30/07/2021

A última caminhada

Tentei caprichar na última caminhada pelo meu antigo trajeto. Espero na vida ainda fazer muitas caminhadas, mas nunca mais será pelo mesmo trajeto pois vendemos a casa, o ponto de origem das saídas. Era um sábado de sol, até rareado em nosso nublado município, e procurei o centro da cidade, como de costume. Havia pouca presença de pessoas nas ruas, muitas cortinas de ferro baixadas até o nível da calçada. Os cães ainda não haviam levado seus donos para passear, como de hábito fazem aos fins de tarde. Avancei muitas quadras, na linha reta que nossa geografia permite.

Um ponto que me chamou atenção foi em frente ao albergue municipal. Um desolado estava sentado ao meio fio, meio cabisbaixo, para caracterizá-lo desolado. Outro, alto, bastante magro, como se um vento pudesse envergá-lo, saiu de dentro do prédio de entranhas a nós misteriosas. Ele trazia uma marmita e oferecia ao colega, que não consegui, na passagem de minha trajetória, identificar se aceitava, se iria comer, se declinava do convite, se refutava a bóia. Joguei meu olhar para um destino mais distante. Em frente ao albergue, para quem não sabe, localiza-se um dos hospitais da cidade. Lembrei da internação de minha mãe, quando eu justamente conseguia um emprego de verba importante, até para minha confiança profissional e cotidiana. Porém, minha mãe havia passado por delicado procedimento renal na mesma época, o que amansava qualquer sentimento positivo e, mais do que isso, nos preenchia de total preocupação na maioria das horas sóbrias.

Enderecei meu olhar para o maior alcance possível, para dentro daquele conjunto arquitetônico de janelas, que ameaçavam mostrar, mas não permitiam saber-se quem se ocultava para dentro do colosso hospitalar. Uma pessoa em pé também refletia no mesmo exercício, procurava acompanhar o movimento transeunte e dos raros carros pela via. Perguntava a supostos seres superiores sobre os porquês dessa vivência, procurava um modo de passatempo, cansada da programação de televisão aberta disponível, queria aproveitar a vista alta porque morava em uma casa, queria se sentir em casa pela vista alta porque morava em um apartamento, queria desviar o olhar da cena talvez bucólica e deprimente do quadro clínico na cama próxima, queria encontrar uma resposta da qual não tinha, na esperança que o próprio reflexo no vidro ou que a minha passagem, caminhando levemente curvado de fones brancos aos ouvidos, trouxesse. Espero ter ajudado.

Segui me ajudando ao procurar meu caminho pelas bandas da zona norte, região que acho feia pelo seu complexo de engenhos, mais ou menos abandonados, necessitados de pintura, manutenção, limpeza. Pichações ininteligíveis, uma escola em que minha avó trabalhou atirada às traças, da mesma forma que um prédio administrativo recentemente utilizado pela prefeitura. Prédios de funções cruciais no século passado ou em temporadas recém passadas. Restaurantes que trocaram de nome. Uma família na praça que bifurcava a rua logo adiante. Somente eles no banco do parque. Um casal, pelo que me recordo e uma criança a rodopiar, pequeno primata sobre sua bicicleta, procurando diversão enquanto os adultos apenas desfaziam o laço do enfado de qualquer fim de semana à tarde. A criança que pouco difere da presença ou ausência desses dias e quando se dá por conta caminha a esmo por sua terra natal. O adulto que sabe que sábado é folga e obrigação de aproveito, mas como fazê-lo? A criança sabe como agir e rodopia entortando o guidão da bicicleta, manuseando-o ora para um lado, ora para outro. Os ultrapasso. Encontro calçadas tão estreitas que preciso flertar com a ideia do meio da rua, contra os perigos dos carros em sentido contrário. Eu os vejo antes de me verem. Nenhum problema em desviarmos levemente o percurso.

Da calçada estreita, reparo em um conjunto de degraus que não bem representam uma escada, mas levam para um prédio de pequeno comércio, armazém ou farmácia - como são comuns por aqui as farmácias - para onde na vidraça em vitrine anunciam o jornal descontraído para quem se descontrai Diário Gaúcho. Meu amigo me informou outro dia quando ali passávamos que naquela escadaria haviam matado um ex-menino e agora ex-adulto que estudava conosco na mesma escola. Declinado ao tráfico de drogas teve o triste fim por encomenda bem cumprida através dos disparos que viraram anúncio na página dos nossos Diários Gaúchos locais, em foto do corpo estirado circulada por alguns meios virtuais - possivelmente, porque a mim não me interessaria ver.

Contorno essa calçada e prefiro investir pelo contorno da zona norte em shopping que só lembro tê-lo adentrado em distante infância. Prédio branco de arquitetura duvidosa e amplo estacionamento, por onde alguns gradeados condôminos olham para o exterior de suas vidas no espaço urbano. Eu contorno a rua e sigo em frente, ao esmo meio planejado de meus movimentos. Pelos condomínios observo e sou observado por vidas que há muito tempo habitam por aquelas bandas. São pessoas que curvaram o dorso mais do que hoje erroneamente me curvo. São cabelos que branquearam ou caíram, são casais que se criaram ou se desfizeram, são mortes que os separaram ou a plena vontade garantida pelas assinaturas em ata de divórcio. São casais recontratados, são novas e velhas uniões, são bodas das mais diversas cores. São gente junta com filhos distantes. São gente junta, com o filho ao lado esperando alguma ordem serviçal de busca ou entrega. São amigos que se ajuntam para curtir o solzinho no que no Rio Grande do Sul se ponderou em comum acordo chamar de lagartear e o dia estava propício para tal atividade preguiçosa.

Enquanto escrevo essa breve passagem, meu maior exemplo próximo, meus pais discutem os hábitos dos vizinhos que se interferem em nossa vida através dos ruídos que descubro próprios dos apartamentos, que muito afetam a ordem natural do desenrolar de meus pensamentos. Quase me misturo à discussão, mas prefiro continuar debruçado sobre minhas linhas. Onde eu estava? A zona norte. Os casais idosos. Os amigos de longa data. Os passos retesados, tensos, diminutos, calculados no anti-quedas. A oposição jovial a cruzar o caminho, de passos incertos, arrogantes, incalculáveis, inimigos da matemática mortal que sombreia a vida. Arrogantes por ignorarem o fim que a todos nós aguarda. Caminham determinados com o mate, com a cuia, com a certeza de mal de alguém falarem, de se atualizarem por seus smartphones. Visualmente namoro vultos, acompanho passos, ao mesmo tempo ciente de que não devo exagerar-me nas perseguições visuais, evito chamar a atenção quaisquer que seja e prefiro o trotar a esmo que volto a repetir como objetivo e finalidade. Abandono as visões mais ou menos agradáveis, me dirijo a outras, gosto da inconstância, gosto da improbabilidade, da probabilidade, da surpresa do que vou encontrar pela frente.

Passo por um par de charretes, comuns a nosso município, incomuns para o corretor ortográfico que aqui grifa em vermelho como se, assim como é para muitos, elas não existissem. Acompanho de revesgueio seus movimentos para dentro dos descartes alheios, o manuseio, na seleção, o subir e o descer do veículo, com a esperança que vem e que vai, como ondas. Não se comunicaram entre eles e nem eles comigo. Segui minha viagem. Reencontrei duas moças com as quais havia cruzado caminho mais cedo. Não entendi para onde iriam, já que a avenida de destino jovem era para o outro lado. Me dirigi para lá, passando dessa vez por guaritas de segurança para um trecho de bairro serpenteado por casas mais altas e subsidiadas. As guaritas correspondiam ao pouso/local de trabalho de porteiros e seguranças particulares contratados. Desafiavam o tédio com o gosto amargo do café, com palavras-cruzadas ou simplesmente procurando algum dorso para onde pousar os olhos.

Mais adiante, enquanto caminho entre as maiores casas do bairro, com garagens amplas e muros que escondem momentos alegres em churrascos ou tristes apesar dos dinheiros, me aproximo da avenida de maior público e passam por mim uma família de ciclistas: duas mulheres e duas crianças. Penso na minha incompetência para desbravar os mesmos movimentos sobre duas rodas. Sigo caminhando até perpendicularmente ultrapassar a avenida movimentada em direção a uma recordista de imóveis à venda, local onde os jovens gostam de disputar rachas nas tardes de domingo ou nas noites de qualquer dia. Me surpreende e surpreende a vários motoristas um desavisado na contramão, recebendo a saraivada de buzinas para que guiasse pelo rumo correto. Ele consegue um desvio para a rua lateral, onde some de minha vista. Apresento a dúvida constante entre o sol quente ou a sombra a esfriar no resfolegar do fim de tarde. A parede frontal do clube de tênis projeta uma imensa sombra até o asfalto da rua. As árvores altas que ornamentam a agremiação terminam o serviço de encobrir o sol. Não gosto de caminhar por entre os demais andarilhos e corredores, na via central, disputando espaço também com bicicletas. Prefiro a calçada mais distante dos holofotes crossfiteiros. Gosto de observar se há algum jogo de futebol rolando em um campo em que muitas vezes frequentei na infância.

Acho interessante quem diga que a algum lugar muitas vezes foi, sendo que não foi. Ao passo que por mais que tenha ido dezenas de vezes ali, ponho em dúvida se digo que fui frequentador. Mas fui, bastante joguei bola naquele campo da via central de traves inclinadas para trás, desde a construção ou sabe-se lá qual efeito do solo ou do entortar por forças humanas. Alguns batem bola, me questiono porque não jogam juntos, recordo da máscara em meu rosto, desgraçada pandemia e encontro assim a resposta. Melhor que cada grupinho jogue somente com os seus - quando vê nem deveriam jogar. Observo, também não quero chamar atenção, assim como também passo pelas pracinhas e tento adivinhar do quê as crianças brincam, se diferente ou semelhante aos meus passos de infância. Raramente entendo. E quem as entende passados tantos anos? Mais me afasto desse conhecimento tão importante enquanto me estendo por outras áreas que para o quê servem?

Transferido de calçada, rumo à direção onde bate sol, ainda encontro uma outra família que me chama atenção. Após a mãe passar com o pensamento desvirtuado e distante, segue-se a ela a dupla de crianças. Um irmão mais velho empurrando sua menor versão, uma menina dentro de um carrinho assim projetado para crianças. Ele tem um determinado semblante de insatisfação, pois, tão pouca idade, de certo gostaria que alguém o empurrasse. Os irmãos mais velhos cedo lidam com essas tarefas. Novamente frisando, a mãe adiante na calçada e o par de pequenos dando seu jeito de acompanhar os maiores e mais separados passos da progenitora. O olhar emburrado do menino gordinho ficou-me na mente. A menina, ignorando a empatia ao mano, sorria divertindo-se.

Tentei um olhar complacente ao menino que trabalhava na ingrata missão de carregador, mas não sei afirmar se ele compreendeu. Talvez mais adiante compreenda, se assim se deparar com essa reproduzida cena, conforme o passar das gerações. Para os últimos passos, regressei para minha zona de sempre, o supermercado abandonado por onde lacraram as paredes e, mesmo assim, pela fachada alguns montam acampamento nesses caóticos tempos de pouca política governamental de acolhimento e renda de susbsistência - milhões de desempregados. Pelo cenário das pichações e tendo como vista de seus barracões improvisados o pátio acimentado de onde havia o ir e vir dos carrinhos de super. Logo adiante, nem 50 metros, uma padaria com drive thru, novidade pandêmica, contrasta os pontos do retrocesso e do avanço, do que fechou e do que abre, de quem se alimenta e quem precisa lutar arduamente por algo tão básico. Um pouco mais adiante, me deparo que há o conjunto colossal arquitetônico de prédios dos mais altos de nossa cidade, por onde dizem viver muitos dos jogadores do Grêmio Esportivo Brasil. Grande obra em condomínio de gramas naturais e artificiais, salões de festa, portaria e outras exclusividades que excluem a nós passeadores de calçadas.

Mais adiante e mais condomínios, os mais velhos apelidados de Rua Brasil e mais adiante os novos blocos de prédios que erguem-se em velocidade absurda, mudando o cenário, o horizonte, a vista ao céu e tudo o mais do que me era familiar de bairro Areal - e já não o é. O posto de gasolina, a entrada para a rua em terra muito em breve asfaltada como nunca havia sido, meus pais que haviam morado ali três décadas atrás. Abandonam o bairro e agora a rua recebe a camada asfáltica. Típica para aplicar a Murphy. Pelos paralelepípedos distorcidos das últimas quadras, visualizo o senhor que sempre está parado ali com o rosto de olhar vidrado, que eu sempre tento cumprimentar; ele quase não se mexe, mas responde afirmativamente à minha tentativa. Todas as vezes é engraçado e ao mesmo tempo desconfortável e assustador. Tem obra na esquina, um parente meu distante e entrando para a idade idosa toca a massa obreira junto com jovens do sistema braçal, apoiando-se em empregos do que há disponível para fazerem. Costado de outro conjunto de prédios em rua de esgoto à vista, calçadas que somem e reaparecem, terrenos baldios, mas a maioria construída como bem quis o autor, de simulacros de palacetes a apertadas aproveitações de terreno. Chego a meu destino final, no fim do final da quadra, para meus últimos momentos em hoje, passados 14 dias, apenas sonhado bairro no invólucro sútil de minha mente.

Fim de papo.

27/07/2021

Sepultamento

Estou preso no buraco

Do apartamento

É um simulacro

De um sepultamento

Um dia eu vou

Um dia eu vou ter um treco

No outro dia vou ter mais nada

No outro dia eu vou ter um terno

E uma moradia fixada


Um dia eu vou ter um treco

No outro dia vou ter mais nada

No outro dia eu vou ter um terno

E uma moradia fixada


Um dia eu vou ter um treco

No outro dia vou ter mais nada

No outro dia eu vou ter um terno

E uma moradia fixada


Num dia a cabeça cansada

No outro dia eu viro um boneco

Em uma caixa embalada

Em uma parede de cimento


Num dia não se aguenta nada

No outro dia nem se tenta

Para dentro da gaveta

Rumo à outra morada

20/07/2021

Viagem ao Desconhecido - Ana - Capítulo 1

Ana havia estranhado que conhecia nenhum daquelas dezenas de passageiros. Ela já havia feito aquela viagem também dezenas de vezes, entre a região metropolitana e sua pequena cidade, Sertão Santana, ao sul de Porto Alegre, rumo ao Sul do Sul. Viu cada pessoa mecanicamente demonstrar o bilhete ao cobrador, que era um mero assistente do motorista. Ela impulsionou com dificuldade sua mala de rodinhas para o degrau correspondente das entranhas do ônibus. A bagagem de mão colocou a tiracolo e se dirigiu também para o interior da nave. Escolheu um bom lugar, deu-se por conta, nem tão atrás, para perto do banheiro, nem tão para frente, onde sentia-se inoportuna, como se atrapalhasse o trânsito dos transeuntes que embarcariam depois, embora dessa vez ela fosse uma das últimas a subir a bordo.

Deu uma última olhada pela janela que já iniciava o processo de embaçar-se pelo fluxo de respirações daquele diminuto enxame. Diminuto, porque, por conta da pandemia, o número de passageiros era reduzido no local e o acesso era restrito aos portadores de máscara. Ela aproveitou o espaço disponibilizado pela poltrona ao lado e melhor aconchegou-se. Afundada no conforto que lhe era disponível, mergulhou os olhos para o interior de sua mente, mantendo a visão encoberta pelas próprias pálpebras. Antes, verificou se a playlista de seu dispositivo conectado ao aplicativo Spotify estava de acordo com suas vigentes exigências. Estava tudo em ordem.

Ana acordou achando que havia perdido o horário. Sabia que a viagem não era tão longa quanto quando vivia em Rio Grande e o ir e vir da região metropolitana lhe custava mais no dinheiro das passagens e mais horas empobrecidas por escutar somente suas repetitivas canções, vez ou outra alternadas por novas descobertas dos últimos tempos. Sabendo que Sertão Santana não distanciava-se tanto da capital do estado, era possível que houvesse cochilado e perdido a saída. Mas, ao olhar pela aparente normalidade em sua volta, concluiu também que se perdesse a hora de saltar seria notificada pelo mesmo assistente que apoderava-se de seu bilhete no embarque. "Estava tudo em ordem", repetia mentalmente para si mesma, talvez balbuciando o final da sentença com a ponta dos lábios.

Mas uma coisa chamou sua atenção a um par de segundos depois. Mirando em frente, para a poltrona imediatamente dianteira a seu nariz, notou que o nome da empresa era DATA, diferente da que muitas vezes viajou, a DATC. Primeiro sentiu-se delirante pelo efeito sonífero de suas horas de inércia e resolveu contrapor a vontade dos especialistas em tempos pandêmicos (os infectologistas) e passar as costas dos dedos, os nós sobre os olhos. Retirou qualquer princípio de remela que se formaria naquele lapso e correu panoramicamente a vista, em um movimento traveling, como a câmera de um filme rodado em primeira pessoa. Notou o pior, para certificar de que o erro não era o captado pelos olhos: todas as poltronas, mais cerca ou mais longe, informavam que a empresa de transporte que a conduzia a Sertão Santana (ou para onde?) era a DATA.

Em seguida, notando a ainda total apatia e tranquilidade dos demais passageiros mascarados, sem reconhecer um único rosto que lhe fosse comum do cotidiano de pacato município emancipado em 1992, tentou adivinhar as respostas com seus próprios recursos. Trazia consigo um cafona relógio de pulso, que, para sua surpresa, o descobriu travado em um horário muito próximo ao de embarque. Como poderia isso? Em seguida, sacou da bolsa o celular que traria a resposta do horário e outras tantos, tudo isso ao alcance de poucos códigos a serem destrinchados pelos inquietos dedos. Mas, ao tentar a senha para liberar a tela inicial, foi surpreendida com o acesso negado. Tentou novamente. Ora, Ana, acorde logo, está perdendo tempo errando coisas que nunca erra. Um relógio de pulso com problema de bateria, um celular com bateria, olha ali, 93%, mas trancafiado pelo seu eleito esquema de segurança. Tão seguro que agora nem ela conseguia liberá-lo ao uso. "Droga" - exclamou e era possível que seus passageiros vizinhos pudessem ouvi-la a lamuriar.

Um senhor que apenas tentava esconder o bigode proeminente sob a máscara, com um rosto magro que lembraria o de um personagem Mario Bros envelhecido, a observava com um olhar atônito, circundando a barreira do indiscreto, diria-se. Percebeu, como era de costume, a quantidade significativa de população velha no veículo. Estranhou que, pelo tanto que pensava ter dormido, não havia sinal ainda da chegada ao município de Sertão Santana, ela que praticamente decorava cada buraco que o ônibus colidiria na estrada, fazendo balancear-se suas 18 toneladas sobre. Ficou cada vez mais inquieta e passou a tamborilar com os dedos, que lhe restava fazer?

Não queria utilizar o banheiro do veículo, pela pandemia e porque nunca quis, nem em outros tempos, claro que não queria. Mas resolveu ir para lá, dirigir-se aos fundos, 50% da intenção para realmente aliviar-se, fazia tempo não urinava, outros 50% para tentar puxar uma conversa sobre a demora da viagem e descobrir o que estava acontecendo. Trôpega, mas nem tanto, observando que a estrada devia ter sido requalificada desde a última vez que deixara a capital para aqueles rumos, a visitar seus pais, eles já vacinados, ela ainda não. Apoiou levemente a mão somente sobre algumas poltronas, tomando o devido cuidado de encostar em nenhum topo de cabeça, entre aqueles pelos grisalhos do que um dia foram louros, outros plenamente entregues à calvície. 

Não viajava com os óculos para leituras próximas, provavelmente estava estojado para dentro de sua bolsa, que permanecia inerte sobre a poltrona enquanto ela tentava entender aqueles símbolos escritos à porta do banheiro, quando estava interna a ele. Havia um aviso, desses das companhias de transporte sobre o bom uso dos dispositivos e também haviam algumas pichações que desocupados faziam ao fingirem-se de ocupados com as necessidades fisiológicas: jovens. Cada vez mais tonta, criando quase uma poderosa vertigem, deu a descarga, lavou as mãos e começou o caminho inverso ao que fizera. Inclinou-se um pouco, quase de joelhos, distribuindo sua massa para equilibrar-se a algum desavisado solavanco. Queria assim tomar a atenção de uma senhora. Ignorou o distanciamento social em busca de derradeiras respostas.

- Demorando a viagem hoje, né, senhora?!

Nada de resposta. Ela não parecia ouvir direito. Com a noite que caía, o semblante em frente, em riste, queixo levemente arrogante.

- Sabe se falta muito para Sertão Santana? - Insistiu Ana.

A senhora dessa vez se virou, entre o bruscamente da surpresa de alguém falando com ela, que parecia absorta em qualquer pensamento que o valha, e o calmo e sereno de quem não devia satisfações àquela intrometida. Com a boca coberta pela máscara, a senhora não hesitou em enrugar, franzir a testa o máximo que pôde para exprimir seu total desconhecimento sobre o que a desconhecida falava. Não havia modo de se entenderem.

- Desculpe - disse por último Ana, já embrenhando-se pelo corredor rumo ao seu lugar, nem tanto atrás, nem tanto à frente. Arriscou uma olhadela para trás e certificou-se da cena que a vez rubrar por sob a máscara, mas sem que pudesse esconder a transmissão de sua vergonha: a senhora a encarava, aparentemente ainda incrédula pelo encontro repentino.

Ana quase errou os passos, por pouco seus joelhos não conheceram deliberadamente o solo do corredor, precisou apoiar as mãos mais do que gostaria. Para completar o vexame que só ela (e a senhora?) sabia carregar, encostou na careca de um dos vovôs à sua direita. Era um princípio de pesadelo, sem dúvida. Maior ainda tornou-se quando o ônibus, com Ana já recostada, querendo proteger-se de corpo e extremidades todas para dentro das roupas, tal qual uma tartaruga em modo de defesa, na falta de uma terra fértil para o movimento do avestruz, o ônibus guinou em curva à direita, à qual Ana não fazia ideia de qual entrada significava aquele trajeto. Deparou-se ela pela janela que tratava-se de altos e góticos portões de ferro retorcido em bonitas e trevosas formas e pintura. De pronto não sabia se aquela bem retocada pintura a assustava ainda mais no tom brilhoso do negro ou se uma ferrugem tornaria tudo mais decrépito e inacreditável. Uma placa confirmou sua total e horripilante suspeita, aponderando-se de si uma realidade inacreditável: estava ela, pelas formas vistas ao longe, não mais pela leitura embaçada de seus olhos de perto, placas que indicavam que ela estava em algum lugar perdido e oculto pelo leste europeu.

Como sair dali?

19/07/2021

vento na janela

a janela bate com o vento

na constância de um ritmado pêndulo

faz pensar minha decisões vividas

faz pensar as que ainda serão decididas

faz pensar em como todas doem

faz pensar onde elas podem

me levar

o vento sopra na sua inconstância 

me leva daqui aos tempos de criança

às vezes leva embora às vezes traz

minhas ânsias 

às vezes a paz forma com ele aliança

e com vento a janela balança

traz com ela o corvo de alan poe entre outras

lembranças

e se hoje a umidade não a embaça

do corvo e dos tempos restam sobre ela

carcaça 

o vento animado ou só fazendo seu trabalho 

rebatendo-se nos galhos das plantas

traz maior preguiça para quem se levanta

traz a esperança a quem fica deitado

o vento personagem central audível 

de acordo com quem ele contata

bate na murada, na calha e na estátua

bate na escada, nas folhas farfalha

em tabela da janela aos meus ouvidos

trilha sonora dessa hora dos pensares

desconhecidos

se sobrepõe por novos caminhos

entre idos e vindos - trajetos perdidos

entre os achados segundas domingos

e álbuns de fotos há tempos sem carimbos

pelos carinhos há muito acabados

pelos clamores há muito apagados 

pelos amores que já não me desperta

não é possível com esse vento deixarem

janela aberta 

Alma dos Mortos

Se o vento fosse pela alma dos mortos estaria ventando pouco ainda. Pelotas, julho de 2021.

Tento proteger-me dos fins trágicos enquanto observo tantos outros.

17/07/2021

Pá Virada

Não quero buscar tratamento como se eu tivesse que necessariamente ser corrigido como em uma esteira fabril. Quero saber lidar com esse formato de pá virada.

Saber lidar é o bastante. Como lidar é a incógnita, tremenda variante fugitiva, escorregadia por entrededos.

Compondo sóbrio e sábado

Sábado e sóbrio e compondo

Pondo uma palavra após a outra

Pondo uma pedra após a outra

Sobre o poço da tristeza


Compondo sóbrio e sábado

Pondo um dado após o outro

Pondo um fato após o outro

Subindo por inevitáveis escadas


Compondo sábado e sóbrio 

Pondo um imbróglio após o outro

Sobrepondo e sobrepondo

Até que o coração inchado de tantos sábados 

Pareça novo

Pondo para fora

Por mais uns minutos, por mais umas horas

Vislumbrando ao longe aurora 

Como um pequeno ninho: domingo

Mundo Ruim

Será que (só) nós (iniciados) sabemos que o mundo é (tão) ruim (assim) ou apenas nós sentimos o quão ruim ele é? Fato é que para nós ele é péssimo.

Procura-se

Procuro fazer tudo certo. Sei que não vou conseguir, nem que adiantaria caso conseguisse.

O mundo é o todo e nos escapa. 

O melhor foi ontem

Arrumando as mudanças para trocar de casa me dei conta de que o melhor dia sempre será o que já passou, porque a dor do dia também já foi.
O melhor dia sempre será ontem.

Como escritor

Como escritor, sempre pensei em contar as tragédias e não vivê-las.

14/07/2021

Reflexões sobre o filme Salt and Fire

Não se escreve mais sobre as estrelas porque as cidades nem as deixam vê-las.

Aprendi que todos os gestos, ações e palavras podem contagiar os outros e criar memórias que nem fazemos ideia que geramos.

O deserto sempre é autoconhecimento.

Quando não houver mais para onde ir, para onde vamos?

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"A Verdade é a filha única do Tempo"

09/07/2021

nouvelle vague

eu queria viver contigo uma nouvelle vague
eu queria estar contigo até que o dia acabe
eu queria escrever contigo algo que ninguém apague
eu queria viver contigo uma nouvelle vague

eu queria viver contigo um filme francês
eu queria estar contigo até que acabe o mês
eu queria começar contigo no era uma vez
contigo eu quero terminar com toda a lucidez

eu queria viver contigo uma nouvelle vague
eu queria viver contigo algo que ninguém pague
eu queria abrir contigo portas que ninguém abre
solucionar, solucionar contigo coisas que ninguém salve
compartilhar, compartir contigo coisas que ninguém sabe
e alternar e viver contigo mesmo em outra vibe

arquitetar contra o inimigo um plano de maldade
e fugir, se esconder contigo em um esconderijo
e na fuga revezar contigo, tu dirige, eu dirijo
acabar em qualquer lugar, teu olhar como abrigo

eu queria viver contigo uma nouvelle vague
acabei escrevendo uma música pela metade

despluga que acabou

02/07/2021

Tomar um Veneno

Agora eu vou tomar um veneno
Por aqueles dinheiros
Por aqueles sentimentos
Por todos aqueles que estou devendo

Saúde para todos!
Todos menos pra mim
Benção para o povo
Que chegou o meu fim

Agora eu vou tomar um veneno
Uma pena que disso tudo eu desconheço
Se me perguntar, não sei qual recomendo
Pode ser indolor, pode ter mais dor
Essa diferença é o de menos

Pois agora eu vou tomar um veneno
Por aqueles do poder
Por aqueles que almejam
Por todos aqueles que estão vivendo

E um viva para todos!
Todos menos eu
Do mais velho ao mais novo
Praquele que nem nasceu
Deixo aqui meu 'boa sorte'
Que hoje vou aos braços da morte

Agora eu vou tomar um veneno
Qualquer nome que soe esloveno
Qualquer nome que soe eslovaco
Pode chamar que agora só tem vácuo
E procurar meu CPF cancelado

A Última Dose

Agora eu quero ter um final trágico
Por incrível que pareça é muito mais fácil
Do que os momentos que são mágicos
E chegaria tão rápido e tão ágil
Quando se dá conta já partiu

Agora eu quero ter um trágico final
Por óbvio que é muito mais fácil
De rimar
Coloca qualquer coisa legal
Que você não vai decepcionar

Agora eu quero um laço transparente
Que me enforque que me deixe
Sorridente
Um laço apertado com dois nós
Eu não aguento nem mais eu

Não vai ser a primeira pessoa
Que vai se acabar nem tão à toa
Também logo não vai ser a última
Que chegou à essa máxima culpa

Agora eu quero ter um final trágico
Por incrível que pareça é muito mais fácil
Do que os momentos que são mágicos
E chegaria tão rápido e tão ágil
Quando se dá conta já partiu

Agora eu vou beber a última dose
No obituário chamada de overdose
Espero que alguém que se preze
Seja quem escreve sobre essa morte

28/06/2021

O que é

Te questionaram o que é poesia e

Percebi que as melhores coisas que faço não sei ensinar


Sinta mais

E se nada te vem, admira

a wislawa szymborska

tento ressuscitá-la, poeta morta
mas ninguém se importa
além da minha mente que estala
da minha mente que instala
suas acomodações, noite outra

confiro sua data de nascimento
teria noventa e oito hoje
quase lhe desejo morta
para melhor dedicar-te o poema

primo sempre pelas rimas
como podes ver acima
como preferes os teus assim, sem açúcar
com um pouco esforço a gente muda
e agrada a visita - já tão íntima

adoro seu senso de humor
estrategicamente mais defensivo que ataque
forma assim bela práxis
se é que para isso algo serve

sorvo tudo que trazes
em temperatura ambiente
o frio de hoje em tua homenagem
penso nos campos de lá, daqui as pastagens
e nas palavras - ruminantes repetentes

absorvente de teu humor
em alto teor, de timbre e de álcool
solução que nada cura, mas banha os problemas
dilacera o que era puro eczema
e agora é nosso - porque tu o inspiraste
poema

14/05/2021

passado contínuo

eu perco muitos dias
com meu humor que tudo rechaça
eu perco muitos dias
como a comida
perde o gosto sob a cachaça

eu perco muitos dias
dos que passaram a nada que se faça
fácil pensar que eu não perderia
depois de passada a desgraça

eu perco muitos dias
outros dias eles que me perdem
nada a mais de fantasias
de paraísos e eden
mas muitos desses dias
já seriam dias que me servem


09/05/2021

por dentro

me preocupa
a tua cuca não entender
me ocupa
a missão de te dizer

tanta coisa oculta
tanta coisa a transparecer
e a luta
que resulta
tudo isso no ser

quantos porcento eu faço
do teu motivo
do teu cansaço?
quantos porcento o erro crasso
absolvido
do resultado?

me preocupa
a luta que importa não aparecer
me ajuda
a mostrar o que dê

tanta coisa oculta
tanta coisa a transparecer
e a luta
que resulta
tudo isso NÃO ser

quantos porcento eu meço
no teu caminho
no teu progresso?
quantos porcento eu me desfaço
quando me despeço
no teu abraço?

quantos, quantos porcento
eu me aumento
contra os teus percalços
no meu intento?
quantos, quantos nem me lembro
quantos dias se foram
desde aquele mês-embro...

por dentro não meço os porcento
por dentro o tempo não esfacela
o quanto eu me lembro
eu me lembro dela
por dentro não meço os porcento
por dentro o tempo em outras janelas
o quanto eu me lembro
a lembrança aquela

08/05/2021

Breve Profecia

Eram 18h15 de um dia do meio de maio. O relógio da parede ainda não havia perdido o fôlego dos ponteiros, que se arrastavam obstinados. Um sobre a mesinha ao lado da cama confirmava a ditadura imposta pelo primeiro. Se não estavam sincronizados, o primeiro ganha do segundo por um piscar de olhos. Viviam empatados. Empatada estava a comorbidade da senhora repousada sobre a cama, única posição que lhe apetecia para esperar a divina sentença. O obituário, o testamento, o luto, o preparo com a funerária. Tudo isso já havia sido providenciado. O estado de saúde era irreversível. Um homem, criador de cabras de 30 e poucos anos estava sentado sem apoiar as costas no abandonado encosto da cadeira. Ele apoiava as mãos em altura relativa ao peito, suspendendo ambas sobre a extremidade de uma velha bengala. A mesma de seu falecido pai.

Ele possuía o dom de prever a hora exata em que uma pessoa cruzava a derradeira linha, dessa para, diziam, ou costumavam dizer, para uma melhor. E de repente ele, em mais uma das voltas do ponteiro do relógio, levantou-se sem sobreaviso e foi comunicar a família. No cômodo ao final no corredor, na sala, anunciou de pé o respeito pela fatalidade que viria a ocorrer ainda naquela hora. Tirou o chapéu da cabeça, inclinou-a em pesar e enrugou a testa como que a procurar em uma bolsa o bilhete da exatidão. Fez um gesto com a mão que soltara da bengala como se afastasse a um imaginário inseto. Voltou a apoiar ambas sobre a extremidade do cajado. "Vocês me perdoem, mas não me está claro se 18h56... ou mesmo 18h59, mas das 19h não passa, não há dúvida." Repetiu o gesto com a mão em um capricho, ou mesmo um cacoete que não poderia ignorar de torná-lo a fazer.

Sua fama era tão absoluta na localidade que já havia recebido antecipadamente. Não cobrava um valor exato por seus serviços, por mais que não falhasse nos comunicados. Mas a ajuda de custo era sempre bem-vinda, afinal, era um simples criador de cabras e a profissão convivia com o desprestígio e com as limitações financeiras em vigente crise nacional. Cada vez que alguém adoecia gravemente pelo povoado, ele era convocado porque, mesmo sem mexer um músculo em relação a agentes funerários, questões burocráticas ou de preparações para os ornamentos das primaveris e floridas despedidas, era ele quem determinava a hora em que passariam aos próximos passos, adiantando os inevitáveis acontecimentos. Dessa forma, era confrontado por quem não aceitava as inegociáveis verdades. Ao mesmo tempo em que recebia por aquele mítico complemento de renda, também acumulava maldizeres, acusações das mais baixas, críticas às suas maneiras enigmáticas de descobrimento. E, sobretudo, ninguém entendia porque a capacidade de previsão era reservada para, no máximo, duas horas antes da fatalidade. Ele nunca previa a morte com maior antecedência, para o lamento daquela comunidade que já lhe confiava nos poderes.

05/05/2021

Vidas que perambulam

Seguidamente cruzamos com vidas que consideramos malditas e nos imaginamos no lugar delas mas apenas por alguns segundos ou minutos e logo as esquecemos, em troca de novos pensamentos. Enquanto isso, aquelas vidas ainda estão a perambular em busca de alguma verdadeira piedade e de algum conforto.

23/04/2021

Pós Travessuras da Menina Má

Comentaram intensamente sobre hoje ser uma dessas datas, um Dia do Livro. Mediante o conhecimento dessa informação, confesso um esforço a mais para terminar As Travessuras da Menina Má, mais um livro do peruano Mario Vargas Llosa, este que lhe rendeu simplesmente o prêmio Nobel de literatura. Cheguei à conclusão e não me surpreendi com o desfecho, sendo Vargas Llosa expert em preparar esses terrenos, que, se fossem comparados a terrenos, literalmente, seriam terrenos castigados pelas ações corrosivas do clima e pela ação degradadora do ser humano.

Mais uma vez encontro-me diante do cursor do mouse que pisca e me convida a transpassar minhas impressões para o espaço em branco. Imagino, nessa hora, o saltear dos demônios internos em direção à máquina, para o devido lugar em que ora tento posicioná-los, enfileirá-los, domá-los. Tarefa difícil que somente cada escritor sabe o quanto enfrenta. Nessas horas, penso também em todos aqueles que passaram por essas missões com a pena e a tinta em mãos, nos pergaminhos demorados e sagrados de antigamente.

Este livro abriu um preâmbulo sobre a vida que tenho a encarar pela frente. Missões e mais missões como essa que ora me dedico. O personagem principal, um tradutor, um peruano que lançou-se à Europa como meta e sonho, o principal deles viver em Paris. O reencontro com a menina que realmente amou. Ela nunca o tratou bem. Ele é insistente por ela, mesmo sendo usado. Me faz questionar o que temos de propósito para essa passagem, para essa existência. O trabalho dele, que circunda a narrativa, a tradução, é bastante nobre. Embora muitas pessoas reduzam o valor presente nas palavras, imagine o inalcançável tom que diariamente nossas palavras, mesmo o que aqui escrevo, não encontram na maior parte da humanidade, porque a maior parte da humanidade não dispõe dos conhecimentos necessários para decifrar o que é dito ou escrito em nosso idioma. A tradução é fundamental. Os tradutores, de encontros da Unesco, como ocorre no livro, ou em outras ocasiões, são também embaixadores pela paz. Mas esta ideia sobre a tradução apenas permeia a narrativa principal: os encontros de Ricardito com a menina má.

A transposição das ideias desse livro, que não fui atrás da informação mas deve ser de conhecimento a nível mundial, vide o prêmio Nobel, para indicarem algum rumo à minha vida é um egocentrismo desvairado. Por óbvio que é. Mas, ao mesmo tempo, me encontro contente pelo papel que a arte desempenha em atiçarmos-nos, em buscarmos inspiração, coincidências e motivações. A arte cumpriu sua missão. Foi um pouco antes de iniciar a leitura dessa narrativa, mas após já ter a ideia de comprar o livro, sem saber exatamente do que se tratava, foi aí que aprofundei, afunilei minhas conversas com a que tracei o paralelo de que ela é a minha menina má. Tal qual a personagem principal, a amante de Ricardito na história, ela também oferece um amor até inesperado pelo que se propõe entregar-se em madrugadas. Promete, estende tapetes e logo recolhe mundos e fundos. Tudo isso pelo efeito do álcool ou pelas suas ideias mais resguardadas que erupcionam verdadeiras nessa hora. Com minha maneira de gato escaldado, mantenho o pé atrás, a distância necessária, mas pronto também para um possível recuo estratégico que represente o impulso para o grande salto. É sempre um risco, mas é uma aventura, uma adrenalina, uma vertigem, um sentimento de sentir-se vivo que muitas vezes parece em falta nas gôndolas padronizadas dessa passagem. Tal qual Ricardito, sinto que saltaria por ela ou faria outras loucuras ou, como na própria linguagem do livro, faria as breguices que fossem necessárias como provas intrínsecas à essa situação.

Se preencho bem essa lacuna como o Ricardito, por sua vez, sei que ela enfrenta sentimentos suicidas e a incredulidade quanto ao amor romântico. Também me posiciono reticente quanto a isso, mas o sabor dessa vivência como um sabor de sorvete que sabemos não voltar a experimentar da mesma forma, parece-me válido. E quanto mais ela repete que no amor romântico não acredita, mais estudo aplacar nisso um reverso em que na verdade ela acredita, caso contrário não o citaria tantas vezes. Por que tanto falaria de algo que considera não existir? Ao mesmo tempo sei o quanto ela se sente confusa, talvez exatamente por esse conflito interno: existir ou não existir? Eu ou quem nessa narrativa? Como ela é muito acima da média em todos os requisitos, não me tardaria criar fantasias ilusórias e de ciúme sobre quem ocuparia meu lugar quando ela passar a acreditar no que afirma não crer. Não acredito em destino, mas considero muito bonitas as nossas coincidências.

Não acredito que meu destino seria tão belo quanto ela. Distante do positivismo, afastado dessa possibilidade afirmativa, o mais comum seria aceitar que ela realmente não crê na exploração de um amor romântico, este que seria altamente lindo enquanto durasse - quanto duraria? tu também, "Ricardito", tão efêmero sentimentalmente e enjoado e criador de fantasmas paranoicos buuuuu - ou, caso ela acredite, caso ela passe a acreditar, não seria contigo, Ricardito, por que seria contigo? Que tens de mais? Tu que, sendo tradutor ou professor ou o que for, também não terás os recursos para o conforto e a hospitalidade necessários para essa vida conjugal burguesa. Tu que, em casa, encontras apenas o exemplo pragmático de teus pais, que se confortam no desenvolver das tarefas, mas enxerga neles o auge da primavera amorosa como passado, distante do despertar de cada nova manhã e do horizonte futuro. Tu que, mesmo assim, lê, ou melhor, apenas passa os olhos, ignora as dores, os espinhos e os machucados das entrelinhas e aceitaria os termos de uso. Tu que avalia que é melhor existir o amor nessas condições efêmeras que findam logo adiante, em alguma esquina, do que conviver com a inexistência dele. O vazio de não vivê-lo. Pois é, pois é, talvez seja melhor pegar a lupa para esmiuçar a leitura das tais entrelinhas. Elas são perigosas. Alta periculosidade.

Enquanto isso, barcos que se movimentam no fluxo fluvial de algum porto. Não falando agora de amores, mas de livros, obviamente. O fluxo dos livros. Foi-se mais uma leitura e a próxima, o que poderá reservar? Tu, Ricardito (gostou do apelido, sonhador Ricardito?), tu que enfeitas tua existência no rabiscar mais ou menos ordenado das palavras, tu que és pastor delas e não te importas (não muito) que algumas te fujam o controle, porque sabes que faz parte na totalidade do rebanho. Tu que terminas mais um livro da leitura e pensa o que isso pode te ajudar num futuro teu. Num futuro, futuro mesmo, tempo a ser vivido, ou mesmo num futuro livro, quem sabe? Exatamente, Ricardito, quem é que sabe? Quem é que sabe de ti mais do que tu? Quem é que sabe da tua niña mala ou de que qualquer outra que te cruze o caminho? Assim sendo, que venham outros livros. És um influenciado. És uma esponja absorvente dessas narrativas. És um ser que vomita literatura sempre que termina alguma refeição oferecida por ela. Um anoréxico literário. Um viciado. Guardas quase nada em teu corpo, expões muito. Pões para fora. Um insaciado nesse campo difuso e eternamente exploratório, do qual nunca vencerás nem te darás por vencido. E nesse campo viverás, nas limitações e nas infinitudes previstas desse vasto campo.

Um sonhador que agradece aos livros enquanto não te encontras com as travessuras dessa ou daquela menina má.

21/04/2021

A estrada se afasta e se reconecta com o mar e é sempre bonito quando acontece.

Passado e Futuro - ensaio sobre Nomadland

Em um lugar seguro
Por dentro dos muros
Entre quatro paredes
Ou com a sede
De saber do mundo
Estender a rede
Olhar pro céu escuro
Para as estrelas
E sorrir pra elas
Que brilham tão belas
Passado e futuro

15/04/2021

Gostos

Estou aqui com raro lapso de tempo, mas sem assunto. A cabeça incomodada por causa de futebol. Tão 2011, tão atual, dez anos depois. Achei que muita coisa desse naipe passaria a não me atormentar mais, mas vida de torcedor deve ser assim mesmo. Só que uns sofrem mais do que outros, naturalmente, como ocorre em diversos ramos da vida. O futebol é novamente a metáfora maior para equiparar outros problemas. Do contrário eu não teria terminado a faculdade de Jornalismo com TCC que ornamentava situações como essa. O jogo e a vida, lado a lado, correndo e ocorrendo em paralelo.

Antes de aqui iniciar, pensava sobre o quadro de conseguir me expressar às vezes melhor no diminuto número de léxicos que conheço em outro idioma do que na própria língua materna do português. Por conhecer menos palavras, as utilizo o melhor que posso, quase como se fosse uma... uma das mãos, uma das rodadas, como queiram, em um jogo de cartas. Tu jogas com o que tens e segue em frente. Assim componho minhas atividades para o curso superior de espanhol, que tenho feito.

Lembrei ainda sobre o Grêmio, motivo maior da cabeça inchada, inflacionada por outros clubes derrotados na Europa, aqui e acolá, lembrei sobre o Grêmio das ocasiões de sua temporada vencedora - uma das raras que acompanhei. E de fato acompanhei porque estive lá em dois duelos da Libertadores 2017. Nas quartas e na semifinal e foram totalmente distintos. Nas quartas o dia da viagem foi perfeito. A viagem, o velho Hamilton, a pessoa mais engraçada que já vi para excursões, suas piadas repetitivas ou bem boladas de improviso, como um seriado de um homem só. Ele e a plateia. E está feito o Hamilton com suas ideias mirabolantes. Além do velho Hamilton, a promessa que eu tinha de conhecer uma das pessoas mais especiais com as quais tive contato. E deu tudo certo naquela ocasião. Nosso nervosismo pré-jogo, até o meu antes aparente tanto faz caso o Botafogo passasse, deram lugar ao nervosismo de uma torcida crônica, os mais de 15 anos em que me apegava àquele clube. O gol da vitória surgindo no minuto no qual consegui ligar o rádio do celular e sintonizar na partida. A reza do narrador gremista Cristiano Oliveski, como ele pediu - para Deus, para o Orixá, para quem quisermos. E apoiados nisso a bola entrou no exato lance. Tudo conspirava a favor. Por ter sintonizado o jogo no celular, não sei como, mesmo com o estádio ali, tive a informação do gol antes e saí a vibrar antes que a televisão do bar à frente denunciasse. Tudo isso na vila Farrapos, no Humaitá ou seja lá como chamem o bairro em que ora se aporta o Grêmio Porto Alegrense.

O panorama se dividiu bruscamente para o jogo da semifinal. Passados os meses e tê-la conhecida melhor, poderia eu não perceber, embebido na paixão daquele ano, que as estruturas provavelmente já derrapassem entre nós. Na tarde em que adquiri lugar para excursão, tomei um caldo do maior granizo que já presenciei na rua. Achei que o teto dos carros iria ceder danificado e impactado de tantas pedras. O que seriam de nossas cabeças, abaixo dos toldos, devidamente protegidas, se toldos não houvessem? Após esse alarmante episódio, na semana de expectativa enquanto isso, o pensamento estava mais nela do que no jogo, pois os 0x3 conquistados fora de casa na partida de ida traziam a tranquilidade para confirmar a classificação à final. Bom recordar que também o adversário, o equatoriano Barcelona, havia eliminado o Santos na fatídica noite descrita das quartas de final. Naquela noite perfeita. Oh, sim. Mas na semifinal, pelo contrário, tudo passava a piorar quando o ônibus teve um problema no câmbio da marcha e quase não conseguia adentrar nos caminhos de Porto Alegre. Havia sim o registro do desespero. Não sabíamos se seria necessária a troca de veículo para a derradeira viagem de volta. Para aquele dia, combinei com ela de nos encontrarmos. E nos encontramos. Na verdade, antes, não consegui achar um amigo meu pelos entornos abarrotados de gente. Era muita gente, eram muitos ânimos, estávamos todos apreensivos, efusivos e nervosos, como o preceder de qualquer decisão, apesar da larga vantagem no placar. Não encontrei os amigos meus, não tive tempo de combinatória disposição, mas tive meu requisitado tempo com ela. Para o lado de fora, o bar em que assistimos às quartas de final também não estava com a televisão funcionando. Lembro do mesmo bonachão sujeito que bem nos atendeu meses atrás e que dessa vez acabou por lamentar a perda do aparelho televisivo sem sinal e, assim consequentemente, perdeu a clientela para as bebidas e lanches da noite. Santo Expedito o nome do bar. Chamado carinhosamente por um dos frequentadores de Dito. Pois que o Dito não iria transmitir o jogo e parece que os demais bares haviam sumido, evacuado, fugido de órbita. Conseguimos encontrar um local de lanches, meio bar, meio fusão de cada. Piores acomodados do que da outra vez, o novo descaso foi uma bateria completamente desalinhada. Um barulho que tentava impulsionar um clima de jogo para o lado de fora, mas era mais uma perturbação em nossos ouvidos. Sintonizei no rádio pela Rádio Grenal, talvez a primeira a qual consegui sintonia. De nada adiantou sintonizar sinal FM, pois o desempenho do time em campo era arrastado e agoniante. Sofreu o gol e a consequente derrota por 1x0. Dessa vez não havia velho Hamilton no ônibus para nos consolar com suas anedotas. Aliás, tirando minhas impressões individuais, talvez nenhum dos demais borrachos necessitasse realmente de algum consolo. Ora, a equipe tricolor havia passado para a decisão da Copa Libertadores, apesar da derrota na volta. Placar agregado de 3x1. Na saída, aí sim um outro inconveniente se formou logo ao apito final. No meio da rua que corre paralela ao estádio, um dos policiais militares responsáveis, há quem assim defina, pela segurança do local, esvaziou sua lata de spray de pimenta contra o ar, fazendo com que as partículas ferissem alguns transeuntes que comemoravam a tal da classificação. Embebido em álcool, tentei argumentar aos gritos e urros sobre a atitude covarde do oficial de farda. Não me ouviram. Passaram adiante. Se distanciavam. Nenhum colega de serviço dele deteu-o pela atitude acometida, grosseira, canastrona. Criminosa. Os policiais impunes como sempre. Em seguida, se multiplicavam os torcedores nas ruas pela classificação recém adquirida. O spray de pimenta havia se dissipado, mas minha lembrança não. Mais uma memória, desde o absurdo do granizo, o maior que já sofri estando na rua, o câmbio estragado do ônibus que graças a quem quer seja estava consertado e prontificado para voltarmos à nossa cidade, o bar com problema da televisão - pobre Dito, perdeu renda naquela noite, aliás, como devem estar na pandemia? A falta de público; cruel - o desempenho pífio em campo, embrulhado no regulamento pela vantagem adquirida no jogo de ida, segunda derrota na campanha quase perfeita, a batucada que não cessava do primeiro para o segundo tempo, dos que poderíamos declarar inimigos do ritmo, até finalmente o problema de ordem policial contra torcedores causadores de nenhuma infração. Sucessão de desgraças que, salvo me engano, demorei mais a descrever do que as coisas boas.

E assim nos conduzimos muitas vezes. Mais empenhados nas falhas do que nas comemorativas conquistas. Tanto tempo a mais de sofrimento do que ocupados pelas efêmeras glórias que nos povoariam o âmago. Âmago que tão logo se esvazia, como o movimento respiratório, o inspirar e o expirar. Vazios novamente nos encontramos, largados, isolados, depreciados, acometidos, fragilizados, necessitados de um novo horizonte, de um novo porto, de um novo rumo, de uma nova sensação, uma nova chama, uma nova luz, uma nova experiência, um algo a mais para o preenchimento da esteira dos dias e das folhas descartáveis de calendário que lotam basuras. Por ora, como muitas imagens me vem circulando a mente, quase que implorando minha atenção para realizá-las em atos textuais, desempenhei novamente minha função, um pouco a meu bel prazer, e muito a contragosto. Mas é o que se tem. Por ora é isso, até que encontre na faixa de pedestres a próxima inspiração, o tempo de ócio, a vontade ou a necessidade adida para me derramar em confissões e relatos em algum lugar guardados na memória. No retrovisor até algumas vitórias, mas no presente momento, o amargor, o metálico, o cinzento paladar da derrota que acossa a língua.

13/04/2021

Poguear

Vai pogueaaaaar
Ouvindo essa porra
Se não quiser entrar
(Vai levaaaar)
O primeiro soco sem escolha

Vou colecionaaaar
Cabelos brancos
Se cabelos eu ainda tiver
Emprego, salário, vizinhos, preços
E brigado com a minha mulher

E até vá láááá
Há coisas boas
Na solidão em meio às pessoas
Nas capitais: Brasília, São Paulo
Ainda espero aquela de Poa

Vai pogueaaaaar
Ouvindo essa porra
Se não quiser entrar
(Vai levaaaar)
O primeiro soco sem escolha

Vou colecionaaaar
Noites insônias
Problemas surgem sem parcimônia
Tento e viro pra todos os lados
Logo já tenho que estar acordado

Vai pogueaaaaar
Ouvindo essa porra
Se não quiser entrar
(Vai levaaaar)
O primeiro soco sem escolha


07/04/2021

notícia de pouco interesse

notícia de pouco interesse: hoje se vacinou o músico gaúcho Jimi Joe (ninguém conhece)


O Casamento (Valter Hugo Mãe não pode discursar)

me esqueci que havia te pedido
em caaasaaamento
me esqueci o mais importante
nesseeeee moooomeeento

me esqueci que havia sido aceito
em caaasaaamento
me esqueci das coisas boas
só lembro dos tormentos

me esqueci que havia me esquecido
e de novo me lembrei
me esqueci de todos os serviços
e me sentia como um rei

me esqueci dos tempos líquidos
em liquidação
me esqueci que eu era tímido
e te pedi a mão

me esqueci que havia te pedido
em caaasaaamento
me esqueci o mais importante
nesseeeee moooomeeento

te imaginei vestida de branco
subindo no altar
o angolano Valter Hugo Mãe
também estava lá
não pode discursar
não pode discursar
não pode discursaaaar

o que será do amanhã
na lua de mel?
tua presença, minha renascença
não quero quarto no céu
não quero Torre Eiffel
nem Caribe nem Bornéu
nem bordel nem Tenerife
eu só quero o que te disse

me esqueci que havia te pedido
em caaasaaamento
me esqueci o mais importante
nesseeeee moooomeeento

me esqueci que havia sido aceito
em caaasaaamento
me esqueci das coisas boas
só lembro dos tormentos

te imaginei vestida de branco
subindo no altar
o angolano Valter Hugo Mãe
também estava lá
não pode discursar
não pode discursar
não pode discursaaaar

28/03/2021

Madrugadas

Racionalmente, diversas vozes me soam, me assopram, me dizem: não tem porquê apostar nela.

Mas, em contraponto, pela aventura de estar vivo: as vozes, como uma locomotiva desgovernada: sísísísísísísísísí.

Imagino que ela vai me machucar mais do que qualquer experiência anterior, porque ela não se importa. Ou, caso se importe, logo vai esquecer, porque ela tem mais o que fazer.

Mas continuaria a achar que é extraordinária a possibilidade, o investimento, o empreendimento, como se empreender fosse uma palavra que eu gostasse. Mas o risco é algo que tu ouves valer a pena e constantemente te mandam arriscar. Estaria aí teu risco, para longe dos protocolos de segurança. Eis o teu aéreo risco. Ao som da chuva da madrugada, caso prefiras assim. E preferes.

E tu sabes, nas entrelinhas, te avisam: não vale a pena.

20/03/2021

Rascunho Publicado para Mim Mesmo

até 2014 ou 2015, eu era mais alegre porque era mais inocente de mundo.

aí em 2016 ou 2017, eu era mais alegre porque o Grêmio jogava o fino da bola.

DOS ACONTECIMENTOS de 2018 pra cá é só tristeza. sei que o mundo aí fora é horrível, mas eu posso e devo reagir melhor.

19/03/2021

Farmácias e Falácias

Entre farmácias e falácias

Remédios sem eficácia

Entre farmácias e falácias

Curas cada vez mais escassas


Pastas de ministérios

Ministros nada sérios

Basta! Basta disso

Chega de desserviço


Entre farmácias e falácias

Remédios sem eficácia

Entre farmácias e falácias

Curas cada vez mais escassas


Medicamentos implantados

Compras super faturadas

Corridas ao lado errado

E a barca naufragada


E a frota que se volta

Pela impopularidade

E o nível de rejeição

Sem mais governabilidade


Entre farmácias e falácias

Remédios sem eficácia

Entre farmácias e falácias

Curas cada vez mais escassas


Entre farmácias e falácias

Pessoas perdem máscaras

Pessoas pedem máscara

E o araque é desmascarado


Pablos Picassos

Remedios Varos

Bombardeios

Cenários raros

Remédios cada vez mais caros

Cigarros contra a ansiedade

E o preço do combustível

Dos carros pela cidade

Noites de fusível desligado

Não acende mais o botijão

Em função dos preço disparado


Entre farmácias e falácias

Glóbulos brancos a perigo

Testes contra o inimigo

E recontagem das hemácias


Entre farmácias e falácias

Remédios sem eficácia

Entre farmácias e falácias

Curas cada vez mais escassas

18/03/2021

Notas após o filme A Noite

Não odeio o que admiro.

No máximo, invejo.

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Te amar desde antes de te conhecer é o clichê que mais dói.

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### Notas após o filme A Noite ###

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"Típico de um intelectual. Egoístas mas cheios de piedade."

"Os jovens são ridículos em sua arrogância, como se nada fosse acabar."

16/03/2021

Costa Rica

Era uma viagem de férias, porque ela merecia. Afinal, foi um ano difícil, de atrasos salariais, de ameaças de cortes, com sua renda sem garantias. Como conseguiu manter-se em meio à pandemia mundial, preferiu seguir seus dias de descanso rumo a um país em que os casos estavam muito mais controlados. Não faria mal. Tirar férias do Brasil também seria importante, um distanciamento de verdade das pessoas que a sufocavam e das próprias atrocidades governistas.

A professora de faculdade foi para Costa Rica, o que chamou a atenção dos amigos, porque viajar neste período muitos fizeram, mas para a confusa América Central ela era a única. Mas única ela queria ser, porque cercada de gente que ela considerava brega já se sentia. Questionava aquelas formações familiares forçadas e casas em bairro burguês de breguice exagerada. "Bem fazia pegar as bagagens e ir adiante, conhecer o mundo e, pior do que estava no Brasil, não poderia ficar."

Os dias de trilhas e calor intenso na Costa Rica foram maravilhosos. Chegava exausta na volta das viagens internas em fascinante país, mas para ela tudo valia a pena. O aprendizado, o olhar simples no semblante da população, encarar a precariedade mesmo dos serviços de transporte fazia parte do desafio. Novas realidades a serem exploradas, praias e paisagens magníficas, conciliadas com aquele sentimento ainda positivo de distância de casa, de dar um tempo de brasilis. Esses dias lhe encantavam, mas no fundo ela sabia valorizar sua própria terra. Conhecia o valor de seu povo, acolhedor e animado quando isso era tudo o que se precisava. Esse aspecto ressaltava pontos em comum com aquela cultura de país colonizado pelos hispânicos.

Seu passatempo era viajar, aproveitar para registros oculares e alguns fotográficos. Aguçar os sentidos, sentir na pele aquela outra parte do mundo, capturar olhares, sons e cheiros, da terra, das ondas, dos verdes e tons pastéis tropicais. Dessa maneira, não ficava muito assentada no hostel, que ela teve considerada sorte em conseguir uma satisfatória estadia. Não se sentiu importunada, nada além dos acostumes. Havia mesmo um grande grupo de turistas argentinos, este povo cisplatino que se espalha aventureiro com tamanha facilidade. Mesmo com população em tão menor número do que os brasileiros, as menores barreiras de idioma, ao menos pelas Américas e mesmo para o Sul da Europa, condições financeiras percentualmente melhores de boa parte daquele país e um espírito mais nômade garantiam que nossa companheira cruzasse por pampeanos do país vizinho. E eles falavam e gesticulavam e incomodaram a leitura; ela intercalava o cansaço físico com o exercício para a mente, aprendendo mais de seu ofício, mas principalmente distraindo as ideias com temas avulsos, de romances, a contos e poesia. E os argentos também queriam dar palpite em seus poemas escolhidos. Uns traziam dicas para somar, enquanto outros somente aporrinhavam aquele momento introspectivo da viajante.

Como escapulia do país de forma solitária, vários dos momentos eram dela combinar planos com ela mesma, mas as intervenções até eram positivas, com exceção de se meterem no que ela já havia proposto. As demais dicas, quando realmente precisava, quando se sentia perdida, muitas vezes equilibravam a boa tomada de decisões. Aceitava sugestões de onde seria o melhor restaurante, em qual ponto turístico poderia comparecer, embora não se apegasse muito aos pontos mais conhecidos sempre que viajava. Não queria ter as mesmas fotos que todos os turistas já têm. Para muitos casos, bastava que comprasse um cartão postal da reverenciada imagem e sairia resoluta da situação.

Foram quase três semanas conclusas de rotina que combinava as condições positivas fisicamente atribuídas à atividade esportiva. O corpo passava por experiências que exigiam esforço, mas o resultado final era reconfortante, era apaziguador. Facilitava a interrupção da malfadada insônia que a perseguia, fosse no extremo sul brasileiro ou no país em que estivesse, ela com viagens realizadas para diferentes cantos do mundo.

O exame

Quase no dia do retorno, passagem já comprada, itinerário produzido e revisto, nossa professora Gisele descobriu que necessitava certificar um exame negativo para a doença pandêmica para voltar ao território nacional. O chão abriu-se, era ela a cair. Como poderia naquele mês a situação de aeroportos e controle do tráfego de pessoas ter mudado tão significativamente? Ela até torcia por essa rigidez, mas que viesse acompanhada de um impeachment no desgovernante do país. Ela que viajou tão tranquilamente - isto é, tranquilamente em ritmo para deixar o país e aproveitar o pouco que fosse de suas férias de verão; e isto ela fez - mas agora necessitava correr atrás do exame, do resultado, da logística mantida porque não queria perder ou passar pelos perrengues de tentar cartear a mudança de sua passagem para outra data. Estava tudo certo e passara um vendaval por aquele fim de viagem.

Agora ela, que encontrava refúgio da pandemia naquele país de exatos 5 milhões de habitantes na América Central, menos da metade do Rio Grande do Sul dela, se via contra as paredes da legislação de portarias contra a pandemia. A exigência do teste, que ela conseguiu providenciar em um hospital já na capital San Jose, de prontidão para o reembarque. Havia se deslocado do litoral da Costa Rica para a capital para facilitar seu acesso ao aeroporto no dia derradeiro. Ela realizou o teste e precisava aguardar mais 24 horas na esperança de obter o resultado definitivo na noite anterior de sua viagem. Dramática sua vida naquele instante.

Se acusou e se chibatou pela proposta de tão pitoresca viagem em meio ao caos global, mas de uma coisa não havia errado, a circulação do vírus era menor no país caribenho. Se sentia mais segura e não foi mal acolhida nem pela gerência do hostel, nem por demais visitantes, nem pelas últimas atividades de obrigatoriedade em passar pelos controles estatais. Conseguiu realizar o teste de saúde, foi bem encaminhada e aguardava ansiosa o resultado do teste para deixar aquele novo hostel, o da capital, para chegar cedo ao aeroporto para a viagem de regresso.

Cerrada dos compromissos de viajar fisicamente pelo país, ingressara então em uma viagem mental entre o sentimento de culpa, o desespero, alcançando índices de paranoia. Só faltava pensar que havia uma conspiração para mantê-la presa na América Central. Uma refém brasileira, uma negociação com as embaixadas, a exigência de um resgate, as notícias no telejornal, a família sem comunicação de sua baixa. Não. Era apenas o resultado do teste contra a doença da vez. Mas foi assaltada pelo sentimento de culpa de que não teria a necessidade de se embrenhar em tão distante local, ela que possuía sim a reserva financeira necessária para mais uns dias, mas pensando em no máximo três ou quatro, não uma quarentena caso fosse detectada a doença. E precisaria armar um plano junto ao hostel ou a outro hostel para ser aceita na quarentena. Ou ser aceita em um hospital, em qualquer abrigo em que estivesse a salvo naqueles dias e ao mesmo tempo não comprometesse a saúde de mais gente com o vírus em vigência na sua circulação pelo corpo.

Então era isso. O possível resultado positivo no teste aplicaria sanções financeiras para o seu planejamento, pediria transferências bancárias com a família ou amigos. Precisaria de um local para passar aquele inferno de mais dias, ela já um pouco deteriorada de tamanho calor naquela região absolutamente tropical. Ela já um pouco enjoada do sotaque acentuado dos caribenhos, com um espanhol que nos primeiros dias lhe soava divertido, mas ao final incomodava seus ouvidos, para desembaralhar palavras adjuntas, como o povo local se pronuncia mais rápido - despacito, por favor, señor - e com o aditivo de gírias que nem sempre ela capturava no ar como uma esvoaçante borboleta contra a rede de caça. Era um turbilhão de pensamentos sobre as punições de ousado plano de descanso e de aventura; que se tornava, ao menos ao estresse imediato da incerteza da situação, um plano mais de aventura, sem dúvida. O descanso, se ela podia praticar agora para o corpo, após tantas trilhas, viagens internas na Costa Rica e com uma alimentação diferente da que estava acostumada, a mente não a deixava na esperada paz.

A ansiedade aí não escolhe vítimas de quem já sofra desse mal precocemente. Não adianta. Nos coloquemos na situação de Gisele. Solitária naquele país distante, com a companhia mais próxima de onde nasceu sendo um bando de argentinos ostentadores e falantes aos cotovelos. Aliás, erro nosso, porque o grupo de argentinos e argentinas havia ficado para trás, no litoral, ela estava era trancafiada em San José. Gisele que não conseguia mais sequer se concentrar nas leituras. E era apenas um dia o aguardado pela espera. Encontrou companhia no atendente do hostel, embora, pelo revezamento dos turnos, ele estaria com ela a parlar somente durante seis horas. Diminutas horas porque ele atendia a chamadas telefônicas, informações de alguns poucos clientes e urgências de manunteção da limpeza, como se deslocou para passar um pano em um dos banheiros da casa.

Gisele torcia para o hostel não receber mais gente naquela noite, porque assim possivelmente teria um quarto inteiro à disposição para ela, não precisaria "ser expulsa" ou "convidada a se retirar" da habitação caso fosse positivada de covid. Mas e nos demais dias? E a exigência do hostel? O atendente procurava tranquilizá-la de que não costumam receber tantos visitantes. É um hostel mais de passagem, porque a capital não concentrava tantas visitas quanto os que ela havia conhecido no litoral. Ela recordou das lotações maiores, do grupo de argentinos, sorriu e concordou. Ela estaria próxima de um hospital caso houvesse alguma complicação e teria um quarto reservado para si, o máximo de tempo possível, com demais clientes a chegar sendo organizados em outros pontos. A grande confusão é que não havia organização anterior por causa da covid. Ela mesmo pensava: "se peguei a doença, pode ter sido em algum dos outros hostel". E aí recordou dos passeios de ônibus, restaurantes, comércios e todas essas situações em que estava exposta de alguma forma. Mas também equilibrava a disputa no campo de guerra da mente lembrando de que a Costa Rica era muito menos atingida do que o Brasil, à essa altura. "E qual país não era?", se perguntava.

Conferiu em noticiário mais uma vez e constatou que a média de casos e mortes na Costa Rica seria cerca de um terço do seu Rio Grande do Sul. Ou menos, que ela também não era especialista na matemática. Mas de fato eram números significativamente inferiores ao que estaria exposta em outros locais. Tentava reduzir sua penalidade aflitiva com aquele incerto desfecho da viagem.

Após conversarem bastante naquele turno da tarde, o atendente, don Juan, ou ao menos deste nome sim, Juan, prometeu que voltaria na manhã seguinte, trocaria de turno com o outro funcionário se fosse preciso. Queria se despedir dela. Gisele agradeceu a gentileza pela conversa, pela redução de seus impulsos nervosos que a martirizavam naquele momento. Evitou roer as unhas e tentou folhear mais um pouco de seus livros. Ameaçou caminhar um pouco, mas a chuva a surpreendeu. Havia pego tempo bom durante quase toda a viagem, rompendo com quase nenhum plano anterior. Achava ela que a chuva àquela altura era mau indício. Mas também sabia que estava procurando chifres em cabeça de cavalo. Acabou mesmo trancando seus pertences no sistema mundial de armarinhos em hostel e foi para o banho de chuva, a ajudaria com as ideias, hábito que ela sempre curtiu, mesmo na sua cidade gaúcha, um pouco de água pluvial para reerguer os ânimos, prepará-la para aquela última batalha, saber o resultado.

Andou algumas quadras, cuidou atentamente os sinais de trânsito, publicidades e tudo que poderia ajudá-la a recordar com precisão o caminho de volta, já que não levava o celular para a aventura na chuva. Estaria alheia aos mapas virtuais. Pensou na imprudência de sair a caminhar com a água lavando as calçadas, vai que tivesse positivado para a doença e uma chuva daquelas comprometesse seu geralmente bem comportado e triunfante sistema imunológico. Mas de onde que seria derrubada pelos pingos em um calor fascinante daqueles? Estava era novamente procurando ovos no ninho errado.

Foi para espairecer que tomou o rumo das ruas, mas continuava concentrada no processamento dos resultados do exame. Para ela, parecia que cada passo que se adiantava poderia alterar alguma coisa na logística dos laboratórios costa-riquenhos. Pensou quantos testes estariam em processamento naquele instante, será que já o dela? Prometeram para a noite. 24 horas... Mas 24 horas deveria ser o prazo máximo, o estendido, ou seja, poderia sair o resultado a qualquer momento. Pediu para que entregassem o resultado no número do hostel, ou por papel no pequeno saguão - mais para sala de estar - ou que telefonassem e anunciassem o resultado final. Pensou em todos os exames que já feito ao longo da vida. Quando quis doar sangue. Deu certo e retornou mais cinco vezes ao hemocentro. Exames para detectar gravidez, todos negativos, ela bem comemorava. Esperava manter esse ótimo índice de aproveitamento. Sempre estivera apta para a doação de sangue, nunca caiu no indesejado oblíquo de adquirir filhos. Pensou que nas bem-feitorias da doação de sangue estava em crédito, em saldo positivo com as entidades reguladoras sobre a face da Terra. Os costa-riquenhos, assim como os brasileiros, em geral apostam na igreja católica, por tantos motivos de suas colonizações, mas ela não sabia ao certo quais eram. Apenas esperava estar em sintonia, do mesmo lado dos sobrepujantes e onipresentes. Queria acreditar que daria tudo certo.

Quando chegou ao hostel, após a caminhada de mais de duas horas, aliviada e reanimada pela liberação dos hormônios na atividade física, tentava manter o otimismo atingido durante as últimas quadras. Mas, ao portão e hall de entrada, já vinha tomada pela ânsia de perguntar ao novo funcionário, substituto de Juan, se havia chegado o resultado do teste. Não havia. Murchou um pouco o resfolegar de suas pétalas. Deixou-se cair sobre uma poltrona e ali passou mais duas horas, após ter pego o celular em meio a seus pertences. Percebeu que as 24 horas haviam sido expiradas. Quase chorou.

O funcionário foi atencioso. Ligou para a clinicagem dos resultados. Ele cobrou, percebeu-se seu tom acentuado na voz, com aspereza para conduzir a chamada telefônica. Gisele achou graça. Mas riu de nervosa. Pensou que o novo funcionário, um tal de Yeferson, estava fazendo mais do que a parte dele, mas lembrou como com Juan pareciam que as coisas estavam fadadas a dar certo. Enquanto rolava as timelines no celular, pensou que Juan daria um jeito, como em um toque de mágica.

Eis que naquela sala de recepção surgiu um vulto pelas portas envidraçadas da entrada, tendo já rompido a primeira grade protetora do prédio. Pela agilidade e precisão dos movimentos logo se viu que não era um cliente comum para o hostel. Ensopado pela chuva que havia apertado e caía torrencialmente nos últimos minutos, o homem retirou o capuz. Era Juan. Trazia consigo uma pasta no interior das roupas.

Cumprimentou rapidamente a Yeferson. Estendeu a misteriosa pasta na direção de Gisele: - Seus exames. Não queriam ceder, mas me identifiquei como sendo do hostel e perceberam que és brasileira. Portanto, aqui está.

Gisele estava muito surpresa com aquela sucessão de acontecimentos nos últimos segundos. Tremeu um pouco o lábio e não menos as mãos para alcançar os papéis que recheavam a pasta. - Não se preocupe. Teste negativo - garantiu Juan, cada vez mais Don.

- Mas não poderemos deixar que passe a noite aqui no hostel. - Novamente ela ficou sem entender. Yeferson também franziu a testa, desentendido. Mas aí olhou melhor para Gisele, custou meio segundo para entender. Tirou a prova real ao voltar os olhos para o colega. Juan também já entregava as pistas todas.

- Pode ir para minha casa. Fica por minha conta. - Ele tranquilizou-a. Gisele uniu o alívio instantâneo do resultado negativo do teste com a nova possibilidade em sua vida. Ao fundo tocava a música Incendiémonos, da banda La Beriso.

Enquanto sua mente seguia a divagar, juntava sua bagagem para deixar o quartinho dos últimos tempos. Sorria sozinha e prestou atenção na letra, enquanto Juan dirigia o carro que buscou a algumas quadras dali. No rádio se fazia audível a música No Necesito Nada, do grupo uruguaio No Te Va Gustar, alcançando a América Central na hora exata em que poderia ser convocado por vontade própria. Assim se desenhava o melhor dos seus dias na Costa Rica, embora justamente fosse o último, pois a passagem de avião a chamava e Juan não conseguiria bancar mais do que a noite no seu próprio hostel, o melhor desconto que poderiam oferecer em seu salário.

Renovados de ânimo e de esperança, separaram-se para seguirem suas vidas. Logicamente ficava no ar e nas palavras de Juan o convite para o retorno. Era nisso que ela pensava quando terminava de gravar suas videoaulas. Dava tchau para aquela invasora câmera, baixava o notebook em um gesto decisivo e alçava o olhar para o céu azul ou cinzento (muitas vezes cinzento), sonhando seu retorno à Costa Rica, longe daquelas obrigações de um país que lhe devia tanto.

E lembrava da canção do No Te Va Gustar - Na na na na na...

11/03/2021

Esperanças Recônditas

Não, saí para respirar um pouco e estava a pensar que nem tudo que penso ou escrevo será aproveitado. Não, não na questão se vão ler e utilizar de alguma forma intelectual ou mais prática na vida. Questão de que nem tudo vai prestar. Deve ser comum para várias profissões, inclusive, como cozinheiros ou cabeleireiros. Não se acerta sempre. Talvez ainda sirva de aprendizado. Talvez.

Obviamente, o tempo útil de um texto também pode ser duramente afetado. A efemeridade. De repente, o que pensei ou teci por agora, de nada vai valer daqui a uns anos, daqui a uns dias, ou mesmo daqui a umas horas. O jornalismo impresso, gravado na pedra, está com o tempo como inimigo nos últimos tempos. As opções digitais podem ser facilmente alteradas. Marca-se (ou não) a data e horário da alteração e segue-se o baile. No impresso não, estará lá computado para registros póstumos.

Muitas vezes escrevemos por impulso ou por desabafo momentâneo. É geralmente nesses indutos que acabo escrevendo muita coisa. Será que minha racionalidade irracional ou irracionalidade racional terá fins positivos futuramente? Me importa que no momento em que foram escritas me valeram. Às vezes penso onde elas podem chegar. Velha metáfora da cartinha enrolada em garrafa em alto mar. Que os piratas possam surrupiar.

Erro muitas previsões, naturalmente, mas esses dias constatei que acertei sobre Flamengo e Palmeiras alternarem títulos de 2018 em diante. Realmente foram os únicos campeões de Campeonato Brasileiro até 2020. Flamengo ainda faturou Libertadores em 2019 e o Palmeiras a seguinte, em 2020. Monopólio do futebol nacional. Mas errei previsão, sim, pois acrescentei a esses dois clubes, o triunvirato do Corinthians, que tem ficado fora das disputas desde o seu título brasileiro de 2017. Tem contraído dívidas e não tem encontrado o seu melhor futebol em desempenho nas últimas temporadas. Devolvam o Luan ao Sul. Devolver o Luan seria um erro que eu estaria disposto a correr.

Vi uma dessas mensagens reduzidas em microblog - Twitter - garantindo a importância do amor e que deve-se apostar nele. Concordo, deve-se valer o risco. Mas fui ver quem havia curtido essa mensagem. Somente pessoas com namoro ou casamento adiantado. Talvez uma dessas pessoas não, mas na esperança. Pensei: assim fica fácil. As pessoas utilizam as suas vivências e experiências práticas como verdades absolutas. Não é bem dessa forma que a banda toca. Mas ok, admirável otimismo de vocês. All you need, etc.

E realmente é muito importante isso do amor. Do se sentir amado. Desperdicei algumas formas dele, reconheço. Talvez não tenham sido poucas vezes. Mas também imagino e reconheço que não o aproveitaria da melhor forma. Tenho meus impropérios (sentido 2º: censura injuriosa; repreensão) e minhas dificuldades para lidar com isso. Certa vez escrevi meio poema, meio aproveitamento aqui em prosa: saber lidar é o bastante. Como lidar é a questão.

Minha real preocupação antes de vir aqui são os cenários políticos. A polarização novamente está formada, Grêmio, eu te dou a vida, por esta jornada. Não, os cenários políticos. O otimismo total da liberação eleitoral para Luiz Inácio e seus discursos iniciais preponderantes. É uma luz, como foi classificado. O atual desgoverno inclusive passou a, vejam só, usar máscara na pandemia. Altamente radical. Lula é efusivo. Falou em ser radical para atacar as raízes dos problemas nacionais. Frase de persuasão e impacto. O Brasil era muito melhor no tempo do Partido dos Trabalhadores. Nas oportunidades, na renda, no controle da economia, que chegou a uma das melhores do mundo. Nas vagas universitárias e de ensino profissionalizante, nos auxílios desde a profissão de serviços domésticos até a quem estudava e procurava primeira oportunidade no mercado de trabalho. Auxílios para moradias, financiamentos, respeito internacional, comitivas bem recebidas e recebendo bem. Política participativa. Tanta coisa era melhor e foi sendo desmanchada desde o golpe de 2016. É completamente injusto comparar o governo anterior ao atual desgoverno. Não são duas faces da mesma moeda. Não são farinhas do mesmo saco. Não é uma escolha difícil, como pode sugerir o editorial de grandes jornais. Será que um dia esqueceremos esse editorial criminoso, que empurra o Brasil para uma das piores, se não a pior, gestão de pandemia no planeta? De um "líder" que não utilizava máscaras até Luiz Inácio ser liberado com seus direitos políticos a, quem sabe, se as coisas derem certo, concorrer. De um ignorante das questões sanitárias e de saúde. De um verdadeiro genocídio, pois que outro nome dar às vésperas das 300 mil mortes no país? Qual outro nome, vos pergunto?

Não é meu campo, não tenho formações em ciência política, então procuro absorver de outros especialistas, mas, irrequieto, também arrisco meus pitacos. É facilmente para registros póstumos que podemos afirmar que Lula é muito superior a Bolsonaro. Talvez sejam, inclusive, as extremas, as oposições, os que se diferem demasiadamente. O Brasil do PT da melhor economia, do Bolsa Família, do Fome Zero, dos programas sociais elogiados mundo afora, por ONU e outras entidades, pelos ensinos técnicos, profissionalizantes e universitários, pelas vagas ofertadas, pelos ataques que a grande mídia descarregava furiosamente, criminosamente com capas de revistas, com editoriais de jornais. E o Brasil atual de nenhuma responsabilidade social - já dizia o companheiro Marroni para outros - do colapso da saúde, porque as soluções anteriores ofertadas não foram procuradas. Porque as vacinas não vieram, demoraram a vir, passou-se todo o 2020 e precisou-se organizar mórbidos containers para arrecadar os corpos já sem vida. Vidas que não voltam mais. A economia ainda poderá voltar - mas digo, não com eles. O combustível vai seguir subindo, o gás de cozinha vai seguir subindo, os alimentos nas bancadas e estantes continuarão a subir em preço, ao menos enquanto o mesmo ministro da economia permanecer. Ele não sabe gerir, não sabe gerir para o povo, não sabe controlar a alta dos preços, vai desvalorizar a moeda real até os seus confins, vergonha internacional, mais uma a ser sentida, para as mais diversas críticas da imprensa de outros países.

Nem tudo que eu escrever ou pensar será aproveitado, mas novamente me encontro ao tentar alinhar os desabafos. Na certeza que o pior ainda não passou, mas pode passar. Na certeza que a saúde e a economia ainda descambarão suas tragédias em um tango longe de seu findar. Não há piloto, há cortinas de fumaça, mas o antigo piloto deu as caras. Pode retornar. Ou não. É o país das surpresas, das reviravoltas, da Justiça com suas injustiças. Ficou claro que ele poderia concorrer em 2018. Que sua sucessora foi deposta em golpe em 2016. Disso não há dúvida. Disso já sabíamos. Já deveríamos saber, embora muitos ignorem. E, na minha concepção, erre ou acerte, acredito na vontade popular de que ainda há possibilidade dele voltar a vencer. Mas são muitos fatores na tortuosa estrada. Se estará elegível ou não, na reabertura de processos judiciais e novo resultado de absolvição ou condenação. A depender de como será a futura campanha políticas. As futuras alianças a serem desbravadas. Sozinho, no campo de esquerda? Não há como. Mas seu vice anterior era José Alencar e houve o episódio mais do que conhecido com Michel Temer, além de José Sarney, Renan Calheiros e outros. Não há como acreditar na pureza, somente da boca para fora. Mas como serão as campanhas políticas em um país movido nas últimas temporadas a ódio? Altamente arriscado. A proximidade física, o aproximar com o povo, o corpo a corpo, ou manter-se a cautela para evitar uma catástrofe, uma tragédia, como já houve ataques violentos a tiro na fronteira do Rio Grande do Sul e como houve (ou não) o incidente que afastou candidato de debates em 2018. E pensar que hoje em dia quase tudo é no modo digital, nas câmeras, nos aplicativos zoom, nas aulas online, nos ambientes virtuais e na época ninguém obrigou a ocorrência de debate, mesmo à distância. Frouxidão e desgoverno, lado a lado.

Encerro por aqui sem a certeza dos acertos, mas com a consciência em alinhamento com o dever cumprido novamente, pelos meus impulsos para a presente época. Espero que os mais otimistas estejam certos com essa volta, pelo menos na semana, triunfal e rejuvenescedora. Mas entendo o processo como um caminho muito longo a ser caminhado. Tudo está distante do rompimento com as nebulosidades que ascenderam nos últimos tempos. Eles ainda têm o controle, o poder, as tentativas de veto, as tentativas de censura, as intimações, as armas na mão - como abordou Luis Fernando Verissimo. Eles ainda têm a gestão desregulada e imprópria da saúde e do combate à pandemia, tudo muito lento, muito devagar para haver a devida massa popular às ruas pelos direitos a serem mantidos, conquistados ou reconquistados. É necessário caminhar com os passos que nos forem possíveis. Sem a esperança intacta - pois já foi muito apedrejada e afetada - sem a ideia de pureza política e ideológica, sem pensar que o livramento das sombras será fácil, mas que ainda ali, em canto recôndito, ainda é possível arrumar boa parte da casa.