E se retirássemos os pronomes possessivos do mundo, como seria o mundo?
E de quem seria?
Hai kai
Metapoesia
Vai que vai
Ia ia
Hai kai
One, two, three, flor
And five?
No more
Hai kai
Nasceu breve
Logo morre
A ninguém deve
Hai kai
Se levanta, se apresenta
Gasta uma linha com seu nome:
Hai kai
E logo se senta
Hai kai
Cai na lei da gravidade
Mas não é grave, é brincadeira
Voa, ave, ave
Às vezes é difícil deixar sua própria trincheira.
Reflexão ao início do filme 1917, um dos preferidos do autor. Poucos personagens e muitos figurantes, em perfeita ambientação.
Quem nos aguenta?
Nós literários
No tempo do glitter
Quem nos tem horário?
Quem nos lê,
Repensa?
Ou só avança
Imensa
Distribuição de palavras
Larvas e sementes
Patentes
Registre sua marca
Evite pirataria
Quem quer receber
"Bom dia"
Quando seu dia já não é bom?
Quem quer receber
"Bom dia"
Somente por obrigação?
Quem quer receber
Em dia
Até a ilusão do dia quinto
Um dinheiro tão finito
Quanto o mito de viver
Sem poesia
Chove de leve ali fora, do outro lado da janela. São 3h30 da manhã quando inicio o texto. Provavelmente serão pelas quatro quando encerrarei. Aguardo pela minha tia, que vem a Santa Catarina. Este a sem crase. Vou a Santa Catarina. Volto de Santa Catarina. Estou lendo um livro de um Judeu chamado Pierre Goldman. Ele era filho de poloneses, mas nasceu em Lyon, na França. Por isso o livro se chama Lembranças Obacuras de um Judeu Nascido na França.
Ele aborda o preconceito racial e os conflitos armados que permearam toda sua vida. Um erro de grafia no livro é assalto à mão armada, que leva crase, mas a cada citação no livro não há o sinal gráfico. Irrelevâncias. Escrevo a partir do meu celular. Sinto fome, mas não quero correr o risco de interromper o sono de meus pais, talvez a coisa mais preciosa que eu zele em vida, porque sei o quanto meu pai é esforçado quando acordado e merece repouso. Minha mãe passa o dia seguinte muito debilitada quando dorme mal. Eles merecem dormir bem. Não saio do quarto para comer algo para não correr o risco de cortar o sono deles. Mesmo sabendo que a aproximação de minha tia na rodoviária fará com que ela emita uma mensagem e acorde minha mãe. E meu pai a busque na rodoviária. Eu de metido insone devo ir junto de acompanhante.
Escrevo a partir do meu celular com o carregador não original, que fica acusando o mau contato entre dispositivo e aparelho. Raios.
Pierre Goldman se defendeu de tribunais injustos que imputiram assassinatos, homicídios em sua ficha criminal, que, segundo a vítima do sistema, deveria constar apenas de assaltos, quando nem fazia uso das referidas armas. Goldman fez contato com homens das Antilhas, congoleses, haitianos e demais latino-americanos. O livro tem tudo a ver com o clima pós segunda guerra. Goldman era um Judeu não pertencente ao país de seus pais, uma Polônia cada vez mais antissemita, barril de pólvora entre sovietes e anti-stalinistas. Também nunca foi um francês, sofrendo o preconceito racial por ser considerado um estrangeiro judeu. Engraçado que quando foi para os Estados Unidos, em uma passagem de navio, trabalhando para um comandante noruegueses, nos EUA, Goldman era visto como "o francês". As coisas mudam.
Minha tia conviveu no mesmo apartamento comigo no fim de 2022. Me ajudou em um período difícil de minha longa doença, quando eu não conseguia evacuar direito, pelo mau funcionamento de meu intestino, que não absorve mais vitaminas como deveria (atualmente tenho reforçado vitamina B oralmente, mas já levei injeções também em outros tempos).
A vinda de minha tia, que voltou a morar em Pelotas mesmo após a insistência de meus pais que ela ficasse em Santa Catarina, a vinda dela tornou-se um evento importante de meu verão. Estou muito isolado, sem amigos por aqui. Ter a companhia de minha tia pode me fazer bem. Deixo aberta a possibilidade disso. Me faz lembrar perspectivas quando, por exemplo, o volante Jailson saiu do Grêmio e não era assim dos mais importantes. Tempos depois a qualidade de elenco recaiu e a torcida esteve em polvorosa para que ele voltasse, o que nunca ocorreu. Fez campanhas e títulos pelo Palmeiras. Além dele, lembro o caso de Rafael Carioca. Ou até Douglas Costa, que viria como salvador. Maior desperdício da história que já vi no futebol brasileiro. Perspectivas.
Pois a perspectiva de minha tia próxima a mim, pessoa da qual nunca fui tão ligado, aumenta na medida em que não tenho outras pessoas com quem contar. E assim devo me acostumar por idade ou distância, ou rotinas atarefadas dos demais, ou menos tempo ou menos grana para disporem conosco. Nos viremos.
Além do livro de Pierre Goldman, a ver com o assunto, os últimos filmes de Christian Petzold, talvez o cineasta alemão que eu mais goste, escalando posição preciosa entre todos os europeus (estou acompanhando toda filmografia dele). Petzold dedicou os últimos anos a filmes com referências de segunda guerra mundial, a exemplo de Phoenix e agora Transit, o qual estou assistindo. Parei e aqui escrevo. Em Transit, traduzido como Em Trânsito, o personagem foge pela França cada vez mais ocupada pelos nazistas, necessitando de passaportes falsos, desculpas, dinheiro e muita desenvoltura. O interessante deste filme, além da troca de identidade com o escritor que se matou no início da trama, o interessante é que Petzold não se preocupou em ocultar os novos carros e as novas ruas francesas ou alemãs. Adaptou um filme de segunda guerra em um mundo como podemos presenciar em cenários dos anos 2020. O filme ainda dispõe de cartas, luminárias, trens (?), mas também há carros modernos e ruas que não escondem o avanço tecnológico pelo qual passamos.
Por fim, gostaria de afirmar que gosto muito dos heróis das tramas de Petzold, pessoas comuns e muitas vezes entricheiradas entre escolhas, além do bem e do mal. Diferença sagaz, preciosa em relação aos mais vistos de Hollywood, em personagens que despertam apenas admiração ou raiva, ufanismo demasiado, leitura rasa. Nos filmes de Petzold somos convidados a pensar em situações cotidianas e ao mesmo tempo extremas: o que eu faria naquela situação? Preciso roubar? Preciso fugir? Preciso amar? Preciso abandonar? Preciso aplicar um golpe? Preciso fugir das autoridades? Quem tem a razão, tão mutável e movediça, tão escamoteada e fugidia? Assim acompanharmos os últimos minutos do filme Transit, para descobrir se nosso protagonista ficará ao lado da família que encontrou pelo caminho ou fugirá com o passaporte que está encaminhado, concedido para iniciar uma nova vida não nos Estados Unidos, mas no México.
O que será que Pierre Goldman escolheria se fosse ele no papel principal não do livro biográfico de sua vida, mas nesta interessante trama do filme de Petzold? Goldman que, ao largo do livro parece querer se livrar da morte - que o perseguia em pensamentos e ações desde a infância-, justamente por um amor distante, de uma antilhana distante, no tropical caribenho, encontra uma desculpa para manter-se vigilante no sonho de libertar-se da prisão e continuar combatendo, talvez ao lado das diversas organizações comunistas estudantis das quais fez parte, ou deseja apenas uma vida em calmaria, mais justa e menos ambiciosa. O que escolher para salvação e continuação quando os caminhos se entrecruzam e as soluções não são tremendamente iluminadas e dispostas como a facilidade de escolher um ingrediente nas gôndolas do supermercado ou um livro de uma estante?
Assim vivemos entre liberdades e aprisionamentos e eu, enquanto ainda chove, e passam das prometidas quatro da manhã, espero minha tia chegar na rodoviária.
Enorme temporal que chega também a Santa Catarina.
Nossas cidades estão preparadas para o que o tempo fará com elas? Não estão.
Aliás, tudo que a humanidade construiu jamais se compara com a natureza. No fim, ela que manda.
O homem tem poder da destruição equivalente à natureza.
A bomba atômica, por exemplo.
Podemos destruir o mundo antes da natureza.
Mas o poder de construção superior ao da natureza nós não temos.
Não minimizando nossos exímios engenheiros. Mas sim exaltando a natureza. Ela manda.
Questionamento: como se livrar da depressão, se as alternativas de convivência recomendadas só nos fazem lembrar mais ainda da depressão? É como se, no convívio ao qual nos forçamos, a bolha criada pela depressão melhor ainda nos moldasse. Perguntas para lapidar e levar ao psiquiatra, porque não tenho a garantia de ter sido aqui claro no questionamento. Vocês entenderam?
Quanto mais se convive para tentar escapar da depressão, mais lembramos os motivos pelos quais chegamos à depressão. O mundo e as pessoas podem ser deprimentes. Por um lapso de esperança, podem também não ser.
Acredito que após se passarem os dias de maior depressão, sente-se um sentimento de tempo perdido pelos dias desperdiçados. Apenas acredito nisso, porque, na verdade, não sinto que superei esses dias para olhar com outra ótica.
Em um exercício de imaginação, estava apenas imaginando como seria estar escape das garras da depressão, que cercam e encurralam, limitando nossas atuações no cotidiano.
O sol brilha forte lá fora, mas não quero sair. Tenho preguiça e vergonha e desinteresse. Às vezes mais preguiça, às vezes mais vergonha, às vezes mais desinteresse. Deixo minha cidade e meus amigos me perguntam quando irei voltar. Não sei quem encontrarei futuramente. A insegurança do futuro é prejudicial, mas, para o pleno exercício do viver, apenas o presente seria agora essencial. E no presente o sol brilha lá fora e não saio. Por preguiça, vergonha ou desinteresse.
O primeiro verão que vim para cá foi melhor. O tom da novidade, a proximidade a menos de quadra do mar. Caminhadas longas de exploração. Nem a ausência de Internet impedindo que eu caminhasse ouvindo músicas sortidas nos fones impedia. Nem o descontentamento constante com meu próprio corpo, de julgamentos imaginários ou existentes por outrem - certo é que eu sim me julgo.
Na Internet tiraram a semana para debater corpo feminino. A verdade é que uma tal indústria da moda construiu paradigmas antes inexistentes. Para vender roupa ou não vender, dificultar que se compre. Esses tempos ouvi uma ótima teoria que os estilistas, muitos deles gays, projetavam roupas para alterar a percepção das mulheres, concorrentes deles pelos homens. Se verdade ou não, há pingos de razão e sentido. A indústria é muito mais cruel do que o homem "comum". Ok, a indústria, as indústrias são comandadas por homens, mas pelos poucos capitalistas detentores do capital. Eles que mandam, constroem padrões inexistentes, mais fáceis ou mais difíceis de romper com.
O tal mercado de trabalho, a televisão também moldam padrões que em geral nem concordamos. Às vezes é escrachado, e tão falsa a aparência sobressaindo sobre a competência que o sentimento é repugnante ou de vergonha alheia.
Se o homem "comum" age em julgamento tão cruel quanto a indústria, ele é, sem meias palavras, um otário.
Se eu for assistir, de um helicóptero ou pequeno avião, por exemplo, a imagens desde a altura que nos encontramos, acredito que o medo seja um elemento fundamental para fixação das mesmas belezas na memória. Está no medo uma capacidade de lembrança. Ignorar o inédito, a força do risco de uma queda vertiginosa desde acima, ignorar esses elementos, na coragem, na falta do risco que não resulta em medo, também resultará em apagamento mais ligeiro da beleza das imagens aéreas. Mundo de ganhos e perdas, de ônus e bônus.
Identificar as crises é fácil. Difícil é identificar o quanto as crises realmente nos afetam.
Crises geram crises.
Identificar as crises é fácil. Difícil é encontrar as glórias que aparecem nos filmes.
Cada vez que vou embora de Pelotas, e tem sido muitas, morre um pouco dela em mim, mas, assim como as sementes ocultas sob a terra, sei que algo dela ainda renasce em mim.
O ruim de ter desistido de tudo é que você tem de encontrar um motivo para seguir mais um pouco. Um falso pretexto. Uma medida provisória, nada mais. Nem que seja ler os textos de Garcia Lorca que eu deveria ter visto para as aulas de amanhã. Queria que você estivesse correta e eu tivesse mais o que fazer. Se eu tivesse traído ou tenha com quem trair e construir algo. A solidão mediada de tantas disfunções não é apenas um sentimento, mas uma ameaça constante, perigosa e destrutiva.
Sinto sua falta para desabafos, relatos e algumas piadas, mas não consigo encontrar chamas de sobrevivência da convivência. Me sentia em um barril de pressão e compromisso, da mesma forma que não irei conseguir enfrentar quando se tratar de trabalho, sei bem e aproveitava meu pseudo-emprego para manter-me ocupado e mentindo alguma utilidade. Após sair desse barril de pólvora, é o meu silêncio que me aprisiona.
Tenho agora um senhor como vizinho dos fundos, no apartamento contíguo. Não o conheço bem e ele é naturalmente estranho, como só estranhos poderiam parar aqui. Nesta segunda-feira será instalada a internet dele, por dentro de meu apartamento, por suposto, porque preciso de incomodações maiores do que as minhas. Tenho aula toda tarde depois e precisava ler as peças de García Lorca. Tentarei isso ao ponto final daqui.
Gostaria de perdoá-la de tudo, do que me magoou e não foi pouco, mas sei que algumas questões irão voltar à tona sempre, fantasmas entusiasmados em lençóis manchados. Para além disso, também não me sinto perdoado quando episódios passados sempre voltam. Não sou o monstro que nunca aparentava ser e agora naturalmente aparento. Minha vontade de machucar quando me sinto machucado é imediata, infalível e, até o momento, incurável, embora concordo que seja possível remediá-la. Acho que faltou cuidado e cautela. De ambas as partes, obviamente.
Há pessoas que dessa trajetória de campeonato jamais irão se recuperar e outras tantas que nem a oportunidade de redenção terão. Se pensas cômico, tenho nenhuma empatia com o que daí saia. Além do mais, muita coisa se planta e daí se colhe. Ainda em termos do campeonato, creio que faltou planejamento e mesmo seriedade para encarar o processo, é a liga mais difícil e competitiva do mundo. Nenhuma apresenta, ou apresentava, tantos candidatos. Venceram os mesmos. Dos últimos 9 anos, creio que só Atlético Mineiro, que permanece bem, e Corinthians (oi, sumido) romperam o fardo de que os mesmos vencessem. Parabéns aos que assim se contentam.
Bem saliento que o Botafogo fez algo diferente, do quinto lugar no carioca, passeou um voo alto pela liderança de 30 rodadas, para estacionar também em 5⁰, mas no brasileiro. Caso ficasse entre os quatro, igualaria o número de ficadas entre os quatro do Vasco. Nem isso se permitiu o pobre coitado, incorrigível. Como um fardo permanente, um doente em leito de UTI ad eternum, esse grupo de coitados volta a se apresentar para algum domingo de calor em um estado que tem como outros esportes a praia, a subida de morro, a corrupção e a milícia, uma falsa bossa nova e o mais legítimo dos funks. E lá estarão eles, para tortura de mais uns 10 ou 15 mil coitados que não desistem, peregrinam já em busca de nem sabem mais o quê. Mas prometem eles que o espetáculo da tortura um dia, logo mais em janeiro até muitos janeiros continue. Quanto será que custa se vender para o fim como a Portuguesa de Desportos fez-se e desfez-se a partir de 2013? Ela vice-campeã de 1996, que ameaçou ao máximo o bi do Grêmio. Bragantino ameaçou fazer este ano e assim outros coadjuvantes de pouca torcida, como foi o São Caetano, ameaçam esse terreno movediço entre médios e grandes onde paira e cada vez mais enterra-se o Botafogo.
Eu, na falta de onde ir ou cair adiante, caio junto. Pás de terra não faltam, postas por quem entenda isso ou não entenda. Te desejo paz. A paz que um dia, se algo do que promete o coro das vozes seja cumprido, eu encontrarei. Paz.
- A noite agora já foi para o buraco
- Na verdade todas as noites já são o buraco
Diálogo no filme Tão Longe, Tão Perto, direção de Wim Wenders, em 1993.
"Escrever é um substituto para vida que não posso viver."
Pois sinto que além de minha escrita também entra aqui cada vez que leio e vejo filmes, e quase me assusto mesmo o sobressalto de parar para pensar que aquilo não existe ou que minha vida, no quarto da frente de um prédio decadente e vazio no final do Centro, é totalmente insignificante e indiferente a quase tudo que me cerca.
Tratam-se de meras impressões, suposições observadas sobre o cinema alemão contemporâneo, em especial na obra do diretor Christian Petzold, do qual estou acompanhando o sétimo filme em ordem cronológica desde os curtas com os quais iniciou a carreira.
Em parênteses, estou assistindo aos filmes na tela de meu compacto celular e quando os filmes são escuros podemos ver nosso rosto como em um espelho, às vezes atônito, às vezes indiferente, naturalmente.
Bom, sobre o cinema alemão, a observação que resultou na publicação dessas linhas consiste em analisar que, diferente de outros países mais bem demarcados com traços que muitas vezes beiram ou escracham o nível do estereótipo. Por exemplo, as conversações animadas e os muitos rolos amorosos dos italianos, ou dos quais também compartilham os franceses, porém mais polidos, preocupados em uma postura chique apesar de toda falsidade do charme burguês- já nos denunciavam há décadas. Os franceses como o próprio nome aponta em francos apontamentos, muitas vezes vistos por nós categóricos da sutileza como gestos grosseiros. Porém o cinema alemão, e além da contemporaneidade desde alguns primórdios como o filme do Golem em vilarejo judeu, ou até traços árabes ou turcos em histórias contadas pelos primeiros cineastas alemães, é notória a presença de muitos elementos estrangeiros ao que seria delimitação de Alemanha.
Wim Wenders trabalhou com histórias em diferentes países, dos Estados Unidos a Portugal. Portugal que está em destaque na obra A segurança interna (2000) de Christian Petzold, história na qual um casal de ditos terroristas com todas as aspas de esquerda criam uma filha adolescente mas tendo que pular de galho em galho pelos riscos das perseguições que sofrem.
Assim que a suplementação estrangeira está diretamente ligada ao cinema alemão. Não há um cinema alemão puro. País central, capital de uma Europa Central, desde a economia forte de Frankfurt aos portos de Hamburgo, da rica Baviera de Munique, da ligação com o leste nas complexas Leipzig e capital Berlim. No charme e nos bosques de interior por onde se possa passar nas histórias, até uma Stuttgart mais voltada nas proximidades da fronteira francesa. Um país de muitos migrantes, de africanos a árabes, chineses e turcos, e por que não brasileiros e outros seres americanos? Alemanha miscigenada porque assim é na busca pela qualidade de vida, nas saídas fugitivas de conflitos de violência e econômicos. Alemanha miscinegada também será por demonstrar superações passadas traumáticas em sua formação nacional e histórica?
O cinema alemão que observo é bastante complexo, com uma gama de assuntos, personagens, cenários, atuações. Já vi retratados prostitutas, mafiosos, drogados, banqueiros, famílias turcas, famílias miscigenadas, famílias a partir de homossexuais, de outras letras do LGBTQI+, bêbados, artistas, portuários, taberneiros, donos de redes hoteleiras, funcionários públicos, paisagistas, ecologistas, mulheres independentes em seus cabelos curtos, homens em seus cabelos compridos, bigodudos, fumantes machistas e os mais diversos personagens que se possa imaginar.
Se imaginem cópias do cinema estadunidense, deboche com o cinema estadunidense, produções próprias mais silenciosas de viajantes, camponeses, andarilhos, passageiros de ônibus ou de trens, observadores das florestas, das belas estradas ou das águas, gente ligada aos vizinhos países, da França aos mais variados tipos do leste europeu.
O cinema alemão é um rico campo sociológico, semântico, de linguajares os mais diversos e atrativos. Antropologicamente variado, com seus personagens dos mais simplórios e caricatos aos mais desenvolvidos, que identificamos da realidade ou das imaginações mais profundas e surrealistas.
Enfim, aqui apenas uma mostra para o que se pode explorar de ideias de observações a partir das mais diversas obras sejam elas de Wim Wenders, Fassbinder, Christian Petzold, Margarette von Trotta, Werner Herzog, Fatih Akin e outros e outras.
Um filme que deveria ser visto e revisto até hoje.
O filme Guerra e Humanidade, do diretor Kobayashi, de 1959, retrata tempos de Segunda Guerra Mundial entre Japão e China. Os japoneses detinham o poder e escravizavam os chineses. A história conta o personagem principal enviesado entre muitas encruzilhadas, termo inclusive utilizado na narrativa. Ele estava para casar com o amor de sua vida, mas tinha o receio de ser convocado para o exército japonês. Em seus estudos sobre os campos de produção, acaba recebendo a oportunidade de controlar uma mina de extração, com milhares de trabalhadores chineses sobre o controle dos japoneses. Em estimativas do filme, eram mais de 10.000 homens em supervisão daqueles poucos japoneses.
Como recebeu este emprego para ser um dos supervisores da mina, levou sua nova esposa a este local afastado, uma terra hostil, dominada pelos homens e com pouquíssimas mulheres. Tão adverso e arisco eram o clima da localidade que os escravizados não possuíam a mínima chama feminina para atiçar seus corpos, de modo que um serviço de visitadoras, muito semelhante ao que veremos em Pantaleón e as Visitadoras, livro do peruano Mario Vargas Lllosa, acaba aparecendo na trama. São algumas prostitutas que serviriam de consolo e de aparição como recompensa aos exauridos trabalhadores chineses.
Esta primeira parte da trilogia Guerra e Humanidade chama-se Não Há Amor Maior (1959), contando a história do Sr. Kaji, o personagem principal. Ele possui livros do mundo ocidental e é um grande humanista, mas tem seus valores totalmente colocados à prova através das situações adversas que tem de encarar. São líderes oportunistas, corruptos, relatórios falsos, crimes de guerra, torturadores, trapaceiros e subordinados ao exército japonês tendo de conviver com a violência, a retaliação, os excessos de poder e uma tremenda injustiça. O Sr. Kaji e a esposa tem a convivência posta à prova durante toda a trama, escapando de uma situação e logo tendo de resolver outro infortúnio. As ordens superiores são injustas, os relatos dos acontecimentos, da violência gratuita são falsificados. Trabalhadores que são agredidos até a morte são postos em relatórios como fugitivos ou acidentados. A produção de alimento e a distribuição são escassas e injustas. Os chineses estão esgotados de trabalhar para os inimigos e sem recompensa, ameaçando fugas e rebeliões. O Sr. Kaji tem de pacificá-los, conter as investidas e negociar futuros ainda promissores para esses pobres prisioneiros de guerra.
O alto comando japonês, quando acionado, pressiona Kaji por mudanças, por uma produção efetiva. Eles esperavam angariar da colheita 20% de aumento na produção. Não importa pelo que tenham de passar por cima. Por mortos, por esgotamentos, por torturantes jornadas de sacrificante trabalho. Mas Kaji, como dito, é um humanista e observa essas situações incrédulo de tamanhas injustiças, prometendo e pondo em práticas soluções que obviamente desagradam seus superiores e parceiros no comando da interiorana mina em terras chinesas.
Kaji vivencia a traição por todos os lados. Seus negociantes do lado dos representantes dos trabalhadores chineses o traem. Ele se decepciona, ameaça não ligar mais para as reivindicações e condições trabalhistas deles. Mas o coração de Kaji segue posto à prova e ele vai até as últimas consequências por aqueles homens antes desconhecidos, não importando suas origens ou pequenos ou maiores erros passados. O filme todo se desloca em uma trajetória não de santos, mas de homens passíveis aos erros e questiona o valor das desgraças que podem ser depositadas sobre esses desafortunados sujeitos. Kaji circunda por suas temíveis encruzilhadas, sinucas difíceis, quase impossíveis de resolver. Nos questionamos durante as peripécias o que poderíamos fazer no lugar do jovem japonês, de 28 anos, um emprego inusitado e a constante ameaça de perder seu encargo e ainda ser ameaçado de torturas, agressões e até do sumiço como a morte que facilmente poderia ser falsificada em mentiroso relatório.
Kaji convive com as prostitutas que visitam os trabalhadores, com os próprios milhares de mineradores, com os controladores dos suprimentos, guardas, encarregados do exército japonês e outros fiscais e administradores. A corrupção é uma prática frequente, retrata os extremos que ação e pensamento humanos podem chegar em tempos de escassez, guerra, conflitos, animosidade entre etnias, e mesmo entre homens que - teoricamente - lutam pelo mesmo lado de uma guerra. Tantos tentando obter vantagens sobre seus semelhantes, os excluindo, os oprimindo, lutando por seus cargos ou simplesmente por seus pedaços de sobrevivência.
Guerra e Humanidade inicia a trilogia com esse episódio da vida do Sr. Kaji em cerca de 3 horas e 24 minutos de filme. Mostra os excessos da guerra, as injustiças, os comportamentos doentis e fanáticos dos exércitos nacionalistas que até hoje habitam nosso mais ou menos estimado planeta. Mostra a dificuldade da manutenção de valores humanistas iniciais, presentes na teoria bem desenvolvida dos livros, inebriantes na hora do vamos ver da prática. Os desafios do Sr. Kaji deveriam ser vista obrigatória a estudantes, pessoas de todo o mundo, pessoas que desconhecem as práticas sacramentadas e repetitivas da crueldade dos exércitos, os roubos, os excessos, as torturas, os estupros, as condições de vida precárias a que são submetidos seres humanos que como culpa carregam apenas sua etnia ou local de nascença. Um filme pouquíssimo comentado, mas, até a presente hora, contando com minhas cinco estrelas depositadas em nota e com um alta média 4,5 através do aplicativo de catálogo de filmes do Filmow.
Recomendação do primeiro ao último minuto das mais de três horas de duração e lançada minha ansiedade para conferir os outros dois episódios dessa trilogia do diretor Masaki Kobayashi.
Há o que achamos genial. E há o que não entendemos.
Assim começou o documentário Elena, de 2012. Não havia entendido se a moça que havia ido a Nova York estudar teatro era Elena ou sua irmã, Petra, que nos mostra em imagens resgatadas por ela sua vida em convívio com a irmã. Petra Costa é a diretora que assina a obra.
Entre os comentários que vi sobre a película, o destaque é a sensibilidade apresentada nela e não podemos fugir do comentário sobre o grande acervo de imagens da vida das irmãs, que tinham ainda a influência de uma mãe que fez um pouco de cinema em sua juventude. O filme é repleto de referências de como Elena serviu como inspiração para Petra. Uma relação muito próxima entre irmãs, de mais velha para mais nova. Uma família que vivenciou as dificuldades do período da ditadura militar brasileira, suas restrições e possíveis perseguições políticas e depois tentou vivenciar, respirar a arte, em um ar ainda rarefeito no cinema e no teatro nacionais.
Elena tenta ganhar a vida em Nova York. É outra realidade, são outras oportunidades, a ansiedade pelo que pode ou não dar certo. O coração da jovem fica dividido. A espera por um sucesso que não vem. Um talento que não se desenvolve ou não é valorizado. A espera, o compasso longo de uma espera duradoura. Elena vai e a família a acompanha, no caso a mãe e a irmãzinha Petra, bastante criança, pequena, de lembranças vagas, suscitadas ou relembradas através do acervo de vídeos caseiros. Petra é treinada por Elena para também ser atriz. Vídeos caseiros em brincadeiras, vestuário, atuações, banhos e desempenhos. Muitos de nós sonhamos em ter imagens registradas para posteridade através de uma câmera vista de forma amadora.
Petra reconhece a dificuldade de adaptação em uma Nova York de costumes diferentes, de idioma diferente, pois tinha que aprender a duras custas o inglês, do frio diferente do Brasil mineiro ou carioca. Para além da dificuldade de Petra, que era contornada com o passar dos meses em adaptação aos Estados Unidos, Elena passou pelos percalços daquele longo compasso de espera. A depressão contínua, os dias e as noites em muito sonho e pouca atividade, em depressão profunda sobre a cama. A promessa de ligações que não vinham, convites não depositados, atuações que nunca existiram fora dos registros amadores. Sonhos despedaçados, até que ela não resistiu mais e concluiu-se de uma forma bastante estadunidense.
Para Petra ficaram as lembranças, os registros, a admiração jamais cessada, a saudade, palavra bastante portuguesa e contínua, os olhos distantes e jamais consolados no olhar da mãe. "O que houve, mãe? Está com o olhar estranho." "Estava pensando em Elena." Cena que se repetia no dia a dia das remanescentes neste plano.
Para parte final do filme, finalmente entendemos quem era quem. Ou não. Quem havia ido a Nova York estudar teatro. Quem depois estava proibida, ao chegar à idade de prestar vestibular, de escolher teatro e de escolher, entre tantos destinos possíveis pelo mundo, a mesma cidade de Nova York. Se respondem perguntas lá do início documentado, de como era impossível, e ao mesmo tempo tão palpável e presente, encontrar Elena por alguma das infinitas ruas paralelas da grande maçã Nova York, na terra das oportunidades, mas também de opressões, dos sonhos que vingam ou que se vão atrás de portas de repetidos apartamentos.
Fico pensando que pouquíssimas pessoas teriam a oportunidade de realizar um documentário desses, seja pela banalidade de nossas vidas, seja pelas poucas oportunidades de entender de direção, edição e adaptação para cenas, seja pelo pouco acervo que reservamos em nossas casas sobre nossas famílias, nossas infâncias. O filme corre muito mais por narração de Petra sobre o que lembra ou inventa, através das imagens salvas em filmagens, do que com entrevistas novas, que também estão presentes ao tentarem reconstituir o trauma que, na verdade, lhes ocupou eternamente o âmago. Esta é Elena, viva nas imagens, nas lembranças, em olhares distantes e no coração de sua mãe e de Petra, petrificada, mas insinuante e plena.
Ao mesmo tempo em que a modernidade, a globalização e as grandes empresas povoam os mais longínquos rincões da Terra, em um ar de familiaridade, de uniformidade e padronização de cada canto, tornando-os os mesmos, ao mesmo tempo perde-se a devota cultura ancestral, a particularidade, o enriquecimento, a soma, as diferenças que nos fazem mais fortes. Essas diferenças sejam elas étnicas na miscigenação, na beleza das diferentes arquiteturas, na soma gastronômica e culinária de nossos estômagos que anseiam o distinto. A diversidade de modelos, de possibilidades, de ruas, de escolhas, de cores, fragrâncias e estilos. A padronização global impõe as mesmas peças, os mesmos moldes, as mesmas formas e atitudes. Ao passo que nos dão a segurança de conhecermos como funciona um shopping center - palavras inglesas, estrangeiras, mas globais -, ou um aeroporto, nos tiram, nos podam o eterno anseio, a graça pelas novas descobertas, o calafrio inquietante diante do desconhecido, o enriquecimento cultural e uma das verdadeiras vontades que nos fazem deixar o sossego de nossas casas rumo a novas experiências.
Pontes estaiadas pelo mundo, numa uniformidade que nos orgulha estarmos defronte a uma delas como se estivéssemos nos Estados Unidos ou na China, mas que ao mesmo tempo nos bloqueia alguma das vontades de para lá nos deslocarmos. Fast foods globais, que nos dão a certeza do que pedir ao sair de casa, mas trazem um desnecessário conforto que não mais queremos. Queremos explorar o diferente, experimentarmos novas receitas e medicinas. Buscarmos novos gostos e tradições que nos acrescentem.
Um mundo que se uniformiza também se limita. A pobreza de opções nos sai cara. Os avanços milenares e globais também se deram pelos cultivos distintos, pelo comércio de importações e exportações e não pela boiada, eucaliptos ou soja que a tudo dominem entre nossas fronteiras.
Um surrealismo à brasileira, cheio das cenas mais absurdas com um elenco que apenas deixa prosseguir. A história de um casamento todo desfalecido entre a esposa de irônico nome Felicidade (Norma Bengell) e seu marido Sérgio (Hugo Carvana). Após uma discussão mais acalorada, a mulher reage e mata o marido no quarto de um hotel de estrada. Ou assim o pensa. Prontamente, Felicidade foge com a filha Betinha, que rouba a cena do filme.
Betinha ganha destaque sempre pentelhando a mãe e pensando nas situações mais absurdas, embora, também com um senso prático, demonstra vivacidade e instinto de sobrevivência. Ela percebe a perseguição de um carro atrás do delas na estrada, numa fuga do Rio de Janeiro a São Paulo (ou de São Paulo, onde moram, ao Rio de Janeiro, não recordo).
A perseguição se acentua até que o perseguidor percebe no posto de gasolina uma oportunidade para galantear Felicidade e oferecer-lhes ajuda. Sérgio era um empresário importante, réu confesso de passar gente para trás, segundo o próprio testemunho de Felicidade. Críticas pontuais a modelos econômicos, por que não? A um machista Sérgio de casamento infeliz, pai de família mais importado com a ideia de aplicar golpes financeiros para prosperar às custas dos outros. Desconfiado por natureza a ponto de contratar funcionário para que, por sequência e tabela, vigie a esposa. Este é Sérgio, que pouco vemos e só ao início da trama.
O ponto máximo do filme é quando recostam-se a uma cidadezinha de arquitetura tipicamente do barroco à brasileira, algo sudestino em direção ao Nordeste, de aspecto Minas Gerais, interior do Rio de Janeiro e não nos surpreenderia perdida ali se fosse uma Bahia. Lá o trio, entre as duas perseguidos e o funcionário perseguidor, choca-se com um excêntrico casal, de hábitos e costumes deslocados da realidade, sendo ele um dentista, de pouca comunicação e combinação com sua esposa. Servem-se a bom tom de uma hospitalidade enquanto a tensão segue crescente de qual será o destino para Felicidade e a espoleta Betinha.
Mar de Rosas colhe de grandes aspectos surrealistas, entregando um produto bastante peculiar, em que podemos ver traços de bons diretores europeus, como Buñuel, ao passo que só no Brasil transcorrem determinadas cenas. De 1977 para a atualidade de quem quiser conferir, sempre contextualizando as dificuldades de propor certas críticas em plena ditadura militar brasileira. Direção da detalhista Ana Carolina.
De Cierta Manera é um filme cubano que já inicia polêmico por sua data. Gravado substancialmente em 1974, foi concluído apenas em 1977. Direção da cubana Sara Gómez. O filme é centrado em relações conflituosas. São ramificações de um mesmo tema, de uma mesma problemática: as relações.
A relação central entre a professora e o operário após a revolução de Cuba em 1959. O país está mudando, as pessoas estão mudando, as pessoas estão mudando o país. O casal formado por Mario e Yolanda vive conflitos, nas diferenças de linguagem e de visões de mundo.
Mas todo o filme é uma mescla, uma sobreposição de relações. A relação dos homens com o país. A relação dos homens com os demais homens, seus companheiros, sua forma de agir, de parecer e de aparecer. A relação entre o casal, já mencionado. A relação entre Mario e seu pai, um dos membros do conselho local. A relação entre a professora e os estudantes, nessa nova etapa de Cuba, que tenta lançar a Educação como pedra principal da transformação do país. A relação entre as professoras no método de alfabetização e de ensino. A relação entre a professora Yolanda e as mães trabalhadoras, em que é difícil que se entendam, em funções tão divergentes. Uma das mães com 11 filhos, tendo que trabalhar até tarde e não conseguindo auxiliar na educação de suas crianças. Ela é cobrada por Yolanda e rebate a acusação.
O filme mostra as problemáticas relações de um país em tremenda mudança, em ebulição. Cada um ainda tentando entender seu papel no mundo, seu papel na sociedade, seu papel nesses conflitos vigentes. Mario se cobra que, para fazer sua parte dentro do papel da revolução, para cumprir as metas propostas, teve que denunciar a um companheiro, amigo seu. Ele fica lamuriando a questão enquanto Yolanda e outros companheiros lhe dão razão. O conflito é estendido em discussão entre os demais, muitos apoiando que são necessárias atitudes para cumprir as metas propostas pelo novo governo. O filme termina em uma conversa entre os personagens principais, que vão se afastando no plano da câmera, esta captando as mudanças estruturais, imagens reais que permeiam o filme, em uma mescla de ficção, neste drama, com o biográfico e o documental.
De Cierta Manera, expressão que demonstra dúvida, hesitação, perspesctiva, permeia esses conflitos e mostra como as coisas podem ser vistas de pontos divergentes. Uma Cuba que assegurava uma mudança significativa para as próximas décadas. Um filme que tem um importante valor documental para que não se deixe escapar que toda mudança brusca é sim bastante polêmica, transformadora e a luz não vira escuridão, a noite não vira dia de uma hora para outra. A bruma estará presente, os raios de sol que despertam o dia ou tingem a obsuridade da noite são graduais e conflituosos. De Certa Maneira é sobre isso.
| Casal Yolanda e Mario, em discussão pelas ruas de Havana |
É importante ressaltar que, com a Revolução em 1959, muitas pessoas foram readequadas de espaços urbanos. Prédios históricos eram demolidos em razão de que a considerada marginalidade ali prosperava. Novas habitações eram providenciadas pelo governo, em novos prédios ou bairros planejados, também procurando diminuir o volume desproporcional e preocupante das favelas. A relação das pessoas com seus novos bairros, serviços e vizinhos obviamente contribui para essa panela fervente entre sangues africano, europeu e latino.