30/09/2025

Titicut Follies (1967)

Titicut Follies é um dos vários documentários produzidos pelo norte-americano e judeu Frederick Wiseman. Neste, a câmera está ligada em um internato psiquiátrico, uma prisão para condenados e pacientes da ala psiquiátrica. O convívio problemático e conjunto entre eles marca o filme, em que o foco, na verdade, está nas atitudes grosseiras e debochadas dos agentes do local com os detentos.

Um preso no início é provocado pelo seu quarto não estar em ordem. Não está limpo. Ele é intimado a arrumar até o dia seguinte. "Como estará o quarto?" "Limpo", ele responde. Mas a pergunta é feita repetidas vezes, ele grita, se desespera, é um detento das alas psiquiátricas. Ele é provocado à exaustão. Assim seria com vários.

Dois casos em particular chamam atenção pela necessidade e apresentações de discursos coerentes, lúcidos e denunciantes. Na verdade, é impressionante que trabalhos denunciadores como os de Wiseman fossem aprovados e exibidos a algum público. Eles achincalham as instituições norte-americanos, em suas falhas penais, de saúde e bem estar para seus habitantes. Em um dos discursos está um russo com nome de Vladimir - comum à Rússia, mas não seria adaptado? Vladimir nem falaria inglês fluente antes, mas discursa nervoso, ansioso e sedento por sair da instituição. Ele está a um ano e meio nessa prisão e deseja retornar à sociedade o quanto antes. Vale ressaltar o contexto de guerra fria para época, em pleno 1967, como diriam, os auges da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, após segunda guerra e ainda longe do desfecho de queda do muro berlinense. Vladimir reclama dos medicamentos que é obrigado a inserir, que sente alterações no tórax, que sente estar piorando ao invés de melhorar. Os médicos, ao contrário das súplicas, liberariam o paciente somente quando ele apresentasse melhoras. Ele denuncia a contrariedade: como vai melhorar se os medicamentos o pioram? Vai sair dali nunca por essa lógica homicida.

Além de Vladimir, um outro preso denuncia a lógica estadunidense de chamar a todos os inimigos como comunistas dessa guerra fria. A imagem ao final do texto realça os principais pontos tocados pelo paciente. Ele discursa em banhos de sol no pátio, é escutado por poucos, contrariado ainda por outros e ignorado pela maioria que nem sequer o entende, com problemas graves de cognição e déficit de atenção. Todos medicados, talvez pelas mesmas adversas medicinas denunciadas em filmes como Estranho no Ninho, com Jack Nicholson. Este outro preso chega a discutir com um detento patriótico e apoiador das obtusas instituições estadunidenses. Ele perde um pouco da razão ao atropelar as tentativas de interpelar do outro, mas demonstra muita racionalidade, muito mais do que iríamos supor para estar ali. Mas é aquilo: razão até demais. Deve fazer mal.

A interferência no Vietnã, a atração e a provocação por guerras são postas no discurso do referido preso. Ele compara, de uma forma um tanto quanto machista, é bem verdade, a atuação dos Estados Unidos como uma mulher ninfomaníaca, que é sedenta na procura por guerras e só assim teria sua satisfação pessoal. Durante décadas observou-se esse comportamento sedento e sedutor por guerras através de transferências econômicas como investimentos em exércitos e vendas de armas; sem ganho econômico não faria sentido tamanho belicismo.

De volta a Vladimir, este denuncia quando questionado que não possui formas de lazer, é impossível desenvolver-se socialmente em meio ao microcosmos de isolamento e de tentativa frustrada de denominador comum para presos com os mais diversos graus de alterações, transtornos e problemas. Não há esporte, "somente uma luva e uma bola de beisebol". O controle e a rigidez das instituições e dos quartos ofenderia qualquer prisão da península nórdica entre Noruega e Finlândia da posteridade.

Um dos presos estava em greve de fome como protesto e foi obrigado a consumir alimentos pelo nariz, em um tubo, em uma das cenas mais agoniantes em que é recomendável até avançar a fita. Suas costelas em sobressalto, a nudez de algumas cenas e finalmente a injeção intubada pelo nariz da vítima dessa prática torturante. Um padre abençoava os detentos com orações católicas para quem assim quisesse ou não quisesse.

Os documentários de Frederick Wiseman deveriam ser exibidos ao mundo para mostrar atrasos, distorções, noções escondidas e inferiormente conhecidas da chamada terra da liberdade, onde liberdade muitas vezes é controle, liberdade muitas vezes é submissão, liberdade muitas vezes é suborno, liberdade muitas vezes é imposição, é aprisionamento, são ataques ao estrangeiro, ameaças e destruição, seja por falta de métodos mais avançados para o desenvolvimento ou maldade crua.

🌟🌟🌟🌟 

1- A instituição filmada é o Hospital Estadual de Bridgewater para Criminosos Insanos, uma instituição correcional em Bridgewater, Massachusetts.

2- A informação é de que o documentário de Wiseman ficou banido do território estadunidense por pelo menos 25 anos de exibição proibida, o que faz sentido com o questionamento deste escriba.

25/09/2025

Branco Sai, Preto Fica (2014)

Branco Sai, Preto Fica é um filme nacional de 2014 e possui muitas camadas a serem analisadas. É certo que sua nota não pode ser baixa. O filme mistura gêneros cinematográficos mesmo com um orçamento discreto, inclusive com ficção científica sem efeitos especiais. Está muito no imaginário.

Dimas Cravalanças é um viajante no tempo. Ele tem a missão de voltar para uma época e coletar provas de que havia racismo forte, omissão de governo e violência policial. Brasília é uma cidade sitiada, onde é necessario passaporte e autorização para trocar de bairro à noite, tem toque de recolher. A violência policial foi o episódio capital do filme. Ela é apenas narrada pelos personagens.

Dois personagens negros foram vítimas da violência policial em um baile em Brasília. Logo no começo do filme um cadeirante que adaptou sua casa para cadeira de rodas, e possui uma rádio pirata com um singelo estúdio, conta sua história. Na entrada brusca da polícia para acabar com esse referido baile, ele acabou PCD. Durante a invasão da polícia, logo ao início do filme na narrativa, o personagem anuncia a frase derradeira do nome: "Branco Sai, Preto Fica", no escancarado racismo policial brasileiro.

Ele simula diálogos de abordagem. "Tá olhando o quê? Tá armado?", entre outras frases. Quem conhece operações, principalmente em bairros pobres, sabe da verossimilhança.

Outro personagem perdeu uma das pernas nessa ação e hoje utiliza perna mecânica. O filme é como um documentário da vivência deles, na união com drama e ficção científica pelo viajante no tempo. Esse personagem que perdeu a perna conta que tentou fugir na entrada da polícia, mas o cerco era forte, havia cavalaria e ele foi pisoteado. O resultado foi a amputação. Como forma narrativa e de empatia, ele inclusive conta como foi acordar no hospital após a cirurgia, em visão marcante em que se sentia melhor e pensava levantar para ir ao banheiro, mas ele não tinha mais a perna. Há referências científicas no filme como a sensação em que o cérebro ainda acredita na existência da perna. O sistema nervoso humano demora a se acostumar à nova realidade.

Esses personagens são a espinha dorsal do filme e Dimas Cravalanças precisa conhecê-los, investigar suas vidas e enviar essas provas ao futuro para denunciar a omissão de justiça e o descaso policial. O aprofundamento do filme se deve a maiores detalhes de como os personagens ganham seu sustento. O DJ ainda quer trabalhar com música, mesmo com suas limitações de acessibilidade e de equipamentos. Ele pede ajuda a um sócio, precisa investir grana em nova aparelhagem e em passaportes para circularem pela sitiada Brasília. Era nada fácil. Nessa trama, ele convive com outros artistas um tanto quanto questionáveis. Há um tecno brega que lançava a dança do jumento, balançando o instrumento, e contava com back vocals, cantoras de apoio. Um tanto constrangedor. Outro rapper muito mais sério ajuda nas denúncias propostas pela história do diretor Adirley Queirós. No rap do entrevistado, no improvisado e modernizado estúdio do cadeirante, um pouco mais da história da periferia. Brasília, afinal de contas, é uma cidade que nasce política, centralizada nos poderes executivo, legislativo e judiciário e passa a receber trabalhadores e migrantes de todos os rincões brasileiros - e estrangeiros, bolivianos, peruanos, enfim - Renato Russo já cantava essa proximidade em faroestes caboclos. 

A história de tentar superar traumas e deformidades arregaça o preconceito existente. A dificuldade enfrentada pela periferia, ainda mais quando se sofre preconceito pela cor da pele, quando se sofre preconceito e se enfrentam limitações pela acessibilidade. A perna mecânica que precisa ser comprada, reparada, arrumada, talvez trocada ou adaptada. Sem ajuda pública, um irmão precisa ajudar o outro. Sem espaço na mídia, um DJ precisa buscar investimentos com sócios suspeitos, com artistas estranhos, com recursos limitados.

Branco Sai, Preto Fica é uma frase que abre um leque de significados. Sai de cena? Sai do baile para não levar porrada de polícia? Sai do protagonismo e finalmente abre espaço a quem nunca é ouvido? Esse filme brasileiro tem tudo para, mesmo com limitações na linearidade da história, com o roteiro que pode ser considerado confuso pelos espectadores, se tornar um clássico da época. 2014 de um Brasil escravizado e ainda escravizante.

Nota final para o filme de Adirley Queirós:

🌟🌟🌟🌟

24/09/2025

Ladrões de Cinema (1977)

Ladrões de Cinema é um filme brasileiro muito interessante, a começar pelo referido período de 1977, durante a ditadura militar brasileira, ou seja, tinha de passar pelos censores. E conseguiu e mesmo assim trouxe críticas construtivas. O filme começa no carnaval carioca com uma equipe de filmagem vinda dos Estados Unidos. Eles documentam o carnaval do Rio de Janeiro e construiriam um filme/documentário sobre. O equipamento é roubado em plena avenida e os cineastas ficam estatelados no chão, sem poder identificar os ladrões.

O equipamento sobe o morro do Pavãozinho, onde moram os protagonistas do filme: e a comunidade como um todo. Lá eles discutem o que fazer com aquelas câmeras e negativos roubados. Pensam em revender e trocar por dinheiro para comunidade, mas melhor: decidem por fazer eles mesmos um filme. Todo o trabalho em Ladrões de Cinema é de improviso e de cenas que cidadãos comuns com câmeras poderiam desenvolver. Eles decidem por fazer um filme na comunidade e iniciam a luta para decidir um tema. Optam por Tiradentes. Aí a crítica se eleva. A comunidade treina bastante para entender a história brasileira, a história da Inconfidência Mineira, a crítica de que os ricos queriam só para eles, que os líricos e padres não tinham o necessário para uma real revolução e que dependeria de representantes do povo - como eles, do Pavãozinho, eram.

A comunidade de predominância negra passa a gravar as cenas da história mineira, então onde negros interpretam papéis também de portugueses. Ocorre essa mistura. Eles aprendem na prática técnicas de direção e atuação. Pedem dicas e materiais para um francês que mora no Rio de Janeiro. Quebram barreiras idiomáticas e de performance em busca do filme prometido.

Enquanto isso, há traidores entre eles como havia traidores para denunciar a Inconfidência para Coroa Portuguesa. Há portugueses de verdade na comunidade no morro. É uma mistura em três atos: entre a realidade da comunidade, a ficção/atuação de fazer um filme e a história brasileira. Godard ficaria orgulhoso. Os traidores na comunidade o quê queriam para sabotar o filme? Queriam vender os equipamentos caros dos norte-americanos e surrupiar a grana. Nada absurdo, certo? Portanto, paralelamente à gravação do filme, rodam-se os planos dos sabotadores em busca do benefício próprio. Algo comum em todas as esferas sociais, dos mais pobres aos mais ricos.

A escolha do tema por Tiradentes e a pretensa revolução pelo povo brasileiro contra a coroa portuguesa não é por acaso. O espectador observa essas nuances entre o poder sendo conquistado por uma comunidade pobre que agora detém meios midiáticos e protagonistas contra a expectativa de sempre, de que só o estrangeiro, só os abastados pudessem se expressar ou retratá-los. A comunidade do Pavãozinho nunca seria mostrada ou se mostrar não fosse uma mera experiência durante o conhecido carnaval carioca. Mas o morro existe lá o ano todo. Tem seus personagens, sua gente suada e trabalhadora. Assim como possui bandidos como qualquer outro espaço da sociedade, seja ela brasileira ou não. A trama percorre esse trajeto de sabermos se o equipamento vai ser vendido por baixo dos panos ou não. Se os bandidos que roubaram os estrangeiros serão capturados ou não. O filme ficará pronto ou não?

Os norte-americanos apareceram somente na cena inicial da gravação na avenida do carnaval e voltam à cena ao fim, entusiasmados que estão na descoberta dos equipamentos e no tal produto final das filmagens no morro, material intelectual que eles próprios teriam barreiras e não conseguiriam produzir. Novamente o debate entre o estrangeiro roubar o produto brasileiro, a força do trabalho, o estado natural da terra brasilis. A comunidade do Pavãozinho, tão pouco mencionada ao longo da história brasileira, contribui em um filme de rara crítica e posicionamento nacionalistas em um falso período patriótico, em que era silenciada e submetida aos interesses estrangeiros em controle e acordos com o governo brasileiro. Não havia a soberania que até hoje se luta para conquistar pelo Brasil. A crítica também era essa, da saída ou não do domínio da corte para a saída ou não do domínio das garras estrangeiras, estadunidenses. A presença de traidores ou sabotadores quanto a qualquer movimento que causasse desordem ou desconforto às leis vigentes, sejam elas portuguesas dos tempos da coroa regente no Brasil ou da bipolaridade ou multilateralidade do mundo globalizado, durante ou após guerra fria.

Nota final para o filme de Fernando Coni Campos fica em:

🌟🌟🌟🌟

19/09/2025

Memória de Helena (1969)

"Descobri que se tivesse a liberdade que procuro, não saberia o que fazer dela."

Memória de Helena é um filme brasileiro com uma narrativa peculiar. A amiga Rosa conta a história de Helena através de suas lembranças, de um diário de Helena e de pequenos filmes gravados pela protagonista e pelo tio.

O filme não possui uma completa linearidade, mas é possível entender acontecimentos na vida da jovem. O romance com Renato é destaque. O rapaz fica entre Helena e Rosa, nesse convívio cheio de nuances. 

Renato se muda para o Rio de Janeiro e de lá mantém contato com a confusa Helena. Ela reserva uma semana para conhecer a realidade do rapaz em terras cariocas, saindo da interiorana Diamantina, em Minas Gerais. É um romance que reflete também a realidade do êxodo brasileiro entre o interior e o crescimento, em densidade, das grandes capitais. Helena estranha as paisagens e o ritmo de vida no Rio de Janeiro, causa e gera desconfiança e descobre que isso era justificado pela presença de outra mulher, Adriana, na vida do rapaz. Por orgulho, como Helena admite, ela resolve conhecer Adriana, com quem passa seu último dia no Rio de Janeiro.

Em retornos a Diamantina, Renato é elogiado pelos demais interioranos por sua jornada de logros em terras cariocas, objetivo de grande parte dos conterrâneos. Foi assim que Renato conquistou a confiança de Tio Mário, veterano parente próximo de Helena.

"Eu não esperava a hora de ficar novamente com a simplicidade de meus habituais problemas." - Helena filosofa sobre a banalidade, com resignação e um tanto de acidez ou aspereza. "Desde o Rio de Janeiro, adotei uma forma de apatia que me contemplava tanto com o lado bom do mundo quanto com o ruim" - definitivamente.

Há vários debates que permeiam o filme entre as morais e os costumes. Começa na relação próxima de Helena com a criada Inês, uma negra empregada. O principal deve ser a relação lésbica entre Helena e a confissora Rosa, relacionamento abalado desde a chegada de Renato e, após, no fato de Rosa também ter conhecido um rapaz, citado Marcelo. Finalmente, pelos 50 minutos de filme, a ida de Helena ao circo, nas companhias de Inês e Rosa, causa reflexão sobre uma espécie de luta travada como número circense que desafiava o conhecimento de moral aceito e correto. Outros números do circo, entidade itinerante pelos interiores brasileiros, podem abalar os nativos. Há nisso a forma de vida nômade, as propostas artísticas de pintura, sensualidade e convívio e a fuga artística da rotina maçante de trabalho forçado em terras e trabalhos burocráticos, desafiando a lei e ordem pelo descampamento incerto.

Ocorre a chegada de André, personagem complexo, amigo de Marcelo. Ele desembarca de helicóptero, homem com interesse na exploração de terras

"Olha aqui, André, eu peço que você não se explique nem represente, apenas seja como é", alfineta Helena, sempre servida de frases impactantes para apimentar a narrativa.

André é mais velho, apresenta um comportamento o tanto quanto machista, mas fica impactado pela estranheza e característica rude em Helena, causando-lhe interesse e aproximação.

"André me parecia um tipo vulgar, mas é apenas uma pessoa desnorteada e fascinada pelo lado aventureiro de sua vida", Helena descreve os personagens, dentro da trama, melhor do que podemos realizar observando de fora. Isto sim é fascinante. Helena então acredita que seu rápido romance com André bastaria para novas perspectivas em sua vida. Acredita que o metido a empresário a levará junto, para fora de Diamantina, para outras vivências, mas acaba desiludida. Esquecida, desamparada, apática, descrente e sem propósitos. O final trágico causa lágrimas à amiga e contadora da história, Rosa. Ela que por vezes foi mais do que amiga.

"Esta é uma história de amizade, mas amizade de tempo indefinido", sustentando a permanência das lembranças, dos acontecimentos e da saudade, a mais portuguesa das palavras.

🌟🌟🌟🌟


15/09/2025

Nada mais justo do que a condenação de Jair Bolsonaro sair em pleno dia 11 de setembro, dia do Jair deste blog. Justa homenagem.

A coincidência de pseudônimo pelo nome do pior presidente da história da República para coincidência da condenação no mesmo dia do nascimento do escritor.

07/09/2025

Mais frases soltas:


Eu sempre quis agradar mais do que sou agradado (vivo desagradado).


No capitalismo, fazer dinheiro também é tirar dinheiro dos outros.

05/09/2025

Deusinhos

Os deuses caem no chão do destino

Caem como de cima de um mezanino 

De onde observam a humanidade

Não é fácil ser são na insanidade

E observar destinos tão mesquinhos

O aprisionamento de passarinhos

Os apartamentos corroídos sem síndico

A vida correndo sem sentido


Os deuses caem no chão do destino

Pouca coisa envelhece como vinho 

Alguns vieram apenas pra ver vertigem

Quando a esfinge esfacela todos vão 

Vão embora e nenhuma consideração

Vão embora e nenhuma ponderação

Qual passarinho não voaria dessa prisão?


Os deuses caem no chão do destino

Às vezes há ninguém que se preze

Às vezes há ninguém que percebe

Às vezes há ninguém 

Para ecoar em voz audível um amém 

Para dizer algo além da própria voz

Às vezes há ninguém além de nós 

A esfinge esfacela, estamos a sós 

E quem finge nunca fica para o pós 


Os deuses caem no chão do destino 

E as pessoas sonham alcançar o céu

Alguns pensam nisso desde meninos

Alguém antes de perceber já morreu

Os deuses caem no chão do destino

A terra não amortece, não amolece 

A terra seca 

Envaidece quem vê uma planta que cresce

Se o vizinho nunca sai da fase beta


As Amorosas (1968)

Preso à década de 1960, nessa década de tanta produção artística, sobretudo aqui cinematográfica, em tantos movimentos políticos, o filme em questão é As Amorosas, de direção de Walter Hugo Khouri. Khouri, esse sobrenome de origem árabe, da família uma parte italiana, outra libanesa, Khouri conhecido por adotar temáticas ligadas ao amor e à filosofia. Em As Amorosas não foi diferente. O alter ego do diretor, Marcelo está completando o equivalente aos estudos secundários - de forma atrasada, ele que não ligava para muita coisa. Ou ligava para nada, um niilista. 

O filme percorre o período da vida de Marcelo em que busca sentido, ou até mesmo desiste disso. Se relaciona com uma atriz somente pela beleza. Se relaciona com uma aspirante à cineasta porque ela teria ideias políticas e desenvolvidas. Enfada-se de ambas por diferentes motivos, mas o resultado é o mesmo. Marcelo é um niilista que não vê sentido em continuar os estudos, em procurar um emprego, em se esforçar para vida.

Uma parte marcante é quando Marcelo é entrevistado pela menina que estava fazendo um filme, um trabalho do curso, em que entrevistava pessoas da Universidade para descobrir O Quê, Como e Por Quê. Sobre a vida universitária, o que levava as pessoas a escolherem um curso e com quais objetivos, sendo, para São Paulo, muitos vindos de outras regiões do Brasil. Na resposta, Marcelo confessa ter vivido por muitos anos esperando fazer algo pelo mundo, algo marcante, que lhe conferisse status, aprovação e recordação, mas mudou. Pausou essa ideia e se resignava a apenas buscar uma transformação dentro de si, que fosse suficiente, plena e satisfatória o bastante - apesar do objetivo, parecia distante dessa vivência plena.

A desistência por aprovação torna Marcelo esse niilista que nada esperava dos outros, nem status quo, nem soluções. Ele conferia opiniões sinceras e não acreditava mais do que no momento. Com a namorada desse projeto de filme, explicava, com um gesto, que isso era um beijo, mas agora já passou. Isso agora é outro beijo e já passou. E assim era a vida, que daqui 10 anos nem ela lembraria dele, que daqui 30 anos ninguém lembraria de seu quarto e suas decorações, que dali a 200 talvez nem o prédio existisse, que em 2900 ninguém lembraria ou saberia da existência deles. Um niilista.

Marcelo desistia de viver com os familiares, desistiu de dividir apartamento com um amigo e chegou até um espaço ocupado por quartos de empregadas - mas são bonitas, destacou. Não se importava com sua posição social e a busca por empregos para ele era enfadonha. Constantemente pensava apenas sobre a falta de sentido e se encaminhava para desistência de tudo.

O encaminhamento para cena final é chocante, pois enquanto Marcelo vivia dessa forma, outros despropositados poderiam agir e de forma muito mais violenta, contra e por cima da passividade. Um final à la Laranja Mecânica, pela brutalidade. Interessante que o livro de Laranja Mecânica é original de Anthony Burgess, do Reino Unido, em 1962. O conhecido filme que marcou o século XX, na adaptação de Stanley Kubrick, é de 1971, ou seja, feito após esta obra de Walter Hugo Khouri. Permanece do filme brasileiro uma reflexão sobre qual o nosso lugar no mundo, qual o objetivo e se combater outros selvagens não poderia ser uma saída. A verdade é que não se consegue mudar os outros, mas pode-se tentar mudar a si mesmo. É um mundo selvagem em que não há prevalência da justiça.

Em "As Amorosas", pelo título da história e pela época, pode-se esperar um filme raso sobre sensualidade e amor, e é praticamente nada disso. É um filme filosófico, sobre um jovem despropositado de classe média, média alta, que atingiu, sem esforço, um status que lhe conferia o tédio, um conhecimento que lhe desvirtuava de participar e acompanhar o mundo. Quem estagna-se para pensar um momento - ou vários momentos - consegue se identificar.

⭐⭐⭐⭐

03/09/2025

A Face do Outro (1966)

Filme adaptado de um romance homônimo, A Face do Outro pode ser considerada parte da Nouvelle Vague do Japão. Nesta história, um marido acidentado, que desfigurou, que perdeu o rosto, usa ataduras, faixas por toda face e servirá de cobaia para o experimento de uma máscara adaptável à sua cabeça. Constituído com um novo rosto, o melancólico terá a chance de reconquistar mulheres?

Este foi um filme em que o escriba adiou bastante a visitação por julgar erroneamente que se trataria de tentativas de horror, de que houvesse uma aberração a assustar moradores, apenas migrando da cultura ocidental para o Japão. Não foi o caso. Entre filmes com essa temática de duplo, de adaptações, de desfiguração e retomada, A Face do Outro se mostrou digno de topo;com certeza entre os melhores.

A filosofia no filme é densa, com vários paralelos que podem ser traçados com a atualidade da vida dupla de internet e das redes sociais. O indivíduo que estava triste e deslocado sem possuir um rosto, retoma as atividades sociais sem mais chamar atenção negativamente, sem espantar, mas espanta-se diante das novas possibilidades, do recomeço, da vida praticamente reiniciada, partindo do zero. Será? Apesar da mudança na armadura, na casca, na estrutura externa, o cérebro, os pensamentos e desejos ainda são os mesmos. Prova disso é o clímax do objetivo do homem ao possuir o novo rosto e a suposta nova identidade. Terá ele êxito e o que dará errado?

Ademais do indivíduo, ganha força de protagonismo também o médico responsável pela criação e experimentação da atividade. O médico delira e sonha com um mundo de duplos, de falsidades, de traição e possíveis crimes com a novidade em experimento. O marido protagonista do filme seria como o primeiro paciente, se sente como uma cobaia. O doutor está em êxtase, divaga sobre a vida, faz afirmações sobre o comportamento social. É um filme denso e reflexivo, sobre como nossa identidade é constituída, parte das aparências e um rosto pode construir ou destruir uma reputação. Não será assim ao longo das décadas? Por penteados, roupas, tatuagens, piercings ou outros acessórios? Sinalizações de dignidade, respeito, adequação, competência que podem ser aceitas, ignoradas ou excluídas pelas pessoas em cada serviço, em cada atividade, em cada aspiração. O homem que estava deslocado, depressivo, à beira da exaustão sem um rosto para chamar de seu tenta renascer com a nova identidade, mas as coisas não são reiniciadas do zero. Há lembranças, memórias, gostos e traumas que já fazem parte do indivíduo e, apesar do novo rosto, ele carrega em si.

O pensamento mesclado às redes sociais se deve a usuários formarem novos perfis, reiniciarem seus grupos de amizade, de contatos, de networking em busca de novas oportunidades, deixar para trás passados que julgam não mais lhes pertencer e reiniciar em novas atividades - como novos grupos políticos, de atividades esportivas, de games, grupos de leitura ou cinefilia, grupos de fãs de um determinado artista ou gênero musical. As redes sociais permitem reinícios, mas o indivíduo carega em si a experiência do que busca, do que já deu errado e não quer repetir; carrega a vontade do experimento pelas novas pessoas com as quais busca se tornar amistoso, útil, pertencente e participativo. Busca sua nova identidade enquanto membro.

As relações sociais mediadas pelas redes online dispararam. Hoje, a não ser que se trabalhe no atendimento direto ao público, um adulto pode ter muito mais contato diretamente pelas redes do que pelo cotidiano presencial, seja com amigos, amigos virtuais, parentes distantes, etc. A mediação pelas máscaras - palavra-chave no filme- ocorre em situações de ocultar sentimentos, fraquezas, hábitos considerados desprezíveis e pontos que se deseja tornar invisíveis. Essas atitudes partem desde a escolha de fotos - do que postar ou não - do que destacar da rotina ou não, sobre o quê opinar ou não. A mediação pelas telas permite maior tempo para formular respostas, pigarrear e encaixotar opiniões que poderiam ser negativas aos demais, substituindo-as pelas falsidades comumente aceitas em prol da convivência. Mentiras brandas, senso comum ativado sobre a saliência da sinceridade.

O uso das máscaras para criar duplos, para criar incluso perfis totalmente falsos, onde não há concordância de nome, de data ou local de nascimento, de gênero e a nova utilização de robôs são tendências nas redes sociais. Há perfis falsos em jogos e em fóruns de comentários, em comentários de notícias, em grupos de fãs, de torcedores e de conteúdo religioso. Há perfis pagos e programados para espalhar inverdades, para declarar apoio incondicional ou para pigarrear e minar a concorrência. Há máscaras das mais diversas, protegendo esses cirurgiões excitados pela experiência de novos rostos, ou programadores, políticos e gestores beneficiados.

A Face do Outro, nesse universo da década de 1960, tão rica e diversa para história geral do cinema, transmite atualidade conforme a tecnologia transita novas possibilidades de se aparecer e de se esconder, de reiniciar e de pausar histórias, de selecionar novidades ou excluir passados tolos - de tentar reescrever quem somos e de procurar sentidos.











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