07/05/2020

hole in my soul

me acenda e me apague
como um cigarro
estou em suas mãos

me traga luz
e prepare meu calvário
faça jus
ao obituário que já escrevi
na órbita do seu ovário
outro planeta
a outra placenta eu sobrevivi

acenda e apague
meus medos
acenda e apague
quem eu sou
acenda e apague
entre seus dedos
acenda e apazigue
hole in my soul


junho de 2019

06/05/2020

Marco Polo no Campo de Centeio

Sinto que deveria consultar algum especialista antes dessas linhas. Não como consulta em terapia, se bem que não é de toda má ideia, vejam bem. Mas neste relato autoanalítico que estou prestes a fazer, a ciência neurológica deve ter avançado a respeito dessa recepção. Espero que não percamos o fio do novelo ao longo do trajeto. Garantam que João, Maria e os demais neurônios, através do caminho formado por pães ou brioches, caso lhes faltem os primeiros, encontrem o retorno quando precisarem. Sem mais delongas, embarquem pela porta da frente desse coletivo e afivelem os cintos.

Meu cérebro sempre aturdiu a opiniões terceiras para influenciar a sua recepção sobre meu corpo. É impressionante! Uma das pessoas mais influentes desde minha infância é minha irmã mais velha, a única que tenho. Por exemplo, ao saborear uma comida, ela pode dizer que está muito salgada e exagera na adjetivação e no drama que confere. Ao passo de dado comentário, meu paladar automaticamente sente o despejar da salina de algum mar sobre o rodeado prato. Não tenho escapatória. Foram as palavras de minha irmã, mais do que qualquer cozinheira ou cozinheiro, que salgaram a carne, o purê de batatas, a salada, o que for.

A respeito da temperatura, idem. Ao mencionarem que está muito frio ou muito calor, a roupa que estou usando passará a não ser a adequada. Não estou nem falando do julgamento dos terceiros, mas é comigo propriamente o problema. Acharei que vesti peça de roupa a mais e gostaria de tirá-la, mas precisaria sacar a de cima e assim sucessivamente. E perceberei que, em pleno abril ou maio, joga-se o outono e o inverno ainda está por vir, logo um exagero tenha eu cometido, ora pois. Nos verões, a sensação de calor antes me arrebata proveniente de uma frase despretensiosa do que dos raios solares, os ultraviolentos. Perceberei ainda estar trajando calças ou mangas - compridas ou não - quando nenhuma manga se faz necessária. Sobre tudo isso, me questiono que espécie de efeito retardado me aflige estar à espera de opiniões alheias para acertar-me da comida na refeição ou das vestimentas que ora trajo.

O poder de convencimento se acimenta a mim em tantos outros casos. A cura de remédios, dos mais farmacêuticos industriais aos caseiros, muitas vezes me depende da sentença de quem a traga, em especial de minha mãe, especialista em chás e de caixa abarrotada das mais diversas especiarias das drogarias de esquina. "Este é para dor de cabeça, este para dor no corpo e este gosto para combater os enjoos", ela tranquilamente explica, calejada dos conhecimentos vividos na prática, ao longo dessas últimas décadas de progressismo medicinal ou pelas iguarias adotadas desde os tempos de minha falecida bisavó Elza.

Quando distraído da fatia de meu emprego que consiste em analisar jogos de futebol, as pessoas também dividem comigo algum comentário a respeito de determinado jogador; a partir disso, eu paro o que estou pensando ou deixando de pensar e recorro a observar o mesmo. Tudo parece óbvio como para o profeta do acontecido. Agradeço muito aos que dividem teses, a minha final geralmente é uma concha de retalhos. Me falta convicção? Pode ser, mas me sobram espaços para a impressão dos agradecimentos e das notas de referências ao findar a dissertação.

Por estes dias também pensei sobre a minha tendência a concordar com os formadores da arte, mais do que com os críticos dos mesmos. Penso que só há críticos porque existe a arte para criticá-la. O ponto de partida me coloca ao lado dos construtores. É muito complexo, sem dúvida, mas a arte sendo posta para análise, exposta para a cova dos leões opinantes, desprotegida como um ovo em ninho órfão, quem está sujeito a isso parte com algum crédito na bolsa. A arte na exposição das emoções, no desenvolvimento da razão, no poder de questionar através dela e de causar o questionamento em vias sinuosas e confusas nos observadores. A arte que, mesmo quando discordo, agradeço por estar ali presente para que eu possa questionar-me, questionar ao mundo através de seu fio desencapado e condutor.

Não é que eu esteja obrigado à colheita de tudo, a engolir de tudo nesse vasto campo que nos aguarda a visita. O bazar das opções é tremendo, dos filmes iranianos aos franceses, do cinema latino-americano da Colômbia e da Argentina, dos livros da filosofia grega aos alemães, dos asiáticos japoneses e chineses que, quando ganham traduções, muitas vezes fornalham espaço em nossos corações com filosofares não antes praticados por aqui; aos contos angolanos e haitianos de espiritualidade bem vivida, seitas praticadas, as lutas pelo espaço e pelo dia a dia; e, em tudo isso, assimilar paralelos entre os mais rudimentares minifúndios rurais e as maiores agências de propaganda na selva de pedra, em outdoors luminosos que esfrangalham a escuridão noturna. Me interessam demais os princípios humanos que se repetem independente da época ou do local do heterogêneo globo. Perceber como se assemelham nas técnicas de sobrevivência, como superam-se, como sofrem, como armam contra seus inimigos, reais, frente a frente, ou abstratos, mesmo que para dentro da cabeça.

Todo esse devaneio a respeito da arte e como considero cruéis as opiniões que, de prontidão, refutam o trabalho desse escriba, dessa pintora, desse dançarino, desse músico, de quem quer que seja, tenha se arriscado a deixar para a humanidade um pouco de sua alma através dos emaranhados artísticos. Com exceção das piscinas extremamente rasas, essas que, pelo baixíssimo volume que demonstram, consomem-nos tão pouco que nosso cuspe de volta pode ser mais profundo do que as pretensões lançadas. E mesmo nessa tese, quem nos garante não enganar-nos? É preciso muito cuidado nessas avaliações. Experimento obras demasiado variadas, como as descritas em parágrafo anterior, me preparo para uma escritora mexicana de sobrenome russo, uma porto-alegrense eslava, uma bailarina californiana em fragmentos autobiográficos, uma portuguesa de outras épocas, alguém que traduza a literatura conjunta entre as lendas africanas e as novas línguas europeias para esses povos. Estou aberto a essas sugestões. O peito e a cabeça querendo colher mais e mais, acumulador compulsivo que não nega e que, nesse universo, quase paralelo, mas tão aplicável ao nosso mundo real, carne e osso, cheiros, sons, buzinas, trânsitos, descartes, lixos, ramagens, folhagens, vendas, gritos, pudores, poderes, tudo tão presente e costurável.

Equilibrista de teorias, malabarista de teses. Cidadão do mundo que muitas vezes não sai de casa, em tempos pandêmicos aprendeu forçosamente que não pode. Mas gosta de casa porque gosta das companhias que artisticamente encontra. Desconhecia e encontra. Brinda e tenta se encontrar. Chega aos diversos pontos latitudinais ou longetudinais potencializados nas obras; investiga nos passos de um detetive, de uma moça solitária, de um criminoso, de um vigarista, de uma política estrangeira, de um segurança de festa, de um rei medieval e seus súditos, de seus serviçais, da cozinheira que salgou mais ou menos aquela carne, aquele purê de batatas, aquela salada que eu chamo vida.
Ela dirá "hoje salguei demasiado a comida" e na próxima garfada, sem a paciência de quem espera engolir por completo, rebaterei que "não havia percebido, mas é bem possível que assim seja". Confiante na cozinheira que afirmou salinizada a refeição. Pronto por aceitar esse ponto de vista e depois repensá-lo. Pensar e repensar, o que me sobra?

Minha cabeça se ocupa, meus olhares enxergam muito adiante do que o alcance das mãos exigia; as mãos, o tato exigem que eu preste maior atenção a eles, mas a mente ruma desgovernada para caminhos muito além. Por vezes sinto muita lamentação, lamúrias por estar assim, a praticidade me implorava por pouquíssimo e todavia não consigo cumprir por ela. Já a teoria me encaçapa. Giza e agiliza o taco e me encaçapa na caçapa de sua preferência; estou a serviços dela.

Dela, teoria que me absorve, me sorve, me torna abjeto, repulsivo, recluso, moído aos meus cantos isolados, mas me devolve em outras rajadas, pronto para conhecê-la mais... e mais, predador insaciável. E me encaro, espelhos duvidosos que mostram apenas a incerteza, a vacilação de quem espera o obstáculo de novas comidas, salgadas ou não, agridoces, chás e remédios que funcionarão ou não, dias mais frios ou mais quentes, para questionar-me errado e procurando acertar. Queimando as palmas e os dedos para dominar, por segundos que seja, as labaredas da chama, lutando por um pouco de caloração nas noites friorentas, por uma sombra sossegada em abrigos provisórios. Pronto para a espada em tons figurativos desse mundo radicalista, egoísta, imediatista e julgador. Compondo e descampando me apanho; apanho descampando e compondo. Sendo enquanto sou. Enquanto eu possa ser. Teoria e prática correndo pelos campos em ritmos diferentes, esbarrando-se, vez por outra, qual momento! gritando, cegas, "marco" e "polo" e assim para todo sempre. Teorias e práticas substituídas ou, por muita sorte, embutidas, nos vestígios que deixamos.

04/05/2020

o estranho caso do crocs

Esta aconteceu no bairro. Um relato que a vizinha pode muito bem utilizar no salão ou na parada do ônibus sobre a crescente da violência no antes seguro agora inseguro ninho em que ela habita. Este pode ser tomado como procedente do Oiapoque ao Chuí, como dizem. Creio que mais para o Chuí, porque na região comercial fronteiriça, é bem possível que algum brasileiro ou algum uruguaio se estresse por um par de crocs e gatilhos sejam puxados ou facas ganhem novos fins que não cortar peixes. Tendo o leitor preparado o terreno envolto de sua própria morada como cenário ou não, reafirmo que esta aconteceu no bairro.

A avenida serpenteava aquele aglomerado de casas pelos dois lados, o que torna o faroeste ainda mais improvável. Ao invés de rodas de feno e poeiras ao vento, circulavam por ali muitos carros, principalmente nos horários das 13 e das 18, na ida ou na volta. Entrecortada estava a avenida por um canelete de gramados verdes ao redor e vegetações rasteiras plantadas pela prefeitura há oito anos, mas que muitos viventes juravam que tornariam-se árvores "e frutíferas", acentuavam os injuriados pelo ato de lúgubre intenção.

Não crescendo os caules e as ramagens esverdeadas, toda a cena ficou exposta aos olhares de senhores e senhoras remendadores de fofocas, no parapeito de suas janelinhas de tão medíocres vidas. Não havia anoitecido faz muito e calor ainda fazia, portanto iremos induzidos que os últimos contistas desse drama estavam corretos e aquela aberração aconteceu por abril. Filando um cigarro do companheiro ao lado, um calvo senhor me revela que não passava das 20 horas, portanto havia baixado o vai e vem dos movidos à gasolina, álcool e diesel. Uma ou outra moto ainda esganava sua sinfonia para desesperar quem não queria perder uma mísera frase da novela do horário.

A câmera para o pátio frontal de algum vizinho capturara a cena e o calvo, já a meio cigarro, resmunga com o canto da boca que o morador do avanço tecnológico só cedeu as imagens para polícia. Nem a mídia pescou essa referência nas coletivas de imprensa, o que mantém a bruma da imprecisão sobre a hora exata. Mas sigamos. Um transeunte, alto pelos seus dois ou quase metros do dedão ao cabelo carapinha, passa apressado, passadas largas, diria o narrador Paulo Brito, e larga um par de crocs sob o curto sombreado de uma moita - talvez uma daquelas que prometeram crescimento paisagístico e não cumpriram.

Os sapatos eram verde-limão e tão resplandecentes que nem a rendição do dia em noite, nem o arbusto acima ocultaram a vista. Percorridos minutos, um morador da rua visualizou os abandonados e, interrogativo, girando nos calcanhares para saber se estava espionado, resolveu apanhar o par de crocs. O transeunte do cabelo crespo era tamanho que seu par de sapatos se assemelhava ao longe com um jacaré imóvel, facilmente receberiam o apelido de lanchas ou barcas pela vizinhança da velha guarda e, se fossem de serventia como um porta-cds, bem ali caberiam uns volumes no espaço para calçar.

O passista já se retirava do local com o novo presente para os pés, para andarilhar agora botinado em crocs, quando retornou de arma em mão o antigo dono, requirindo ainda o ser. "Larga isso aí, passa pra cá!", o cabeludo e barbudo e de gorro apesar de não estar frio entrou em polvorosa. Não conseguia assimilar naquele instante a violência de levantar uma pistola por um par de crocs. Tudo parou. Mesmo sendo morador de rua, só havia sido acusado de roubo duas vezes, as duas por total preconceito de mal intencionados a prejudicá-lo, fosse pela sua condição de sem-teto ou pelo estilo de seus capilares e vestimentas.

O nome do rapaz com a arma apontada para si era Jorge. O nome de quem apontava não sabemos. Jorge ficou em choque depois de tudo isso e foi respeitosa e religiosamente dormir em albergues da experiência aos anos que sucedem, hábito que ele nunca tivera antes. Naquele momento, é claro, começava o choque que o traumatizara. Nervoso também estava o trêmulo dono da arma, com os pés 44 descalços e reivindicando o par de crocs.

Jorge não conseguia reagir e nem devolvia os crocs nem corria com eles. Não saía do lugar, não emitia palavra. Seu algoz, entretanto, repetia as ordens perdendo a paciência, a sanidade, se é que possuía, e o que fosse. A arma era a lei no bairro mais uma vez. No terceiro grito, em tom de ultimato, com a mão a aprontar o que seria o disparo contra o peito ou cabeça, querendo nem saber do desfecho, foi a presença do velho Almiro que revirou o jogo.

Almiro era aposentado da polícia militar e podia ser facilmente reconhecido como ancião metido na quadra. Implicava por muito menos, podia-se dizer. Não tolerava as bicicletas elétricas, os skates e os gatos de rua. Não os diferenciava muito e, com a autoridade que ele se outorgava, podia muito bem resolver tacar pedras nos jovens bípedes que tiravam onda em horário inverso à escola ou nos quadrúpedes insolentes, que ele preferia era os cães e até comemorava quando algum dos felinos era encurralado por predador de rua.

Saindo da porta de casa, Almiro cuspiu no chão, rebolando autoritariamente a cintura, como se ainda fosse o manda-chuva da delegacia do distrito do outro bairro. Jorge pela primeira vez tirava o olhar da prateada pistola, desde que a conhecera, espécie tragicômica de amor à primeira vista. O outro não tirou o cano da reta do peito de Jorge, mas desviou brevemente os olhos para o novo personagem do enredo. Seu Almiro era baixo, atarraxado, um cabeça de prego que tomou umas marteladas para reduzir sua altura na casa dos 1,60, ainda menos com a idade. Quando servira na polícia, podia se orgulhar de alguma medição honrosa que lhe desse 1,65 para empatar com o Sol do Girassol da banda paulista Ira.

Almiro estava imóvel, confiante, pensando que lidava com algum filme western de Clint Eastwood, Kevin Costner, John Wayne ou Henry Fonda, cujas obras ele havia acompanhado desde a juventude e matava a saudade diante da televisão pela antena-gato da rede Telecine. Almiro tornou a cuspir no próprio gramado, na cena que era agora toda dele, iluminado pelo poste que oras vivia aceso, oras apagado naquela avenida importante, mas mal cuidada, como grande parte do bairro ou da cidade. O músico Dado Villa-Lobos ensaiaria tocar o tal João de Santo Cristo naquele interiorzão à espera de alguma ação, talvez heróica, talvez anti-heróica e sobretudo sem unanimidade pelas confusas versões que narrariam o fato. Sobretudo pelas diferentes opiniões sobre cada um dos polêmicos atores. O andarilho maltrapilho tantas vezes alcunhado mulambo Jorge, o vizinho rabugento, policial aposentado Almiro, e o sedento pelos crocs, homem alto dos cabelos carapinha de quem pouco o ex-policial ou os atuais policiais conhecem.

O bigode de seu Almiro, que o mantinha no melhor formato escovinha de barbeiro, tremeu sobre a boca que exigia uma desistência do arma em punho. Mas foi começar a frase que o disparo partiu, em repentina mudança de endereço. O estampido cortou o parcial silêncio da noite, interrompendo com um uivo doloroso a sentença a ser pronunciada. Almiro tentou se apalpar no local atingido, mas cambeleou dois passos bêbedos para curvar-se, ajoelhar-se e tombar-se na calçada que orgulhosamente construíra. Ficava irado cada vez que um cachorro a utilizava de banheiro, mas agora sangrava compulsivamente sobre a bem assentada obra.

Jorge provou parte de seu caráter indo em direção ao socorro daquele que provavelmente lhe salvara a vida, custando idosamente seu término na estatística dos jornais e rádios nos próximos dias. Quanto ao duradouro momento, inesquecível para esposa do seu Almiro, a filha adulta em outra cidade e tantas outros envolvidos, eis que o par de crocs ficou a salvo das mãos do atormentado Jorge, que ao menos conseguiu descongelar-se para o socorro de seu Almiro.

O verdadeiro vilão catou o par de sapatos verde-limão e arrancou para o trajeto de onde viera buscá-los, emaranhando-se no bairro de ruelas escuras e curvas, muitas de terra seca pela falta de chuva, chão batido de levantar poeira. Era veloz o homenzarrão dos dois metros, crocs 44, passadas largadas, saudoso Paulo Brito dos gritos de "feito". Quem ouviu o disparo e arriscou meter a fuça contra o vidro das janelas - nenhuma blindada, mas a curiosidade corre mesmo esses riscos - só viu o injustiçado Jorge ser acusado pela quarta vez, a segunda em raio de dois minutos.

Populares, por assim dizer, foram avançando cautelosamente, mas, ao depararem-se com os olhos arregalados de Jorge, que recuava para longe do estatelado Almiro, constataram que o homicida estava encurralado. Jorge tentava explicar e nada saía. Mesmo que saísse, não acreditariam nele, andarilho maltrapilho, mulambo que se arrastava. Esvaziou os bolsos do casaco que trajava mesmo não fazendo frio, porque conservava-o junto dele, para evitar que outros o deixassem até sem isso. Provou que não tinha arma, como poderia ter disparado um tiro?

Não se importaram, começaram a cercá-lo. A esposa de Almiro somente choros, a filha viria a saber da notícia só três horas depois, porque ninguém se animou a uma ligação antes. O velho já estava morto e quem corria riscos agora era Jorge. Jorge cerceado, que poderia fazer? Que moral lhe dariam para explicar-se? Crocs verdes e ainda iluminadamente em tons limão, que besteira! Era uma desculpa tão obsoleta que deveriam ter acreditado no desvalorizado morador das ruas. Quem saiu de casa depois disso, no vozerio, no coro crescendo e prometendo comer, via pelas ruas perpendiculares à avenida apenas as pegadas do par 44 do crocs e a poeira que subia como se fosse fumaça de fornalha.

Jorge foi hostilizado, mas a sorte jogou para seu lado em busca do gol de empate em 2 a 2 naquela fatídica noite de reviravoltas. A primeira sorte foi ter sobrevivido aos populares que lhe agrediam a chutos e pontapés, nome de banda portuguesa de apreço de meu amigo porto-alegrense Diego. A segunda onda de bem-aventurança no bafejo da sorte foi a câmera do vizinho ter captado a ação que acusaria o homem dos dois ou quase metros de altura. O do cabelo carapinha.

A luta pelo crocs ganhou os noticiários da televisão estadual e os produtores de notícia deixaram passar pelo gatekeeping rumo ao jornalismo nacional. Jorge era notícia no país inteiro. Quando conversei com ele, não muita bola para a fama em totalizados similares 15 minutos em rede brasileira. De cabelos curtos e barba de apenas três dias por fazer, Jorge conta que foi reconhecido por algumas pessoas nas calçadas que ainda frequenta. Recebeu uma alimentação melhor por cerca de 15 a 25 dias, até cumprimentos da Prefeitura em ação solidária, quando a prefeita sorria e ele ainda se recuperava de um roxo no olho esquerdo e uma botinada que levou no maxilar. "Tudo isso por causa do maldito par de crocs."

O dono dos crocs verdes não foi localizado. Os crocs, sim. Correspondiam à cor e tamanho 44 descrito. Também são daquele par o registro do recorde de maior velocidade atingida correndo de crocs. Pelas ruas de mal iluminado bairro. O criminoso foi um total debochado de ainda calçá-los para correr aquela curta maratona, tamanha sua certeza de êxito. Descalço iria mais longe muito mais rápido, bem se sabe. À procura pelo bandido do crocs verde seguiu por 30 a 40 dias, até ser esquecida pelo papel do periódico que circulava na região. As rádios escassearam de ouvintes interessados na bizarra história. A televisão nacional, como foi dito, dedicou apenas os singelos 15 minutos iniciais ao assunto. Nunca mais quis saber de Jorge ou de nossa cidadezinha, rompendo o silêncio sobre ela somente por alguma epidemia de crack ou aumento no roubo de gado nos distritos rurais do município.

Jorge parou de almoçar e jantar como inocentado após aquele mês de reverências a seu caráter e boa índole. Dos populares que o agrediram sem conhecer a história, apesar das imagens da câmera e saber-se que moravam todos perto, em raio de duas quadras do local, ninguém indiciado, muito menos preso. Almiro realmente bateu as botas naquela noite, ou seriam os crocs? A viúva se mudou para Santos, litoral de São Paulo. A filha mora a poucos quilômetros da cidade praiana e elas agora se encontram mais seguido. Logo procurarão um pretendente para a velha Sônia, que sente falta de uma companhia e já nem muito suportava o velho marido, bancado como herói por uns, estes mais saudosos da ditadura, e como velho besta por outros. Ah, se os gatos de rua falassem...

Quanto ao articulador do plano dos crocs, pontas soltas de perguntas que não querem calar. As teorias são as mais variadas. Uns rezam a lenda que os crocs verde limão 44 tinham alguma especiaria que o faziam supersticiosos, valiosos como se banhados em ouro. Muito refutável, mas dizem que os encontrados no lixo dias depois eram falsos, ou somente outras barcas resplandecentes que coincidem com o famoso par da história. Teorias que mais fedem para o lado do falecido Almiro dão conta que ele possuía muitas desavenças desde os tempos de polícia. Portanto, o plano seria muito bem articulado, o par esquecido propositalmente diante de sua casa, o andarilho Jorge, que passava pela rota daquele bairro seguidamente e por aquele horário, veria o par, acharia uma boa usá-los (mediu-se que seus pés eram 42). O assassino voltaria à cena incriminando Jorge, aproveitaria que o metido do Almiro trocaria nada por um bang bang daqueles e o fuzilaria ali mesmo, na calçada de que ele tanto gostava.

Uma bela versão, não é mesmo? A contestação viria pela bobagem de se tratar de um par de crocs o motivo daquilo tudo. Poderia ser um relógio brilhoso, uma joia, mesmo um casaco ou uma jaqueta de maior beleza, algo que interessasse a Jorge ou a outro transeunte desocupado para servir de laranja. Mas crocs verdes e não obstante verde-limão. Os insistentes da teoria relatada com maior aceitação pelos concidadãos creem que o uso do crocs verde limão se deu por chamar a atenção, enquanto peças menores poderiam passar despercebidas por horas ou mesmo dias, ou pelo menos até amanhecer novamente. Outra que Jorge era tido como bisbilhoteiro e tinha como lema que o lixo de uns é o luxo de outros. Caiu nessa cilada que quase lhe custou a vida.

Ficam ainda as pulgas por detrás das orelhas se o assunto com Almiro é velho caso de milícia, tráfico de drogas, problemas profissionais, rixa com facções, estranhamentos conjugais (dona Sônia deu no pé) ou o que poderia ser... Sobre o último dos deboches do assassino de seu Almiro, percebeu-se parte da ação premeditada quando a filha do velho estava se desfazendo dos pertences do pai, muitos doados para instituições de caridade, parentes distantes ou mesmo deixados na calçada onde tudo ocorreu, para que fossem civilizadamente (?) carregados por quem precisasse.

Além de muitas peças de roupa encabidadas em formato de bazar de garagem, havia várias caixas emparelhadas junto ao meio fio. Qual não foi a surpresa de um amigo de Jorge, aos olhares de curiosos vizinhos à luz do dia, quando abertas as estruturas retangulares de papelão notaram uma coleção de crocs: de todas as cores, das mais diversas... menos verde-limão.

01/05/2020

samba diamante

me contrasta, me contrasta, me contrata
me afasta, me afasta, me afaga
me afoga, me afoga, minha fada
me afia, me afia minha espada
me desfia, me desfia minha farda

minha farda é tua
a lua lá fora
farda embaixo da cama
diz que me ama
que eu sou tua chega
que volta na outra semana

minha farda é tua
te visto na cama
lua pela janela
ela diz que me ama
sou a chaga dela
chego na outra semana

samba diamante
preciosas peças rosas delirantes
samba noite quente
na memória essas noites na estante

samba diamante
preciosas peças mais brilhantes
na memória essas noites na estante
e a vontade de voltá-las todo instante

e a vontade devorá-las todo instante

samba da disputa

me envolvi nessa disputa
pela articulação
campo de batalha escuta
a fé, o pedido e o perdão
o enredo temperado em medo
com os dedos dos jovens da nação

o fogo se espalha
estala suas chamas no recruta
instala moradia assim tão bruta
sutura a loucura em expansão

o fogo se espalha
na marra em crescente sedução
señala a malha ferroviária
queima lenha, queima em toda direção

com a arma apontada
a bala aporta no coração
a porta da sede, cede-se nota-se
e o peito agora é toca sem ação

me envolvi com minha bazuca
pela aniquilação
campo de batalha na permuta
em troca de granadas e canhão
o trecho com minas ocultas
que estouram sob os pés em explosão

o fogo se espalha
escancara uma clareira no chão
será que um dia isso sara?
na minha mente e na vegetação

o fogo se espalha
varre o que valha e o que não valha
nas portas da recordação
tem sua presença de navalha
não falha na aniquilação

o samba da disputa ainda dura
acende velas
mostro pra ela
o retrato que ficou

o samba da disputa ainda dura
batidas duras
e a sepultura
encoberta sob o chão


29/04/2020

visão dos muros sob minha ótica

Os muros, construções soerguidas ademais pela paranoia da timidez. Estamos sempre levantando novas estruturas que nos reprimem e afastam. Nesse exercício ensaiado a seguir, algumas relações das paredes muradas em quintais e a relação paranoica a elas atribuídas.

Antes de mais nada, recordo das memórias infantis em que, por uma determinada época, como muitas vezes minha mente pregou-me peças, eu desenvolvi uma sensorialidade para com as paredes pichadas e grafitadas, na época ainda não atribuindo a diferenciação entre piche e grafite. Tinha um verdadeiro pavor de ver as paredes assim. Quem diria que anos depois eu teria regulada paixão por fotografar e decifrar códigos nas mesmas? Mas, até então limitado de várias maneiras quanto a essas interpretações possíveis, o medo cobria-me como os traços e riscos cobriam aquelas superfícies urbanas. Algo na escola também transmitia isso, envolto com o fundo das salas repletos de manuscritos, o tampo das classes que terminavam o dia assim para trabalho extra às funcionárias e aos funcionários da limpeza. Isso muito me desagradava, sem dúvida.

Ainda em estágio de superação ao trauma mencionado, passei eu mesmo a desenvolver desenhos abstratos, geralmente monstros, sobre os criticados tampos das classes escolares. Desenhava em aulas tediosas ou ao terminar os testes, as provas, sendo impedido de sair para o pátio, para não perturbar outras salas ou discutir as respostas. Eram tempos para desenhos que muitas vezes apareciam no verso das avaliações. De qualquer forma, seguiria a discordar sobre deixar como vestígios essas representações que logo seriam apagadas. Mais serviriam castelos de areia à espera das marés do que aquele verdadeiro desperdício de meus materiais escolares e de produtos de limpeza da escola. Arte tão brevemente existente e logo censurada pela arrumação.

Pela cidade, as pichações e os grafites se multiplicavam. Certa noite na infância, sonhei que haviam invadido nossa casa e pichado as paredes dos fundos, todas brancas. Um pesadelo. Isto se deve a uma verdadeira situação em que algum jovem mal intencionado desenhou alguma besteira em vermelho na coluna que sustentava nossas grades da frente. Minha mãe obviamente enrijeceu com aquilo e tratou de limpar a panos o mais depressa possível. Ela raramente saía de casa, de modo que quando voltamos de alguma visita, a tinta ainda devia estar fresca e o responsável pelo tormento não muito distante. Mas não chegamos ao ponto de procurar com o carro no encalço de algum suspeito com lata de spray, canetas especializadas ou mochila com a qual pudesse esconder algum desses equipamentos. A limpeza foi feita e permanece intacta, com exceção de novas mãos de tinta propositais, provenientes de nossa manutenção. Em resumo, não houve outro incidente do tipo.

E, mesmo em sonho, eu não recordo de novo acontecimento a respeito, o que me agrada, pois há tantos problemas no mundo mais severos do que esse trauma que considero superado, caso me levantem a questão de perguntarem sobre. Porém, ademais das pichações ou grafites, os primeiros às vezes criminosos, às vezes heróicos das calles, os segundos muito mais caracterizadamente artísticos, ademais dessa situação, o assunto em pauta são a presença dos muros.

Também para o saldo de minha infância, esse cofre em que empilhamos tantas moedas e, ao rebentarmos anos depois, percebemos a inutilidade de tanta coisa que foi acumulada sem nexo. Ao menos assim muitas vezes me parece. Desbravado ao conhecimento o cofre da infância, analisado pormenorizadamente agora, de lupa, de lente de aumento, sob uma nova luz de lâmpada precisamente posicionada, vemos o enfileiramento de muitos muros que nos fizeram parte, como uma corrente de dominós, toda conectada. Os muros de minha casa tinham um papel protetor fundamental. Quantas vezes ouvi minha mãe contar da vez em que, logo aprendendo a correr, após caminhar, eu menino disparei portão para fora em direção ao meio da rua, correndo imenso risco de ser atropelado? Quantas vezes ouvi? Mas tudo me passou bem, dentro daquele possível, me aperceberam naquela situação fragilizada e recolheram-me o mais depressa para casa, sob duras palavras, que jamais lembrarei, e safanões e promessas daquilo não se repetir. De minha recordação, não se repetiu. Não, nada de tamanha ruptura aos portões guardiões de minha intacta segurança residencial.

Certa vez lembro de ter aberto a porta à noite sem verificar o chamado olho mágico, que provavelmente eu nem alcançara com minha altura à la pigmeu. Tomei outra série de duras e safanões nas palavras de minha mãe, que voltava de um de seus passeios, este na companhia de minha vó, tia e outras pessoas de convívio familiar. Abrir a porta, antecipando a chegada de meu pai, foi o ato irresponsável da vez. De fato, era crescente a violência do fim dos anos 1990 e início dos anos 2000.

Sobre a primeira escapada, a pelo portão da garagem lateral aberto, com idade que não me recordo, somente sei da história por repetirem a narrativa do perigo daquele acontecimento impensado. Havia o risco do atropelamento na movimentada avenida que cortava o bairro e também esse risco de rapto e recompensa, logo pensava eu na época, na minha tentativa de estabelecer sentido a essas situações. Anos depois, nessa nova ótica empírica, atenciosa sobre o cofre desmembrado da infância, é que nos damos conta de perigos maiores, aqueles que muitas mulheres ainda sentem ao saírem em psicológico inseguro para rua. Aquele crime mesmo. Esse que estás pensando. O crime que talvez mais gere debate sobre a pena ou não de morte e que, eu em absoluta conduta geral contra, até me inclino a concordar com as pessoas mascaradas de tochas, em busca da condenação maior ao infrator imperdoável. Quando se trata de uma indefesa criança, então...

Dos muros de casa para os da escola. É como relembrar a primeira vez que nossa mãe nos deixa aos cuidados de terceiros, geralmente uma pedagoga, uma terceira, uma chamada "tia", que você aprende com os colegas de pré-escola que é como deve chamá-la. Eu não chorei. Lembro e contabilizo pouquíssimas vezes em que verti lágrimas publicamente no ambiente escolar. Não chorei, mas recordo que pensei que aquilo demoraria um longo, longo tempo. Tive razão e não tive. Foram tardes inacabáveis? Foram. Mas delas agora pouco me lembro ou interferem de como estou finalmente aqui. Cada uma delas, em específico? Muito pouco a acrescentar. Da Marlene que cuidava a porta e faleceu às aulas de religião que eram sempre as mais tardias do turno vespertino, em que as crianças faziam as atividades de qualquer jeito enquanto eu me dedicava talvez em empatia e complacência com a esforçada Rosângela, educadora que pouco atraía nossa descortinada atenção.

Dos muros da escola, poucas vezes ultrapassados a pé pelas ruas centrais, recordo quando aguamos as plantinhas que enfeitavam o canalete ao lado. Um de nossos colegas deixou cair o baldinho para aquela torrente água suja. A professora até hoje deve incluir em suas preces o agradecimento por não ter sido o desatento amigo a ter despencado daquela possivelmente mortal altura. Nos espremíamos pela estreita calçada e até nos comportávamos, pensando hoje, sob a ótica diferenciada no cofre da infância. Em outras vezes rompíamos aqueles muros rumo a excursões maiores, como passeios a museus biológicos ou históricos, ao exército, a passeios rurais e fazendísticos. Mas sem o perigo de cair um outro balde ou criança dentro da vala do canelete.

Para os últimos tempos dessa vida, já recolhidos os cacos do observatório empírico da infância, a lembrança dos muros após o impacto da canção "muros e grades" dos Engenheiros do Hawaii. Impactante saber que a famosa Revista Billboard incluiu a canção entre as mais inteligentes de que se há ouvido falar, o que me orgulhava e felicitava pela banda, dona de vasto pedaço de meu coração musical em apresso. Nem parece que hoje um ex-membro se dedica a defender o pior presidente democraticamente eleito da história do país; quiçá do mundo. Mas enfim. Os muros e as grades nos protegem de quase tudo, mas o quase tudo quase sempre é quase nada. E o que nos protege de uma vida sem sentido?

Paranoico na destopia famosa do 1984, quando Orwell previa o formato dos reality shows mais famosos do planeta, lotados de edições ano após ano nos mais diversos países, campeões de audiência ainda no Brasil, mesmo passados mais de 20 temporadas do começo. Esquisito nos meus hábitos e costumes, seguidamente me pego pensando como seria se eu fosse pego nos meus hábitos e costumes. O jeito como me olho ao espelho, como invento coreografias, como seco as mãos carregadas de suor, raciocino estranho, mirando para o nada, visto a camisa primeiro pela gola, depois pelos braços, tudo isso para ser julgado e, modisticamente falando, cancelado pelos plantonistas que veriam minhas imagens captadas pelas câmeras. Ruim pensar como é a rotina de um animal em zoológico. Suas limitações de habitat, de espaço, sua existência confinada somente para deleite de quem pagou ingresso e espera que mexa-se e faça truques. Pior aos de circo.

Pelo caos pandêmico do ano de 2020, encontro-me saboreando a visão dos muros de meu quintal, estes, de minha nova morada, mais baixos do que da casa que sempre habitei. Fico exercitando a paranoia mais do que meus magros braços. Com a paranoia me coloco a pensar se estou no campo de vista do casal de idosos vizinhos, como se estes não tivessem também coisa melhor para fazer. Acontece que eu, desprovido muitas vezes de coisas melhores por fazer, observo por frestas o topo de suas portas, a de saída da casa principal e a da área destinada ao lazer. Enxergo a copa das árvores, da parreira e sei de cor (com ou sem acento - HA) algumas das roupas deles, dependuradas no varal, em bambus cujo o topo estão captados pelo meu campo de visão. Não consigo evitar vê-los. Vou para o quintal e presto atenção nesses detalhes sob o céu azul ou cinza. Observo o telhado das casas e divago para o máximo que esse horizonte me permite: três ou quatro casas vizinhas, algumas árboles na paisagem e um dos prédios mais altos da cidade, onde moram muitos jogadores do principal clube local, isso bem adiante. Usufruo desse espaço para tomar sol, garantia de vitamina D para os detentos da quarentena.

Como os muros aqui são mais baixos, o alcance da voz dos vizinhos, inclusive o timbre insuportável do garoto menor, neto deles, chega aos meus ouvidos. Tímido que sou e ressalto, me esforço para minha caixa de pensamentos, mais ou menos suicidas, mais ou menos homicidas, mais ou menos distópicos, fiquem comigo e com o papel e não em voz alta. Perdi o medo das escrituras nas paredes em pichações, mas permaneço interiorano ciente de que as paredes têm ouvidos. O sábio rapper Black Alien de Niterói avisava que no confinamento as paredes são páginas de cimento. Babylon on, Baby.

Paixão Côrtes e Peter Fonda

milonga da terra e do pampa
sobe a serra, outras tantas
atmosferas, ar tão rarefeito
pros efeitos do galpão

dessa estrada cortada por tordesilhas
colho nada, nenhum ouro
meu tesouro é voz e violão
dessa estrada cortada por tordesilhas
eu sigo pelas coxilhas e canto sobre esse chão

milonga da guerra e da bomba
do chimarrão
queria uma tarde inteira
sob a sombra da figueira
pra escrever outra canção

milonga, paixão côrtes, peter fonda
estrangeirismo que amedontra
os filhos da imigração
no lirismo de algum veríssimo
eu te peço o meu perdão

milonga da terra e do pampa
sobe a serra, outras tantas
atmosferas, ar tão rarefeito
pros efeitos do galpão

samba triste

samba, samba triste
com semblante amarrado
e o dedo médio em riste
mais milho para as pombas
invejando o teu alpiste

na rotina
da esgrima das almas
eu te peço muita calma
pra manter a guarda em cima
mas atento a cada movimento
o golpe baixo é a sina dessa fauna

a bruma que cobre cada dia
faz do dia a poesia
e a pessoa mais aluna
em suma preste atenção
em cada lacuna
que para o aprendizado
não se escolhe ocasião
não, não

samba, samba triste
com semblante amarrado
e o dedo médio em riste
mais milho para as pombas
invejando o teu alpiste

com a caneta fraca
mas a mente ainda exata
meu palpite é terminar
terminar o samba triste
de semblante amarrado
preocupado com a covid

26/04/2020

Jeca Pila

Jeca Pila, logo se vê, não é um apelido qualquer. Não, senhoras e senhores. Jeca Pila era uma mistura de interior brasileiro afixado no estado do Rio Grande do Sul. Não que o estado mais sulista não tenha interiores, pelo contrário, possui mais do que os vizinhos, mas apercebe-se o choque cultural decorrente entre um e outro, compreende?

Pois bem, Jeca Pila era natural do município de Curitibanos, em Santa Catarina. Apesar do sugestionável nome em referência à capital paranaense, este terceiro estado citado fica de fora de nossa história. Curitibanos ficava ao centro das terras catarinenses e a cidade em questão não ultrapassava os 40 mil habitantes. Um deles, Jeca Pila, lobisomen da família ao ser o sétimo de um total de 13 irmãos, foi parar em terras longínquas através da força da labuta. Pegador na enxada desde cedo, logo evoluiu de ferramentas e trabalhava com consertos em geral. Martelou e serrou de tudo, menos os dedos, os quais conservava cinco em cada mão, apesar da coloração escura de suas palmas e dedos, o que lhe conferia vergonha para cumprimentar figuras mais ilustres, inclusive os próprios engenheiros-chefes da companhia.

"Não adianta lavar que isso ficou de herança dos sete anos em que trabalhei com o couro." E era verdade. Apesar da sua inquestionável versão da história, Jeca Pila mantinha a verguenza de deparar-se com os honráveis ocupantes da câmara dos vereadores, atendentes do comércio e do despacho dos correios e, reza a lenda, inclusive constrangido de receber encomendas dos vestidos de azul e amarelo. "Correio!" e lá aparecia nosso herói cabisbaixo querendo o mínimo de reconhecimento possível. O nome exótico aqui preservado também não ajudava. Não, vamos difamar o nome do sujeito, sim, que os correios todos conheciam muito bem: Juberlan Aquiles. Jeca Pila para quem ia tratando de conhecer.

Juber... Jeca Pila, melhor dizendo, conheceu os mais diversos estados brasileiros, fato que muito lhe orgulhava, diferente das mãos enegrecidas pelo couro. Fumava a palha e contava das aventuras pelas terras de Alagoas, Maranhão, Rondônia e Goiás, estado que para mulher bonita jamais viu igual, frisava. Minas Gerais chegava perto, mas ele queria mesmo era ter casado com uma goiana chamada Carla, estudante da capital Goiânia que ele conheceu em festa bem quista na cidade grande.  Às vezes suspirava a lembrar dela. Jeca não tinha Pila nem oportunidade de ficar por lá após as viagens feitas na empresa de fretes e mão de auxílio para construções. Matando esses coelhos em paulada só, Jeca Pila aprendeu diversos sotaques do território nacional brasileiro. Carla, moça simples de família humilde, com traços índios dos antepassados da mãe, que moravam de Tocantins para riba, rumo à preservação cada vez menos preservada. Nisso, além da saudade da Carla o Jeca Pila suspirava pela devastação da Amazônia. "Tristeza que até hoje me abate", falava cuspindo a palha.

Com essa fama de Jeca pelas origens no interior, o apelido circundou por algumas cidades e em outras passava batido. Sim, por haver a concorrência de muitos outros Jecas. Perdia a essência e a excentricidade. Como resolveu estacionar sua vida em casamento em Santa Maria, Jeca Pila ao mesmo tempo cravou no mármore dos apelidos que seria Jeca Pila hasta el final dessa passagem. A moça era amiga de sua pretendente, mas como a primeira não quis, Jeca Pila foi na segunda opção. Ou terceira, se contarmos a inesquecível goiana Carla.

Quis a ironia de porco destino que a santa-mariense devota fosse outra Carla, de modo que confusão de nome não haveria para o nostálgico Jeca Pila, homem de confusões mentais naturalmente. Poderia deixar a imaginação divagar ao passado sem receio de se desentender com a Carla gaúcha por invocar memórias latentes da inesquecível. Ligado no futebol que ouvia com o pai e os irmãos desde os radinhos em Curitibanos, Santa Catarina, a vitória pessoal da Carla goiana fazia com que Jeca Pila relembrasse como o Goiás virou pedra na chuteira do seu Grêmio durante muitos anos, até eliminação no Olímpico acontecendo em Copa Sul-Americana em que o Esmeraldino do Serra Dourada acabou vice-campeão para o Independiente da Argentina. "E os malditos quase tiraram o Grêmio da Copa Libertadores seguinte", resmungava talhando uma madeira, ouvido por Adão e Jaime, seus amigos próximos.

Apesar do futebol e do Grêmio, sentindo-se em casa em Santa Maria, reduto de muitos tricolores, as paixões de Jeca Pila eram carros e, ele, é claro, o dinheiro. Jeca Pila não ganhou esse apelido por acaso, meus amigos. Ainda adolescente quando foi morar durante duas invernadas em Novo Hamburgo, na região metropolitana de Porto Alegre, o frio que passava com pouca roupa e o sopão que não dava conta de aquecê-lo o faziam reverberar em discursos empolgados sobre como seria quando tivesse a grana necessária. A pensão tinha que aguentar Jeca falar dos pilas que não tinha do amanhecer em café da manhã gelado até o esfriar do sopão. Não satisfeito, até o último apagar a luz, ainda estava Jeca - que ganhou a alcunha Pila nessa época - a tagarelar aos quatro ventos sobre sua futura travessia de milionário em outros pagos. Nem a Carla goiana podia competir com o poderio financeiro que emanava naqueles sonhos rechonchudos.

Jeca Pila nas caronas e traseiras de caminhão a incomodar motoristas, passageiros, colegas de trabalho e incluso os fretes em discursos do que compraria caso evoluísse da condição de ser o mero Jeca Pila, pau para toda obra. Não convencia muitos ouvintes, porque logo se via sua paixão desvairada por carros se sobressair à segurança que um imóvel poderia dar para uma Carla ou outra.

Jeca Pila demorou a ter um carro para colocar na garagem apertada e improvisada na casa que comprou com Carla, pedagoga auxiliada pelos familiares, que viam em Jeca mais um lunático do que um bom partido. "Ao menos Aquiles é um sobrenome bonito para Carla", alegava a mãe. "Gosto de falar com ele sobre carros", comentava o sogro do Juberlan. Mas enquanto o sogrão, melhor equipado, tinha um Corolla na garagem, nosso Jeca Pila tinha que se contentar com sua mais nova aquisição: um Monza do ano de 1994. "O ano do tetra, como bem me lembro", recordava com os fieis ouvintes Adão e Jaime, parte do cenário da narrativa, apenas comprovando que Jeca Pila possuía, sim, amigos capazes de suportá-lo por um bom período de décadas.

Mesmo desempregado da estatal em que era operário na virada do milênio, na passagem para os anos 2000, por conta de decisões políticas e cortes provocados por governo de direita, Juberlan jamais conseguiu enxergar diferença entre eles e alegava enquanto descascava alguma vergamota no alto inverno: "é para frente que se anda". E nisso, Jeca Pila, que precisou se arrumar em qualquer bico de serviço braçal, como começara a vida de trabalhador lá na infância dos anos 1980, precisou ser um santo com a Carla e sua família, cuidando até para a urina não errar o alvo a cada manhã. Se aliviava que trocar o nome foi enrosco que nunca ocorreu, mas isso já explicamos o porquê.

Jeca Pila reservava parte do estreito salário para se dedicar à pequena fé (fézinha ou fezinha, ambas ruins de escrita, né?). E jogou na loteria ano após ano, desde a adolescência de primeiros rendimentos. Melhor do que aplicar numa bolsa, numa poupança - ou imóvel, que os caroneiros lhe diziam e ele não dava bola - Juberlan tentou mensalmente acertar seis, cinco ou mesmo quatro números que lhe rendessem uma grana não antes vista. Mas ela continuava invisível, existente somente nos seus ideais capitalistas de sonhador. "Loteria mesmo foi eu ter achado outra Carla na minha vidinha", se contentava muitas vezes quando comia o almoço preparado pela caprichosa Carla, comia tanto que ficava triste, como direciona o ditado.

Entrou de vez para o mundo tecnológico quando aplicativos de conversa, em que além do Adão e do Jaime, companheiros da estatal que continuaram conectados na vida do herói do sub-mundo interiorano, conheceu muitas outras pessoas e começou a multiplicar contatos. Perdeu dinheiro em jogo de pirâmide e não quis mais. Descobriu brechós de coisas que caíram de caminhão, não ligando se quando ele trabalhava em caminhões muitas vezes tiveram a carga saqueada e o trabalho de dias era igual a voltar para casa sem tostão no bolso. Aproveitou outras vantagens que a internet, mesmo sob o sol e transparente e cristalina oferecia, longe da caduquice que certa vez ele ouviu falar de deepweb. "Jipe pra mim é carro. Ah, se eu ganhasse na loteria..."

Teve um casal de filhos com Carla, primeiro o menino Gustavo e depois a menina Patrícia. "Nomes dignos para eles, diferentes do meu, Juberlan, que isso até ofensa é, às vezes penso, embora ninguém possa me ofender que perco as estrideiras", confessava, em rara ida ao bar, para os santificados Jaime e Adão, para variar a ordem dos águas de poço. Lembrando que ele não podia nem mijar fora do vaso para não perder a bocada com a Carla e a família. Se bem que a situação dos filhos, com apenas dois anos de diferença cada um, com o casamento começando a comemorar bodas disso e daquilo, tudo isso assentava a possibilidade dele dedicar um cadin do salário para outras missões que não lotéricas. "Comandante, mais um milho gelado aos pintos" e bebia menos preocupado.

Preocupação veio quando conseguiu adquirir um aparelho de HD para a televisão da sala, mas Carla garantiu que era por conta dela e da família. Jeca Pila apenas deu de ombros e se afundava no sofá enquanto Carla procurava algo de decoração de interiores ou casas em árvores e beira de lagos nos Estados Unidos, coisas que eles apenas namorariam no cruel ramo da imaginação. Além do mais, ele gostava mesmo era da brecha no controle remoto para procurar por carros conversíveis, aros, calotas, modelos clássicos e "nada de rebaixados, que isso não é coisa que se faça nos coitados", quase chorava de desolação quando os via. "Vontade de furar os pneus desses maloqueiros todos."

Com um aparelho a mais, o de HD na televisão da sala, para se preocupar, com os filhos matriculados na escola para mais um ano, o Monza disputando espaço com os vasos de planta que Carla gostava de conservar no apertado pátio que servia de garagem, apanhando as filhas da fotossíntese mais dióxido de carbono e menos sol do que deveriam, com o celular já parcialmente rachado com ainda duas parcelas para pagar, o Jeca Pila nunca esqueceu do dia 26 de junho, quando finalmente, após todos aqueles anos, resolveu ligar para política pela primeira vez na vida, após anos querendo andar somente para frente, nadando quaisquer que fosse a maré.

"Carla, proteja as crianças, ligue para seus pais, certifique-se, mulher, que eles estejam bem..."
"Mas desgraça, Jejê, o que está havendo? Que bicho que te mordeu?"
"Os comunistas, mulher
... eles querem tomar nossas coisas..."

25/04/2020

William Burroughs te abençoe

Tenho morado sozinho com minha mãe nos últimos anos. Você vai pensar que meu pai nos deixou, mas ele apenas morreu mesmo, que é alguma previsão possível fazer pelo lado da família dele. A expectativa de vida deles quando encontra a chamada terceira idade é de ir preparando os registros funerários. Pesado, mas é o que acontece. Faz alguns desses anos que eu fumo, então aceitamos cigarros em troca de histórias em bancos de praça. Queria ter vivido mais eventos como Forrest Gump, mas acho que o barato dele era correr rápido. Eu até que conseguia isso, correr rápido, mas conforme fui me tornando adulto as glândulas do suor disparavam e ninguém conseguia deter esses esguichos que irrigariam um gramado de futebol, tá me entendendo? Obrigado pelo fogo. Isso.

Meu avô também corria bem, conta ele, agora virando os 90 anos. O pai de minha mãe. Quando eu ainda o visitava, ele seguidamente contava sobre suas aventuras no exército, em provas de 100 ou 200 metros. Tirou medalha de prata em provas do município e arredores, servindo pelo 9º Batalhão, nome que ainda conservam na sede, basta passar na frente. Sim, naquela avenida que é a principal do bairro, tá me entendendo? Apesar de eu não ser fumante há muito tempo, já não lembro a última vez que traguei com vontade, sentir os pulmões fazendo o que estão prontos para fazer. A gente os maltrata, mas eles dão resultado. São como os oceanos ou os animais criados em matadouros.

Cara, assisti a um documentário que me deixou mal de um jeito, não aguentei 20 minutos. Eu nunca havia desistido assistindo a essas merdas, mas esse me derrubou. Sobre o que era? Ah, sim, era o documentário Terráqueos, com narração do Joaquin Phoenix, o mesmo cara que mora com a mãe fazendo o papel do adulto fracassado no filme Coringa. Este filme Terráqueos é sobre a relação dos humanos com os animais, daí você pensar na espécie que quiser. Eu não recomendo verem, não recomendo, eu não aguentei. As espécies, a natureza, elas estão fritas na nossa mão. A maior parte literalmente. Aquela história de comer morcego tem a ver com o vírus? Não lembro o que eles alegaram, mas nunca duvido. Uma conspiração de vez em quando faz bem, exercita o cérebro de um jeito... Aquele álbum do Offspring sobre Conspiração de Um, acho genial a ideia, me sinto conspirando sozinho muitas vezes. Vasculhei em sites na falta do que fazer e quase acabei levando a camiseta.

Estou gastando seu cigarro e contando nada? Vai precisar me fiar outro para sair algo, agora te prometo. Me dá esse mais amassado, viu como sou camarada? Não vai ficar com a última bolacha do pacote. Essa metáfora da última bolacha toda perfeita é Disney total, tá ligado? A última gruda na embalagem, fica toda detonada da pressão depois de carregar e descarregar o pacote sucessivas vezes, quando eu não esquecia da mochila. Sinto que quando eu como açúcar é que fico assim, divagando diversos assuntos, acendendo luzes na minha cabeça como uma imensa mesa de pinball.

Eu moro com a minha mãe desde a morte de papai. Era um bom homem, sobretudo para os outros, havia nada o que se falar dele por aí. Por muitos anos ele cuidou dos gatos de rua aqui do bairro, bem no final da nossa quebrada. Havia uma casa abandonada, uns terrenos baldios e uma grande antena de telefonia celular. Devia ter uns 30 metros de altura, mais ou menos como um monge em estátua que apareceu esses dias na televisão nesses canais culturais. O monge era bem exagerado, parecia querer se impor à força da escultura, no encaixe das pedras. Se um dia resolve deitar montanha abaixo, só para variar a posição caso dê uma cãibra, soterra centenas de fiéis em segundos. Todos os dias deve ter milhares de pessoas querendo conhecer o monge grandalhão no alto de uma escadaria lá por aqueles lados.

Mas os gatos, os pestinhas comiam tudo que sobrava de nossos almoços e jantas. Antigamente tínhamos rurais criações de galinha. Isso para fora e o galinheiro se saciava de todos os nossos restos, deixando nada para as pombas ou ratos; galinha é um animal devorador para valer. Come até pedra. Quando viemos mais para cidade, no beco dessa quebrada, os gatos foram os responsáveis por eliminar aquele restolho de comida da nossa consciência. Horrível sobrar qualquer coisa quando tanta gente passa fome, tá ligado? É por isso que a gente deve ser camarada e compartilhar cigarros, histórias, o que conseguir trazer conosco nesses tempos loucos.

Meu pai saía à noite para alimentar os gatos. Desde a morte do meu irmão, que eu tinha um irmão um pouco mais velho, ele passou a olhar diferente para mim, de modo que quase elimina toda a tirania dele nos anos anteriores comigo. Eu odiava cigarros quando mais novo, porque meu pai muitas vezes me queimou com eles, quando não me batia com o chinelo. Foram tempos de demissões em massa pelo país, mais ou menos como está ocorrendo agora, mas por outras causas, evidentemente. Mas a causa sempre é a mesma, meu, a ganância e o dinheiro. O dinheiro que traz a ganância, a ganância pelo dinheiro, tá me entendendo?

Tá me oferecendo mais um? Acha que mereço? Deve ter concordado com essa última frase, o que me alegra, percebe meu primeiro sorriso desde que nos vimos? Esse é original, é verdadeiro. Antes quis apenas parecer cortês, honesto, atrair sua atenção, mas agora já pode confiar em mim. A gente aprende a disfarçar bem sorrisos forçados tentando descolar alguma coisa nas ruas. Mas os músculos faciais se movimentam diferente dependendo da nossa intenção, da veracidade do fato. E, mais para perto dos olhos, pode ver a diferenciação nas rugas também. Meu irmão mais velho teve formação em biologia, fez um financiamento. Estava terminando de pagar quando o assassinaram por besteira na saída de uma festa. Um mal entendido. Ele nem era de se meter com mulher de outro, soube disso só uma vez. É, ele cursou biologia e não exercia. E aquele maldito financiamento. Mas não, isso do sorriso não aprendi com ele. Embora ele me deu muitos motivos para sorrir nessa vida.

Agora está tão duro viver aqui fora. Esfria e qualquer fogo ajuda, não? Não, não estou pedindo mais, apenas um comentário. Outono-inverno, tá ligado? Em seguida me recolho pra casa, tem o suficiente para jantar e minha mãe me espera. Me espera todas as noites. Está difícil ganhar a vida. Expressão idiota essa de ganhar a vida se só tenho perdido. Meu irmão naquela besteira naquela noite, foi em um sábado, nunca vou esquecer. Acho que peguei pavor de telefone depois daquela madrugada de incertezas, se era ele ou não, se estava vivo ou morto, até confirmarem tudo. Meu pai tinha ido até lá e ele mesmo nos confirmou, minha mãe chorando ao telefone da sala, porque desde a incerteza se era ele ou não, se vivo ou morto, minha mãe não conseguia dormir. Mas os documentos, o RG, a carteira de motorista, estava tudo lá, obviamente era ele, a gente só custa a entender mesmo.

Bom, meu ônibus deve pintar daqui cinco minutos, vou me encaminhando pra parada certa. Você me ouviu bem, às vezes a gente só quer alguém pra ser ouvido e você me ouviu muito bem. Quem deveria estar oferecendo cigarros era eu, mas você vai me oferecer o último e eu vou aceitar, parecendo aquelas crianças que acabam com as balinhas de brinde e a secretária sorri constrangida os pais não ensinarem limites. Meus pais deveriam ter me ensinado mais sobre limites: de como a vida é dura e o que eles construíram ficou para geração passada, a geração deles próprios e agora é minha vez de me acotovelar na concorrência hostil por algo, ônibus lotados, dias que começam cedo e terminam muito tarde. Há quem prefira o metrô nas cidades grandes, mas aqui não tem essa opção, nunca vai ter, e tudo nas capitais parece muito longe. Não saio para as capitais porque aqui ainda temos o imóvel que meu pai construiu e a minha mãe sempre me espera.

E os gatos me esperam, porque, apesar de um ter sido pego por um daqueles cachorros, um rottweiler, há meia dúzia ainda me esperando. Os laranjinhas hoje são meus favoritos, mas os tigrados me lembram a infância, depende como estou nostálgico. Hoje você me ouvir assim me deixou nostálgico, de modo que aceito, sim, o seu último cigarro. Dois minutos para meu ônibus, preciso ir. E ajeitar a marmita dos gatos lá em casa. Antes de irmos, já ouviu aquela música Dani? Dani foi escrita pelo Jimi Joe, mas eu gosto mesmo é do Wander Wildner. É uma das minhas favoritas. Que William Burroughs te abençoe, meu velho.

23/04/2020

Túnel da Conceição

"O vocalista do Green Day, Billie Joe Armstrong, utilizou uma imagem de Porto Alegre, do Túnel da Conceição, durante a sua participação no festival Together At Home, na noite deste sábado. A foto da entrada túnel esvaziado apareceu ao lado de outras imagens de cidades na mesma situação. Billie Joe cantava “Wake Me Up When September Ends”, um dos sucessos do Green Day. 
Com diversos nomes famosos da música, o festival online é uma homenagem aos trabalhadores de saúde que atuam no combate à pandemia causada pelo novo coronavírus no mundo. Além da música, o evento também conta com a participação de profissionais de saúde, que intercalam falas entre as apresentações."
Fechadas as aspas para a notícia publicada no jornal gaúcho Correio do Povo, em 18 de abril de 2020. O túnel da Conceição invoca diversas lembranças e memórias em mim. É um ponto fácil de situar no confuso mapa de Porto Alegre. Para mim, interiorano, sempre difícil de identificar, mesmo depois do aprendizado das regiões e alguns bairros, muitas das melhores saídas e entradas, sobretudo no assunto trânsito. Pois tranquilamente localizo o agora mais famoso túnel em uma representação qualquer das aberturas de ruas e avenidas da capital rio-grandense.
O sentimento de familiaridade com o Túnel da Conceição aumentava a sua responsabilidade para comigo. Agora éramos conhecidos. Passar da Avenida da Legalidade, que insistem em branquear castelo, contornar a rodoviária municipal de Porto Alegre e logo engolir-se à escuridão das entranhas do Conceição. Aquela zona hostil margeada dos altos prédios, desacostume a quem vem do aberto pampa, do terreno plano monótono na cor que se estende até onde alcança o par responsável pela vista.
Todavia, o Conceição era um ponto de cores e até o californiano Billie Joe notou. Contrastante ou confirmante daquela atmosfera plenamente urbanizada? As cores que se desenham são as pichações e grafites por sobre a sua pintura original. Regiões hostilizadas por vermelho sangue, por branco sêmem, por redundante cinzenta cinza de cigarro, por escuros vultos que vagueiam no cair das noites. O amarelo cego dos faróis velozes, instantaneamente substituídos no vir e vir. Falta verde e sobram cores nas paredes. Conceição de mensagens legíveis ou não, entendíveis ou não, selvagens sim ou sim. Conceição da urgência, da emergência da ambulância que cada ambulante traz em si, em rituais silenciosos pela sonoridade ensurdecedora entre humanóides urbanos. Mas afinal, o que é punk rock? Um olhar do Billie Joe, um túnel da Conceição? O túnel é punk, o túnel é punk e espanca a visão; quando vazio, como nos preenche?
Carrego comigo, e na maior parte da família, apenas sobrenomes alemães. Um empréstimo polonês para a origem duvidosa dos Venzke, os estrebuchados poloneses apelidados de Venceslau a cruzar fronteiras no norte alemão. Fugindo à rasteira regra, o sobrenome de minha avó paterna era Conceição, mas meu pai e meus tios não possuem esse registro, levando com eles somente o sobrenome paterno, o alemão de meu avô. Obviamente que se fosse alterada a ordem para o sobrenome materno ter maior importância, a não ser que nós decidíssemos o ponto histórico dessa ruptura, toda a história poderia ser alterada em nomes e alcunhas e, por que não? apelidos. Não cabe a nós esse arrojado objetivo, mas pontuamos que os portugueses Conceição de alguma maneira estavam presentes nessa grande biosfera que é minha árvore genealógica.
Em tempos pandêmicos, como os ocorridos em 2020, a falta de notícias ou relevâncias, para além dos aspectos da saúde - ou falta dela -, tornaram grande acontecimento a aparição do Túnel da Conceição assim mundialmente, em evento dos mais mencionados do período. Uma vírgula de orgulho bairrista-gaúcho em meio ao período que pontuou o fim de tantas vidas. Pois bem, é que o Túnel da Conceição (esforçado orador em tossidelas para trocar de assunto - ou manter assunto), o Túnel da Conceição faz parte do cotidiano de milhares de portoalegrenses e metropolitanos que entram e saem da cidade diariamente. Mesmo aqueles mais desacostumados ao movimento pendular cotidiano, a recordação de fins de semana, idas e chegadas, sal e queimaduras no corpo ou a busca por pegar onda, enquanto Armandinho e outros somente imaginam como seria pegá-las no Guaíba.
Quem vem do interior, como é o meu caso, também rapidamente acostuma-se a essa paisagem, cartão postal de recepção, que parece, à sua forma e conservação, explicar que Porto Alegre, seguindo exemplos de outras capitais ameaçadoras, não é para amadores. Os olhos impressionáveis ficam a tentar captar familiaridades da última passagem nele, ao mesmo tempo que buscam novidades em termos paisagísticos, novas inscrições nessa arte criminal metropolitana. A disputa de espaço nas paredes. A disputa de espaço entre os veículos, o trânsito ligeiro que impede ao motorista a nossa mesma gama de impressões, ele focado ao trabalho, eu deixando o imaginário percorrer-me, perambulando pela horizontalidade de garganta do túnel e seus exteriores verticalizados em edifícios. Uma composição inesquecível e modificável, entre janelas abertas e fechadas, gradis que protegem os internos e se tornam ainda mais ameaçadores a nosotros visitantes; hominídeos rotativos entre gorros, cigarros, corcundas, bolsas, pressas direcionadas ou passos calmos sem direção, carrinhos de supermercado, produtos, cadernos, relatórios, rolex, celulares, pastilhas, drogas, isqueiros, moedas, anéis, unhas roídas, sujas ou manicurizadas.
Foi em uma das vezes em que eu saía de Porto Alegre, após passar um longo período de três dias. Era meu costume não turistar pela capital gaúcha por períodos maiores do que esse, me enchendo de nostalgia, me apertando a ânsia de retomar dias como aqueles, de aprendizado e experiências inéditas. Quando voltava da zona norte da cidade, quase na Alvorada, e vinha em transporte público pela Manoel Elias que desembocava na famosa avenida Protásio Alves, eu erroneamente imaginando que decorava seus pontos de ônibus, prédios e pequenas aberturas comerciais, quando meu olhar fugidio pela janela cansava de tudo que estava fora e queria focar em quem estava a meu lado. Ouví-la falar sobre o urbanismo porto-alegrense era música em formato milonga, eu felicitado pelo sotaque antes fronteiriço alegretense e agora cada vez mais capitaneado pela cidade marginal ao Guaíba. Aquele sotaque que me intrigava, mas me familiarizava por tanto escutá-lo por três dias; aquele sotaque que ainda posso evocar na mente, se me concentrar, de vez em quando. O urbanismo que ela me relatava complementava o curso de arquitetura que ela recém havia se graduado.
E eu, fiel perfil estrangeiro, cumprindo com minhas obrigações de hóspede em comportamento diante dos familiares, com minha mala preta pousada entre meus pés, com as pernas em síndrome inquietas, precisava agir para convencê-la de meus objetivos. Ainda pela Protásio Alves o primeiro investimento, o reclínio das cabeças, o movimento ritmado do pescoço e de músculos faciais. A dúvida até hoje de, pós-ressaca naquela matinê, como havia se comportado o meu incerto hálito? 
Mas, para o final da linha, com os prédios a aumentarem andares e o nosso tempo acabando, com a aproximação do meu reconhecido Túnel da Conceição, solicitei a ela que repetíssemos o ato, somente pela recordação. Talvez eu pensasse mais no futuro, que aqui está presente agora, do que naquele proveitoso momento, hoje engendrado em cofre das memórias passadas.
Postados em pé na rodoviária, lado a lado, pela terceira vez ela me permitiu a união bucal, esta em tom de despedida. Sorriu para mim e retomou o caminho de casa, ela da zona sul à zona norte, na quase Alvorada, mas antes mesmo do populoso Rubem Berta. Enquanto isso, eu voltaria ao pampa monótono com o olhar novamente perdido pelas janelas de outro ônibus, esse de viagem, com meus fones de ouvido a embalar novas miragens.
Tudo isso na mesma salada somente pela fugaz passagem pelo Túnel da Conceição? Vocês podem estar perguntando ao final dessas romantizadas linhas. Acontece que ambos éramos muito fãs de Green Day. One more time, thank you, Billie Joe Armstrong.

22/04/2020

bolinhas de piercing

Pele clara como a lua e no restante era soturna como a noite. Entretanto, era uma figura bem quista nos meios por onde andava, apesar de ser considerada estranha ou, no mínimo, peculiar. Ela era uma amiga fiel para os momentos mais difíceis, aqui repito depoimentos que me foram passados. Aconselhava em conversas demoradas de meia ou mais de hora. Assim era bastante requisitada quando a coisa apertava e se mostrava solícita em prontidão. Essa característica principal, tão repentinamente ressaltada, mostrava sua voraz vontade de ajudar o próximo. Não se limitava aos amigos, portanto até as noites de bares e os raros acompanhamentos que fazia em festas rave resultavam nisso. Ela percebia um mundo em que muita gente necessitava de cuidados ou o mínimo de quem as ouvisse.

Laís entrava na fase dos 20 e poucos, um tanto chocada pela passagem do tempo, mas "faz parte", como ela própria poderia frisar ao final de suas reflexões. Quando não encontrava saída ao labirinto de fauno, o "tanto faz" poderia ser invocado para o término de seus raciocínios, como quem se cansa da leitura e pousa delicadamente o livro com a fita vermelha a demarcar a página onde cessou-se a atividade de correr os olhos pelas linhas.

Ela tinha o hábito das tatuagens, mas sua grande paixão eram os piercings, personagens centrais de nosso enredo. Ela preferia a noite e preferia o frio, de modo que sempre imaginei sua cidade-natal como alguma regravação brasileira de Crepúsculo. A pouca luminosidade, as araucárias e outras árvores a povoar a região em seus exércitos abastados, todos de continência a seus postos. Os jovens com suas camionetes a cortar o asfalto nas noites, driblando fiscalizações em missões não como os contrabandos dos Estados Unidos no início do século passado, mas portando e consumindo bebida alcoólica no revezamento dos motoristas, designando a infração contra a lei. Sabiam que uma rápida observação com a lanterna para dentro do espaçoso carro resultaria em apreensões e problemas federais com os de uniforme azul e amarelo.

Mas "faz parte". Ela própria, em geral, respeitava as mais obtusas leis de nosso Estado. Difícil bancar a mãe dos outros, de idades semelhantes ou às vezes inclusive maiores, o tempo todo. O alerta por ela era dado, o registro era feito, mas a decisão, a escolha eram dos demais ocupantes. Os amigos e os amigos dos amigos. Out of control.

Era bem dedicada aos estudos, mas não sabia exatamente o que estudar. Tinha aptidão para diversas áreas, da saúde, com seus instintos protetores, ao direito-penal. Não era difícil imaginá-la em discurso bem ponderado, coerente e obstinado perante Vossa Excelência. Em fechamentos discursivos que não raramente dariam início a uma salva de palmas e uma unânime condenação, caso escolhesse esse lado, ou uma unânime absolvição, como no dia a dia lhe era mais frequente.

Possuía uma empatia muito grande pelos demais seres humanos e animais. Conhecida nossa personagem de olhos e cabelos negros e de preferências totalitárias noturnas em relação ao brilho do dias, chegamos aos pequenos personagens. As minúsculas esferas brilhantes, porém tímidas. Fieis aliados como um exército devidamente equipado da arma à qual ela precisava nas mais distintas situações. Os obedientes (ou desobedientes) piercings eram estruturas centrais para entendermos Laís.

Você deve estar pensando "ok, ela gostava de piercings, mas e daí?" mas a questão ia muito além disso. Ao ter os piercings com ela, espalhados por regiões visíveis cotidianamente ou não, ela adaptou a melhor desculpa possível para fugir de situações constrangedoras, ou cansativas, ou maçantes em geral. Sempre que algo se encaminhava para resultar nesse enredo pouco confortável, Laís de prontidão preparava sua melhor atuação - atriz desse porte semi-profissional que era - e após uma ou outra engolida em seco, disparava a frase: "perdi minha bolinha do piercing".

Tudo bem, o pessoal que entendia mais ou menos das complexas estruturas piercierianas, iniciava o mutirão pela recuperação do mais legítimo elo perdido. Após uma vasculhada pelo solo, em que todos se propunham na dura missão de visualizar o desafio à miopia e, ao mesmo tempo, tentando não pisar por cima do sumido dito cujo. Laís defensivamente sensata esperava alguns movimentos, uns cabisbaixos como se estivessem preparando-se para a mais fidedigna imitação de um avestruz, ou de pombo a catar os grãos jogados nas praças, e então a menina protagonista (ou eram os piercings?) abdicava da ideia e dizia ao público-geral, informando a suspensão das buscas: "acho que perdi antes, já volto".

Ela saía do recinto e recusava qualquer auxílio-extra. "Não, não, podem continuar aí, não quero atrasar vocês". E, coração bom que ali pulsava, não queria mesmo, somente a paz que tanto zelava e estava ameaçada segundos antes. Mais eis o singelo sabor da liberdade em poder tirar um tempo de tanta socialização, de tanto barulho e conversa alta. Tirava um tempo para contemplar a natureza, um de seus escapes favoritos, principalmente nas noites estreladas em que se deliciava a procurar - e a encontrar! - constelações. Ou ela ia a um banheiro e se fechava na cabine para refletir sobre a imensidão da expansiva vida, aquele universo que fugia ao seu perfeito alcance, mas não ao interesse.

Teórica, filosófica, exploradora da natureza. De fato que, como possuía os piercings em áreas de total desconhecimento do que a cercavam, ninguém duvidava de seu curioso método de retirada. As tropas saíam em debandada, ela e seu exército de orientandos piercings. Moça peculiar - no adjetivo dos mais elegantes - até esquisita - nas mais diretas palavras em tons veladamente ofensivos. Ela sabia que era impossível fugir desses comentários maldosos, mas as saídas dos ambientes tóxicos - palavra da moda para época - eram cruciais para a manutenção da sua saúde mental. Ela sabia disso e assim vivia.

Mesmo em excursões, viagens a locais novos: "perdi minha bolinha do piercing". E Laís sumia no horizonte para receptores estupefatos daquela repetitiva cena. "Ah, não, Laís, de novo" e ela mal ouvia, apressada, rumando para seus tramados esconderijos. Dizem que a primeira coisa que a pessoa tímida nota em um novo recinto é a porta pela qual ela pode escapar. Laís ia além e preparava verdadeiras táticas de guerra, estratégias ademais do conhecimento dos maiores generais. Justo ela, menina interiorana gaúcha, tão distante de ocupar um apropriado e nada exagerado cargo de Ministra da Defesa. Sim, capitã.

Ela fazia nenhuma evacuação como descer em um cano escorregadio com uma maquiagem militarmente camuflada, nada disso. Nem saltos de dublê pelas janelas dos prédios para se acocorar nas árvores. Os piercings faziam o trabalho duro por ela e depois era só meditação e autoconhecimento, orgulho para o ET Bilu e demais praticantes das teses elaboradas desde a Grécia de Sócrates, Xenofontes e Platão.

Não importava a ocasião, Laís imaginariamente riscava sobre a pele clara e sardenta das bochechas as pinturas guerrilheiras abaixo dos atentos olhos. Estreitava aquele par de amêndoas e botava em prática a frase mais vital para ela do que estourar uma granada em cerceamento inimigo: "gente, perdi a bolinha do piercing". Ela se acostumou a ouvir dos amigos e amigas mais próximos que precisava dar um jeito nisso. Comprar de outra marca, ser mais atenta, tirar logo essas porcarias, bradavam os já impacientes ou propositalmente implicantes contra a moça, que mergulhava vez a vez para um campo de suspeita. Afinal de contas, espiã de guerra de tantas e recorrentes missões acaba se tornando alvo das linhas adversárias. Não é sempre que o contexto de infiltração nas linhas inimigas saía com a mais perfeita distinção e discrição. Mas ela era boa, confiem na Laís.

Não raras vezes salvou bêbados em bares underground, mas prudentemente não esperava pelo avanço das tropas aliviadas em hálito vômito-fresco. Boa hora para perder a bolinha do piercing, com certeza. Outra vez eram os amigos dos amigos, eles achavam que "ah, mas agora vai, ela tão solitária, tão na dela, esse é um bom rapaz e nem bebeu demais", mas que nada. Laís ao banheiro, Laís para o corredor mais rápido, Laís para longe, procurar a bolinha de alguns dos revezados piercings na missão de proteger sua hospedeira.

Das amigas, que ela tanto ajudava nos anos anteriores, passou a ganhar títulos e apelidos curiosos pelo seu comportamento excêntrico, mas no fundo as mais próximas, sim, elas bondosamente reconheciam o papel fundamental de Laís na formação do grupo, perfil conciliador, entendedora das dores alheias melhor do que qualquer enfermeira ou mapeadora googleana de perfis esquizóides. Laís reconciliava amigas prontas para se darem tesouradas, juntava casais separados, lia a sorte nas borras do café e o futuro cartomante nos naipes do baralho. Mentira, não trazia o amor de volta em três dias. Não sempre, o que significa que uma propaganda no outdoor aqui poderia caracterizar publicidade enganosa e não queremos isso. Nem Laís nos pagou mensalidade de anúncio em 199,99 reais.

Leitora assídua de autores conturbados, poetas marginais e das periferias dos países mais ou menos periféricos, fazia uma boa ponte desse conhecimento tão desconhecido da sua geração brasileira aprendiz das versões traduzidas por Herbert Richers. Transpunha olhar para o céu e ver as estrelas que memorizava e tão natural para ela era recordar dos nomes, mas olhava para si mesma, em espelhinhos de bolsa ou espelhos pichados a batom ou canetas góticas nos banheiros e não saber o que via. Laís se viu só escudo naquela batalha, tão solitária era ela e suas bolinhas de piercing. Defendia-se mesmo de quem estava próximo e querendo ajudar.

De piercing em piercing perdido, logo logo eles podiam ficar quietos no contato com sua pele, porque era ela mesma quem não aparecia nos locais. Não tinha tempo ao cinema, não iria à festa da Fulana porque ela já não se sentia à vontade e não tinha mais idade para festa, dizia diretamente ou para si mesma - cansada de cuidar bêbados conhecidos ou desconhecidos - deixem meus piercings quietos!

Sua mãe estranhava ela mais para dentro da prisão domiciliar de seu quarto, ela que há meses nem para piercing mais saía de casa. Não pensem que ela andava com o rosto refletindo cada raio de sol. Não, os piercings eram discretos, uma orelha, um mamilo, uns mais para baixo. Mas nenhuma ida ao agulheiro para novas ideias ou renovações no exército dos piercings e suas artilharias de bolinhas perdíveis. Laís andava realmente cansada.

Para as aulas, na terceira graduação que iniciava, ela ainda ia. Os novos colegas estavam tão pouco familiarizados à moça que nem sabiam que ela perdia as bolinhas dos piercings. Ou, perdão, não perdia. Vocês entenderam. Mas a Laís não se entendia. O que havia crucialmente mudado? As pessoas eram as mesmas, ou pelo menos semelhantes, não estava no ser humano a resposta. Ou estava? Nas noites com ou sem lua, nas constelações da Cruzeiro do Sul, das Ursas ou da Fênix. Pássaro vindouro era o que ela precisava ser. Renascer praticamente, porque assim já não dava, não havia condições de suportar esse atordoante sofrimento. "Laís, pelo menos a janta, minha filha." "Já vou, mãe", respondia, mas não ia, não saía daquele quarto.

Foi então que estava prestes a tomar medidas drásticas: arrancaria todos os piercings. Uma revolução que não seria televisionada, nem pelo rádio. No silêncio daquela operação. Entretanto, ela nunca ocorreu, porque, na véspera do dia derradeiro, da tomada de coragem, na respiração em garganta profunda para essa decisão, veio um acontecimento marcante para servir de reviravolta.

Ela era magra, roupas escuras como as de Laís, cabelo escuro e com uma franjinha que tapava levemente o olho direito, em uma união com sobrancelha que nossa heroína jamais esqueceu. Ela apareceu pelo campus e era a primeira vez sem dúvida que Laís a viu naquela graduação chamada vida. Ela comprou um sanduíche e um suco e Laís, metódica que sempre foi, olhou cada sumiço de queijo e alface e o desaparecimento do líquido na garrafa até o final do conteúdo naquele fatídico intervalo. A informação que estava sendo destrinchada foi concebida em seguida pelos piercings: pessoal, nós vamos ficar.

Laís não mexeu nos piercings no dia seguinte, nem no outro, nem na semana posterior. Mas mexeu suas atitudes e foi de encontro àquela figura que lhe havia tomado o ápice da atenção. Conversaram sobre Beatles, esporte, aquecimento global e o que Gessinger acrescentaria em hora certa, crime e religião. Se traduziram da melhor maneira possível, da forma como estava inimaginável para Laís sair de seu cronograma frustrado rumo à derrocada definitiva de seus amáveis piercings. A melhor parte era essa: Júlia gostou dos enfeitados piercings.

E foi nesse trajeto de crescente amizade, Laís no curso de administração, Júlia na antropologia, que elas seguiram se encontrando entre intervalos e sextas que viravam sábados e, por que não? domingos. Laís voltando ao cinema e retornando a sair para comer alguma coisa, não só a janta que sua mãe insista nas repetidas batidas na porta pelas noites. Laís reencontrou velhos e novos amigos, tão novos que ainda nem tinham sido feitos, mas começavam seus laços. Júlia foi uma grande resposta. Laís olhava para o céu e não entendia com as estrelas a sorte que teve de encontrá-la, naquele intervalo de aula, naquele intervalo de tempo, no que ela realmente precisava, mais do que nunca, que digam os agradecidos piercings. Você os salvou, Júlia.

E Júlia merecidamente os conheceu. Foi os conhecendo e reconhecendo e totalmente acostumada um após o outro. Conheceu em salas fechadas, tateou em aulas experimentais em meio à natureza. Conheceu nas cabines de banheiro muito bem ocupadas. Deixaram iniciais naquele espelho e Laís já se entendia melhor com as novas manias com a beatlemaníaca. Entendia sua amiga em harmonia com os astros, com Freud, Carl Gustav Jung, Edgar Morin, Melanie Klein, Ana Mercês Bahia Bock e toda a sorte de autores e autoras. Entendia sobretudo a certeira tomada da boa paz quando, com ela ao lado, ombro a ombro, peito a peito, corações ritmando ora fortes, ora calmos, bem suaves, um cilindro com vida própria entre o indicador e o dedo médio e Paul McCartney e John Winston Lennon a repetir o que se propaga há anos: all you need is love.

Créditos rolando na tela. Intactos na formação inicial dessa Laís, que concluiu a sua terceira tentativa de graduação no ensino superior, diplomada em administração, as bolinhas dos piercings jamais, em momento algum, sumiram na presença de Júlia que, sim, arrepiava os quase imperceptíveis pelos em volta delas. As minúsculas esferas ainda desaparecem estranhamente em cotidianos sublimes, mas Laís, confidencialmente, garante que o percentual de vezes é cada vez mais verdadeiro. "Faz parte."