Era uma caneta bic e rosa. Nada diferente de outras canetas. Canetas bic e rosas. Mas era uma caneta especial. E uma moça especial para tornar a caneta especial. Além de ser bic e rosa.
São raros os seres que conseguem terminar um lápis. Escrever com ele até a última apontada, até o último desapontamento. Até que o espaço para manuseio seja tão estreito que a caligrafia se torna uma missão praticamente impossível e, no mínimo, indelicada, dispendiosa, incômoda. Assim, o lápis se despede, aposentado de sua única, ou ao menos principal função. Geralmente, muito antes disso, muitas pontas refeitas a menos, os lápis desaparecem. Frutos da perdição. Perdidos entre vãos e chão. E vãos do chão.
Lá virão os invocadores do francês Guy Debord e a substituição malévola das mercadorias. Lá virão os invocadores do polonês Zygmunt Bauman e os apontamentos dos tempos líquidos que eram vividos e observados por ele antes de seu recente falecimento. A substituição dos lápis. A substituição das canetas. São tantos os lápis que talvez merecessem um plural. Os lápises. Mortos sem lápides. Ou talvez não mereçam mesmo um plural, pois são todos tão iguais, uns mais iguais que os outros.
Mas e a caneta rosa? Bic e rosa. A caneta era especial. Não somente pelas mãos especiais que a tocavam ou as palavras especiais que dessas ações saíam. Ou quem sabe exatamente por isso. A caneta percebia a magia em mãos, literalmente, e aceitou-se como enviada especial. Como enviada divina. A caneta anunciada pelos anjos. A caneta - bic e rosa - de fidelidade e confiança.
A caneta que não aceitava novos donos. A caneta que ameaçava tornar-se indigente. Perdida. Procurada e ainda perdida. Mas que voltava, fiel como um cão que sai de casa e reencontra os donos. Como um gato que vai e regressa; e vai e regressa. Domesticada a caneta. Precisa a caneta. Precisa seja pela precisão de sua missão ou pela necessidade que nela era depositada.
A caneta bic e rosa pulava de bolsos e bolsas. Escondia-se. Era brincalhona ou teimosa. Ou somente era introspectiva. Tanto tempo dedicado às palavras de sua dona. Queria ela, a caneta, um tempo para pensar em suas próprias palavras. Essas que não saem do papel. Essas palavras que somente as canetas pensam. Seja lá o que pensam.
E a caneta dava um jeito de fugir. E dava um jeito de voltar. Entre os vãos e o chão. E os vãos do chão. Mesmo quando a esperança de reencontrá-la fugia, a caneta dava um jeito e reaparecia. Mágica como elucidado antes.
Energias recarregadas. Funcional como antes. Talvez a caneta tirasse suas folgas sem avisar apenas para restabelecer as energias, para não trabalhar preguiçosa, não travar a tinta. A tinta rosa da caneta bic.
E teve uma longa vida a caneta. Bastante viajou. Entre bolsos, bolsas, estojos e cidades. Experimentou diferentes papeis e superfícies para espalhar sua conduzida tinta rosa. Humilde e minúsculas letras. Grandiosas mensagens. E escreveu provas, notas e cartas.
E só não escreveu só porque, desde o início, aceitou sua missão. Com devoção, apreço, estima e consideração. A rebeldia domada servia apenas para dar um tempo, descansar como todos os trabalhadores e trabalhadoras devem, após suas jornadas. Ciente de que bem realizou seu trabalho.
E realizou até o último afago. Quando melancolicamente a tinta tossiu, tossiu e engasgou. As últimas letras fraquejadas, legíveis a quem escreveu e talvez impotentes demais aos demais leitores. Assim se despedia a caneta rosa. Bic e rosa.
Diferente dos lápis sem plural e sem lápides, esta merecia todo um cerimonial. Receberia os rituais respeitosos das mais distintas religiosidades antes da condução celestial das primeiras mãos diferentes que a tocavam, as mãos angelicais que a conduziam ao paraíso ou para onde quer que seja.
O seu coração, a sua carga tivera a parada e o cessar definitivos. Porém o tubo ainda estava intacto e poderia ser adaptado, reaproveitado, reciclado, reutilizado, em renascença. Nessa espécie de doação de órgãos autorizada por sua dona, a caneta bic e rosa permanecia a contar histórias. Readaptada, recarregada, reabastecida. Ainda fugidia e rebelde, mas reaparecida como sugeria a lenda. A lenda da caneta bic e rosa.
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