16/10/2025

Uber

Subi ao carro do Uber, era um motorista de meia idade, entre pardo e negro, barba bem feita, praticamente calvo. Não houve muito diálogo. Lembro de perguntar-me a rua. Primeiro ponto estranho. Confirmei que era a Rua Tubarão, para o lado oposto da cidade. Sou professor estagiário, é minha segunda vez lá recém, menti, porque era minha primeira vez, mas, diante da desconfiança que aquele sujeito frio provocava, querendo ou não, eu não quis parecer totalmente iniciante, pelo menos em termos de endereço. Na verdade eu nunca tinha ido àquele colégio e esperava que o motorista guiasse porque previamente soubesse. Tive que fingir que ao menos eu sabia onde iria. Rua Tubarão.

Ele prosseguiu em um tremendo silêncio. Se assustou quando surgiu no asfalto de qualidade duvidosa um bloqueio de cones que o obrigou a uma curva mais brusca do que a original. Assobiou uma onomatopeia e desencadeei a falar como se houvesse necessidade, como se eu lhe devesse alguma coisa, além do dinheiro, já depositado pelo cartão, na corrida. Falamos do trânsito, do mais banal e corriqueiro possível. Ele atravessou as ruas necessárias e novamente, sem ajuda tecnológica, perguntou por qual rua seria o destino. Já estávamos no bairro correto: Rua Tubarão. Salteei para ele também o número do prédio, 300 e algo. Estávamos próximos, creio.

Corríamos por uma avenida paralela à Rua Tubarão - depois confirmei no mapa. Eu disse que poderia parar, que estava tudo certo. Ele fez questão de descer do carro e me acompanhar. Havia uma outra escola que ocupava quadra inteira pelo caminho. Se pegássemos o atalho passando dentro daquela escola, sairíamos na Rua Tubarão. Minha surpresa foi tamanha receptividade. Na verdade ele conduziu o carro até onde cabia o carro, no estreito já do pátio interno da escola, roçando os vidros retrovisores no coquetel de paredes. O motorista antes frio fazia questão de terminar a corrida até o meu destino final mesmo. Eu notei que precisava chegar pelas nove horas da manhã. Já eram dez horas. Nem sei para quê exatamente me dirigia à escola. Para justificar minha ausência, meu atraso?

As surpresas não cessavam. O sujeito uber me posicionou então em uma cadeira de rodas por onde o carro dele não mais passava. Mas eu seria conduzido com toda certeza e mordomia pelos labirintos do bem pintado colégio. Naquela semelhança entre presídios, hospitais e escolas, navegava pela condição dos braços do uber à cadeira de rodas pelas aventuras de um hotel do filme Iluminado. Havia uma escada alta, indicando que do anterior pátio já estávamos em um nível superior, a escada conduzia abaixo. Era meio alucinante ser conduzido rapidamente de uma cadeira de rodas escada abaixo. Velocidade e perigo em constância. Chegamos à porta corta-fogo de saída. Um pátio dos fundos deserto, espaço suficiente para estacionamento de muitos carros. Não era um jardim, antes era uma grande terreira, um alaranjado ermo com fagulhas de teimoso capim. Olhei para os lados e o sentimento negativo abundava. Um suspeito veio em sentido oposto, no largo e antes desabitado portão de entrada-saída daqueles fundos. Um capanga.

Eles me cercaram. O motorista queria minha pasta, meu celular, eu, pobre coitado, nem professor efetivado ainda, com eletrônicos a consertar em casa para no mínimo poder trabalhar, gerar atividades, planilhas, imprimir. Me negava a entregar o que fosse e iria para o confronto corporal ou para tentativa de fuga. As impressões suspeitas estavam confirmadas. Não poderia aquele sujeito não saber o destino, que deveria estar registrado em seu aparelho na corrida, não perguntando seguidamente pela tal Rua Tubarão - e que tamanho atraso eu estava dela. Não poderia aquele sujeito frio do nada querer me acompanhar até meu destino final mesmo a pé, ainda mais me conduzindo por meio de uma cadeira de rodas, que sabe-se lá de onde arranjou - minha vó necessita uma. Do confronto de dois contra um conseguiu manter-me íntegro com uma dose de coragem e outra de sorte. Do colégio que atravessamos juntos somente a lembrança dos alunos inquietos e de algumas coordenadoras estranhando a cena, como se fôssemos cientista maluco e criatura pelos caminhos errôneos. Do outro colégio, o que eu necessitava alcançar na Rua Tubarão, apenas a lembrança do atraso e um trauma para continuidade de buscar ele longo caminho por horas de estágio. Vocês não vão acreditar no que me ocorreu hoje, disse ofegante, quase às 11 horas da manhã.

15/10/2025

Cinema Russo: My Joy (2010) + Hard To Be a God (2013)

Destacar tópicos dos filmes:

- cinema russo como pessimismo e de denúncia da violência social gratuita

- personagens encontrados em My Joy: prostitutas, saqueadores, policiais corruptos, vilarejos que recebem mal a estrangeiros

- jornada dos personagens principais como salvadores inoperantes em meio ao sistema corroído e adoecido

- crítica da Idade Média e possibilidade de refletir o que seria do mundo não houvesse avanços científicos, tecnológicos e iluminismos 

- escatologia em Hard to be a God, evidenciando a falta de saneamento e de soluções na Idade Média

- crueza do sexo e os duelos como forma de resolução de desavenças - comuns à história russa

- a crueza com que os russos muitas vezes lidam com a religião. entre o respeito ou a total descrença com as divindades. a frase definitiva é o nome do filme: é duro ser um deus.

- em My Joy ocorre a transformação do personagem principal entre um idealista a praticar seu ofício para um ser descrente, frio, transtornado e corroído pelo meio que o subjuga, o distingue, o violenta. sai da figura de uma colaborador para um praticante, um ator ativo do cenário violento proposto pelo filme e pelos interiores da Rússia

- em Hard to be a God, o personagem principal, humano em outro planeta atrasado, perde a compostura de salvador, de ser eficiente e evoluído perante as agruras que o cercam. ele convive com imagens que o sequelam, o adoecem, o maltratam, entre escatologia, má alimentação e violência de duelos seguidos.

- a ambientação de ambos os filmes é excelente e inclusive se sobrepõe à história, aos roteiros. a Rússia de devastação, longe das capitais, sem leis ou de vilarejos que fabricam suas próprias leis (comum ao Brasil?). com policiais que impõem suas vontades acima do que constituições traduziriam.

em Hard to be a God, a ambientação se deve ao uso do preto e branco, à entrada e saída de personagens constantemente, em uma dinâmica de eterna movimentação, um bailado infernal, em que seres cada vez mais grotescos e asquerosos passam pela frente da câmera, alguns a encarando como forma de surpresa e rompimento das barreiras do que seria apenas uma gravação neutra: os personagens se inserem, participam, compõem uma filmografia da aberração, do doentio, do mundo distópico que na verdade é histórico e de fato, em grande parte, existiu.

ambos os filmes trazem atmosferas aprisionantes, de ar rarefeito. é importante pensar e concluir que, se apenas de mirarmos tais cenas se têm uma ideia de degradação, de aprisionamento, de asfixia, imagine a vida sem possibilidades de desligar a tela, de fazer outra coisa, de superar as adversidades de contexto, de corrupção, de violência, de brutalidade e crueldade.

07/10/2025

The Last Black Man in San Francisco (2019)

Um retrato cada vez mais atual dos Estados Unidos, O Último Homem Negro em São Francisco (2019), direção de Joe Talbot, foi gravado e lançado antes da grande pandemia de covid-19, que seria ainda mais devastadora para o país. A história de Jimmy Fails e sua obsessão por recuperar a casa de seu avô, em zona nobre de uma das mais nobres cidades na América do Norte e no mundo (será?), uma casa do que chamam traços vitorianos e que tem toda pinta de ser construída durante o século 19 (1800 e lá vai pedrada).

A história de Jimmy aproxima os Estados Unidos muito mais do chamado Terceiro Mundo do que eles gostariam. Um jovem sem perspectivas, que vive em uma zona metropolitana, mas na periferia, anda de skate ou aguarda ônibus que nunca chegam no horário que ele deseja. Com ajuda do seu amigo Mont, eles rumam diariamente para São Francisco para manter conservada a casa que foi do avô de Jimmy, mesmo que outras pessoas, brancas, vivam nela atualmente. É com uma morte na família dos atuais proprietários e com a casa se transformando em uma briga judicial entre irmãs que Jimmy enxerga a possibilidade de morar novamente na casa, enquanto a questão na Justiça não fosse tratada. Mas a especulação imobiliária fortíssima, predadora e voraz nos EUA não dará muito tempo ou sossego ao personagem principal.

Quanto a seus familiares, Jimmy tem um pai envolvido com tráfico de drogas e pirataria, onde aparece cortando encartes de CDs e DVDs piratas. A mãe de Jimmy é totalmente ausente, ele nem sabia por onde ela andava, acreditando que ela teria se mudado e permanecido em Los Angeles. A grande esperança para ajudar Jimmy é o amigo Mont, fiel escudeiro desse Dom Quixote, e escritor de teatro, mais uma missão difícil, tratando-se de investir culturalmente àqueles lados. Por conta da casa promissora em região nobre, Jimmy acredita com algum ar de superioridade levar vantagem sobre outros moradores de seu bairro original, jovens como ele que passam o dia na calçada se xingando e inventando passatempos suspeitos.

O filme é preenchido por coadjuvantes e figurantes típicos dos subúrbios estadunidenses (e que os aproximam do Terceiro Mundo mais do que eles gostariam de admitir). Um fanático religioso recitando discurso para poucos ouvintes - geralmente o próprio Jimmy na espera pelo ônibus. Um velho que aparece totalmente nu em ponto de ônibus de San Francisco. Uma multidão de turistas em bondinho que ovaciona o velho pelado como símbolo de loucura e autenticidade. Duas jovens sem perspectiva em um ônibus falando sobre as desvantagens de morar em uma aparente decadente San Francisco, que, literalmente, mantém a(s) fachada(s). Moradores brancos de classe média alta, maioria de idade avançada, que estranham a movimentação de negros no bairro torneado de nobreza. Guia turístico e seus clientes em patinetes eletrônicos em visita ao bairro e às casas nobres, procurando saber sobre as respectivas histórias das construções. Corretores imobiliários nada empáticos, devoradores de oportunidades e sonhos - mais do que vendedores de sonhos e oportunidades. Um maluco, amigo/conhecido de Jimmy que transformou o carro em sua própria moradia, com luzes de natal, varal de roupas, bancos/cama reclináveis, mesclado entre a loucura e a lucidez.

São vistas vítimas da violência urbana, da falta de oportunidades de emprego, da desigualdade racial entre brancos e negros, da desigualdade social entre classes econômicas; aparecem os bicos, os sub-empregos, as lembranças guardadas em caixas pela tia de Jimmy, a mistura entre realidade e a fantasia na mente do jovem adulto, a mescla entre história, identidade e projeção futura nas ambições de Jimmy; a busca desesperada e afunilada de Jimmy pelo direito à moradia que um dia foi de sua família. No enfrentamento ao tema da devoração imobiliária, que mantém casas históricas, espaçosas e bem construídas, reforçadas, paradas, sem uso, enquanto milhares de norte-americanos em todas as capitais vivem em barracas, veículos e parques urbanos. A luta pela ocupação, ao menos a oportunidade como direito, sendo vista, sendo tratada como um sonho, uma alucinação, um devaneio, um delírio. Aqui lembra o filme francês sobre o edifício Gagarine, e a velha pergunta - quantos edifícios Gagarine não estão nos cines? Estão no cotidiano das grandes cidades.

Nota final para The Last Black Man in San Francisco:

🌟🌟🌟🌟

05/10/2025

Crossing (2024)

Comentar sobre:

- A história individual de cada personagem

- Os plot twist convertidos aos espectadores

- A relação interior - cidade com a metrópole Istambul

- Comparação entre Istambul e São Paulo / tratamento a LGBTQI+ em Turquia e Brasil

- A busca por Tekla como uma busca por si mesmo


O filme Crossing (2024) ou Caminhos Cruzados, direção de Levan Akin, conta a história de uma busca pela jovem trans Tekla, que deixou um vilarejo litorâneo da Geórgia para tentar a vida em Istambul, uma das maiores e mais complexas cidades do mundo. Complexa de várias formas, como a miscigenação, os vários idiomas lá falados e o tratamento de aceitação ou preconceito referente a essa miscelânea de cidadãos de muitos países. É comparável ou até mais complexa do que São Paulo. 

A professora aposentada Lia (Mzia Arabuli) visita o vilarejo com o intuito de encontrar a jovem, sua sobrinha. Tekla vivia com outras trans em uma casa que causava desconforto aos moradores da remota e conservadora região. A própria Lia declama ainda ao começo do filme de que as jovens na Geórgia costumavam ser respeitáveis e elegantes, não como são hoje. Nessa busca, ela visita a casa de Achi, um jovem sem pais que vive com a família do irmão bem mais velho - com esposa e sobrinhos para Achi. Desinteressado pela vida em local ermo e remoto, Achi percebe na visita de Lia a oportunidade para sair da Geórgia, rumo a Istambul. Era a busca dele por um emprego, uma nova vida. Ele se considera útil para lidar com o idioma inglês e um pouco de turco, pois a aposentada se comunicava apenas no georgiano. Geórgia e Turquia são países vizinhos, mas com restrições e diferenças. A sobrevivência em uma cidade grande é totalmente diferente ao que eles estão acostumados.

Achi termina de se desentender com seus familiares e, de carro, parte com Lia para essa aventura. Ele precisa deixar o carro do lado da fronteira e, com a confirmação por documentos, adentram ao território turco. Embora Achi conheça a referida Tekla, eles têm apenas um suposto endereço para encontrá-la e não fazem muita ideia de como chegar a ele. Começam a pedir ajuda, hospedagem, são interpelados por diferentes figuras locais, por exemplo as crianças que espreitam as ruas atrás de turistas, para ajudas, golpes ou números artísticos. Assim também ocorre com pessoas mais velhas, como se pode observar no filme através de motoristas improvisados, prostitutas, guias improvisados, assistentes em restaurantes, garçons e até empresários. Todos lutam por espaço na Istambul.

A direção e o roteiro pregam uma tremenda peça sobre qual mulher eles estariam buscando, quando a história se divide entre a procura feita por Achi e Lia e sobre a vida das pessoas trans na Istambul. Existe toda uma luta para registro de documentação, para garantia de direitos, de espaço para moradias, de aceitação entre preconceituosos. Existe o risco de perambular, de fazer trottoir pelas ruas, existe o preconceito para conciliar profissão com identidade de gênero. Existe o perigo da captura pelas controversas leis, existe a desconfiança nos próprios familiares sua do se é uma pessoa transgênero. Será que conhecidos de Tekla devem confiar nessa estranha dupla formada pela tia, que não a via há muitos anos, e o denominado amigo do povoado na Geórgia? Se Tekla fugiu, ela deveria ter seus motivos para o afastamento da família. Sabe-se logo cedo que a mãe de Tekla, a irmã de Lia, já era falecida. Era a procura da tia para se conciliar com a sobrinha.

Lia confidencia que esteve na Istambul quando criança, uma viagem com seu falecido pai. A velha evoca memórias, fica ébria de lembranças e bebida, pois é alcoólatra, conflito que tenta conter o ímpeto do impulsivo Achi, mas em vão. É mais uma das contradições, das conservações que a sociedade tenta impor aos mais jovens, mas sem a presteza do exemplo. Eles vagam, cruzam com personagens, se encontram e se perdem pelo caminho. Caminhos Cruzados, como a tradução do título do filme.

Istambul é projetada entre seus fluxos fluviais, a alta concentração urbana e aglomerada, suas ruelas estreitas, suas subidas, descidas, escadarias, restaurantes com mesas distribuídas pelas calçadas, vendedores ambulantes, prestadores de serviço, pedestres dia e noite, vida noturna movimentada, a presença dos conhecidos gatos de rua na cidade - que aí aproximam Istambul mais do Rio de Janeiro do que de São Paulo. Os gatos são figurantes em diversas cenas, entre espera em rodoviárias, departamentos jurídicos ou simplesmente pelas ruas à espera de sobra de banquetes. Istambul permeada por trânsito intenso, pontes, barcos que atravessam o público pela ampla área da complexa cidade. Istambul que, como confidenciado por um personagem, parece que é uma cidade para se esconderem pessoas, para não serem encontradas. Pode ser a busca de Achi também pela sua fugidia mãe, que não entrou mais em contato com ele. Ele enxergará em Lia também uma figura materna? Impulsivo e sem maiores estudos, terá condições de pedalar, de batalhar sozinho uma vida de altos e baixos na metrópole cosmopolita?

O filme é uma busca pela sumida Tekla, mas quase se desiste dela entre desenvolvimento dos personagens e clímax, tamanhas já são as missões individuais de cada personagem, que apreendem e desafiam a compaixão e atenção do público. Os personagens tem tramas individuais, são impulsionadores da empatia e da construção de suas narrativas, vagueiam, refletem, dividem conflitos, desconfiam e confiam; se importam. Importam. São apresentadas vidas marginais, tentativas de sobreviver, de recomeçar, forças de autoridade, desafios das noites, perseverança e possibilidades. Uma Istambul com seus defeitos, mas com oportunidades, de preconceitos e tabus a serem quebrados e vencidos; de surpreender.

Exageradamente em reconhecimento para Crossing (2024)

🌟🌟🌟🌟🌟

04/10/2025

O Azarento, Um Homem de Sorte (1972)

Um filme brasileiro de comédia com humor até bastante escrachado, mas com caprichos do cotidiano que conferem comicidade. Direção de João Bennio. Se mudando do interior para Goiânia, um sujeito apático, solitário e sem o intuito de criar problemas é na verdade o Azarento. Ele atrai situação de desastre, desregula de motores a eletrônicos, destrói vidraças, distrai trabalhadores em curso. Um perigo por onde anda.

O dito Azarento nasceu em uma sexta-feira 13 de agosto, o mês dos cães loucos, de um ano bissexto. Aí calculem qual ano desse calendário gregoriano poderia Lazarento ter vindo ao mundo. Não aprontava tanto em seu pequeno sítio, até mulher apaixonada e prometida esposa havia, mas ele foi para ganhar a vida. Ou perdê-la ou fazer com que percam. O filme não traz tanta história: o princípio é que Lazarento passeia de um lado a outro e por onde por acaso passa é fait diver na certa. Uma confusão que pára o trânsito goiano com engarrafamento, falhas mecânicas e colisões é digna do videoclipe da canção do Green Day, Walking Contradction, quando Billie Joe Armstrong e seus capangas caminham por uma cidade do interior dos EUA fazendo pifar semáforos, postes, placas e veículos. Uma balbúrdia. O Azarento era dessa radicalidade.

Além da cômica cena de parar o trânsito e causar transtorno aos motoristas e pedestres goianos, o sertanejo avança para um páreo de turfe no jockey club. Tudo ocorria bem nas arquibancadas e na arracanda com os cavalos e jóqueis, até que o efeito da presença dele traz quedas, pinotes, andanças em círculo e uma situação de caos que revolta o rápido narrador da corrida. É uma sequência de eventos sem explicação, denunciavam e procuravam resposta entre rádios e jornal impresso. É no jornal que uma conferência se forma ao perceberem um rosto em comum entre fotos dos diferentes desastres que povoariam as páginas do periódico. Mas esse sujeito parece comum a mais eventos, está nesse também e, vejam só, também em outro. Está portanto lançado o apelido maldoso de Azarento para o cidadão presente nos desastres. Ele é ordenado de prisão e afastamento do convívio das ruas.

Após lançada a campanha pela captura do responsável em colocar o cabelo da cidade em pé, uma ligação anônima vinda de um restaurante identifica o herói da trama. A polícia se aproxima da casa onde estão diversos machucados, vítimas das peripécias do Azarento e o procurado estava a tomar café tranquilamente, quando é surpreendido por três guardas. Ele tem voz de prisão decretada, mas nenhum dos homens ousa se aproximar de tamanho azar. À distância e sem algemas, Azarento é conduzido até a penitenciária local. As confusões estariam enfim cessadas? Óbvio que não. Com o azar pendente ao sistema carcerário, os guardas cochilam, os presos armam um plano certeiro apenas com a presença de Azarento, que sequer deixa sua cela, cabisbaixo e recolhido a seu status desprezado. Os demais aproveitam, roubam chave, abrem os portões e ganham as ruas. É caos novamente na pobre Goiânia, não bastassem episódios de Césio na localidade.

Azarento é encontrado pelo diretor da prisão no dia seguinte ainda na solidão da alcova. É expulso. Setenciado que não volte mais, que vá para o mais longe possível. Estava danado o pobre diretor com a debandada de sua farta safra de presos e com o caos novamente a orbitar e a estrebuchar as pacatas terras sertanejas de centro-oeste brasileiro.

Entre episódios de desolação e comicidade, a publicidade é um grande trunfo no filme de João Bennio. Descobrem que o herói passou a calçar sapatos que lhe eliminavam o azar. Se até dele o azar se dissipou, a população estava então obrigada a consumir. Propagandas em rádio, em alto-falantes, em jornais, publicidade até nos começos da televisão em cores para todo Brasil. Azarento vira sujeito famoso e bem quisto, cidadão homenageado, requisitado, entrevistado. O que ele pensa sobre aborto, guerra, política, atores, gente famosa, tudo é questionado ao herói de quase nenhuma convicção e de personalidade nada marcante. Azarento é apenas a personificação do azar, a ambulância dos desprazeres do caos. Mas até para Azarento a vida sorriria. Um garoto traquinas que ele só importunava passageiros de um voo onde sentado ia o herói. Entre outras vítimas enquanto a mãe fazia a egípcia, Azarento tem seu famoso sapato arrancado pelo badboy mirim e assim começa uma turbulência frenética quando o voo da VASP já estava próximo do destino final em terras cariocas. Os passageiros lutavam pela sobrevivência e contra o desespero de uma eminente queda quando percebem o rosto famoso de Azarento na classe da aeronave. Denunciado, aturdido, sem escolha, Azarento deve saltar de pára-quedas para salvar o destino do voo. O calçam com o equipamento de ousado pulo e o empurram para fora. Boa sorte ao Azarento e a todos que chegariam para o Galeão.

Azarento recuperaria sua sorte ao aterrissar justamente em uma piscina lotada de boas pintas cariocas, gente da socialite, de alta recomendação, da classe abastada. Para maior sorte, recorre-se aqui ao spoiler final, ele vai direto para os braços de uma solteira convicta e herdeira, desejada por todos os rapazotes. Azarento estaria recuperado das diversas crises de azar que como uma rinite de espirros o perseguiam em vida? Aí é descobrir nos minutos finais da história genuinamente brasileira e que inspira humor para quem a vê.

Nota final para comédia proposta pelo diretor João Bennio:

3,5 / 5

03/10/2025

La Grande Noirceur (2018)

Philip é um imitador de Charlie Chaplin que vence um concurso entre imitadores do ídolo. O filme tem origem no Quebec, mesclando as falas em inglês e francês, mas Philip está longe de casa, tentando sobreviver em lados ermos do Oeste dos Estados Unidos. Apesar de recente e apocalíptico, La Grande Noirceur é ambientado pós Segunda Guerra Mundial, entre crise e violência, resquícios de nazismo e crueldade.

Logo ao vencer o concurso, Philip sofre nas mãos dos concorrentes derrotados. Tem sua carteira roubada e lhe sobra também somente sua roupa do corpo. O filme é bastante introspectivo, na solidão e nas dificuldades enfrentadas pelo personagem principal. Ele perde e corre atrás de trens. Passa dias endesertado, entre a terra árida e o gelo. Encontra carona com um francês que lhe compreende e ambos podem conversar no idioma que mais lhes convém. O francês conquista a confiança de Philip e se anuncia como um procurador de talentos como o dele. É bonita a cena em que pede para Philip exibir seu número e o protagonista dança solitário pelas terras do deserto, montanhoso ao fundo. Os passos descontraídos e descomedidos são interrompidos por um anúncio de rádio que corta a magia da canção. Os Estados Unidos seguem retrucando pela guerra. São um país que se recusa a perder, que só ambiciona vitórias, que admira os melhores do beisebol, de outros esportes e precisa desse sangue jovem, atrevido e vencedor em busca das conquistas na Europa. Os EUA não toleram os perdedores, então não seja um - Philip, revoltado com a propaganda belicosa, salta para o carro do francês (que talvez nem estivesse entendendo toda a mensagem) e desliga o rádio, enquanto desaba em exaustão e emoção pelo período de crise.

Philip deixa a carona e prossegue sua jornada. Ele encontrará vilarejos remotos e uma casa que parecia a acolhida necessária, com uma loira atraente, mas cada vez mais estranho. La Grande Noirceur é de 2018, mas parece incorporar cenas como Good Boy, de 2022, em que seres humanos são tratados em tempo integral como cachorros. Assim foi a captura da chamada Rosie, uma jovem atada por coleira, controlada pela estranha loira. Rosie revela que foi capturada há cinco anos e seu verdadeiro nome é Esther. Ela se alimenta e dorme no chão, distribui lambidas e vive amarrada na incorporação de ser uma cadela. Está sob controle absoluto dos párias psicopatas. Embora a loira diga que seu marido havia morrido, essa é só mais uma das crescentes suspeitas e dúvidas de Philip nesse universo diabólico e violento.

Philip tem uma jornada introspectiva, fugidia e permeada de personagens bizarros que demonstram a cultura de violência sobrevivente dos Estados Unidos da América, mesmo entre não idos à guerra. Sintomático dessa nação de guerrilheiros que pregam uma liberdade para acorrentar pessoas como cachorros. O desejo do canadense era voltar para casa, onde desejava se encontrar com sua mãe. Alguns elementos do filme permitem identificar a época remota, mas fazem pensar justamente em um tempo atual após eventos catastróficos (como uma nomeada guerra distante ou local, civil). O contato com a mãe no Canadá é feito por telefones interpelados por telefonistas, profissão em desuso. A tecnologia aparece pouco, mas é possível ser vista em automóveis como o dirigido pelo francês na erma estrada. As armas de fogo estão sob as mãos dos verozes habitantes, pela sobrevivência ou para realizar ataques contra fragilizados. Onde haverá espaço em um mundo como esse para palhaços imitadores, dançarinos e musicais apreciadores de arte, performadores de arte?

Então, a produção do filme não necessariamente transporta para época do século passado. É uma crítica aos Estados Unidos atuais, um interior armamentista, uma população convocada por forças ditas patrióticas, fomentadora de guerra, dos artefatos bélicos, da liberdade que restringe a liberdade estrangeira, do outro. La Grande Noirceur une elementos dos filmes noir da época, do pós guerra, das décadas de 1940 e 1950, com a crítica que permanece válida em uma nação comandada pelo reeleito e sedento Donald.

Nota final para La Grande Noirceur:
🌟🌟🌟🌟

30/09/2025

Titicut Follies (1967)

Titicut Follies é um dos vários documentários produzidos pelo norte-americano e judeu Frederick Wiseman. Neste, a câmera está ligada em um internato psiquiátrico, uma prisão para condenados e pacientes da ala psiquiátrica. O convívio problemático e conjunto entre eles marca o filme, em que o foco, na verdade, está nas atitudes grosseiras e debochadas dos agentes do local com os detentos.

Um preso no início é provocado pelo seu quarto não estar em ordem. Não está limpo. Ele é intimado a arrumar até o dia seguinte. "Como estará o quarto?" "Limpo", ele responde. Mas a pergunta é feita repetidas vezes, ele grita, se desespera, é um detento das alas psiquiátricas. Ele é provocado à exaustão. Assim seria com vários.

Dois casos em particular chamam atenção pela necessidade e apresentações de discursos coerentes, lúcidos e denunciantes. Na verdade, é impressionante que trabalhos denunciadores como os de Wiseman fossem aprovados e exibidos a algum público. Eles achincalham as instituições norte-americanos, em suas falhas penais, de saúde e bem estar para seus habitantes. Em um dos discursos está um russo com nome de Vladimir - comum à Rússia, mas não seria adaptado? Vladimir nem falaria inglês fluente antes, mas discursa nervoso, ansioso e sedento por sair da instituição. Ele está a um ano e meio nessa prisão e deseja retornar à sociedade o quanto antes. Vale ressaltar o contexto de guerra fria para época, em pleno 1967, como diriam, os auges da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, após segunda guerra e ainda longe do desfecho de queda do muro berlinense. Vladimir reclama dos medicamentos que é obrigado a inserir, que sente alterações no tórax, que sente estar piorando ao invés de melhorar. Os médicos, ao contrário das súplicas, liberariam o paciente somente quando ele apresentasse melhoras. Ele denuncia a contrariedade: como vai melhorar se os medicamentos o pioram? Vai sair dali nunca por essa lógica homicida.

Além de Vladimir, um outro preso denuncia a lógica estadunidense de chamar a todos os inimigos como comunistas dessa guerra fria. A imagem ao final do texto realça os principais pontos tocados pelo paciente. Ele discursa em banhos de sol no pátio, é escutado por poucos, contrariado ainda por outros e ignorado pela maioria que nem sequer o entende, com problemas graves de cognição e déficit de atenção. Todos medicados, talvez pelas mesmas adversas medicinas denunciadas em filmes como Estranho no Ninho, com Jack Nicholson. Este outro preso chega a discutir com um detento patriótico e apoiador das obtusas instituições estadunidenses. Ele perde um pouco da razão ao atropelar as tentativas de interpelar do outro, mas demonstra muita racionalidade, muito mais do que iríamos supor para estar ali. Mas é aquilo: razão até demais. Deve fazer mal.

A interferência no Vietnã, a atração e a provocação por guerras são postas no discurso do referido preso. Ele compara, de uma forma um tanto quanto machista, é bem verdade, a atuação dos Estados Unidos como uma mulher ninfomaníaca, que é sedenta na procura por guerras e só assim teria sua satisfação pessoal. Durante décadas observou-se esse comportamento sedento e sedutor por guerras através de transferências econômicas como investimentos em exércitos e vendas de armas; sem ganho econômico não faria sentido tamanho belicismo.

De volta a Vladimir, este denuncia quando questionado que não possui formas de lazer, é impossível desenvolver-se socialmente em meio ao microcosmos de isolamento e de tentativa frustrada de denominador comum para presos com os mais diversos graus de alterações, transtornos e problemas. Não há esporte, "somente uma luva e uma bola de beisebol". O controle e a rigidez das instituições e dos quartos ofenderia qualquer prisão da península nórdica entre Noruega e Finlândia da posteridade.

Um dos presos estava em greve de fome como protesto e foi obrigado a consumir alimentos pelo nariz, em um tubo, em uma das cenas mais agoniantes em que é recomendável até avançar a fita. Suas costelas em sobressalto, a nudez de algumas cenas e finalmente a injeção intubada pelo nariz da vítima dessa prática torturante. Um padre abençoava os detentos com orações católicas para quem assim quisesse ou não quisesse.

Os documentários de Frederick Wiseman deveriam ser exibidos ao mundo para mostrar atrasos, distorções, noções escondidas e inferiormente conhecidas da chamada terra da liberdade, onde liberdade muitas vezes é controle, liberdade muitas vezes é submissão, liberdade muitas vezes é suborno, liberdade muitas vezes é imposição, é aprisionamento, são ataques ao estrangeiro, ameaças e destruição, seja por falta de métodos mais avançados para o desenvolvimento ou maldade crua.

🌟🌟🌟🌟 

1- A instituição filmada é o Hospital Estadual de Bridgewater para Criminosos Insanos, uma instituição correcional em Bridgewater, Massachusetts.

2- A informação é de que o documentário de Wiseman ficou banido do território estadunidense por pelo menos 25 anos de exibição proibida, o que faz sentido com o questionamento deste escriba.

25/09/2025

Branco Sai, Preto Fica (2014)

Branco Sai, Preto Fica é um filme nacional de 2014 e possui muitas camadas a serem analisadas. É certo que sua nota não pode ser baixa. O filme mistura gêneros cinematográficos mesmo com um orçamento discreto, inclusive com ficção científica sem efeitos especiais. Está muito no imaginário.

Dimas Cravalanças é um viajante no tempo. Ele tem a missão de voltar para uma época e coletar provas de que havia racismo forte, omissão de governo e violência policial. Brasília é uma cidade sitiada, onde é necessario passaporte e autorização para trocar de bairro à noite, tem toque de recolher. A violência policial foi o episódio capital do filme. Ela é apenas narrada pelos personagens.

Dois personagens negros foram vítimas da violência policial em um baile em Brasília. Logo no começo do filme um cadeirante que adaptou sua casa para cadeira de rodas, e possui uma rádio pirata com um singelo estúdio, conta sua história. Na entrada brusca da polícia para acabar com esse referido baile, ele acabou PCD. Durante a invasão da polícia, logo ao início do filme na narrativa, o personagem anuncia a frase derradeira do nome: "Branco Sai, Preto Fica", no escancarado racismo policial brasileiro.

Ele simula diálogos de abordagem. "Tá olhando o quê? Tá armado?", entre outras frases. Quem conhece operações, principalmente em bairros pobres, sabe da verossimilhança.

Outro personagem perdeu uma das pernas nessa ação e hoje utiliza perna mecânica. O filme é como um documentário da vivência deles, na união com drama e ficção científica pelo viajante no tempo. Esse personagem que perdeu a perna conta que tentou fugir na entrada da polícia, mas o cerco era forte, havia cavalaria e ele foi pisoteado. O resultado foi a amputação. Como forma narrativa e de empatia, ele inclusive conta como foi acordar no hospital após a cirurgia, em visão marcante em que se sentia melhor e pensava levantar para ir ao banheiro, mas ele não tinha mais a perna. Há referências científicas no filme como a sensação em que o cérebro ainda acredita na existência da perna. O sistema nervoso humano demora a se acostumar à nova realidade.

Esses personagens são a espinha dorsal do filme e Dimas Cravalanças precisa conhecê-los, investigar suas vidas e enviar essas provas ao futuro para denunciar a omissão de justiça e o descaso policial. O aprofundamento do filme se deve a maiores detalhes de como os personagens ganham seu sustento. O DJ ainda quer trabalhar com música, mesmo com suas limitações de acessibilidade e de equipamentos. Ele pede ajuda a um sócio, precisa investir grana em nova aparelhagem e em passaportes para circularem pela sitiada Brasília. Era nada fácil. Nessa trama, ele convive com outros artistas um tanto quanto questionáveis. Há um tecno brega que lançava a dança do jumento, balançando o instrumento, e contava com back vocals, cantoras de apoio. Um tanto constrangedor. Outro rapper muito mais sério ajuda nas denúncias propostas pela história do diretor Adirley Queirós. No rap do entrevistado, no improvisado e modernizado estúdio do cadeirante, um pouco mais da história da periferia. Brasília, afinal de contas, é uma cidade que nasce política, centralizada nos poderes executivo, legislativo e judiciário e passa a receber trabalhadores e migrantes de todos os rincões brasileiros - e estrangeiros, bolivianos, peruanos, enfim - Renato Russo já cantava essa proximidade em faroestes caboclos. 

A história de tentar superar traumas e deformidades arregaça o preconceito existente. A dificuldade enfrentada pela periferia, ainda mais quando se sofre preconceito pela cor da pele, quando se sofre preconceito e se enfrentam limitações pela acessibilidade. A perna mecânica que precisa ser comprada, reparada, arrumada, talvez trocada ou adaptada. Sem ajuda pública, um irmão precisa ajudar o outro. Sem espaço na mídia, um DJ precisa buscar investimentos com sócios suspeitos, com artistas estranhos, com recursos limitados.

Branco Sai, Preto Fica é uma frase que abre um leque de significados. Sai de cena? Sai do baile para não levar porrada de polícia? Sai do protagonismo e finalmente abre espaço a quem nunca é ouvido? Esse filme brasileiro tem tudo para, mesmo com limitações na linearidade da história, com o roteiro que pode ser considerado confuso pelos espectadores, se tornar um clássico da época. 2014 de um Brasil escravizado e ainda escravizante.

Nota final para o filme de Adirley Queirós:

🌟🌟🌟🌟

24/09/2025

Ladrões de Cinema (1977)

Ladrões de Cinema é um filme brasileiro muito interessante, a começar pelo referido período de 1977, durante a ditadura militar brasileira, ou seja, tinha de passar pelos censores. E conseguiu e mesmo assim trouxe críticas construtivas. O filme começa no carnaval carioca com uma equipe de filmagem vinda dos Estados Unidos. Eles documentam o carnaval do Rio de Janeiro e construiriam um filme/documentário sobre. O equipamento é roubado em plena avenida e os cineastas ficam estatelados no chão, sem poder identificar os ladrões.

O equipamento sobe o morro do Pavãozinho, onde moram os protagonistas do filme: e a comunidade como um todo. Lá eles discutem o que fazer com aquelas câmeras e negativos roubados. Pensam em revender e trocar por dinheiro para comunidade, mas melhor: decidem por fazer eles mesmos um filme. Todo o trabalho em Ladrões de Cinema é de improviso e de cenas que cidadãos comuns com câmeras poderiam desenvolver. Eles decidem por fazer um filme na comunidade e iniciam a luta para decidir um tema. Optam por Tiradentes. Aí a crítica se eleva. A comunidade treina bastante para entender a história brasileira, a história da Inconfidência Mineira, a crítica de que os ricos queriam só para eles, que os líricos e padres não tinham o necessário para uma real revolução e que dependeria de representantes do povo - como eles, do Pavãozinho, eram.

A comunidade de predominância negra passa a gravar as cenas da história mineira, então onde negros interpretam papéis também de portugueses. Ocorre essa mistura. Eles aprendem na prática técnicas de direção e atuação. Pedem dicas e materiais para um francês que mora no Rio de Janeiro. Quebram barreiras idiomáticas e de performance em busca do filme prometido.

Enquanto isso, há traidores entre eles como havia traidores para denunciar a Inconfidência para Coroa Portuguesa. Há portugueses de verdade na comunidade no morro. É uma mistura em três atos: entre a realidade da comunidade, a ficção/atuação de fazer um filme e a história brasileira. Godard ficaria orgulhoso. Os traidores na comunidade o quê queriam para sabotar o filme? Queriam vender os equipamentos caros dos norte-americanos e surrupiar a grana. Nada absurdo, certo? Portanto, paralelamente à gravação do filme, rodam-se os planos dos sabotadores em busca do benefício próprio. Algo comum em todas as esferas sociais, dos mais pobres aos mais ricos.

A escolha do tema por Tiradentes e a pretensa revolução pelo povo brasileiro contra a coroa portuguesa não é por acaso. O espectador observa essas nuances entre o poder sendo conquistado por uma comunidade pobre que agora detém meios midiáticos e protagonistas contra a expectativa de sempre, de que só o estrangeiro, só os abastados pudessem se expressar ou retratá-los. A comunidade do Pavãozinho nunca seria mostrada ou se mostrar não fosse uma mera experiência durante o conhecido carnaval carioca. Mas o morro existe lá o ano todo. Tem seus personagens, sua gente suada e trabalhadora. Assim como possui bandidos como qualquer outro espaço da sociedade, seja ela brasileira ou não. A trama percorre esse trajeto de sabermos se o equipamento vai ser vendido por baixo dos panos ou não. Se os bandidos que roubaram os estrangeiros serão capturados ou não. O filme ficará pronto ou não?

Os norte-americanos apareceram somente na cena inicial da gravação na avenida do carnaval e voltam à cena ao fim, entusiasmados que estão na descoberta dos equipamentos e no tal produto final das filmagens no morro, material intelectual que eles próprios teriam barreiras e não conseguiriam produzir. Novamente o debate entre o estrangeiro roubar o produto brasileiro, a força do trabalho, o estado natural da terra brasilis. A comunidade do Pavãozinho, tão pouco mencionada ao longo da história brasileira, contribui em um filme de rara crítica e posicionamento nacionalistas em um falso período patriótico, em que era silenciada e submetida aos interesses estrangeiros em controle e acordos com o governo brasileiro. Não havia a soberania que até hoje se luta para conquistar pelo Brasil. A crítica também era essa, da saída ou não do domínio da corte para a saída ou não do domínio das garras estrangeiras, estadunidenses. A presença de traidores ou sabotadores quanto a qualquer movimento que causasse desordem ou desconforto às leis vigentes, sejam elas portuguesas dos tempos da coroa regente no Brasil ou da bipolaridade ou multilateralidade do mundo globalizado, durante ou após guerra fria.

Nota final para o filme de Fernando Coni Campos fica em:

🌟🌟🌟🌟

19/09/2025

Memória de Helena (1969)

"Descobri que se tivesse a liberdade que procuro, não saberia o que fazer dela."

Memória de Helena é um filme brasileiro com uma narrativa peculiar. A amiga Rosa conta a história de Helena através de suas lembranças, de um diário de Helena e de pequenos filmes gravados pela protagonista e pelo tio.

O filme não possui uma completa linearidade, mas é possível entender acontecimentos na vida da jovem. O romance com Renato é destaque. O rapaz fica entre Helena e Rosa, nesse convívio cheio de nuances. 

Renato se muda para o Rio de Janeiro e de lá mantém contato com a confusa Helena. Ela reserva uma semana para conhecer a realidade do rapaz em terras cariocas, saindo da interiorana Diamantina, em Minas Gerais. É um romance que reflete também a realidade do êxodo brasileiro entre o interior e o crescimento, em densidade, das grandes capitais. Helena estranha as paisagens e o ritmo de vida no Rio de Janeiro, causa e gera desconfiança e descobre que isso era justificado pela presença de outra mulher, Adriana, na vida do rapaz. Por orgulho, como Helena admite, ela resolve conhecer Adriana, com quem passa seu último dia no Rio de Janeiro.

Em retornos a Diamantina, Renato é elogiado pelos demais interioranos por sua jornada de logros em terras cariocas, objetivo de grande parte dos conterrâneos. Foi assim que Renato conquistou a confiança de Tio Mário, veterano parente próximo de Helena.

"Eu não esperava a hora de ficar novamente com a simplicidade de meus habituais problemas." - Helena filosofa sobre a banalidade, com resignação e um tanto de acidez ou aspereza. "Desde o Rio de Janeiro, adotei uma forma de apatia que me contemplava tanto com o lado bom do mundo quanto com o ruim" - definitivamente.

Há vários debates que permeiam o filme entre as morais e os costumes. Começa na relação próxima de Helena com a criada Inês, uma negra empregada. O principal deve ser a relação lésbica entre Helena e a confissora Rosa, relacionamento abalado desde a chegada de Renato e, após, no fato de Rosa também ter conhecido um rapaz, citado Marcelo. Finalmente, pelos 50 minutos de filme, a ida de Helena ao circo, nas companhias de Inês e Rosa, causa reflexão sobre uma espécie de luta travada como número circense que desafiava o conhecimento de moral aceito e correto. Outros números do circo, entidade itinerante pelos interiores brasileiros, podem abalar os nativos. Há nisso a forma de vida nômade, as propostas artísticas de pintura, sensualidade e convívio e a fuga artística da rotina maçante de trabalho forçado em terras e trabalhos burocráticos, desafiando a lei e ordem pelo descampamento incerto.

Ocorre a chegada de André, personagem complexo, amigo de Marcelo. Ele desembarca de helicóptero, homem com interesse na exploração de terras

"Olha aqui, André, eu peço que você não se explique nem represente, apenas seja como é", alfineta Helena, sempre servida de frases impactantes para apimentar a narrativa.

André é mais velho, apresenta um comportamento o tanto quanto machista, mas fica impactado pela estranheza e característica rude em Helena, causando-lhe interesse e aproximação.

"André me parecia um tipo vulgar, mas é apenas uma pessoa desnorteada e fascinada pelo lado aventureiro de sua vida", Helena descreve os personagens, dentro da trama, melhor do que podemos realizar observando de fora. Isto sim é fascinante. Helena então acredita que seu rápido romance com André bastaria para novas perspectivas em sua vida. Acredita que o metido a empresário a levará junto, para fora de Diamantina, para outras vivências, mas acaba desiludida. Esquecida, desamparada, apática, descrente e sem propósitos. O final trágico causa lágrimas à amiga e contadora da história, Rosa. Ela que por vezes foi mais do que amiga.

"Esta é uma história de amizade, mas amizade de tempo indefinido", sustentando a permanência das lembranças, dos acontecimentos e da saudade, a mais portuguesa das palavras.

🌟🌟🌟🌟


15/09/2025

Nada mais justo do que a condenação de Jair Bolsonaro sair em pleno dia 11 de setembro, dia do Jair deste blog. Justa homenagem.

A coincidência de pseudônimo pelo nome do pior presidente da história da República para coincidência da condenação no mesmo dia do nascimento do escritor.

07/09/2025

Mais frases soltas:


Eu sempre quis agradar mais do que sou agradado (vivo desagradado).


No capitalismo, fazer dinheiro também é tirar dinheiro dos outros.

05/09/2025

Deusinhos

Os deuses caem no chão do destino

Caem como de cima de um mezanino 

De onde observam a humanidade

Não é fácil ser são na insanidade

E observar destinos tão mesquinhos

O aprisionamento de passarinhos

Os apartamentos corroídos sem síndico

A vida correndo sem sentido


Os deuses caem no chão do destino

Pouca coisa envelhece como vinho 

Alguns vieram apenas pra ver vertigem

Quando a esfinge esfacela todos vão 

Vão embora e nenhuma consideração

Vão embora e nenhuma ponderação

Qual passarinho não voaria dessa prisão?


Os deuses caem no chão do destino

Às vezes há ninguém que se preze

Às vezes há ninguém que percebe

Às vezes há ninguém 

Para ecoar em voz audível um amém 

Para dizer algo além da própria voz

Às vezes há ninguém além de nós 

A esfinge esfacela, estamos a sós 

E quem finge nunca fica para o pós 


Os deuses caem no chão do destino 

E as pessoas sonham alcançar o céu

Alguns pensam nisso desde meninos

Alguém antes de perceber já morreu

Os deuses caem no chão do destino

A terra não amortece, não amolece 

A terra seca 

Envaidece quem vê uma planta que cresce

Se o vizinho nunca sai da fase beta


As Amorosas (1968)

Preso à década de 1960, nessa década de tanta produção artística, sobretudo aqui cinematográfica, em tantos movimentos políticos, o filme em questão é As Amorosas, de direção de Walter Hugo Khouri. Khouri, esse sobrenome de origem árabe, da família uma parte italiana, outra libanesa, Khouri conhecido por adotar temáticas ligadas ao amor e à filosofia. Em As Amorosas não foi diferente. O alter ego do diretor, Marcelo está completando o equivalente aos estudos secundários - de forma atrasada, ele que não ligava para muita coisa. Ou ligava para nada, um niilista. 

O filme percorre o período da vida de Marcelo em que busca sentido, ou até mesmo desiste disso. Se relaciona com uma atriz somente pela beleza. Se relaciona com uma aspirante à cineasta porque ela teria ideias políticas e desenvolvidas. Enfada-se de ambas por diferentes motivos, mas o resultado é o mesmo. Marcelo é um niilista que não vê sentido em continuar os estudos, em procurar um emprego, em se esforçar para vida.

Uma parte marcante é quando Marcelo é entrevistado pela menina que estava fazendo um filme, um trabalho do curso, em que entrevistava pessoas da Universidade para descobrir O Quê, Como e Por Quê. Sobre a vida universitária, o que levava as pessoas a escolherem um curso e com quais objetivos, sendo, para São Paulo, muitos vindos de outras regiões do Brasil. Na resposta, Marcelo confessa ter vivido por muitos anos esperando fazer algo pelo mundo, algo marcante, que lhe conferisse status, aprovação e recordação, mas mudou. Pausou essa ideia e se resignava a apenas buscar uma transformação dentro de si, que fosse suficiente, plena e satisfatória o bastante - apesar do objetivo, parecia distante dessa vivência plena.

A desistência por aprovação torna Marcelo esse niilista que nada esperava dos outros, nem status quo, nem soluções. Ele conferia opiniões sinceras e não acreditava mais do que no momento. Com a namorada desse projeto de filme, explicava, com um gesto, que isso era um beijo, mas agora já passou. Isso agora é outro beijo e já passou. E assim era a vida, que daqui 10 anos nem ela lembraria dele, que daqui 30 anos ninguém lembraria de seu quarto e suas decorações, que dali a 200 talvez nem o prédio existisse, que em 2900 ninguém lembraria ou saberia da existência deles. Um niilista.

Marcelo desistia de viver com os familiares, desistiu de dividir apartamento com um amigo e chegou até um espaço ocupado por quartos de empregadas - mas são bonitas, destacou. Não se importava com sua posição social e a busca por empregos para ele era enfadonha. Constantemente pensava apenas sobre a falta de sentido e se encaminhava para desistência de tudo.

O encaminhamento para cena final é chocante, pois enquanto Marcelo vivia dessa forma, outros despropositados poderiam agir e de forma muito mais violenta, contra e por cima da passividade. Um final à la Laranja Mecânica, pela brutalidade. Interessante que o livro de Laranja Mecânica é original de Anthony Burgess, do Reino Unido, em 1962. O conhecido filme que marcou o século XX, na adaptação de Stanley Kubrick, é de 1971, ou seja, feito após esta obra de Walter Hugo Khouri. Permanece do filme brasileiro uma reflexão sobre qual o nosso lugar no mundo, qual o objetivo e se combater outros selvagens não poderia ser uma saída. A verdade é que não se consegue mudar os outros, mas pode-se tentar mudar a si mesmo. É um mundo selvagem em que não há prevalência da justiça.

Em "As Amorosas", pelo título da história e pela época, pode-se esperar um filme raso sobre sensualidade e amor, e é praticamente nada disso. É um filme filosófico, sobre um jovem despropositado de classe média, média alta, que atingiu, sem esforço, um status que lhe conferia o tédio, um conhecimento que lhe desvirtuava de participar e acompanhar o mundo. Quem estagna-se para pensar um momento - ou vários momentos - consegue se identificar.

⭐⭐⭐⭐

03/09/2025

A Face do Outro (1966)

Filme adaptado de um romance homônimo, A Face do Outro pode ser considerada parte da Nouvelle Vague do Japão. Nesta história, um marido acidentado, que desfigurou, que perdeu o rosto, usa ataduras, faixas por toda face e servirá de cobaia para o experimento de uma máscara adaptável à sua cabeça. Constituído com um novo rosto, o melancólico terá a chance de reconquistar mulheres?

Este foi um filme em que o escriba adiou bastante a visitação por julgar erroneamente que se trataria de tentativas de horror, de que houvesse uma aberração a assustar moradores, apenas migrando da cultura ocidental para o Japão. Não foi o caso. Entre filmes com essa temática de duplo, de adaptações, de desfiguração e retomada, A Face do Outro se mostrou digno de topo;com certeza entre os melhores.

A filosofia no filme é densa, com vários paralelos que podem ser traçados com a atualidade da vida dupla de internet e das redes sociais. O indivíduo que estava triste e deslocado sem possuir um rosto, retoma as atividades sociais sem mais chamar atenção negativamente, sem espantar, mas espanta-se diante das novas possibilidades, do recomeço, da vida praticamente reiniciada, partindo do zero. Será? Apesar da mudança na armadura, na casca, na estrutura externa, o cérebro, os pensamentos e desejos ainda são os mesmos. Prova disso é o clímax do objetivo do homem ao possuir o novo rosto e a suposta nova identidade. Terá ele êxito e o que dará errado?

Ademais do indivíduo, ganha força de protagonismo também o médico responsável pela criação e experimentação da atividade. O médico delira e sonha com um mundo de duplos, de falsidades, de traição e possíveis crimes com a novidade em experimento. O marido protagonista do filme seria como o primeiro paciente, se sente como uma cobaia. O doutor está em êxtase, divaga sobre a vida, faz afirmações sobre o comportamento social. É um filme denso e reflexivo, sobre como nossa identidade é constituída, parte das aparências e um rosto pode construir ou destruir uma reputação. Não será assim ao longo das décadas? Por penteados, roupas, tatuagens, piercings ou outros acessórios? Sinalizações de dignidade, respeito, adequação, competência que podem ser aceitas, ignoradas ou excluídas pelas pessoas em cada serviço, em cada atividade, em cada aspiração. O homem que estava deslocado, depressivo, à beira da exaustão sem um rosto para chamar de seu tenta renascer com a nova identidade, mas as coisas não são reiniciadas do zero. Há lembranças, memórias, gostos e traumas que já fazem parte do indivíduo e, apesar do novo rosto, ele carrega em si.

O pensamento mesclado às redes sociais se deve a usuários formarem novos perfis, reiniciarem seus grupos de amizade, de contatos, de networking em busca de novas oportunidades, deixar para trás passados que julgam não mais lhes pertencer e reiniciar em novas atividades - como novos grupos políticos, de atividades esportivas, de games, grupos de leitura ou cinefilia, grupos de fãs de um determinado artista ou gênero musical. As redes sociais permitem reinícios, mas o indivíduo carega em si a experiência do que busca, do que já deu errado e não quer repetir; carrega a vontade do experimento pelas novas pessoas com as quais busca se tornar amistoso, útil, pertencente e participativo. Busca sua nova identidade enquanto membro.

As relações sociais mediadas pelas redes online dispararam. Hoje, a não ser que se trabalhe no atendimento direto ao público, um adulto pode ter muito mais contato diretamente pelas redes do que pelo cotidiano presencial, seja com amigos, amigos virtuais, parentes distantes, etc. A mediação pelas máscaras - palavra-chave no filme- ocorre em situações de ocultar sentimentos, fraquezas, hábitos considerados desprezíveis e pontos que se deseja tornar invisíveis. Essas atitudes partem desde a escolha de fotos - do que postar ou não - do que destacar da rotina ou não, sobre o quê opinar ou não. A mediação pelas telas permite maior tempo para formular respostas, pigarrear e encaixotar opiniões que poderiam ser negativas aos demais, substituindo-as pelas falsidades comumente aceitas em prol da convivência. Mentiras brandas, senso comum ativado sobre a saliência da sinceridade.

O uso das máscaras para criar duplos, para criar incluso perfis totalmente falsos, onde não há concordância de nome, de data ou local de nascimento, de gênero e a nova utilização de robôs são tendências nas redes sociais. Há perfis falsos em jogos e em fóruns de comentários, em comentários de notícias, em grupos de fãs, de torcedores e de conteúdo religioso. Há perfis pagos e programados para espalhar inverdades, para declarar apoio incondicional ou para pigarrear e minar a concorrência. Há máscaras das mais diversas, protegendo esses cirurgiões excitados pela experiência de novos rostos, ou programadores, políticos e gestores beneficiados.

A Face do Outro, nesse universo da década de 1960, tão rica e diversa para história geral do cinema, transmite atualidade conforme a tecnologia transita novas possibilidades de se aparecer e de se esconder, de reiniciar e de pausar histórias, de selecionar novidades ou excluir passados tolos - de tentar reescrever quem somos e de procurar sentidos.











🌟🌟🌟🌟🌟

29/08/2025

Meu Pé de Laranja Lima (1970)

Meu Pé de Laranja Lima causou grande impressão e pode ser considerado um dos melhores filmes nacionais. Acostumado a filmes iranianos que retratam a infância, observar essa obra autobiográfica que vem do livro de José Mauro de Vasconcelos é contemplar a identificação com milhões de jovens brasileiros.

Zezé só revela o nome completo no filme ao recitar para preencher a ficha escolar. José Mauro de Vasconcelos. O menino tem seis anos, é miúdo, mas destemido. Tem um irmão menor chamado Luis (ou Luiz), com o qual é muito atencioso. Seu irmão mais velho aparece em algumas cenas e procura instruir o imaginativo e aventureiro Zezé. A infância neste filme não é retratada como a maior das nostalgias, do fantasioso e do maravilhoso enquanto não se cresce. Zezé, pelo contrário, vive à margem de uma sociedade abastada. Seu pai desempregou e não tem previsão de receber um novo emprego. A substituição dos postos por operários mais jovens é realidade. José mesmo muito criança já sai atrás de suas rendas, sempre pensando nos próximos. Sonha dar um presente de Natal ao maninho menor. Quando questionado por roubar uma flor para professora, confessa não ter dinheiro para comprar, não ter jardim em sua casa com flores e que não tolerava assistir ao copo na mesa da professora vazio. Roubou-lhe uma flor. Em seguida fala que a professora não deveria destinar brindes de comida só a ele, que era excelente aluno. Uma negrinha na escola era ainda mais pobre e ele dividiria a comida sempre com ela, que era excluída por outras crianças. A professora poderia dar brindes direto à menina. Zezé cometia erros, xingava, se metia em brigas, mas tinha bom coração. Passados anos da vida adulta é fácil enxergar. O envolvimento de todo contexto e o perdão para os erros infantis do aprendizado.

Nessa vida com percalços, descalço pelas ruas, Zezé não romantiza a infância. Sonha viajar, fala até em suicídio, conversa que pesa clima ao fazer amizade com um confessor português, o senhor Manuel Valadares. Como o pai estava desempregado e ocorriam algumas brigas em sua casa, com a irmã adolescente e os pais, Zezé chega a projetar que o português o adote. Manuel, que não tinha filhos, não descarta a ideia, mas não tiraria o menino do seio familiar.

Claro, o personagem principal das confissões de Zezé seria o que dá nome ao filme, o tal do Pé de Laranja Lima. Zezé o descobre no terreno avulso à casa e lá parte para brincadeiras e imaginações. A árvore além de ouvinte também dava dicas maravilhosas ao menino. Um realismo fantástico. Zezé gostava de brincar de imaginar um zoológico e animais ferozes para impressionar o mano Luis. Além da árvore do protagonista, os irmãos também tinham entre mangueiras e outras árvores, uma da tamarindo.

O efeito do filme com acontecimentos tristes, emocionantes, crus, remendadores de nossas e outras infâncias torna as lembranças como um clássico. Se comparam as épocas, se pensa no raio do capitalismo que faz crianças trabalharem e adultos sucumbirem. Faz com que desejem fugir ou morrer, que sejam discriminadas, que percebam ou não as diferentes classes sociais e financeiras. O dinheiro como base de tudo, para comer, para presentes, para determinar as crianças que tenham ou não tenham Natal, que tenham ou não tenham figurinhas de chiclete e outros brinquedos, que possam ter a bicicleta ou não, conforme o filme recém avaliado neste canal, o Este Mundo é Meu (1964).

Meu Pé de Laranja Lima supera sensores para cortar/contar essa época da arte brasileira com amostras de pobreza, mas de esperança. Retratos crus, a mistura do rural e do urbano, da sociedade ainda muito religiosa, do crescimento das cidades, da passagem do bastão das gerações. Dos portugueses incorporados à sociedade brasileira: amigos? Confessores? Por que não?

Zezé encanta por seu senso aventureiro, por não se intimidar, briga e busca melhoras pelos irmãos, chega a brigar com menino maior do que ele. Luta contra as desigualdades, sonha planos para si e pelos outros, roga contra Jesus que o teria abandonado. Não é fácil ser criança. Toda a romantização da infância esquece de muitos exemplos. O escritor José Mauro de Vasconcelos não nos deixou esquecer das agruras de um Brasil profundo e relativamente recente. Talvez da nossa janela para fora ainda hoje.

28/08/2025

Esse Mundo é Meu (1964)

Filme lançado em ano marcante para história brasileira, Esse Mundo é Meu teve o "luxo" de permitir críticas sociais à essa época. A ambiguidade no título do filme é interessante. Pode-se pensar em uma conduta de posse, de poder, de aquisição, mas a análise final resulta pensar em apenas assimilação, pertencimento. Esse Mundo também é o meu, também é o que vivo.

A história mostra dois trabalhadores, um negro e um branco, e suas respectivas vidas com as companheiras. O negro Toninho é engraxate e sonha comprar uma bicicleta, mas, embora desça ao centro para trabalhar em barbearias e na rua, entre em lojas para namorar o transporte de seu desejo, não consegue atingir a quantia para sobreviver e comprar. O branco Pedro descobre que a companheira está grávida, deseja um aumento de salário na fábrica, na serralheria em que trabalha, coisa que não obtém. O chefe brava em plena discordância. "Se eu der aumento pra ti, precisarei dar aumento pra todos."

A companheira de Pedro pensa no aborto, pois não quer ter um filho sem estudos, um engraxate ou situação semelhante. O operário sonha que o futuro filho estude e seja um respeitado doutor. Situação distante para o Brasil da época?

O cansaço da espera, a ansiedade e o desespero moldam, modelam as duas histórias em pouco mais de 1h18min de filme. A direção é de Sérgio Ricardo, brasileiro que por muito tempo se dedicou à música, trilhas sonoras e canções. Assim, o filme tem acabamento apesar dos parcos recursos. As histórias fluem.

A figura central da bicicleta faz pensar em outros filmes da época, como o clássico italiano Ladrões de Bicicleta, o neorrealismo nas telas. No futuro, o árabe O Sonho de Wadja lembrará da importância da bicicleta, dessa vez para uma menina que não poderia brincar e se mover como os outros meninos, em função das restrições impostas na cultura islã. No Brasil de 1964, a identificação com o mundo do trabalhador que vive de bicos, não tem salário fixo, mal tem para arrematar a saída da miséria da fome, não tem para juntar para uma simples bicicleta e não encontra outra forma que não seja o roubo. A identificação com o operário que almeja uma vida melhor para família, deve dois meses do aluguel de um barraco. Ele e a mulher então recorrem, na dúvida sobre a manutenção ou a extração do filho, a uma clínica clandestina de aborto, com métodos mal afamados e polêmicos. Irão sobreviver?

A colocação da temática do aborto em plena época demonstra ousadia e abertura para um debate ainda muito distante de ser vencido em 2025, mais de 60 anos depois. A identificação com a dura realidade das personagens mostra um Brasil que muito precisa avançar e a dificuldade de sobrevivência para quem vive à margem, na localização, no acesso à saúde e oportunidades.

⭐⭐⭐⭐

26/08/2025

O Médico e o Monstro (1920)

O Médico e o Monstro, filme de 1920, adaptado do romance de Stevenson, conta a história de duplicidade do médico Dr. Jekyll com a figura monstruosa de Mr. Hyde. Eles coexistem. Portanto, a temática do filme é essa coexistência do bem e do mal em uma mesma pessoa e a dificuldade para controlar a própria monstruosidade, a agressividade, a perversidade, os desejos. 

Dr. Jekyll é um sujeito por demais respeitado na sociedade londrina. Ele visita George e está encaminhado para casar-se com a bela Millicent, filha do magnata. O interesse da filha pelo jovem médico/cientista é visível. Porém, o próprio George incentiva Henry Jekyll a conhecer a perversidade, os cabarés, a vida noturna e suja de Londres. Como é dito por outro amigo deles, "há poucas coisas que George não conheça, não tenha vivenciado". Contrapondo a prudência e inocência de Jekyll, seu lado obscuro aflora pelo incentivo alheio. Assim, pesquisador e experimentador da ciência, ele propõe em segredo o uso de uma poção, de uma droga que o transforma em um duplo perverso. Coexistem em Londres a figura respeitada de Dr. Jekyll e do corcunda aterrorizante e frequentador das maldades da noite, o tal Mr. Hyde.

Adaptando século depois se pode comparar a forma oculta em que Jekyll não era associado a Hyde, apenas seriam amigos que nunca, logicamente, apareciam juntos. Henry Jekyll chega a destinar em testamento suas descobertas e patrimônio para o "amigo" Hyde, situação que pôs todos em desconfiança e vigilância: qual seria a relação entre Jekyll e o perverso, estranho e desconhecido Hyde? Uma mesma pessoa pode ter lados ocultos, crimes grotescos, aparências a enganar. Disso não sobra dúvida, sobretudo nas redes sociais e, como é o tema do Brasil no mês de agosto, os perigos das redes com tráfico de imagens e consumos velados ou obsessivos de temas que colocam em risco a sanidade, os direitos e a preservação de crianças e adolescentes. Situações suscitadas a partir do vídeo de Felca e por aí adiante.

Muitos Mr. Hyde vivem escondidos em Dr. Jekyll, sejam em traidores, abusadores, criminosos dos mais diversos tipos, violentadores, articuladores de conteúdo proibido e traficantes. A temática é totalmente clássica através da modernidade em que a humanidade se desdobra sobre novas maneiras e tecnologias para sobrepor camadas e infiltrar-se em universos do abjeto e do repudiante. Camadas ocultas de crimes virtuais e entre quatro paredes se misturam à história do viés tecnológico. Crimes domésticos, crimes familiares, abusos cometidos por quem deveria cuidar e proteger. Eis variedades de Mr. Hyde que sobrevivem à sombra dos órgãos investigadores e da sociedade alerta contra a tirania e a perversidade dos falsos zeladores.

Temática que se mistura ao agosto lilás de proteção contra a violência contra as mulheres e sobretudo na proteção de crianças e adolescentes. É difícil avaliar uma história como essa e não se colocar na condição de alerta de que casos podem estar ocorrendo ao lado ou em perfis que aparentam tranquilidade. A vizinhos e familiares que suspeitam marcas e atitudes estranhas, a denúncia deve estar sempre disponível quando apontarem-se provas.

Sobre a história do filme mais do que centenário, Dr. Jekyll foi experimentar prazeres que o dominaram, descontrolaram na dosagem e o derrotaram como indivíduo e figura de convívio social. As camadas de bem e mal que se acoplam em um mesmo sujeito, como delineava Nietzsche, podem desequilibrarem-se e causarem transtornos. Sobressaem-se a desconfiança e a incapacidade de leitura exata dos sujeitos, indivíduos cada vez mais individualistas, suscetíveis e programados a perdições e caminhos errados enquanto outros tantos visam o lucro. Vendem-se doenças e remédios. O problema e a cura. A indústria do erro, a cegueira de quem lava as mãos e da justiça e a indústria do punitivismo, por último. Ou nem isso. 

19/08/2025

Natu Rezas

Natureza

Será que descobrimos mais alguma beleza

Nas espécies que não catalogamos?


Natureza 

Será que reconheceremos a sua realeza

Ou seguiremos brincando com os reinos?


Natureza

Posso morrer como filme "Gôsto de Cereja"

Ou agosto me reservará alguma surpresa?

15/08/2025

A Chinesa (1967)

Por ordem cronológica de preparação, o filme seguinte a ser analisado é A Chinesa (1967), um dos mais políticos de Godard enquanto fase da primeira Nouvelle Vague, iniciada em Acossado (1960), com roteiro do companheiro François Truffaut. Em A Chinesa, feito após 2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela e antes de Weekend, Godard já havia começado seu relacionamento com a atriz alemã/francesa Anna Wiazemsky, destaque no ano anterior no filme A Testemunha. Anna estreia nos filmes de Jean Luc com papel de importância em A Chinesa.

Jean Pierre Leaud e outros atores compõem nesse filme uma célula comunista, com as locações internas em uma casa altamente decorada com material político. O filme é todo composto por debates, discussões, pensamentos e manifestações de cunho político, com atuações locais ou mediante os problemas globais. Os jovens escutam a tradução da Rádio de Pequim e buscam se manter informados sobre as guardas vermelhas impulsionadas na China. Claramente, se vê que a célula comunista está com novos membros e os debates são de iniciação e com foco na continuidade das atividades. No início do filme, um companheiro deles aparece ensanguentado e rapidamente o acodem e o posicionam em uma cadeira. Quando questionado quem teria feito isso com ele, afirma, para alguma surpresa, que foram outros ditos comunistas, da Sorbonne, numa dissidência ocorrida sobre a situação russa (diante da Soviética de 67). Jean Leaud considera isso positivo, pois marca as opiniões contrárias e o posicionamento da célula enquanto modelo político. 

As paredes da casa em questão estão sempre decoradas com frases de efeito. Uma delas afirma que se devem combater ideias vagas com ideias claras. O filme tem andamento quase como um manual para recrutar, se politizar e entender questões político-globais. Nenhuma surpresa que tenha sido vetado/censurado de exibição qualquer no Brasil da época. A pensa os objetivos da ditadura cívico-militar brasileira, atuaram como a censura previa atuar: sem espaço para manifestações pró-comunismo.

Um convidado discursa para a célula sobre a perspectiva global após a morte de Lenin. Abre-se espaço para novas pesquisas, perspectivas e formulações. Sementes já foram plantadas. Eles debatem que as classes sociais vivem em constante choque, ebulição, movimento: há classes que ora surgem, outras desaparecem como movimento de atuação social. "Essa é a história da civilização." E essa pressão, essa luta de classes acabaria sob uma ditadura com base nas escolhas do proletariado? É negado. Desde 1921, Lenin afirmava que a ideia de classes sociais não se dissiparia sequer com essa organização social.

No filme, também se considera que revoluções só são possíveis tendendo-se, entendendo-se, buscando-se revoluções. Não acontecem por acaso ou não sendo almejadas. Para alcançar objetivos, é preciso focar na prática desde o bairro, a vila, a cidade, com exemplos práticos e não especulativos, imaginários. Além dos debates, diga-se, com o objetivo em tempp real, o filme é entrecortado com espécies de entrevistas com os membros da célula, com suas histórias pessoais de como aderiram à ideologia, de onde conheceram, o que têm passado e quais objetivos possuem na causa. Dentro disso, comentam situações cotidianas e de relevância para as discussões políticas.

Diferentes lugares de fala são apresentados. Veronique, a personagem de Anna Wiazemsky vem de uma família de banqueiros e estudava filosofia. Percebeu as desigualdades impostas pelo capitalismo (classes sociais, campo x cidade, agricultura x indústria), percebeu que somente estudar filosofia vinda de um bairro operário era uma contradição muito grande, mas tenta aplicar os conhecimentos em busca de uma teoria mais justa, que possa ser praticada. Segundo ela, queimar livros também não seria bom, pois assim não se consegue criticá-los.

O personagem de Jean Leaud levanta uma questão sobre linguagem (lá vem Godard). Se fosse uma sociedade de cegos, se prestaria mais atenção ao que é dito, em conversas verdadeiras, com atenção ao interlocutor. É uma crítica que ganha espaço cada vez mais em uma sociedade de muitos falantes e poucos ouvintes; poucos ouvintes ativos, poucos interpretadores, reflexivos, pensantes, questionadores.

Após o descanso da noite, os personagens despertam pela manhã e vão em direção a varanda da casa. Alongam e realizam exercícios enquanto pronunciam frases de teoria marxista como se fossem um exército a cantar durante os exercícios físicos. Uma sátira godardiana. O personagem de Jean Leaud então ministra a próxima conversa sobre os tons e directrizes da guerra na Ásia. Satiriza a ação dos países, cada qual representado por óculos escuros com suas bandeiras, enquanto o Vietnã está limitado a pedir socorro. Estados Unidos enviaram mais bombas ao país asiático do que durante a Segunda Guerra (princípios para quê? Ásia para os norte-americano?), União Soviética muito teoriza e pouco aplica. A China de Mao pede atenção, mas não teme o imperialismo e o capitalismo (como até hoje permanece). Nas palavras de Mao, esses impositores seriam como tigres de papel, ferozes na aparência, mas, para China, inofensivos aos objetivos. Inglaterra e França, consideradas potências mundiais, são passivas e não demonstram posicionamento profundo, como em outras guerras modernas - até sobre a passividade no caso Israel-Palestina.

Percebo que Godard também utiliza muito das armas de fogo, de representações de conflitos como apenas brinquedos, como se os personagens, os adultos brincassem com essas arminhas, como crianças. E as guerras não são assim? Com homens velhos a regular, a controlar, a ordenar distantes da linha de frente por objetivos econômicos, sem a real dimensão da desgraça de cada frente, do saldo de cada bombardeio. Assim como na psicologia infantil, são nas brincadeiras que muito é demonstrado e pode ser interpretado.

Ao longo do filme, Godard defende a corrente maoísta, considerando os segmentos da esquerda europeia como reformistas, insuficientes, impotentes. O exemplo maior a ser estudado, segundo a demonstração do filme, é a China (até por isso leva o nome, A Chinesa).

O personagem de Jean Leaud e Veronique escutam um discurso, escutam música e que os comunistas devem combater em duas frentes, entre elas, a arte. Leaud anuncia que é difícil para ele fazer duas coisas de uma vez, só consegue uma. Veronique simula uma DR de casal, que não o ama mais, justifica e diz que ele entenderá. O exercício era para mostrar que ele consegue sim fazer duas coisas ao mesmo tempo, no caso foi entender a questão e ouvir música. Questionável resultado, pois às vezes abdicamos da atenção de uma música ou a rebaixamos para segundo plano enquanto nos dedicamos em cheio a algo mais urgente e relevante. Complicado atuar em duas frentes, mas fica o debate da cena.

Prossegue mais um debate sobre linguagem, o que envolve a exclusão do personagem loiro Henri na célula. Por dissidências, foi votada sua saída. Ele comenta o episódio enquanto prepara um café da manhã, ou coisa parecida. O debate sobre linguagem é interessante no sentido de que, para se expressarem, discursarem, pautarem uma revolução, deveriam os comunistas armas discursos, panfletos, anúncios e transcrições na mesma linguagem considerada burguesa, tradicional? Há como romper esse obstáculo rumo a uma libertação, a uma alternativa? São questões de estilo ou há como revolucionar dentro daquilo (a linguagem) que é consagrado, inteligível e usual? Henri acreditava na coexistência pacífica das formas distintas enquanto Veronique era mais radical, pelo rompimento total. A própria Veronique encontra um escritor em um trem e conversam para atualizarem-se. Ela comentam que seus inimigos são os generais, os burocratas (...) e os intelectuais reacionários - um grande grupo. O debate dela com o escritor no trem vai da ideia de Veronique fechar ou explodir as universidades, como a causa inicial do filme do membro da célula após ataque na Sorbonne. Veronique crê que a educação é reprodutora dos paradigmas das autoridades e contribui para o reacionarismo, por isso deseja fechá-las e intimidá-las, propondo até ataques a professores e estudantes, na intimidação aos demais. O escritor se posiciona contra, porque essa ideia é dela e de mais dois ou três, não é uma atitude geral e revolucionária. É diferente do atentado proposto por uma mulher argelina, Djamila, que explodiu um café, "mas em nome da revolução", enfatiza o escritor. "Você não pode fazer a revolução pelos outros", transmite em um sentido da necessidade de acompanhamento, de retaguarda. Veronique nisso deseja que para aplicar as teorias revolucionárias que tem aprendido, ela precisaria da prática e o exemplo descrito era o modelo dela de atuação necessária.

Nas contestações aos planos, o escritor afirma que uma revolução precisa de bases firmes para o prosseguimento, que apenas atos isolados ou tomadas de poder sem uma base forte e planos vigentes se tornam ações temporárias e interrompidas, com altos riscos de apreensões e retenções. Quando a palavra volta para Henri, ele destaca o marxismo como uma espécie de ciência, de método e que os argumentos para atuações da célula eram válidos, mas estavam bagunçados; considerava falta de métodos.

O filme encaminha seu final com o suicídio de Serge, um dos convidados à célula que tinha a missão de assassinar um ministro russo como protesto. Assim, a missão recai para Veronique. Enquanto isso, segue uma entrevista com o excluído Henri, que não sabia do suicídio de Serge, conforme revelou, e não sabia mais sobre os companheiros, ex-companheiros de célula. O personagem de Jean Leaud chega a aparecer como comerciante de verduras, um simples feirante, também deixando que por centavos as pessoas tentassem acertar legumes em sua cara, como aqueles games norte-americanos ou japoneses.

Com muita referência ao famoso livro vermelho de Mao e com uma trilha sonora que o homenageia, o filme A Chinesa chega ao fim com a dissolução da célula daqueles jovens franceses e o futuro sempre incerto das organizações comunistas. Seria a China um modelo a ser seguido? Pelo comunismo da época ou pelo destaque econômico de décadas seguintes? Questões.


Referência ao filme Alemanha Ano Zero, sobre o pós-Segunda Guerra









13/08/2025

2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela

O filme começa com uma breve explicação sobre Paris e investimentos que estão sendo feitos. É um tempo de modernização e a Paris cultural conhecida por todos, em parte capital europeia dessas transmissões culturais, também colide com uma Paris de prédios novos, retos, novas estradas, viadutos, bairros planejados e muito concreto. É um desvio geográfico significativo, em direção à ampliação e modernidade. Em meio a essas Paris, também em conflito estão a vida de muitas mulheres. A escolha aqui das análises por abordar 2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela (sobre Paris) antes dos filmes A Chinesa e Weekend, também feitos em 1967, se deve à proximidade deste com o filme analisado anteriormente, Masculine-Feminine.

No lado Feminine está a vida de Juliette Jeanson (Marina Vlady), uma moça que é esposa e tem filhos pequenos para criar. Ela é aspirante à atriz, mas as contas a serem pagas necessitam de maior urgência para os pagamentos. Enquanto deixa filha em creche, ela deve recorrer a outras formas de ganhar dinheiro. O panorama inicial do filme apresenta uma realidade para muitas mulheres naqueles tempos (e em tantos outros do porvir). Conhecer rapazes, engravidar, não contar mais com o responsável pai e ter de criar o primeiro filho de algum jeito. Não o bastante, conhece outro rapaz, engravida novamente e duplica a agressividade da tarefa pela sustentação.

Juliette Jeanson é a principal figura nessa transição de filme com a linguagem técnica das obras de Godard. Um narrador expõe fatos do cotidiano parisiense e os atores contracenam em uma forma complementar, na nuance entre ficções e realidades. Em um monólogo, enquanto experimenta e compra roupas, Vlady afirma que ninguém sabe como serão as cidades no futuro, mas que com certeza elas perderão do seu passado histórico. Previsão não muito difícil, mas acertada. Godard mais uma vez aposta na técnica narrativa em que as personagens olham para câmera e expõem seus discursos, com reflexões, citações e muitos monólogos. Contam as duas ou três coisas que se sabe.

Ao começo do filme, uma inserção política é marcante enquanto Juliette e o marido conversam. O marido está entretido com um amigo em uma missão de escutar uma rádio distante, praticamente um exercício de decodificação, pois o discurso é em inglês. O presidente Johnson conta sobre sua missão no Vietnã - assunto contemporâneo dos filmes godardianos. A justificativa é cômica. O Vietnã não queria negociar e os Estados Unidos atacavam, bombardeavam lá. Com muita tristeza Johnson afirmava isso. Não quiseram negociar e com muita tristeza teve de ordenar novos bombardeios. Novas investidas sobre Pequim e outras regiões da Ásia até o Vietnã aceitar negociar. Mas infelizmente teve de ordenar novas invasões do exército estadunidense, pois o Vietnã, veja bem, dessa vez, mesmo negociando, não aceitou um acordo conforme queriam. Qual outra escolha possível que não sejam novos ataques ou sanções?

Filho pequeno de Juliette apareceu em seu quarto e relatou um sonho. Eram gêmeos, duas pessoas que do nada se uniram formando uma única pessoa: eram Vietnã do Sul e Vietnã do Norte, mãe.

Juliette está iniciando em seu trabalho. É a realidade para muitas mulheres, incentivadas até pelos maridos ou companheiros para realizar o trottoir. É interceptada por um jovem cafetão que lhe oferece intermediação (e proteção) por apenas 10% do ganho. Ela nega, diz que a guerra acabou e que sua situação é passageira, é temporária. O narrador, enquanto a personagem mistura o café com uma pequena colher, filosofa sobre as falhas da comunicação. A falha em entender, em amar, em ser amado, em ser compreendido. E que cada falha assim acentua a solidão.
"Seguidamente me sinto culpado, mesmo sendo inocente. Todo evento altera minha vida diária."

As reflexões sugeridas pelo narrador são muito densas, mais do que o café ou do que costumaria ser um café com filme de Godard. Ele questiona a tecnologia, o dito progresso que faz com que o futuro seja uma ameaça, que galáxias distantes possam bater à nossa porta. Todos os pensamentos sobre adventos e sobre as limitações de linguagem, de mundo e de consciência ocorrem ainda no café, com a câmera a focar o interior de uma xícara. Um dos aprendizados que pode se sacar desse momento todo é que é possível e recomendável escutar bastante (aos outros, a possíveis sinais) para além do exercício da observação. Aulas.

Pausa do filme em 30 minutos*

A obra avança com imagens de construções em Paris e a atividade de Juliette e sua amiga Marianne como prostitutas. Godard demonstrava muita preocupação com a forma deplorável a que se submetem mulheres ao exercício dessa profissão, ao passo que procura as retratar na vivência, enquanto seres complexos, com suas ânsias, qualidades, defeitos, características plenamente humanas e não objetificadas.

Segue em curso também a preocupação com o uso da linguagem. O diretor está atento ao crescimento da importância da imagem, situação nunca mais posta em marcha reduzida. Isso só se acelerou até os tiktokers e a internet em pleno uso globalizado. A imagem é referência. Ele tenta descrever cenas, mas está óbvio que o trabalho que a amostra de imagens complementam onde a linguagem não consegue exprimir ou trazer precisão. É um debate muito sério da atualidade. Qual o futuro do rádio na era das imagens? Para onde ele vai além dos rádios nos carros e agora são controlados por bluetooth e pelas músicas escolhidas a dedo pelos ingressantes do veículo. Nem as rádios táxi entram em voga com o advento dos motoristas chamados por aplicativos móveis. As imagens dominam, na exibição, no espetáculo, no fetichismo. O audiovisual se sobrepõe de uma forma não antes vista. O ano era 1967. A Sociedade do Espetáculo de Guy Debord estava às portas de ser lançada. O ano era 1967 e os televisores, passado o tempo da ênfase do preto e branco, passavam a entrar nas casas já nas versões coloridas. Godard chega a brincar com isso. Se você não tem LSD, compre um televisor a cores - para efeito inebriante semelhante.

Muito mais do que sexo, essas mulheres atuam na divagação filosófica na trama. Paris é discutida com a métrica de com o podem ser consideradas, acolhidas, interpretadas e compartilhadas as cidades. Marianne acredita que tão importante quanto os elementos imóveis nas cidades são as passagens móveis: os cidadãos, o fluxo - e até, por que não? o trottoir desenvolvido por elas mesmas. A dupla de amigas recebe um estrangeiro norte-americano. "Você coloca os Estados Unidos acima de tudo" - se refere Marianne (onde já ouvimos esse lema?). Ele responde que é verdade, mas que eles têm, entre os méritos, as inscrições recentes do jeep e do napalm. 

Sem se unir à Marianne e ao norte-americano na consumação do ato, Juliette vê cartazes sobre a guerra do Vietnã e questiona como alguém na Europa de 1966 pode ter o pensamento em foco na Ásia. Como se importar com indivíduos que nem se conhece, apenas se imagina e idealiza? Godard demonstra muita preocupação com a Ásia. Com as guerras no Oriente Médio e Extremo Oriente. Sabe da quantidade de pessoas envolvidas, das grandes populações nesses países, da fome que assola a Índia. Ao mesmo tempo, nunca esquece da América do Sul e as ditaduras da época que corroíam os irmãos sul-americanos. Para além das críticas e do desejo pacifista contra o armamentismo e o capitalismo selvagem, Godard coloca no mapa dos olhares eurocêntricos esses espaços distantes. A guerra diretamente intimidante entre França e Argélia é fortemente abordada no filme O Pequeno Soldado. Nesse trecho de nova crítica à investida dos EUA contra o Vietnã, uma voz repete sobre as palavras de Juliette os dizeres "Amerika uber alles" ou acima de tudo. Frase que serviria anos depois para sátira da banda californiana Dead Kennedys contra seu próprio país. Na canção famosa, eles utilizam "Califórnia uber alles". Quais as diferenças entre líderes totalitaristas futuros e o bigode, além da quantidade de vítimas? E quantas vítimas eles poderiam fazer se assim pudessem? E como aponta recentemente o presidente colombiano Gustavo Petro: "são provas de poderio contra as periferias do mundo. E um dia estarão eles atacando eles mesmos", ou citação semelhante. O refúgio que se idealizava para Israel (será) se tornou opressor, totalitaristas e esmagador sobre as pessoas e terras palestinas.

"Você deve ser atenciosa com a embriaguez da vida."

"A poesia é para embelezar a vida ou é algo instrutivo? - Embelezar a vida é sempre algo instrutivo."

Outros personagens debatem em um restaurante, um bar com fliperama. São conversas entre homem e mulher com temas que vão desde a linguagem até a desinibição, o tabu que é falar abertamente sobre sexo. Se todos têm órgãos sexuais como há olhos, há bocas. A conversa, conforme as aspas anteriores, também giram por outras questões do sublime da vida. Godard desperta nessas filosofias também a forma como as conversas humanas costumam se construírem vulgares ou repetitivas, sem acréscimos ou reflexões. Explorar além na semântica e na pragmática quer evitar as limitações morais e sociais a que estão submetidos os seres humanos no dia a dia.

Os clientes do bar/restaurante/fliperama (com os ruídos da jogatina ao fundo) discutem sobre questões que podem ser pautadas, forjadas, baseadas na coragem, na vontade ou na competência (ou falta desses elementos). Questões do que se pode, do que se deve fazer ou não fazer, falar ou não falar. Atravessar valores morais, ser envolvidos pelos próprios ou contorná-los. Queremos falar e não podemos? Podemos falar e não queremos? Como atuam as ditaduras morais, os policiamentos ou autopoliciamentos? Questões à mesa, literalmente.

De volta para Juliette, no terraço de um conjunto habitacional, segue o raciocínio sobre dar nome às coisas, se podemos descrever as cenas, as imagens, a precisão e a particularidade das expressões por meio de palavras. As limitações desses fluxos da linguagem. É um filme bastante maduro de Godard, chegado o ano de 1967. Novamente penso na relação com os Beatles, o auge nos anos 1960, as transformações do mundo, o ápice desses movimentos artísticos, a passagem do som do rádio para compra desenfreada das televisões, o fetichismo pela mercadoria nova, o tecnológico, o imagético, as criação dos ídolos, das vedetes. Os Beatles que depois se separaram e nunca mais obtiveram carreira igual com bandas, tendo Paul McCartney a mais extensa, nas concentrações de sua própria figura como centro, enquanto Godard passou a filmes mais experimentais e novas técnicas nem sempre admiradas, nem sempre compreendidas, nem sempre facilmente digiridas, nem sempre inteligíveis à primeira vista, necessitando estar bem iniciado, bem inteirado, bem politizado para interagir com.

"Um rosto tem uma determinada expressão. Tem uma expressão particular." O quanto se pode descrever isso? O quanto as metáforas conseguem alcançar nas comparações? O quanto somos únicos em um universo tão vasto? 

Incessante fluxo no filme, mesmo aos minutos finais há muito assunto. A Paris e suas construções são contestadas com os novos conjuntos habitacionais que podem substituir antigos espaços para brincadeiras. A transformação das cidades, que passam a integrar condomínios como centros de recriação ao invés das ruas, dos parques. O aprisionamento atrás das grades dos prédios, as crianças pelas escadas sem espaços adequados de lazer - mais comum para edifícios menos planejados, em áreas menos planejados ou mais pobres, atualmente. Em uma conversa com seu filho, Juliette acompanha a leitura do dever de casa do menino. Ele considera a novidade do coleguismo entre meninos e meninas na escola. Acredita que é possível desenvolver amizade com algumas, mas com outras não. Esse assunto da amizade homem-mulher, extensão do filme anterior, Masculino-Feminino é um debate que pode ser iniciado na infância e não se encontra resposta precisa na fase adulta, com pessoas que acreditam na amizade e outras que apenas acreditam no interesse, seja na busca de conforto, de finança ou sexual. 

"Nossos pensamentos não são a realidade, mas uma das sombras da realidade."

As dúvidas finais (finalmente, neste longo capítulo): somente os autoconfiantes admitem falhar? Juliette discorda, e você?

O amor é falso quando as pessoas não mudam. No amor verdadeiro a pessoa que ama e a amada se transformam. Será?

Após tudo isso, Godard sugere propagandas e Hollywood que façam esquecer a guerra do Vietnã, do Iraque, a fome na Índia e os problemas habitacionais na própria Europa, na própria Paris, na sua própria casa de amores falsos ou verdadeiros. Fim.


12/08/2025

Masculine - Feminine (1966)

Não sei se porque são filmes revistos, mas sempre fica uma pulga por detrás da orelha de que já teria escrito sobre, em formato resenha, como aqui ocorre. Masculine-Feminine é um filme de 1966, e creio que é a terceira vez que o assisto. Componente da grade de programação do canal Telecine Cult, este filme de Jean Luc Godard pode ter sido encarado por mim algumas vezes também aos pedaços. A revisão agora é completa para satisfazer o interesse da proposta da resenha crítica. Diferente de outros filmes, talvez Masculine-Feminine tenha despertado mais na surpresa da primeira vista e tenha caído em elementos comuns a outros filmes nessa revisão. Escrevo isto enquanto acompanho o filme e os comentários seguintes vão ratificar ou retificar essa percepção.

O começo do filme em preto e branco é arrastado. Paul conhece Madeleine em um café, encontra um pretexto para lhe dirigir a palavra pela primeira vez. Ao reconhecê-la, pergunta pelo seu nome, menciona um amigo em comum e a possibilidade de um emprego. A crítica política é o forte desse filme, com a primeira entrega quando Paul (Jean Leaud) afirma ter prestado os meses de serviço militar obrigatório para o exército da França, se queixa da falta de lazer, de descanso, da solidão, da perda de contato com o mundo exterior e do excesso de ordens, obediência e imposição feitas pelos superiores aos jovens que, segundo ele, primeiro recebem esse tratamento do que opções culturais para criação.

Madeleine acompanha atenta ao discurso do jovem Paul. O amigo que eles têm em comum seria Dumas, que trabalha em um jornal. Paul não sabia ou faz que não sabia. Madeleine também já havia trabalhado em periódico, se dedicando às fotos.

Desde essa sequência do filme estão claros os posicionamentos políticos, como sindicalizados e comunistas. Em conversa com o amigo, Paul e ele concluem que a baixa adesão aos partidos ocorre porque ps trabalhadores têm jornadas de trabalho longas, apenas casa, comida e trabalho, sem tempo para dedicarem-se a mais estudos e lazer, muito menos a fazer política para justamente mudar essa realidade. Uma conclusão apontada na Europa de 1965, 20 anos após a conclusão, entre aspas, da Segunda Guerra Mundial (que teve desdobramentos, julgamentos e decisões mais tardar).

Entre a política, desde a manifestação da empregada que atira no patrão na saída do café na cena inicial, Godard encontra espaço para as conversas de casal com banalidades sempre involucradas em filosofia densa. Para um simples convite para sair entre Paul e Madeleine, se misturam questões do que os jovens pensam da vida, sobre como se sentiriam felizes, quais os limites a que se pode chegar e submeter a um primeiro encontro, quais são os limites das mentiras sociais que são contadas todos os dias para a digestão da convivência. A cena ocorre enquanto Madeleine está se maquiando e penteando seu cabelo. Godard estava sempre atento às nuances sociais sobre comportamento da juventude, atitudes, pensamentos, aberturas de espaço e oportunidades e feminismo. Seus filmes são memória viva, na ficção que imita, que segue lado a lado aos acontecimentos contemporâneos, a Nouvelle Vague da França sessentista, época de cisões e transformações.

Acoplados em saídas juntos e com um grupo de jovens militantes, encorajados e encorajadores para juventude da época, Paul e Madeleine partem em missões, seja de colocação de cartazes e dizeres pela cidade até pressionar a embaixada dos Estados Unidos com direito à pichação a carro e protestos para que largassem a injusta investida no Vietnã, combatentes do napalm. Durante cena, Paul e o amigo prestam abaixo-assinado para libertação de presos políticos no que dizia respeito ao Rio de Janeiro. Não era a primeira vez que o Brasil estava nos planos e nos assuntos de Godard, que também investia nesse como um destino para Bruno Forestier em O Pequeno Soldado, quando almejava deixar a França. É de se dar conta que quase sempre os personagens de Godard almejam fugas mal sucedidas, como em O Pequeno Soldado, O Desprezo, Acossado e Pierrot le Fou, atingindo o objetivo, aparentemente, ao final da prisão de Alphaville, contrariando a ideia de prisão de segurança máxima lançada por aquele universo distópico futurista.

Em cena no trem, Paul combina uma ação militante enquanto ouvem um diálogo inusitado. Uma loira está sentada em banco junto a dois negros e os três passam a se insultar. Enquanto ela chama os migrantes de assassinos em potencial, eles rebatem que ela seria apenas uma vagabunda com sonhos hollywoodianos. O preconceito racial é foco pelo que acontecia na Europa e nos Estados Unidos, sobre a dissolução de colônias africanas na independência de virarem países e o tratamento aos novos migrantes europeus.

"Não é a consciência do homem que determina a existência, mas a existência social que determina a consciência"

Enquanto isso, Madeleine e Paul não passam por bons momentos e ele questiona se deve mantê-la em sua vida, ao passo que também precisaria dela, por ser desalojado pela proprietária de seu apartamento, que o alugaria ao próprio sobrinho. Situações reais. O filme também é permeado pelo surrealismo. Entre as brincadeiras e cenas extravagantes. Paul implica com um jogador de pinball (Godard adora inserir o lazer da época com cenas em bares, mesas de sinuca, boliche e os novos fliperamas) e o jogador misterioso saca uma faca e o ameaça. Conforme Paul foge e sai da imagem, o rapaz, de cutillo em punho, esfaquea a si mesmo e é amparado pela volta de Paul. Surreal.

Madeleine começa a se afastar do estilo de vida de Paul ao alavancar uma carreira de cantora. Seu disco faz sucesso no Japão, atingindo as primeiras posições, o que também ocorria em casa. O relacionamento deles esfriava, mas prosseguia. A amiga de Madeleine, Elizabeth também interferia e tecia seus comentários negativos, em desaprovação ao andamento. Durante investidas e diálogos, a temática que aparece bastante nesta película é sobre os métodos anticoncepcionais, novidades cada vez mais introduzidas na época. Tanto a pílula quanto dispositivos internos de resolução cirúrgica eram afirmados e assim recomendados ou ao menos postos em pauta durante a trama que envolvia os personagens principais. 

Paul realiza uma entrevista com amiga de Madeleine a respeito de questões políticas e pauta a ocorrência de guerras pelo mundo, a preocupação com empregos e o controle de natalidade. Godard requenta temas entre um filme e outro, mantendo as pautas de seu interesse e, é claro, de interesse público à tona. Outro estilo narrativo presente nas obras é a introdução de notícias e de figuras em voga na época, por exemplo, para mencionar a temática da música pelo fato de Madeleine ser cantora, uma notícia sobre o sucesso de Bob Dylan aparece direto dos periódicos de papel.

Na cena do restaurante em que estão Paul, minimizado por Elizabeth ao afirmar, antes da chegada de Madeleine, que não havia chance dele com elas, porque não eram o tipo de garotas para ele e que ele ficaria sempre infeliz, o que revolta Paul, na cena do restaurante aparece uma sequência bastante forte sobre o título do filme. Apesar do título ter sido mencionado em uma brincadeira entre Paul e seu amigo, a questão do Feminino aparece em três momentos em sequência.

Madeleine recebeu discos autografados de presente, por sua carreira satisfatória e troca de contatos. Paul minimiza e tenta sempre sair por cima por um gosto musical refinado; ele é fã de música clássica e não das cantoras que estão fazendo sucesso nos anos 60. Parece não ser fã da própria namorada, não a admira e reconhece, apenas a quer manter de posse. Em uma das mesas do restaurante, Madeleine reconhece a mulher que assassinou o homem no começo do filme. Fofoca que ela agora trabalha de prostituta e, sendo prostituta, é continuada a cena com a negociação entre ela e o cliente. Propõem preços e situações diferentes, ela admite odiar os alemães porque seus pais morreram na Alemanha durante a guerra. Uma preocupação com o quão recente se foi e se esquece uma guerra devastadora para história da humanidade.

Em outra mesa, Brigitte Bardot, a princípio no papel de ela mesma, ensaia falas de uma peça, mas é totalmente submetida às instruções do arrogante diretor, que discursa sem parar e interfere na atuação da moça. São três mulheres submetidas em sequência ao machismo, à dominação, à imposição e à inferioridade em geral. Seja em um relacionamento com um partidário de esquerda, autoconsiderado progressista, seja na profissão mais antiga em que se submete ao cliente, seja na relação trabalhista enquanto profissional de atuação cênica. Três casos no mesmo restaurante, de forma escrachada ou velada para esta crítica.

A 1h15 de filme, aproximadamente, Paul e as amigas vão ao cinema. O filme em exibição mostra cenas de um relacionamento abusivo e com agressões inclusive físicas. Mais alertas para o objetivo da película. Apesar dos absurdos mostrados na tela, a inquietação de Paul é terem mudado o formato da transmissão e nisso ele se levanta rapidamente e, impositivo e pró-ativo, se dirige à sala de projeção para reclamar a mudança. Antes disso, vale a lembrança de sua ida ao banheiro, quando encontra um casal homossexual atrás de uma das portas, dentro de uma cabine, e, após urinar, o militante picha a porta com os dizeres "Abaixo à República de covardes".

Após Paul reclamar sobre as diretrizes e regulamentações da exibição de um filme em cinema de acordo com algum código que lê, ele sai da cabine de transmissão e picha um muro contra Charles de Gaulle. Alguns operários próximos ao local assistem à cena e um casal está a trocar carícias ao lado da parede, numa possível cena de prostituição, tudo à luz do dia. Ao retornar para o filme, cenas de violência sexual são sugeridas pelo ator que interpreta o homem com a mulher. Ele a pega de maneira agressiva e também a dirige a seu órgão para sexo oral. São cenas que desagradam aos personagens do filme de Godard, que ameaçam deixar a sessão.

Catherine-Isabelle, atriz que atua com seu próprio nome, amiga de Elizabeth e Madeleine, conversa com o amigo de Paul em uma cozinha. O amigo de Paul está muito interessado nela, mas não é recíproco. Ele desconfiava que a moça prefira Paul, que mantém o relacionamento capenga com Madeleine. Na sabatina à moça, são feitas perguntas sobre suas preferências, sobre sua vida sexual, sobre perspectivas e se ela se interessa pelas questões de política global. É interessante pensar que há poucos anos, no Brasil, perguntas do mesmo tom seriam totalmente estranhadas, enquanto pós 2013, por exemplo, a politização disparou no interesse de jovens e das redes sociais, com engajamento premeditados ou orgânicos. Na época, 1966, explorar tanto os assuntos políticos talvez soasse piegas para maioria dos jovens, que se politizariam mais nos anos a seguir. A cultural Paris e a França foram o berço do movimento conhecido como Maio de 68, abordado em outras críticas.

Bastante política se soma na parte final do filme. Paul está com Catherine-Isabelle na rua, um homem passa e pede fósforos. Ele rouba a caixa de Paul. Em seguida cumprimenta uma pessoa em um carro estacionado e pede para transferir bons votos às crianças. Ele retorna, estão em frente a um hospital dos "americanos", Paul o segue e tenta reaver a caixa de fósforos. Godard, muito esperto, não persegue essa cena e posiciona a câmera sobre a espera de Catherine. Paul volta nervoso que o homem havia se jogado gasolina e se incendiado. Catherine estranha que foi em frente ao hospital dos EUA. Paul informa que o homem deixou uma última mensagem em prol do Vietnã.

Em seguida, os jovens caminham em direção aos estúdios de música onde Madeleine ensaia as composições para seu novo disco. Ela inclusive é recebida por um repórter de rádio. Os Beatles aparecem novamente, pois Madeleine responde que eles e Bach são seus compositores favoritos. Na companhia de Catherine, Paul havia largado um raciocínio assaz interessante: "se mato um homem sou um assassino, se mato milhões sou um conquistador, se mato a todos sou Deus". Catherine apenas responde que não acredita em Deus.

O filme encaminha o encerramento com uma série de questionamentos que Paul fazia para um instituto de pesquisa e opiniões. As perguntas eram direcionadas aos franceses para saberem suas opiniões de comportamento, sobre interesse e entendimento da realidade política, com perguntas sobre o que é ser comunista, se sabem de guerra entre Iraque e o povo curdo, o que pensam das minissaias ou dos métodos contraceptivos. Paul conclui que as perguntas que eram para registrar o comportamento da população acabam perdendo o foco e objetivo principais para virar uma batalha de juízos de valor. Os ideais progressistas e conservadores seguem essas tendências até os dias atuais de 2025. Paul pensava que manipulava as pessoas na formulação das perguntas em rápidas trocas de assunto e que as pessoas em seguida o manipulavam com respostas falsas, infrutíferas e, portanto, improdutivas para o objetivo das pesquisas.

Em depoimento para polícia, as moças explicam o desfecho trágico de Paul. A mãe dele havia lhe conseguido dinheiro (os homens dependem das mulheres) para adquirir um apartamento. E conseguiu em uma área nobre de Paris. Madeleine, ao saber da notícia, quis morar junto dele, mas Paul recusou. Irônico que quando ele precisava de lugar para moradia contava com Madeleine. Quando adquiriu para si, a recusou. Como não há imagens do desfecho, apenas o depoimento das jovens, não se descarta que a morte de Paul, ao cair em um buraco, tenha sido acidental. A questão final é Madeleine Zimmer, grávida de Paul, saber o que faria com o filho que tem no ventre. Sendo dele, a criança sem o pai seria abortada ou não? O aborto é uma questão central das sociedades modernas, sobre a autonomia que a mulher possa ter, acima de questões tradicionais, religiosas e burocráticas, de decidir o futuro do que ela começa a produzir no ventre. Mesmo mulheres bastantes progressistas como Madeleine tinham total incerteza, insegurança e restrições ao futuro. O método que Elizabeth havia proposto a ela era inacreditável: agredir-se com um pau que sustenta cortina.

Fim.

Paul reclama do militarismo no começo do filme Masculino-Feminino. Apesar de não serem submetidas diretamente ao exército, as mulheres enfrentam outras formas de dominação, até pela atuação do próprio progressista Paul