05/10/2016

Mantos e Mantimentos

Feliz ou infelizmente, guardo a camisa do clube de futebol ao lado do cabide onde penduro a alma no guarda-roupas. A mesma alma que preciso vestir todos os dias ao deixar o breve universo do quarto. Não raramente, a camisa do clube de futebol e a alma vão juntas para máquina de lavar, em intermináveis voltas de detergente, filosofia e enxágue. Não recordo se elas, a camisa do clube de futebol e a alma, já vieram comigo com as mesmas cores. Mas, passado tanto tempo juntas nessas voltas, elas se tornaram cada vez mais semelhantes.
Foto: Henrique König

27/09/2016

Menos grades, mais agrados

Minha terra não tem morro
Morro de saudade
Pensa em mim
Faz um foro
Faz do sim tua felicidade

Minha saga como um cachorro
Por um soro na cidade
Pensa em mim
Peço socorro
Costura na minha vida o sim
Como um alfaiate

Minha terra não tem morro
Morro de saudade
Faz assim:
Não responde
Fico na curiosidade

Velhas fardas que já foram
Voltam costuradas
Faz assim:
Faz mais nada
Se o beijo não te agrade

Faz assim:
Sem mais grades
Se o beijo não te agrade

Faz assim
Menos fardos
Mais afagos
Menos grades
Mais agrados

18/09/2016

Inabitável

Inabitável mundo
Da informação tão ágil
Da informação tão frágil
De um rio tão raso
Onde quem o atravessa
Pode sair com mais ódio
Sem interpretar o episódio
Sem a jangada do contexto
Sem o galho que o salva
Do naufrágio
Da opinião equivocada

13/09/2016

De livre turista a prisioneiro da gelatina de limão

[CONTINUAÇÃO do texto anterior]

Na sequência deste quase apocalíptico sonho, descubro nossos dormitórios e me chama atenção que, na porta cinza dos quartos, há nomes para identificação. O nosso curiosamente chama-se Inês.

Pois bem, lembro de conversar com crianças e, em seguida, sumir, apagar. Algumas imagens como se gravadas de câmeras escondidas mostram situações internas, como um maluco gritando VAI CORINTHIANS, outros brigando e problemas como um exército nada organizado, em que terminar a noite vivo parece um grande feito e ter uma noite de sono para estudar no dia seguinte parece impossível. Realidades de um Brasil.

Na falta de uma noção de tempo, penso que a próxima passagem é no dia seguinte, quando consigo deixar o alojamento todo, o internato e passear pelas ruas do Rio de Janeiro, bem distintas de minhas lembranças, mas com elementos que me identificam a pensar que se trata de lá.

Consigo ir até a praia, em uma avenida que mais lembra praias catarinenses ou a que conheci somente por imagens da Barra da Tijuca, na qual nos estendemos por um corredor de asfalto, com carros estacionados ao lado, muita areia clara e, do outro, já a confusão do urbano. Chegamos a planejar melhores visitas a pontos turísticos do Rio, porque, ao mesmo tempo, sou morador do internato, mas um turista em liberdade (condicional?) pela cidade.

Neste trajeto pela avenida, lembro da única passagem de meu pai, único familiar meu pelo sonho. Ele dirige o carro e, sem esboçar reação para desviar, atropela uma criança ciclista. Incrédulo com o acontecimento acidental causado por ele sobre a vermelha ciclofaixa, em seguida, deixo o carro e não o vejo mais. Adiante, há um quiosque no que parecia mesmo o fim dessa avenida beira-mar.

É um quiosque organizado, com ares rudimentares, mas que esboça luxo. É um dos momentos que enxergo garotas/mulheres no sonho, oportunidade oposta ao inferno do alojamento antes descrito. Ao meu lado, surge um rapaz que pareço considerar amigo e da mesma convivência. Creio que seguimos juntos por uma avenida larga que nos levará de volta ao internato para o cair da noite. Assim aqui recordo o fato de o internato ser afastado dos centros do Rio de Janeiro e talvez pertencente a uma cidade próxima, dentro do estado, cercada por áreas mais rurais, como realmente uma penitenciária.

Ao perceber, com a chegada da noite, o passar de mais um dia, necessito me alimentar e a janta está controlada pelo grupo ditatorial da porra toda. Incrível que os guardas que cercam o local parecem estar completamente subornados, não ligam para a situação dos demais, sujeitos a passar fome ou ser mortos, massacrados pela milícia com o poder.

Consigo me alimentar de uma pequena porção de algo salgado e, na sequência, um amigo meu, uma criança gordinha chama a atenção de que há sobremesa livre. Como um irônico restaurante. Mas a sobremesa é apenas gelatina, presente sobre um bazar, onde uma senhora serve os que se aproximam. São minúsculas porções junto a ela, mas, adiante, há mais gelatina de várias cores espalhada e consigo acessar uma das travessas e me servir de uma tigela maior do que minha mão. Já que quase não jantei, encho a tigela de gelatina de limão na esperança de naquela noite não passar fome.

Vale ressaltar que a higiene do local é duvidável, o caráter dos e das funcionários(as) é duvidável e não confio muito na qualidade da comida. Talvez, também por isso, chega uma hora que repudio a gelatina, que, também ressalto, me servi em imensa quantidade jamais conferida (em gelatina de limão). Ofereço aos jovens amigos próximos.

Logo depois, é como um chamado terrível, uma conferência. O desenho de Pokémon da noite anterior volta a ser pauta. Há sirenes, há tumulto e correria e preciso voltar ao meu dormitório, no quarto sinalizado com o nome de Inês. Recordo da maldita caneta preta em meu bolso, igual a que me livrei naquele dia, que eles até encontraram, mas pela minha sinceridade e diálogo com o líder maluco, não desconfiaram diretamente de mim. Ou desconfiaram e apenas me prorrogaram as chances e este desmiolado sonho.

Contorno pelos fundos do dormitório, busco um local onde ninguém me veja, mas parece que há sempre algum mal intencionado passando, correndo, fugindo, me seguindo ou algum guarda à espreita. Parece que já não querem ajudar a gente, mas, se virem algo para avisar a milícia com o poder, não hesitarão em nos denunciar. Com isso, um guarda me pergunta o que faço ali sozinho e se não estou ouvindo o chamado urgente. Não tenho reação que não seja aceitar suas ordens e voltar em frente à casinha onde uma das portas cinzas dos quartos tem a inscrição Inês.

Sinto que, com a nova conferência, com a nova revista, estarei encrencado de vez, serei fuzilado e, pensando agora, parece um dos reais efeitos de uma ditadura, onde tenho ninguém a recorrer. Somente assimilando se tratar de um sonho e aproveitando a peculiaridade da vivência toda nele, me esforço para ali não ser morto, controlar a situação e sobreviver mais um dia. Eles não me descobriram. E Gustavo, onde será que está? Não apareceu mais.



A prisão e as evidências

Estive eu preso a um internato no Rio de Janeiro. Me senti com minha própria idade, que é de DESCUBRA. Mas a maioria dos demais garotos era mais jovem, alguns como criança mesmo. Me senti como Daniel Radcliffe em Um Verão Para Toda Vida. Mentira, só pensei nisto agora na escrita.

A grande diferença do internato, apesar do policiamento em volta em alguns momentos, é que um grupo radical e ditatorial tomou conta da situação. Ameaçavam e queriam, de toda forma, organizar os viventes. Pois bem, logo em uma das primeiras cenas do sonho, mandaram-nos formar uma fila. Haviam recém tomado as rédeas da situação no que parecia uma prisão de segurança mediana.

Como era um dos mais velhos, me desloquei para entre os últimos da fila, mesmo notando umas pessoas de 2 metros e tanto. Estes sim, ocupantes das últimas posições das fileiras iniciadas por crianças.

No que percebo, à minha frente, está Gustavo L., conhecido dos últimos anos, exímio jogador de camisas vermelhas, de finalização impecável e armação de jogo esperto. Não muito rápido nos movimentos, mas todavia inteligente. Ele saca um pedaço de papel preenchido com outras coisas e começa a desenhar e logo me mostra um logo de Pokémon, uma Pokebola, algo assim. Acho interessante sua habilidade de desenhar tão rápido e com tamanha precisão.

Mas os de arma em punho não querem saber e desaprovam desenhos, sabe-se lá o porquê. Me livro dele, mas a menos de dois metros de mim. À esta altura, Gustavo já deu no pé e nunca mais foi visto (no sonho). Nosso artista contra o movimento ditatorial.

A caneta com a qual ele fez o desenho é preta, descubro que me pertence e ele devolveu-a. Mas é um risco tê-la no bolso quando pode ser identificada como a de autoria do desenho. Jogo a caneta para trás e ela para junto a uma parede, também a menos de dois metros de mim. Na situação, estava eu parado, o desenho um metro à frente, a caneta jogada, solitária, um metro atrás, junto à parede do fundo, onde estavam os últimos da fila.

Então, já havia alguns jovens dispersos, mas eu não consigo me dispersar por um certo pânico que me paralisa. Eles catam o desenho, estão furiosos e procuram o responsável. Ninguém assume, ninguém viu Gustavo, ninguém me viu? Ninguém dedura. O chefe, um magro, de cabelos mal cuidados, com raiva e que associo ao tráfico, até troca palavras comigo. Respondo com cautela, mas não me amedronto em responder.

Ele então pede para todos os permanecentes nas filas para pegarem seus lápis e canetas e, para minha surpresa, todos tiram os objetos de escrita dos bolsos, como se estivessem prontos para um vestibular. Eu descubro outra caneta em meu bolso e me sinto mais seguro. Porém, há também outra caneta preta assim como a que tentei me livrar. A primeira pode ser associada a esta e fico preocupado.

O chefe do grupo pensa que o desenho havia sido feito na hora, mas eu discordo dele e o induzo a pensar que um desenho tão bem elaborado deve ter sido feito anteriormente. Não daria tempo de caprichar tanto naquele momento. Ele considera minha opinião e, por hora, me livro dessa situação complicada.
Caneta Bic preta utilizada no crime do internato

29/08/2016

Nunca colocam o close na educação

Na mesma semana, David Coimbra colocou com sua assinatura que "O Estado pode sonegar até educação; segurança, não".

Já o comunicador Alexandre Fetter leu carta aberta em seu programa e disse que "Para mim, que gente assim (jornalistas de opinião contrária a ele) sejam as próximas vítimas, que sejam eles a sangrar e deixar suas famílias enterradas”."

Gente, eles pregam uma forma de resolver DE UMA HORA PARA OUTRA um problema de décadas nas periferias, que só se tornou esse desespero todo AGORA porque bateu na porta da classe média e das mais altas: morte nas comunidades mais pobres sempre existiu por violência, por tráfico, mas não tem apelo, não é noticiada, não gera comoção ou a mesma indignação. Quase nunca houve preocupação do Estado em combater isso.

Nesta segunda-feira, o Jornal Hoje, da Globo, destaca uma família morta em um condomínio de luxo no Rio de Janeiro. Foi chamada na abertura do jornal. Jamais abririam esse espaço de inquietação, investigação para morte de pessoas pobres na favela. E repito: as pessoas de favelas, periferias sempre conviveram com a violência, sem aportes ou subsídios do ~~Estado que pode sonegar até educação, segurança, não~~.

A educação, neste processo todo, que começou e perdura por décadas e décadas, sempre foi a saída ou redução das desigualdades e de tantos problemas sociais comuns de norte a sul do Brasil. A educação de base: das creches, do começo e fim do fundamental, do ingresso no ensino médio e finalmente no superior.

O posicionamento desses comunicadores está muito errado. Eles são do mesmo grupo de comunicação.

25/07/2016

Esvai

Há muito tempo não escrevia sobre meus sonhos enquanto durmo, somente os sonhos enquanto acordado. Desta vez, recorro ao da noite passada por necessidade e para buscar evitar as inevitáveis traições da memória. Foi mais ou menos assim...

Estávamos encerrando uma transmissão de futebol que logo percebi ser um jogo paulista entre Portuguesa de Desportos e São Caetano, no estádio do Canindé, em São Paulo. Quando me deparei, estava com a equipe da rádio em uma mesa. De forma surpreendente, não tratava-se de uma cabine, mas de uma mesa de restaurante, como uma pizzaria. Com minha consciente preocupação de não falar bobagens ao microfone enquanto estamos no ar, perguntei, atônito, algumas vezes se já havíamos encerrado a programação, repassado ao plantão, coisa e tal.

Tão surpresa quanto a sequência de fatos, um de nossos componentes da equipe era meu ex-colega de escola, Pedro Ruas, que nada tem a ver com futebol ou suas transmissões. Já tomado a observar o então ambiente do restaurante, havia em volta uma estrutura extremamente chique, coisas de primeira classe, decoração, plantas, luzes amarelas que davam um ar quente ao ambiente. Tão quente quanto as impressões que a iluminação proporcionava, eram as mulheres da mesa em frente. Em um seleto grupo, estavam conscientemente vestidas para ocasião, diferente de mim que sei lá o que vestia.

Troquei olhares e me sentia incomodado/motivado com tamanha beleza. Me lembro de cutucar o amigo de escola como se recordasse de outras ocasiões a alguma ou algumas delas. Após ter me levantado, ao tentar retornar para mesa fui antecipado por uma delas, a qual me segurou pelo braço e me conduziu. Executamos uma coreografia ridícula e mal ensaiada enquanto atraíamos a atenção de todos em volta. Daí então não reparei mais nos companheiros de equipe. O último gesto destinado a eles foi um ~~será que dá~~?

Pois a líder do grupo não me conquistava ou trazia beleza que fascinasse minha razoavelmente crítica e própria opinião. Apesar disso, ela seguiu o ritual, a me conduzir para o lado de fora da noite, em uma espécie de pequeno pátio ou jardim.

Havia um gramado e a iluminação já em nada lembrava o interior chique do restaurante. Entretanto, cada vez me dava mais conta que me acercava de um verdadeiro objetivo. Apesar de inicialmente, ao relacionar o estádio do Canindé, da Portuguesa, se tratar de São Paulo, pensava que elas e eu éramos estrangeiros. Consciente de minha condição de intruso, entretanto, não as relacionava a um lugar específico, embora pensasse que poderiam ser de uma cidade mais perto de minha natal do que da distante São Paulo. Amadurecia-me a impressão da cidade da proveniência delas ser Porto Alegre.

A então capitã da procissão toda organizou me dar a oportunidade de conhecê-las e, em via disso, poder escolher (só em sonho). Enfim, a primeira que se aproxima de mim é cada vez mais evidente ser uma pessoa a quem espero e esperaria muito tempo. Nosso primeiro contato é com os lábios, um beijo extremamente quente, mais quente do que qualquer outra sensação, como quando uma comida chega ao nosso paladar com o calor tão intenso que mal deciframos o gosto.

Outra das moças está próxima e, a associando a uma amiga da primeira na vida real, que AQUI CHAMAREMOS DE A____. Peço privacidade e se ela pode se afastar. Após esse beso de meu apreço, sinto a necessidade de sanar a dúvida da origem da autora com a qual quero privacidade.

Pergunto, meio ou, melhor dizendo, completamente enrolado: "de que cidade vocês são?". Ela não entende direito, mostra a desaprovação e que não sacou a questão. Tento repetir, consigo olhar profundamente em seus olhos. Com certeza é ela! Aqui a chamaremos de P____. Tento me comunicar com ela. Trocar mais frases, dialogar, extrair mais informações, mas em vão. Tento então beijá-la novamente, mas não consigo, a odisseia chega ao fim.

Tento regressar ao momento, a língua dormente e ainda quente, a lembrança tão perfeita, clara e cristalina que quase se volta o momento, mas tudo se esvai. E a ex, vai?

16/07/2016

Curitiba em Imagens - Fotos: Henrique König












Fotos: Henrique König

Análise do texto "Que 'negro' é esse na cultura popular negra?", de Stuart Hall

Mediante as mudanças em políticas de inclusão na Europa e nos Estados Unidos durante os anos 1990, o autor jamaicano Stuart Hall propõe questionamentos presentes acerca de Que "negro" é esse na cultura popular negra?, de 1996. O estudioso da comunicação traz as indagações sobre a cultura popular e a forma como o negro é visto na sociedade.

Stuart Hall aponta para a cartada de alguns autores em evidenciar um sistema imutável, de um modo que a crítica ao modo contemporâneo exista, mas não evolua. A preocupação do autor é que a tomada de consciência e as críticas feitas consigam avançar em soluções aos grupos não hegemônicos. Ele aborda que "o que substitui a invisibilidade é um tipo de visibilidade segregada, que é cuidadosamente regulada" (HALL, 2003).

Hall também demonstra atenção aos contrários às mudanças sociais, centrados, reunidos em políticas conservadoras. Nessa geração de conflito, há o ataque direto de quem deseja a manutenção da hegemonia, do nacionalismo como pilar, por exemplo.

Em relação à segregação de uma cultura de elite e uma popular, Hall cita Peter Stallybrass e Allon White sobre o mapeamento do alto e o baixo em formas psíquicas, no corpo humano, no espaço e na ordem social. O autor jamaicano problematiza a questão da cultura negra popular como "um espaço contraditório". Isto porque defende que ela não pode ser reduzida a uma oposição do baixo versus o alto, do informal versus o formal, de ser a oposição versus a homogeneização. As definições binárias não bastariam, pois existe uma grande complexidade sobre seu leque de manifestações. Hall crê essencial a contextualização histórica e cultural.

"O momento essencializante é vulnerável porque naturaliza e desistoriciza a diferença, confunde o que é histórico e cultural com o que é natural, biológico e genético. No momento em que o siginificado 'negro' é arrancado de seu encaixe histórico, cultural e político, e é alojado em uma categoria racil biologicamente constituída, nós valorizamos, pela inversão, a própria base do racismo que estamos tentando desconstruir". (HALL, 2003)

Hall também considera fundamental mapear as diferenças dentro da cultura negra. Somente assim caminha-se para um nível satisfatório de análise. Não satisfaz apenas diferenciar o negro de outras formas de cultura, mas é necessário estabelecer as diferenças entre gênero, sexualidade e classe, por exemplo.

Justamente com esse ponto em debate, Hall encerra Que “negro” é esse na cultura negra? Reduzir a questão da identidade negra pe desvalorizar diversos fatores que atravessam diretamente o processo cultural, histórico e social onde estão os indivíduos.

As mulheres negras podem combater o racismo ao mesmo tempo que são diferentes suas posições na sociedade em relação aos homens negros. Entre os homens negros, difere-se o tratamento social em relação aos hetero e aos homossexuais. Há, sem dúvida alguma, a distinção de classes entre indivíduos, como na questão financeira.

Um caso interessante a ser explicitado é o do rapper Gustavo Black Alien. Na infância, o fluminense morou em Niterói, em contato com uma população de maior poder aquisitivo. Era visto como diferente, pois era um negro em um cenário de predominância de brancos, mais ainda do que a divisão étnica da atualidade.

Ao mesmo tempo, Black Alien visitava a parte mais pobre da família, na cidade de seu nascimento, São Gonçalo. Desta maneira, mesmo entre negros, o preconceito existia, pois não era da mesma classe econômica dos demais. Sempre estudou em boas escolas e aprendeu inglês antes dos 12 anos, situação distante para grande maioria dos negros e pobres do Rio de Janeiro durante os anos 1980.

Outro exemplo é o funk e sua problematização enquanto movimento cultural. A origem do funk remete aos Estados Unidos, quando o termo era utilizado por negros estadunidenses, para designar odores corporais durante as relações sexuais.

"Foi por volta de 1968 que a gíria “funky” perdeu  seu significado pejorativo e passou a remeter seu sentido a algo como orgulho negro. Assim, conforme apresenta Hermano Vianna, tudo pode ser funky: uma roupa, um bairro da cidade, o jeito de andar e uma forma de tocar música que ficou conhecida como funk" (VIANA, 1988, p. 20).

O movimento funk, quanto à sua chegada ao Brasil e, principalmente, por sua disseminação até os dias atuais, perde característica inicial de movimento exclusivamente negro, embora continue construído em sua maioria como um movimento periférico, marginal na sociedade. Mas nem a este ponto deseja-se chegar na exemplificação. Uma das questões remetentes ao funk é o debate entre o machismo que muitas vezes é presenciado nas letras.

Mais um ponto complexo dentre os já observados no texto de Hall e que pode-se trazer à tona. Neste presente trabalho, como apenas um parênteses aberto como exemplificação, fica a citação do teórico Bertold Brecht:  "Primeiro vem o estômago, depois a moral". Na interpretação de que o funk, de elementos das comunidades carentes e da sociedade em geral, onde está inserido, traz letras com o machismo presente, mas, ao mesmo tempo, onde caberia uma moral de julgar compositores que apresentam trajetórias de violência, baixa escolaridade e falta de instrução, quando buscam sustento das poucas formas que os são possíveis? Fica o questionamento.

De modo conclusivo à presente análise, observa-se a complexidade do tema inserido em Que "negro" é esse na cultura popular negra?, quando o próprio Stuart Hall questiona o tratamento às minorias feito pela sociedade, pela comunicação e autores que abordam tão polêmicos assuntos.

Passadas duas décadas desde o texto de Hall, de 1996, os cuidados nas abordagens permanecem e se ramificam conforme o avanço nos estudos de comunicação, antropologia, sociologia, psicologia e outras áreas. Uma possibilidade de cruzar teorias com as propostas de Stuart são os trabalhos voltados à temática de gênero, em conceito e descontrução, da estadunidense Judith Butler.

Visto que a temática da identidade negra passa por atravessamentos de gênero, classe e outros aspectos, o que fica notável é a impossibilidade de uma unificação dos indivíduos de etnia negra em uma concepção, em uma conceituação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

HALL, Stuart. Que “negro” é esse na cultura negra? In: HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

RODRIGUES, Carla. Butler e a desconstrução do gênero (resenha). In: Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 13(1): 179-199, janeiro-abril/2005.

ROLIM, Gabriel. Black Alien - Irradiando Luz na Escuridão há uma Década. MonkeyBuzz, 2014. Disponível em: http://monkeybuzz.com.br/artigos/12455/black-alien---irradiando-luz-na-escuridao-ha-uma-decada/. Acesso em 13 de julho de 2016, às 22h17. 

VIANA, Lucina. O Funk no Brasil: Música desintermediada na Cibercultura. Revista Sonora. Unicamp. Vol. 3, 2010.

VIANNA, Hermano (1988). O mundo Funk Carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

07/07/2016

Separar pra pensar

Creio que a gente precisa separar as coisas. De um lado realmente há os gastos absurdos com dinheiro público, superfaturamento de obras e a cegueira para vários problemas sociais com uma Olimpíada. De outro há a visibilidade a atletas que deveríamos enxergar sempre. Histórias de educadores, gente ligada ao esporte por projetos de inclusão, gente que encontrou o esporte como opção, alternativa, superação e motivação de viver, que participam do tal revezamento da tocha olímpica. Creio mesmo que a gente não possa descontar/respingar nesses indivíduos as frustrações criadas por outros. As coisas precisam ser bem direcionadas a verdadeiros responsáveis, caso contrário acabam até mais perdendo apoio do que recebendo.
Final do revezamento da tocha olímpica na cidade de Pelotas (Divulgação / Rio 2016)

16/06/2016

Maio em Imagens







FOTO: HENRIQUE KÖNIG

Tapa da mão aberta

Um tapa de mão aberta
Na cara desse sistema
O médico obstetra
Deu luz a mais um problema

É sempre a estrada reta

Deles que eles impõem
É o lucro como meta
É isso que dita o tom

10/06/2016

Babasónicos

Tenho 1001 coisas pra resolver
Estou em outra dimensão
Me escondo, já não sei o que fazer
Fujo de outra situação
Mais sei que devo enfrentar de frente
Em busca de uma solução
Difícil saber exatamente
Uma resposta de satisfação

22/05/2016

Aguante

E se um porro me acalmava
E era tu
E sempre tu me incendiava
E quando muitos te abandonaram
E era eu
E sempre eu te incentivava


17/05/2016

Sobre vivendo

Assisti ao filme "Sobrevivente", sobre o cara que sobreviveu (dã) ao naufrágio de um barco nas gélidas águas do Atlântico Norte, na Islândia, em 1984. Daí que chamou atenção o extraordinário de Gulli ter ficado cerca de seis horas nadando e flutuando pelo mar em temperatura praticamente negativa em Celsius. Humanamente impossível, afirmavam. Naquela temperatura, muitos teriam pego uma hipotermia irreversível em questão de minutos.

Daí que, dependendo a temperatura, o ser humano não consegue passar sequer minutos nos oceanos, que cobrem cerca de 71% da superfície terrestre. Notável também a cena que ele consegue chegar à ilha e está exausto, desesperado e perdendo os movimentos pela má circulação do sangue, etc. Encontra uma banheira (?) com água congelada em um pasto. Afugenta os bois (que sempre têm o alimento em volta deles muuuuu) com sua presença. Pega uma pedra e bate no gelo até ele se partir e ele conseguir beber algo após horas cercado por água salgada.

Daí que o ser humano não consegue sobreviver, sem maiores aparatos, à maior parte de seu planeta. Seja por questões de clima, predadores e tal. E neste que é o planeta habitável.

E nisso tudo, Raul Seixas disse em Ouro de Tolo que

"É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social"

Loucura, né?

29/04/2016

Pêndulo da Exclusão

A alternância entre as pessoas serem muito dóceis e serem pau no cu com os outros é o que mais me chama atenção na humanidade.

Dá um abraço apertado no filho, na esposa e deseja morte violenta ao motociclista no trânsito ou ao defensor de ideologia diferente.

Dá comida pro bicho de estimação, ajuda a vó e brada "bandido bom é bandido morto" sobre quem tenha qualquer ficha criminal.

12/04/2016

Ave, ave, minha cara

Mais uma ave que me escapa
Eu, também ave, cisco e logo voo
Cisco, cisco pela terra
Cisco, ciscos nos meus olhos
Nos meus olhos vejo o que já era
No meu bico o beijo de outro foco

Mais uma ave que me escapa
Eu, também ave, verifico e logo voo
Rico, rico, minto em canto
Pobre, pobre no que sou
Nos meus olhos do voo cego
No meu canto por amor
Foto: Henrique König

A História Enquanto Ocorre

A História enquanto ocorre, no gerúndio, o tempo real, o tempo em que neste momento escrevo... É difícil contextualizar esta História. É preciso enxergar de onde vem e para onde vai. Qual a origem e o passado dos personagens? O que defenderam e o que hoje defendem? É preciso enxergar para onde rumam as coisas. Se já aconteceu cenas e fatos semelhantes na História deste ou daquele país.

A História, enquanto ocorre, é difícil de ser digerida, mapeada. Uma esfera grande da população, como uma boiada, é conduzida. A mídia tradicional pastora e manobra, a seus interesses e a interesse dos seus.

É preciso combater. A História, enquanto ocorre, é como uma briga em um nevoeiro, é complicado de previr de onde e onde vai. O jornalista precisa estar como se estivesse a dois passos atrás ou a dois passos à frente, em local privilegiado de observação. Mesmo que tudo ocorra em tempo real, com ele no meio do tumulto.

O jornalista é diferente, sim. É privilegiado a observar e interpretar. Mesmo com tanta nebulosidade. Temos dados e alguns acessos sobre vários dos personagens principais. De onde vieram e, decifrando peças, para onde querem conduzir-nos.

Embora a falta de transparência, a dificuldade imposta para ler a situação, é preciso estar atento e também buscar agir. A imparcialidade, me desculpem, é o escambau. Não ter lado significa permitir ao lado dominante que continue sua dominação.

Não ter lado é permitir que os históricos impunes passem por cima novamente. Como, contextualizando, já ocorreu antes na História deste ou de outro país.

A tranca da porta não pode resistir mais muito tempo. Do meu apoio, resisto em troca de ideias. Não baixaremos a cabeça perante o cenário lamentável que se instaura.


30/03/2016

Encore, Encore

O mundo
Não há como abraçar o mundo todo
Mas queremos
Ao menos dar uns tapas nas costas
De consolo
A todo mundo que se sentir tolo
A todo mundo que se sentir nulo
Ao menos dar uns tapas nas costas
De encorajamento
Encorajar
Encorajar
Encorajar
A lutar para o dia raiar
Encorajar
Encorajar
Encore, Encore
Encorajamento
Para derrotar o mar do medo

12/03/2016

Transpassa

Quero permanecer dormindo
Pois sei que só em sonho
Quero seguir acordado
Pois só em sonho não basta
Outra noite em que o sol ameaça
E o plano fracassa

05/03/2016

Seca Aorta

Se até os verões somem
Tirando o calor do ar e da praia o homem
E as árvores fingem-se de mortas
No cemitério do outono que seca aorta
Por que, me expliquem, preciso a cada dia
Ressuscitar-me como se o produto
Dos meus pulmões fosse alegria?
Foto: Henrique König

20/02/2016

A Cólera E A Coleira

A cólera soberana sobre os olhos
A coleira, figurativa, nos pescoços
O qu'est-ce que c'est da vida, o imbróglio
O contentamento de roer apenas ossos

A cólera avança, toma conta
O nó da coleira é apertado
O ultraje que nos tinge, nos afronta
Dos pelos que não protegem da invernada

A cólera eufórica é o estandarte
Brilha forte ofuscando os outros brilhos
A cólera é a obra de arte
Proveniente do desandar de tantos trilhos

Encolhi-me à coleira que sempre aperta
Acolheu-me seu escravo aprisionado
Que pode enxergar, só por dentro, a porta aberta
Triste fim de um projeto inacabado

10/02/2016

Mas Te Vejo

A vida tem violência doméstica, tráfico de pessoas, de órgãos, drogas lícitas, ilícitas, deep web, mas também tem o refrão do Cidadão Quem.

Tem guerras, exílios, mercados escravos, repressões de regimes, fome, doenças virais, prostituição, mas também tem o refrão do Cidadão Quem.

Há crianças que perdem a infância
E há idosos que não tem onde cair mortos
Todos os jovens com a circuncisão da inocência
E os caminhos que os mentiram tão tortos
Foto: Henrique König


Nuvens

Nu vens, no mais
Não tem "jamais"
Se és meu sol
Já descobriu
Outros sistemas solares
Lares, bares
E mais malabares

Nu vens, no mais
Não tem "jamais"
Se és meu sol
Estou descoberto
Para te apanhar

Por perto de ti
É rotação
E a rotatividade
Invade em comunhão
Foto: Henrique König



24/01/2016

Vegetando Cólera

Os ponteiros do relógio caminham para o meio
Eu tomo o trajeto inverso rumo à solidão
Eu não fico alheio ao sofrimento alheio
Meu sofrimento é uma bola de neve em evolução

Faz frio, aqui dentro neva e ninguém verá
Nem o verão
Contos tardios despencam como as folhas do outono
Carneiros saltam a cerca na migração do sono

Lave as mãos e o rosto e tente sorrir
Na frente do espelho
Com os olhos mais vermelhos
Do que o coração
Com a cólera que brota em ti
Como vegetação

05/01/2016

A indústria

Há sempre a indústria
Indestrutível
Truste, tridente, terrível
Trivial

Há sempre a indústria
E a indústria anti-industrial
Sob um teto de astúcia
Alimentando um ego intelectual

Há a indústria fascista
E a indústria do brilho facial
Há a indústria carniceira
Carbonero, incêndio florestal

A indústria diz que é uma merda
Porque ela não pensou antes
A indústria diz que é distante
O que já aconteceu nesse instante

Há a indústria de Cristo
E a indústria anti-cristã
Fugir do teto da indústria
Forma a indústria do amanhã

A indústria com o prato vegano
Só pra não perder o cliente
A indústria molda o igual
Mas captura também o diferente