22/08/2014

Eu me sinto pressionado

Logo aos 12 do primeiro tempo

Toco a bola para a lateral

E peço atendimento

15/08/2014

Traços

Não sou artista

Mas quero saber todos os seus traços

E quando mudarem de forma

Que seja pela frequência dos amassos


07/08/2014

Montanha-russa

Sua boca é uma montanha-russa

À altura dos desejos

Que permita só ser russa

Se for pela gastura

Do excesso de meus beijos

28/07/2014

Ojos de perro

A mescla de sentimentos que envolvem a simples tentativa de comunicação e amizade dos cães na rua. Sem muito aviso prévio ou cerimônia, ele se coloca à disposição para uma breve jornada. Dedicado, é seu mais novo braço direito, fiel escudeiro, dentre outras definições. Quando em grupo já estamos, é mais um a fazer parte da turma, com o carismático rabo a abanar em aceitação. Nas caminhadas de solidão, então, assume rapidamente o posto de melhor amigo presente, a quem se pode confiar a cada passo.

21/07/2014

Opino

Raramente eu opino

Na falta do que fazer

Venho aqui somente de teimosia, no luxo raro do tempo a perder. Depois de um dia ensolarado atrás das próprias grades de proteção, ouvindo composições mais antigas que meus primeiros sintomas da doença chamada existência.

Venho apenas para marcar ponto e dizer que vim, assim como me sinto em diversos encontros por N motivos, razões e circunstâncias. Assim como sinto que muitas vezes ouvimos pra dizer que ouvimos, lemos pra somente dizer que lemos e aprendemos para o mero acréscimo de nota no currículo do lugar algum. Ah, devo estar de saco cheio e com a lista de hobbys bem inferior em itens quando comparada às necessidades de supermercado.

Mas é uma das lógicas de unificação social prestada pelos jornais. Notícias nada relevantes, mas que revelam assuntos inquietantes no cotidiano. Às vezes mais pela venda da imagem do sujeito que praticou a ação do que pela real consequência da mesma. Hoje mesmo surgiu uma da ZH que era sobre um dos guardas da rainha da Inglaterra ter tocado o instrumental de alguma música tema de seriado. Que diabos quero saber? Que diabos vocês querem saber? Que raios importa o gosto musical do filósofo moderno Neymar Jr.?

No táxi do texto até aqui, a conclusão de nenhuma razão alcançada custou ERRE CIFRÃO 11,75.  Mas aproveitando eu ter tocado no tema de manchetes, um jornal local destacou o alto índice de suicídios no município aqui ao lado, o 13º com maior incidência percentual em todo o Brasil. O que levaria as pessoas a cometer a fatalidade? A repetição de mortes no tal modelo causaria uma cultura de suicidas na microrregião? A desistência da vida estaria relacionada às dificuldades de atingir metas? Ou seria a falta de metas estabelecidas, no sentido de: tô fazendo o quê aqui?

Com a sua licença, vou ali no banheiro que o dever (ufa, algo pra fazer) me chama. Não voltarei com reflexões expostas aqui, mas regressarei com coisa a menos no corpo. Reflitam o tema (ou a ausência dele) de hoje. Até a próxima.

08/07/2014

O ouro ao redor

Ao redor ainda brilham. São luzes de faróis, enfileirados. É a sinaleira imóvel em seu ciclo de verde-amarelo-vermelho. Os postes vão acender quando necessário for. Os faróis não vão parar na faixa de pedestre e, por trás deles, a buzina será acionada se o condutor achar conveniente. Sem se preocupar com a fragilidade auditiva/emocional próxima. A escuridão nada mais é do que interna, é o luto tomando posse. Lá fora, do outro lado, todos seguem apressados e, mesmo que olhem rapidamente, não adivinharão.

Passei na frente de um aglomerado de pessoas na caminhada deste 7 de julho, aniversário de 202 anos da cidade em questão. Não que um ano a mais ou um a menos mude o diagnóstico da situação. Os trajes formais e de predominância em tons mórbidos não me fugiram da percepção. O fato da assembleia ocorrer ao lado do maior cemitério municipal também facilitou a associação a uma partida. - Mais um - comum pensamento talvez a quem habite a área do bairro, distante do meu. Para quem toma o tal caminho pela calçada em frente ao velório, é mais provável que ignore. Não se trata de algum ente querido, nada que o sujeito tenha sido convidado.

E assim se vai, o que se passa por ali, em apenas um instante é teu passado e nada de retornar àquele ponto, àquela imagem. Já passou. Para quem ali fica, estático, num turbilhão de emoções doloridas, em maior ou menor grau, não passa. Ainda vai demorar.

E na aldeia ao redor, ninguém parece ligar. Somente, é claro, os reunidos por alguma filiação ao desconhecido (por mim) que se foi. Isso me faz pensar que os povoados de hominídeos e das civilizações mais antigas reuniam-se e nutriam uma determinada aproximação. Se algum viesse a falecer, a comunidade provavelmente pararia, faria um ritual e entrariam TODOS em sinal de respeito aos que buscam domar o momento angustiante.


Em nossas repartições atuais de bairro/cidade, pouco temos em comum. Talvez a maior coisa em comum com teu vizinho seja a rede elétrica, que na casa dele pode faltar ao mesmo tempo em que na tua (nem sempre). Muitas vezes, principalmente no acelerado vai e vem das metrópoles, pouco se sabe sobre quem se esconde na parede ao lado do apartamento. Ou no andar de cima. Ou no andar de baixo.

E assim se vai, dia após dia na tua rotina despreocupada. Ignorando até as maiores aglomerações em luto. Seguindo um fluxo que TU julgas NORMAL.

03/06/2014

O jogo de verdade






















O futebol são os pés desgastados e descalços que ignoram a irregularidade do piso por onde serpenteiam e emprestam os chinelos para servir de traves ao passatempo. O futebol é o passo vagaroso, mas ansioso de um ancião em busca de mais uma jornada de seu time, sobre os frios degraus do concreto úmido da arquibancada, ou sob o castigante sol dos veraneios.

O futebol é o funcionário atarefado, que cuida, com poucos recursos, da manutenção de gramado, tribunas e vestiário para o melhor do evento. O futebol é a oração uníssona nas escadarias à beira do campo, pedindo o que as federações organizadoras ignoram. É o atleta que suja o fardamento para evitar um arremesso lateral contrário ao seu time. É o clube de finanças esfarrapadas que se desdobra em logísticas de longínquas e desgastantes viagens.

O que diferencia o esporte futebol dos demais, e muito me cativa, são as vitórias de menores sobre maiores. Até constantes. Não menores em esforço, tampouco em determinação. Às vezes menores por não terem parcerias milionárias com empresários e empresas, direitos de imagem e aparições em grandes transmissões televisivas. Nem possuem equipes completas de medicina e administração. Clubes que contam com academias sucateadas e fornecedores esportivos a nível municipal, talvez regional.

Aos grandes contratos, marcas propagandísticas de longo alcance, sempre me parecem mais fiéis à existência de outros esportes. Talvez badalados esportes como pôquer, golfe e tênis. Já ao futebol, não, isso não me parece combinativo ao futebol, aos exemplos dos primeiros parágrafos.

E quanto aos menores e menos favorecidos vencerem, por vezes, os maiores e mais favorecidos, não digo injustiça. Chamo de oportunidade. Machucar já machucaram, mas não matem o verdadeiro futebol.

30/05/2014

Ciúme

Se uma
Se une
Ciúme
Se pune
Simule
Segure
Circule
Se cure

Ex-tara
Estava
Estável
Mas saiu da estante antiquada
No instante em que apareceu

24/05/2014

Equador em Viamão

Bom, galerinha, tá chegando a Copa do Mundo e a hospedagem da seleção equatoriana no Rio Grande do Sul não passa em branco. Vejamos algumas verdades.
Valencia, um doador de elétrons na meia cancha.

17/05/2014

Inverno nas veredas

A esponja cada vez mais gélida no banho
As mantas sobrepostas provocam vampiros
O intervalo entre os espirros é menor
Com o barulho do zíper me arranho

A substituição nos armários é forçada para uns
Para outros, prazerosa
Petrificam as atividades de uns
Outros descongelam prosa

08/05/2014

Cartas. Quem dá?

O celular e o limite dos caracteres em microblogs, como o Twitter. Ah, como nos censuram! Impossível exprimir a velocidade das sinapses com o esplendor do movimento dos dedos nas teclas. As ideias ficam mal desenvolvidas e estamos tão mal acostumados a trabalhar outras vertentes, como... O lápis e o papel! Imagine que grandes gênios da humanidade passaram sacrifícios molhando penas e encostando estas aos pergaminhos para contatar o distante resto do mundo.

Nossas habilidades e resistência para escrevermos e direcionarmos cartas aos correios são escassas. Mais admirável ainda é quem tem a paciência necessária nesse acelerado universo rotatório de esperar a resposta suculenta da grafia que endereçamos. Isso em meio ao caos de greves de quem luta por sua classe. Entre as classes, os Correios. Ninguém, lendo isto, tá disposto a dissertar raciocínios completos no papel e aguardar a eternidade de uma réplica. Ao contrário, caminho inverso, tecnologia ao alcance da mão que nos proporciona contar com as SMS, Snaps, What's up, Google +, chats de Facebook, Skype... Raciocínios rompidos, interrompidos pelo limite da chata leitura na tela, do cansaço físico do dedilhar.

Nesse ritmo, ao menos, poupamos árvores, ao mesmo tempo em que papéis arquivam tanta coisa suplementar e supérflua. Tanta conta e tanta propaganda... Abrir a caixa do correio colada à grade da frente só para receber esses últimos exemplos, nada de qualidade amistosa ou amorosa, embora tentem me sacanear. Nada mais na sinceridade da caligrafia singular, que muito diz sobre quem e em que estado escreveu. Seja lúcido, preocupado, agressivo...
Mas, ah, como somos limitados!

06/05/2014

ALAN KARDEC NA SELEÇÃO!?!?

Se o Felipão, o padeiro que move a massa acompanhadora da seleção optar por Kardec, eis algumas verdades:


Nas novas arenas para a Copa, não há mais alambrado. Mas haverá Alan Kardec.
Pra jogar sem a bola no time de Scolari, Alan Kardesce pra marcar.
Se precisar incendiar o jogo no segundo tempo, Felipão coloca Alan KarBECK.
Se jogasse na defesa, sem dúvida seria Alan KarBEQUE.

Alan Kardec inaugurará um novo bordão em Galvão Bueno. "É jogo para ( ) cardíaco (x) Kardec.
Alan Kardec só chegou onde chegou por causa do espírito esportivo.
O CARD de Alan KARDEC não está no álbum oficial da Copa do Mundo.
Alan Kardec, diferente dos novos companheiros PATO e GANSO, não possui ALANTOIDE.
É isso, amanhã cedo (07/05) sai a lista de convocados de Scolari para o mundial. Se Kardec for mais uma barrigada jornalística, ao menos aqui ele figurou.

05/05/2014

Ondas e ondas e carros e ondas

A velha propaganda em campanha interessante sobre a violência dos trânsitos no Brasil era pragmática: "os carros são como as lanchas, as motos são como os jet-skis e os pedestres são como os banhistas". A passos sobre as folhas mortas do outono, em meio aos questionamentos do eutôno (onde?), as interferências do que nos cerca são constantes. Um carro, outro carro. Mais um carro, prata como o primeiro. Rodas que rodam sobre os diferentes terrenos de asfaltos, paralelepípedos e remendos mistos. Uns mais rápido, mais predadores. Uns mais devagar, tranquilos ou simplesmente limitados. Motores barulhentos, latarias gastas que custam a passar. Motores silenciosos, desfiles deslizadores garantidores de status.

Adesivos moldam perfis dos usuários de tais máquinas. Como me parece que a cada dia é mais difícil traçar o retrato de quem está atrás do volante e isso não só por causa do insufilm. Por fora, tudo o que eu sabia de nomes (assim como capitais e espécies de dinossauros) se esvaiu com a chegada dos últimos modelos. Veículos cada vez mais semelhantes, salvo raros traços que, de alguma forma, te fazem acertar a empresa sem a necessidade de conferir o logotipo. Salvo uma ou outra tecnologia, anunciada triunfante em propagandas. Estas ditarão a próxima onda às ruas. É questão de tempo para o item super inédito aparecer na concorrente. O tempo de anos atrás do fordismo reduzido e compactado a menos de meses na atualidade. Assim funcionam outras inovações tecnológicas de diferentes áreas, assim as notícias correm apressadas, respondendo ao lead seco e engolido corriqueiramente.

Assim se passa mais um carro, como uma onda. Dificilmente o verei novamente em igual modelo, dono e placa. Intensidade e som como complementos. Se passar por mim novamente será só mais uma onda. Outra onda, mais uma onda devorando asfalto. Às vezes mar calmo, sem ondas. Ou com ondas engarrafadas. Nem entendo muito de carros, nem entendo de navegar. Muito admiro quem não se enjoa nas águas turvas deste mar.

02/05/2014

Tais quintais

Um quintal sem muros é o que muitos procuram. Às vezes acho que procuro. No meu quintal com muros, os limites às vezes são ignorados contra meu gosto. Por outro lado, dotado de estúpido receio que me é perseguidor, creio que já perdi dezenas de portas que me deixaram abertas. Uma das poucas constantes que tento levar é buscar um lugar em que eu me sinta bem e que os demais ao meu redor sintam-se bem com a minha presença, nada forçado ou fantasiado. Nada da boca pra fora ou com atuações pelo script da formalidade, da educação implantada. Acho que, no fundo, muitos de nós buscamos um quintal sem muros em que não nos sintamos invasivos. Algo com um enganoso espírito libertário e compartilhado.

01/05/2014

Suicide

Sobre suicídio: deixar as despedidas em bilhetes, ou algo assim, e morrer em local distante, sem o corpo para ser enterrado em ritual fúnebre? O problema é talvez deixar angústia nos poucos (bem poucos mesmo, de se contar nos dedos) com a esperança, sem acharem o corpo, de que ainda irás voltar. A outra opção é ceifar a vida em outro método e correr o risco de traumatizar quem primeiramente veja seu corpo já desanimado. Como fez Chorão ao consumir um coquetel de drogas e ser encontrado caído no próprio apartamento. Ou seu parceiro, que deve ter sentido o golpe, Champignon, que meses depois resolveu acabar com a passagem na Terra com um tiro na cabeça.
E eis que sobra a dúvida se o teu ato vai atrapalhar e jogar pra baixo a vida dos que ficaram desiludidos com tua sincera e pesada decisão, que, na mesma moeda da sinceridade, esperamos que eles não repitam tua última ação. O certo é que a cada dia sinto o peso maior, a contáveis (ou incontáveis?) passos de tirar todo o peso carregado, somado, esmagador. Descrente na esperança que move alguns e em outro move por simplesmente mover. Mais textos virão, mais páginas da vida de todos vocês leitores. Assim, ainda em algum fio, espero.
Jair

25/04/2014

Em 1ª pessoa

É um impasse, uma situação bilateral, uma faca de dois gumes. Entre os breves momentos especiais em que a felicidade ali se fez presente, mesmo tímida. São os melhores momentos às vezes os não tão bem planejados. Sem a criação dominante e perversa da expectativa, tomam forma e nos surpreendem.
Aí, neste impasse, não foi planejada a utilização de câmera para registros, simplesmente aconteceu. O registro fica por conta da, sujeita a alterações futuras, memória. Outros momentos são estrategicamente desenhados como plantas de prédios, mas não se concretizam. A câmera estava ali para registrá-los para, sem mudanças, tentar reproduzi-los através da foto. Mas, no X da questão, os momentos não ocorreram como o ferronho plano. Ou, por outro lado, aconteceram, mas estavas ocupado demais pensando em como registrá-lo para resgatar no futuro, e não te preocupaste em vivenciá-lo em tempo real. Gente que tira fotos demais em um show, mas não acompanha de corpo e alma, a letra e a melodia da música tocada, porque o dedo e o cérebro estão dando atenção ao gatilho da câmera fotográfica.
Voltamos a temas como as fronteiras sutis, entre um simples registro, talvez de uma foto, o suficiente como lembrança, ou o pecar pelo exagero: fotos demais que te ocuparam no tão sonhado momento. Seja o evento que for, não deixe de vivenciá-lo, primeiramente, em primeiro plano, teus olhos e demais sentidos como os registradores principais de cada cena. A câmera só capta o que a câmera vê, todos os outros % são contigo.

22/04/2014

12 anos e meio

- Aí gata, quer dar um nome pro meu cachorro?
- Ai, eu quero hihihi... mas eu nunca o vi, como posso dar um nome?
- Tudo bem, eu te mostro ele antes =)

- Aí gata, quer dar um nome pro meu pênis?
- HÃÃÃÃ?!? QUE ISSO!?! QUE NOJO!!!!
- Tá, calma, posso te mostrar primeiro. Fica com ele o tempo que quiser ;)

20/04/2014

Deserta

Desertar, de certa forma, seria bom
Despertar no silêncio um novo som

A vida é

A vida é um vinho barato com comida de microondas.

A vida é um mata moscas elétrico descarregado.

A vida é uma lixeira de banheiro com pedal quebrado.

A vida é o bombom duro de amendoim que ninguém da casa quis e que tu dá graça a Deus quando uma visita acaba com ele.

A vida é o vai e vem dos vendedores de vale transporte.

A vida é pegar o ônibus vazio pra pagar conta em lotérica cheia.

A vida é o álcool gel ignorado na portaria dos prédios públicos.

A vida é uma mesa de sinuca com caída, pano rasgado e que a gaveta tranca.

A vida é encaçapar a bola 8 na 3ª tacada.

A vida é a música praiana do Armandinho enquanto o sol castiga o calçamento em paralelepípedo da rua XV de Novembro, sem árvores à vista.

A vida é não completar o álbum pela ausência de 12 figurinhas.

A vida é o cachorro da vizinha que não se acostuma com a tua passagem quase que diária pela calçada.

A vida é um barco em que tu e outras 44 pessoas estão marcadas numa publicação sobre perda de peso.

A vida é tropeçar no peso recheado de areia que calça a porta.

A vida é o garoto que enxuga o suor dos atletas sobre os parquês quando autorizado pelo árbitro.

A vida é a expulsão aos 41 do segundo tempo de um escalado teu no Cartola.

A vida é o spoiller da 3ª temporada da série que gastasse horas baixando episódios e dormindo tarde pra encontrar tempo para assistir regularmente.

A vida é o telecine touch às 2:30 da manhã.

A vida é um pornô tailandês de baixa resolução.

A vida é a tv da rodoviária exibindo seriado dublado.

A vida é um refrigerante Biri quente e sem gás no fundo da mochila.

A vida. À vida. Há vida.

18/04/2014

Tempo Dura, Tempo Duro

Nessa rede de fios emaranhados
Nesses quadros na parede ali ao lado
O que é passado?
O que é herança?
O que se espera
Com esperança?

Perambulam ambulantes
Desalmados desarmados
O mundo grita urgente
Surdos e mudos doentes
Não enxergam os vultos
Não escutam os insultos

Quanto tempo dura
Um halls? Um show?
O caos? Um voo?
Um gol? O mal?
Quanto tempo dura um tchau?
Quanto dura o rock and roll?

14/04/2014

Não sou culpado

Não sou culpado por ter nascido
Por meu nome ou por meu nariz
Sinto muito por quase ter sido
Tudo aquilo que você sempre quis

Não quero te fazer andar em círculos
Nem quero preencher seus requisitos ridículos
Há muitos poréns, há muitos detalhes
Melhor cortar o vínculo antes que se espalhe


09/04/2014

Detetive

Jogo a isca
Você vem a nadar
Deixo a pista
Você vem me procurar

Não me belisca
Continuo a sonhar
Você me revista
Mas nada vai encontrar

Deixo a pista
Você vem de detetive
Sabe pra onde fui
E onde estive

21/03/2014

Me Desligue

Eu queria poder te salvar
Do vendedor de porta em porta
De um encontro idiota
Do que realmente importa

Eu queria poder te salvar
Da barata atrás da estante
Do sódio do refrigerante
De episódios semelhantes

Aaaaaahh, me desligue
O meu plug, não me sugue mais
Aaaaaahh, me desligue
O meu plug, não me alugue mais

03/01/2014

Inaugural 2014

Mas que barbaridade, virou o ano e nada fiz por aqui! Reativei o blog para exclusivamente deixar publicados, para eventual necessidade posterior, textos de minha pessoa. Também frases soltas estão igualmente presentes. Dessa vez, com a mudança de calendário para o dois mil e catorze (ou quatorze?) depois de Cristo, resolvi ocupar o espaço em branco à minha frente com o improviso.
Tenho ideia nenhuma de post para inaugurar a repartição deste ano novo, ainda acorrentado à vida passada. Algumas novidades, como projetos a dois e a participação em um blog voltado ao futebol gaúcho. Ao resto, adquiri experiências interessantes no ano que se passou e enxergo o mundo com mais desconfiança e menos otimismo. Mais ciente de algumas situações, ainda completamente perdido em relação a outras. Na busca por estar pronto para enfrentar o primeiro ciclo anual infiltrado de vez no grupo da maioridade. Enfrentar um ano eleitoral e mais uma tentativa de desfazer o jejum de títulos do amado Grêmio, que não poderia estar de fora dessa não planejada projeção. Espero por um ano junto à minha família, apoio essencial como bengala para minhas reflexões e amparos de diversas formas. Seguir com alguns amigos dos tempos de colégio, inclusive com os quais já tive oportunidade de churrasquear essa semana. Seguir com alguns contatos adquiridos na Universidade em 2013. O resto são os repetitivos desejos de paz, saúde e realizações pessoais. Livros devorados e filmes analisados. Novas bandas para carregar comigo em formato MP3 e na estante de CDs. Agora também com o retorno do formato vinil em coleção em minha residência.
Se um dia resolver publicar essas bagaças que escrevo, sintam-se bem vindos ao 2014 do Jair Filósofo.

26/12/2013

Fronteiras sutis (05/12)

Sutis são as fronteiras que delimitam os conceitos, dividem classificações subjetivas, definem, como alguns dizem, a grosso modo. Algumas situações muito mais complexas do que a demarcação entre a sua casa e a do vizinho.
Sutil é a fronteira entre quem não acredita que exista música boa no Brasil, e assim ouve somente estrangeirismos, e quem idolatra Michel Teló e Parangolé. Sutil é a fronteira entre falar pouco, por timidez, desconhecimento ou antipatia, e falar demais, a ponto de irritar os ouvintes e outros contribuintes da conversa. Sutil é a fronteira do cálculo extenso, em que uma vírgula determina ou não sua aprovação. Sutil é a fronteira entre Rio Grande do Sul e Uruguai, que, apesar da mudança (até sutil?) de idioma entre seus habitantes, mantém as mesmas pastagens dos dois lados do rio.
Sutil é a fronteira entre chegar cedo demais e não ter o que fazer enquanto espera, ou chegar atrasado e passar por irresponsável. A hora certa de chegar, às vezes, é a incógnita. A sutil fronteira entre pressionar a pessoa especial à espera de reciprocidade no sentimento dela, e não investir, perder o portal para um relacionamento. A sutil fronteira entre estar muito sóbrio e muito bêbado.
A sutil fronteira entre os sons e regras de um idioma, complicadas em demasia para os novatos na aprendizagem deste. A sutil fronteira entre o herói e o vilão. No futebol, o goleiro de 5 milagres operados para evitar o gol em um jogo pode tomar um frango e acabar responsabilizado pela derrota. O jornalista pode escrever 50 grandes textos, mas um deslize o coloca na forca da opinião pública.
A sutil fronteira entre o instante de um piscar de olhos, na vida sem reprise, sem replay. O mágico não repetirá o truque e o próximo bote da cobra será só na próxima refeição, mais de uma semana depois. A próxima passagem do cometa daqui uns 70 anos. O próximo eclipse vai demorar também. A Ponte Preta, quem diria, na final da Copa Sul-Americana, passados 113 anos desde sua fundação e com nenhum título paulista da primeira divisão na estante de troféus, pode se tornar campeã continental.
Uma sutil fronteira deve decidir o duelo no jogo de volta da final. Mais absurdamente sutil se for decidido nos pênaltis. Mais sutil do que o balanço entre o bom e o mau para entrar no céu. Mais sutil que a diferença entre o apático e o vulgar. Mais sutil do que a teia da aranha. Mais sutil do que a transição entre acordado e dormido. Muito, muito sutil.

06/12/2013

O Céu É Só Uma Promessa

O chão. O chão é esse misto de transtorno e segurança. Sim, precisamos de um chão acolhedor e agradável, de preferência cercado por paredes, que intimidem os estranhos, para não pisarem em nosso precioso. De preferência sob um teto, ainda na mesma função das paredes e que nos impede de olhar as estrelas. O chão que necessitamos para estacionar pares de chinelos, acomodar móveis com harmonia e limpar de 15 em 15 dias.

Fora das quatro paredes, o chão fica mais restrito ao sentimento de transtorno. Lixo pelas ruas, trânsito nervoso de pedestres zumbis. Mais mortos do que vivos. Os caninos de rua procriam e largam dejetos no chão. Cuidado pra não pisar! Naquela esquina, teve acidente ontem. A moto furou o sinal. “Não foi a primeira vez”, comentou um. “O cara cercou o moleque e pediu o celular dele. Foi logo ali”, apontou o atendente de uma loja. Às vezes, ele e outro funcionário anunciam as promoções em papéis, que ficam na travessia por onde solas e saltos gastos desfilam. Na verdade, entregam nas mãos das pessoas. Logo, alguns acham que o lar perfeito ao panfleto é no bueiro mais próximo. “Larga ele aí, vai achar o caminho de casa sozinho.”

“E nessa última chuva, entupiu tudo! A água arrastava sacos de lixo e eu não enxergava onde pisava.” Que insegurança essa: não saber onde a pata vai! O passo a seguir pode ser só mais um, ou pode ser aquele em que prendesse a perna no ralo destampado. Conta os passos cautelosos para chegar em casa, olhando pros lados, desconfiado, tem sacola de loja famosa na mão esquerda e o molho de chaves trêmulo a tintilar na direita. Foi ao banco mais cedo, era dia de pagamento. “Será que alguém me seguiu?”. Suspira, falta menos de uma quadra. Vai chegar no seu chão precioso. Será?

Acima de tudo, a calmaria do céu, onde, apesar das linhas aéreas, o tráfego de nuvens predomina. Voos de pássaros para longe do alcance de nossos olhos. Apesar também de todo o monitoramento do espaço aéreo e das delimitações de fronteiras, não é o mesmo caos de divisão de hectares, MST, metro quadrado de apartamento, de bairro de luxo, de morro, de leito de hospital, de caixão, de distância do concorrente para não colar na prova do concurso público para trabalhar em outro cubículo.

Sim, o céu. Quanto mais próximo dele, vemos o quão insignificante é aquele pedaço de civilização visto da janela do avião. Formigas em desarmonia. Por isso, na crença, os anjos viveriam nas nuvens. Por isso, mais um motivo para os anjos caídos praticarem o mal. Ainda não sei se acima ou abaixo do chão. Enquanto o céu... o céu é só uma promessa.

28/11/2013

Ligações



A vida é feita de ligações. Mais um texto iniciado sem segredos. Ligações pi e sigma, iônicas e covalentes, simples, duplas e triplas. Lógico que o assunto a seguir não é sobre química. Já parou para pensar nos tipos de ligações existentes nessa passagem chamada vida?
Existem aquelas ligações rápidas, metálicas, tipo exame médico do exército. “Como foi a viagem? Tá tudo bem? O que achou da cidade? Legal. Outra hora falamos. Beijabraço.” Existem aquelas ligações preocupadas, comuns mesmo dos pais aos filhos. “Está se alimentando bem? O que está vestindo? Não vai passar frio. Tem tomado cuidado ao sair?”
Alguns números só teclam o seu no dia do seu aniversário, quando acertam a data do ano em que viesse ao mundo. Aquele habitual “meus parabéns”, acompanhado de variações do que o emissor considera e deseja como tudo de bom. Existem ligações que soam naturalmente, sem formalidades, começam sem identificação, apresentam uma troca humorística de ofensas e geralmente geram gargalhadas entre os dois personagens do diálogo.
Ligações a cobrar, com raras exceções, são um porre. Iniciam com aquela demora burocrática, nos dizeres de uma voz robótica. Terminam com o alívio da conversa não ter se estendido e prejudicado mais o bolso, ainda mais quando é interurbana. Antes dos e-mails, confirmação de emprego podia ser pelo telefone. Ânsia e angústia no aguardo da empresa. Apreensão também para quem aguarda notícias de acidentes e acidentados, quando o break news da TV não manda ao ar as respostas das indomáveis perguntas.
Há dias em que esperamos grudados ao telefone e ele não toca. A gente não se toca de que ele não vai tocar. Não vai rolar aquele passeio, o cinema fica para outra sessão e perdesse o prato do dia no restaurante. O telefone nos deixa mais confortáveis do que a oratória ao vivo, e frente a frente, quando se trata de timidez ou vergonha. Os chats pela internet e os SMS garantiram uma distância e uma segurança maior ao que é pensado e não mais falado, mas escrito. Digo teclado, digitado. 
Por essa vida de ligações, forma-se uma teia que serpenteia para nos levar onde nos levou. Muitas ligações ainda virão enquanto andamos na rua, aguardamos alguém em algum lugar, ou mesmo no telefone do serviço. “Serviço de atendimento ao cliente chato, bom dia. Em que posso ajudar?” É, a gentileza ou a falta dela no cliente vai mudar seu dia. Vai mudar sua teia de ligações. Não ateia fogo na teia. Não ateia fogo na aldeia.

22/11/2013

PONTOS



Eis que em meio ao bate-papo descontraído, na troca de histórias e informações, muitas que entravam por um ouvido e saiam pelo outro, surgiu uma pergunta paralisante:
- E você tem certeza? – Questionaram-o.
Seu sorriso não se desmanchou instantaneamente e ainda balançou a cabeça em afirmação. – Mas claro que tenho!
Começou a remexer os bolsos à procura de alguma. Eram bolsos grandes e as mãos adentravam cada vez mais neles, já com um misto de preocupação inserido juntamente. Alarmante tornou-se o caso quando chegou ao fundo do bolso esquerdo. Em seguida, foi a vez do direito. Uma gota de suor brotou a escorrer na testa, friamente. “Afinal, onde estavam?”
Não poderia perder a compostura nesse constrangedor instante. “Vou tomar mais um gole”, pensou. Inclinou o copo para molhar as palavras que se sucederiam. A angulação foi a maior possível. Nenhuma gota. Nada.
A cadeira havia desaparecido. Não caiu no chão, pois também não estava mais lá. Queda livre e sem paradouro definido, apenas para baixo. Como galhos a quem desce a corredeira de um rio, enxergou exclamações aparecerem aos poucos, logo, aos montes. Tentava com a mão esquerda, tentava com a direita, em vão, aproveitamento de 0 / 22.
As dúvidas então surgiram. Chaves com nomes, mas que nada abrem. Valores de X, Y e outras variáveis. Tudo fugiu, com o perdão do trocadilho, como se pelo buraco da fechadura. A única alternativa para segurar nesse tombo era a que menos esperava: um ponto de interrogação.