12/12/2019

astro maior (a carolina maria de jesus)

um nascer e se por
lá no canto do condor
lá no canto do cordel
figura fiel
vai voltar se for
lá no céu a fitar
astro maior

nome de poema

tem que dar nome ao poema
ah tá
isabela
franciele
invente alguma maria helena
tem que dar nome
ao poema
o cachorro existe
kika ou zibi
quadrúpede e sem vestes
logo vistes
sem nome e menos problemas
contra a fome
o pobre luta ao que lhe some
salário menos que o mínimo
a ver se consome
e ainda tem que pensar
em nome de poema
e o governo pensa
em são paulo a merenda
bolsa cortada
fonte de renda
nos jornais nada
veja e entenda
praticidade, televenda
alô, é da casa do...
caiu a ligação na vivenda
demoro pouco mais que repentista
decepciono a telefonista
que viu meu nome na lista
e eu desligo, desabrigo
um zero onze, um zero vinte e um
outro algum
algum outro passando sufoco
pra cumprir meta de venda
governo pensa nome
de projeto e de emenda
e não cumpre
eu cumpro
e não penso em nome
de poema

patrono

sono, patrono máximo
de meu humor
bono, o que é bono?
por acaso ácido
meu rumor
trono
reis e rainhas
eu e você
meu amor

tylenol gotas

poesia sem melancolia
noite sem dia
dia sem sol
caixas, cápsulas, válvulas
coristina
rivotril
dipirona
tylenol
onde chegou a vida
viu o que te deu
ou a vida te tirou

08/12/2019

venceslau

eu tenho uma namorada em novo hamburgo
ela deve estar com os namorados dela
eu tenho uma janela de frente pro tumulto
ali eu sepulto uma ou outra ideia

eu tenho pensado na minha família lá nos burgos
por fora e tão pobres camponeses
na américa a imaginar um outro futuro
com o nome mais vagabundo dos poloneses

venceslau
venceslau
venceslau

eu tenho uma paixão por rock gaúcho
escrevo umas letras qualquer
e ponho no fluxo
se ficar um pouco melhor
já serve pra forrar o bucho
não precisa grandes coisa
pro rock gaúcho

eu tenho uma madrugada em outro fluxo
a cardia acelerada e o comprometer
de outros músculos
eu tenho uma janela pra outro mundo
lá estamos eu e ela em
königsberg

minha tia-avó acreditava numa herança
na alemanha
talvez fosse a maior esperança dela
dos meus sonhos de criança
não sei quais estou à espera
eu queria ainda acreditar
na primavera

venceslau
venceslau
venceslau

01/12/2019

outras bastilhas

dedilha e dedilha este violão
que vamos derrubar outras bastilhas
aceite a pastilha da minha mão
que tirei de dentro da vasilha

minha mãe fez cirurgia em outro verão
e retirou a sua vesícula
em nome das rimas pela perfeição
improviso rimas ridículas

me acostumei que a polícia faz o que quiser
reclamar para quem e para quê?
dedilha e dedilha este violão
que vamos derrubar outro batalhão

quem policia a polícia?
que se disfarça travestida de milícia
quem policia a Melissa?
minha gata sai de trás das hortaliças

quem policia a missa?
ou o que ocorre atrás dela
longe do alcance de qualquer janela
atos e chances de qualquer premissa


26/11/2019

4 paredes

suas quatro paredes
minha sêde
minha séde?
sê-de minha

minha fonte
assim defronte
ou onde
te escondes
me escondes

suas quatro paredes
volto a elas
me recosto
mexo as letras
suas mechas
deixa dedos
deixa medos
do lado de fora

de suas quatro paredes
pinta comigo
primeira e segunda mão
lê-de meus sinais
não meça os quais
não fazem parte
de nossos rituais

de nossas quatro paredes
me adono
suas pernas em coroa
meu trono
adorno e horkheimer
ai-me
a minha alma
armada e apontada
a minha arma
amada e apontada

no escuro sou cego
no escuro sossego
no escuro me curo
me curvo
no escuro
de suas paredes

rente a elas e rentável
ágil o agir
entre o viável
e o invisível
o que está ali
e o imensurável
o que todos sabem
não mencionável

entre as quatro paredes
maybe in made
made in maybe
sure, no shame
barco e leme
lambe em lazy
entre as quatro paredes

cavidades
epidermes
novidades
e até germes
há de ser-de
sermos não ermos
corpo em ésse
letra de seremos

entre quatro paredes
o átrio batendo
o conjunto povoa
esse tudo
que é quarto
e primeiro
para a escolha
dos atos

24/11/2019

globo ocular

deixa eu girar
teu mundo
teu país
teus quadris
e
ha!
teu globo ocular

aliens exist

racing club de avellaneda
nos fones rancid
camisa "resist"
aliens of course exist
e mais nada

folhas de almaço

morro humano a cada dia
fica o artista
a cada transa a poesia erótica
me cresce e me brota
como os membros, tuas fronhas
me sufoca
devaneios, o que se sonha
me sufoca
me conjunta e me une
a ilhota
me mantém vivo, mil antídotos
para a carne antes morta
mezanino onde flutuo
mientras uma juventude senil
entra aqui ou me abre
tua porta
braços, mãos e maços
folhas de almaço
preenchimento poliglota
je parti e tois aussi
foi-se a frota
a espera é um porto
a vida vai e o vento sopra

06/11/2019

a bomba

Fui um dos primeiros a chegar nos bancos que cercam as plataformas de embarque e desembarque da movimentada rodoviária. O ritmo das capitais. Pousei minhas bagagens ao chão, no equilíbrio de minhas canelas para não tombarem e ao mesmo tempo tomando o cuidado para que não tombassem para frente. Mochilas abarrotadas de coisas dificultosamente colocadas e que me fizeram agradecer por ceder a nenhuma pressão interna de compra nas feiras ambulantes. Os tesouros dos briques à beira do parque em ótimas peças de artesanato ou imitando as principais artes do mundo da música pop e do rock. Como comprei nada dos interessantes materiais, foi possível alojar meus pertences em estreitos e disputados espaços.

Enquanto verificava o sobrepeso que me livrava das costas ao poder sentar-me com as bagagens no solo, notei a movimentação peculiar de um outro futuro passageiro. Também alocado para os desconfortáveis bancos de madeira, ele partiu em direção à plataforma de concreto onde os ônibus param, vão e vem, e pousou uma mochila preta por ali. Despreocupado em sua pose marrenta de óculos escuros, ele retomou sua posição original em recuo da plataforma rumo aos bancos. Observei-o de canto de olho, sem dar bandeira, sem despertar alarde. Fingindo tamanha despreocupação como ele devia estar fingindo, pois logo veio-me à tona o motivo da sequência de atos do homem: é uma bomba.

Olhei para o lado se mais alguém teria notado a tal petulância. Logo na rodoviária, em um domingo, em dia tão movimentado. O recuo dele para fumar um cigarro e depois sumir em direção à área de comércios e restaurantes da rodoviária não deixou-me sequer sombra de dúvida: era um terrorista. Como cresciam os tipos de atentado naquela época, a Europa vinha em polvorosa com tais acontecimentos. Museus e prédios franceses, descontrole dos metrôs aos centros históricos da Espanha, de Madrid a Barcelona. A Alemanha dava pronunciamentos para evitar surpresa sobre. Os Estados Unidos que nunca haviam superado o atentado contra Nova York em 2001. Todos esses países ocidentais servindo de exemplo e quintal para o que iria acontecer ainda naquela tarde.

A cena cinematográfica estava feita, o sol a brilhar de fundo, a mergulhar defronte às lentes amareladas de meus óculos escuros. Eu seria tão suspeito quanto ele. Inclusive uma de minhas mochilas, a preta, se assemelhava demasiadamente à depositada pelo farsante, pelo vigário. Maldito seja. Pensei em acometer-me contra os demais cidadãos. Esbofetear rostos de maneira incrédula e obrigar-lhes a abrir os olhos: "como não viram esse criminoso agir! bem diante de vocês!". Exclamar-lhes, fazer o maior alarido que me fosse possível.

Eu que já havia àquela altura e naquele ano pensado em tirar minha própria vida, muito me aborreceria terminá-la assim à beira de uma plataforma rodoviária, vítima de uma tragédia de âmbito nacional pelo número de mortos e mundial pela audácia do autor. Certamente aquela mochila preta reservava um dispositivo interligado a um disparador que o meliante executaria a uma distância segura. Disfarçado ele com seus óculos escuros para perder-se na multidão e nos caminhos sinuosos da metrópole rumo ao oeste da cidade para escapar pelo interior. Agora que ele havia sumido da vista eu nada poderia fazer. Será que serviria de mártir? Será que só eu havia percebido a ação criminosa? Será que se eu escapasse, recuando para longe dos estilhaços da bomba, seria suspeitado nas investigações por passar características vagas e imprecisas sobre o autor? Mas para que precisariam de mim, se as câmeras de segurança registraram tudo? Se é que registraram.

O tempo estava acabando, os ônibus do horário das 16 horas estavam começando a encostar no destino de recolher passageiros. Certamente programou para a hora do embarque, quando os motoristas estão conferindo os bilhetes e as demais malas estão ali para formar uma salada de opções confusas para se entender o motivo do estrago. O suor me escorria pela testa e pelo lombo; se eu saísse dessa, teria a obrigação de dar um jeito de trocar de roupa dentro do ônibus. Mas que ônibus e que futuro? Seriam mais atingidos os passageiros de minha cidade ou daquela serrana? Como sairiam nas estatísticas? A comoção nas rádios e telejornais locais. A imprensa internacional e as agências de notícias rumo ao contato, a dificuldade do idioma. As entrevistas sensacionalistas e emocionadas. Tudo isso com meu aval, minha cumplicidade, minha ineficácia em como combater. Cansei.

Me levantei para tomar uma atitude a respeito, os passageiros se aproximavam e eu não podia mais deixar daquele jeito. Poderia salvar vidas e ser reconhecido com medalhas de honra no mais puro e singelo heroísmo. Calcei-me de coragem e pus-me de pé. Não mais via de canto, mas ouvi de canto uma voz que se aproximou para junto de um senhor baixinho que sentado esperava, as pernas curtas que mal deixavam os pés alcançarem o chão enquanto as balançava. Senhor negro de barba e cabelos que restavam bastantes grisalhos.

Qual não foi a minha surpresa em reparar, agora sim de olhos, que aquela voz era advinda do delinquente de meia idade e óculos escuros. O patife estava regresso. "Um real pelo banheiro da rodoviária! Mas pela dor de barriga que tive valeu cada centavo. Obrigado por cuidar da mala" e aliviado dirigiu-se para sua bagagem e para o embarque. Ao menos o ônibus não era o mesmo que o meu.

esse motivo

enquanto eu penso no mundo
quem é que faz minha janta?
enquanto eu penso no mundo
quem é que faz minha janta?

queria ter tempo de ler, ver e escrever [um pouco]
para me sentir mais vivo
ou ao menos, menos morto
brindar-me com mais atrativos
uma taça de vidro de um líquido choco

queria ter tempo de ter você e você [mais um pouco]
para me sentir mais vivo
ou ao menos, menos morto
brindar-me com todos os seus sentidos
entre o alívio e o sufoco

como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo
como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo

como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo
como é que eu vou matar esse motivo?
se é com ele que assim estou vivo


*escrita em 06 de novembro de 2019 - pós apresentação de Gustavo Kaly e Wander Wildner na TVE RS*

turbilhões

um turbilhão de pensamentos
nem dá tempo de passar ao papel
tem dias que nada me vem
em outros vou infinito ao céu

tem dias que ninguém me dá bola
e dias que vocês se combinam
exercício da paranoia
não saio desse labirinto

um turbilhão de momentos
que se atropelam e disputam o meu tempo
quero fugir desse conflito
ficar em paz como supremo sentimento

o trânsito não te permite
é o apetite nunca saciado
meu tempo livre quero meu levite
acima desse mundo tresloucado

um turbilhão de turbilhões
turbilhão é uma palavra feia
turbilhões turbinados
turbilhões estrangeiros na minha aldeia
que perturbam o meu sossego
e me fazem ir além
perturbam como medos
me fazem ser outro alguém


*escrita em 06 de novembro de 2019 - pós apresentação de Gustavo Kaly e Wander Wildner na TVE RS*

03/11/2019

paranoia rodoviária

Eu esperava ali sozinho na rodoviária. Os ônibus do horário anterior haviam recém partido e os bancos se encontravam vazios à beira da plataforma de concreto, a área destinada ao vai e vem dos transportes coletivos. Sentei-me de frente para onde eu embarcaria mais de hora depois. Não eram estruturas confortáveis, o que deixava claro que os utilizadores costumam chegar ali somente minutos antes do derradeiro embarque. Mas considerava aquele um espaço seguro e não queria mais me acomodar com as pesadas bagagens, compostas por duas mochilas, em outros cantos. Ali estava de bom tamanho.

Miscelânea de pessoas por vir. De diferentes localidades, interior ou demais capitais, indo a trabalho ou voltando para casa. Visitas, festividades, enterros, diferentes motivações para se deslocar em tempos de passagens caras. Lembro quando eu pagava cerca de 50 reais para estar ali. Agora eram quase 90. Tudo isso em um combo de poucos anos. Quem dobrou salário nesse período? Envolto em pensamentos distantes, talvez mais além do que a trajetória daqueles ônibus, distraía-me com o desenroscar dos fones de ouvido para em seguida plugá-los ao celular e colocá-los como transmissores de meus temas musicais previamente e minuciosamente selecionados. Ênfase nos artistas que eu recém havia escutado em viagem com o intuito de vê-los e isso eu havia cumprido. Visitei e conheci pessoas e outras tantas que não me foram possíveis ver por contratempos delas ou impossibilidades ou mesmo por - mea culpa - não tê-las colocado em prioridade para possíveis encontros. Bola doravante.

Surge-me em periférico campo de visão a imagem de uma bela moça, dos atributos físicos que costumam me atrair. Características gerais devidamente observadas nessa olhadela de fração de segundo. Ao tomar consciência do panorama em volta, há uma maior ocupação dos lugares em relação ao período anterior de minha chegada, obviamente. Bom nível de preenchimento, a superar os 50% dos arredores do box 4, de onde partiria meu ônibus. Ainda entretido com as atrações musicais direcionadas aos meus ouvidos para transmissão direta ao sistema nervoso central, passei a considerá-la parte de minhas distrações. Imaginar idade, procedência e principalmente: estado civil.

Em outra das olhadelas - talvez a terceira ou quarta - observo que ela está conversando com alguém. Pago o preço pela demora em agir. O caríssimo custo de não tomar uma atitude antes, de apenas observar de canto de olho, sem estabelecer um contato visual que poderia resultar até em minha migração, bancos ao lado, em direção a ela para ligar assuntos. A dúvida entre começar genérico nas habituais conversas desenvolvidas desde que a linguagem é assim linguagem, só observar nos filmes antigos ou mesmo no que é empregado em livros de séculos anteriores. Olá, tudo bem, como está, vai para onde, a que veio, a que vai, interessante. Ou quem sabe investir em algo mais dinâmico mas que pode assustar as pessoas. É sempre uma dúvida ponderável.

Iniciar diretamente a conversa sobre seus gostos musicais, sobre para quem foi seu voto na eleição passada, se possui outras referências políticas ativistas, o que costuma ler, o que gosta de fazer no tempo livre, qual o sabor favorito de sorvete, se come ou não come carne, se conhece mais do mapa da cidade que sempre me interessa saber mais a respeito, de onde seriam suas raízes e gostaria muito, muito, muito mesmo de conhecer suas origens em nome e sobrenome. Calma, respira, não vai acontecer. Não há porque manter esse desgaste. Estava recém voltando dessa subida, dessa ascensão em aproveitar viagem em terras parcialmente desconhecidas. Uma hora se volta e, voltando para casa, outras aventuras desenvolvem-se, não é mesmo? Mesmo assim há o incômodo. Antes ela não estava conversando e agora está. Com quem está? Não interessa, foi perdida a oportunidade. Por ordem de chegada poderia ser sua esta chance. Nisso concorda? Concordo.

Alguém tomou o lugar na janela. Inclusive minha poltrona dessa viagem era no corredor, por comprar mais em cima da hora e fugir da classe executiva que tornaria a viagem ampliadamente cara, para acima dos 120 reais. Um assalto em transporte, praticamente um sequestro para voltar para minha cidade. Enfim, tomado de assalto fui naquela situação, evidentemente, pois alguém roubou meu lugar, o lugar no banquinho desconfortável de madeira ao lado da donzela. O preço de migrar chamando a atenção dos demais ocupantes à beira da plataforma para dirigir minhas mochilas para mal acomodar-me em outro banco duro de madeira com encostos de ferro aos braços, mas tudo isso com o intuito e conhecer aquele misterioso sotaque, quem sabe do noroeste do estado, terra das mulheres mais bonitas do mundo, segundo me constam pesquisas, conhecer olfativamente aquele perfume entre pescoço e cabelos, sem importar-se com a marca do shampoo ou da loção. Sem noção, divagava assim por pensamentos, mas ao mesmo tempo conhecedor do retrato da derrota. Não fui enquanto era tempo e alguém tomou-me esse espaço. Raios. Raios duplos e até triplos. Poderia ali estar um futuro relacionamento, um novo objetivo de viagem, uma perda de tempo virtual, no mínimo dos mínimos, era válido arriscar.

As olhadas de canto, o máximo que encarei nessa tríade contada, formavam uma imagem mentalizada pelo cérebro de que valeria a pena investir. Agora ela encontrara alguém para o resto de sua vida. De certo pegariam o mesmo ônibus e esse os confirmaria no caminho não só da mesma cidade, mas iriam pela estrada da felicidade. Desceriam na próxima estação rodoviária casados, com nomes escolhidos aos filhos e alianças medidas para serem compradas e trocadas e claro que aceito, pode beijar a noiva. Tudo bem, faz parte, segue-se para outra via. Afinal, eles estão mais próximos do box 2 e o meu destino reservava o box 4. Do ponto congruente que nos uniu em horário e local, era a sequência vital nos levando cada um para um canto e jamais daria certo. Abatimento, mas aceitação. Que eles fossem felizes. Quase um abrupto intuito de levantar-me para assim desejar ao mais novo casal. Talvez constrange-los evocando algum canto brega e ridículo como "com quem será?". Mas sequer sei os seus nomes. Não saber sequer os nomes é irritante. A idade, se prefere gato ou cão, chocolate ou morango ou baunilha ou creme, o signo, a cor favorita são questões irrelevantes quando não se sabe sequer que nome foi encerrado na cova e na gaveta do inacessível passado, inevitavelmente deixado para além das possibilidades futuras.

Somente quando o horário já estava sendo finalmente preenchido para nossos ônibus encostarem, os motoristas descerem e conferirem as passagens, é que pude observar a moça mais de perto. A poucos metros dela, urge-me a derradeira e fatídica surpresa: acompanhada estava a de cabelos escuros pela sua própria mãe. O exercício da paranoia rodoviária.

juliet

sonhei que você se debruçava em mim
só pra confirmar que eu queria
assim
sonhei que você me servia gim
só pra confirmar que eu queria
gim

sonho seu sorriso nervoso
como ele é
ruidoso dentro da minha mente
impreciso do motivo
do que você quer

sonho seu sorriso arbitrário
nada é páreo para ele
implacável e sem placas bacterianas
dentes brancos
laudos odontológicos
a mais bela criatura
do nosso zoológico
a fissura que me causa
e me deixa em chamas
e mexe com meus diagnósticos
neurológicos

sonhei que você se debruçava em mim
só pra confirmar que eu queria
assim
sonhei que você me servia gim
só pra confirmar que eu queria
sim

sonho seu sorriso
último passo do abismo
intrusivo que me submeteu
sonhos e paraísos
algo a mais que juliets e romeus
além do éden de cobras e maçãs
e de tudo aquilo que já se rompeu
sou o et do particípio
do verbo não vencido, carente e ateu

sonho seu sorriso subjetivo
me alegra poder ser esse motivo
em um gerativismo
seu sorriso forma o meu
Deus morreu
e o próximo sou eu

sonhei que você se debruçava em mim
só pra confirmar que eu queria
assim
sonhei que você me servia gim
só pra confirmar que eu queria
sim

02/11/2019

entre milhões de views e milhões de ninguém viu

Passeando pelo Google Street View e descobrindo algumas das cidades mais famosas do mundo nos Estados Unidos. Entre as impressões que me chegam está a de que lá tudo é muito distante para desenvolver caminhadas. São cidades planejadas para os carros. Ruas largas e impecavelmente asfaltadas, mesmo os becos ou desvios para lugar nenhum: há por lá o asfalto, o tapete ao desfile das quatro rodas de cada um.

Os cenários urbanos se desenvolvem nesse sentido. A horizontalidade de cidades segue esse guia de vias que no Brasil incentivariam os mais perigosos rachas. Não à toa roda-se e desperta-se o desejo de sagas como Velozes e Furiosos. Cada cidade por lá apresenta características adequadas para o exibicionismo da alta velocidade e tecnologia automotora.

No meu cenário muito mais pedestre e transeunte, imagino o forte calor dessa quantidade asfáltica. Noto a presença das calçadas e de terrenos baldios ou desocupados de imóveis também repletos de concreto. Há árvores nessas cidades mais sulistas, mas são vegetações mais baixas e características dos desertos, ou seja, a sombra não é convidativa. Chega a causar inveja aos sertões do Nordeste de brasilis, descritos pelo carioca Euclides da Cunha.

Lá nos EUA pode-se iniciar a vida de condutor mais cedo do que no Brasil, em licença para dirigir logo aos 16 anos. Um carro para cima e para baixo em direção aos fast foods, lojas, hotéis, festas e diferentes paisagens. O país que, antes colônia da Inglaterra e pós esse processo colonizou quase que o mundo todo, exporta esse meio de sonhos de consumo e de formas de administrar cidades. Com o calor dos asfaltos, com o incentivo de vendas mais baratas de carros e combustíveis, a carta para dirigir retirada na adolescência, a publicidade e outros estabelecimentos como as vendas de comida em lanches fazem os Estados Unidos brigarem contra a balança. Se o braço forte do capitalismo vence e coloca qualquer braço oponente direto na lona nas quedas, a balança mostra panorama da luta do país contra o sobrepeso de sua população. Perspectiva preocupante.

Outro ponto que me chamou atenção foi da situação da rica Califórnia, sozinha maior do que o PIB de quase todos os países do mundo e maior do que o PIB de uns quantos somados juntos, aglutinados; essa Califórnia que é fronteiriça com o México, ainda sem a oficialização de um muro trumpeano, mas que revela problemas que nos passam despercebidos sobre as crueldades das garras capitalistas. Ali em fronteira com essa Califórnia está a deepweb, está a obscuridade, o poder do tráfico. A cidade de Tijuana lidera ranking de 2018 sobre o atlas da violência mundial, atualizando homicídios. O México vive maus dias no combate ao teor violento de suas gangues e domínios de pontos. Uma rápida passada pelas ruas de Tijuana deixa claro como o sistema funciona por lá. Pichações que indicam a quem pertence a área e costumeiras casas como as que aparecem nos filmes dos lugares mais desérticos e áridos dos EUA, ou da própria fronteira ou lado mexicano. Possíveis bocas ou pontos de traficar, lugares suspeitos, casas apertadas, ruas hostis. Mesmo assim se distribui novamente o foco inicial que trouxe aqui, o asfalto como meio de escape. Bom para transportar droga ou fugir em perseguições, como a vida imita a arte; a ficção na realidade. Seja de Tijuana ou de outra cidade de comum geografia, espanta a proximidade com os estilos de vida badalados das conhecidas San Diego, Los Angeles, San Francisco e outras potências turísticas e atrativas da milionária Califórnia. Subúrbios a eles; trevas ao lado da ostentação. A própria megalomaníaca gigantesca cidade de Los Angeles convive com isso, os infortúnios da presença de gangues, migrantes, comércios ilegais, violência e crime, trabalhos a IML na calada da noite, vizinhos que nada sabem e nada viram.

Entre milhões de views e milhões de ninguém viu.

25/10/2019

correndo por correr

Demorei a aceitar a ideia de que as pessoas não são obrigadas a gostar de mim. Ou ao menos gostar de mim de uma maneira destacante, como prioridade em relação a outras. Portas estreitas em um mundo concorrido. Concorrido de apertados horários. Hoje pouco me sobra de tempo no cotidiano, além dos estudos e trabalho. Termino noites entre leituras e cinema caseiro. Algumas conversas virtuais e a preparação para o dia seguinte; cíclico.

Entendo melhor o estreitamento na existência das chamadas horas de lazer. Dias de lazer mais raros ainda. Conversava em outro momento sobre trabalhar 200 e aproveitar uns 7 em alguma viagem; tendência.

Compromissos. Tive poucos em infância e juventude de uma vida retilínea de poder estudar e até em boa escola para seguir ao mundo universitário. Cursar o que sempre quis, uma estrada tão reta quanto o sul de Porto Alegre apresenta em direção ao Uruguai. Poucos deslizes, poucas curvas, poucos desvios. Poucas atividades extras. Pouca coisa para ter afinidade ou interesse. E isso segue, também, vá lá, com as pessoas. Pouca afinidade ou interesse. Poucos mergulhos, águas mais turvas do que o Laranjal, onde por vezes são descobertos jacarés e outros animais exoticamente perigosos a banhistas, além dos conteúdos duvidosos, propriedades ao banho de laguna e etc.

Compromissos eram o tópico. Não me atenho muito a eles. São minha versão de rejeitar os verdes no prato de quando se é criança. Não tive problema com os verdes no prato. Tenho com os compromissos. Fico na minha em stand by o máximo possível. Faca de dois gumes entre mirar a paz e o sossego e sentir-se pouco prestativo e presenciando pouco, aquém da vida. Balança e gangorra entre vida e sobrevivência. Demoro mais horas para carregar em casa do que a maioria dos celulares. Reservo-me à introspecção o máximo possível; preciso dela.

Saio porta afora e logo retorno. O celular de vocês hiberna ou clama bateria para evitar esse sono profundo. Eu também preciso de uma parede para me recarregar. Sentado ao canto, preso paralelamente solitário. E é preciso entender que tudo bem, que é o que se pode fazer, é o que se pode ser feito. Mediante toda essa desistência de tempo em reclusão sobra-me menos para o fôlego das horas em sociedade. Difícil conciliá-las: quando podes e quando queres? Desgaste.

Há muitas pessoas semelhantes no dia a dia. De repente te elogiam por ter uma formação nisso ou naquilo, mas a concorrência também tem; ou tem outra formação interessante. Currículos e lattes. Você pode ser bom em malabarismo, sinuca ou tocar guitarra. E usar essas habilidades como um primata se exibindo, o que não me atrai muito. Mas é assim por aí, em busca de diferenciais e ranking e valer a pena; e valer o tempo. A internet amplia o leque de opções e pode-se resolver ou ao menos encaminhar as coisas por ela. Redes sociais e sites de relacionamento. Pessoas expostas em vitrines. Sou muito detalhista e reprovo muitos comportamentos. Reprovo mais do que aprovo, é um problema grave. Onde e como se encaixar nisso tudo e será que tenho interesse em fazer parte? Devo ter, pois estou tecendo linhas sobre isso, enquanto poderia estar assistindo ao documentário Edifício Master, que acredito estar disponível no Youtube. Se estiver, assistam, é um dos melhores nacionais da história.

Mas como se encaixar nisso tudo negando equipamentos, performances e regras gerais socialmente estabelecidas? É como se um piloto de automobilismo quisesse concorrer com seu carro ultrapassado por não se enquadrar nas novas legislações. Ele não terá condições. Enquadre-se ou seja eliminado. Eu poderia fechar o braço de tatuagens só por fechar, porque achariam bonito, mas não seria eu. Que caminhos e escolhas valem a pena se são quase irreversíveis dessa maneira? Mas a morte, a própria morte, nesse contexto, é irreversível.

Trilhas de andarilho fazem-me bem. Descobri recentemente uma música do Wander Wildner e encerrarei por aqui mesmo sabendo que eu não disse tudo, mas que disse alguma coisa. Não preencheremos nossas vidas vazias no mesmo espaço de tempo e lugar em que esvaziaremos garrafas. Eu não disse tudo, mas ele, nesse vídeo que corre aqui abaixo, disse algo. Até a próxima.





22/10/2019

a perda do ônibus (Babylon By Bus)

Surge nas postagens da corriqueira internet uma mensagem sobre o desafio de encontrar momento ou situação mais triste do que a perda do ônibus. O cidadão esforçado em correr rumo ao ponto de embarque e perder o seu único transporte possível, quitado pelo auxílio-transporte da empresa ou com seu contado dinheirinho, ou com o crédito que precisou recuperar em alguma das casas de câmbio. A pessoa encarna o atletismo dos principais nomes do esporte mundial, recorre da forma como lhe é possível, técnica abaixo dos aprendizes da modalidade que muito erguem os joelhos e movimentam sistematicamente os braços, na dinâmica ou aerodinâmica que lhes é possível.

Tanto esforço em vão dói de diversas formas, enforca o tempo passado, quando se retorna na memória para uma cochilada anterior. Poderia ter fechado as pesadas cortinas de ferro da loja mais cedo, aquele trabalhão para a coluna de cima a baixo, quando precisa encaixar precisamente a estrutura ao solo. Poderia ter feito de maneira mais breve ou nem ter feito aquela ligação que custou dois a três minutos e consequentemente custou o embarque no gigante movido a biodiesel. Poderia não ter perdido tempo com aquele affair que trabalha contigo e nem te nota, mas que arriscou uma puxada de assunto entre sonhos do que não ocorre. Poderia não ter aberto mais uma ou outra aba no computador do serviço, um vídeo a mais, uma receita de bolo, uma conversa no Facebook. Poderia.

E tudo culmina, o humor do dia entra em ápice para nivelar para cima ou para baixo naquela corrida, travessia desengonçada, no perigo dos trânsitos da avenida que afastava da parada e do destino em pé final, pois só queria um banquinho, mesmo de canto, mesmo desagradando uma prévia escolha, para sentar-se no ônibus. Mas isso é negado. O esforço, o suor que brota, o vencimento precoce do desodorante passado ao início do expediente, tudo isso posto à prova para uma missão inconclusa, uma derrota vexatória. Outros saindo de seus serviços, alguns passando em seus carros, uns transeuntes despreocupados, quem sabe já passeando com seus cachorros ou rumo a jantares em restaurantes, todos o observam, seu cair de joelhos em revés doloroso.

O motorista que viu-o ou não? Se viu, que o inferno o aguarde, mas, caso não viu, será que faltaram poucos metros para entrar em um campo de visão que mudaria toda a história, todo o roteiro, agora tão triste, tão pesado, tão massacrante, a derrota a mais, a gota que transborda o copo, que entope o boeiro do cotidiano, além daquelas contas vencidas, daquelas conversas em vão, daquela vida mais ou menos mesmo que acertasse o horário do bus e agora nem isso. Da companheira ou do companheiro de serviço quem nem o nota ou apenas o faz perder tempo. Tempo, tempo, tempo que atrasa a janta, que atrasa a limpeza do apartamento, que é desespero para o filho que nota o responsável zeloso e carinhoso ausente. Que faz o animal de estimação esperar mais um pouco. Tempo que vai esperar na parada, agora restabelecendo o penteado com gestos da mão em forma de pente, verificando as axilas e se houve manchas na camisa pelo esporte obrigatoriamente praticado em vão. A corrida sem medalha de mérito, a disfarçada logo em seguida, para verificar que os que encerravam o expediente também já se foram para outras paradas, rumo a suas casas, ou entraram em seus carros ou mesmo a pé sumiram; os passeadores já estão com seus cachorros a procurar novos postes, hidrantes ou placas; os demais já estão a folhear menus rumo a seus jantares e tantos outros nem recordarão da cena, apenas ele. Tão ele ali que tem apenas a si mesmo e não mais aquele ônibus fugitivo, mas à espera do próximo. Ainda pela mesma noite desenhada e na espera pelo acerto e pela antecipação vangloriosas do próximo dia, no prazer das pequenas vitórias e de conquistar pequenos troféus imaginários no manicômio a céu aberto.

21/10/2019

Sudoku

quando no violão dedilha
minha vida muito menos ilha
quando no violão dedilha
acordo as cordas e essas novas linhas
acordo as cordas e essas novelinhas

quando no violão dedilho
minha vida muito mais andarilho
quando no violão dedilho
mudo as cores e os brilhos
mudo o ritmo dos seus cílios

pensando nos nossos trilhos
pensando nos nossos filtros
pensando nos nossos trilhos
pensando nos nossos filtros

Sudamérica em colapso
e eu nem ao menos
um Sudoku que tomamos
nos seus braços
nós condenados
das ciências entre humanos

12/10/2019

poema enquanto cagava

celebrando cada pequena vitória sofrendo cada pequena derrota vivendo intensamente a história sentindo cada mudança de rota

10/10/2019

chapéu de hincha

não aguento + essa avenida passam caminhões muito pesados tentam os carros rebaixados arrastados que nem a minha vida não aguento + esse mundo passam caminhoneiros drogados logo vem os carros rebaixados eles batem o fundo

com meu chapéu de hinchaaaaaaaaaaaaaaa você é minha última fichaaaaa com meu chapéu de hinchaaaaaaaaaaaaaaa você é minha última fichaaaaa

não aguento + esse bairro
ele era tudo que eu tinha
agora toda vez que eu saio
era a náusea que me cobria

não aguento + essa vizinha
ela tem voz de buzina
o marido é miliciano
preso no Paraguai faz uns anos
queria que fosse preso de novo
queria que fosse preso de novo
queria que fosse preso de novo

com meu chapéu de hinchaaaaaaaaaaaaaaa você é minha última fichaaaaa com meu chapéu de hinchaaaaaaaaaaaaaaa você é minha última fichaaaaa

06/10/2019

separações II

"Concebendo a liberdade como o aumento das necessidades e sua pronta satisfação, alteram-lhes a natureza, porque fazem nascer neles uma multidão de desejos insensatos, de hábitos e imaginações absurdos. Não vivem senão para invejar-se mutuamente, para a sensualidade e a ostentação. Dar jantares, viajar, possuir carruagens, cargos, lacaios, passa tudo como uma necessidade à qual se sacrifica até sua vida, sua honra e o amor à humanidade, matarão-se mesmo, na impossibilidade de satisfazê-la. O mesmo ocorre entre aqueles que são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são no momento afogadas na embriaguez. Mas em breve, em lugar de vinho, embriagar-se-ão de sangue, é o fim para que os conduzem. Dizei-me se tal homem é livre. Um 'campeão da ideia' contava-me que, estando na prisão, privaram-no de fumo e que essa privação lhe foi tão penosa que quase traiu sua ideia para obtê-lo. Ora, esse indivíduo pretendia lutar pela humanidade. De que pode ser ele capaz? Quando muito dum esforço momentâneo, que não sustentará por muito tempo. Nada de admirar que os homens tenham encontrado sua servitude em lugar da liberdade, e que em lugar de servir à fraternidade e à união, tenham caído na desunião e na solidão, como mo dizia outrora meu visitante misterioso e mestre. De modo que a ideia do devotamento à humanidade, da fraternidade e da solidariedade desaparece gradualmente do mundo; na realidade, acolhem-na mesmo com derrisão, porque como desfazer-se de seus hábitos, aonde irá aquele prisioneiro das necessidades inumeráveis que ele próprio inventou? Na solidão, preocupa-se muito pouco com a coletividade. Afinal de contas, os bens materiais aumentaram e a alegria diminuiu."

Fiodor Dostoievski em Os Irmãos Karamazov.

separações

"Porque, no presente, cada qual aspira a separar sua personalidade dos outros, quer gozar ele próprio a plenitude da vida; entretanto, todos esses esforços, longe de atingir o alvo, só resultam num suicídio total, porque, em lugar de afirmar plena- mente sua personalidade, caem numa solidão completa. Com efeito, neste século, todos se fracionaram em unidades, cada qual se isola no seu buraco, separa-se dos outros, oculta-se, ele e seus bens, afasta-se de seus semelhantes e os afasta de si. Amontoa riqueza sozinho, felicita-se pelo seu poder e pela sua opulência; ignora, o insensato; que, quanto mais amontoa, mais se enterra numa impotência fatal. Porque está habituado a só contar consigo mesmo e destacou-se da coletividade, acostumou-se a não crer na entreajuda, no seu próximo, na humanidade, e treme somente à idéia de perder sua fortuna e os direitos que ela lhe confere. Por toda parte, em nossos dias, o espírito humano começa ridiculamente a perder de vista que a verdadeira garantia do indivíduo consiste não no seu esforço pessoal isolado, mas na solidariedade."

Fiodor Dostoievski em Os Irmãos Karamazov.

04/10/2019

além de 2030

Um pouco de prosa. Parece que a cada derrota que admitimos em desistência já encaminhamos a próxima, em uma esteira de produção desmoralizante. Não tenho conseguido romper o ciclo e tão certeiro como é a presença do inverno a cada ano, contornando o abril, rumo a maio, junho e julho, parece a eminência de meu futuro colapso.

Tenho dito que a situação geral do país se encaminha a isso. Hoje o panorama é de um estado do Rio Grande do Sul que não paga seus funcionários estatais, a prefeitura municipal de minha cidade começou também a parcelar salários do funcionalismo, o que desencadeou nas primeiras greves e protestos. Pesquisas apontam retrocessos na luta pelo combate à pobreza e o aumento da desigualdade salarial. Ouvem-se as mais diversas asneiras e besteiras das vozes oficiais, dominadas pelos mais dantescos personagens estrupícios. O colapso do país é eminente.

Voltando ao meu, também assim me aproximo em um mar de lama envolto a todos os lados. Sem perspectivas. Estou cercado e meu cérebro não consegue vencer os contornos. A não aceitação de compromissos e horários, a antissocialidade, a perda de paciência facilmente, o fechar-me a meus gostos e espaços restritos, o depender e sofrer a solidão de uma forma bastante peculiar. Meus pensamentos e consequentes atitudes acarretam o que tenho vivido. Cada vez que tento romper e perfurar essa bolha, não tenho obtido êxito. Me distraio em função da música, procuro conhecer novos artistas. Tenho lido meus livros, mas em ritmos mais lentos do que eu consideraria possível. Me distraio e me atormento em aulas que não sei exatamente onde usarei, enquanto custam-me turnos inteiros pelas tardes.

Tenho até recursos para voltar a ter terapia. Porém, não gostaria de sacrificar o essencial descanso de minhas manhãs, pouco utilizadas nessa década desde a conclusão do ensino médio. Recentemente um amigo de suma importância em minha caminhada, mas de opinião instável, por ser bem afortunado e variar muito suas escolhas desde que o conheci, me intercedeu que a saúde era importante nesse ponto. Apenas rapidamente concordei e não desenvolvemos muito o assunto. Imagino que ele também tenha passado por umas ruins.

Eu tenho passado por umas ruins. Mas isso tem estendido um interminável tapete pelo tempo. Uma fase ruim interminável. Para quem veja de fora, pode notar pequenas ou maiores conquistas e pensar-me bem. Mas a verdade é que não tenho conseguido ir mais. Pareço estar ligado no automático em tarefas do dia a dia. Me questiono inclusive se isto é a vida. Se tantos passam por isso na classe mais média das médias, mas nada sentem dessa minha espessa camada de náusea cotidiana.

Empregos, caminhos para se sustentar, oportunidades abertas, semi-abertas ou destruídas ou destrutivas de quem embarca. Faixas etárias que acompanho ano após ano e tornam-se pais e tornam-se mães. Dos meus tempos de ensino público, incluso a universidade, estava acostumado. Mas convivas dos tempos de ensino particular também entrando para a paternidade. Esquisito. Como dissociar aquelas figuras mongolonas das que estão nesse presente rapidamente atingido pelas rajadas da transformação?

E eu encontro mais nada. Vejo as possibilidades e elas nada me dizem e a nada me levam. Tudo bastante distante e meritocraticamente muito trabalhoso. Histórias de superação mais me entediam do que me encorajam. Assim como frases motivacionais. Não consigo desencapar meus próprios fios rumo à essa motivação, que me cruza palpavelmente distante ao passo que se esfrega aos meus olhos nas mais diferentes plataformas alheias. Me canso. Procuro onde possa descansar enquanto as garras do capitalismo me aprisionam.

Descobri recentemente que universidades dos Estados Unidos possuíam anos sabáticos para professores com 7 anos trabalhados. Descansa um. Um inteiro. Um ano recebendo e aproveitando de forma a voltar depois. Enquanto isso as jornadas de trabalho são gradativamente aumentadas. A loja de departamentos do ser mais miserável [de alma] do país regulamenta em seu contrato que funcionários possam trabalhar domingos e feriados independente de compensações justas. O sindicato, também com seus interesses próprios, tenta intervir. As pessoas, implorantes por emprego, querem aceitar os termos desumanos e rasgadores das constituições lutadas através do trabalhismo. Ultrajante.

Afetam-me todas as áreas: o suporte do que será financeiro, o suporte moral e cidadão do mundo, o suporte afetivo das pessoas que tão pouco suporto e o suporte destituído de sentido para tanta loucura em tão insalubre sistema.

Pensei recentemente que me apetecem os anos da década que está por vir, na numerologia repetida do 2 - de 2020 a 2029 - e mesmo depois, algo me faz simpatizar nesses números. Que não seja apenas a subjetividade que me permita querer vivê-los. Preocupantemente me sinto um clube à beira do rebaixamento. Talvez algum dos catarinenses da temporada, entre Avaí e Chapecoense na Série A ou Figueirense em crise financeira na Série B. Procuraremos depois se algum conseguiu escapar. Julgo que não. Quanto a eles e a mim, em comum de que necessitamos/necessitaríamos de alguma mudança mais radical, algum FATO NOVO - como na linguagem do futebol muitas vezes aparece este termo. Tento me comunicar com quem vocês imploram. E a ele quase ajoelho-me nessa condição de ao menos querer entender melhor meu papel aqui. Seja agora ou para os próximos anos de 2020... 2030.

Na adolescência me preocupava em salvar o mundo e escrevi uma canção com as preocupações climáticas e ecológicas. Chama-se "Além de 2030". E agora, antes disso para ir além disso: quem e como me salvar do mundo que já pensamos em salvar?

peso do piano

pensei em me chapar de pó
pensei que tanto faz
mas eu tenho dois pais
nas farmácias ou nos becos
onde que se vende a paz?
com receita ou sem receita
cê aceita ou cê rejeita
se meto essa na cabeça
sei que é assim que começa
alguns dizem como termina
outros terminam-se antes
tomando essas medidas
geração dos calmantes metanfetamina afeta uma abundância ambulância equipada o lab a ter em casa e pensar toda essa coisa era só bomba de asma às vezes mente tá rasa às vezes tá transbordando todos sabem da sua cruz ou o peso do piano não era bem assim mas qualé o outro plano?


03/10/2019

em marte ou mais além

fico feliz que tu goste
do que ele poste
essa bengala, esse sustento
também são o meu suporte
termos em comum nosso rapper preferido
me dá a sensação de dividir
contigo o nosso abrigo
e vira o melhor lugar
e eu me viro uma versão melhor de mim mesmo
me sinto mais aceso com esse post
me sinto mais devido - divino
o que queres que eu te mostre?
das palavras do mestre vou fazendo minha balestra
fazendo meu suporte, fazendo minha palestra
se a fala tava pior agora tá melhor que essa
logo vai ser superada por aquela
na evolução um processo de antemão
que vou tentando
e se a brisa sintoniza
minha mensagem te avisa
vamo embora pra Ibiza 
vamo embora na crista dessa onda
eu sei que tu me sonda
minha frequência te equaliza
nesse comprimento de onda

faz as tuas rimas
me deixam pra cima
espero que sirvam
para deixá-la bem
faz a tua parte
faz a tua arte
me deixam em marte
ou black alien mais além

faz as tuas rimas
me deixam pra cima
espero que sirvam
para deixá-la bem
faz a tua parte
faz a tua arte
me deixam em marte
ou black alien mais além

sigo o trem
deve ser a luz do fim do túnel
contra tantas trevas
tentando ficar imune
nesse mundo hardcore
impune com os piores
e condena os melhores
com as dores da compaixão
parece até mentira
parece até folclore
tanto neguinho que morre
quando vê também já fores
efêmera das flores
fêmea das minhas dores
paleta das minhas cores
canciones tan tricolores
pores do sol ao teu lado
melhores os resultados
dos fins daquelas tardes
que seguem acontecendo
mas eu já não sou o mesmo
me desgasto pouco mais cedo
bandeira a meio mastro
navio segue em pedaços
à deriva na retina
nenhum sinal de terra à vista
visão que me piora
visão que me despista
utopia da ideologia
pirata da fantasia
tesouro não encontrado
número que foi mudado
segue o Gabo falando de morte
nas Colômbias lá do Norte
das índias de outros Colombos
outros tempos, novos tombos
ser humano vacilão
empolguei, falei demais
vai de novo do refrão [em vão]
[e vão]

faz as tuas rimas
me deixam pra cima
espero que sirvam
para deixá-la bem
faz a tua parte
faz a tua arte
me deixam em marte
ou black alien mais além

faz as tuas rimas
me deixam pra cima
espero que sirvam
para deixá-la bem
faz a tua parte
faz a tua arte
me deixam em marte
ou black alien mais além

velocidade cinco, velocidade seis

resiliência é a questão
que evita eu me jogar da ponte
tenho que estar atento
para que eu não apronte
falo um monte de besteira
mas também escrevo um monte
conte logo seus problemas
meu ouvido é um horizonte

aquilo que vou ouvindo
as linhas já vão fluindo
liga tipo vinho tinto
as telas que eu já pinto
são elas o meu trabalho
eu não sei o quanto eu valho
nesse jogo de quantificar
quantos ficam por aqui
quantos do lado de lá?
oportunidade a definir
o que vai nos separar

penso nos que ficam aqui
e penso nos que ficam lá
vezesimporta atravessar
fazer a ponte e unir
na transparência de quem não esconde
de quem usa o tempo e mostra onde
o lobby não é meu hobby
vez em quando ouço um reggae
vez em quando ouço um bob
às vezes robert plant
também tá com a gente
nesse zeppelin cruzando o céu
sobrevoa o hell
enquanto passa rola a caça
e as ideias que vão no papel

velocidade cinco, velocidade seis
troca a marcha
não se entrega de graça
antes de fim do mês
velocidade cinco, velocidade seis
segura as ponta, parça
me diz o que tu acha
não vou bolar sozinho
preciso de vocês

velocidade cinco, velocidade seis
troca a marcha
não se entrega de graça
antes de fim do mês
velocidade cinco, velocidade seis
segura as ponta, parça
me diz o que tu acha
não vou bolar sozinho
preciso de vocês

firmezinho
estilo vinho
fluindo e abrindo o caminho
no que há de melhor no português
rimas, métricas adeptas
com as leis ou sem
adaptando as técnicas
na tática e na estética
nas ideias sabáticas
que deram um tempo
e foram passear
e o importante é sair do lugar
entender o outro lado
pra fundamentar
e o resultado está, está más alla
Galeano mandou
então vou caminhar

velocidade cinco, velocidade seis
troca a marcha
não se entrega de graça
antes de fim do mês
velocidade cinco, velocidade seis
segura as ponta, parça
me diz o que tu acha
não vou bolar sozinho
preciso de vocês

velocidade cinco, velocidade seis
troca a marcha
não se entrega de graça
antes de fim do mês
velocidade cinco, velocidade seis
segura as ponta, parça
me diz o que tu acha
não vou bolar sozinho
preciso de vocês

02/10/2019

gritava

às vezes o poeta trava
a caneta acaba a tinta
não minta pois acontece
agora só escrevo a lápis
não grito mais com caps
gritava
uma vida finita envelhece

in-edito

tudo é inédito
e assustador
essa dor eu já senti
por outro amor
como que salva
o trauma na alma
do jeito que ficou?

se for fevereiro II

será que até o inferno
e o céu são passageiros?
ou nós que somos nesse ônibus
ônus na estação final
desembarque e tchau

se for fevereiro

será que até o céu
e o inferno são passageiros?
levo o chapéu se for frio
e o deixo se for fevereiro

tudo tão efêmero

tudo é tão efêmero
tudo é tão breve
me doe esse momento [eterno]
para que não me doa o tormento
enquanto o vento da efemeridade
não me leve [ao inferno]