me olho no espelho e vejo apenas um coitado
alguém que um dia teve ambição e percebeu suas limitações, as limitações da sociedade e a realidade
deixo a água do chuveiro correr sobre meu corpo, mas parece que sou eu e não ela que vai pelo ralo
me olho no espelho e vejo apenas um coitado
alguém que um dia teve ambição e percebeu suas limitações, as limitações da sociedade e a realidade
deixo a água do chuveiro correr sobre meu corpo, mas parece que sou eu e não ela que vai pelo ralo
Cada noite que eu me deito
Sinto que estou morrendo
Sinto que estou morrendo
Sinto que não tem mais jeito
Mas o processo é lento
Mas o processo é lento
Cada noite me contento
Que ainda não estou morrendo
Que ainda não estou morrendo
Cada noite sou um detento
Detido por meu organismo
Detido por meu organismo
Tanta coisa já nem lembro
Tanta coisa é instinto
Tanta coisa é instinto
Tanta coisa que aprendo
Tanta coisa nem aprendo
Tanta coisa nem fudendo
E tanto que eu sigo fudido
Sou meu amigo e inimigo
Me absolvo e me condeno
Aciono o meu jurídico
E perco horas a pleno
Tomo água e veneno
Bebo mágoas e vou sendo
Menos do que eu sonhava
Mais do que eu imaginava
Isso depende o momento
Às vezes já estou morto
Às vezes ainda vou sendo
Cada noite que eu me deito
O leito tá preparado
Eu já estou acabado
Ainda não tô acabado
E assim ainda vou sendo
A família que morava no quarto andar se mudou ontem. Eu vi o caminhão de mudanças pela manhã, desconfiei, mas não me despedi como deveria, agradecendo a boa e rara vizinhança conforme agiram neste ano e meio de convívio. Quase não os ouvi e, se os ouvi, só em horários aceitáveis. Lutamos bravamente juntos contra a ameaça paulista que ocupava o terceiro andar e nos incomodou madrugadas de conversas, fofocas, visitas, vídeo game e sabe-se lá quais bebidas e cigarros. Por mim que consumissem o que bem quisessem, desde que não enchessem o saco, mas logicamente enchiam e nos horários mais inoportunos possíveis. Pois bem, aguentamos isso em 2021 e ganhamos o alívio da ausência dos paulistas, em sua retirada em 2022. Porém, para 2023, a família, que tão bem ocupava o andar mais alto do prédio, está fora. Me acompanhava a dúvida se estavam apenas retirando uns móveis ou se um dos filhos do casal é que iria se mudar, mas partiram todos, como bem prometiam há um tempo atrás, sem eu imaginar que esse tempo de partida não tardaria, que já se avizinhava tão costeiro.
E quem sobra? Apenas nós do segundo andar. A senhora que me aluga tem um companheiro, entendo eu que por conveniência (de quem? de ambos), mas o que tenho eu a ver com a vida privada dos outros? Ela tem viajado às vezes e ele, dessa vez em que escrevo, é quem está cuidado do apartamento e, juntamente comigo, do prédio. Percebo em mim um passo a mais rumo à solidão, o que me desanima e me consola, me traz êxtase e vazio. O prédio cada vez mais silencioso, sem sequer passos mais pesados dos andares de cima ou o raro arrastar de algum móvel (tão mais comum no prédio que meus pais arrumaram em Santa Catarina), a possibilidade de um privado mais extenso. Esses dias, amigo meu, o qual considero um dos melhores escritores vivos que conheço, relatou o perigo de um jovem solitário morar sozinho, porque é a velha extensão de seu quarto, recinto fechado, dessa vez tratando-se de um apartamento inteiro à disposição. E o meu tem o quarto sobrando para quando meus pais oram voltam de Santa Catarina, como assim planejo no mês que vem, abril.
Pois bem: agora tenho não só um quarto para ouvir música, ver filmes, ler, chamar de meu, mas um apartamento e praticamente um prédio à disposição. Concorre a esse extasiar, o fato de que a segurança condominial diminui relativamente. Me sinto quase que enfrentando zumbis em uma pandemia. Me sinto como o protetor desse pequeno e quase desinteressante universo. Além de mim, as formigas fazem questão de aparecerem. Visitam minha cozinha diariamente, entram por trás do balcão embutido na parede, percorrem um espaço milimétrico por entre o buraco por onde passa o fio da internet. Se inserem na minha pia, buscam migalhas de torradas, bebericar um aguado refrigerante esperando o dia da entrega das garrafas para reciclagem, tentam alguma migalha de pão por sobre a mesa da cozinha/sala ou até se aventuram em terras mais íngremes, como o pote de bolachas ou a geladeira. As minúsculas formigas e sua organização invejável são um grande obstáculo na busca pelo sossego, mas por ora me deixam um tapa menos solitário.
Quando fui buscar meu almoço deste sábado, cruzei por um catador de reciclados com uma camisa de número 7 do Grêmio. Peguei o troco do restaurante e lhe depositei moeda em mãos. Fiquei depois pensando que valeria até deixá-lo com uns 10 reais, mas pensar na minha própria condição ainda me impede disso. Por que não cedermos um almoço para quem mais necessita de vez em quando? Elogiei sua camisa e falamos um pouco do Grêmio que ele, de alguma forma, acompanha, seja por transmissões cada vez mais por internet, menos na televisão aberta que facilitava a todos (hoje jogam Caxias e Inter pela semifinal), ou pelo rádio, bem um pouco mais universal, mas que, por tempos, Pelotas sofria de não ter transmissão da dupla Gre-Nal pelo meio do cada vez mais dispensável AM (que me perdoem os torcedores Bra-Far-Pel pela heresia de querer que algum gremista ou colorado acompanhe seu clube do coração em nossa terrinha).
O catador falou que já teve oportunidade de ir na Arena e que achou "muito massa". Mas quer mais também de Luis Suárez, pois este "é muito caro", o que concordei sobre querer render ainda mais um pouco - queremos sempre mais. Mas qual parâmetro possível de comparação entre o ser muito caro, o salário de milhões, em relação a um trabalhador braçal, autônomo, que agradece qualquer moeda que o entreguem? Como é difícil visualizar alguma justiça nesse mundo. Renato Russo - vejam só, do nada, Renato Russo e Luis Suárez no mesmo parágrafo - Renato, pessoa muito chato da qual não sei se seríamos amigos, creio que foi até bondoso quando afirmou que "o mundo anda tão complicado". Creio que o mundo está impossível, em suas injustiças, perda de valores, convívios, chantagens, relacionamentos entre as pessoas. Mas, de alguma forma, ainda acredito na solidariedade, dentro dos nossos possíveis - talvez um dia dar-lhe 10 reais e não apenas um. É preciso tratar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque, na verdade, não há muitos mesmo.
Por fim, após meu almoço, enquanto degustava a sobremesa dita gratuita - vai nessa - apareceu por nossa rua um cachorro que por vezes vejo, um perneta de três patas. Atropelado ou vítima de algum outro problema que lhe amputou, ele, maltratado pelo calor dos últimos dias, foi digno do que restou de minha marmita, a qual agradeceu deliciando-se tão logo depositei ao chão para que se servisse. Mastigou até o que eu não esperava e percebi que precisava dar-lhe água contra esse calor todo. Só depois percebi que lhe dei minha água mineral ao invés da torneira, mas vai que ele merece, pois água das torneiras pelotenses não é lá coisa que se recomende. Bebeu também e fez a expressão que me pareceu contente, como quando percebemos contentes os cachorros, sobretudo - porque os gatos são mais difíceis de leitura - penso eu. Fiquei feliz e talvez agora eu tenha um novo companheiro. Enquanto aqui ainda habito este velho prédio, antiho, surrado, pouco chamativo, quase desabitado. Eu, um casal de conveniência, as formigas, um cachorro perneta para ocupar nossa quadra e dar-me mais motivos por mais dias. Não sei se ele me agradece ou agradeço a ele. Enquanto escrevi percebo que da janela voou um pó para dentro do meu doce (vai nessa) gratuito de maracujá. A sorte nem sempre me sorri.
Outro dia vi um cachorro de um vizinho ir até o limite da grade da porta, ele apenas querendo ver o movimento da rua. Olhou, viu nada e deu volta para dentro da casa. Achei engraçado, mas logo percebi que eu também era um cachorro até o limite de meu apartamento, de frente para janela que dava para rua. Eu era aquele cachorro.
Outro dia um senhor caminhava solitário pela rua, passos lentos, ritmados em ritmo que ele gostaria fosse mais rápido. Sozinho por ruas bem mais antigas do que ele. Achei engraçado, mas logo percebi que eu também era um senhorzinho, menos elegante e menos realizado do que eu gostaria. Eu era aquele senhor.
Outro dia pelo começo da noite que ainda não havia nos cercado de todo, dois gatos à altura de uma janela me olhavam duvidosos, sem saber se seguiam pela rua ou entravam de volta na casa. Bichos soltos a tomar suas próprias decisões. Eu achei engraçado, mas logo percebi que eu também era um gato no começo da noite. Estava indo em direção a um bar a umas seis quadras de distância e precisava caminhar firme, sem retroceder de voltar para casa. Alguns gatos não têm casa. Eu era um daqueles gatos.
Quando você limpa o batom da boca, me arrebata uma sensação de ânsia, de excitação, de pólvora, de perspectiva, de expectativa. Porque sei que vamos beijar-nos. E digo que a vontade permanece a mesma da primeira vez. Na verdade ela é ampliada, porque agora já sei como é bom, e tenho a confiança dilatada de saber que nos queremos. Você limpa o batom silenciosamente no banheiro, sem eu saber. Eu, tonto, não percebo ao voltar. Posso pôr a culpa na luz que você tanto abomina por mostrar-nos. Ou então você deixa mais claro que, sim, vamos beijar-nos e manda a senha ao perguntar se o batom saiu todo ou permanece. E um pouco permanece, percebo em seu lábio superior. Mas estou de acordo que permaneça. Quero ser marcado. Quero você em mim. Quero trocar carícias e microrganismos. Quero ser colonizado. Quero que me imponha sua língua. Quero licença para essas barbaridades. Quero atingir os lábios que decoro formato. Quero sentir-me em casa e repousado. E quero a vertigem da primeira vez. Ampliada porque já sei o quanto é bom. E confiante, porque faço o teste sabendo da aprovação.
Espero por esse momento a cada noite. Sempre iniciamos contidos. Nem na bochecha nos tocamos. Somos discretos, não gritamos. Eu após umas cervejas grito. Faço bobagens porque só sei fazê-las. Nos momentos mais a sério, descontraio. Aprendo a meu modo que a vida é assim e tão inútil é fingir que não, que tudo é sério. Mas tão séria são nossas missões de cruzada e reconquista. Imposição permissiva. Termos de mau gosto. Mas eu gosto, sussurraria.
Suas roupas pretas que contrastam. Seu batom escuro que marcou algum papel na retirada, no fim da missão, na fronteira de volta às cores naturais disfarçadas em iluminação (ou falta dela) noturna. Seus resquícios de batom que me marcam e carimbam mais uma noite nossa, com bênçãos invisíveis após anos de rezas infernais. Lamento os gritos ao redor, a música que não combina, a fila do banheiro e ele em si. Lamento o preço da cerveja que nos desagua e lubrifica. O engov que a idade patrocina e entrega, a disposição que prefere as cadeiras à pista. Comemoro a combinação ajeitada para lá ou para cá. Lamento que ajuste não seja uma palavra que nos soe bem. Mas ajeito para que ela não seja problema.
Me encantam expressões faciais com as quais me divertes. Seus olhos de mulher que promete algo entre o fim precoce e a idade idosa. Seu sorriso que me rejuvenesce, me batiza e me acompanha. Suas mãos cuja pele eu deslizo aos braços. Seu nariz que me diverte em bonito formato. Seus olhos, volto a eles, grandes e profundos. Que mundo escondem e que mundo ainda veem? E o que ainda vem? A alegria com a qual sempre te vejo. Cercania que abre alas, lá está meu desejo. Sua pele alva, meu alvo, saliva que me salva. Algo se repete, algo novo fica. Me invita novas linhas. Novas noites de um batom que antes de mim te encontra. Azar dele porque a ele o limite é a boca. Mais bela, além do que mesmo de longe chamamos ela, é sua alma.
Às vezes tenho grandes sonhos
E às vezes não tenho saúde para vencer o dia seguinte. De modo que não considero que os venço, mas tenho passado pelos dias. Inevitavelmente a vida nos lança a pergunta de "até quando?".
Oi. Estou mal dos nervos de novo. Me afetam da cabeça ao pé. Talvez eu morra amanhã ou outro dia. De um dia nenhum de nós passa. Mas talvez o meu seja mais próximo. Quem sabe? Posso ter até uma hemorragia interna na forma como sinto. Eu não sei muito de medicina, reconheço. Mas que os nervos me afetam todo o organismo, tenho certeza e qualquer opinião diferente disso não perderei tempo em escutar.
Mas caso eu morra amanhã ou hoje mesmo, quero que saiba que parto muito feliz de um dia termos nos conhecido, conversado, nos aceitado e por nos amarmos. Te amei da única forma que consegui e acho até que fiz um bom trabalho. Você me amou como és e na verdade me sinto lisonjeado de receber tamanho retorno, que realmente não sei se mereço. Por isso sempre convivo contigo momentos lindos em que me vem tendência para gratidão - embora não gostes que eu agradeça tanto. Mas eu agradeço. Também te doei dias de minha vida, horas de conversa, pensamentos, experiências, conhecimentos e muitas, muitas piadas tolas. Sinto gratidão também por reconhecê-las. Meu humor não é fácil ou para qualquer um. Ponto de corte altíssimo.
Lamento não ter sido perfeito, embora eu ache que ninguém realmente almeja a perfeição. Ela assusta mais do que os defeitos. Te amei assim como és e, no fim das contas, no fechamento da comanda, é preferível ter vivido assim do que idealizado o impossível.
Não fujo de uma questão, de que em caso de morrer cedo também lamento não ter vivido mais. Talvez mais amores poderiam ter sido, não para obstruir o que vivemos, mas explorarmos novas possibilidades. Gosto de pensar que a vida é experimentação. Mas também gosto de experimentar e viver contigo. Quando falamos tristes e deprimidos, adorei compartilharmos isso em uma mesa de bar diante de garrafas de cerveja - e alguns drinks terminados em gelo. Se a depressão nem sempre se vence, mas com ela bastante somos obrigados a conviver, vamos tentar lidar com ela da melhora maneira possível. Não acredito em soluções mágicas ou em palpites de terceiros que nem suas vidas conseguem resolver. Vejamos as nossas. E, quando olho para minha, agradeço fielmente estares ao meu lado. Você fez valer minutos, horas, dias, meses preciosos em que consigo destacar o positivo e ignorar até mesmo os nervos que me assolam.
Também não paro de pensar agora no rapper que conheci e soube que morreu em bairro afastado por facção obrigatória na trajetória de quem tomou - ou foi tomado - por essas escolhas. Lamento porque lembro de ter conversado com ele e curtido seu trabalho, suas ideias e suas músicas. Muitas vezes o que almejei na vida eram momentos simples assim de experimentação, troca de experiências e admiração. E eu muito te admirei, de verdade, e curti que me admiravas. Por hoje isso me basta. Uma forma de chamar de amor e saber-se estar com ele. Um amor figurativo e palpável. Um amor em seus olhos e seus braços. E suas pernas, inevitavelmente as cito. Um amor em nossas ideias e até ideais. Um amor, um lugar. Para viver ou para morrer. Um amor. Nosso amor.
Será que eu vou ter saúde?
Será que alguém me acode?
Será que eu fui muito rude?
Assim vou tomar sacode
Será que eu vou ter saúde?
Pra enfrentar tenra idade
Pra cruzar cachoeira, açude
Ou pra viver dentro da cidade
Será que eu vou ter saúde?
Ou sou aquele que se explode
Será que alternativa surge?
Pra mostrar que ainda se pode
Será que eu vou ter saúde?
Ou só saúva que me vem
Macunaíma só se ilude
No fim todos ficam sem
Será que eu vou ter saúde?
Torcer para que algo mude
Para adiar o meu fim
Torcer de braços bem torcidos
Pros outros mas também pra mim
Tristeza é minha realeza
Surge a cada manhã firme e tesa
Tristeza de mim é indissociável
Surge a cada manhã assim palpável
Tristeza é minha enquanto eu existir
E quando eu me for não fique triste
Pense não ser mais triste
O ser que agora não mais existe
Tristeza também tem sua beleza
Lágrimas brilham
Enquanto os dias nos humilham
Comida na mesa
Combate uma tristeza
Mas não a outra
Por dentro da roupa
Por dentro das ideias
Prende como selas
Fecha as janelas
em seguida que começou o governo Bolsonaro, pensei que seria uma boa ideia, venderia bem e ficaria famosa a pessoa que catalogasse cada frase, cada hipocrisia, cada desmonte, cada retrocesso, cada mentira, cada crime em andamento - e fizesse um livro. sucesso histórico.
mas eu mesmo creio que não conseguiria ler. relembrar cada angústia, cada raiva, cada desesperança gerada em tanta atrocidade, tanto ódio, tanto ataque, tanto descuidado, tanta negligência.
e diferente de outros registros ou períodos históricos que apenas imaginamos ao ver os relatos, no bolsonarismo vimos as mentiras em transe, o golpe em andamento, as atrocidades contra nossos próximos, contra irmãs e irmãos brasileiros, em desmontes, ataques, falta de ar, invasão de terras: destruição e terra arrasada.
Também vai me bater aqueeele
Aquele desespeeeero
Quando mais ou quando menos espero
Aquele desespero
Éééééé
É o que menos quero
Mas grita na cabeça como um berro
Torna tudo falso, só é vero
Aquele desespero
Como um chamado do clero
Como um ataque anti aéreo
Chega pra me tirar do sério
Pra mexer na tranquilidade zero a zero
O zen vai logo pro espaço
O maço é enrolado num amém
Porque bateu logo o desespero
O erro é uma neura do além
Clemeeeeencia
Peço um pouco de paciência
Pra dentro da minha cabeça
No naufrágio das ideias
Êxodo da minha Judéia
Pra voltar todos correm
Mas o naufrágio das ideias
É uma sentença séria
Centenas não retornam
E assim tantos sofrem
É quando bate o desespero
Isso tem nada maneiro
É janeiro, é fevereiro
Quando vê já é dezembro
E você menos jovem
Veeeeeem, vem que vem o desespero
Como um grito que é liberto
Quem não tá desesperado
Por favor que fique esperto
Pode ser próximo trem
Há vários tipos de escritores. Os que relatam dramas. Os que rebuscam prosas. Os que abrem caminhos pela poesia. Os que relatam cientificamente, biologicamente, astronomicamente e outros termos acompanhados do mente. Os que constroem ficção bem ficcional. Os que constroem ficção bem apoiada no mundo existente. Os que panfletam politicamente. Os que se inserem. Os que se autodiagnosticam. Os que observam as lamúrias e chagas nos outros. Escritores por uma causa. Escritores por uma valsa. Por um sonho de. Escritores que descrevem seus sonhos, acordados ou dormidos. Escritores que inventam mundos por ação. Escritores eróticos. Escritores debochados. Escritores paisagistas. Escritores de criações estritamente psicológicas.
E quem sou eu no meio de tantos tipos? Espero me apresentar com um pouco de cada. Não bato na porta com apenas uma proposta. Recuse meu verso e tento uma prosa. Um outro verso. Um inverso. Uma contradição. Um contrargumento. Contra ti ou contra mim mesmo. Com o perdão do trocadilho, um novo universo. Une versos. Verídicos desconexos. Vereditos anexos. Créditos e débitos no cartão da vida. Curativos e feridas. Chegadas e despedidas.
Espero ser um pouco de cada. Cercado pelas paredes e pelo nada. Pelas batidas extasiadas que meu coração por vezes abdica. Espero ser um pouco de cada e seguir as dicas. As pistas e iscas de meus professores antecedentes, antepassados, diante do ausente e do presente, militante combatente, guerrilheiro entorpecente, pássaro e serpente, ente dos mais queridos, por vezes na cova dos inimigos. Sou e estou contigo. Meu bravo ou mesmo breve amigo. Te, ti, contigo. Não sei se consigo, mas tento. Atento aos mais breves movimentos, brisas e ventos, verões laranjas e invernos cinzentos, cinzeiro das pontas que se apagam, do mar das águas que alagam, das páginas que alargam meus sentimentos.
Espero ser mais do que parecer. Posso parecer ser de cimento. Mas sou o mais frágil pré-sentimento que em flor se abre e às vezes não cabe, ou às vezes só se vê em lente de aumento. Aumento o rebento de meus rebentos, minha rebentação mar a dentro de ondas, de sondas espaciais e especiais, zonas urbanas e rurais de meu testamento.
Espero. Mas enquanto espero ergo. Ermo. Com o cedro na mão de meu triste reinado. De minhas terras e pedaços arrasados, de sentimentos irados, pensamentos pirados e trabalhos a serem arados. Gado. Não peço que sejam, nem sereias nem aqueles que rastejam, talvez com que eu beba uma cerveja, talvez nem isso seja o combinado. O comboio armado, o combo formado pelo que fui e pelo que serei. Se rei for, ser rei do quê? Do quê serei? Espero por algo que ainda não sei.
É noite e a chuva dedilha a copa das árvores no bairro da Cidade Baixa em Porto Alegre. Entre os milhares de cenários possíveis, imagino este, na reflexiva noite descrita. Se pensam nos acertos e nos erros da vida. Mais nos erros do que nos acertos. Quem acompanharia minha mãe na moradia em Santa Catarina dá volta. Minha tia e minha vó retornam para o extremo sul, para cidade onde nasceram e devem vir a morrer um dia, provavelmente minha vó antes cronologicamente, gritariam as estatísticas se convocadas fossem.
Na viagem que descrevo para os rumos de acá, noto um caminhão de lixo vazio a trafegar na estrada, longe de cumprir suas principais atribuições naquele momento. Vazio, mas enfeitado para o Natal. Dois pequenos bonecos de Papai Noel na traseira do caminhão, com suas roupas avermelhadas e suas barbas proporcionalmente longas. Com olhares singelos a esperar o depósito de lixo mais tarde. O motorista não demonstrava grande sentimento quando ultrapassado por nosso carro. Um olhar distante e a boca, a dizer a verdade, levemente voltada para cima, uma raridade, mesmo nesses tempos de final de ano.
Em um posto de gasolina na região metropolitana da capital, uma ambulância pertencente ao município de Eldorado do Sul ganhava um banho de mangueira. Dois sorridentes homens a banhavam e falavam sobre futebol. Ouço apenas o nome do camisa 10 brasileiro da última Copa do Mundo. Um camisa 10 que passou longe do desempenho de pelo menos outros três 10 no Mundial: Messi, Mbappe e Modric, os Mm's.
A ambulância recebe a água e mais tarde também vai receber o que justifica suas principais atribuições. Pessoas em maior ou em menor desespero, a depender do problema físico e do estado emocional pelo qual passam. As pessoas são diferentes e reagem de formas variadas. Os motoristas devem tentar estar com os olhares tranquilos dos bonecos ou até o leve sorriso de indicação para cima, como estava o motorista do outro veículo oficial, o caminhão de lixo. Os que lavavam a ambulância pareciam deveras descontraídos para exercerem essa função. São situações que nos surpreendem, mas meu julgamento é bastante inusitado e creio até desnecessário.
Na chuva que me goteja e lava a janela, a trilha sonora que me põe atenção. Estamos nessa época reflexiva dos acertos e erros, da troca de ano. Digo para ela que vamos para o terceiro ano juntos, imitando o jornal impresso que permanece em circulação diária em nossa cidade. Ele começou no século 19, atravessou o 20 e a duras custas segue no 21. Na propaganda que lançaram há uns anos, é um diário em cobertura de três séculos. Então assim convoco nosso relacionamento à ocupação de três anos, mesmo sendo inferior a um ano e meio.
Nessa época reflexiva, no momento penso nos rumos de minha família, pessoas que vão e voltam, que retornam ao extremo sul minha tia e minha vó. Meus pais em Santa Catarina ficam mais solitários. O casamento de muitos anos, a casa que acumulou móveis mas se esvazia inevitavelmente na povoação do intransponível silêncio. A comunicação em falta. A incomunicabilidade. Os filmes italianos de Michelangelo Antonioni a focar nisso. O silêncio prolongado, os pingos da chuva intercalados e resistentes à janela. O silêncio como a chuva se renova. É muita chuva nessa chamada primavera a poucos dias do verão.
Não se percebe o quanto obedecemos as escolhas quando se é mais jovem, porque quando se é mais jovem geralmente o caminho segue mais por uma linha reta. A escola avança ano após ano até o término do ensino de nome médio. E depois o terceiro grau ou a rotina do trabalho. As escolhas aumentam. O mínimo poder de compra adquirido lhe assegura escolher algumas embalagens e menos ainda conteúdos. Você vive uma viagem de hiperlinks pela cidade ou pela internet. Você traça um caminho entre a farmácia e a padaria e quer otimizar tempo. Mas chega na casa vazia e se depara com a incomunicabilidade e o silêncio. E talvez com algum filme preto e branco de Antonioni. Ou com os pingos da chuva fazendo trajetórias inesperadas enquanto deslizam até onde for possível.
Duas horas da manhã e meu cérebro não descansa. Um vagabundo - ou mais - cruza a rua e importuna quem esteja acordado ou de sono leve. Acho que apenas suporto essa cidade. Que no fim das contas não é tão diferente de outras. E em todas elas eu seria obrigado a me encontrar comigo.
O caminho de desistir sempre é bastante curto. O de prosseguir não é tão longo. Tudo cabe em uma vida. Há vidas de vários tamanhos.
No fim das contas acredito em minha irmã e que pode haver punição à alma dos suicidas. Os espíritas afirmam isso. E também afirmaram que eu necessitava de um psiquiatra. Ou então os presentes na sessão - em que eu estava ausente - mentiram para mim. Mas minha irmã, abilolada ou demasiado inteligente em algumas questões, afirma com segurança sobre as almas. Escolho manter a minha intacta. Às vezes com motivos terrenos o bastante. Às vezes, na falta de algo melhor, pelo depoimento de minha irmã.
Voltava de ônibus e prestava atenção ao assunto que me era inevitável ouvir. Um rapaz e uma moça falavam sobre concursos a serem feitos. Depois mais alguém se juntou à conversa, piorando minha realidade enquanto ouvinte. Detestei a forma como abordavam os planos de carreira. Eram centrados unicamente no salário. Praticamente só falavam em números, em cifras. Quanto se conseguiria tirar, quanto poderiam evoluir salarialmente. Números e mais números. Algoritmos retirados sabe-se lá de qual embasamento, algoritmos que surgiam com a imprecisão que os algoritmos não sugerem.
Certa vez li que na França é falta de senso comentar sobre (seu ou outros) salário com outras pessoas. Não sei se é verdade essa forma, essa cortesia francesa para repelir esse chateador assunto. Mas concordo com quem pensa assim. Hoje sofro com a realidade de não possuir um salário digno para minha existência. Meu padrão de vida em nada se encaixa no dinheiro que recebo, de forma que recebo o auxílio de meus idosos pais. Caso eu tivesse um salário mais elevado, não falaria sobre, sob a fiscalização e a aplicação de minha própria pena ao constranger os demais. Ou simplesmente pelo assunto não tomar contornos de meu exigente interesse. Já no fato de eu não ter o tal salário, eu, pobre diabo, quem saio constrangido. Apenas escutava a conversa animada dos futuros concurseiros esperando ansiosamente para a parada de algum deles ser nosso próximo destino, para cessar aquele falatório conflitante com minhas ideias.
Pouco me interessam desses cargos que não vou me candidatar. Aliás, os concursos eliminam a quase todos, com exceção da exceção. O vencedor garante a estabilidade. Todos os demais seguem zumbis a vaguear em busca do próximo concurso em alguma desconhecida no mapa cidade interiorana. Ademais, ms irritava a forma como tratavam empregos burocráticos que por si só já se demonstram maçantes. Mas para piorar o debate era apenas centrado no plano salarial. Nem sequer debatiam os benefícios ou as agruras de determinadas profissões a respeito das reais aplicações e implicações delas.
Falavam de tirar 5 mil limpos. Falavam do custo de vida inviável com 1.500. Calculei com o que posso fazer. Continuei apenas ouvindo e com o olhar direcionado para o lado de fora da janela do ônibus. Queria estar distante na rotineira observação urbana que faço a partir das laterais do coletivo, mas fiquei malogrado minutos pelas matracas.
Depois falaram mal da docência. E pensaram a carreira de professor também a partir do salário. Reduziram uma profissão tão complexa, tão edificante, tão desafiadora, tão enriquecedora a partir da troca de conhecimentos e experiências para uma pobre questão salarial. A profissão de professor que deve sim ser debatida e mais valorizada e não rechaçada de forma rasteira, unicamente a rejeitando porque de fato não paga bem ou não atinge o que pensam por custo benefício. Depois investiram para possibilidade de um emprego na política - "onde poderia mandar". Tá bom. Mandar, criar leis e ter assessores. Agora que me cai a ficha do desejo, da sede de poder que move os humanos. O poder está no dinheiro. O poder financeiro e as portas que se abrem a partir dele. Tudo pelo poder, não pelo prazer, não pela jornada, não por outras coisas, o lúdico que poderia guiar nosso cotidiano. Apenas o dinheiro como farol. Ou o poder de subestimar, subordinar e outros sub a outros humanos. Ser chefe e ter funcionário. Ter dinheiro e de alguma forma escravizar o conseguinte dependente. O sonho do opressor, andando de ônibus bancos atrás do meu, oprimir.
Felizmente em algum momento a conversa acabou. Ou até eu tomei a iniciativa de saltar uma parada antes. O sol ainda brilhava lá fora e minhas ideias buscaram novos bosques para se sustentarem. Quando não podemos vencer o assunto, a possibilidade de puxar a cordinha. Do ônibus, para descer antes.
Caminhada rápida para buscar itens básicos de sobrevivência (frutas) no calor de novembro. Fui pelas quadras que agora tão bem conheço, deslizando a cada bloco até a fruteira que eu esperava encontrar aberta. Mas não encontrei. Tive que fazer o retorno disfarçadamente para meu diminuto público como se ali não fosse meu destino inicial. Não me permito essas pequenas vergonhas, embora sofra hoje com as maiores. Ou o nervo de minha maior catástrofe não se chamaria pudendo.
Enfim, contornei por outras quadras, arriscando trajeto que ainda pouco tenho conhecimento, desviando pela Rua Três de Maio. Ela apresentou calçadas irregulares como as outras, com uma subida pouco íngreme e o calor cobrindo a rua fortemente, como uma capa aprisionadora. Pelo caminho, aos fins de semana, é normal topar pelas ruas com catadores de papelões ou plásticos. Procuro tentar identificar o que cada um carrega em seus carrinhos de ferro ou charretes. Observo que alguns carregam apenas o saco, em quantidade bem menor que seus companheiros. Outros batalham em carregamentos cheios, sol a sol, chuva a chuva. Lixeira a lixeira. Já os vi conversando sobre se o trajeto em questão valia a pena ou seria perda de tempo. Interessante a comunicação. Um ajuda o outro. Não adianta passar por onde outros vários passaram. Mas lixos e luxos se misturam também.
Medi meus passos na hora de passar por outra venda. Calculei que infelizmente chegaria quase emparelhando ao cidadão de carrinho quase cheio (ou seja lá a qual limite ele se submeta na árdua luta diária). Entrei finalmente na venda e perguntei em voz baixa sobre as frutas, que me foram apontadas uma a uma até completar minha pequena missão. Enquanto aguardava que o senhor de cabelos grisalhos me servisse mais um copo de salada de frutas, o trabalhador que passava simultaneamente à rua havia desaparecido de minha vista. Não voltaria a encontrá-lo nesta ocasião, mas possivelmente em outra, pelo bairro revisitado.
Em posse das frutas, dei o dinheiro, recebi o troco e segui minha breve caminhada com o destino de volta. O calor estava de rachar e eu certamente não aguentaria grandes distâncias, com o menor que fosse o carregamento a suprir. Ao cruzar pela esquina da Almirante Tamandaré, onde foi oriundo o importante movimento Sofá na Rua, avistei lá para baixo da quadra um par de pessoas, sem conseguir identificar de quem se tratava. Poderiam ser crianças brincando, poderiam ser usuários de droga à luz do dia, ou somente adultos desiludidos, cabisbaixos, sentados ao meio fio a refletir. Todas as possibilidades, embora antonímias, me evocam uma tristeza, uma espécie de nostalgia.
Caso sejam crianças, lembro que minha infância não foi nas ruas do centro ou em rua alguma. Muito mais tempo eu passei em casa, com saídas ou na companhia de meu pai para jogar bola, ou na praia, mas nunca muito distante da casa de meus tios no Balneário dos Prazeres, vulgo Barro Duro. Esse distanciamento das ruas causa-me essa nostalgia. Não tenho mais esse tempo que passou, jamais o teremos de volta. As crianças ainda terão, sabe-se lá a qual custo futuro nesse mundo incerto. Mas meu tempo foi esmigalhado, sobra-se nada entre os dedos das mãos. Tudo que pode ser evocado desse tempo está no campo do imaginativo.
Outra possibilidade levantada de quem seriam aquelas pessoas ao longe no semi-abrigo do sol foi de que se tratavam de usuários de droga. Proposta oposta ao povoamento da solitária e desértica rua com crianças. Os usuários de droga tem-se falado - não tenho visto - andam por espaços na rua Benjamin Constant. Mas não só por ela. Recordo que na própria Três de Maio, em direção ao bairro ferroviário Simões Lopes também estão. Procuram lugares isolados para seus cultivos e usos. Podem procurar vítimas, para saciar seus vícios. Não seria bom dividirem o espaço com as crianças que também especulei. Apostas diferentes.
O terceiro grupo eu mais me identificaria, entre os adultos simplesmente cansados ou desolados, apenas tirando um tempo para organizarem os afazeres, as ideias ou a vida como um todo. Sentados à beira da calçada, mirando os próprios sapatos gastos. Mirando os gastos em contas de cabeça ou de acordo com o que lhe sobra dos bolsos. A vida adulta talvez não seja tão mais difícil do que a imaginada quando se tem a idade dos de primeira hipótese. Mas é um acúmulo de situações com as quais lidar. Ainda estou estudando, preciso comprar o que me alimenta, o que visto, o que uso como produto de limpeza, corporal ou do apartamento. Mesmo os mais pobres, ninguém se imagina apenas catando papéis ou plásticos pelas ruas desertas de um fim de semana no centro da cidade, mas esta é a realidade de milhares, talvez milhões de brasileiros. Eles aumentaram pelas vias urbanas nos últimos anos, pessoas que perderam casas ou tiveram que ir à caça de como se virar no cotidiano, atrás de trocados que já não servem e precisam notas de dinheiro. O que se compra hoje em dia com 50 centavos? O que se compra hoje com dois reais? A nota de dois reais anda tão surrada quanto as desaparecidas de um real, as verdinhas substituídas pelas generosas moedas.
Hoje crianças brincam, amanhã também serão adultos desolados. Alguns perderão bondes pelo caminho e serão os usuários das ruas desertas em busca de vítimas, em busca de como saciar os vícios criados. Mas mesmo os não viciados precisam dar um jeito nesse estranho vício que o corpo possui em se alimentar, nessa mente viciada em tentar ser alguém, em traçar e conquistar objetivos nesse mundo complicado, de sonhos que se diluem, de perguntas que mudam e nos deixam com respostas insatisfatórias em nossas mãos suadas, marcadas e a cada dia um pouco mais calejadas com as agruras enfrentadas. A distância entre o que se sonhou e o que se viveu, as folhas que caem, as flores que murcham, os cães e as pessoas sob a terra. Os olhos baixos, o vento que assovia, o andarilho que passa distante, pessoas que fingimos não ver. Pessoas que também não nos veem, pessoas que nos ignoram, pessoas que fingem não nos ver. Pessoas que cruzam por nós em tardes de calor em novembro.
Pessoas que descascam frutas, pessoas que também são as mesmas que servem o troco do dinheiro que circula de mão em mão. Crianças que brincaram de ser polícia ou ser ladrão e mais tarde algumas delas prestarão concurso para serem policiais, mas outras serão ladras mesmo. Alunos que viram professores, pessoas que jogam o lixo fora e talvez no futuro tenham de catá-lo. Pessoas que separam o lixo e pessoas que não separam. Pessoas que jogam coisas proveitosas fora e pessoas que esgotam as possibilidades de consumo dos recursos, de reutilização. Pessoas que nos chamam atenção, mas jamais lembraremos ou jamais saberemos se realmente já a vimos ou se é a primeira vez, porque certamente as cartas se repetem entre as ruas atravessadas em sinais de pare, em carros freados e sinais vermelhos. Rostos marcados e rapidamente desmarcados. Rostos com marcas que somente a própria pessoa saberia explicar, entre a violência, o sol, o tempo, o trabalho, as rugas, as lembranças, as fantasias e as desilusões. Rostos voltados para baixo e que me impedem de vê-los enquanto passo pela Rua Almirante Tamandaré seguindo pela 15 de Novembro, me brotando dúvidas insaciáveis e pouco relevantes. Quando o sol está muito forte, tendo a sair sem óculos e ficar na penumbra de respostas que a quase todos pouco importam.
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| Rua Almirante Tamandaré, local de nascimento do Sofá na Rua e deste singelo texto Foto: Divulgação / Sofá na Rua |
Cheguei diante daqueles portões. Perguntaram meu nome por formalidade. Acho que eles sabem tudo. Conferiram meu registro geral na lista deles. Deixaram-me passar. Do outro lado daquelas elevadas portas estava pronto para reencontrar os poucos que conheci bem e também haviam partido. A maioria de mais velhos, bem mais velhos.
Já tinha ideia de algumas reações, que se confirmaram ou não. Tia Hildegart havia sofrido muito para partir aos 80 que eu chuto terem sido sete. Ela foi se apagando lentamente. A mente e o corpo lhe escapando dos domínios. Mas restituiu sua boa forma. Estava saudável e mais jovem até do que quando a conheci na mais tenra idade. Quase não a reconheci. Mas ela obviamente me viu, um pouco modificado pela barba de crescimento falhado e os óculos que eu mantinha a dúvida entre usar ou não.
- O que está fazendo aqui? - Ela me inquiriu.
Certamente não estava pronta para me ver naquela ocasião. "Pois é", apenas lhe disse.
- Mas é tão cedo para ti. Que absurdo!
- Foram 27 anos. Eu já não estava bem.
- Vivi mais do que seu triplo.
- Também tenho feito muitas contas.
E realmente meus cálculos indicavam que eu havia pelo menos vivido por dois cachorros. São as situações da vida. Ela me abraçou e nos olhamos nos olhos. Um primeiro reencontro familiar.
O irmão de titia era muito mais indiferente. Gastou o dinheiro de minha bisavó na promessa de cursos e formações. Curtiu boa parte da vida em um clima de descompromisso. Acabou a vida muito mais rejeitado. Usou finanças que poderiam ter melhorado a vida de tia Hildegart e minha avó, irmã deles dois.
- Deveria ter aproveitado muito mais - disse ele, com a voz recuperada de uma forma que eu jamais havia escutado. Ele passou por cirurgias de garganta e sistema respiratório que fizeram com que sua voz sumisse, respigando somente filetes de suas intenções de fala. Agora eu o escutava.
E balbuciou mais algumas prepotências que eu quase desejei que perdesse a voz mais uma vez. Estava de bom tamanho aquele reencontro. Lembro que sofri um pouco sua morte, mesmo distante e em uma situação precária a que se encontrava. Faleceu na região metropolitana da Porto Alegre eleita por ele como cidade de sua maior vivência após o nascimento em Pelotas. Aos cuidados de uma pessoa paga para tal função, coube às filhas prepararem o conseguinte velório. Minha mãe e minha tia foram a Porto Alegre em uma ocasião em que minha mãe conheceu o então Olímpico Monumental de outro ângulo, do alto da funerária, casas comuns no saudoso bairro da Azenha e arredores. Estranhou aquele estádio azulado um pouco distante, diante de si pelo vidro como se fosse uma singela maquete de brinquedo.
Tio também era gremista, contrário à minha tia-avó e minha avó, coloradas de olhos castanhos. Ele tinha muito o hábito da leitura e, sapiente de meu apreço também pelos escritores, me encaminhou para sua biblioteca pessoal paradisíaca, a qual revelou que para mim sempre estaria em portas dispostas.
Da minha família, bem recente foi o reencontro com minha madrinha, vítima de um câncer que se alastrou e a comprometeu para eternidade. Passados os 70 e nas condições precárias de seu corpo, ela também havia retomado sua desejada juventude, tão saudosa para ela. Minha madrinha costumava mentir a idade ou ao menos escondê-la. Escamoteá-la também poderia aqui ser o termo empregado. Viveu para fora e sempre cuidou dos pais dela. Teve uma vida até então reservada, apesar das saídas e do apreço pelo álcool, algo que nunca escondeu. Socialmente, como se emprega nas lábias populares.
Me recebeu entre a euforia de rever-me e o lamento da precocidade. Diferente deles, todos finados na terceira idade, eu ainda não tinha década de vida adulta.
- ó, meu afilhado - lhe cabia exclamar a dinda. Queria saber logo o que passou e não passou. Eu, sem graça e esquivo, tinha o que lhe confidenciar e o que esconder. E queria mesmo era sair desse ambiente familiar um pouco asfixiante, ambiente o qual logo eu poderia retornar, já que estávamos todos ali transpassados os portões. Queria descobrir sobre as demais pessoas que conheci.
Mas logo também perceberia minha volta aos entornos familiares, pois das demais pessoas quase nenhum contato tive nem pretendia ter. Voltaria eu para o melhor humor de minha tia-avó Hildegart após ter visto os dois lados dela, em que predominava o humor mais azedado com os convivas. Retornaria com gosto para o convite da biblioteca de tio Hildebrant.
De Santa Catarina também tive tios que partiram. Os bem-humorados gostavam do álcool. Um deles bastante saudoso de minha parte, justamente o mais jovem de nascença daquela fileira de tios. Ele até recuperou um cabelo desconhecido de quem só o viu na idade adulta. As entradas preenchidas. O sorriso no rosto era o mesmo. As piadas e os deboches também. Era bom revê-lo dessa maneira.
Uma dessas tias, a que morava em Laguna e daquela cidade havia nos deixado um tremendo vazio ao passarmos pelo ou cerca do bairro em que morava, essa havia reencontrado seu marido, amor de sua vida. Eles tagarelavam bastante. Era o esporte de ambos. Falavam de deixar o interlocutor torto de tamanha verborragia. Agora novamente juntos poderiam exercitar o falatório na revista a amigos do casal e também conhecendo novos ocupantes daqueles nimbos esvoaçantes.
Um sentimento me acossava tristeza, o fato de ter sido o mais jovem pelas famílias de pai e mãe a morrer. O lanterninha. O Xavante na Série B 2021. O Juventude na Série A 2022. Nem passar dos 30 - no caso, para eles, pontos - era a piada que eu utilizava na época. Nos pontos corridos realmente acumulei muito pouco de vivência, embora tenha ido a uns shows, namorado ao fim da vida e presenciado alguns eventos esportivos, mais vistos do que jogados.
Para mim, era inútil comparar minha curta vivência com as de meus antepassados, com as pessoas de gerações anteriores, as primeiras que encontrei ao cruzar os enigmáticos portões. Queria eu interagir de alguma forma com os que presenciei em escola e vivências juvenis, mas poucos eram, na verdade, os que conheci e haviam partido.
Vitor era um dos que incomodavam na escola. Nome comum na boca dos professores e até de conhecimento de coordenação e provavelmente direção - embora a idade avançada das diretoras impedisse que se dedicassem a finco às questões de cada insubornidado aluno. Vitor era um menino negro, como haviam outros meninos negros na escola, principalmente naqueles últimos anos em que estudei. Não chamaria tanta atenção em uma lista de destaques entre os estudantes, pois, embora matreiro e provocativo, haviam outros mais matreiros e provocativos, creio. Ou me equivoco. Pois melhor lembrando é possível que ele encabeçasse uma lista semelhante à dessa hipótese. Fato é que não se pensa um sujeito desses morrer tão cedo. Mas as estatísticas estão aí e suas escolhas contribuíram ao fatal desfecho. O envolvimento com drogas posicionou Vitor nesse ranking de um dos primeiros a nos deixar. Eu já não sabia mais sobre seus paradouros, mas confesso que também não foi a maior emoção que experimentei, saber que esse havia partido e por conta do motivo descrito. Envolvido com o tráfico, foi baleado pelos infratores que estavam dentro de um veículo. Cena de filme. Vidros baixados, cano devidamente posicionado enquanto o vidro desaparecia no pequeno vão que lhe cabe. Onomatopeias, talvez algun escândalo na vizinhança. Aquelas escadas pintadas em meios fio de verde, e com a calçada propriamente cinza do concreto, foram tingidas do vermelho-sangue. Vitor partiu muito cedo. O vi de relance. Estava de boné pra trás, sorriso não mais metálico, olhos arregalados como bem me lembro. Era novamente o Vitor dos tempos de escola. Não sei se me reconheceu, pois não éramos de mesmos convívios.
Outro Vitor, de primeiro nome João, também havia morrido durante o período da escola. Este nos pegou de surpresa. Eram férias e o garoto branquelo de topete e poucas palavras, estava nos campos com sua família. Acabou dizimado em um episódio o tanto quanto estranho. Ao manobrar um trator, acabou tombando roda em um buraco e não conseguiu manobrar o veículo de volta. A capotagem o feriu gravemente e dizem que a própria expressão facial não serviu para o enterro. Uma tragédia que mobilizou a comunidade, mesmo que ele talvez não estudasse mais em nosso espaço para o ano seguinte. Era tido como um bom jovem. Repito que de poucas palavras e, para aqueles mais arteiros, servia de obediente para planos mais ousados. João tinha alguns amigos que ainda devem lembrá-lo mesmo década depois.
Outro caso que aqui recupero é mais recente. Um ex-namorado de irmã de amigo. Foi encontrado assassinado em uma estrada da cidade. Foi encontrado dias depois de seu desaparacimento. Sempre aquela história. Alguém passava pelo local, sentiu o cheiro que se alastrava por metros que já deviam ultrapassar dezena. Um pouco de investigação e eis o corpo. O reconhecimento. A notícia que paira nas páginas policiais de nossos jornais impressos locais. Este jogava futebol muito bem, pelo menos para época. Mas também recordo que jogava conosco, que éramos mais jovens. Portanto, ele se sobressaía. Demorei a associar o nome quando o vi em notícia pela internet. A foto bateu um pouco com minhas lembranças e eu já não tinha mais dúvidas. Lamentei o ocorrido, ele que eu nunca mais havia visto. Sempre chocante redescobrir pessoas em ocasiões caracterizadas por um ar tão denso e pesado. Ao mesmo tempo, não cometerei a hipocrisia de ocultar que também é uma excitação, uma adrenalina se sentir parte de um ocorrido dessa magnitude. Também é um momento em que as pessoas abraçam os seus, agradecendo pela atrocidade não ter passado com nenhum deles. Poderia ter preservado o nome de todos, mas pelo menos deste preservarei. Mas, ao que me consta, ele havia passado, sim, a casa dos 30 anos, diferente da minha pessoa.
Obviamente vamos passando pelos metros que nos separam do portão dos vivos e vamos relembrando. Outro cujo nome iniciava com P era também muito bom jogador e posso afirmar que de atuações contra pessoas de sua mesma faixa etária. P ainda é relembrando por amigo(s) em comum nas redes sociais, talvez passado seu aniversário de nascimento ou de morte. Joguei bola com eles em algumas oportunidades. Eram mais velhos, mas confiavam em meu trabalho de guarda-redes. Jogávamos muito no Ginásio do Spieker, finado complexo esportivo - sendo bondoso - na baixada da escola estadual Assis Brasil, com entrada pela Avenida Juscelino Kubitschek. E que saudade das boas peleias que não voltam mais e do tio, de aspecto boliviano, que cuidava a quadra, recebia os trocados e também fazia ligeiros e protocolares trabalhos de limpeza no espaço.
P era um de nossos melhores jogadores. Agora misturo completamente a memória com os acontecidos. Não gostaria de ser injusto. Mas pode ter sido uma internação por drogas ou pode ter sido apenas de sintomas psiquiátricos bastante agressivos. Pode ter sido também separação familiar, problemas com envolvimento, como com padrastro, por exemplo. Posso misturar todas essas sentenças até a derradeira ocasião que o vitimou com um tiro policial na cabeça. Ele estava atendido em um hospital e foi agressivo com enfermeiro. O caso voltaria para ações policiais e eles não tiveram dúvida, na hora H, em disparar. Com a bala na cabeça, perdíamos P definitivamente para partidas que nem cogitávamos jogar, mas hoje sentimos falta. Seus amigos mais próximos, sem dúvida, choraram essa perda. Eu novamente fiquei em choque, novamente atormentado pela estranha excitação que exponencia essa sensação de conhecer e fazer parte, de alguma forma, da notícia. Ter algo a acrescentar, ter algo a relatar, a compartilhar com outros que ficaram sabendo ou que só ficaram sabendo justamente porque, em algum momento, colocamos esse assunto à tona.
Mais do que dele, de minha parte, relembrava nostalgicamente esses bons momentos. Quando me sentia útil na função de guarda-metas. Quando era requisitado, às vezes insistiam, pela minha presença. Mas eu sempre me sentia meio deslocado, independente do grupo, na hora das conversas, tanto pré como principalmente pós-jogo. Não fazia parte de nenhum grupo de forma mais fechada ou definitiva. Mas gostava de me sentir útil, de imaginar as partidas como grandes decisões, de ficar relembrando meus lances. Rememorando quando a adrenalina baixava e voltava para casa. Colecionava roxos nas pernas, dores e boas sensações provindas delas. Colecionava defesas, atacantes que saíam decepcionados, às vezes surpresos por eu conseguir ter agilidade ou inteligência para buscar onde jogariam a bola. Era sempre um prazer. A vibração da bola colidir contra seu corpo, contra sua perna, contra seu braço, até defesa de cabeça que eu já havia feito e, comum que era por vezes, sofrer uma bolada no rosto, justamente posicionado onde seria dado o arremate a ser bloqueado. Faço voltas assim relembrando de minha passagem, para chegar ao ponto que a turma de P havia inovado um apelido para mim: Van der Sar. Um goleiro que gosto em um clube que detesto, o Manchester United. O holandês realmente possuía história, embora tenha também bloqueado o caminho vencedor do meu Grêmio em 1995.
Outros nomes eu havia recebido anteriormente, entre Victor, do Grêmio, futuramente do Galo, Lehmann, o próprio Van der Sar e até De Gea, outro do United, até pendurar as luvas. Passei os últimos anos de minha vida saudoso desses jogos e das defesas que praticava, e de como eu conseguia me movimentar de forma satisfatória. Ali, naquele céu, ninguém me conhecia o suficiente para ressuscitar tais momentos e eu teria de esperar mais anos por isso. Tampouco sabiam de minhas habilidades descritivas e inventivas de analogias, tais quais as que aqui presto em carta de minha chegada ao outro lado dos portais gloriosos - que tanto nos prometem. Assim foi minha chegada ou assim será, ou ao menos assim espero que seja, pois minhas malas parecem cada vez mais arrumadas para o inevitável destino.
Nós dois juntos num ap da Cohabpel
A avaliação desse mundo é uma lua de mel
Me apresento, não represento nenhum papel
Lugar no mundo não encontrei melhor
Daqui ao céu
Encontrei minha cura é nos braços seus
Muito além daquilo do que se procura
A redenção em atos em uma só figura
A proteção como uma bolha dessa vida dura
A diagramação ideal, a arquitetura
O remédio, o remar contra as agruras
Nós dois juntos num ap da Cohabpel
Com você, o sabor, o melhor do mel
As estrelas você vê, me ensina o melhor do céu
A constelação na visão pelo quarto andar
As gatas no jardim, grama pra cortar
Eu procê, cê por mim, é melhor assim
Noite tem, quando vem e não tem mais fim
Posição, procissão, profusão
Proeficiência é a questão em rimar ou não
As estrelas iluminam a escuridão
É você que me anima, mia arrecadação
Felicidade que encontro em cima do colchão
Num almoço, num jantar ou fora de hora
A prisão do teu olhar vai que me devora
Ao meu lado seu casaco és minha senhora
Nós dois juntos num ap na Cohabpel
Nós dois juntos num ap na Cohabpel
Trago a pasta, tiro a máscara, tiro meu chapéu
O mundo inteiro se afasta desse aluguel
Barulho lá na praça, moto se perdeu
Mundo existe assim distante como é o céu
Pudesse alcançaria ao alcance meu
Comparar pra provar que é nada ao seu
Seu olhar, seu luar, tão melhor que o céu
Ao redor, o sabor, a lua de mel
Nós dois juntos num ap na Cohabpel
Hoje a Terra passou de 8 bilhões de pessoas
E nosso ser / nossa voz ressoa de forma única
Ou não calça a mesma ou não veste a mesma ou não mede a mesma túnica
Não tenho mais muito tempo
O resto da humanidade ainda tem
Mas não sou o resto da humanidade
Sou um resto de mim mesmo
E nada além
Fotos de Pelotas 1x1 Monsoon
E Pelotas 3x0 Três Passos
Pela Copa Tarciso Flecha Negra
No estádio da Boca do Lobo
Fotos de Henrique König
Roma, Cidade Aberta. Filme de 1945. Parece muito propício para o que vivenciamos em 2022. Para o que ainda vivenciaremos. O filme se aventura pelas ruas de uma Roma ocupada pelos alemães na Segunda Guerra. Eles investigam opositores em busca de prisões e confissões. A história nos leva até um prédio e uma relação conturbada de Giorgi Manfredi, que vivia naquela construção, mas também vivia ausente. Que iria se casar com Pina, mas também andava com a dançarina de cabaré, Marina.
O personagem que parece tomar o protagonismo para si é o pároco Dom Pietro. Ele coloca os valores cristãos sempre em primazia. Quando questionado de como proceder em determinada situação, encontra uma saída com os ensinamentos de Cristo. É assim em palavras com a conhecida comunitária Pina. É assim até as sentenças finais, para Manfredi e para o padre.
O pároco tem restrições a métodos empregados, tanto da violência dos opressores, quanto dos métodos de resistência (como roubos a padarias) por parte dos acuados oprimidos. Mas Dom Pietro sempre deixa claro que tem lado e talvez os mandamentos se adaptem conforme as ocorrências. O mundo é mais complexo do que escritos absolutos sobre uma tábua.
As crianças também atuam, no melhor estilo de grandes filmes europeus posteriores, como o italiano Vítimas da Tormenta (1946) e o francês Os Incompreendidos (1959). Ou de grandes sucessos internacionais do cinema iraniano. A trama se desenvolve confusa em seu início, mas logo as peças não são difíceis de juntar. Conseguimos identificar denunciados e denunciantes, na atuação mordiscante da polícia alemã, Gestapo.
Além da exaltação de um cristianismo minucioso e portentoso nas decisões e dedicações de Dom Pietro, também habita o questionamento dentro da própria Gestapo e dos nazistas, por parte de um velho comandante beberrão, que justifica que justamente por estar bêbado recorda o que queria esquecer e acaba por dizer a verdade. Relembra missões anteriores e que a Europa tapou-se de cadáveres a troco de uma crença que nem ele consegue concordar mais. Obviamente a fala abala os militares em exercício, mas o procedimento, a máquina, o método não pode parar.
Entre as tensões do filme estão as prévias das investigações, as visitas até a ocupação do prédio, cenário maior da trama. As tentativas de fuga. Os diálogos. As traições entre romance, crenças e patriotismo. Resistência em busca da liberdade.
Para o final, Dom Pietro novamente reluz de protagonismo ao não se preocupar com a forma como pode morrer. "Não é difícil morrer bem. Difícil é viver bem." - Postula o padre, após observar tanta dificuldade de quem batalhou contra a fome, de quem tenta resistir a um regime autotitário e reconhecido até por seus atores como facínora e mortífero. Frases para história do cinema e filosofias para vida de todos nós.
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| Filme é do diretor Roberto Rossellini, mas tem também as assinaturas de Federico Fellini e Sergio Amidei |
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| Dom Pietro Pellegrini, interpretado por Aldo Fabrizi |
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| Anna Magnani tem atuação magnânima |
Podem perguntar porque meus personagens não têm muitas falas. Porque não uso muito travessão ou aspas. É que gosto das falas fidedignas, como exatamente foram. Se não lembro bem, prefiro não arriscar quais palavras foram utilizadas.
Ah, mas e os personagens que invento? Aí também os respeito muito. Não sei se eles diriam com a precisão que preciso decidir no papel. Complicado inventar por eles. Eles são tão independentes...
Voltava pela estrada no norte de Santa Catarina. Vinha no banco de trás de uma condução. Algo que se assemelhasse a uma carruagem em que as pessoas são transportadas em um compartimento, algumas sentadas lateralmente em relação ao cocheiro. Mas vinha eu acompanhado de outros passageiros quando nosso veículo foi obrigado a reduzir. E não só reduzir, mas obrigado a parar. A fila se formava. A vista não alcançava mais o início para frente. Logo não se enxergaria o final, mesmo que a poucos instantes ali percorressem. A inspeção era rigorosa. Ou fingia ser. Os homens abordavam direto ao banco do motorista. Pediam documentos. Trocavam palavras. Às vezes trocavam olhares entre eles e devolviam os documentos. Às vezes trocavam palavras sussurradas entre eles. E talvez não devolvessem o documento. Me acompanhe, por favor.
E assim percorreram alguns carros, mas aparentemente liberavam a passagem de todos. Mas logo eu descobriria que eles retinham pessoas. Por sorte, nenhuma era motorista solitária e a fila de carros assim continuava em prosseguimento, avante. Mas então chegou nossa vez de vasculharem. Fomos interrogados. Meus pares apresentavam a documentação para o policial que insistiu em entrar em nosso compartimento. Naquela invasão de privacidade ele observava os documentos sem maior interesse. Então deteve-se à minha pessoa. Pela simples declaração de meu nome houve um estalo de interesse. Talvez ele tenha mesmo estalado a língua entre lábios, entre dentes. Ali estava algo que procuravam. E eu era este algo.
Tive que ouvir um daqueles corteses me acompanhe por favor. E acompanhei somente pelo favor que me pediam, porque de meu corpo não dispunha vontade alguma de ser encaminhado a mais perguntas. Anotaram o número do qual pertenço de forma escrava desde que criado meu registro geral. Respondi que era gaúcho apenas de passagem breve pelo estado vizinho. Mas eles sabiam um pouco mais sobre mim e sabiam que isso não era bem a verdade. Eu já constituía parte da população, votava ali e saberiam eles que já era parte do censo demográfico, retomado com atraso na região. Em 2020 eu não seria deles. Agora era.
E estava nas garras desses oficializados. Um deles, cabeça baixa de escrivão, boné posicionado praticamente lhe ocultando os olhos, me perguntou mais algumas bomba-relógio, sobre minha orientação em voto e preferências políticas. Não engoliram novamente as respostas ou, se fingiam engolir, logo regurgitariam. Eles sabiam mais do que aparentavam.
Pois logo vi que no trancamento da rodovia os oficializados não estavam sozinhos. Camisas verdes e não obstante amarelas os acompanhavam. Estes fazendo o favor por livre e espontânea vontade de estarem ali em pleno dia de semana, dia útil e mesmo assim paralisando a bendita cuja da economia. Pessoas alegres de sorrisos estampados, de faceirice tentando ser meiga, praticamente com máscaras costuradas à base de botox por sobre o colarinho verde de suas estampas amareladas. Mulheres loiras, homens com alguma rotina de academia, idosos que ignoravam alertas anteriores para permanecerem em casa. Esses rebelados em avalanche bicolor pretendiam atazanar com nossas vidas e cumpriam com o objetivo. Retrasados na estrada, talvez meu comboio prosseguisse com a naturalidade que eles gostariam supor, mas eu estava represado naquele conluio de lunáticos - mais uma vez com todo o devido respeito à lua.
Eles me pediram a identidade novamente e logo percebi que eles se adonariam mais dela do que eu. Esvaziei os bolsos e percebi que nem os últimos halls seriam de minha posse. Uma das abrasileiradas com mentalidade entreguista ao estrangeiro apareceu sorridente, farsante com uma lista de sites. Pediu para que eu identificasse endereços virtuais, dos quais eu desconhecia quase todos. Certamente não era o meu histórico. Mas talvez um suposto histórico em comum. Mas então na página 2 daquele conjunto grampeado me deparei com uma senhora surpresa. Cá estava o nome de meu blog em algum texto provavelmente com críticas nada amigáveis aos marcianos - com o devido respeito à Marte.
Por impulso exclamei e logo percebi que minha identidade estava mais entregue que o gol do título ao Palmeiras na final da Libertadores 2021. Mas tão logo exclamei tentei fechar minha impulsiva matraca e desviar o foco, que eu fiz crescer através de meu dedo, que roçava o papel com o bico do indicador sobre o nome de meu blog. Então tentei disfarçar que na verdade eu teria acessado barra visto o nome do site abaixo. Daquele bloguezinho mixuruca eu nada sabia, nem ideia de quem fosse.
Mas engoli em seco e fiquei torcendo para que os patrulheiros e demais enxeridos engolissem essa. Engoli sonoramente em seco implorando por uma água ou um veneno que me acalmasse ou resolvesse uma saída àquele aprisionamento. Eis que na reza que eu teria silenciosa, a moça morena de camisa amarela havia chegado a um veredito. Risonha como uma assistente de palco na televisão dominical, ela veio conferir o que eu havia mostrado. Com a caneta a sublinhar ela havia revelado que eu era muito bobo mesmo e nem havia precisado de tortura (conclusão minha) para indicar os temíveis segredos.
Qual não foi meu alívio quando ela repassava o papel ainda ao alcance dos patrulheiros mostrando que eu havia participado era do site abaixo de meu verdadeiro blog. Eu na verdade naquela gama de impulsos não sabia se a troca de meu incriminatório blog por outra página desconhecida era uma boa escolha.
Lembrei de meu nome e onde apareciam (em fotos) em meu blog. E lembrei de meu microblog. E lembrei de minha família. E lembrei dela. E recordei o quanto era possível e viável recordar em passagens como um filme diante de meu atônito e embaçado par de olhos. Acho que eu não veria mais eles.
Me acompanhe, por favor.
Aprendi com os roteiros da vida que as coisas podem ser na hora esperada ou podem não ser.
Há coisas ruins que atraem outras e há coisas ruins que vêm de surpresa, quando menos se espera.
Há coisas boas que puxam mais alegrias e há coisas boas que surgem quando tudo parecia perdido, como um incentivo a prosseguir.
Enquanto escrevia essas frases, a gata Melissa começou a imprimir uma bola de pelo para cuspir. A coitada acordou engasgada, mas parece que já voltou a deitar-se confortável. Eu não esperava isso.
Faz muito tempo que eu não faço poesia
E como era
E como seria?
Há muito tempo não sorrio todo um dia
E quem me dera
E quem diria?
Se eu quiser isso aqui é um forró
Como é que pode
Mas tenha dó!
Hoje eu e André levamos um cão para sala
Era aula de latim
Não de latir
Nos seguiu porque queria uma mordida
No nosso hambúrguer
E não nele
Faz muito tempo que eu não faço poesia
Essa eu passo
E volta fria
Há muitos dias não sorrio todo um dia
Mas de que jeito
Anatomia
Há muito espero um ataque fulminante
E vem depois
Não veio antes
Prepara o inferno tá chegando mais um Dante
O quanto antes
O quanto antes...
Escrevo mais uma madrugada envolto de pouca saúde física. Creio que em algum momento terei um ataque fatal que me deixará sem defesa, de cartas postas na mesa. Algum dia não poderei mais escrever aqui. Queria ter chegado aos 30 anos, mas não me parece que será possível. Encaro a proximidade com a minha morte como um processo natural, mas não deixo de lamentar o fato de que ainda sou um pouco jovem para isso. A expectativa de vida na população é entre o dobro e o triplo da minha idade.
Penso que alguns amigos e outros tantos conhecidos estarão vivendo os efeitos do tempo, alguns mais gordos e flácidos, outros calvos. As mulheres também perdem sua juventude. É assim há mais séculos do que temos registros precisos.
Caso não estivesse escrevendo nesta madrugada, estaria assistindo aos desfechos de O Poderoso Chefão em 1990. Desta vez os Corleone se envolvem com Mancini, que força a entrada para família também em busca da filha de Michael Corleone. Os tribunais forjadamente injustos e os dramas familiares me desinteressam, para desespero dos demais críticos ou de quem possa parar aqui. Não é uma sequência de filmes que me despertou, que me deixou atinado. Para além dessa frieza que contrasta com o sangue que ferve pela família, estava mais envolto na atmosfera de algum Scarface, queimando tudo por Miami.
Também aqui queimo as linhas que logo depois posso me arrepender. Mas como comecei sem saber até quando terei a saúde e a condição da escrita, me permito alguns (des)embaraços e exageros. Com a minha vida, para quem desconheça minha condição de saúde, sigo desempenhando mais tarefas do que a maioria seria capaz. Um dia, ou não, isto será grifado. Se eu tiver um obituário como me sonha desempenhar para os outros que partem, minhas atividades serão supervalorizadas, o que contrasta com meu salário mirrado e com a falta de interesse deles hoje pela obra que deixarei.
Talvez infinidades sejam melhores do que eu, mas confesso que onde pus esforço e algum raro empenho, me saí sempre entre os melhores. Desde a prova do IFSul no final de 2009, em que ingressei em 2010 talvez com a ou uma das melhores notas de toda região sem passar por cursinho preparatório. Sem estudar mais do que estudava na escola, calculei meu desempenho como o 15⁰ melhor da região, caso me engane. Sem curso preparatório - nota, em mais de um sentido, do autor.
O vento sopra forte lá fora. Acho que desisto de pensar que significa algo porque o tempo nessa cidade está sempre aprontando. Discuto com ela e vento. Falece um familiar e chuva. Minha tia briga com alguém e vento. Vejo uma cena tensa na televisão e chuva. Gol do colorado e vento. Gol que leva o Grêmio e chuva.
O Inter não vai levar o Campeonato Brasileiro 2022, mas está cada vez mais maduro para voltar a conquistar algo grande. Não podemos dizer que não aproveitamos os últimos seis anos em que isso não ocorreu. Nem estadual levaram. Mas logo levarão. O Grêmio é uma incógnita com a troca de direção. O panorama é péssimo. É mais fácil imaginar que volte para segunda divisão do que para uma conquista mais ligeira. Entretanto, ainda defende os títulos estaduais das últimas cinco temporadas. Até que não é pouco. Pelo que se espera deles - quase nada - é muito.
Os últimos meses provam que até tenho condições de morar sozinho, apesar de minha preguiça, falta de perspectiva, saúde e empenho. A falta de perspectiva é o principal adversário de momento. Perdão. Com certeza é a falta de saúde. A falta de perspectiva foi em outros tempos. Hoje ela vem necessariamente acompanhada da falta de saúde. A falta de saúde me impede de sair dessa. Mas, permanecendo nessa, tento não sucumbir tão cedo. Primeiro é passar a eleição. Depois é tentar assistir à Copa do Mundo.
Me arrependo de nada. Só da lesão pontual que me traz até aqui. Creio que poderia ser evitada. Mas na época eu não sabia. Não sabia de muita coisa. Às vezes penso que sou castigado pela quantidade de vezes que eu quis morrer anteriormente. Achava que a morte buscava mais rápido. Parece que para mim será uma longa viagem de despedida. Enquanto ainda não embarco nela, ou enquanto posso escrever nesse longo transportar, aqui permaneço.
Havia feito uma previsão, pessimista, por suposto, de que por ironia a vida começaria a me abandonar quando dela eu me apetecesse. As coisas hoje brilham como luzes de aviões ao longe, em um céu neblinado. Brilham foscas como a luzes vermelhas do alto de prédios que avisam os mesmos aviões. Nós as ignoramos no cotidiano. Eu tento me apegar a essas luzes que todavia me impedem de desistir. Se eu as ignorar, serei um avião definitivamente sem rumo. Serei um piloto automático a caminho da morte. Serei um voo de menos escalas que me são permitidas.
Serei. Serei algo confuso e difuso quando meu horizonte tiver fim. Não sei se serei bom ou serei ruim. Por ora apenas sou. Não sei se sou o goleiro ou quem perde o gol. Não sei se sou o piloto ou quem se joga do voo. Não sei se arranco ou se, elefante, perco o marfim. Não sei se serei bom ou serei ruim. Por ora apenas sou.
Senhor, se for da tua vontade, saiba que aguentarei os sofrimentos e as dores. Mas só por determinado tempo, naturalmente.
O candidato Lula disse até que, sendo eleito, todo mundo vai namorar. É bom que seja eleito. Ou minha namorada vai ser viúva e eu serei viúvo dela. Não aguentaremos mais uma vitória do pior de todos.
Pela minha morte, hoje lamentaria mais por ela, que é mais jovem. Minha família tem mais alguns anos e daria algum jeito de superar. Ou, caso não superasse, seriam menos anos de martírio. Além do mais, quanto a superar: tomara sejam coisas que o tempo cure.
Comecei a ler O Estrangeiro, de Albert Camus. Que vergonha a minha. Li 10 páginas e já quero emitir algum parecer. O argelino consegue emitir personagens de psicológico avançado. Ora, parece ele mesmo raciocinando por meio de terceiros. E está ótimo. É filosofia disfarçada em romances. É Camus de sobretudo e bigodes falsos.
3 horas da manhã e tem alguém online no grupo da imprensa de clube local. Alguém além de mim. Alguém que foi emissor. Fui receptor de constatar alguém online que não seja eu. São 3 da manhã.
Tenho me sentido mais cansado, resignado, menos esperançoso, menos encontrador de onde posso depositar minhas migalhas de expectativa. Antecipei minha velhice em muitos anos, muito além do recomendado. É a minha mente, além dos problemas de saúde, os quais não os condeno exclusivamente pela culpa. Um tanto quanto eu já era assim e isso não se pode negar. As circunstâncias e os contextos me tornam desacreditado e ranzinza. Só não me sinto ranzinza o suficiente para decorar como se escreve essa maldita palavra. Um dia me tornarei ranzinza o suficiente para escrevê-la de forma certeira e indubitável. Nessa missão nem o intrometido corretor deu as caras.