28/10/2024

25/10/2024

Toda toda

Toda a arrogância dos hoje protegidos pelo tempo será castigada. O tempo deixa todos na mão. Galho passageiro que sustenta o corpo e o impede de afundar nas correntezas do rio. Toda a arrogância dos hoje protegidos pelo tempo será castigada.

17/10/2024

Buquê de rosas

Viaje por minhas imperfeições 

São tantas, mas não faça menções 

Nem honrosas, nem rosas 

Pelos colchões


Viajo pelas lições de sua vida

Comprimidos muito melhores

Que aspirinas

Viajo, nado nada sincronizado

Espasmos 

Viajo 

Por trás das lentes, das cortinas


Viaje por minhas imperfeições 

Estou quase acabado

Minha versão final

Corpo quase abandonado

Viaje por quem bate o ponto

Todo dia sem desconto

E já nem sabe nem porquê


Um buquê de flores se esfarela 

Se ninguém compra elas

Para onde vai?

A comida do mercado

Com o prazo encerrado

Encerrada pelas grades

E as cortinas das cidades

Melodias do metal


Viaje pelas minhas imperfeições

Sou assunto, sou ações 

Sou um mundo de questões

Nada superficiais

Ai ai ai 

Why?

15/10/2024

Vezes divididas

O tempo passa mais rápido. Estamos ocupados. Há mais repetição e menos euforia que a novidade causaria.


Um dia você vai fazer uma coisa pela última vez em sua vida. E não saberá.

Mas também um dia você vai fazer uma coisa pela última vez em sua vida. E saberá. E doerá tanto quanto.

Mas um dia você vai fazer uma coisa pela última vez em sua vida. E será um alívio, pois não queria mais.

Diferentes perspectivas.


14/10/2024

Padre dos Balão

Eu tentei ser jovem

Tentei ser normal

Tentei ser igual

Tentei ser refém 

Da indústria cultural 


Eu tentei tomar

O mesmo trem 

Tentei tomar

O mesmo tempo

Tentei tomar

O meu lugar

Eu tentei 


Tentei

Sei que tentei

Poderia ter tentado mais

Agora já não sei

Será que tanto faz


Eu tentei ser jovem

Tentei ser do bem

Tentei tantos tambéns 

Tentei seguir umas leis

Tentei outros lay 

out... out of season 

Tentei igual Sísifo 

Tentei, eu sei

Sei que tentei


Eu tentei 

Você tentou 

O padre dos balão tentou


13/10/2024

Conversinha

Versinho não tem tradução

No máximo uma outra versão



Deixei um versinho verdinho

Na minha plantação

Se ele madura

Não dura 



Um versinho verdinho 

Na minha plantação 

Ou não 

Era nada

Nem limão

Nem limonada 

Nem limousine

Nem coisa que se assine

De repente repete

Memórias são frágeis fragmentos flagrados 

E quando deflagrados já se perdem 

Memórias são frágeis flashs 

Flesh for fantasy

Memórias são fósforo 

Mas também outros elementos

Periodicamente aparecem

Memórias são

O que era

Memórias sãotificam 

Memórias tipificam as coisas

Memórias larvas, moscas

Memórias lavam a alma

Das moças 

Com lágrimas 

E coisas toscas

Memórias, filtro 

E coisas foscas 

Memórias filhas

De cosa nostra 

Memórias nosferata 

Memória errata, vampira 

Memórias artifícios 

Artificiais 

Memórias: arte ou ofício?

Extra-oficiais

Memórias orifício 

Memórias sem fisco 

Nem aduana 

Memórias muquiranas 

Risco

De repetir o disco 

Não há mais tempo

Não há mais tempo

Mas nunca houve 

Só o agora

Ouve 

Só o que o vento 

Dita lá fora 


Não há mais tempo

Não há passado, não há futuro 

A perspectiva é um muro

Que ninguém te ajuda a escalar 


Não há mais tempo

Isso eu já disse

Em outro tempo

E só lamento 

O que se perdeu 

Não sou mais eu

Talvez tenha sido

Em outro tempo

Que já não há 

Não há mais tempo


Não há mais tempo

Nem menos tempo

Do que há 

Haverá de ser 

Um outro tempo

Quando chegar

E chegará 

Enquanto não chegar

Não há tempo

Só haverá

09/10/2024

Ególatra

Ególatra 

É pior do que alcoólatra 

Porque não se sana 

Não se manca 

Não espanta

Não se contenta

Até que a corda arrebenta

E a maquiagem mancha

Não importa quantas canchas 

Uma hora vem a dança 

Uma hora acaba a dança 

Uma hora anda na prancha 

Uma hora chega a hora

Uma hora corta a corda 

E toda aquela cortesia 

Vira um cortejo fúnebre

Uma hora chega a conta

Acaba o sonho e acorda


Uma hora chega o dia

Esvazia a fantasia

Uma hora se imacula

Se autointula 

Uma hora se macula 

Uma hora vira fuleira 

Ególatra 

Muito pior do que alcoólatra

Síndrome de Cleópatra 

Necessidade sem cessar


Uma hora vira abóbora 

Uma hora se denuncia

Uma hora o fingimento 

Vem à tona todavia 

Vem ao topo corroendo 

Corroendo a utopia 


O alcólatra 

Pelo menos se sacia

Por mais que se vicia 

O ególatra 

E sua figura imaculada 

Boa demais pra ser mostrada

E o fastio da modéstia

E o nojo que me resta

E o chute na pilastra 

E a cara que se racha 

E toda sua hipocrisia

O ególatra 

E sua rede de mentiras

O ególatra 

Muito pior do que alcoólatra 

07/10/2024

Pitacos da eleição 2024

Porque obviamente há nenhum compromisso em agradar.

Nunes enfrenta Boulos no segundo turno em São Paulo. Mais uma óbvia derrota de Boulos, que toda vez arranca em primeiro na eleição paulista, mas não tem a mínima condição.

Vitória esmagadora de Sebastião Melo em Porto Alegre. Será reeleito mesmo após o caos instaurado no maio das chuvas. Maria do Rosário jamais apresentou a mínima chance de vencer. Juliana Brizola atrairia maior votação para um segundo turno. Aprendem nada desde 2018. Ou desde 1989, quando foi barrado o avô de Juliana, Leonel Brizola. 

Em Florianópolis, Marquito saiu do jovem tímido deputado para um nome combativo com quase 1/4 dos votos, pelo PSOL. Mas Topázio aglutinou os votos da direita e venceu no primeiro turno. Os demais definharam. A direita, para vencer, não é boba.

Santa Catarina, boa parte do Rio Grande do Sul e de muitos lugares brasileiros preencheram mais do mesmo. Algumas lideranças solitárias por SC são a vereadora Giovana Mondardo do PC do B, pessoa mais votada no legislativo de Criciúma, e Afrânio, um dos mais votados em Florianópolis. Décio Lima, liderança do PT e ex-prefeito de Brusque conseguiu comparecer a segundo turno pela excluída legenda em 2022. Há muito trabalho de base a ser feito em um estado que já foi reconhecido por trabalhadores da extração, de estivadores portuários e pela malha ferroviária. Liberalismo e bolsonarismo circulam livremente em SC, de mãos dadas.

Em Pelotas, termômetro de tantas eleições brasileiras, chegou finalmente o novo clássico brasileiro. PT x PL. Em Sant'Ana do Livramento , por exemplo, foi uma lavada para o PL. Em Pelotas a promessa é de uma eleição disputada entre o ex-prefeito Fernando Marroni (mandato 2000-2004) e a novidade composta por Marciano Perondi, alien acompanhado pela bolsonarista Adriane Rodrigues, filha do tradicional Governaço, que por sinal passou longe do cargo de vereador.

A esquerda pelotense posicionou peças importantes na Câmara, mas obviamente insuficientes para números totais. Parabenizar a Fernanda Miranda pela segunda liderança em número de votos no Legislativo, professora na história do município. Repetiu o feito de 2020. Ela é acompanhada pelo jovem mas tradicional Jurandir Silva e pela sequência de petistas com Ivan Duarte e Miriam Marroni, psicóloga esposa do candidato a prefeito da legenda.

Marcus Cunha, que trocou o PDT pelo PSOL por divergências com o antigo número, teve menos visibilidade do que já apresentou, mas é suplente direto. Ronaldo Quadrado, conselheiro tutelar do Monte Bonito, novidade pelo PT, apoiado por muitos nomes do partido, inclusive pelo ex-presidente local Luciano Lima, também é suplente imediato. Outros nomes pontuaram bem, mas de maneira insuficiente para uma governabilidade mirada e desejada. Pelotas, mais uma vez, revela os trechos tortuosos pelos quais o país perpassa na nebulosidade política.

03/10/2024

Ah, a memória

Ah, a memória. Ela dita ritmos.

Para quem tem muita memória, mas que elas se unem em aproximação, pois, apesar da vida ser larga, as memórias se conjuntam como se a vida fosse curta. Não vos parece?

Para quem tem curta memória, elas se escondem, pois, apesar da vida ser larga, as memórias se afastam e o que sobra é a lembrança de uma vida curta. Não vos parece?

Desse modo, tanto os reunidores, revisores vorazes, cirandeiros das memórias, quanto os que as jogam de uma montanha penas ao vento, os dissimuladores, os ocultados, os labirínticos bloqueadores de memórias, ambos acabam com as mesmas desgraçadas impressões: que curta é a vida!

Para os reunidores que em saguão, em auditório lotam suas memórias, acotoveladas umas às outras, tudo parece próximo, tudo se fundiu, passou tão rápido: que curta é a vida!

Para os que mantém as lembranças soltas como se um dia fossem voltar, livres como cachorros de portões abertos, gatos que viram cartaz de procura-se, crianças que correm quadras adiante dos pais e tomara voltem, essas memórias espaçadas, escorregadias, corrediças, essas memórias afastadas como os mais gasosos átomos deixarão o salmo de repetição do texto: que curta é a vida! Me sobraram tão poucas memórias que todas as demais voaram. Que faço com elas se não reuni-las escassas, livro de páginas faltantes, de falas e passagens repetidas de memórias desorganizadas, de ordem alfabética que começa em C, pula para L e termina antes de qualquer W, livro incompleto, borrado de café ou erva, inelegível por tantas partes. Que conclusão chego a não ser que é curta a vida que nos toca sobrar aos dedos inabilitados para agarrar muito?

E mesmo os consumidores a esmo de tantas memórias, que adianta ao final reuni-las tantas se elas são, no auditório que nos sobra de vida, apenas espectadoras, passivas, passageiras, esfinges, fumaça, fantasmas? Que curta é a vida, na qual não posso voltar a tocá-las... memórias.

30/09/2024

Tacitamente

Taticamente 

Tacitamente 

Se você enxerga tudo

Fica louco 

Porque o pouco que se faz

Não satisfaz


Dentro do campo de jogo

Dentro dos campos políticos

Água no fundo do poço 

O mundo feito um troço 

Um tricô destituído 

Do destino do próximo


Taticamente 

Tacitamente 

Se você enxerga tudo

Fica louco 

Porque o pouco que se faz

Não satisfaz


Taticamente

Tacitamente 

A mente se excita 

Evita o tempo do ócio 

Prepara na medida

Complemento, episódio 

Se você enxerga tudo 

Fica louco 

Porque o louco que se faz 

Não é mais louco 

É sagaz

Olhos Grandes

Os olhos dela eram tão grandes 

Pensando se estava drogada

No deserto de pessoas

Ela como uma granada 


Sua maquiagem expressiva

Seu jeito de fim da linha

Nossa destruição massiva

Doses, fantasias minhas

Doces fantasias minhas 


O trem entregava jornada

O que quer mais o viajante?

O viajante quer mais nada

Olhos tão desconfortantes 

Olhos tão reconfortantes 

24/09/2024

"Levava debaixo da armadura a sua roupa de louco."


Roberto Bolaño em descrição sobre o poeta Wolfram von Eschenbach

23/09/2024

21/09/2024

Forró da Morte

A morte bateu na porta

Mulher de porte

Já não importa

A morte em seu trottoir 

Não veio à trote

Nem absorta

Veio em sua missão

Tirar palavras da sua boca

Morte em liquidação

Morte lenta

Morte em vão 

Morte na cidade

Apartamento, pensão 

Morte na avenida

Atropelada, morte ferida

Celebridade, desconhecida

Morte encomendada

Morte suada, abençoada

Morte assistida

Morte casada, morte de sorte

Morte de azar, morte em boicote

Morte no shot 

Headshot, bon soir 

Morte noir, morte tranquila

Morte shot de tequila

Morte em banco, morte na vila

Morte televisiva 

No walk talk, na bohemia 

Morte na delegacia 

No doi codi, no final de um disco

De Pink Floyd, morte de risco

Morte por vidro, por inalado

Morte do viciado

Morte por idade

Morte sem identidade

Morte beldade

Bate na porta

Mulher de porte

Já não importa

Morte com os olho aberto

A boca torta

Morte chamou 

Tu já se troca

Vestido longo

Gravata bota

Morte da velha 

Da meninota 

Morte veloz

Morte jabota 

Morte bandida

Do suicida 

Morte homicida

Morte por cota 

Investigada 

Ou esquecida

Ou arquivada 

Morte vingada 

Ou esquisita

Morte sem saída

Cara virada 

Para baixo ou para cima

Morte, morte, morte

De rotina 

Aves de rapina

Que sobrevoam 

Que saboreia

Morte na ceia

Ou no seio do forró

Morte, morte, morte

Só sobra o pó 

Sobra o pó

14/09/2024

Paul McCartney

Paul McCartney 

É mais do que sei

É mais que pensei

É mais que esperava

Baby 


Paul McCartney 

Compõe um salmo 

Sob essa selva

Sobre essa relva

Não me salvei

Se eu me salvasse 

Seria com

Paul McCartney


Beatle Paul 

Diga hey

Hey ho 

O rock n roll

It must be you say 

Let it roll 

Paul McCartney


Beetlejuice 

Beatle Paul 

That's true 

It's only rock n' roll


Paul McCartney 

Art in your name

If exists rock n roll

It must be you play


Play McCartney 

I understand 

Its only love but 

Its the only way



12/09/2024

Dálias

As mentiras que você contou

Deveria engoli-las 

Sepultá-la em dálias negras 

Ou até lilás


As migalhas de um ano ruim

Pelas últimas ruínas

Me sentir muito melhor assim

Sem o que nos azucrina 


Pensar ter medo de perder

O que eu já não tinha

E se tinha, ter para quê?

Há vida melhor sozinha


Tenho amigos, música, tv 

Livros, filmes e rotina

Muito mais do que preciso

Longe de umas tiranias

O realista hoje é um alarmista.

O alarmista hoje é um realista.

10/09/2024

Escrevo coisas horríveis sobre ela

E não publico 

Porque isso aqui não é depósito de conflito 

Nem penico 

Anfíbio

Poemas de um poeta mendigo 

Será que ainda vivo?

Será que ainda consigo?

Com os signos que estão ao meu alcance

Será só um relance?

Será todo um romance?


Poemas de um poeta mendigo

Digo de forma reta

E digo com rodízios 

Digo... palavras obstretas 

E digo sem abrigo:

Será que ainda vivo?

Será que ainda consigo?


Poemas de um poeta antigo

Digo... de forma abjeta 

Recito fora da cerca

Retiro o que me espeta 

Recibo de só uma promessa

Será que ainda vivo?

Será que ainda consigo?


Poemas de um poeta anfíbio 

Sapo... sapo de valeta

Girino... girino de início 

Girando por encantos movediços

E vários vícios 

Será que ainda estou vivo?

Será que ainda consigo?


Poemas de um poeta sinistro

Canhoto, canhestro, capiroto

A fome do ego é fortíssima e se manifesta de diferentes formas: possessão, domínio, interdependência forçada

03/09/2024

O Nome da Rosa + Diary of a country Priest

Por ontem assisti ao filme O Nome da Rosa de 1986. Inspirado no livro famoso de Umberto Eco. Um mosteiro no norte da Itália. Um jovem aprendiz e seu mestre. Crimes que se sucedem sem solução imediata. Investigação. Profanações as mais diversas. Cruzamento entre a vida de monge e a vida pagã. Pecados, culpa e remissão. 

O jovem experimenta as tentações. Os livros se tornam o foco da jogada. Foi a primeira experiência cinematográfica em que visualizei o que diziam sobre os mosteiros guardarem as bibliotecas da época. Os primeiros registros. Cópias bíblicas e de outros livros que deveriam ser mantidos inalcançáveis, em sigilo, adormecidos em segredo. As bibliotecas eram labirintos guardados a sete chaves. Ler conteúdos seria profanar. A Idade Média corria assim antes da luz renascentista e o avanço das ciências. 

Os ratos permeiam a narrativa. A doença era uma chaga constante. As mortes passam a ocorrer. Suicídio ou vilania? Alguém empurrou o irmão de uma altura para morte ou se matou? E o outro que amanhece descoberto de cabeça para baixo? Questões que interrompem a tranquilidade da vida no monastério.

Por fora do treinamento dos padres, ocorria a vida pagã, que, para os compromissados na pureza cristã, eram profanadores, pecadores dos mais sérios. Renegar a Jesus nessas condições renderia penas máximas. A Inquisição atuava forte, perseguição a ser destacada com i maiúsculo. A destruição das barreiras é evidenciada ao final na cena que com certeza usou maiores recursos financeiros.

Diary of a Country Priest

Este filme de 1951 se tornou um de meus favoritos. A vida do jovem padre transferido para o interior da França. Os desafios em que ele passa para ser aceito, para dominar seu vício em álcool, para deter ou não seus desejos pela mulher que se apresenta.

O jovem ganhou a desconfiança dos demais em um primeiro momento. Tenta fazer amizade com um contraditório caçador, profissão mais comum ainda para época. 

A sequência da vida do jovem D'Ambricourt (papel de estreia do ator Claude Laydu) é permeada de enigmas, contradições, debates de valores sociais. Até hoje é notável a diferença do tratamento, da confiança em cidades grandes ou vilarejos de interior. Os valores católicos foram testados e metamorfeados constantemente. As possibilidade de mudanças sociais para indivíduos do campo se apresentavam muito limitadas. Entre o ser e o parecer a diferença pode ser gritante.

Quais os requisitos para alguém liderar uma vila? Para ser um líder respeitado? Para ser um padre confiável? A religião seguida à risca seria o antídoto aos vícios ou pode se tornar o próprio vício?

Os desvios da vida Santa devem ser sempre contornados ou nos fazem humanos? Perguntas que saltam e que podem permanecer após acompanhar as trajetórias cristãs de ambos os casos transcorridos nos filmes em questão. Perguntas que se modificam conforme as épocas ou que até em nosso período contemporâneo permanecem torneadas.

05/08/2024

Acredito que toda a política tenha a ver com a distribuição. Distribuição de riquezas, de recursos e de oportunidades. 


Se a mão de obra para o trabalho está parada ou está trabalhando e não recebe, nada serve.

Há pessoas que são conforto no mundo quando estamos com elas.


Perder pessoas é perder conforto em um mundo amorfo e vingativo. É perder segurança. É perder quem faria a diferença por mais, com uma palavra, um gesto, mil reais ou um ouvido amigo.

04/08/2024

Desculpe a demora

Desculpe a demora. Estava fazendo contas novamente se o time tem chances de ser campeão. Provavelmente não. Odeio estar certo. Eu falei sobre pensar em outras pessoas, mas a verdade é que estar só a dois, só nós dois, sempre bastava. Quando se tem essa neurodivergência, palavra que sobrevive em mim todos os segundos, mas o corretor ignorava a existência, quando se tem essa neurodivergência, estar sozinho no mundo já basta. Sozinho e com alguma distração. Palavras cruzadas, inventar uma música, um texto, criar jogos mentais que só fazem sentido pra si. Caminhar sozinho. Ser sozinho basta sendo neurodivergente assim. Mas às vezes se quer estar a dois. E eu quis muito dividir a vida especificamente contigo, e foi ótimo. Vou lembrar que foi, que fomos, ou a vida passa a fazer menos sentido do que o pouco que já é. Do que o pouco que me significa - sem ampliar família e olhando somente os ascendentes envelhecerem, olhando para trás, na busca impossível de congelar a idade dos familiares que amamos. Areia do tempo entre os dedos.

É, ali, naqueles momentos, pareceu estar completa a vida. Ou ao menos eu achava estar completa em muitos momentos. Ou eu pensava atingir o máximo de vida que penso conseguir atingir (não dirijo Ferraris, sinto que meus nervos e o colágeno não aguentam esportes radicais, não tenho coordenação instrumental - tantas limitações, que você sabe ou deveria saber).

Faz parte do sentimento também quando o time atinge a liderança. E logo talvez dê tudo errado de novo. E, veja bem, eu gostaria que fosse possível, mas parece que não é possível morar em momentos. Nessas semanas. Nessas rodadas que antecedem o caos.

Por isso dizemos "queria morar nesse momento" (eu digo). Porque é impossível morar em um momento.

Ao menos quando penso na minha vida ainda parece possível separar ótimos momentos. No campeonato de futebol a rodada final vai contar muito mais do que a trajetória até ela.

Ah, que triste paralelo... ao menos se fosse campeão.

31/07/2024

A cadeia

Temo mais a cadeia do que a morte. Tenho isso comigo há muitos anos, talvez desde a infância. Repito, mas não sei se da boca para fora, porque não passei pela cadeia nem pela morte. Por enquanto, mantenho minha opinião.

Assisti a dois filmes em sequência sobre a temática. Não sabia que eram relacionados. Ou possivelmente relacionados. Assisti a Os Miseráveis (1935), de inspiração do livro francês de Victor Hugo. O autor designa que enquanto houver pessoas condenadas a pagar mesmo após suas condenações, condenadas a serem eternas presidiárias, a história se manterá atual e justificada. Por isso é um clássico.

Jean Valjean de Os Miseráveis roubou um pão para alimentar sua miserável família e foi condenado à pior prisão possível. Sem fiança. Sem novas chances. Após fugir e ter nova chance concedida por um sacerdote, ele prospera e adota a filha de uma empregada que era explorada em seu trabalho. Mas o passado do lorde acaba vindo à tona e ele se torna procurado pela dita justiça. A perseguição nunca termina. As lutas grevistas por direitos atravessam o filme em uma nova geração, capitaneada pela filha adotiva de Jean e o affair por um protestante. A temática gira em torno do julgamento severo e rotulatório sobre um apenado por um crime de básica necessidade: o direito à alimentação.

Em Whispering Pages ou Páginas Ocultas do diretor russo Alexander Sokurov, o jovem andarilho errante admite ter assassinado a velha de uma das ruas pela qual circula. O filme de 1994 dialoga com o clássico russo Crime e Castigo de Fiodor Dostoievski - perdoem a grafia que nunca sei como o cito nessas páginas.

O filme mais recente trafega a contagotas por paisagens urbanas inóspitas, com o cinza, a miséria e a pobreza em abundância. Confidente, o jovem tem num dita irmã a anunciação de ser o autor da morte da idosa. A conversa entre eles circula por temas como religião, culpa, o crime e o castigo do título da obra em prosa. A irmã, religiosa, pede que ele se ajoelhe e se confesse perante a sociedade. Ele debate com a mulher: "você reza a Deus, mas o que ele faz em troca por você?".

O sentido vaga pela desorientação e desesperança do jovem desclassificado, pobre, de andar errante, porém inerte. Não há a mostra do crime em si, apenas a confissão e as incertezas de como sobreviver, independente do assumir de um óbito ou não.

Os cometimentos criminais são distintos nas histórias, nos livros e filmes. Livros que ambientam filmes. A justificativa de Jean Valjean é mais fácil de assimilar, de defender, de revoltar por seu destino implacável em perseguição trágica que lhe impõe a dita justiça francesa. O crime que Raskolnikov comete no original dostoievskiano também pode contar com a justificativa imputada, atribuída, mas a aceitação é conversão mais duvidosa perante os conhecedores da trama.

Independente do cometimento, como nossa sociedade lida com essas forças, com esses tabus? Que respostas damos e são aplicadas? Como julgamos a todo curso os delitos passados? Que tipos de sombras nos percorrem e muitas vezes nos nocauteiam com o passar dos anos? Quais pães roubamos e velhas assassinamos e de que formas pagamos no cotidiano? Como se comporta a Justiça que a uns ladrões de galinha (ou pão) deveras condena enquanto magistrados, desviadores, latifundiários, corruptos, ocultos por laranjas, sonegadores permanecem imunes? Quantos Jean Valjeans ficam em cárcere por pequenos julgados delitos, quantas senhoras burguesas permanecem recebendo aposentadorias diante da fome marginal? Quantas justificativas podemos atribuir a cada um deles? E a nós mesmos.

29/07/2024

Meu destino não tenho dúvida

É o pior possível

Metade mereci, metade escolhi

Fogo do inferno cozinha lento

Pra destruir pantanais

Temos tempo

Amadurecer

O que é amadurecer?

Aprender a usar baionetas, limpar fuzis, operar mísseis e drones

O que é amadurecer?

Aprender sobre a dose de drogas, miligramas, veias, narinas, santas ceias 

O que é amadurecer?

Ler sobre teorias que nunca precisarei usar na vida a menos que me perguntem especificamente sobre em ocasiões extremamente específicas.

O que é amadurecer?

Enterrar os próximos, os ascendentes e, na pior das injustas hipóteses, os descendentes.

O que é amadurecer?

Aprender como funcionam as burocracias, os mercados, tirar dinheiro de pobres, emgambelar em papeladas, passar os pobre coitados inocentes para trás na mais legítima rasteira.

O que é amadurecer?

Que ainda não dei provas de ter. Amar durecido.

26/07/2024

 


Jean Luc Godard sobre a repercussão positiva de seu primeiro filme, Acossado, e a necessidade do filme seguinte voltar sua vontade de fazer cinema. Desse sentimento surgiu O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, 1963), sobre um espião de motivação confusa durante o período da Guerra da Argélia pela Independência.


Depoimento publicado no documentário Godard Seul le Cinema (2022), direção de Cyril Leuthy.

22/07/2024

"Sua essência se revelará justamente quando deixar de buscá-la"

Witold Gombrowicz, escritor polonês que se exilou na Argentina. Nota-se que a busca muitas vezes seda, cega a verdade, a verdadeira essência. Um olhar para dentro mais válido que o olhar ao exterior.

No trecho, o autor criticava a busca dos argentinos por sua própria identidade, muitas vezes voltados para Europa. Esquecer a Europa, segundo o polonês, seria fundamental para o encontro dos argentinos consigo mesmos. 

Entre a sedução da ordem e o desafio do caos


Maurício Salles Vasconcelos sobre o escritor Sebald

21/07/2024

Fogo, eu te amo - Fogo, eu te amo, meu amor

O meu sangue ferve por você. Botafoguense Sidney Magal, a constar. Quanto mais penso no Botafogo, mais aprecio. Mais ele me cativa, me envolve, me obriga. Talvez se esconda algum desejo de ser meu pai e o que na vida dele deu certo - e não poderei ser, nem desfrutar. Como ninguém pode, exatamente, ser igual ao pai, por mais que se aproxime disso, ou até seja obrigado, igual família de médicos ou advogados ou donos de alguma empresa. Mas o Botafogo.

O Botafogo tem uma identidade visual que, como vim a saber da preferência do falecido narrador Silvio Luiz, foi uma paixão por ver o escudo que quase o obrigava a pegar no colo, querer cuidar dele. A estrela solitária, que ostenta e persegue. Parece que viveremos eternamente de 1995, meu ano. Solitária. Um pesar tremendo que Sílvio Luiz, que narrou tantas glórias de tantos times tenha morrido sem uma nova chance do Botafogo campeão. E assim são tantos. Beth Carvalho e por aí vai. Zeca Pagodinho, pegue leve, meu aclamado e autodiagnosticado pé frio.

Silvio Luiz faleceu sem essa nova chance. Lembrarei sempre. Penso em meu pai e a única conquista que gostaria de ver ao lado dele. Se pede mais nada. Estamos sempre distante desse objetivo. Quando realmente estávamos longe, parecia mar mais calmo, resoluto, acostumante, mais quieto. Agora o coração salta aos trabucos. O sangue ferve por você, desordenadamente.

A identidade visual do Botafogo, o símbolo, a estrela, a simplicidade, as cores, a ausência de cores, o negro e branco de tantos atores de sua história. Talvez nenhum clube mais literário e cinematográfico no futebol brasileiro. E mundial? Não nos subestimemos, meu bom Brasil, país do futebol muito pelas crias daquele bairro carioca. Insistem chamar de bairro. Pois que chamem. Belo bairro de Botafogo e sua eterna parede de ídolos, que jamais esquecerei ter visto em 2015. Tantos eu soube identificar e outros que, por estar passando rápido de táxi, eu nem soube ou saberia identificar mesmo nos dias de hoje.

Botafogo das histórias de vida. Heleno de Freitas, Leônidas da Silva, diamante negro, Didi das folhas secas, Zagallo e seu número 13, Mané Garrincha, de pernas e linhas tortas, algumas das piores possíveis para essas páginas. A vida. Nilton Santos, atual estádio. Goleiro Manga dos dedos tortos que lhe sobraram. Amarildo, Carlos Germano, Maurício, Wagner, Mendonça, Gonçalves, Pantera, Tulio das Maravilhas, rei do Rio, sim, senhor. Jefferson, Loco Abreu, Seedorf, Gatito, filho de Gato Fernández.

Por que cada tímida conquista soa tão épica? É sempre tão difícil? É sempre tão duro? É sempre tão sofrido? Personagens que crescem nisso, Joel Carli?

Um clube que se apequenou e renasceu. E segue sofrido. E segue sofrendo. E me obriga e me conquista a sofrer com ele. De tão literário e cinematográfico, que estou lendo Godard, Godard gostaria de ter visto o Botafogo. Botafogo foi campeão em Paris. Botafogo dos cineastas, das situações, de filmes, de Stefan Nercessian, irmãos Salles, Cacá Diegues.

Obviamente nas páginas e telas seriam narradas mais derrotas. Virada para o River Plate. Ser roubado pelo Figueirense em 2007. A maior derrocada da história de um campeonato de pontos corridos - ao menos onde há refletores que assim registrem, como aqui inevitavelmente registro. Perder três campeonatos seguidos para o Flamengo para vencê-los de Cavadinha. Não é tão fácil assim executá-la, viu, Messi? Messi que teve pênalti desperdiçado contra Jefferson em um Argentina x Brasil.

Seedorf ser campeão sobre o Fluminense. Mesmo que tenha sido em Volta Redonda ou outro estádio menor. Tomar seis do Vasco e vencê-los depois na final, no mesmo campeonato. Acompanhar os maiores dramas, como o passado com Tiquinho Soares, que perdeu o pai. E eu medroso de perder tão logo o meu.

Ver a vantagem histórica sobre o Flamengo se esfacelar - e o pior, eles passarem o ódio antigo de pai para filho, de avô para neto. Cada vez mais flamenguistas, cada vez mais disparidade, cada vez piores nossos números.

Tão breve parágrafo para conquistas, primeiro carioca campeão sul-americano dentro do Maracanã em 1993, primórdios da atual Sul-Americana. São quatro os Rio-São Paulo, mais duas copas interestaduais dignas de recheio para citações. A Taça Brasil do distante rádio de 1968 também foi a primeira entre os cariocas. Depois, como eu disse, se vive de 1995. Livro, camisas, memórias. Eu nos braços de meu pai. Torneio Carranza. Limpa a garganta. Vencer o Barcelona já venceste. A Juventus também. Peñarol, Santos com gol impedido para amenizar tantas desgraças de diferentes anos e arbitragens. Enfrentar o Flamengo... Ok, isso já foi dito. 21 Campeonatos Cariocas, estar para trás da Portela, como dizem (gosto da Portela, mas até isso vira piada) e uma Taça Cidade Maravilhosa para coroar o ano de 1996.

Em seguida, após o Rio-São Paulo ali por 98, já vem mais desgraça, lotar o Maracanã para ser vice para o Juventude das Parmalats. E hoje uns que mamavam assim mamam em outras fontes. Faz parte será? Aquele, em 1999, foi o maior público da história da Copa do Brasil. Mais de 100 mil. Não deve se repetir. E perdemos. Tu hoje, Botafogo, acumulas os recordes bonitos mas inúteis de maior sequência invicta do Brasil- Flamengo te tirou e tu tiraste a do Flamengo, no mesmo número, siameses de ocasião. Foste 3⁰ colocado invicto em 1977. Chupa Inter de 1979! Tem a maior goleada da história do futebol brasileiro, pois o time da Mangueira é quem viu entrar. 24 gols. E, nessa mudança, tempos distintos, momentaneamente conta com a contratação mais cara do futebol brasileiro. Quanta coisa distinta! Números e histórias.

Um carinho que mais me toca é sempre lacrimejar ao lembrar que na nossa identidade visual o mascote Biriba foi um cão que existiu. Ele às vezes é manso nas imagens, às vezes selvagem. Biriba existiu, entrou em campo e o Botafogo venceu. Foi mascote. Adotado, símbolo, querido e morreu como todos os cachorros morrem. Mas ainda afirmam na história que morreu cego. Isso me faz chorar. Mas tu, Biriba, Biribão, Biricão, não és esquecido, és o cão mais lembrado do Brasil. Símbolo de uma nação. Não a maior, longe disso, mas de escolhidos como foi aquele cão carioca, de estrela solitária em pelo e caminhada errante e decisiva.

Talvez sejamos todos Biribas perdidos. Meu falecido tio que pesquisei quando foi que o Botafogo venceu no Beira-Rio e ele estava lá, quietinho, solitário e que saiu vencedor daquela partida. Tentei repetir teu feito, saudoso tio. Vencemos aquele jogo em Porto Alegre, mas não a guerra general. E aqui estamos, ainda biribas lambendo as feridas. De camisa eleita a mais bonita do mundo, de símbolo que também já foi eleito, pegando em remos, caindo em águas, afundando, ressurgindo. Lutando. Não escolhendo assim lutar, mas já sendo escolhido. E ainda, ao que me consta, ainda, pobres almas, não desistindo. Fogo.

19/07/2024

Queria narrar todas as bobagens de minha vida

Queria narrar todas as bobagens de minha vida. Utopia de apreender momentos, pela memorização, pela captura e o aprendizado. Pelo não esquecimento, desfalecimento da memória. Também pela ilusão de que alguém liga para isso tudo.

12/07/2024

Se eu tivesse duas vidas

Se eu tivesse duas vidas, queria uma só contigo. No que já deu certo. No que foram alguns dos melhores dias de minha vida. No que parecia justificar finalmente porque minha mãe me teve aos quarenta (e um) e os ascendentes judeus de meu pai fugiram da Alemanha menos de século antes do holocausto.

Você aguentou tanta coisa e, para ter como finalidade o que deu certo, eu perdoaria tudo para repetir muitas vezes - o que deu certo.

Se eu tivesse duas vidas e pudesse manejar melhor do que posso agora. Escolher. Na outra vida eu estaria assim, sem pressão, mas à deriva. Sem entender porquê. Por quê minha mãe me teve aos quarenta (e um) e por quê bravo judeu aportou em Santa Catarina? Por quê? Não justifico eu, tremendo fracasso.

03/07/2024

O pior medo

O pior medo é o de escrever, porque escrever é justamente para afastar ou vencer os medos.

O medo do posicionamento, da manifestação.

São Bernardo

São Bernardo (1972)

Direção: Leon Hirszman

Gênero: Drama

Duração: 01h:54m


Gosto de filmes que me fazem encontrar o vazio da vida. Me colocam defronte dele. E São Bernardo é a adaptação do livro de Graciliano Ramos, com passagens do texto escrito recitadas pelo narrador Paulo, personagem principal (?) da trama. Chego agora a colocar em dúvida seu protagonismo pois é a mulher Madalena que revira os acontecimentos na fazenda São Bernardo, em Viçosa, Alagoas.

Paulo subiu na escala social de jagunço a golpista, que havia passado anos preso pela morte de quem insultara sua honra, crime passional comum por aquelas bandas. De golpista aplicado, toma por compra a Fazenda São Bernardo e lá estabelece suas leis e seus limites, cada vez mais ilimitados. Cruel, explorador com seus empregados, desconfiado de todos, egoísta ao máximo, pensava na mulher apenas como posse, na procriação apenas por herdeiro, na fazenda apenas por produção, nos empregados apenas como explorados.

Apesar de vivido e antenado aos negócios com seus contatos, nada letrado, Paulo desconfia das teorias, das conversas dos empregados, da relação da esposa Madalena com o professor Padilha. Bem simboliza o medo da ameaça comunista, fantasma comum que assola os produtores e empresariais brasileiros até hoje. Basta que se invoque a palavra comunismo para o delírio coletivo, pior do que barata ou rato em cozinha farta.

Paulo comprou tudo que pôde em vida. Uma fazenda, empregados, uma esposa por proposta salarial mais condizente a ela. Construiu e destruiu. Explorou, sugou e nada para alma colheu. Esfacelamento improdutivo. Solitário por cômodos vazios, casa grande despovoada, relações quebradas, paranoia a tudo que lhe escapa. Noto cenas em que ele aparece como último a saber, com certeza uma das piores sensações humanas. A sensação de passado para trás, de que algo importante acontece a suas costas. E as costas largas do produtor viam quaiquer transformações mundanas com o pessimismo se lhe escapavam o controle. A vida de um despreparado para a posição que ocupava. Um reino corroído pela miséria em volta e pela miséria moral em si mesmo. Um fosso aberto em volta de um castelo em que o isolamento afetava a si. 

A história de ascensão e queda de Paulo. O distanciamento a todos. A desconfiança de funcionários, partidários, padre, letrados, quaisquer. A construção de um fantasioso e ganancioso mundo individual em que ao redor tudo era ameaça a seu umbigo. Uma personalidade desprezível ao mesmo tempo que pitoresca e curiosa, para descoberta dos limites da ganância humana. Uma personalidade que ao final revela o desejo por mudanças, pela quebra da rigidez que já lhe afligia, mas a impossibilidade de mudar sua árida mentalidade ao que passo em que exteriormente o mundo apresentava respiros de possibilidades e transformações além das armas e cartadas sujas. Será?

07/06/2024

Filtros

Vou alternando filtros

E bebendo menos litros de água

Do que deveria

Vou sustentando mitos

Eliminando outros

Aos poucos

Tudo é desequilíbrio mesmo

Alguns fingem 

Ocultando as origens 

As miragens, as esfinges 

Alguns fingem 

Colecionando brindes na lama

Deitando a cabeça na cama

E as pernas no travesseiro

Deixando a mente vagar 

Rápida ou devagar: sem paradeiro

Tenho sede de rimar 

Mas isso já sabes

Hábeis versos sem sentido

Formados como o pão pelo amido

Miolo invertido, tolo e vivo

Consolo a nós constantemente subnutridos 

De alma

Lance o lanche que acalma

Falsa-me o favor

06/06/2024

Com o tempo se percebeu que não há perspectiva de melhora contra os angariados instrumentos de ganância da humanidade. Há mais possibilidades, sim. Possibilidades dos ricos ampliarem seus impérios sobre a pobreza da grande maioria. Resorts em praias, multinacionais que dominam mercado contra os pequenos produtores. Streamings que ditam o que será assistido. Propagandas de spotify e youtube que obrigam, condenam o que será escutado independente da qualidade ou do gosto pessoal do ouvinte do outro lado da tela.

Algoritmos controlam que lerás e, principalmente porque é o meio dessa geração, que vídeos verás. Perdoem se aqui não descarrego novidades ou nem o melhor poder de síntese. Apenas o abatimento que não necessita sequer assistir a uma reunião do congresso para ser completado. Aliás, em Pelotas a Câmara de Vereadores virou notícia pela escassez, pela ausência dos parlamentares. Que futuro?

03/06/2024

Ivan Ilitch

Eu poderia ter escrito muitos livros

Eu poderia ter movimentado muitas cifras

Eu poderia me sentir muito mais vivo

Eu poderia não ter sido Ivan Ilitch


Amy Winehouse era um case à parte

Ela só queria ter escrito músicas

(e cantado)

A indústria deixou Amy maluca

O mundo da música como um todo

É derrotado


Eu poderia ter me esforçado 

Mesmo assim

Há coisas mundiais que eu não teria alcançado

O aquecimento engloba

Leis polêmicas se aprovam

E nós permanecemos anestesiados

Ouvindo Pink Floyd, Oasis

Dançando fado


Literatura russa participa

Da meiuca da minha vida

Tolstoi me destrói 

Dostoievski é mestre

Gogol voa como um belo rouxinol

Em vou em direção ao gol

Ao céu, ao sol...

Eu voo em direções que não atrapalham

O serviço da Interpol 

Navios e farol

Pavios e anzol 

Pais e filhos pelos trilhos 

Milharais, humilhações 

Eu voo no sentido oposto

Da modernidade das construções 

Em direções que causam desgosto 

Aos coachs e aos signos dos leões


Eu espremo os supremos limões 

Os oprimidos espremidos entre as multidões

A limonada é uma charada 

Que não te servem

Mas bem te serviria

Eu poderia ter sido

Eu serviria 

Eu iria onde não foi ido

Eu desviei das flechas dos cupidos

Eu cuspi escarrado escorrido

Eu corri e também fui corrido

Eu

Poderia

Ter

Sido


28/05/2024

As pessoas são as mercadorias alugadas pelos ônibus.

Diminuo a validade da humanidade para me isentar.

Reduzo o valor da humanidade para me proteger.


Como acharem mais bonita a frase*

27/05/2024

Verdade é

A verdade é que as pessoas são ruins. Sob condições de algum conforto, algum poder, são ruins, julgam as outras, se sentem superiores, isso sob qualquer condição, basta ver o que ocorria na favela do Canindé sobre as denúncias de Carolina Maria de Jesus ou quem mais nessas condições ousasse ou pudesse escrever.

As pessoas só parecem melhores quando acuadas, afetadas, contra-paredadas, frágeis, destrutíveis, manipuláveis. Aí parecem boas, dignas de pena. Sob outras condições mais favoráveis seriam as opressoras. Raros são os que não. Será?

25/05/2024

Mais Fragmentos

E o velho lobo do mar disse:

Não sei mais conduzir-me por madrugadas - se é que um dia soube.

#################################

Lavo capas de livro com o suor de minhas mãos.

#################################

A luta dos cangaceiros é um império oco diante do poder do capitalismo estrangeiro.

#################################

Só acha que é especial quem não conhece o resto.

#################################

Conhecer a história da literatura e do cinema faz perceber que todas nossas lutas atuais já foram abordadas e a maioria das lutas silenciadas ao máximo.