Os ponteiros do relógio caminham para o meio
Eu tomo o trajeto inverso rumo à solidão
Eu não fico alheio ao sofrimento alheio
Meu sofrimento é uma bola de neve em evolução
Faz frio, aqui dentro neva e ninguém verá
Nem o verão
Contos tardios despencam como as folhas do outono
Carneiros saltam a cerca na migração do sono
Lave as mãos e o rosto e tente sorrir
Na frente do espelho
Com os olhos mais vermelhos
Do que o coração
Com a cólera que brota em ti
Como vegetação
24/01/2016
05/01/2016
A indústria
Há sempre a indústria
Indestrutível
Truste, tridente, terrível
Trivial
Há sempre a indústria
E a indústria anti-industrial
Sob um teto de astúcia
Alimentando um ego intelectual
Há a indústria fascista
E a indústria do brilho facial
Há a indústria carniceira
Carbonero, incêndio florestal
A indústria diz que é uma merda
Porque ela não pensou antes
A indústria diz que é distante
O que já aconteceu nesse instante
Há a indústria de Cristo
E a indústria anti-cristã
Fugir do teto da indústria
Forma a indústria do amanhã
A indústria com o prato vegano
Só pra não perder o cliente
A indústria molda o igual
Mas captura também o diferente
03/01/2016
30/12/2015
25/12/2015
Vozes do Natal
Escrevo ao som das vozes da cozinha nessa véspera de Natal. São os parentes da mesma cidade que já costumam se reunir em outras datas. Participo da comunhão da comida, de algumas trocas de assuntos e piadas, sempre que consigo e possível.
A companhia das distantes vozes mentais que acompanham virtualmente tem aumentado nos últimos natais. Alguns se mostram ranzinzas e enxergam a data em total negatividade. Há aqueles que quebram alguns costumes morais impostos nas últimas décadas.
Há os que reciclam e se esforçam nas piadas relativas a sobremesas ou sobre o surgimento de indagações acerca dos relacionamentos amorosos. A união familiar, todavia, é analisada sobretudo nesta data. As famílias podem se juntar em outras datas, porventura em algum feriado específico ou, como é mais comum, nas datas dos aniversários dos membros. Para os internautas entrarem num consenso sobre este ajuntamento, nada melhor do que a comemoração conjunta do que antes era encarado como sinônimo de cumpleaños de Jesus Cristo.
A data capitalista também é evidente. Trocas de presentes, construções gastronômicas típicas apenas do dia ou poucas vezes vistas ao longo do ano são demonstrações do poder econômico das festas de fim de ano.
Entretanto, o significado da data parece cada vez mais ligado à análise familiar. Nesta edição, por exemplo, percebo escancarada a condição de que minha família não apresenta renovações faz tempo. Sou o mais jovem e já me encontro às vésperas de encerrar a primeira graduação na Universidade. As crianças, quando pintam em casa nos fins de ano, são os cachorros dos primos.
Outras famílias são distanciadas justamente pela internet, o individualismo e a exclusão caracterizadas dos dias atuais. Reúnem-se, quem sabe, somente em prol da refeição, da janta de 24 ou do almoço de 25 e logo já se distanciam novamente. Voltam ao ponto de origem, como se movidas por uma espécie de energia potencial elástica.
Percebo, também aproveitando a data natalina como objeto de estudo, que a duração do encontro familiar, em tempo, tem decaído a cada edição da data. O pessoal chega de visita mais tarde e põe-se a voltar para casa mais cedo. Falta, como digo, as renovações. São encontros e motivações já saturadas das festividades anteriores.
Outro ponto de discussão do fim de ano são os foguetes. São criticados por prejudicarem (E REALMENTE PREJUDICAM) a audição, e a saúde em geral, de animais de estimação. Mesmo assim, permanecem em evidência alongando-se como trilha sonora desde a tarde até os horários que ultrapassam a meia-noite. Me soaria estranho o passar de um 24 ou 31 de dezembro com o silêncio quebrado apenas pelo encontro de fofocas, assuntos televisivos e o brindar das taças. Torçamos para exclusão dos fogos entrar em normalidade daqui a temporadas? Creio que sim.
Torçamos também por mais gestos de solidariedade. Eles têm aparecido. Motivados a serem correntes por redes sociais. Campanhas de fim de ano. Lembrar sempre do jovem ao idoso, dos que não têm lar aos que precisam de melhoras nos seus. Vale-se disso o Natal e não do repartir da ceia entre os que já muito têm. Pensai nos menos favorecidos e nos modos de como podemos favorecê-los. E compartilhar, compartilhar as mensagens por mais tempo, para sermos as pessoas de dezembro em mais períodos, o máximo possível durante o ano.
Por bons momentos às nossas famílias, sejam elas quais forem. Dos laços sanguíneos aos estabelecidos nas mais diversas esferas.
Torçamos também por mais gestos de solidariedade. Eles têm aparecido. Motivados a serem correntes por redes sociais. Campanhas de fim de ano. Lembrar sempre do jovem ao idoso, dos que não têm lar aos que precisam de melhoras nos seus. Vale-se disso o Natal e não do repartir da ceia entre os que já muito têm. Pensai nos menos favorecidos e nos modos de como podemos favorecê-los. E compartilhar, compartilhar as mensagens por mais tempo, para sermos as pessoas de dezembro em mais períodos, o máximo possível durante o ano.
Por bons momentos às nossas famílias, sejam elas quais forem. Dos laços sanguíneos aos estabelecidos nas mais diversas esferas.
Jair Filósofo
20/12/2015
A necessidade do antagonista
O futebol-arte traz a admiração dos aficionados. É bonito o carregamento da bola de pé em pé, de um lado ao outro. Com passes precisos, dribles e, de preferência, com o elemento surpresa ou de improviso também na finalização, a vencer o arqueiro adversário. Assim é a síntese da história de um futebol bonito, encantador, a versão preferida da maioria. Porém, para caracterizar uma disputa, é necessária a versão do antagonista.
No futebol a nível mundial, a evolução da prática resultou em algumas peculiaridades comuns ao estilo de alguns países. O primeiro parágrafo descreve um jogo de gosto tipicamente brasileiro, da ginga, do malabarismo com a bola enfeitiçada. Na Alemanha, o futebol técnico e coletivo, a divisão de responsabilidades. Na Itália, é firme a marcação e alguns dos principais italianos na história da modalidade são exatamente os defensores. Recentemente, zagueiros como Nesta e Cannavaro, além do goleiro Buffon.
Na América do Sul, a força do antagonismo ao futebol-arte é grande. Pode haver argentinos e uruguaios de extrema habilidade técnica para desfazer o nó das defensivas, mas grande parte dos meninos que crescem nos bairros de Buenos Aires e Montevidéu, prima por um estilo de jogo considerado feio pelos demais. A marcação mais firme, a chegada mais forte, a catimba. Tudo isso faz parte. São os antagonistas, como não foi diferente na versão da final entre Barcelona e River Plate. Embora o Barça carregasse um ataque latino-americano, com um uruguaio e um argentino, o platenses do River possuíam a dura e árdua missão de pará-los. Não foram páreo, apesar dos mais pesarosos esforços. Missão praticamente impossível.
Ao longo das gerações que brincam de chutar a bola para lá e para cá, é necessário que exista alguém que faça o trabalho sujo. Alguém tem de fazê-lo. Na Argentina e no Uruguai, assim como em períodos do Rio Grande do Sul, o trabalhador dessa seriedade, às vezes, é o mais reverenciado. É o volante cão de guarda, o zagueiro xerifão, o goleiro orientador.
Nos selecionados nacionais, Argentina e Uruguai conservam figuras como o argentino Mascherano ou o zagueiro Diego Godín. O primeiro, argentino, inclusive também campeão na esquadra do Barcelona, como cão de guarda, como segurador das pontas em muitos lances, precisando, como dizem, abrir a caixa de ferramentas quando necessário.
O próprio delantero uruguaio Luis Suarez conserva um pouco do antagonismo aos moralistas. Suarez não perde a chance de golpear e provocar adversários. Batalha, luta incessantemente, simula, gesticula, reclama e recicla no ramo das catimbas para não ser pego pelos olhares da arbitragem. É um grande ator, um antagonista muitas vezes e protagonista, artilheiro, em outras.
Suarez é a cara do Uruguai desfigurado pelo holofote do futebol europeu. Os maiores clubes do país, Peñarol e Nacional, não conquistam a Copa Libertadores para chegar ao Mundial desde a longínqua temporada de 1988. A seleção Celeste venceu as Copas do Mundo de 1930 e 1950, e dificilmente repetirá o feito, apesar de repousar como - ainda - a maior campeã de Copas América, principalmente pela gordura construída em outrora.
Suarez pode ser visto negativamente por alguns adversários, como digo, os moralistas. Eles aplaudiram à suspensão imposta a ele e a todo o Uruguai na Copa do Mundo de 2014. O selecionado celeste não conseguiu manter-se nas disputas após a sansão imposta como consequência da mordida. Apesar de criticarem o estilo de Luisito, ele é um nome ideal para jogar ao lado. Batalhador, gladiador das frentes. Joga por ele próprio, sempre com ampla vontade de balançar as redes, de construir, de contribuir. Sempre buscando o melhor a ele e, consequentemente, aos companheiros. De Barcelona ou de todo o Uruguai.
E que digam, aos que questionam algumas artimanhas feitas dentro de campo, que mal há nelas se são pela vitória maior de seu time e de seu povo? Às vezes, como é o futebol globalizado, que mal há nos investimentos latino-americanos de buscar vencer a todo custo, contra um futebol europeu que rouba talentos e se fortalece estruturalmente e financeiramente, em retroalimentação?
Há vários latino-americanos e africanos no futebol europeu, mas quase nenhum europeu no futebol da América do Sul ou da África. Isso explica muita coisa.
Por fim, destaco que a resistência da competitividade do futebol vem através da resistência dos que jogam com personalidade, com a velha gana de vencer custe o que custar. Dos que não se entregam, dos que fogem dos padrões em que a modalidade preferida no planeta insiste em se enfiar. Precisamos da oposição. Precisamos do antagonismo.
No futebol a nível mundial, a evolução da prática resultou em algumas peculiaridades comuns ao estilo de alguns países. O primeiro parágrafo descreve um jogo de gosto tipicamente brasileiro, da ginga, do malabarismo com a bola enfeitiçada. Na Alemanha, o futebol técnico e coletivo, a divisão de responsabilidades. Na Itália, é firme a marcação e alguns dos principais italianos na história da modalidade são exatamente os defensores. Recentemente, zagueiros como Nesta e Cannavaro, além do goleiro Buffon.
Na América do Sul, a força do antagonismo ao futebol-arte é grande. Pode haver argentinos e uruguaios de extrema habilidade técnica para desfazer o nó das defensivas, mas grande parte dos meninos que crescem nos bairros de Buenos Aires e Montevidéu, prima por um estilo de jogo considerado feio pelos demais. A marcação mais firme, a chegada mais forte, a catimba. Tudo isso faz parte. São os antagonistas, como não foi diferente na versão da final entre Barcelona e River Plate. Embora o Barça carregasse um ataque latino-americano, com um uruguaio e um argentino, o platenses do River possuíam a dura e árdua missão de pará-los. Não foram páreo, apesar dos mais pesarosos esforços. Missão praticamente impossível.
Ao longo das gerações que brincam de chutar a bola para lá e para cá, é necessário que exista alguém que faça o trabalho sujo. Alguém tem de fazê-lo. Na Argentina e no Uruguai, assim como em períodos do Rio Grande do Sul, o trabalhador dessa seriedade, às vezes, é o mais reverenciado. É o volante cão de guarda, o zagueiro xerifão, o goleiro orientador.
Nos selecionados nacionais, Argentina e Uruguai conservam figuras como o argentino Mascherano ou o zagueiro Diego Godín. O primeiro, argentino, inclusive também campeão na esquadra do Barcelona, como cão de guarda, como segurador das pontas em muitos lances, precisando, como dizem, abrir a caixa de ferramentas quando necessário.
O próprio delantero uruguaio Luis Suarez conserva um pouco do antagonismo aos moralistas. Suarez não perde a chance de golpear e provocar adversários. Batalha, luta incessantemente, simula, gesticula, reclama e recicla no ramo das catimbas para não ser pego pelos olhares da arbitragem. É um grande ator, um antagonista muitas vezes e protagonista, artilheiro, em outras.
Suarez é a cara do Uruguai desfigurado pelo holofote do futebol europeu. Os maiores clubes do país, Peñarol e Nacional, não conquistam a Copa Libertadores para chegar ao Mundial desde a longínqua temporada de 1988. A seleção Celeste venceu as Copas do Mundo de 1930 e 1950, e dificilmente repetirá o feito, apesar de repousar como - ainda - a maior campeã de Copas América, principalmente pela gordura construída em outrora.
Suarez pode ser visto negativamente por alguns adversários, como digo, os moralistas. Eles aplaudiram à suspensão imposta a ele e a todo o Uruguai na Copa do Mundo de 2014. O selecionado celeste não conseguiu manter-se nas disputas após a sansão imposta como consequência da mordida. Apesar de criticarem o estilo de Luisito, ele é um nome ideal para jogar ao lado. Batalhador, gladiador das frentes. Joga por ele próprio, sempre com ampla vontade de balançar as redes, de construir, de contribuir. Sempre buscando o melhor a ele e, consequentemente, aos companheiros. De Barcelona ou de todo o Uruguai.
E que digam, aos que questionam algumas artimanhas feitas dentro de campo, que mal há nelas se são pela vitória maior de seu time e de seu povo? Às vezes, como é o futebol globalizado, que mal há nos investimentos latino-americanos de buscar vencer a todo custo, contra um futebol europeu que rouba talentos e se fortalece estruturalmente e financeiramente, em retroalimentação?
Há vários latino-americanos e africanos no futebol europeu, mas quase nenhum europeu no futebol da América do Sul ou da África. Isso explica muita coisa.
Por fim, destaco que a resistência da competitividade do futebol vem através da resistência dos que jogam com personalidade, com a velha gana de vencer custe o que custar. Dos que não se entregam, dos que fogem dos padrões em que a modalidade preferida no planeta insiste em se enfiar. Precisamos da oposição. Precisamos do antagonismo.
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| As torcidas também se esforçam para manter o sentimento alheio à padronização. O futebol moderno não é o caminho para muitos deles (Foto: Ediane Oliveira) |
18/12/2015
Coletes e Culatras
Às vezes o mundo aí fora é o tiro à queima-roupa.
A internet é o colete à prova de balas.
Às vezes é o contrário.
Sei lá.
A internet é o colete à prova de balas.
Às vezes é o contrário.
Sei lá.
17/12/2015
O Lado Bom das Filas
Muitas vezes, a fila é encarada como o pandemônio dos brasileiros. É o símbolo do burocrático, de um sistema ultrapassado, da demora, do roubo do tempo dos envolvidos na interminável sequência de pessoas dispostas ao mesmo objetivo.
As filas formam-se como a facilidade de encontrar cães de rua na maior parte dos municípios brasileiros. O desleixo da população no controle dos animaizinhos também é rapidamente criticado pelos mais indignados. Mas e a dificuldade de controlar as próprias pessoas, o que gera? Gera, entre outros descontroles, as filas.
Apesar das represálias às bichas (nome comumente usado para as filas em Portugal), há o positivo nelas. Dedico-me a defender a opinião com um olhar otimista e observador acerca da formação de filas.
Com meu hábito de constantemente manter-me quieto e com os olhos atentos ao redor, as filas são pratos cheios para as observações e análises. Pondero não serem análises com o objetivo de julgar e fechar os parênteses abertos em relação ao que observo, apenas exercitar o íntimo da imaginação. Ponho-me a pensar, sempre, em filas: quem são essas pessoas que estão à frente ou atrás nas filas?
As filas de banco ou lotéricas. Filas para quem quer sacar dinheiro. Filas para pagar contas. Quais contas? Qual o peso no bolso, o impacto da ação a seguir em cada pessoa? Qual o sofrimento por trás do ato de envolvimento em gênero, número e grau financeiro? Quais seriam os reais objetivos, os sonhos de aplicação daquelas cifras naquela pessoa? E naquela outra? O que as mantém em comum, senão esta fila e o que as separam? De onde vem e para onde vão?
Nas filas para os jogos de futebol, seja para adquirir o bilhete de entrada, ou para adentrar passando por catracas e revistas. Ou, de repente, a fila do lanche ou da bebida no intervalo. Que tipo de torcedores são? Com que frequência visitam os templos, do que se alimentam para matar a fome não saciada com os lances no tapete verde? Serão mais otimistas ou pessimistas? Que glórias e que derrotas já presenciaram? O que as traz de volta ao estádio, com quem e por quê? Se assemelham nas cores das vestimentas e diferem-se nos hábitos, na fé, na reza, na concordância ou discordância da escalação do maldito lateral-direito. Torcedores brincando de treinadores como se fosse fácil comandar o andamento no interior das linhas tracejadas da área técnica.
As filas para musicais e concertos. Que tipo de fãs ali se manifestam? Como conheceram a banda? Há quanto tempo conhecem o artista? O que mais gostam nele e que músicas trarão a satisfação plena naquela noite? Escolheu a música tal como favorita pela letra ou pela melodia. Vão fardados como torcedores de futebol ou são mais discretos em trajes sociais. Quantas vezes já viram o artista e quantas vezes o artista já os viu?
As filas para identidade. Qual a identidade não descrita na carteira de identidade ou de transporte coletivo? Estão renovando ou perderam? Quem quer saber tudo isso? Quem quer saber que aquela pessoa à sua frente para embarcar no ônibus tem uma longa história de vida que a colocou, situacionalmente, à sua frente na hora de retomar o rumo de casa. Ou qual será o rumo? Uma visita, surpresa ou não, uma confraternização, uma visita de médico de uma simples paciente que nada pode fazer? Como observo o destino é traiçoeiro e julgamos pessoas em questão de segundos, piscares de olhos, sabendo absolutamente nada sobre elas e seus dias.
Sobre a fila dos pensamentos que entram e saem de nossa cabeça, contribuo com este espaço. Levando em consideração que as filas também podem nos trazer raiva dos desconhecidos por conta da impaciência de estar nela esperando. Mas se a pessoa está na mesma fila em que estás, por que sentir raiva dessa semelhança?
Até o próximo.
As filas formam-se como a facilidade de encontrar cães de rua na maior parte dos municípios brasileiros. O desleixo da população no controle dos animaizinhos também é rapidamente criticado pelos mais indignados. Mas e a dificuldade de controlar as próprias pessoas, o que gera? Gera, entre outros descontroles, as filas.
Apesar das represálias às bichas (nome comumente usado para as filas em Portugal), há o positivo nelas. Dedico-me a defender a opinião com um olhar otimista e observador acerca da formação de filas.
Com meu hábito de constantemente manter-me quieto e com os olhos atentos ao redor, as filas são pratos cheios para as observações e análises. Pondero não serem análises com o objetivo de julgar e fechar os parênteses abertos em relação ao que observo, apenas exercitar o íntimo da imaginação. Ponho-me a pensar, sempre, em filas: quem são essas pessoas que estão à frente ou atrás nas filas?
As filas de banco ou lotéricas. Filas para quem quer sacar dinheiro. Filas para pagar contas. Quais contas? Qual o peso no bolso, o impacto da ação a seguir em cada pessoa? Qual o sofrimento por trás do ato de envolvimento em gênero, número e grau financeiro? Quais seriam os reais objetivos, os sonhos de aplicação daquelas cifras naquela pessoa? E naquela outra? O que as mantém em comum, senão esta fila e o que as separam? De onde vem e para onde vão?
Nas filas para os jogos de futebol, seja para adquirir o bilhete de entrada, ou para adentrar passando por catracas e revistas. Ou, de repente, a fila do lanche ou da bebida no intervalo. Que tipo de torcedores são? Com que frequência visitam os templos, do que se alimentam para matar a fome não saciada com os lances no tapete verde? Serão mais otimistas ou pessimistas? Que glórias e que derrotas já presenciaram? O que as traz de volta ao estádio, com quem e por quê? Se assemelham nas cores das vestimentas e diferem-se nos hábitos, na fé, na reza, na concordância ou discordância da escalação do maldito lateral-direito. Torcedores brincando de treinadores como se fosse fácil comandar o andamento no interior das linhas tracejadas da área técnica.
As filas para musicais e concertos. Que tipo de fãs ali se manifestam? Como conheceram a banda? Há quanto tempo conhecem o artista? O que mais gostam nele e que músicas trarão a satisfação plena naquela noite? Escolheu a música tal como favorita pela letra ou pela melodia. Vão fardados como torcedores de futebol ou são mais discretos em trajes sociais. Quantas vezes já viram o artista e quantas vezes o artista já os viu?
As filas para identidade. Qual a identidade não descrita na carteira de identidade ou de transporte coletivo? Estão renovando ou perderam? Quem quer saber tudo isso? Quem quer saber que aquela pessoa à sua frente para embarcar no ônibus tem uma longa história de vida que a colocou, situacionalmente, à sua frente na hora de retomar o rumo de casa. Ou qual será o rumo? Uma visita, surpresa ou não, uma confraternização, uma visita de médico de uma simples paciente que nada pode fazer? Como observo o destino é traiçoeiro e julgamos pessoas em questão de segundos, piscares de olhos, sabendo absolutamente nada sobre elas e seus dias.
Sobre a fila dos pensamentos que entram e saem de nossa cabeça, contribuo com este espaço. Levando em consideração que as filas também podem nos trazer raiva dos desconhecidos por conta da impaciência de estar nela esperando. Mas se a pessoa está na mesma fila em que estás, por que sentir raiva dessa semelhança?
Até o próximo.
06/12/2015
Trilogia do Diabo
A noite mistura os aromas
Da cura ao cotidiano
Rompe a armadura
O copo gelado
Ao lábio da amargura
Mentolado
Da hora que dura
O nosso fardo
Pobre diabo Que procura Fraterno Aos endiabrados Pelas noites escuras Um canto Ao ouvido E ao corpo vencido Largado Para chamar de inferno
Se eu sou Se vós sois Ora pois, diabos Que tenhamos ao lado Um inferno dividido De encontro a dor De encanto ao calor Apaziguado
Pobre diabo Que procura Fraterno Aos endiabrados Pelas noites escuras Um canto Ao ouvido E ao corpo vencido Largado Para chamar de inferno
Se eu sou Se vós sois Ora pois, diabos Que tenhamos ao lado Um inferno dividido De encontro a dor De encanto ao calor Apaziguado
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| Foto: Gustavo Costa |
04/12/2015
Escoa História
Ecoa a história da Coroa
Da monarquia e do reinado
A história de outras pessoas
Dos mesmos países e outras raízes
Morre abatida como gado
Da monarquia e do reinado
A história de outras pessoas
Dos mesmos países e outras raízes
Morre abatida como gado
27/11/2015
Meio Fio Modelo
Singelo meio fio
No frio é belo
Zelo por ti
Entre outros mil
És tu quem quero
Singelo meio fio
És tu meu elo
Alguém me ouviu
Sob a noite, meu soar
É mais sincero
Calçada, estrada e estadia
A companhia é quem também vai
Querê-lo
Meio fio dividido é meio fio
Modelo
No frio é belo
Zelo por ti
Entre outros mil
És tu quem quero
Singelo meio fio
És tu meu elo
Alguém me ouviu
Sob a noite, meu soar
É mais sincero
Calçada, estrada e estadia
A companhia é quem também vai
Querê-lo
Meio fio dividido é meio fio
Modelo
19/11/2015
#Sonhos
Pontos do sonho mais louco de 2015.
Eu, na França, tinha um emprego de coletar garrafinhas de achocolatado e levá-las a um chefe. Quem coletasse mais, ganhava alguma espécie de aumento salarial, bônus e tal. A concorrência era grande e fuçávamos em meio ao lixo.
Em certas partes do sonho, ainda na França, eu apresentava algumas necessidades especiais e via pessoas em cadeiras de rodas. Algumas pegavam esses transportes motorizados e corriam. Vi umas caírem de escadas, por exemplo. Algo bastante forte e radicalmente. Remeteu à aula de segunda-feira, em que um dos exemplos de cobertura de jornalismo esportivo foi uma transmissão de rugby em cadeira de rodas. Única ligação viável que fiz com a vida real, já que o esporte também apresenta aspectos até bastantes brutais.
Além das deficiências, eu frequentava um asilo, que, na verdade, parecia-me o destino da leva de garrafas, para onde estava o suposto chefe das supostas promoções caso arrecadássemos bastante material. No asilo, havia velhinhas e um banheiro sem portas, no qual eu precisava tomar banho, e de vez em quando, necessitando auxílios.
Em outro trecho, encontrava-me com minha mãe e minha vó em local bastante afastado, com ruas de terra, como uma praia. Primeiramente, havia um carro para nos transportarmos e eu tinha dúvida se o pegava, porque nunca andei mais do que alguma(s) quadra(s). Mãe, que nunca vi dirigir, mas que era motorista quando era jovem, foi ao volante. Numa manobra de Meu Deus do Céu, ela começou a passar por dentro de um camelódromo. Eu logo pensei: "Tem um fiscal no corredor. Vai multá-la. Certo que vai!". Mas o cara, incrivelmente, sonegou as vistas e deixou passar. Na saída, alguém ao longe, parecia minha prima, arremessou algo no guarda. Pareceu-me sem o objetivo de machucá-lo, como que uma moeda. Porém, ao aproximar o lançamento de chocar-se em direção ao guarda, a coisa aumentou, como uma tampa de lixeira, e o guarda precisou proteger-se com as mãos, espalmando o OVNI ao chão.
Na saída, pegamos então bicicletas. Não estou acostumado a andar. Ando tão pouco como carro e, com um espírito heroísta não sei de onde sacado, ainda ofereci-me a carregar minha avó na garupa. Subimos, ela e eu e tomei as dianteiras, com dificuldade de passar a perna esquerda para o lado esquerdo. Feito isso, arranquei em velocidade surpreendente, não conseguindo parar.
Desesperado, percebi que havíamos passado várias e várias quadras, umas 20 e perdido totalmente o rumo inicial, seja lá qual era. Nisso, como foi uma descida por uma rua ou avenida só, pensei em darmos volta pelo mesmo caminho. Ainda incrédulo da arrancada como se numa descida, estava crendo agora que seria mais tranquilo, pois trataria-se de uma subida. Certo? Errado. Na arrancada, novamente pegamos grande impulso e não conseguia, descalço frear entre o asfalto, com medo de transformar toda a planta do pé em carne viva. Só consegui parar após algumas manobras, inclusive mortais (?) em um morro, em um trevo semelhante ao da Rodoviária de Pelotas.
A sequencialidade do sonho não está bem formatada, mas houve algumas outras passagens, tais como: reencontrar um amigo de escola, o qual não vejo há mais ou menos um ano. Inclusive com sua mãe oferecendo algo como lanche da tarde e uma imagem de jogarmos vídeo game, como fazíamos, ou algo assim. Em seguida, final de um campeonato nacional de futsal entre Criciúma e alguma equipe, provavelmente paulista.
Eu, habitual goleiro, estive jogando em posição de linha pelo tigre catarinense e a partida foi para o intervalo num placar de, se não me engano, 1 a 1. O segundo tempo não foi disputado. Não comigo. Durante minha estadia em quadra, eu era marcado por um cara gigante, que não descolava da marcação. Em um lance, nosso goleiro caiu, um cara passou sobre ele para marcar o gol e dividi com ele sobre a linha, com a bola saindo em escanteio. Ao se levantar, o ombro da camisa do goleiro estava em farrapos, completamente rasgada, sabe-se lá como.
Sustentado o empate, voltamos à programação de serviço, na França (?). Comecei uma corrida por uma rua íngreme com bastante lixeiras e fui recolhendo garrafas. Na verdade, tratava-se de uma ÚNICA MARCA de garrafas de achocolatado e qualquer outra de nada valia à promoção. Errei algumas, devolvendo-as ao chão e consegui recolher umas duas, ciente da derrota. Outro cara escalava às pressas e conseguiu umas cinco.
De volta ao asilo onde descarregaríamos o conseguido ao chefe, só queria mesmo era um banho, mas as velhinhas estavam jantando e, como disse, o banheiro não tinha porta e eu não queria incomodar. Para terminar a performance, sentei-me a assistir televisão e passava um comparativo entre dois jogos, um do Flamengo, talvez, e um do Grêmio. O comparativo era o de alguns lances em comum, inclusive o dos gols das partidas, ambos solitários e marcados de pênalti. Segundo o estudo comparativo presenciado, o tento marcado por estrangeiros. Porém, Tcheco, ex-Grêmio e cobrador do pênalti na ocasião, apesar do apelido, não era estrangeiro, o que me indignou.
Eu, na França, tinha um emprego de coletar garrafinhas de achocolatado e levá-las a um chefe. Quem coletasse mais, ganhava alguma espécie de aumento salarial, bônus e tal. A concorrência era grande e fuçávamos em meio ao lixo.
Em certas partes do sonho, ainda na França, eu apresentava algumas necessidades especiais e via pessoas em cadeiras de rodas. Algumas pegavam esses transportes motorizados e corriam. Vi umas caírem de escadas, por exemplo. Algo bastante forte e radicalmente. Remeteu à aula de segunda-feira, em que um dos exemplos de cobertura de jornalismo esportivo foi uma transmissão de rugby em cadeira de rodas. Única ligação viável que fiz com a vida real, já que o esporte também apresenta aspectos até bastantes brutais.
Além das deficiências, eu frequentava um asilo, que, na verdade, parecia-me o destino da leva de garrafas, para onde estava o suposto chefe das supostas promoções caso arrecadássemos bastante material. No asilo, havia velhinhas e um banheiro sem portas, no qual eu precisava tomar banho, e de vez em quando, necessitando auxílios.
Em outro trecho, encontrava-me com minha mãe e minha vó em local bastante afastado, com ruas de terra, como uma praia. Primeiramente, havia um carro para nos transportarmos e eu tinha dúvida se o pegava, porque nunca andei mais do que alguma(s) quadra(s). Mãe, que nunca vi dirigir, mas que era motorista quando era jovem, foi ao volante. Numa manobra de Meu Deus do Céu, ela começou a passar por dentro de um camelódromo. Eu logo pensei: "Tem um fiscal no corredor. Vai multá-la. Certo que vai!". Mas o cara, incrivelmente, sonegou as vistas e deixou passar. Na saída, alguém ao longe, parecia minha prima, arremessou algo no guarda. Pareceu-me sem o objetivo de machucá-lo, como que uma moeda. Porém, ao aproximar o lançamento de chocar-se em direção ao guarda, a coisa aumentou, como uma tampa de lixeira, e o guarda precisou proteger-se com as mãos, espalmando o OVNI ao chão.
Na saída, pegamos então bicicletas. Não estou acostumado a andar. Ando tão pouco como carro e, com um espírito heroísta não sei de onde sacado, ainda ofereci-me a carregar minha avó na garupa. Subimos, ela e eu e tomei as dianteiras, com dificuldade de passar a perna esquerda para o lado esquerdo. Feito isso, arranquei em velocidade surpreendente, não conseguindo parar.
Desesperado, percebi que havíamos passado várias e várias quadras, umas 20 e perdido totalmente o rumo inicial, seja lá qual era. Nisso, como foi uma descida por uma rua ou avenida só, pensei em darmos volta pelo mesmo caminho. Ainda incrédulo da arrancada como se numa descida, estava crendo agora que seria mais tranquilo, pois trataria-se de uma subida. Certo? Errado. Na arrancada, novamente pegamos grande impulso e não conseguia, descalço frear entre o asfalto, com medo de transformar toda a planta do pé em carne viva. Só consegui parar após algumas manobras, inclusive mortais (?) em um morro, em um trevo semelhante ao da Rodoviária de Pelotas.
A sequencialidade do sonho não está bem formatada, mas houve algumas outras passagens, tais como: reencontrar um amigo de escola, o qual não vejo há mais ou menos um ano. Inclusive com sua mãe oferecendo algo como lanche da tarde e uma imagem de jogarmos vídeo game, como fazíamos, ou algo assim. Em seguida, final de um campeonato nacional de futsal entre Criciúma e alguma equipe, provavelmente paulista.
Eu, habitual goleiro, estive jogando em posição de linha pelo tigre catarinense e a partida foi para o intervalo num placar de, se não me engano, 1 a 1. O segundo tempo não foi disputado. Não comigo. Durante minha estadia em quadra, eu era marcado por um cara gigante, que não descolava da marcação. Em um lance, nosso goleiro caiu, um cara passou sobre ele para marcar o gol e dividi com ele sobre a linha, com a bola saindo em escanteio. Ao se levantar, o ombro da camisa do goleiro estava em farrapos, completamente rasgada, sabe-se lá como.
Sustentado o empate, voltamos à programação de serviço, na França (?). Comecei uma corrida por uma rua íngreme com bastante lixeiras e fui recolhendo garrafas. Na verdade, tratava-se de uma ÚNICA MARCA de garrafas de achocolatado e qualquer outra de nada valia à promoção. Errei algumas, devolvendo-as ao chão e consegui recolher umas duas, ciente da derrota. Outro cara escalava às pressas e conseguiu umas cinco.
De volta ao asilo onde descarregaríamos o conseguido ao chefe, só queria mesmo era um banho, mas as velhinhas estavam jantando e, como disse, o banheiro não tinha porta e eu não queria incomodar. Para terminar a performance, sentei-me a assistir televisão e passava um comparativo entre dois jogos, um do Flamengo, talvez, e um do Grêmio. O comparativo era o de alguns lances em comum, inclusive o dos gols das partidas, ambos solitários e marcados de pênalti. Segundo o estudo comparativo presenciado, o tento marcado por estrangeiros. Porém, Tcheco, ex-Grêmio e cobrador do pênalti na ocasião, apesar do apelido, não era estrangeiro, o que me indignou.
12/11/2015
05/11/2015
Sentimento - Não trate de entendê-lo
O apito final já havia soado havia minutos e um solitário torcedor do Pelotas seguiu sobre a grade. O último sopro dos árbitros ao findar dos 90 - e poucos - minutos pode ter vários significados. Às vezes, demora um tempo para cair a ficha e remoer todos os sentimentos envolvidos.
Eu sou dos que encara os estádios como templos. Gosto de chegar cedo e vê-lo se encher, preenchendo-se dos mais calmos até a total euforia. Gosto de ver a procissão se esvair também. Cada um para seu lado. É um ciclo, mas entre a repetição da chegada e do partir, há uma partida, sempre incógnita, de 90 - e poucos - minutos.
Eu sou dos que encara os estádios como templos. Gosto de chegar cedo e vê-lo se encher, preenchendo-se dos mais calmos até a total euforia. Gosto de ver a procissão se esvair também. Cada um para seu lado. É um ciclo, mas entre a repetição da chegada e do partir, há uma partida, sempre incógnita, de 90 - e poucos - minutos.
Imprensa - Em Pressa
Em prensa
Em pressa
Assim não pensa
O que interessa
Imprensa
Impressa
Dispensa
Diz bosta
As impressões
Do jornal
Não adianta
Ser bom
O papel
De imprimir
Se não for bom
O papel
De informar
Em pressa
Assim não pensa
O que interessa
Imprensa
Impressa
Dispensa
Diz bosta
As impressões
Do jornal
Não adianta
Ser bom
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De imprimir
Se não for bom
O papel
De informar
02/11/2015
28/10/2015
O Eterno Outubro nas Lembranças Farroupilhas
Por: Henrique König
1935 foi um ano especial. No carnaval, a regulamentação dos desfiles no Rio de Janeiro e o primeiro título ficando com a Portela, com a Estação Primeira de Mangueira como vice. Nos Estados Unidos, nasciam o músico Elvis Presley e o cineasta Woody Allen.
O alemão Hans Spemann venceu o prêmio Nobel por suas pesquisas sobre a influência das células em tecidos e órgãos. Outro alemão, contra o nazismo, Carl von Ossietzky recebeu o Nobel da Paz.
Apesar da luta do jornalista pelo pacifismo, a Alemanha, então de regime nazista, caçava à cidadania alemã de judeus e proibia o casamento entre os perseguidos e os alemães. A Itália, fascista, invadia cruelmente o país africano Etiópia.
No campo da literatura, tínhamos as primeiras aparições da série Luluzinha. Monteiro Lobato lançava três obras e o poeta português Fernando Pessoa veio a falecer em novembro.
Antes de novembro, porém, o marco na história do futebol gaúcho, no ano de centenário da Revolução Farroupilha. O Campeonato do Rio Grande do Sul foi disputado em outubro. O combinado, inclusive pelo então governador Flores da Cunha, seria de que o vencedor seria declarado como campeão por 100 anos.
No ano de 1934, o Farroupilha, então 9º Regimento de Infantaria foi muito prejudicado pela arbitragem na final contra o Internacional, perdeu por 1 a 0 e prometeu retornar ao estadual para sair de vez com a taça inédita. Feita a promessa, o ano de 1935 prometia fortes emoções aos torcedores do clube.
Nas preliminares, o Grêmio Atlético 9º Regimento passou pela zona litoral, quando derrotou o São Paulo de Rio Grande em duas oportunidades. 2 a 0 em Pelotas, com gols de Coruja e Cardeal. Novo placar de 2 a 0 em Rio Grande, com gols de Cerrito e novamente Coruja.
Após, em 6 de outubro, passou pelo Rio Branco de Santa Vitória por 6 a 3, com gols de Bichinho (3), Cerrito, Coruja e Itararé para os pelotenses. Assim, o 9º Regimento de Infantaria venceu os adversários da zona litoral e conseguiu índice para disputar o Gauchão em Porto Alegre.
Depois de fazer um elástico 8 a 3 sobre o Guarani de Bagé, o Novo Hamburgo caiu no caminho de nossos campeões na fase semifinal da competição. A partida foi realizada em 17 de outubro de 1935 no estádio dos Eucaliptos e terminou em 3 a 2 para o 9º Regimento, com gols de Bichinho (2) e Celistro.
Na outra semifinal, o Grêmio Porto Alegrense aplicou 6 a 0 no Grêmio Santanense para ir à grande decisão. Com os mandos todos em Porto Alegre, o tricolor era o favorito e queria sacramentar a temporada especial, após já ter vencido grenais.
A primeira partida encaminhou o favoritismo, com uma vitória dos gremistas por 3 a 1, em 20 de outubro. A revanche veio na segunda partida, com um marcador de 3 a 0 para os pelotenses, em gols de Gasolina, Bichinho e Cerrito, ainda na etapa inicial da tarde de 24 de outubro.
No regulamento, constava a decisão como uma série melhor de três. Após uma vitória para cada lado, o jogo-extra foi marcado para 27 de outubro de 1935.
O 9º Regimento foi a campo com goleiro Brandão, os defensores Jorge e Chico Fuleiro, os meias Ruy (Folhinha), Itararé e Celistro e os atacantes Birilão, Bichinho (Coruja), Cerrito, Cardeal e Gasolina.
O quadro pelotense venceu o duelo derradeiro por 2 a 1, com o lendário Cardeal marcando o primeiro e o gol do título sendo anotado por Cerrito, o mito. Um público de cerca de 15 mil torcedores assistiu ao feito no estádio Timbaúva, hoje local de uma rede de supermercados na capital gaúcha, no bairro Santa Cecília.
Com uma enorme festa dentro de campo e os louros colhidos em presença de autoridades do Rio Grande do Sul, o Grêmio Atlético 9º Regimento sagrou-se campeão Farroupilha, título que rebatizou o clube após proibição da primeira nomenclatura durante o governo de Getúlio Vargas, em 1941.
A imagem é de um quadro, exposto até hoje na sede do Grêmio Atlético Farroupilha. A eufórica torcedora Vilma Machado de Brito prestou sua homenagem ao narrar o que viu na chegada do 9º Regimento, após a conquista válida por 100 anos, ao Porto de Pelotas. A pintura, conforme suas descrições, foi feita pelo artista Saulo Moraes.
Ficam os agradecimentos às fontes de pesquisa para este texto: edições do jornal Diário Popular de outubro de 1935 e o Blog do Fantasma, atualizado pelo jornalista e ex-assessor do Farroupilha, Leandro Lopes.
É com enorme orgulho que a página do Grêmio Atlético Farroupilha rememora a maior conquista da história do clube, que completa 80 anos e, dessa forma, mantém aceso o peso da história e o sentimento de nossos torcedores.
19/10/2015
Entre o Conciso e o Consigo
Eu tenho dormido mais cedo
E tido sonhos estranhos
Eu tenho me recolhido
E ficado no meu canto
Eu tenho entristecido
Desaparecido um tanto
Há os que me fazem sentir conciso
E ainda levanto
Eu sinto
Cem porcento
O sentimento
Que eu não consigo
Deixar de alimentar
E tido sonhos estranhos
Eu tenho me recolhido
E ficado no meu canto
Eu tenho entristecido
Desaparecido um tanto
Há os que me fazem sentir conciso
E ainda levanto
Eu sinto
Cem porcento
O sentimento
Que eu não consigo
Deixar de alimentar
18/10/2015
A primeira batalha pelo Título Gaúcho
Foi em outubro de 1935. A Itália, assombrada e assombrando pelo crescimento do fascismo, havia vencido a Copa do Mundo do ano anterior, a segunda realizada na história. Naquele ano de 35, nascia o cantor Elvis Presley em East Tupelo, Estados Unidos. Em Portugal, ocorreu o parto de Antonio Ramalho Eanes, futuro militarista e primeiro presidente democraticamente eleito após a ditadura no país. A Alemanha já começava as corridas com o malévolo Adolf Hitler, já naturalizado alemão. No Brasil, era período da Era Vargas, no regime chamado de Governo Constitucionalista. E, no estado de Vargas, as equipes preparavam-se para a disputa do 15º Campeonato Gaúcho.
O Grêmio Atlético 9º Regimento, campeão invicto da região denominada litoral, foi a Porto Alegre para disputar o estadual da temporada em que comemorava-se o centenário da Revolução Farroupilha. Pela frente, adversários respeitáveis e poderosos. Logo de cara, o campeão do noroeste, o Novo Hamburgo.
O 9º Regimento só havia participado de um Gauchão, o de 1934. Após vencer o Riograndense de Cruz Alta, foi descaradamente prejudicado pela arbitragem em Porto Alegre, na final contra o Internacional e acabou vice. Os pelotenses prometeram voltar no ano seguinte e sair com a taça.
A corrida pelo título na capital começou no dia 17 de outubro de 1935. 9º Regimento e Novo Hamburgo, pela fase semifinal, pelearam em duelo de início às 16h10, no estádio dos Eucaliptos, sede da primeira Copa do Mundo no Brasil, em 1950. O árbitro foi Valter Leal.
9º Regimento: Brandão; Jorge e Chico Fuleiro; Ruy, Itararé e Celistro; Coruja, Birilão, Cerrito, Cardeal e Bichinho.
Novo Hamburgo: Olívio; Fogareiro e Magalhães; Vanzeto, Mena e Amantino; Nonô (Armando), Luiz, Oscar, Miguel (Mario) e Banana.
O Nóia começou melhor a partida. Só aos 25 minutos, o 9º Regimento chegou com muito perigo e Cerrito acertou a trave. Em seguida, aos 27, Bichinho, finalizador exímio, fez 1 a 0 aos militares pelotenses em cobrança de falta. Um minuto depois, o empate: Miguel igualou as coisas para o Novo Hamburgo, placar do primeiro tempo.
Na segunda metade nos Eucaliptos, o Fantasma começou melhor. Aos 8 de jogo, Magalhães derrubou Bichinho na grande área e o pênalti, na época escrito com Y, foi assinalado. O próprio Bichinho cobrou e botou o 9º em vantagem: 2 a 1.
Porém, o Novo Hamburgo, em sua quinta participação em Gauchões, foi valente. Empatou novamente com gol de cabeça de Banana, aos 17 minutos da etapa final.
Porém, a promessa feita após a injustiça da temporada anterior não poderia ser quebrada e Celistro, em um tiro de longe, recolocou o Fantasma na dianteira da partida: 3 a 2 aos pelotenses.
Em peleia violenta, alguns jogadores foram substituídos por saírem lesionados, única forma de permitir trocas nas escalações da época. Nos ataques finais do Novo Hamburgo, o goleiro Brandão, com braços de elástico, segurava de todas as maneiras.
Com a noite se aproximando, o cronometrista encerrou o jogo válido pela semifinal. Os torcedores do 9º Regimento invadiram o campo a comemorar a vaga na final. 3 a 2, com dois gols de Bichinho e um de Celistro.
A primeira cruzada da final estava marcada ao próximo dia 20, ali mesmo, em Porto Alegre. O adversário era nada mais e nada menos que o Grêmio Porto Alegrense, que já ostentava cinco taças na época, como maior campeão gaúcho na oportunidade. Na semi, o tricolor da capital havia feito 6 a 0 no Grêmio Santanense.
Apesar do nome do lado rival soar forte, nada que o exército do goleiro Brandão e do craque Cardeal pudesse temer. Contaremos como foram os jogos da disputa em melhor de três nos próximos capítulos.
O Grêmio Atlético 9º Regimento, campeão invicto da região denominada litoral, foi a Porto Alegre para disputar o estadual da temporada em que comemorava-se o centenário da Revolução Farroupilha. Pela frente, adversários respeitáveis e poderosos. Logo de cara, o campeão do noroeste, o Novo Hamburgo.
O 9º Regimento só havia participado de um Gauchão, o de 1934. Após vencer o Riograndense de Cruz Alta, foi descaradamente prejudicado pela arbitragem em Porto Alegre, na final contra o Internacional e acabou vice. Os pelotenses prometeram voltar no ano seguinte e sair com a taça.
A corrida pelo título na capital começou no dia 17 de outubro de 1935. 9º Regimento e Novo Hamburgo, pela fase semifinal, pelearam em duelo de início às 16h10, no estádio dos Eucaliptos, sede da primeira Copa do Mundo no Brasil, em 1950. O árbitro foi Valter Leal.
9º Regimento: Brandão; Jorge e Chico Fuleiro; Ruy, Itararé e Celistro; Coruja, Birilão, Cerrito, Cardeal e Bichinho.
Novo Hamburgo: Olívio; Fogareiro e Magalhães; Vanzeto, Mena e Amantino; Nonô (Armando), Luiz, Oscar, Miguel (Mario) e Banana.
O Nóia começou melhor a partida. Só aos 25 minutos, o 9º Regimento chegou com muito perigo e Cerrito acertou a trave. Em seguida, aos 27, Bichinho, finalizador exímio, fez 1 a 0 aos militares pelotenses em cobrança de falta. Um minuto depois, o empate: Miguel igualou as coisas para o Novo Hamburgo, placar do primeiro tempo.
Na segunda metade nos Eucaliptos, o Fantasma começou melhor. Aos 8 de jogo, Magalhães derrubou Bichinho na grande área e o pênalti, na época escrito com Y, foi assinalado. O próprio Bichinho cobrou e botou o 9º em vantagem: 2 a 1.
Porém, o Novo Hamburgo, em sua quinta participação em Gauchões, foi valente. Empatou novamente com gol de cabeça de Banana, aos 17 minutos da etapa final.
Porém, a promessa feita após a injustiça da temporada anterior não poderia ser quebrada e Celistro, em um tiro de longe, recolocou o Fantasma na dianteira da partida: 3 a 2 aos pelotenses.
Em peleia violenta, alguns jogadores foram substituídos por saírem lesionados, única forma de permitir trocas nas escalações da época. Nos ataques finais do Novo Hamburgo, o goleiro Brandão, com braços de elástico, segurava de todas as maneiras.
Com a noite se aproximando, o cronometrista encerrou o jogo válido pela semifinal. Os torcedores do 9º Regimento invadiram o campo a comemorar a vaga na final. 3 a 2, com dois gols de Bichinho e um de Celistro.
A primeira cruzada da final estava marcada ao próximo dia 20, ali mesmo, em Porto Alegre. O adversário era nada mais e nada menos que o Grêmio Porto Alegrense, que já ostentava cinco taças na época, como maior campeão gaúcho na oportunidade. Na semi, o tricolor da capital havia feito 6 a 0 no Grêmio Santanense.
Apesar do nome do lado rival soar forte, nada que o exército do goleiro Brandão e do craque Cardeal pudesse temer. Contaremos como foram os jogos da disputa em melhor de três nos próximos capítulos.
15/10/2015
Futebol, a fusão dos mundos
"Futebol ao sol e à sombra", traz a alaranjada capa do livro de bolso do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Símbolo de uma América Latina que foi podada durante séculos e teve o crescimento de seu povo desvinculado por valores e preços e pressões de invasores impiedosos e imperialistas. Conhecido por obras carregadas de política, ideologia e seu estilo próprio e singular de narrativa, Galeano aborda o futebol a olhares que somente um apaixonado, ao ver o aprisionamento de sua paixão, pode descrever.
Os contos são sutis e precisos, com toques de letra e lançamentos milimétricos, para, mesmo sem imagens, enxergamos o futebol em sua essência pelo globo. O uruguaio relembra tempos épicos de seu país, chamado inclusive por Pelé de "pai do futebol". As origens e folclores por Argentina, Brasil, Espanha, Alemanha e Itália ganham destaque.
Uma linha do tempo, resumida em melhores e piores momentos de uma modalidade esportiva que se tornou cada vez mais mercadológica. Um espelho das sociedades que também se apaixonaram pelo rolar da esfera de couro nos retangulares gramados de seus solos. O amor do hincha por um clube, a criação e mistificação de ídolos, as influências externas, a globalização, os atletas como mercadoria e como produtos.
Dos malabarismos de ousados praticantes à padronização na forma de jogar. O profissionalismo que sucumbiu os estilos próprios dos jogadores, reduzindo o livre-arbítrio das manobras com a bola em companhia. A exigência do espetáculo que transformou o corpo dos praticantes e aumentou gradativamente os registros de lesões ao longo dos anos.
Os grandes manobristas das cifras milionárias, das presidências de organizações que não prestam contas e não prestam mesmo, aos empresários e demais interessados no mercado da publicidade. As camisas, antes com o destaque do símbolo do clube ao lado esquerdo do peito, agora dividindo espaço com as mais diferentes marcas: locais ou internacionais.
Um panorama das forças políticas e diplomáticas que cercavam o mundo do planeta bola a cada Copa do Mundo disputada. Tudo isso narrado pelas célebres palavras de um escritor que jamais aceitou a padronização. Um escritor que, sem dúvida alguma, jogou junto com o Uruguai a cada mundial e com o Nacional de Montevidéu a cada Libertadores da América.
Um escritor que libertou na escrita, gritos entalados na garganta, com admirações ao que muitos já não mais admiram e com críticas ao que muitos jamais enxergaram.
Reforço o que eu disse em outra oportunidade: Futebol ao sol e à sombra não merece somente uma resenha. Merece um outro livro elogiando ao primeiro.
Os contos são sutis e precisos, com toques de letra e lançamentos milimétricos, para, mesmo sem imagens, enxergamos o futebol em sua essência pelo globo. O uruguaio relembra tempos épicos de seu país, chamado inclusive por Pelé de "pai do futebol". As origens e folclores por Argentina, Brasil, Espanha, Alemanha e Itália ganham destaque.
Uma linha do tempo, resumida em melhores e piores momentos de uma modalidade esportiva que se tornou cada vez mais mercadológica. Um espelho das sociedades que também se apaixonaram pelo rolar da esfera de couro nos retangulares gramados de seus solos. O amor do hincha por um clube, a criação e mistificação de ídolos, as influências externas, a globalização, os atletas como mercadoria e como produtos.
Dos malabarismos de ousados praticantes à padronização na forma de jogar. O profissionalismo que sucumbiu os estilos próprios dos jogadores, reduzindo o livre-arbítrio das manobras com a bola em companhia. A exigência do espetáculo que transformou o corpo dos praticantes e aumentou gradativamente os registros de lesões ao longo dos anos.
Os grandes manobristas das cifras milionárias, das presidências de organizações que não prestam contas e não prestam mesmo, aos empresários e demais interessados no mercado da publicidade. As camisas, antes com o destaque do símbolo do clube ao lado esquerdo do peito, agora dividindo espaço com as mais diferentes marcas: locais ou internacionais.
Um panorama das forças políticas e diplomáticas que cercavam o mundo do planeta bola a cada Copa do Mundo disputada. Tudo isso narrado pelas célebres palavras de um escritor que jamais aceitou a padronização. Um escritor que, sem dúvida alguma, jogou junto com o Uruguai a cada mundial e com o Nacional de Montevidéu a cada Libertadores da América.
Um escritor que libertou na escrita, gritos entalados na garganta, com admirações ao que muitos já não mais admiram e com críticas ao que muitos jamais enxergaram.
Reforço o que eu disse em outra oportunidade: Futebol ao sol e à sombra não merece somente uma resenha. Merece um outro livro elogiando ao primeiro.
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| Foto: Henrique König |
10/10/2015
O bem soar do violino
Na praça, o dia cinza reservou-me um banco no lugar certo. Nem muita gente por perto e nem em uma alameda completamente vazia da Coronel Pedro Osório.
Pude folhear o livro por várias páginas e vários anos nas palavras lúcidas e literais do uruguaio Eduardo Galeano, este exemplo de sul-americano que havia deixado nosso mundo há pouco tempo. Pelos caminhos em que ele descrevia a história do futebol, mergulhei-me à modalidade esportiva da leitura em local público, uma de minhas preferidas.
Conforme deixei com que os minutos seguissem seus habituais caminhos, vi-me diante da troca incessante de pessoas ao redor. Tanto atravessavam rumo a seus mais diversos objetivos, quanto sentavam-se e logo iam-se embora. Uma ex-colega minha acomodou-se próxima a meu banco com sua amiga. Não viu-me ou viu e fez questão de parecer que não, em comum acordo com minha decisão.
A amiga da conhecida dissertava sobre antigos autores brasileiros e sobre os métodos impostos das universidades em analisá-los e como trabalham as respectivas obras. Sobrou críticas a José de Alencar e a outros, os quais não fisguei os nomes.
Adiante, precisei fechar o livro de alaranjada capa e rumar também de volta, em direção à Avenida Bento Gonçalves. Pelo centro do coração da praça, duas modelos posavam em tentativa de dar holofotes ao acinzentado ambiente. Observei de relance às câmeras fotográficas e notei que uma das moças, ao chafariz, tinha em mãos um algodão doce. Como são estranhas as poses de modelo enquanto as outras centenas de pessoas em movimento posam sem querer em composições de maior realidade!
Passei, enfim, por uma das alamedas das quais menos gosto, mas que costumeiramente é agraciada pelas dedilhadas em cordas improvisadas pelo músico de rua, Serginho da Vassoura. No tempo fechado, ele não deu às caras naquela tarde.
Após a abertura da sinaleira aos pedestres, caminhei para o prosseguir dos calçamentos em paralelepípedo de um trecho de rua destinado somente aos transeuntes a pé. Calçando meus fones de ouvido, precisei parar para contemplar a cena à minha direita.
Concentrada em sua atividade, uma senhorita praticava em ordenhar música do violino em suas mãos. Envergonhado por permanecer com os fones de ouvido, fiz questão de sacá-los pelos instantes em que cruzei sua reta. A canção antes em meu aparelho, dezenas de vezes já reproduzida em rádios locais e no meu próprio celular, agora não fazia diferença.
O diferente era acompanhar as oscilações do violino de maneira inédita, conforme já poderia ter ocorrido de forma semelhante, mas jamais idêntica e em mesmo local. A reprodutibilidade das artes é tema do autor Walter Benjamin. A desvalorização do processo pelas repetições e repetições e a raridade não mais encontrada nesses encontros.
Porém, naquele dia de início de outubro, a invasão do jamais antes presenciado em meio à travessia, fez com que meus olhos e ouvidos parassem por detalhados segundos. Surdo ao entreter de antes e atento ao número desempenhado pela moça, fitei-a a aplaudir com o olhar.
Nada fiz, confesso, a mais do que isso. Desejo-lhe, se assim investe, a ter mais moedas na capa que envolve o violino quando ela não o toca. Desejo aos demais, momentos únicos, mesmo simples, como esse que vos narro. Para ela, saúde, física e espiritual, para representar mais performances afinadas durante o executar dos caos urbanos.
Pude folhear o livro por várias páginas e vários anos nas palavras lúcidas e literais do uruguaio Eduardo Galeano, este exemplo de sul-americano que havia deixado nosso mundo há pouco tempo. Pelos caminhos em que ele descrevia a história do futebol, mergulhei-me à modalidade esportiva da leitura em local público, uma de minhas preferidas.
Conforme deixei com que os minutos seguissem seus habituais caminhos, vi-me diante da troca incessante de pessoas ao redor. Tanto atravessavam rumo a seus mais diversos objetivos, quanto sentavam-se e logo iam-se embora. Uma ex-colega minha acomodou-se próxima a meu banco com sua amiga. Não viu-me ou viu e fez questão de parecer que não, em comum acordo com minha decisão.
A amiga da conhecida dissertava sobre antigos autores brasileiros e sobre os métodos impostos das universidades em analisá-los e como trabalham as respectivas obras. Sobrou críticas a José de Alencar e a outros, os quais não fisguei os nomes.
Adiante, precisei fechar o livro de alaranjada capa e rumar também de volta, em direção à Avenida Bento Gonçalves. Pelo centro do coração da praça, duas modelos posavam em tentativa de dar holofotes ao acinzentado ambiente. Observei de relance às câmeras fotográficas e notei que uma das moças, ao chafariz, tinha em mãos um algodão doce. Como são estranhas as poses de modelo enquanto as outras centenas de pessoas em movimento posam sem querer em composições de maior realidade!
Passei, enfim, por uma das alamedas das quais menos gosto, mas que costumeiramente é agraciada pelas dedilhadas em cordas improvisadas pelo músico de rua, Serginho da Vassoura. No tempo fechado, ele não deu às caras naquela tarde.
Após a abertura da sinaleira aos pedestres, caminhei para o prosseguir dos calçamentos em paralelepípedo de um trecho de rua destinado somente aos transeuntes a pé. Calçando meus fones de ouvido, precisei parar para contemplar a cena à minha direita.
Concentrada em sua atividade, uma senhorita praticava em ordenhar música do violino em suas mãos. Envergonhado por permanecer com os fones de ouvido, fiz questão de sacá-los pelos instantes em que cruzei sua reta. A canção antes em meu aparelho, dezenas de vezes já reproduzida em rádios locais e no meu próprio celular, agora não fazia diferença.
O diferente era acompanhar as oscilações do violino de maneira inédita, conforme já poderia ter ocorrido de forma semelhante, mas jamais idêntica e em mesmo local. A reprodutibilidade das artes é tema do autor Walter Benjamin. A desvalorização do processo pelas repetições e repetições e a raridade não mais encontrada nesses encontros.
Porém, naquele dia de início de outubro, a invasão do jamais antes presenciado em meio à travessia, fez com que meus olhos e ouvidos parassem por detalhados segundos. Surdo ao entreter de antes e atento ao número desempenhado pela moça, fitei-a a aplaudir com o olhar.
Nada fiz, confesso, a mais do que isso. Desejo-lhe, se assim investe, a ter mais moedas na capa que envolve o violino quando ela não o toca. Desejo aos demais, momentos únicos, mesmo simples, como esse que vos narro. Para ela, saúde, física e espiritual, para representar mais performances afinadas durante o executar dos caos urbanos.
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| Alameda na Praça Coronel Pedro Osório (Foto: Henrique König) |
05/10/2015
Rio
Rio de Janeiro
Do seu véu que desprende
Do janeiro que se estende
Ao ano inteiro
Rio de Janeiro
Do céu que é mais perto
Do sol que se esconde
Dos passeios que fiz
Na praia e no bonde
Rio de Janeiro
Do Cristo, tão visto
E tão comentado
No jogo misto
Do concreto e do sagrado
Rio de Janeiro
Das escadarias
Do dia e da noite
Da Lapa e do mapa
Imprevistos talhados
Rio de Janeiro
Dos táxis amarelos
Das lixeiras laranjas
Franja sobre as areias
Do berço afamado
De Copacabana
Rio de Janeiro
Das luzes do morro
Do povo guerreiro
Que pede socorro
Não perde a alegria
Do sorriso que é soro
Rio de Janeiro
Do Maracanã
Do ontem, do hoje
Do Garrincha e do Zico
E do mito de como
Ficará o amanhã
Rio de Janeiro
Do Flamengo,
Fluminense,
Botafogo e Vasco
Do jogo que nasce
Da perna que chuta
Do braço que luta
Com a bandeira no mastro
Rio de Janeiro
Da Baía de Guanabara
Que vou-me embora
Sem ter a honra
De ver-te aurora
E nos amanheceres cinzentos
De um sol preguiçoso e lento
De pingos de chuva adventos
Do tempo, este ligeiro
Que estive contigo
Como filho rebento
Deste único e estranho abrigo
Rio de Janeiro
Rio, que me recepcionou
Com meu velho conhecido frio
Das terras advindas do sul
Que me negaste, Rio, um céu azul
E mesmo assim me seduziste
Com teu ar juvenil
Rio, já não te dou
O sobrenome de Janeiro
Pois és belo o ano inteiro
Nestas curvas encantadas
Por quem te batizou
Rio, sigas lindo
Em constante desafio
E com alguma humildade
Em outra hora e outra idade
Te encontro, no cio da tua mocidade
Com meu olhar infantil
Do seu véu que desprende
Do janeiro que se estende
Ao ano inteiro
Rio de Janeiro
Do céu que é mais perto
Do sol que se esconde
Dos passeios que fiz
Na praia e no bonde
Rio de Janeiro
Do Cristo, tão visto
E tão comentado
No jogo misto
Do concreto e do sagrado
Rio de Janeiro
Das escadarias
Do dia e da noite
Da Lapa e do mapa
Imprevistos talhados
Rio de Janeiro
Dos táxis amarelos
Das lixeiras laranjas
Franja sobre as areias
Do berço afamado
De Copacabana
Rio de Janeiro
Das luzes do morro
Do povo guerreiro
Que pede socorro
Não perde a alegria
Do sorriso que é soro
Rio de Janeiro
Do Maracanã
Do ontem, do hoje
Do Garrincha e do Zico
E do mito de como
Ficará o amanhã
Rio de Janeiro
Do Flamengo,
Fluminense,
Botafogo e Vasco
Do jogo que nasce
Da perna que chuta
Do braço que luta
Com a bandeira no mastro
Rio de Janeiro
Da Baía de Guanabara
Que vou-me embora
Sem ter a honra
De ver-te aurora
E nos amanheceres cinzentos
De um sol preguiçoso e lento
De pingos de chuva adventos
Do tempo, este ligeiro
Que estive contigo
Como filho rebento
Deste único e estranho abrigo
Rio de Janeiro
Rio, que me recepcionou
Com meu velho conhecido frio
Das terras advindas do sul
Que me negaste, Rio, um céu azul
E mesmo assim me seduziste
Com teu ar juvenil
Rio, já não te dou
O sobrenome de Janeiro
Pois és belo o ano inteiro
Nestas curvas encantadas
Por quem te batizou
Rio, sigas lindo
Em constante desafio
E com alguma humildade
Em outra hora e outra idade
Te encontro, no cio da tua mocidade
Com meu olhar infantil
| Foto: Henrique König |
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