23/03/2024

Haifa

"Quando você sonhar, é melhor sonhar algo grande, porque quando acordar restará nada."

Haifa, filme palestino de 1995. Direção de Rashid Masharawi, com participação de Mohammad Bakri.

22/03/2024

"Pessoas simples serão forçadas a ficarem quietas como uma mera imagem."

"E as imagens são passadas em cadeia, escravizadas umas às outras. E escravizantes."

Ainda sobre o filme de Godard sobre a Palestina.

Como encontrar nossa imagem na desordem de imagens evocada pelo outro?


Aqui e em qualquer lugar, filme de Godard sobre a Palestina, em 1976.

15/03/2024

A voz - Flores do Mal P. 209

Rio nos velórios e choro nas festas

Encontro sabor doce nos vinhos baratos que tomo 

E acrescento fatos nas mentiras que conto

Mas a voz consola e diz "mantenha teus sonhos"

Que os sábios não têm tão belos sonhos que os loucos -


Charles Baudelaire

13/03/2024

Estrela Solitária

Aguardo de ti a derrota

Como sempre recebi outras 

Botafogo Futebol e Regatas

Assine ao final da ata

O romântico é um fruto que não amadureceu ao ponto do realismo

Capitã Morte

Estás, meu amigo, em pleno esconderijo

Mantém teu segredo assim forte e rijo

Não temas a morte!

Que ela é tema de azar... ou de sorte

Há quem dela escape e por aí viva

Quem bem pilote e deixa nada à deriva

E de bem pilotado é capturado 

A quem caia na rede desse bote

Há enganos e há trotes

Ao final, impiedosa capitã das mortes

Tenho medo

Tenho medo de não amar-te

E perceber que nada amo

Perceber que toda vida

Solamente solidão, engano


Tenho medo à parte

Durante a arte em que atravesso

Um universo à la carte 

Finito só nos meus versos



06/03/2024

Versos para cada Versta

Eu alterei a minha própria letra
Eu me processei
Alterei bem mais que duzentos e cinquenta
Versos que eu nem sei

Se cada verso for um universo

Esse verso acabará em Júpiter 

Esse aqui será meio desconexo

Esse talvez agrade os junkies 

Esse nem Jung explicará

E esse não vou ser eu quem meço


Eu alterei minha própria gaveta 

Alterei a gazeta de notícias

Alterei os decretos e as profecias

Por notícias fictícias 


Se cada verso for um novo começo

Esse verso parte de um recesso

Esse outro estará do avesso 

Eu começo pelo fim

Se cada verso for um novo começo

Com apreço eu digo que sim

Esse outro dirá que não

Mas ninguém pediu sua versão 


03/03/2024

li Estrela Ruiz

e quem sou eu para ser juiz 

e julgar

mas em mim, em algum lugar

ainda insiste

semente de algum Leminski

Assim

Assim como é 

Assim como foi

Passado não 

Deveria começar com paz

29/02/2024

E se retirássemos os pronomes possessivos do mundo, como seria o mundo?

E de quem seria?

22/02/2024

Chuva de Hai Kai

Hai kai 

Metapoesia 

Vai que vai 

Ia ia


Hai kai 

One, two, three, flor 

And five?

No more 


Hai kai 

Nasceu breve 

Logo morre

A ninguém deve 


Hai kai

Se levanta, se apresenta 

Gasta uma linha com seu nome:

Hai kai 

E logo se senta


Hai kai 

Cai na lei da gravidade 

Mas não é grave, é brincadeira 

Voa, ave, ave

15/02/2024

Quem quer estacionar certeiro entre as frágeis e subjetivas balizas da moralidade?

12/02/2024

Percebo que a humanidade são degradações severas. Melhor se adaptam e se adiantam aqueles que percebem isso cedo.

Se levar a sério demais é uma das piores maneiras de enlouquecer.

04/02/2024

1917

Às vezes é difícil deixar sua própria trincheira.


Reflexão ao início do filme 1917, um dos preferidos do autor. Poucos personagens e muitos figurantes, em perfeita ambientação.

31/01/2024

Quem quem quem

Quem nos aguenta?

Nós literários

No tempo do glitter 

Quem nos tem horário?


Quem nos lê,

Repensa?

Ou só avança

Imensa 

Distribuição de palavras


Larvas e sementes

Patentes

Registre sua marca

Evite pirataria 


Quem quer receber

"Bom dia"

Quando seu dia já não é bom?

Quem quer receber

"Bom dia"

Somente por obrigação?


Quem quer receber 

Em dia 

Até a ilusão do dia quinto

Um dinheiro tão finito 

Quanto o mito de viver

Sem poesia

25/01/2024

Enquanto estou imaginando, não estou vendo o que está acontecendo. Isso pode ser bom ou ruim.

18/01/2024

Entre minha tia, Pierre Goldman e Petzold

Chove de leve ali fora, do outro lado da janela. São 3h30 da manhã quando inicio o texto. Provavelmente serão pelas quatro quando encerrarei. Aguardo pela minha tia, que vem a Santa Catarina. Este a sem crase. Vou a Santa Catarina. Volto de Santa Catarina. Estou lendo um livro de um Judeu chamado Pierre Goldman. Ele era filho de poloneses, mas nasceu em Lyon, na França. Por isso o livro se chama Lembranças Obacuras de um Judeu Nascido na França.

Ele aborda o preconceito racial e os conflitos armados que permearam toda sua vida. Um erro de grafia no livro é assalto à mão armada, que leva crase, mas a cada citação no livro não há o sinal gráfico. Irrelevâncias. Escrevo a partir do meu celular. Sinto fome, mas não quero correr o risco de interromper o sono de meus pais, talvez a coisa mais preciosa que eu zele em vida, porque sei o quanto meu pai é esforçado quando acordado e merece repouso. Minha mãe passa o dia seguinte muito debilitada quando dorme mal. Eles merecem dormir bem. Não saio do quarto para comer algo para não correr o risco de cortar o sono deles. Mesmo sabendo que a aproximação de minha tia na rodoviária fará com que ela emita uma mensagem e acorde minha mãe. E meu pai a busque na rodoviária. Eu de metido insone devo ir junto de acompanhante.

Escrevo a partir do meu celular com o carregador não original, que fica acusando o mau contato entre dispositivo e aparelho. Raios.

Pierre Goldman se defendeu de tribunais injustos que imputiram assassinatos, homicídios em sua ficha criminal, que, segundo a vítima do sistema, deveria constar apenas de assaltos, quando nem fazia uso das referidas armas. Goldman fez contato com homens das Antilhas, congoleses, haitianos e demais latino-americanos. O livro tem tudo a ver com o clima pós segunda guerra. Goldman era um Judeu não pertencente ao país de seus pais, uma Polônia cada vez mais antissemita, barril de pólvora entre sovietes e anti-stalinistas. Também nunca foi um francês, sofrendo o preconceito racial por ser considerado um estrangeiro judeu. Engraçado que quando foi para os Estados Unidos, em uma passagem de navio, trabalhando para um comandante noruegueses, nos EUA, Goldman era visto como "o francês". As coisas mudam.

Minha tia conviveu no mesmo apartamento comigo no fim de 2022. Me ajudou em um período difícil de minha longa doença, quando eu não conseguia evacuar direito, pelo mau funcionamento de meu intestino, que não absorve mais vitaminas como deveria (atualmente tenho reforçado vitamina B oralmente, mas já levei injeções também em outros tempos).

A vinda de minha tia, que voltou a morar em Pelotas mesmo após a insistência de meus pais que ela ficasse em Santa Catarina, a vinda dela tornou-se um evento importante de meu verão. Estou muito isolado, sem amigos por aqui. Ter a companhia de minha tia pode me fazer bem. Deixo aberta a possibilidade disso. Me faz lembrar perspectivas quando, por exemplo, o volante Jailson saiu do Grêmio e não era assim dos mais importantes. Tempos depois a qualidade de elenco recaiu e a torcida esteve em polvorosa para que ele voltasse, o que nunca ocorreu. Fez campanhas e títulos pelo Palmeiras. Além dele, lembro o caso de Rafael Carioca. Ou até Douglas Costa, que viria como salvador. Maior desperdício da história que já vi no futebol brasileiro. Perspectivas.

Pois a perspectiva de minha tia próxima a mim, pessoa da qual nunca fui tão ligado, aumenta na medida em que não tenho outras pessoas com quem contar. E assim devo me acostumar por idade ou distância, ou rotinas atarefadas dos demais, ou menos tempo ou menos grana para disporem conosco. Nos viremos.

Além do livro de Pierre Goldman, a ver com o assunto, os últimos filmes de Christian Petzold, talvez o cineasta alemão que eu mais goste, escalando posição preciosa entre todos os europeus (estou acompanhando toda filmografia dele). Petzold dedicou os últimos anos a filmes com referências de segunda guerra mundial, a exemplo de Phoenix e agora Transit, o qual estou assistindo. Parei e aqui escrevo. Em Transit, traduzido como Em Trânsito, o personagem foge pela França cada vez mais ocupada pelos nazistas, necessitando de passaportes falsos, desculpas, dinheiro e muita desenvoltura. O interessante deste filme, além da troca de identidade com o escritor que se matou no início da trama, o interessante é que Petzold não se preocupou em ocultar os novos carros e as novas ruas francesas ou alemãs. Adaptou um filme de segunda guerra em um mundo como podemos presenciar em cenários dos anos 2020. O filme ainda dispõe de cartas, luminárias, trens (?), mas também há carros modernos e ruas que não escondem o avanço tecnológico pelo qual passamos.

Por fim, gostaria de afirmar que gosto muito dos heróis das tramas de Petzold, pessoas comuns e muitas vezes entricheiradas entre escolhas, além do bem e do mal. Diferença sagaz, preciosa em relação aos mais vistos de Hollywood, em personagens que despertam apenas admiração ou raiva, ufanismo demasiado, leitura rasa. Nos filmes de Petzold somos convidados a pensar em situações cotidianas e ao mesmo tempo extremas: o que eu faria naquela situação? Preciso roubar? Preciso fugir? Preciso amar? Preciso abandonar? Preciso aplicar um golpe? Preciso fugir das autoridades? Quem tem a razão, tão mutável e movediça, tão escamoteada e fugidia? Assim acompanharmos os últimos minutos do filme Transit, para descobrir se nosso protagonista ficará ao lado da família que encontrou pelo caminho ou fugirá com o passaporte que está encaminhado, concedido para iniciar uma nova vida não nos Estados Unidos, mas no México. 

O que será que Pierre Goldman escolheria se fosse ele no papel principal não do livro biográfico de sua vida, mas nesta interessante trama do filme de Petzold? Goldman que, ao largo do livro parece querer se livrar da morte - que o perseguia em pensamentos e ações desde a infância-, justamente por um amor distante, de uma antilhana distante, no tropical caribenho, encontra uma desculpa para manter-se vigilante no sonho de libertar-se da prisão e continuar combatendo, talvez ao lado das diversas organizações comunistas estudantis das quais fez parte, ou deseja apenas uma vida em calmaria, mais justa e menos ambiciosa. O que escolher para salvação e continuação quando os caminhos se entrecruzam e as soluções não são tremendamente iluminadas e dispostas como a facilidade de escolher um ingrediente nas gôndolas do supermercado ou um livro de uma estante?

Assim vivemos entre liberdades e aprisionamentos e eu, enquanto ainda chove, e passam das prometidas quatro da manhã, espero minha tia chegar na rodoviária.

17/01/2024

A natureza manda

Enorme temporal que chega também a Santa Catarina.

Nossas cidades estão preparadas para o que o tempo fará com elas? Não estão.

Aliás, tudo que a humanidade construiu jamais se compara com a natureza. No fim, ela que manda.

O homem tem poder da destruição equivalente à natureza.

A bomba atômica, por exemplo.

Podemos destruir o mundo antes da natureza.

Mas o poder de construção superior ao da natureza nós não temos.

Não minimizando nossos exímios engenheiros. Mas sim exaltando a natureza. Ela manda.

14/01/2024

Hum

Questionamento: como se livrar da depressão, se as alternativas de convivência recomendadas só nos fazem lembrar mais ainda da depressão? É como se, no convívio ao qual nos forçamos, a bolha criada pela depressão melhor ainda nos moldasse. Perguntas para lapidar e levar ao psiquiatra, porque não tenho a garantia de ter sido aqui claro no questionamento. Vocês entenderam?

Quanto mais se convive para tentar escapar da depressão, mais lembramos os motivos pelos quais chegamos à depressão. O mundo e as pessoas podem ser deprimentes. Por um lapso de esperança, podem também não ser.

Depressão e padrões

Acredito que após se passarem os dias de maior depressão, sente-se um sentimento de tempo perdido pelos dias desperdiçados. Apenas acredito nisso, porque, na verdade, não sinto que superei esses dias para olhar com outra ótica.

Em um exercício de imaginação, estava apenas imaginando como seria estar escape das garras da depressão, que cercam e encurralam, limitando nossas atuações no cotidiano.

O sol brilha forte lá fora, mas não quero sair. Tenho preguiça e vergonha e desinteresse. Às vezes mais preguiça, às vezes mais vergonha, às vezes mais desinteresse. Deixo minha cidade e meus amigos me perguntam quando irei voltar. Não sei quem encontrarei futuramente. A insegurança do futuro é prejudicial, mas, para o pleno exercício do viver, apenas o presente seria agora essencial. E no presente o sol brilha lá fora e não saio. Por preguiça, vergonha ou desinteresse.

O primeiro verão que vim para cá foi melhor. O tom da novidade, a proximidade a menos de quadra do mar. Caminhadas longas de exploração. Nem a ausência de Internet impedindo que eu caminhasse ouvindo músicas sortidas nos fones impedia. Nem o descontentamento constante com meu próprio corpo, de julgamentos imaginários ou existentes por outrem - certo é que eu sim me julgo.

Na Internet tiraram a semana para debater corpo feminino. A verdade é que uma tal indústria da moda construiu paradigmas antes inexistentes. Para vender roupa ou não vender, dificultar que se compre. Esses tempos ouvi uma ótima teoria que os estilistas, muitos deles gays, projetavam roupas para alterar a percepção das mulheres, concorrentes deles pelos homens. Se verdade ou não, há pingos de razão e sentido. A indústria é muito mais cruel do que o homem "comum". Ok, a indústria, as indústrias são comandadas por homens, mas pelos poucos capitalistas detentores do capital. Eles que mandam, constroem padrões inexistentes, mais fáceis ou mais difíceis de romper com.

O tal mercado de trabalho, a televisão também moldam padrões que em geral nem concordamos. Às vezes é escrachado, e tão falsa a aparência sobressaindo sobre a competência que o sentimento é repugnante ou de vergonha alheia.

Se o homem "comum" age em julgamento tão cruel quanto a indústria, ele é, sem meias palavras, um otário.

09/01/2024

Vezes sinto que nada é mais forte do que eu e meus breves sonhos de imortalidade 

18/12/2023

Imagens aéreas

Se eu for assistir, de um helicóptero ou pequeno avião, por exemplo, a imagens desde a altura que nos encontramos, acredito que o medo seja um elemento fundamental para fixação das mesmas belezas na memória. Está no medo uma capacidade de lembrança. Ignorar o inédito, a força do risco de uma queda vertiginosa desde acima, ignorar esses elementos, na coragem, na falta do risco que não resulta em medo, também resultará em apagamento mais ligeiro da beleza das imagens aéreas. Mundo de ganhos e perdas, de ônus e bônus.

13/12/2023

Crises

Identificar as crises é fácil. Difícil é identificar o quanto as crises realmente nos afetam.

Crises geram crises.

Identificar as crises é fácil. Difícil é encontrar as glórias que aparecem nos filmes.

12/12/2023

Pelotas

Cada vez que vou embora de Pelotas, e tem sido muitas, morre um pouco dela em mim, mas, assim como as sementes ocultas sob a terra, sei que algo dela ainda renasce em mim.

04/12/2023

Creio que é muito triste ter ideais suicidas, mas, por saldo deixado, parece mais triste ainda praticá-lo.

"Há nada pior do que aquele que usurpa a arte sem deixar um pedaço de sua alma. A arte é troca. Eu lhe dou todo o meu sangue e volto com um pouco de seu coração"

C.Tugren

Paz sob a terra

O ruim de ter desistido de tudo é que você tem de encontrar um motivo para seguir mais um pouco. Um falso pretexto. Uma medida provisória, nada mais. Nem que seja ler os textos de Garcia Lorca que eu deveria ter visto para as aulas de amanhã. Queria que você estivesse correta e eu tivesse mais o que fazer. Se eu tivesse traído ou tenha com quem trair e construir algo. A solidão mediada de tantas disfunções não é apenas um sentimento, mas uma ameaça constante, perigosa e destrutiva.

Sinto sua falta para desabafos, relatos e algumas piadas, mas não consigo encontrar chamas de sobrevivência da convivência. Me sentia em um barril de pressão e compromisso, da mesma forma que não irei conseguir enfrentar quando se tratar de trabalho, sei bem e aproveitava meu pseudo-emprego para manter-me ocupado e mentindo alguma utilidade. Após sair desse barril de pólvora, é o meu silêncio que me aprisiona.

Tenho agora um senhor como vizinho dos fundos, no apartamento contíguo. Não o conheço bem e ele é naturalmente estranho, como só estranhos poderiam parar aqui. Nesta segunda-feira será instalada a internet dele, por dentro de meu apartamento, por suposto, porque preciso de incomodações maiores do que as minhas. Tenho aula toda tarde depois e precisava ler as peças de García Lorca. Tentarei isso ao ponto final daqui.

Gostaria de perdoá-la de tudo, do que me magoou e não foi pouco, mas sei que algumas questões irão voltar à tona sempre, fantasmas entusiasmados em lençóis manchados. Para além disso, também não me sinto perdoado quando episódios passados sempre voltam. Não sou o monstro que nunca aparentava ser e agora naturalmente aparento. Minha vontade de machucar quando me sinto machucado é imediata, infalível e, até o momento, incurável, embora concordo que seja possível remediá-la. Acho que faltou cuidado e cautela. De ambas as partes, obviamente.

Há pessoas que dessa trajetória de campeonato jamais irão se recuperar e outras tantas que nem a oportunidade de redenção terão. Se pensas cômico, tenho nenhuma empatia com o que daí saia. Além do mais, muita coisa se planta e daí se colhe. Ainda em termos do campeonato, creio que faltou planejamento e mesmo seriedade para encarar o processo, é a liga mais difícil e competitiva do mundo. Nenhuma apresenta, ou apresentava, tantos candidatos. Venceram os mesmos. Dos últimos 9 anos, creio que só Atlético Mineiro, que permanece bem, e Corinthians (oi, sumido) romperam o fardo de que os mesmos vencessem. Parabéns aos que assim se contentam.

Bem saliento que o Botafogo fez algo diferente, do quinto lugar no carioca, passeou um voo alto pela liderança de 30 rodadas, para estacionar também em 5⁰, mas no brasileiro. Caso ficasse entre os quatro, igualaria o número de ficadas entre os quatro do Vasco. Nem isso se permitiu o pobre coitado, incorrigível. Como um fardo permanente, um doente em leito de UTI ad eternum, esse grupo de coitados volta a se apresentar para algum domingo de calor em um estado que tem como outros esportes a praia, a subida de morro, a corrupção e a milícia, uma falsa bossa nova e o mais legítimo dos funks. E lá estarão eles, para tortura de mais uns 10 ou 15 mil coitados que não desistem, peregrinam já em busca de nem sabem mais o quê. Mas prometem eles que o espetáculo da tortura um dia, logo mais em janeiro até muitos janeiros continue. Quanto será que custa se vender para o fim como a Portuguesa de Desportos fez-se e desfez-se a partir de 2013? Ela vice-campeã de 1996, que ameaçou ao máximo o bi do Grêmio. Bragantino ameaçou fazer este ano e assim outros coadjuvantes de pouca torcida, como foi o São Caetano, ameaçam esse terreno movediço entre médios e grandes onde paira e cada vez mais enterra-se o Botafogo.

Eu, na falta de onde ir ou cair adiante, caio junto. Pás de terra não faltam, postas por quem entenda isso ou não entenda. Te desejo paz. A paz que um dia, se algo do que promete o coro das vozes seja cumprido, eu encontrarei. Paz.

02/12/2023

Muitas vezes não quer levantar-se porque sabe que em pé não é tão mais alto, não é o quanto gostaria

La dulce esperanza luego se convierte en la ironía de la vida


Banda Cinco Tatuajes

O máximo que a gente faça geralmente só é grande dentro da internet

29/11/2023

"Fui totalmente atrapalhado por sonhos e projeções, visto que a realidade não era tão ruim quanto geralmente é."

28/11/2023

"A vida não respeita sonho"


André Santos, amigo e torcedor do São Paulo Futebol Clube

21/11/2023

A mulher que sangrava

Não sei porque certas histórias nos cruzam ao caminho, se por destino ou mera coincidência. Essa é uma das dúvidas que movem a humanidade. Estávamos a caminhar pelo trajeto que sempre fazemos em hora também costumeira, entre o meio e o fim da tarde, luminosidade natural ainda em alta, muito longe do pôr das seis. Nosso prédio está sendo pintado de cinza meio azulado, o rapaz não soube informar exatamente o nome da cor e, quando questionado, disparou respostas óbvias em seu gatilho de contestação rasteira e antipática. Somente o ausente chefe deve saber o nome exato da tinta. Mas isso não importa. Importa que estávamos caminhando pela mesma passarela, travessia que inclusive já abordei em meus textos se um dia tiverem ou tiveram a infelicidade de ter cruzado os olhos.

Essa mulher tem uma idade imprecisa, mas não era nova. Nova para morrer. Era cinquentona, estava deitada quando cruzamos por ela. Ela era confundível com ele, certeza que só me acrescentou no caminho de volta. Quantas pessoas passaram por ela desde então? Ela inicialmente estava deitada, de chinelos, tinha uma sacola em sua posse. Não estava no mais confortável. Parecia um pouco estatelada se agora bem me lembro. Não sei se bem me lembro. Sou no momento um narrador vacilante. Discutam isso em aula do tipo de narrador que sou, mas sou um narrador fiel a minhas dúvidas no relato que segue.

Pois quando voltamos, após aquela olhada do mar através de mirantes públicos, depois de pisotearmos as madeiras soltas ou bem cravadas da passarela que se estende após as calçadas de concreto, quando voltamos pela derradeira passarela de madeira, a mulher cambaleava. A mesma mulher logo a identifiquei. O que se passava com ela? Ela andava em zigue-zague, parecia desnorteada. Um líquido escorria de seus domínios. A cor era escura. Desnorteados, desaturdidos ficamos todos com aquela cena que não poderia ser ignorada na estreita passarela de madeira, com mirantes, com detalhes artísticos, com uma mulher em apuros. Ela pingava algo, mas o que será? Me pareceu desde o início ser escuro para ser sangue, mas seria  então um vinho que escapava de sua sacola ou do interior de sua roupa? Os pingos agora dominam minha memória como dominavam a passarela da travessia. Pingos para esquerda, pingos para direita, uma poça desses complexos pingos não identificados de conteúdo. Teria ela se levantado daquele sono em ressaca, vomitado um vinho e depois seguido pingando. Não vi cicatrizes, não vi machucados, mas minha irmã, que me acompanhava, acha ter visto.

Mas o terror não acabava. Ela falava sozinha. Falava que havia chegado sua hora. Seria apenas ressaca? Seria loucura? Teria sido agredida? Teria sido apenas desespero de uma ressaca invencível até trágico momento? Vinho ou sangue? Vinho que para os católicos mais fervorosos também é sangue do maior de todos. Ela escorria, ela se esgueirava, bailava a um lado e ao outro, aos murmúrios e às vezes com voz mais elevada. Observei meu pai passar por ela, na expectativa, na tensão, no temor que aquela criatura esdrúxula nos tropeçasse. Mas estaria doente? Mas que ajuda precisava? E seguia narrando seus infortúnios afirmando vez que outra que quando chega a derradeira hora não há o que possa ser feito. Desafortunada era apelido.

Não éramos os únicos a tão impactante visão. Além dos minutos, muitos, que se passavam entre a vermos deitada ao lado de bancos de madeira do mirante de madeira, da passarela também de madeira, além dos minutos, quantas pessoas haviam passado por ela? E agora, além de nós em presenciar aterrorizante cena, havia um estimado grupo de jovens que deveriam ter saído mais cedo de suas aulas de ensino médio ou mesmo estudavam só de manhã e passavam a tarde de bobeira maior na praia. Os jovens também não ligaram, já a conheciam? Nem se deram o trabalho de no fluxo de consciência antes de dormir formular tamanho relato que ora vos apresento?

Os jovens a ignoraram. Cruzamos pela senhora em polvorosa. Em polvorosa mais do que ela, que aceitava seu destino trágico, nós por não sabermos reagir a essa cena. Minha mãe costuma encobrir visões indesejáveis, nos imaginou "normais", eu e minha irmã a vida toda, agora adultos estamos mais diagnosticados e contemplados por remédios. Inadequações em nossas vidas e em outros episódios, como bem me recordo de uma ladra em um bagageiro de camionete quando voltávamos do Laranjal em Pelotas e os carros de Polícia que a seguiam, e logo também nos seguiam, nós imbretados nesta cena. Eles apagaram da memória, mas em minha memória infantil jamais esqueci dessa perseguição de carro. Que, caso não tenha havido, permanece tão viva em meu fluxo de memória que posso ser o maior inventor do mundo.

Enfim, meus pais procuram apagar cenas pitorescas negativas de suas memórias, anulam o trauma antes que esse os castigue. Mas eu, meus caros, eu sou castigado, açoitado das piores formas e, em noites de insônia, talvez eu conviva com a imagem da bêbada ou gravemente ferida que nos cruzou o caminho. Passou por vários. Corredores de rua cruzam aquela passarela. Pichadores algum dia ou alguma noite, mais provável, a cruzaram. Iniciais NZ da crew que reproduziu sua tag naquelas madeiras infames. Pais e mães com crianças pequenas cruzam bem quista passarela sobre o mato, vegetação natural ornamentada com garrafas de energético Baly daquela praia catarinense. Mulheres de saias curtas, homens tatuados, idosos procurando manter-se em atividade física cruzam aquela passarela. Quantos passaram por semelhante desgraça degradante presenciada? Quem a ajudou? Lamento ou não que nós não fomos?

Ela seguiu a proferir os impropérios. Desafiava as portas do céu ou as portas do inferno para quem acredita. Estava desvairada, mais do que a pauliceia de Andrade, estava mais para lá do que para cá, a cidade de Bagdá havia ficado quilômetros atrás. Ela proferia insultos, ameaças aceitáveis pela sua desfigurante posição. Ela prosseguiu. Prosseguiu não só na voz alta, mas nos passos trôpegos que venceram toda aquela extensão de passarela, cada tábua de madeira justaposta. Ela chegou no caminho concretado, passou pelo chuveirão que a milhares auxilia a tirar areia e sal a cada verão. Ela subiu a rua em formato de pouco inclinada rampa. Ela vencia a cada passo, o vinho ou sangue, o sangue ou vinho que não mais escorregava em eternos desconcertantes pingos. Marcas escuras e obscuras sobre o chão daquela madeira manchada para sempre em minha memória.

Minha irmã acelerou os passos, ela mais espirituosa, considerada até medium pelos que assim acreditam e ritualizam em sessões espíritas. Ela de cabelos, tenho certeza, arrepiados pelo corpo e vencendo antes de nós o palco trágico da passarela. Ela que tomou impulso e velocidade atlética poucas vezes vista em suas manobras caminhantes. Mas embora cada um de nós espectadores termos ultrapassado a distância da passarela, nossos olhos insistiam mais do que em qualquer outra vez por ali em olhar para trás. E a senhora avançava. Um zumbi branco, moreno de sol no exato dia em memória de outro zumbi, o maior deles, o dos Palmares, na marcação e demarcação do 20 de novembro para invadir nossos culpados fluxos de consciência de desigual Brasil.

E na Santa Catarina, estado de muitas vezes poucas consciências, que ignora o poeta maior Cruz e Sousa e ignora as cruzes da professora Antonieta de Barros, precursora do Dia do Professor, 15 de outubro, no Brasil, essa Santa Catarina que também permite que uma mulher cruze metros e mais metros sem ser interpelada pelo 'quê houve, minha senhora?'. Essa que talvez seja conhecida por outros, talvez mesmo pelos ignorantes (no sentido de ignorar) jovens que estavam também reunidos na passarela, conhecida talvez de episódios assim de que não valeriam nossa maior preocupação e atenção, mas não tem jeito, minutos, quase hora perco agora em memória dessa que ainda me invadirá o sono algumas noites por tempo indeterminado. Até onde foi, até onde caminhou, por que ela sentenciava seu próprio fim, como juro, eu, inventor de polpa, bem ouvi? Ela que subia a rua em inclinação de rampa rumo a, primeiramente, casas, chalés, cabanas de repouso em veraneio, e, mais adiante, passaria pelos portões da capitania dos portos, policiamento e bombeiros pela direção do Porto, casas e mais casas, trilhos, gente caminhante ou motorista. Não fomos nós os que descobrimos a verdade e isso me frustra. Pode ser que eles, em ato de legítima ou não defesa, em defesa ou não pessoal tenham ignorado e superado histórias e mais histórias como essa ao longo dos anos, mas minha memória novamente em terra se remexe, em contragolpes descontrolados se revolta e se refuga. Para onde foi a mulher que vinho sangrava ou sangue vinha?

15/11/2023

Você é apenas uma engrenagem na cultura pop e acha que é autônomo e importante.

14/11/2023

Tão Longe, Tão Perto (1993)

- A noite agora já foi para o buraco

- Na verdade todas as noites já são o buraco


Diálogo no filme Tão Longe, Tão Perto, direção de Wim Wenders, em 1993.

Patricia Highsmith #2

"Escrever é um substituto para vida que não posso viver."


Pois sinto que além de minha escrita também entra aqui cada vez que leio e vejo filmes, e quase me assusto mesmo o sobressalto de parar para pensar que aquilo não existe ou que minha vida, no quarto da frente de um prédio decadente e vazio no final do Centro, é totalmente insignificante e indiferente a quase tudo que me cerca.

13/11/2023

O amor por um clube dói

O amor por um clube dói mais do que qualquer outro. É o amor que será rejeitado não por uma pessoa, mas por milhares ou milhões de inimigos, que reincidirão suas grosserias, seu ódio, sua estupidez contra o seu amor semanalmente. Machucarão, chutarão, cuspirão, bradarão, odiarão até que sucumbas, porque desse amor não estás tirando mais seiva, mais fruto. 

Seu amor está sufocado porque ele não dá resultado prático há muitos meses. Há muitos anos, há muitas décadas. Seu amor é unilateral, você ama o clube e ele nunca te corresponde.

Você implora para que ele vença o próximo jogo, porque Eduardo Marinho já nos anunciava que nesse esporte bestial alguém tem de perder. E é sempre você, seu fracassado, e seu clube estúpido quem perdem. E não basta que percas, que te remoas consigo mesmo, que não consigas comer a próxima ou as próximas refeições, que não durmas quanto deites a cabeça ou não levantes quando de levantar esteja a hora. Isso não basta. Você e seu amor em leito, em UTI precisam ser achincalhados, humilhados, pisoteados, exauridos até a última pancada por um bando de desocupados que serão também eles os primeiros a pedir que não pules, que não desistas, que não ceife yourself. 

Bando de imbecis, animais, no pior do termo, que não respeitam seu amor, que o espezinham, tratam na maior crueldade, tirania, infortúnios expostos, desgostos arrefecidos, dores incalculáveis, fraquezas que cobrem corpo a corpo. Diligências compartilhadas, febres estonteantes, risos de dor, demência conjunta, moradia de um coração inabitável.

Muitos sofrem comigo, cada um a seu jeito, despedaçados após mais uma destruidora derrota que acaba com sua semana, e essa semana vira mês, esse mês é mais um ano em processo de acúmulo e logo se passa uma vida. Ninguém do outro lado, do inimigo, se importa com você. Você tem os seus, mas também não sabe mais a quem recorrer, seu sentido de comunidade é falso, assimétrico, quimérico e você está sozinho nas calçadas do luto. Calçadas não. Sarjetas.

Tudo é dor, dói e corrói. Foi, mas não passa. Tudo você lembra. Tudo te machuca. Tudo enluta. E você cansou de levantar só para cair pisoteado, chicoteado, nocauteado de novo. Você cansou. Você cansou e pode se livrar disso. E deve se livrar disso. Você tem mais o que fazer. Só ainda não sabe o quê. 

Não sabe, vírgula, porque o amor por um clube dói. Arde. Invade. Queima até a última ponta, até mais tarde. Vira em brasas um amor que surgiu muito antes de qualquer outro e que agora corre paralelo se não submerso no esgoto.

O amor por um clube arde e não sei mais o que fazer com o meu.

Patricia Highsmith

O sentimento mais doloroso é o de sua própria fraqueza 


Patricia Highsmith

12/11/2023

Impressões sobre o cinema alemão

Tratam-se de meras impressões, suposições observadas sobre o cinema alemão contemporâneo, em especial na obra do diretor Christian Petzold, do qual estou acompanhando o sétimo filme em ordem cronológica desde os curtas com os quais iniciou a carreira.

Em parênteses, estou assistindo aos filmes na tela de meu compacto celular e quando os filmes são escuros podemos ver nosso rosto como em um espelho, às vezes atônito, às vezes indiferente, naturalmente.

Bom, sobre o cinema alemão, a observação que resultou na publicação dessas linhas consiste em analisar que, diferente de outros países mais bem demarcados com traços que muitas vezes beiram ou escracham o nível do estereótipo. Por exemplo, as conversações animadas e os muitos rolos amorosos dos italianos, ou dos quais também compartilham os franceses, porém mais polidos, preocupados em uma postura chique apesar de toda falsidade do charme burguês- já nos denunciavam há décadas. Os franceses como o próprio nome aponta em francos apontamentos, muitas vezes vistos por nós categóricos da sutileza como gestos grosseiros. Porém o cinema alemão, e além da contemporaneidade desde alguns primórdios como o filme do Golem em vilarejo judeu, ou até traços árabes ou turcos em histórias contadas pelos primeiros cineastas alemães, é notória a presença de muitos elementos estrangeiros ao que seria delimitação de Alemanha.

Wim Wenders trabalhou com histórias em diferentes países, dos Estados Unidos a Portugal. Portugal que está em destaque na obra A segurança interna (2000) de Christian Petzold, história na qual um casal de ditos terroristas com todas as aspas de esquerda criam uma filha adolescente mas tendo que pular de galho em galho pelos riscos das perseguições que sofrem.

Assim que a suplementação estrangeira está diretamente ligada ao cinema alemão. Não há um cinema alemão puro. País central, capital de uma Europa Central, desde a economia forte de Frankfurt aos portos de Hamburgo, da rica Baviera de Munique, da ligação com o leste nas complexas Leipzig e capital Berlim. No charme e nos bosques de interior por onde se possa passar nas histórias, até uma Stuttgart mais voltada nas proximidades da fronteira francesa. Um país de muitos migrantes, de africanos a árabes, chineses e turcos, e por que não brasileiros e outros seres americanos? Alemanha miscigenada porque assim é na busca pela qualidade de vida, nas saídas fugitivas de conflitos de violência e econômicos. Alemanha miscinegada também será por demonstrar superações passadas traumáticas em sua formação nacional e histórica?

O cinema alemão que observo é bastante complexo, com uma gama de assuntos, personagens, cenários, atuações. Já vi retratados prostitutas, mafiosos, drogados, banqueiros, famílias turcas, famílias miscigenadas, famílias a partir de homossexuais, de outras letras do LGBTQI+, bêbados, artistas, portuários, taberneiros, donos de redes hoteleiras, funcionários públicos, paisagistas, ecologistas, mulheres independentes em seus cabelos curtos, homens em seus cabelos compridos, bigodudos, fumantes machistas e os mais diversos personagens que se possa imaginar. 

Se imaginem cópias do cinema estadunidense, deboche com o cinema estadunidense, produções próprias mais silenciosas de viajantes, camponeses, andarilhos, passageiros de ônibus ou de trens, observadores das florestas, das belas estradas ou das águas, gente ligada aos vizinhos países, da França aos mais variados tipos do leste europeu.

O cinema alemão é um rico campo sociológico, semântico, de linguajares os mais diversos e atrativos. Antropologicamente variado, com seus personagens dos mais simplórios e caricatos aos mais desenvolvidos, que identificamos da realidade ou das imaginações mais profundas e surrealistas. 

Enfim, aqui apenas uma mostra para o que se pode explorar de ideias de observações a partir das mais diversas obras sejam elas de Wim Wenders, Fassbinder, Christian Petzold, Margarette von Trotta, Werner Herzog, Fatih Akin e outros e outras.

10/11/2023

A luz da lâmpada do poste tremula no vidro da janela farfalhado pela chuva. É sexta à noite.

29/10/2023

Sinto raiva das situações do mundo, depois um marasmo de pena de quem nem tem condições, mesmo de saúde, de articular diferente.

13/10/2023

Guerra e Humanidade (1959) - Amor Maior Não Há

Um filme que deveria ser visto e revisto até hoje.


O filme Guerra e Humanidade, do diretor Kobayashi, de 1959, retrata tempos de Segunda Guerra Mundial entre Japão e China. Os japoneses detinham o poder e escravizavam os chineses. A história conta o personagem principal enviesado entre muitas encruzilhadas, termo inclusive utilizado na narrativa. Ele estava para casar com o amor de sua vida, mas tinha o receio de ser convocado para o exército japonês. Em seus estudos sobre os campos de produção, acaba recebendo a oportunidade de controlar uma mina de extração, com milhares de trabalhadores chineses sobre o controle dos japoneses. Em estimativas do filme, eram mais de 10.000 homens em supervisão daqueles poucos japoneses.

Como recebeu este emprego para ser um dos supervisores da mina, levou sua nova esposa a este local afastado, uma terra hostil, dominada pelos homens e com pouquíssimas mulheres. Tão adverso e arisco eram o clima da localidade que os escravizados não possuíam a mínima chama feminina para atiçar seus corpos, de modo que um serviço de visitadoras, muito semelhante ao que veremos em Pantaleón e as Visitadoras, livro do peruano Mario Vargas Lllosa, acaba aparecendo na trama. São algumas prostitutas que serviriam de consolo e de aparição como recompensa aos exauridos trabalhadores chineses.

Esta primeira parte da trilogia Guerra e Humanidade chama-se Não Há Amor Maior (1959), contando a história do Sr. Kaji, o personagem principal. Ele possui livros do mundo ocidental e é um grande humanista, mas tem seus valores totalmente colocados à prova através das situações adversas que tem de encarar. São líderes oportunistas, corruptos, relatórios falsos, crimes de guerra, torturadores, trapaceiros e subordinados ao exército japonês tendo de conviver com a violência, a retaliação, os excessos de poder e uma tremenda injustiça. O Sr. Kaji e a esposa tem a convivência posta à prova durante toda a trama, escapando de uma situação e logo tendo de resolver outro infortúnio. As ordens superiores são injustas, os relatos dos acontecimentos, da violência gratuita são falsificados. Trabalhadores que são agredidos até a morte são postos em relatórios como fugitivos ou acidentados. A produção de alimento e a distribuição são escassas e injustas. Os chineses estão esgotados de trabalhar para os inimigos e sem recompensa, ameaçando fugas e rebeliões. O Sr. Kaji tem de pacificá-los, conter as investidas e negociar futuros ainda promissores para esses pobres prisioneiros de guerra.

O alto comando japonês, quando acionado, pressiona Kaji por mudanças, por uma produção efetiva. Eles esperavam angariar da colheita 20% de aumento na produção. Não importa pelo que tenham de passar por cima. Por mortos, por esgotamentos, por torturantes jornadas de sacrificante trabalho. Mas Kaji, como dito, é um humanista e observa essas situações incrédulo de tamanhas injustiças, prometendo e pondo em práticas soluções que obviamente desagradam seus superiores e parceiros no comando da interiorana mina em terras chinesas.

Kaji vivencia a traição por todos os lados. Seus negociantes do lado dos representantes dos trabalhadores chineses o traem. Ele se decepciona, ameaça não ligar mais para as reivindicações e condições trabalhistas deles. Mas o coração de Kaji segue posto à prova e ele vai até as últimas consequências por aqueles homens antes desconhecidos, não importando suas origens ou pequenos ou maiores erros passados. O filme todo se desloca em uma trajetória não de santos, mas de homens passíveis aos erros e questiona o valor das desgraças que podem ser depositadas sobre esses desafortunados sujeitos. Kaji circunda por suas temíveis encruzilhadas, sinucas difíceis, quase impossíveis de resolver. Nos questionamos durante as peripécias o que poderíamos fazer no lugar do jovem japonês, de 28 anos, um emprego inusitado e a constante ameaça de perder seu encargo e ainda ser ameaçado de torturas, agressões e até do sumiço como a morte que facilmente poderia ser falsificada em mentiroso relatório.

Kaji convive com as prostitutas que visitam os trabalhadores, com os próprios milhares de mineradores, com os controladores dos suprimentos, guardas, encarregados do exército japonês e outros fiscais e administradores. A corrupção é uma prática frequente, retrata os extremos que ação e pensamento humanos podem chegar em tempos de escassez, guerra, conflitos, animosidade entre etnias, e mesmo entre homens que - teoricamente - lutam pelo mesmo lado de uma guerra. Tantos tentando obter vantagens sobre seus semelhantes, os excluindo, os oprimindo, lutando por seus cargos ou simplesmente por seus pedaços de sobrevivência.

Guerra e Humanidade inicia a trilogia com esse episódio da vida do Sr. Kaji em cerca de 3 horas e 24 minutos de filme. Mostra os excessos da guerra, as injustiças, os comportamentos doentis e fanáticos dos exércitos nacionalistas que até hoje habitam nosso mais ou menos estimado planeta. Mostra a dificuldade da manutenção de valores humanistas iniciais, presentes na teoria bem desenvolvida dos livros, inebriantes na hora do vamos ver da prática. Os desafios do Sr. Kaji deveriam ser vista obrigatória a estudantes, pessoas de todo o mundo, pessoas que desconhecem as práticas sacramentadas e repetitivas da crueldade dos exércitos, os roubos, os excessos, as torturas, os estupros, as condições de vida precárias a que são submetidos seres humanos que como culpa carregam apenas sua etnia ou local de nascença. Um filme pouquíssimo comentado, mas, até a presente hora, contando com minhas cinco estrelas depositadas em nota e com um alta média 4,5 através do aplicativo de catálogo de filmes do Filmow.

Recomendação do primeiro ao último minuto das mais de três horas de duração e lançada minha ansiedade para conferir os outros dois episódios dessa trilogia do diretor Masaki Kobayashi.