos que me assolam.
Também não paro de pensar agora no rapper que conheci e soube que morreu em bairro afastado por facção obrigatória na trajetória de quem tomou - ou foi tomado - por essas escolhas. Lamento porque lembro de ter conversado com ele e curtido seu trabalho, suas ideias e suas músicas. Muitas vezes o que almejei na vida eram momentos simples assim de experimentação, troca de experiências e admiração. E eu muito te admirei, de verdade, e curti que me admiravas. Por hoje isso me basta. Uma forma de chamar de amor e saber-se estar com ele. Um amor figurativo e palpável. Um amor em seus olhos e seus braços. E suas pernas, inevitavelmente as cito. Um amor em nossas ideias e até ideais. Um amor, um lugar. Para viver ou para morrer. Um amor. Nosso amor.