(daquela ignorância que me permitia errar mais jovem)
daquele cerveja bebida sem compromisso. daquela noite com a permissão da perda temporária do juízo. como um amigo que chegasse junto na festa e só fosse reencontrado ao final. num espaço de tempo para desfrutar da ausência. sinto falta daquela noite em que a cerveja e o papo fluem naturalmente, que o julgamento passa distante, sejam os meus ou os teus - sobre mim mesmo.
aquelas noites em que o presente não faz cobrança. ultimamente, sempre aparece ele como o maior credor, inquisidor, indagador do que ando fazendo. por vezes, o passado também recorre às suas cobranças. o passado bate à porta, aproveita o inquérito, o interrogatório do presente e deixa suas contribuições. um cheque não descontado, uma transação não autorizada, um boleto vencido.
o presente aparece primeiro sorrateiro pelo meio da noite e, daqui a pouco, se agiganta arrogante a grasnar de que é o único existente. porém, o passado coloca o dedo em riste, um pouco mais tímido, mas acreditador de que merece seu espaço. "também estou aqui". com esses dois cobradores implacáveis, por que não despertar a chegada do futuro? incerto do que ele é, inseguro de si mesmo, o futuro se sente autorizado a nos questionar o que vai ser. a tríade montada contra o sossego. a amargura ao fundo do copo.
ao remontar essas três personagens: passado, presente e futuro - que irônico e curioso o fato de nem sempre chegarem nessa ordem, geralmente com o presente se adiantando a estacionar sua viatura e a bater na porta - cada pessoa leva a seu lado suas aflições. suas aflições e cobranças de presente, passado e futuro. há cobradores aos montes. ao menos esses três garantidos para cada pessoa.
ao nos identificarmos com uma personagem - no caso com a atormentada nas primeiras linhas pelos cobradores presente, passado e futuro - nos identificamos com nós mesmos. a generosidade sentida muitas vezes é a que gostaríamos de receber. a empatia por evocarmos em nós mesmos situações semelhantes. e o consolo pela ocorrência da ação de consolar, esperando a lembrança futura de que nossos gestos sejam reconhecidos e consagrados. o futuro, repartidor de tantas dúvidas conosco, embora esporro como os demais, ainda encontra um espaço de esperança para piscar o olho antes do completo abandono e a despedida pela permissão de algum sono. em alguma ação confiamos de que foi feito um bom trabalho e isso pode lograr êxitos futuros. se assim não o fosse, por que haveria de prosseguir?
03/02/2018
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