11/02/2018

Dezembro em Imagens

Só um filete (Foto: Henrique König)

Humor (Foto: Henrique König)


No rádio e avante (Foto: Henrique König)

Laranjas (Foto: Henrique König)

Indignação (Foto: Henrique König)

Parceria (Foto: Henrique König)

Calor do cão (Foto: Henrique König)

Teias (Foto: Henrique König)


Azuis (Foto: Henrique König)

Cielo (Foto: Henrique König)

Papéis dobrados

Queria dormir o domingo após passar a madrugada chapando e falando bobagem na internet. São coisas que costumo fazer com moderação, mas acredito que passei um pouco dos limites. Inclusive dormir. Era para ter acordado bem mais cedo, mas acordei, após o almoço, só no meio da tarde.

Meus sonhos foram dos mais esquisitos. Estava caminhando nos Estados Unidos e lembrei que não falava inglês. Praticamente não falo inglês. Até leio, entendo algumas coisas em diálogos, mas falar é complicado. Então estava de bicicleta e ela não tinha freios. Imagina causar um acidente no trânsito dos Estados Unidos. Um maldito sul-americano ciclista. O que contribuiu com a economia, esse maldito? Eles iriam pensar. Aí depois lembrei que havia passado no supermercado e fiz compras e usei dólares e um amigo meu me ajudou. Ele não estava mais comigo depois, mas lembro que ele me ajudou anteriormente nessa missão. Por último, entrei numa sala de reuniões numa rua e todos falavam português, embora eu ainda estivesse no país estrangeiro. E contei uma experiência que foi a de ter que narrar um jogo sabendo absolutamente nada sobre os times. Inclusive, a parte engraçada foi que me passaram para narrar o segundo tempo no estúdio e a televisão, ao meu entendimento, nem sequer estava sintonizada na partida e eu comecei enrolando as informações de onde era o jogo e quanto estava o placar, mas eu não me dava conta de que aquela era de fato a partida. O uniforme dos times deve ter me confundido. Tudo muito estranho. Durante a transmissão, parei de narrar e deixei a rádio à mercê do silêncio e outros funcionários me encaravam, mas eu não ligava se perdesse o emprego naquela oportunidade. Empregos praticamente voluntários. Ora essa.

Acordei e as situações seguiram acontecendo como nos desastres desses sonhos. Pequenas coisas que dão errado. Por exemplo, querer cagar e estar com o pênis duro. Pensei sobre a quantidade de sexo que as pessoas fazem ao redor do mundo. O mundo de bilhões de pessoas é muito composto por chineses e indianos. São maioria. Os Estados Unidos, bem ocidentais de cultura, ditadores de culturas, imperialistas de culturas, estão distantes em números absolutos de população. São muitos chineses e indianos. Muitos mesmo.

Enfim, as culturas são diferentes da liberdade que é encontrada no Brasil. E penso como o Brasil é visto pelo mundo como sinônimo de liberdade, apesar dos fortes preconceitos enraizados e pouco discutidos aqui dentro. Mas, quanto à liberdade de sexo, parece um país em que as pessoas transam bastante em relação aos demais. Imaginei países da alta qualidade de vida, como os nórdicos, mas que não devem transar tanto. Ouvi sobre abusos como de álcool e algumas políticas para conter isso. Talvez pelo clima soturno, solidão, comunidades fechadas. Não sei. Outras culturas são extremamente monogâmicas. Parecem até mais monogâmicas do que monoteístas. E em outras o sexo é apenas após a união com as espécies de casamento, o que limita a quantidade de parceiros, por exemplo. Limita completamente, se for ver.

E comentei sobre comunidades fechadas. Bem, comunidades pequenas em que as pessoas julgariam - principalmente mulheres - por suas escolhas sexuais são constantes pelo mundo todo. Mesmo nas culturas consideradas mais abertas e ocidentalizadas. Pequenas comunidades em que dizem que o modo de vida é mais tranquilo e as pessoas se conhecem. Isso me dá nos nervos, porque não quero que muita gente me conheça e não quero conhecer a fundo muita gente. Isso serve para arquitetar os julgamentos. Ter mais motivos ou razões para te analisarem ou criticarem. Para eu, que gosto de escrever, isso parece bom, estar do lado observador dos binóculos. Mas estar do lado observado, quando muitas vezes a crítica é negativa pelo simples prazer de te aporrinharem ou de sentirem superiores mediante à depreciação do próximo, é uma verdadeira droga.

Penso que eu detesto tanto os julgamentos dos outros que os antecipo e julgo a mim mesmo. E muitas vezes exponho meus defeitos antes que os descubram. Eis! Aqui estão! Olhem para eles! Convivam com eles! Malditos. Nas comunidades maiores é possível conviver maior tempo no anonimato ou com detalhes menores sobre a sua vida. Aquelas situações, coisas, lembranças, experiências em que não há o desejo de compartilhamento, de divisão, até porque em nada acrescentam, em geral. Apenas geram a bola de neve dos raios dos julgamentos. As pessoas estão sempre prontas para achar defeitos e jogar contra ti depois. Sempre estão.

Bolei a maior parte desse texto enquanto estava dobrando papéis higiênicos no banheiro. A maioria dos escritores descreve coisas nojentas. Deve ser porque aproveitam tudo quanto é tipo de assunto. Se levam essa lógica de aproveitar, devem dobrar o mesmo papel várias vezes antes considerar que devem ir à lixeira.

08/02/2018

Pra onde e por quê?

Uma geração que procurou se diferenciar. Diferenciar das passadas e entra ela mesma, estabelecendo diferentes grupos para assunto, interesses e experiências em comum. Mas acabou se assemelhando bastante. A oportunidade do acesso à informação ou a diferentes entretenimentos não necessariamente modificou os hábitos ou gerou grande mudança das portas escolhidas.

Os trending topics seguem ditados pela grande mídia. Dos reality shows de confinamento, comida ou gente pelada no mato. Do esporte ao vivo, do futebol nacional ao produto dos Estados Unidos que cada vez mais chega às nossas telas. Assim o jovem nascido nos anos 1990 e começo dos anos 2000 está se formando e pensando seu futuro. O consumo midiático aumentou, inevitavelmente. Maior alfabetização, mas maior acesso aos meios digitais. Favelas e comunidades com extremas carências, mas com condições de parcelar um celular, ter um acesso à internet mesmo que do wi-fi vizinho. TV a cabo por gato ou por algum enroscar de fios que desperta meu toc apenas por ver imagens dos postes.

Enfim, esse alto consumo da mídia germina sonhos de infância e adolescência. A vontade de aparecer do outro lado da televisão, enquanto produtor de conteúdo. O desejo de ser visto, de ser lido. Muitas vezes pessoas que se espelham em ídolos criados nesses formatos. Raros esportistas, raros jornalistas, raros humoristas com espaço integral de aparição em horário nobre na TV, em grandes canais na internet. Mas a impressão na infância e na adolescência é que é bem possível chegar lá. E MAIS: de que vale a pena e é importante (pra quem?) chegar lá.

Por um período considerável de minha vida em cérebro infantil, considerava que os programas de auditório e grandes besteiróis televisivos poderiam ser jornalismo. Somente o amadurecimento (mesmo que tardio), o contato com diferentes realidades (necessitadas - de serviços públicos, de ajuda e não de solidariedades vendidas e gravadas) e o entendimento do que realmente pode ser essencial na vida dessas pessoas mudou minhas concepções, apontamentos e direcionamentos.

É uma questão complicada. Muitos dos jovens se fecham a essas realidades, negam a observação e consideração ao próximo e seguem seus sonhos inicialmente egocêntricos e aparecidos. "Me vejam, me notem, me leiam." Parando para a reflexão neste determinado momento, muitos chegam a esse ponto por alguns desses fatores comuns: 1) pais que incentivaram esse sentimento de especialidade; 2) ilusão de que os caminhos são largos e é bastante possível atingir objetivos desse porte, sendo que há poucas vagas de aparição tais quais as desejadas (basta ver que os poucos ídolos dessa geração são os mesmos e as pessoas que queriam estar em seus lugares são muitas, milhares para cada ídolo); 3) necessidade de atenção e/ou carência, nas necessidades familiares, em formações cada vez mais diluídas, assim como a maioria das relações; 4) egocentrismo em busca do chamado sucesso 5) em algum lugar, obviamente, o considerado altruísmo de querer ajudar e um mundo melhor.

Embora o quinto item possa ser atingido em outras profissões de soluções mais diretas, resultados fisicamente palpáveis ou irreparáveis e menos debulhada ao campo simbólico. Quanto vale seu texto, sua imagem, sua denúncia de problemas que serão ou não solucionados? Os quais serão apenas apresentados ao público ou trarão soluções práticas para resolução dos conflitos? Quanto vale seu trabalho de pesquisa e apuração? Seu desgaste de conta telefônica ou de disponibilidade para procurar e ouvir fontes? Por que o seringueiro recebe tão pouco no valor pífio de uma borracha? E o trabalho escravo, porém prático, segue a existir? E outras pequenas peças dotadas de valor simbólico extraviado custam fortunas?

O quanto ajudamos? O quanto queremos ajudar? O quanto é necessário ajudar? Salvar a própria pele? Salvar a pele de quem? O árduo e frio bronze da estátua dura mais. Mas ninguém quer saber.

03/02/2018

sinto falta

(daquela ignorância que me permitia errar mais jovem)
 
daquele cerveja bebida sem compromisso. daquela noite com a permissão da perda temporária do juízo. como um amigo que chegasse junto na festa e só fosse reencontrado ao final. num espaço de tempo para desfrutar da ausência. sinto falta daquela noite em que a cerveja e o papo fluem naturalmente, que o julgamento passa distante, sejam os meus ou os teus - sobre mim mesmo.

aquelas noites em que o presente não faz cobrança. ultimamente, sempre aparece ele como o maior credor, inquisidor, indagador do que ando fazendo. por vezes, o passado também recorre às suas cobranças. o passado bate à porta, aproveita o inquérito, o interrogatório do presente e deixa suas contribuições. um cheque não descontado, uma transação não autorizada, um boleto vencido.

o presente aparece primeiro sorrateiro pelo meio da noite e, daqui a pouco, se agiganta arrogante a grasnar de que é o único existente. porém, o passado coloca o dedo em riste, um pouco mais tímido, mas acreditador de que merece seu espaço. "também estou aqui". com esses dois cobradores implacáveis, por que não despertar a chegada do futuro? incerto do que ele é, inseguro de si mesmo, o futuro se sente autorizado a nos questionar o que vai ser. a tríade montada contra o sossego. a amargura ao fundo do copo.

ao remontar essas três personagens: passado, presente e futuro - que irônico e curioso o fato de nem sempre chegarem nessa ordem, geralmente com o presente se adiantando a estacionar sua viatura e a bater na porta - cada pessoa leva a seu lado suas aflições. suas aflições e cobranças de presente, passado e futuro. há cobradores aos montes. ao menos esses três garantidos para cada pessoa.

ao nos identificarmos com uma personagem - no caso com a atormentada nas primeiras linhas pelos cobradores presente, passado e futuro - nos identificamos com nós mesmos. a generosidade sentida muitas vezes é a que gostaríamos de receber. a empatia por evocarmos em nós mesmos situações semelhantes. e o consolo pela ocorrência da ação de consolar, esperando a lembrança futura de que nossos gestos sejam reconhecidos e consagrados. o futuro, repartidor de tantas dúvidas conosco, embora esporro como os demais, ainda encontra um espaço de esperança para piscar o olho antes do completo abandono e a despedida pela permissão de algum sono. em alguma ação confiamos de que foi feito um bom trabalho e isso pode lograr êxitos futuros. se assim não o fosse, por que haveria de prosseguir?

02/02/2018

Novembro em Imagens

Foto: Henrique König
Pôr do Sol (Foto: Henrique König)

Pores no mesmo dia (Foto: Henrique König)

Bird (Foto: Henrique König)


Melancolia (Foto: Henrique König)

Centro de Pelotas (Foto: Henrique König)


Melissa (Foto: Henrique König)
Invertido (Foto: Henrique König)


Anglo - Pelotas (Foto: Henrique König)

31/01/2018

pecar de olhos

no pecar de olhos
o que a boca confessa
logo é desmentido
no pecar de olhos
 
logo é demitido
o autor dessa promessa
dessa farsa, dessa peça
dessa troça sem sentido

demitido
frágil como vidro
no pecar de olhos
 

pregar de olhos

num pregar de olhos
tudo se transforma
um pegar de olhos
esquecer tudo à sua volta
cessar o combate
conter a revolta

num pregar de olhos
o mundo agora é outro
dura pouco a moleza
dura muito o sufoco
dura pouco a certeza
permanece o duvidoso

22/01/2018

"As pessoas vivem muito no automático. Em vários âmbitos da vida se exige apenas resultado e só querem saber de resultado. A caminhada, com seus altos e baixos, quase nunca é considerada. A vicissitude do cotidiano que faz a vida valer a pena. Sou relativista. Toda generalização é burra. Cada ser humano é um estranho ímpar e suas experiências seriam igualmente ímpares." 

Carla de Pieri

19/01/2018

Floyd Explica

A maioria de meus textos mais crônicos surge em caminhadas. A maioria de meus sintomas mais crônicos é amenizado caminhando. Não dirijo, mas creio que a atenção exigida ao volante reduza a quantidade de observações, sempre cruciais para a elaboração dessas linhas.

Foi a pé que eu precisava aproveitar aquela última manhã. A praia disponível a todos que nela conseguissem chegar. A praia indisponível ao estado de estar a sós. O sol a brilhar forte desde o asfalto e as calçadas. Cada sombra alcançada em avanço a ser comemorada e valorizada. Como deve ser a vida, com cada vitória, cada pequeno triunfo, pequeno refresco, alívio de dor e intervalo de sofrimento a celebrar. Celebrar para sobreviver, na canção da banda uruguaia La Vela Puerca.

Sotaque argentino pela praia. Transformando a praia em playa. Um casal deles me perguntou informações outro dia. Sobre a rua 601. Os respondi em espanhol para que pensem que também sou um deles. E por que deixaria de ser?

Com um pouco mais de noção das ruas do que dias atrás, caminhei em direção à praia. Grande momento, ápice das voltas quando um cara de uns 30 anos carrega sobre seus ombros largos um aparelho de som que exibe música para a rua inteira. Animador daquele já ensolarado dia. Cruza por mim durante a execução de How I Wish You Here da banda Pink Floyd. Mas não é a versão original dos britânicos e sim uma canção em reggae. Eu elogio o som e ele me responde com voz cavernosa com gírias em um equivalente de "é, não é mesmo?".

Segue sua galopante empreitada de rumo que, em rua próxima à praia se dissolve, se dissipa do meu. Some tão repentinamente quanto surgiu. Volto a prestar atenção nos altos prédios e nas distintas pessoas ao redor. Os prédios se parecem mais uns com os outros. As pessoas são muito variadas entre magras e gordas, novas e velhas. Pela alta temporada e badalação da praia, devem se aproximar em aspectos econômicos que ali nada me interessam.



Quando chego à avenida de nome referente ao oceano que banha suas areias logo abaixo dos concretos, encontro o maior movimento de transeuntes. Revezo minha atenção para desviar fisicamente meu corpo dos que caminham em direção contrária. Ao mesmo tempo, tento pousar meus olhos nas diferentes formas de vida ali presentes. Fotografo alguns instantes sem que me torne intrometido ou invasivo contra os reféns das lentes.

Me chamam atenção os senhores de idade com suas latas de cerveja de marcas muitas delas reprovadas por mim. Ao mesmo tempo, crio uma identificação com esses seres que muito podem se assemelhar a mim, caso eu chegue em suas não referidas idades. Outros deles estão concentrados esportivamente. O dominó é a modalidade da vez. Nas disputadas areias da praia, não há muita área disponível para prática esportiva que denota dessas condições espaciais. Nada de vôlei ou futebol e, talvez com muita habilidade para não incomodar os numerosos vizinhos, um pouco de frescobol poderia estar ocorrendo por detrás de tantos guarda-sóis fincados no terreno arenoso.

São muitos argentinos, como exaustivamente ouvi desde os noticiários até os comentários virtuais ou de quem ali mora, e inclusive passei a repetir essa verdade tida por nós. Alguns identificados em seus aspectos. Homens de pele muita clara, mulheres de rostos tristes. Mas havia, sem dúvida, uma variedade antropológica inestimável, nas ressalvas de diferentes idades e tamanhos. Biosfera pulsante. Migratórios convergentes. Ver gente. Ver gente. Vertentes.

Uns se protegiam nos guarda-sóis. Outros matavam a sede em quiosques. Uns conversavam animados. Os salva-vidas cumprimentavam outros salva-vidas que passavam sob os seus postos. Uns poucos se aventuravam na água, que não é considerada própria para banho em todos os pontos. Outros observavam solitários, como solitário eu estava nessa caminhada.

A polícia sobrevoava a praia lotada de helicóptero. Por vezes, viaturas cruzavam o asfalto no mesmo sentido dos turistas sobre rodas. Motos e carros que ora respeitavam a travessia dos andarilhos, ora ignoravam a sinalização. Cadeiras de praia espalhadas pelas areias e pelas calçadas. A luta incessante por uma vaga debaixo do escoar das águas nos chuveiros públicos. Filas de gente interessada em se refrescar ou em tirar os grãos que sempre estiveram na praia, ou ao menos seus parentes de composição química. Antes do ser humano levantar propriedades, muros, grades, cercas e prédios com 30 andares.

Garçons procurando formar clientes para os restaurantes do outro lado da rua. Importunadores com gritos e tentativas de roubar a atenção. Um método pouco eficiente para me convencer a provar seus pratos especializados, mas método que cavou um lugar neste parágrafo, a título de curiosidade. Pessoas tentando ver pessoas ou tentando ver a paisagem escondida atrás dos prédios ou das demais pessoas. Pessoas que estavam ali, nem fazem muita ideia, nem sabem bem o porquê. Pessoas com tão pouco objetivo quanto os grãos de areia que se escondem entre espigas de milho verde, entre calçados e calções.

Muitos praticavam esporte pelo asfalto. Na pista compartilhada, ciclistas, corredores, skatistas. Uma ou outra pessoa atravessa as faixas de pedestre trajando terno. Vendedores ambulantes. De artesanatos alternativos aos jogos de loteria. Uns praticam esporte preocupados com a forma física. Gente moldada claramente na academia, outros procurando perder calorias. E nada retira a concentração dos jogadores de dominó. E nada retira a tua concentração que costurou lotes em meu peito e reinstituiu ocupações em minha mente.
How I wish you here.

18/01/2018

BR-116

Calor no carro. O ar condicionado dele não vence. Abrir as janelas seria o recurso se a velocidade na estrada não disparasse um barulho maldito aos ouvidos, ensurdecendo a ponto de não ouvirmos os próprios pensamentos.

A rodovia, que era duplicada, já não é mais. Não entendam errado. Não é uma rodovia duplicada que voltou a ser de mão única. Me refiro ao fato de que trechos mais ao norte foram duplicados e quando os veículos escoam suas presenças ao sul, encontram novamente uma estrada de via única. Aquelas em que é preciso adentrar ao espaço da contramão para realizar uma ultrapassagem.

A infraestrutura é melhor lá ao norte, conforme os pedágios são mais baratos. Novamente, não entendam errado. Isto mesmo. Os pedágios mais caros são os da rodovia de mão única. Uma boa investigação sobre prestação de contas poderia trazer magníficos esclarecimentos a respeito.

Não à toa foi um post que partiu da cidade de Pelotas que tomou rumos nacionais e milhares, talvez milhões, de compartilhamentos, a respeito de uma especialista em Direito que afirmava serem irregulares as praças de pedágio. Com uma boa argumentação e o respaldo da lei seria possível driblar esses cobradores. Era o resumo do post que circulou e ainda deve circular na internet. Pois estamos tratando de algo com milhares, talvez milhões, de compartilhamentos.

Sobre os rumos ao sul pela BR de número 116, nesta quase rima de nenhuma graça, as paisagens que ilustram o texto começam a se moldar fortemente após a passagem pela região metropolitana de Porto Alegre, abaixo de Guaíba. Abaixo no sentido dos pontos cardeais ao se observar um mapa. Em outro sentido geográfico, o pampa se estende até onde os olhos se possibilitam ver. Ou seja, não há abaixo. É tudo plano. Em maior parte, a regra é uma estrada reta. Infinita highway.

Qualidades de vida de América Central. Confusas. A estrada que passa Guaíba e tem como destinos possíveis Barra do Ribeiro ou Tapes do Sul. Vegetação de árvores à beira da rodovia. Alguma sensação de sufocamento pela impossibilidade de conferência do horizonte. Curvas. Curvas apontadas em placas e que trazem o desconhecido logo a seguir. O asfalto já não é dos melhores, visualmente remendado. Os acostamentos não são os mais seguros e aconchegantes para abrigar paradas. Breves, que sejam.

Pontos de ônibus. Alguns veículos estão encarcerados como ao inferno de repetir esse trajeto. Lembro a história de um conhecido da família de minha tia, o motorista de ambulância que fazia sempre o trajeto de Santa Vitória do Palmar (o extremo sul do extremo sul) até Porto Alegre. Dias e noites na monotonia que, não bastasse o tédio, ainda reserva os perigos das rodovias brasileiras. Mas um trabalho assaz digno, necessário no abastecimento de saúde à população necessitada em rumar para os maiores centros, ao encontro da medicina.

Mas os pontos de ônibus fadados à condição de celas. Alguns pichados como tais. Só os falta que marquem e contem os dias de cativeiro neles. Mas seria demais na hipérbole dessa exaltação bucólica. Um artista inovou trechos da rodovia próximos à Camaquã com a aparição de gatos grafitados em pequenas obras abandonadas ou mesmo nos pontos de parada dos coletivos. Uma diferenciação que faz o antes imutável respirar novas cores, mesmo artificiais.

As casas de campanha são distantes umas das outras, um panorama muito distinto das acumulações de moradores e empresas, empresas e moradores nos trechos mais ao norte. Ao norte do Rio Grande do Sul, ao sul de Santa Catarina ou ao norte de Santa Catarina. As casas de campanha em suas simplicidades, algumas muito antigas. Algumas imitam em menor tamanho o estilo da construção que se convencionou chamar de parque de Bento Gonçalves, que foi uma das residências do protagonista na Guerra Farroupilha. A famosa estrutura que pinta no horizonte está em área pertencente ao município de Cristal.

Casas simples. Muitas carentes de pintura. Armazéns, borracharias, mecânicas. Casas com suas janelas voltadas para rodovia. Intenso tráfego de carros que devem ouvir. Caso a duplicação chegue até ali, muitos serão indenizados e pedidos para se retirar, como já ocorreu em alguns trechos. Outros vão conviver com o som e o impacto dos pesados veículos, principalmente caminhões, mais próximos do lugar onde dormem, onde fazem as refeições, onde vivem. Complicações do que um dia foi uma vida muito mais pacata.

A violência na região aumentou estratosfericamente. Retratos de um Brasil desigual, desempregado e, quando empregado, mal empregado. Mal formado e mal formando na formação de estudantes, trabalhadores e cidadãos. Um país conivente com os tantos crimes, que acentua a metáfora das prisões das estradas e dos pontos de ônibus, nesse inferno de inevitáveis incertezas quanto ao próximo dia.

Uma estrada de maior volume de caminhões que as vozes mais experientes logo associam com a aproximação do porto de Rio Grande. À essa altura, a rodovia está mais reta do que as curvas anteriores nas proximidades de Barra do Ribeiro e Tapes. Camaquã é um brinco, mas somente um brinco. Como se um ponto luminoso na orelha, como é luminosa nas noites de rodovia, fosse resolver o problema de um organismo problemático. Camaquã deu alguns sinais de desenvolvimento. Mas não por muito tempo. Um prédio colossal posto à beira da rodovia, próximo da entrada da cidade, perdurou anos de contemplação sem que os viajantes soubessem seu destino final. Acabou lacrado nas vastas fachadas que estavam prontas. Faltou verba ou mudança radical de planos.

Não bastasse os problemas e bucolismos apresentados, o preço da gasolina é dos mais altos do país. Eis uma região que ficou para trás historicamente e talvez mais acentuadamente na contemporaneidade e que apresenta pedágios caros, valores de transporte público caros, como o caso de Pelotas, e preço de gasolina caro. Ao menos mais caro que norte do Rio Grande do Sul e o sul de Santa Catarina. Mais uma vez caminha-se ao encontro da metáfora do inferno. Um lugar de calor nos verões mais asfaltados e com menos saídas.

Uma das saídas, orgulho dos outdoors exibidos ao longo do trajeto, seja a praia em São Lourenço do Sul. Se Camaquã foi aqui posta como um mero brinco, talvez São Lourenço possa ser um oásis. Cidade pacata e que apresenta essas atrações turísticas, com boa gastronomia e opções para refrescar o verão em praias cada vez mais procuradas. Uma ameaça à eterna tranquilidade do inferno, mas uma possibilidade de renda e desenvolvimento com o turismo.

Os outdoors são uma das poucas formas de romper a paisagem incessantemente descrita. Além dos vastos pampas e campos intermináveis após o trecho mais cerrado em árvores, além das poucas casas de campanha. Além dos poucos armazéns, borracharias e mecânicas. Os outdoors contrastam o fato de que é muito mais fácil vê-los do que ver uma verdadeira empresa empregadora. Sinais de o desenvolvimento está distante como a propaganda e o marketing estão distantes da realidade. Cada nova mentira da publicidade é uma confissão de sua mentira anterior, destacaria nosso falecido francês, Guy Debord.

Entre ultrapassagens perigosas e novamente a sonolenta estrada de pampas aos arredores, os funcionários da empresa administradora da rodovia aparecem cada vez em menor número. Se concentram mais ao trecho próximo da região metropolitana de Porto Alegre, bem sabe-se o porquê. A segurança consiste em raros e esvaziados postos de Brigada Militar, entidade de tantas dificuldades financeiras, a exemplo do estado, além dos mais modelados e equipados santuários azuis e amarelos da Polícia Rodoviária Federal.

As opções de diversão são os chamados bailões. Alguns são fortemente anunciados nas pinturas, atrativos para buscar clientes, mesmo que de passagem. Outros são mais reservados, pelas opções ilegais que variam de jogos de azar à prostituição nas casas noturnas. Talvez grande parte das comunidades prefira os almoços e festas de igreja, os bingos de domingo e talvez seja um grande erro unir essas duas formas de diversão no mesmo parágrafo, mas agora foi.

Um dos prazeres da região se estende para gastronomia de cucas, salames, chimia, doces de Pelotas e agriculturas familiares, cada vez menos livres dos agrotóxicos. Plantações de eucaliptos que se enfileiram militarmente à espera de seus cortes e aproveitamentos para os produtos derivados que ocuparão as prateleiras dos supermercados, enquanto os moradores locais reclamam que esse tipo de plantio prejudica o solo pela eternidade de suas vidas. Infernos.

Pessoas que esperam. Esperam a chuva na horta. Esperam a chuva para amenizar o mormaço. Esperam um novo amor nessas cidades escassas. Esperam o cão ou o gato que fugiu, como costumavam fazer, mas demoraram uns dias a mais para voltar. Esperam o marido voltar com o jantar. Esperam a chefia da família voltar da ida à cidade. Esperam a correspondência e as contas a pagar. Esperam a música certa da bandinha alemã na rádio. Esperam clientela no pacato armazém de letreiro apagado pela poeira e o tempo. Pelo tempo e o vento. Esperam que a duplicação ocorra ou não ocorra. Melhorias para região ou malefícios para suas propriedades?

Pessoas que pedalam bicicletas tentando manter o ritmo entre o deslocamento do horário e o poupar o físico contra o forte calor de janeiro. Pessoas com largas abas em chapéus contra o poderoso sol do estado brasileiro mais castigado pelo buraco na camada de Ozônio, que alguns estudiosos dizem estar finalmente diminuindo. Assim como diminuindo, mais comprovadamente, está a natalidade do Rio Grande do Sul. Pessoas que esperam os ônibus nas paradas. Pessoas com o chimarrão na frente de suas pequenas casas. Pessoas saudosas de bailões fechados, de gente que já morreu. Pessoas saudosas dos filhos que buscaram os maiores centros e visitam cada vez menos nessa corrida vida. Pela dificuldade de liberação do trabalho ou pela falta de saco para encarar essa rodovia de mão única. De mão única com o diabo no inferno.

três e quarenta e dois

três e quarenta e dois
começo a escrever
sem saber
até quando vai
o depois
o depois do escrever
o depois do viver
o depois dos verbos
dos versos que vão
sobreviver

06/01/2018

Outubro em Imagens

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Porto Alegre (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Filosofia (Foto: Henrique König)

Por de Porto Alegre (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Rodovia (Foto: Henrique König)

Smiley (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Morro dos Conventos (Foto: Henrique König)

Torres (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

"Com um verso eu faço um grito, com um poema pronto encontro o verdadeiro silêncio."
Pâmela Filipini

02/01/2018

pantanal

quero arrancar-te o grito mais gutural
o prazer que te prende à garganta
o regozijo mais natural
o visceral germinar de uma planta

quero eclodir-te a fluir-te o canal
o terminal que a espera era tanta
afrodite, meu manancial
da matinal à vesperal janta

01/01/2018

Aforismos

  • fazer uma caneca com os dizeres: odeio canecas.
  • posso transformar minha bobeira em insônia e minha insônia em bobeira.
  • escolher marca de cerveja é igual orientação sexual, cada um escolhe o que quiser.

Entre o uniforme e nudez

Acordo cedo e parto em viagem. Sei que é bastante cedo porque não há pessoas acordadas em casa e é assim que me agrada. A escuridão espessa da noite comprime-se agora em tons acinzentados, coloco o que considero essencial corriqueiramente na mochila e tomo meu rumo ao estado vizinho em trajeto percorrido por ônibus.

A viagem era para durar muitas horas, mas aparentemente chego em poucas. Não somente pela impressão que me é passada, mas pelo horário de chegada sendo constatado. Sou recepcionado não sei bem como. Sigo uma caravana em procissão, guiado por quem conhece os caminhos.

Por entre meados de uma zona asfáltica, ingressamos em um prédio absolutamente moderno, com uma arquitetura interessante, formatos distintos nas sacadas, fazendo cada andar assemelhar-se a um iate. Na entrada do prédio, um dispositivo automático libera a passagem da catraca para as pessoas através de um cartão magnético. As demais pessoas, por ali morarem ou estarem acostumadas a visitar, possuem o cartão. Eu, visitante de primeira viagem a esse destino, não possuo. Os olhares de quem passou sem dificuldades voltam-se para trás em impaciência à minha demora. Não sem antes eu tentar pechinchar meu ingresso com a mulher fiscalizadora da portaria, finalmente a moradora do prédio libera a minha entrada.

Ao caminhar por entre os corredores internos, em direção à subida até o iate, digo, até o andar derradeiro, percebo que estou usando apenas uma bermuda e estou sem camisa, como se recém houvesse acordado, como as horas anteriores à viagem em que levantava cedo e preparava-me para aventura. Em um dia de verão, obviamente. Ao caminhar, constato que é possível estar perdendo as bermudas utilizadas. Mais passos adiante e visto na verdade um pequeno calção cinza, reconhecido por mim como um pijama. Não me apavoraria recordar que somente uma cueca me separaria da nudez em momentos posteriores.

Questionado pela minha aproximação com a nudez, embora minha mente já se recolhesse à vergonha de estar assim, realmente começo a perguntar-me pelos meus pertences. Despojado da presença de mais roupas, noto de minha posse somente uma conhecida e pequena mochila vazia. Acerco-me do desespero por estar em uma cidade distante, exposto ao ridículo e sem grandes possibilidades de sair dessa situação.

A caravana de acompanhantes era composta por mulheres, as quais, após me dirigirem o olhar de reprovação pela demora em liberarem a minha entrada no dispositivo de catraca do cartão magnético, comentavam umas com as outras ao considerarem a procissão como "um veleiro", em referência às velas que poderiam ser acesas caso me unisse nos deleites íntimos com a moradora do prédio, minha convidadora, anfitriã e potencial agraciante e agraciada nisso tudo.

Mas de volta ao drama da situação matinal, em meio ao turvo mar desesperador, não encontro saídas desse vexame. Onde estão minhas roupas e dinheiro? Surge entre as pessoas um rapaz que eu logo assimilo como uma possibilidade. Precipitadamente afirmo que esqueci os pertences em seu carro na vinda para cá. Ele me confirma com um olhar duro de "porra, agora temos que ir lá pegar suas tralhas", seja lá onde estava o carro.

De certa forma resplandece um alívio multiplicado, que parte inicialmente de recuperar meus pertences e possibilidades de estadia, com a obrigatoriedade de portar roupas e dinheiro; em seguida, alívio de deixar a caravana de olhares inquisidores e concentrar somente que o cara me ajude. Despeço-me da moça com um até breve, na esperança de voltar o mais rápido possível para continuar os planos, seja qual forem.

Coberto pela sombra dicotômica que anuncia: estás com a melhor ou com nenhuma.

28/12/2017

Um dia depois

Um dia depois, depois do Natal. É 26 de dezembro. Fui trabalhar normalmente como nas outras terças-feiras de rádio. Aproveitei a descida da chefe para tomarmos o elevador juntos. Elevadores fechados que talvez um dia tragam-me claustrofobia. Trabalho com possibilidades.

Ao sair do prédio, onde ocupamos recentemente o 12º andar, um acima do alcance do elevador, caminhamos pelo calor devastador da rua em pleno meio da tarde. O asfalto que reflete tudo o que há de ruim nesse horário e época do ano. Converso e concordo com a chefe sobre trânsito, o desrespeito dos veículos aos pedestres. Fico contente pelo posicionamento dela em relação a isso. É de se esperar que muitos em sua posição de empregadora discordem ou deem razão aos escondidos por trás do insufilm, do emplacamento e das rodas que podem atropelar.

É apenas o fato de falarmos sobre isso que presenciamos um carro escuro que não respeita os pedestres no que poderia ser uma travessia tranquila enquanto vem outros veículos pela rua perpendicular. É apenas o fato de continuarmos a falar sobre isso que um ciclista chega contornando pedestres sobre a calçada, sendo que havia mais espaço ao canto da rua ou da própria calçada para efetuar suas manobras.

O maior chamado de minha atenção nesta caminhada foi observar as pessoas, a grande multidão. Uma multidão menor do que em datas anteriores ao Natal. A maioria da classe média econômica comprou e serviu presentes e ceia entre a véspera e a data considerada o aniversário de Jesus Cristo. A maioria desgastou, usou e abusou do mau humor para encontrar os presentes obrigatórios nos dias anteriores. Presenciou a correria, a comparação de preços, a alta dos preços, os preços elevados dos brinquedos, a gritaria, o show de ofertas, o show de mentiras, as luzes brilhantes, o comércio estendido até mais tarde, para dar tempo do funcionário do turno mais cedo comprar na barulhenta noite, para dar tempo ao funcionário do turno mais tarde ter comprado mais cedo, para haver empregos temporários nessa época e para endossar a tese econômica de que o país vai se recuperando.

Enquanto isso, dias de tiroteio pela cidade, o centésimo homicídio chocando mais por ser o centésimo do que os motivos e execuções dos números 17, 58 ou o 92, por exemplo. Mas a economia teve uma crescente (será?), isso é importante. A televisão divulgava no início do mês a observação de que as pessoas pretendiam gastar tantos porcento a mais em presentes neste final de ano. Quem consulta, pesquisa ou fornece esses dados? E se forem somente uma pressão social para te fazer gastar um pouco mais do que havia planejado? E se o presente de Natal muitas vezes for somente uma obrigação de troca, quando não há ideia do que comprar? Quando não há dinheiro, naquele momento, para ser investido? E o 13º salário justamente nessa época, no ocupacional e ocupante Natal do simbólico décimo terceiro mês do ano?

Mas o semblante das pessoas, um dia após o apavorante Natal, era muito mais tranquilo. Havia menos disputa por espaço nas calçadas a céu aberto. A maior disputa era por caminhar o máximo possível de tempo no caminho da sombra. Não havia a concorrência por olhar roupas, por ter a atenção dos vendedores ou por entrar na fila do caixa eletrônico o quanto antes. Não havia mais essa luta que antecedia ao espírito natalino das redes sociais das ceias. Ceias do prato cheio da falsidade dessa época. Espírito natalino que dura menos do que a bateria das luzinhas das noites de dezembro [que são feitas para estragar, como bem sabemos]. Espírito que dura menos do que a iluminação da principal praça, feita somente para o objetivo de agradar às famílias na época. Esquecida em constante insegurança nos demais meses.

A grande observação foi a inversão de datas. A época do ano que antecede o Natal é seguidamente apontada como a de união, de refazer laços, de unir pessoas entre familiares e amigos. Mas o panorama capitalista do mundo das compras mostrou-me o contrário. Antes da entrega dos presentes, na luta incessante por adquiri-los, do estresse da escolha, do enfrentamento e da concorrência nas compras, na discussão da tabela de preços até o ato final de embrulhá-los, cabia o semblante mais fechado e tenso. Após a entrega desses compromissos, ao dia seguinte, o mencionado dia 26, o alívio nas pessoas era evidente. Menos sacolas que cansavam ombros e braços. Menos disputa de espaço nas lojas abarrotadas e no calor do cão que era multiplicado pela multiplicação de presenças de objetivos semelhantes. O dia 26 foi mais ameno, apesar do calor prosseguidor. Alguns pequenos estresses mais facilmente conduzidos no sentido de trocar aquela roupa que não caiu muito bem ou ficou grande ou ficou pequena, por culpa do ano todo e não somente da ceia.

É isso. Um Feliz pós-Natal a todos e todas.

19/12/2017

Capital-Ismo

Me sinto culpado pelo que tenho
E pelo que não tenho
Me sinto culpado pelo que quero ter
E pelo que os outros querem
E eu tenho
O capital
É o maior ismo
Professado
Processado
Jamais cessado

17/12/2017

Marcação Cerrada

Fui comer um torrone e fiquei com fome. Comi dois torrones e fiquei cheio, enjoado. As sutilidades das fronteiras do equilíbrio.

Fui fechar a porta do carro alheio e só encostei. Fui tentar novamente e bati forte demais para o dono não gostar.

Procurei informações suas e fui chamado de maníaco. Não procurei informações suas e fui chamado de desinteressado.


Fiz um roteiro para o programa e fui chamado de muito técnico, muito quadrado, pouco descontraído. Não fiz um roteiro para o programa e me chamaram de pouco comprometido, descompromissado.

Dei aula até o horário estabelecido e os alunos acharam careta. Liberei os alunos mais cedo e a direção não gostou.

Arrumei um emprego horrível e disseram que estou me vendendo ao sistema. Sonho com aplicações utópicas e dizem que preciso de um emprego de verdade.

Estudo uma área que gosto, mas querem que eu arrume algo que dá sustento. Estudo uma área que não gosto e dá sustento, mas dizem que preciso procurar o bem estar ao trabalho.
Leio muito, mas dizem que preciso de experiências reais. Leio pouco e dizem que preciso de mais cultura.


Chego cedo e dizem que sou muito rígido com horários. Chego um pouco tarde e acham um absurdo se atrasar nesses compromissos.

Chego cedo e não sei matar tempo ou agir com a naturalidade que esperam. Chego tarde e cobram pela minha falta de comprometimento.

Tenho apreço por você, mas você não gosta de mim. Você tem apreço por mim, mas não gosto de você.

Torço moderadamente por um time, se gabam por serem mais fanáticos do que eu. Torço fanaticamente por um time. Dizem que preciso ser mais contido e moderado.

Não faço. Reclamam que não fiz. Faço. Reclamam que não era assim.

Escreva agora. Ah, mas te falta experiência. Não escreva agora. Ah, mas estás perdendo tempo.

Exigem experiência, mas não tenho o emprego que dá experiência. Exigem o emprego, mas não tenho a experiência do emprego.

A mais clássica: tenho saúde, tenho tempo, não tenho dinheiro.
tenho saúde, tenho dinheiro, não tenho tempo.
tenho dinheiro, tenho tempo e não tenho mais saúde.


Futebol com os amigos. Chuta a gol fraco. “Mas tu não quer ganhar o jogo assim?!”. Chuta a gol forte. “Mas pra quê essa força, é só um jogo!”.

Se exibe com o objeto, produto, eletroeletrônico que tem. “Bem coisa de rico.” Não tem, não se exibe com o objeto, produto, eletroeletrônico que não tem. “Bem coisa de pobre.”

É eclético. “Ouve essas coisas que nem são música.” Não é eclético. “Devia ouvir coisas diferentes.”

Te chamo todos os dias. “Muito meloso, grudento.” Não te chamo todos os dias. “Desinteressado, não gosta de mim.”

10/12/2017

A caneta bic e rosa

Era uma caneta bic e rosa. Nada diferente de outras canetas. Canetas bic e rosas. Mas era uma caneta especial. E uma moça especial para tornar a caneta especial. Além de ser bic e rosa.

São raros os seres que conseguem terminar um lápis. Escrever com ele até a última apontada, até o último desapontamento. Até que o espaço para manuseio seja tão estreito que a caligrafia se torna uma missão praticamente impossível e, no mínimo, indelicada, dispendiosa, incômoda. Assim, o lápis se despede, aposentado de sua única, ou ao menos principal função. Geralmente, muito antes disso, muitas pontas refeitas a menos, os lápis desaparecem. Frutos da perdição. Perdidos entre vãos e chão. E vãos do chão.

Lá virão os invocadores do francês Guy Debord e a substituição malévola das mercadorias. Lá virão os invocadores do polonês Zygmunt Bauman e os apontamentos dos tempos líquidos que eram vividos e observados por ele antes de seu recente falecimento. A substituição dos lápis. A substituição das canetas. São tantos os lápis que talvez merecessem um plural. Os lápises. Mortos sem lápides. Ou talvez não mereçam mesmo um plural, pois são todos tão iguais, uns mais iguais que os outros.

Mas e a caneta rosa? Bic e rosa. A caneta era especial. Não somente pelas mãos especiais que a tocavam ou as palavras especiais que dessas ações saíam. Ou quem sabe exatamente por isso. A caneta percebia a magia em mãos, literalmente, e aceitou-se como enviada especial. Como enviada divina. A caneta anunciada pelos anjos. A caneta - bic e rosa - de fidelidade e confiança.

A caneta que não aceitava novos donos. A caneta que ameaçava tornar-se indigente. Perdida. Procurada e ainda perdida. Mas que voltava, fiel como um cão que sai de casa e reencontra os donos. Como um gato que vai e regressa; e vai e regressa. Domesticada a caneta. Precisa a caneta. Precisa seja pela precisão de sua missão ou pela necessidade que nela era depositada.

A caneta bic e rosa pulava de bolsos e bolsas. Escondia-se. Era brincalhona ou teimosa. Ou somente era introspectiva. Tanto tempo dedicado às palavras de sua dona. Queria ela, a caneta, um tempo para pensar em suas próprias palavras. Essas que não saem do papel. Essas palavras que somente as canetas pensam. Seja lá o que pensam.

E a caneta dava um jeito de fugir. E dava um jeito de voltar. Entre os vãos e o chão. E os vãos do chão. Mesmo quando a esperança de reencontrá-la fugia, a caneta dava um jeito e reaparecia. Mágica como elucidado antes.

Energias recarregadas. Funcional como antes. Talvez a caneta tirasse suas folgas sem avisar apenas para restabelecer as energias, para não trabalhar preguiçosa, não travar a tinta. A tinta rosa da caneta bic.

E teve uma longa vida a caneta. Bastante viajou. Entre bolsos, bolsas, estojos e cidades. Experimentou diferentes papeis e superfícies para espalhar sua conduzida tinta rosa. Humilde e minúsculas letras. Grandiosas mensagens. E escreveu provas, notas e cartas.

E só não escreveu só porque, desde o início, aceitou sua missão. Com devoção, apreço, estima e consideração. A rebeldia domada servia apenas para dar um tempo, descansar como todos os trabalhadores e trabalhadoras devem, após suas jornadas. Ciente de que bem realizou seu trabalho.

E realizou até o último afago. Quando melancolicamente a tinta tossiu, tossiu e engasgou. As últimas letras fraquejadas, legíveis a quem escreveu e talvez impotentes demais aos demais leitores. Assim se despedia a caneta rosa. Bic e rosa.

Diferente dos lápis sem plural e sem lápides, esta merecia todo um cerimonial. Receberia os rituais respeitosos das mais distintas religiosidades antes da condução celestial das primeiras mãos diferentes que a tocavam, as mãos angelicais que a conduziam ao paraíso ou para onde quer que seja.

O seu coração, a sua carga tivera a parada e o cessar definitivos. Porém o tubo ainda estava intacto e poderia ser adaptado, reaproveitado, reciclado, reutilizado, em renascença. Nessa espécie de doação de órgãos autorizada por sua dona, a caneta bic e rosa permanecia a contar histórias. Readaptada, recarregada, reabastecida. Ainda fugidia e rebelde, mas reaparecida como sugeria a lenda. A lenda da caneta bic e rosa.

04/12/2017

"A morte não é o oposto da vida, mas um acontecimento complementar que a define. O homem, como vida, é um ser para a morte. Refletir sobre esta é lançar luz sobre o viver e a natureza íntima das coisas, do mundo em geral como reflexo especular da Vontade, mero ímpeto cego para a existência. Daí poder-se dizer: a morte é a "musa" da filosofia. "dificilmente se teria filosofado" sem ela. Se o animal frui imediatamente toda a imortalidade da espécie, sem qualquer angústia diante do futuro, no homem nasceu, com a faculdade racional que o animal não possui, a certeza amedrontadora da mortalidade."
Jair Barboza (1997) sobre Metafísica do Amor, Metafísica da Morte de Arthur Schopenhauer
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam
cantemos a canção das chamas!
(Mario Quintana)
"Sim, afligia muito querer e não ter. Ou não querer e ter. Ou não querer e não ter. Ou querer e ter. Ou qualquer outra dessas combinações entre os quereres e os teres de cada um, afligia tanto."
(Caio Fernando Abreu)

ouro

o tempo corrido
atrás do ouro
o ouro louro
sua tez ouro
o tempo corroído
o ouro derretido
sua alteza
da tez ouro