27/08/2017

21/08/2017

Em uma Imagem

Vasculho a cidade e observo muitas coisas. São tantas que quero colocá-las no papel, atravessadas pelo meu ponto de vista. São tantas que encontro o problema de não saber como iniciar ou como terminar, mesmo sabendo que as situações observadas servirão como o corpo do texto.

Recentemente, concluiu-se um concurso chamado de Pelotas em uma Imagem. Didático. Qual a melhor imagem para ilustrar a cidade? Não vi os participantes, até pensei em participar, mas prazos e, quando vê, já foi. Vi os postais dos três primeiros colocados. Gostei muito das três escolhas, fotos distintas, a cidade presente em ambas.

O terceiro lugar com uma imagem do trapiche da praia do Laranjal em uma coloração tão rara que jamais vi de tal forma em minhas visitas à praia. O segundo lugar de meu amigo de imprensa, Leandro Lopes, com a estátua de João Simões Lopes Neto (coincidência nos Lopes?) com o nevoeiro característico do inverno, em prédios antigos e tombados ao fundo. (Não gosto da expressão 'tombado', parece que derrubaram esses prédios que, na verdade, tornam-se, a princípio, inderrubáveis pela ordem da lei.)

O primeiro lugar foi uma foto mais humanística (é esse o termo a ser empregado? Bom, errar é...). Uma criança paralisada com a música vinda da vassoura do músico Serginho. Para quem é de fora, isso mesmo, o cara se apresenta em um banco da praça com uma vassoura personalizada em cordas para tirar acordes e passar algumas mensagens no microfone igualmente reciclado, reaproveitado, reinventado. Criatividade na aparelhagem e nas músicas compostas.

O menino branco e o Serginho negro. Uma cidade que convive com essa realidade, muitas vezes mal reparada (de conserto e de observar!). A foto acabou ficando mais fraca talvez tecnicamente, mas é um grande registro. Passo por Serginho seguidamente. Procuro captar algo de suas mensagens. Certa vez ironizava o fato do museu da Baronesa abrigar coisas tão rotineiras e supérfluas, mas tratadas com uma aura especial pela comunidade por terem pertencido à aristocracia local, a mesma que escravizava ou detinha privilégios nada encontrados pelo restante da pequena população local à época.

Pelotas em uma imagem. Tchê, Pelotas em uma imagem, diz aí o que se passa?
► É o fim de tarde na confusão da Marechal Floriano, entre lojas e pessoas procurando os ônibus que seguirão ao Fragata. Sol que desce e cortinas de ferro que se baixam.
► É a confusão na General Osório de madrugada. Asfalto e iluminações novas e as velhas boates, cada vez mais perigosas, onde nunca sabemos se é brincadeira ou briga séria.
► É a multiplicação dos catadores de lixo. Alguns levam até a reciclagem. Outros querem é tentar uma refeição ou terminar a dos outros.
► É o emaranhado de luzes, a frenética má combinação de bebidas e drogas em frente à universidade particular, onde seguidamente ocorre abordagens policiais para coibir a perturbação do silêncio feita pelos carros de som ou apreender irregularidades por consumo ou documentos vencidos nos veículos.
► É o paralelepípedo no chão e as cores do grafite nas paredes do Porto.
► É rave em charqueada.
► É a saída em frente à escola estadual Assis Brasil, com seus estudantes de distintas origens em uma área nobre da cidade.
► É cocô de cachorro na General Argolo.
Não conheço todos os bairros. Tampouco a zona rural.

15/08/2017

Praça contra Pressa

Gosto de variar os caminhos por onde ando pela cidade. Claro, dependo da disponibilidade de tempo e se estou caminhando a esmo ou com objetivos mais concretos, mas sempre que consigo, faço minhas rotas. Passar por pontos turísticos interessantes, por paredes com inscrições que me chamaram atenção, por locais onde vi alguma coisa legal em outra data, ou simplesmente descobrir novas possibilidades.

Por temporadas, por estações defino algumas rotas mais padrões, onde eu me sinta mais à vontade. Por exemplo, do meu bairro até a Avenida Bento Gonçalves, tenho escolhido a arborizada e movimentada com comércio, Gonçalves Chaves. Passei a gostar mais da rua e a maior movimentação de pequenos estabelecimentos dificulta os roubos a pedestres, então passa uma ligeira sensação de mais segurança em relação à paralela Padre Anchieta. Da Avenida Bento mais em direção ao Centro, ao coração da cidade, opto pela 15 de Novembro, passando pela minha antiga escola, o apartamento de um amigo, o local de trabalho da minha tia e alguns estabelecimentos que me conferem um ar comum, como barbearia, estúdio de dança, papelaria, estacionamentos, etc. Até desembocar na principal praça da cidade, com suas árvores centenárias, prédios antigos e pessoas das mais variadas, no encontro entre a periferia e o empresariado.

Contorno a praça e ouço um rapaz com o microfone recém ligado à frente de uma loja. Anuncia que se trata não de uma loja qualquer. Se trata da maior loja de créditos de Pelotas (exclamações)! Se trata de uma das maiores lojas de créditos do Rio Grande do Sul (mais exclamações)! Aposto que nem ele acredita nisso e provavelmente nem os donos, a não ser que tenham um ego desmedido e sem noção. Porém, creio que a extensão da importância da loja também seja uma estratégia para ele ganhar tempo e organizar a papelada das ofertas e chamativos que pretende anunciar a seguir. Mas como segui caminhando, não o ouvi anunciar mais.

Quem pode ter ainda ouvido ou não era um morador de rua, na soleira do fechado Teatro Sete de Abril, cerrado há vários sete de abris que se passaram nos calendários. Sem atrações internas, sua fachada fica decorada pela crueldade das ruas daqueles sem oportunidades ou definitivamente desmotivados a tentar qualquer emprego que seja, como ser locutor da suposta maior loja de créditos da cidade. Ele estava completamente coberto por um cobertor dos mais sujos que já presenciei. Imóvel, se estivesse morto, não descobririam nos próximos minutos, nem horas e provavelmente demoraria uns dias.

Na praça, contornei a funerária que apresenta cães vivos nos seus degraus de entrada. Definitivamente vivos. Se morrem, será um escândalo dali a instantes com o desespero dos antigos donos. Porém, se morrem, já estão em uma funerária e aposto que não teriam que pagar pelo funeral, pois fazem parte da herança do comércio dependente do findar de vidas. Não seria problema aos caninos. Não, definitivamente não seria.

Passo por um senhor apoiado a uma máquina dos parquímetros, provavelmente esperando o aparecer de um sinal celestial divino para fazer alguma, tomar um rumo ou ao menos cambiar de posição. Passei por ele, segui meus passos e o homem seguia apoiado ao parquímetro como quem se apoia nas laterais de uma cabine telefônica enquanto efetua uma ligação.

Encontrei um bom local na praça para ler. É um corredor que gosto bastante, onde poucas vezes fui interrompido. Uma ou outra vez, um velho senhor de rua sentou-se de frente ao banco que costumo escolher, demonstrando uma espécie de hábito ou demarcação de território. Respeitei-o, obviamente. Outras vezes como nesta que estou narrando, a proximidade com os brinquedos da praça aproximam as mais variadas crianças, que se divertem e fazem algazarra enquanto os pais sentam-se nos bancos próximos, que formam uma espécie de meia lua em formato.

Enquanto as crianças sobem e descem nos escorregadores e nos outros brinquedos que não sei precisar, mas saberia se eu fosse uns 13 anos mais jovem, os pais, geralmente mães, apenas observam e raramente chamam atenção. Seria bom que chamassem mais vezes, pois um nesta tarde me convocou a notar sua presença, pois emitia gritos guturais elevados. Fazia-me crer que tem potencial para ser um novo Chester Bennington se bem treinado. E aqui falamos em treinamento, pois tudo que conseguia por vezes era me irritar e quase fazer-me desistir da leitura. Fui fiel às linhas tecidas por Humberto Gessinger na finaleira do livro Mapas do Acaso. Nem pretendia fazer paralelo entre o título da obra e os acontecimentos banais e sequencias da cidade em que narro. Mas aparentemente se conectam, não? Mapas do Acaso e as experiências vistas por mim, por acaso ou por eu mesmo querer.

Li até ele começar a terminar o livro, com as letras das músicas que em suma maioria eu conheço. Uma ou outra exceção fez com que eu lesse com mais atenção para atentar a detalhes ou como se fosse a primeira vez. Fechei o livro nas páginas finais e segui viagem. Calcei novamente os fones de ouvido. Se por vezes penso que meus textos possam ser repetitivos, tenho a breve certeza de que as músicas tocadas nas rádios mais ouvidas são mais repetitivas.

Mas logo as músicas vão entrar em desuso e precisaremos baixar ou procurar por aplicativos como Spotify para termos acesso a elas. De certa maneira, as rotas que traço entre a Gonçalves Chaves e a Quinze de Novembro hoje podem me parecer repetitivas. Fica-me a pulga atrás na orelha, essa necessária pulga que, não obstante, intromete-se ao chamado pé do ouvido. Ela me questiona: "Até quando?"

09/08/2017

Não esquece de buscar a verdade
Na tua versão
Não esquece de catar a mentira
Na tua aversão

08/08/2017

Julho em Imagens


Henrique König

Foto: Henrique König



Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Dois Passos

Creio que a maioria das situações da vida devem ser melhor avaliadas quando saímos da situação. Há planejamentos que fazemos (no mínimo) dois passos antes. Há avaliações sobre passado que fazemos (no mínimo) dois passos depois. É como avaliar as condições de uma estrada. Sempre ele com as metáforas de estradas. Ora, são das melhores! Avalie as condições da estrada antes de encarar os possíveis buracos no asfalto (dois passos antes). Avalie o estrago no veículo após a passagem (dois passos depois).

Não há limitações exatamente para efeitos negativos. Se avaliam melhor os efeitos positivos também dessa forma. Tanto antes quanto depois. Penso que o importante é manter em mente que havia vida antes de chegar a tal ponto da estrada e há vida após passar tal ponto da estrada. Nada que se classifique assim de forma tão essencial. Ok, sei que há pessoas que estão conosco na estrada desde que a nossa estrada é estrada. Talvez os pais, irmãos, ou talvez amigos tão de infância que não tenhamos recordações antes deles. Antes dos quatro, cinco ou oito anos. Todo o resto de experiências veio depois. Para contribuir a mais, deixar sua marca de certa forma, mas nunca definitiva, pois acredito que fiz entender que há mais estrada adiante.

Se somos modificados pelos acontecimentos, percalços, experiências pelo caminho? Por suposto que sim. Esse é o objetivo. Em relação ao que plantamos ou colhemos nos caminhos.

Um dos grandes lances é o aprendizado. Aprendermos o que fizemos de errado e corrigir para o prosseguimento da Highway. Para não repetir os mesmos erros. Linguagem de simples acesso e prática mais exaustiva. Mas há superação. Super ação.

Não se atinge o tudo e o algo que se atinge jamais será o todo. Ok, essa foi mais difícil. Mas é isso. Nada de avaliações precipitadas. Notas zero nem dez. Nada de velocímetro parado ou no 320.

Luan de saída do Grêmio? Criticamos muito seu começo, mas progrediu. Desde 2014 foi evoluindo e jogando muita bola. Merece ganhar a Europa pelo que evoluiu.

04/08/2017

Hi, Way

São mais de três horas da madrugada, escrevo como que por um estalo. Escrever é uma das atividades que mais se parecem com o fluir do fogo. Estalo, fagulha, atrito e a queima que se segue. Que segue estalando e se desenvolvendo, que molda labaredas, calor e alívio para quem foge do frio. Ou do vazio.

Acabo de ler um texto alicerçado por Ronaldo Nazário, justo ele que costumou escrever suas melhores histórias enquanto conduzia e tratava com carinho da bola, ao driblar defensores, dificuldades, obstáculos e marcar gols. Não faço ideia quem colocou devidamente o texto no papel ou, no caso, na internet, mas foi uma bela construção. A vida dele e o resumo, no qual ele menciona sua arte de construir e buscar a realização de sonhos. Um sonhador que fez sua parte desde a infância: a de sonhar e acreditar.

Em meios tempos, creio que eu tenha feito a minha parte de sonhar a acreditar, desde a infância. Foram ótimos tempos em atividades semelhantes, como a de jogar bola. A de sonhar escrever as minhas histórias e outras histórias. O jornalismo. Fiz minha trajetória pelas portas que entrei e gostei de ter entrado.

Concluí o curso de Jornalismo como um dos mais jovens de minha classe. Sempre em um sentimento de que preciso aprender mais do que a maioria das pessoas em volta. No sentimento de que meu tempo não é o mesmo das pessoas que me cercam. Ciente de minhas necessidades e de algumas barreiras que enfrento. Mas fui superando.

A bem da verdade, preciso fazer muito mais. Creio que preciso fazer mais por mim mesmo. E mais um pouco para agradar às pessoas em volta, sobretudo o suporte de minha família.

O aprendizado em viver e sobreviver. Quanto aos sonhos, gostei da perseguição de alguns, gostei das etapas concluídas de outros. A linha de chegada é só uma linha que alguém botou lá, então sinto a estrada como um eterno meio. Sempre deixamos algo para trás, mas o meio está em nosso pleno movimento. É o agora. Gosto de pensar assim.

Busquei momentos que demoraram a acontecer, mas aconteceram. Eeeeentre eles, o título do Grêmio, sim. Encontrei mais do que eu podia esperar em qualquer altura da vida a cidades ao norte. Me pergunto sobre sonhos, buscas e vivência. Quando a gente sabe que encontra? Ou por que encontra? Ou, quem sabe, por que a gente queria encontrar?

Gosto das atividades de vaguear, vivências, experiências, coletas, tempo só, antropologia, perfis, esconderijo, convívio, tempo só, registros, escritas, tempo só, natureza, instinto, debate, tempo só, filosofia, tantas perguntas, tanta gente sofrida que as quero ajudar. Me sinto muito mais como um comunicador de poucas pessoas sintonizadas do que um médico que atende caso a caso.

Por mais que volitem, esvoacem e adejam essas experiências, tampouco penso que eu exercite o verbo saber. Jogamos para ampliar nosso leque de perguntas. Saber o que perguntar muitas vezes é mais importante do que as respostas.

Das poucas situações que eu saiba, sei que posso dar uma boa parada sobre determinadas buscas. Inclusive creio que isso me ampliaria muito as atividades em determinados aspectos, a pensar em um futuro até mesmo breve. Há bastante o que se discutir na concepção de sonhos. Quem dera apetecer-me de forma tão certeira quanto Ronaldo, o Fenômeno. Abrem-se estradas. Escolhas. Renúncias. Esperas. Gols de Pedro Rocha. High. Highway.

20/07/2017

A Seita

Tudo começa em um ambiente de bar onde me encontrava alcoolizado. Outras pessoas estão por lá e me retiro rapidamente para ir ao banheiro, enquanto ninguém se importa, pois estão todos bêbados. Não encontro exatamente um banheiro como desfecho, mas somente uma calha no chão que vem bem a calhar, no pátio. Urino por ali mesmo, me perguntando se era o melhor lugar possível e, se caso viesse outra pessoa para o mesmo local, se eu seria xingado por tal ato. A situação passa, mas no dia seguinte estou sendo perseguido.

Estou em um pátio interno de um grande, imenso prédio. Um prédio antigo que me cerca, com o comprimento de uma quadra inteira de largura. Sou perseguido pelo que se assemelha a uma gangue e preciso correr, apenas sei disso. Estarei frito. Começo a correr e logo a pular para subir até o alto de umas telhas. O cenário se parece com o histórico e centenário colégio Gonzaga. Olho para trás e ainda estou seguido. São muitos. Não zumbis, mas uma gangue inteira, um deles bastante alto e bem próximo. Dos telhados, escalo uma grade branca de um portão. Chego a pensar se sou capaz, mas consigo, sabendo que obviamente meu perseguidor há de conseguir. Ele segue no meu encalço pelos telhados e salto de uma grande altura rumo ao concreto, mas aterrisso bem, até me dando ao luxo de virar-me de costas e ver a que distância ele está de mim.

Como ele é maior, suas passadas são mais largas e sei que não vou fugir para sempre. Chego a planejar um enfrentamento corpo a corpo, mas não tenho chances por seu tamanho, apesar do instinto vívido. Além disso, quando ficamos frente a frente como lutadores a esperar o golpe, surgem outros da gangue e meu destino é selado. Corria comigo meu amigo Gustavo, que também é capturado. Quando me dominam de vez, colocam-se um saco, algo de pano que cobre minha vista.

Só retomo o poder de averiguar quando estou em uma condução completamente escura e cercada pela gangue nos assentos em volta. É menor que um ônibus, mas me parece maior que uma kombi ou van. Os caras nos dirigem olhares como "o que vamos fazer com vocês?", mas o chefe maior ali não parece incomodado e logo nos revela o plano de nos anexar ao trabalho da gangue. A condução completamente escura segue por um asfalto que seria da avenida Bento Gonçalves. Noto momentos como se estivéssemos na contramão e outros em que parecem outros veículos como os irregulares no sentido. Tudo isso baseado na maioria dos veículos que seguem. Parece uma avenida de três pistas, duas para ir e uma para vir.

Para agradar minha surpresa, há mulheres na condução, provavelmente as que desejam estar com o poder da gangue, drogas fáceis ou mesmo admirem os caras. A mais bela está a meu lado quando revela que "não posso ficar com você, não nessa condição de recém capturado". "E é só por isso?", eu lhe devolvo em sorrisos. Ela apoia sua mão sobre a minha e repito o gesto, algo bastante sutil e discreto, para não despertar suspeitas dos demais. Me pergunto, nisso tudo, quem está conduzindo a van grande ou micronibus.

Chegamos finalmente pela sequência no asfalto no que ainda parece uma rua bastante central, com um centro comercial enorme e também do tamanho de uma quadra. Todos descem na parada e tomam seus postos. A rua é fechada em uma quadra com cavaletes, o terreno é todo da gangue, da boca, eles mandam no espaço. Vigiam, se divertem, demonstram seu poder em frente ao colossal empreendimento. As garotas acompanham, não vejo mais a que estava ao meu lado. Ela tinha as maçãs do rosto bastante saltadas, uma franja, cabelos castanhos, olhos grandes. Uma Mia Sara nessa delicada situação em que eu era prisioneiro e começava a ter a confiança do chefe do esquema.

Em frente ao estabelecimento, uma mesa inteira repleta por uma grande torta, um grande bolo branco com merengue e confetes em cima. Dá vontade de servir-me, assim como meu amigo Gustavo, que agora era Igor, teve a ideia de ir até ali e, mesmo na condição de recém capturado, saciar sua fome com alguns dos demais. Fico mais pela calçada da frente, a escuridão nas ruas e meu estado ainda estupefato por vivenciar tudo aquilo. Não avisei em nada meus pais, não sabem onde estou, nem eu direito sei. Devo trabalhar para eles, servir essa quase seita, essa movimentação que lida com ilícitos, possui muitos menores de idade, mas que não é combatida, mesmo estando esparramada pelas calçadas e o meio da rua.

De momento, está parada ao meu lado Pâmela. A reconheço pelo cabelo e a pinta no rosto. Estranho vê-la ali. Estaria eu em Pelotas ou Porto Alegre? Mas ela confirma rapidamente que está de passada por ali. Não recordo meu diálogo com ela, mas poucas frases depois desaparece e, após eu olhar para frente, para voltar o olhar ao lado no meio fio, ela e um amiga já não se encontravam mais ali. Comento com um garotinho que fui deixado falando sozinho, já agora me direcionando a ele. Impressionante como não deixei de lado a postura de demonstrar fraquezas sociais, quando deveria manter uma postura de seriedade e devoção a tudo aquilo. Eu poderia ser expulso por não satisfazê-los a qualquer momento. A gangue, composta em sua maioria por mais pobres e por mal encarados, me olhava estranho. Talvez também por suspeitar da ação com uma das meninas, sendo eu um mero recruta de início.

Em outro momento, me sinto sozinho e deslocado, mas falo com uma mulher mais velha. A um soar rápido como o de uma sirene, antes que eu possa entender, vários se deslocam da calçada e vão ao meio da rua para dançar em pares. Aproveito a desconhecida presença dela e formamos um par, no que parecia obrigação a todos os presentes ali na frente. Tão rápido como ela surgiu, em alguns giros da coreografia improvisada, vira-se para mim um garoto mais novo, um gordinho que me surpreende por estar, do nada, dançando comigo. Explico a situação que poderia constranger-nos, mas ele leva como se fosse algo comum a acontecer na seita.

O fim da missão é em outro toque, quando todos voltam em fila para dentro e conheço os aposentos, em uma estreita fila que segue junto à parede de entrada pela direita da porta. Um a um as pessoas adentram para o salão central, um saguão enorme, com catracas para confirmar as entradas e duas mesas, uma em forma de retângulo, que contorna todo o perímetro do salão e uma comprida mesa central. Estou escalado, pelo ingresso que me deram e pela catraca que passo, a comer na mesa central. Sento próximo à cabeceira, com medo de alimentar ódio dos demais membros há mais tempo, por estar, provavelmente, muito próximo de onde o chefe vai sentar. Antes de esperar a refeição, acabo acordando da estranha história.

18/07/2017

Essa gente que nem sente
O gracejo da ironia
Gente tão exigente
Nem vê o nascer do dia

15/07/2017

Marcado pelo Mercado

No fim das contas
No fim das compras
Tu sabes que não precisa
O mercado, aquecido
Te batiza
No fim das contas
No fim das compras
O gado é sempre marcado
Marcado pelo mercado
Volte sempre
Obrigado

Quero-Quero

Quero morrer
Duas vezes por mês
Mas só se morre
Uma vez
Não adianta querer
E depois
Querer viver

13/07/2017

Geo-Grafia

Sou um poço de ironia
O horizonte é um monte
Um monte de geografia
O horizonte que aponte
Um monte de biologia
Apesar daquela tática
Tática de ter
Matemática todo dia
Sem escolha na escola
Hoje não escolheria
A teimosia matemática
Temática que eu esquecia
Ao ver no horizonte
Toda aquela geografia
Litoral norte gaúcho (Foto: Henrique König)

Adega Adequada

Escrevo apenas
Escrevo atenas
Cenas que ninguém vê
Tão distantes do horizonte
Dos números da TV
Escrevo como quem procura
O trevo de quatro folhas
Escrevo como quem pudesse
Ter na vida mais escolhas
Escrevo como quem procura
A cura dessas chagas
Como quem procura
A chave dessa adega
A poção mágica de um só gole
Em que se escolhe dizer: Chega!

12/07/2017

Colchetes

Fui escrever
Sem querer deixar a cama
Sem querer
Risquei o tecido que me cobria
Um ato de desatenção
Estava atento na poesia
Mas mãe
Não fiques brava
Por essa colcha riscada
A vida do poeta
É cometer riscos
Toda coberta que o envolve
É uma colcha de letras móveis

No Fim das Contas

Varredura, martelada
Dobradiça, ferro, motor
Construção, meio fio, calçada
Pavimento, elevador

Trabalha
Trabalha
Trabalha

Rala
Rala
Rala

Bate ponto
Deixa pronto
O sistema não tem falha

Trabalha
Trabalha
Trabalha

Rala
Rala
Rala

Prefeitura, conta paga
Ponte levadiça, trator
Caminhão, esmeril, farda
Orçamento, aparador

Trabalha
Trabalha
Trabalha nessas tralhas

Rala
Rala
Trabalha
Procura no fim dessas tralhas
Duas coisas que querias

No fim do dia
A família
No fim da vida
Se der tempo
A aposentadoria

11/07/2017

Juninas em Julho - Não Enjoo

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


Foto: Henrique König


Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Animais - Ame Mais

Estive com animais de estimação
Estimando a ação
De Amar
Estive com animais de estimação
Com nome nenhum
Ou com nomes comuns
Mas para mim especiais
Especialmente por serem
Tão somente animais
Mel (Foto: Henrique König)

Porto Velho

Porto
Horto velho
De meu encontro
Comigo mesmo

Sopro vivo pelo vento
Só lamento
O tempo morto
Absorto em pensamento
Foto: Henrique König

07/07/2017

Pureza

História verídica. Uma vez, nos anos 1980, meu pai estava num supermercado de Santa Catarina. Havia um jovem rapaz, de descendência germânica, cabelos compridos, mas não tão compridos como usaria mais tarde. Ele olhava com curiosidade para uma embalagem de plástico. Tratava-se de um guaraná colocado na gondola do supermercado. Ele viu meu pai próximo a ele no corredor e resolveu perguntar.
- Com licença, cara, mas sabes me dizer o preço desse guaraná?
Realmente não havia etiqueta que indicasse o valor daquele estimado guaraná para o alemãozinho e meu pai viu que se tratava do famoso Guaraná Pureza.

- A dúvida... A dúvida é o preço da Pureza... E é inútil ter certeza.
O rapaz alçou as sobrancelhas e não hesitou em preencher o carrinho com uma dúzia de garrafas de guaraná Pureza. Agradeceu meu pai e se dirigiu ao caixa.
Quando ele voltou ao Rio Grande do Sul na semana seguinte, estava fundada a banda Engenheiros do Hawaii. A frase de meu pai foi empregada em uma das músicas de maior sucesso da banda gaúcha.
O homem curioso pelo preço do guaraná era nada mais nada menos do que Humberto Gessinger.

12/06/2017

Falsos Ricos

Num mundo mais ideal, as pessoas, nós aqui, classe média como chamam, deveríamos entender que estamos economicamente e originalmente mais próximos de muitos que viram ladrões, criminosos nas ruas do que dos verdadeiros ricos. Tem gente que vive na ilusão de que é rico. Não são ricos. Rico de verdade só mexe zeros em maquininha de dinheiro, rico de verdade não faz a mínima conta antes de gastar dinheiro. Rico de verdade não precisa trabalhar de segunda a sexta, cumprir horário ou expediente. Nessa sociedade que te obriga a procurar caminho de trabalhar e produzir pra sobreviver, pra ter sustento, muitos, principalmente com menos instruções e escolaridade, procuram os caminhos de crime, atalhos pra dinheiro. Caem em promessas vazias, são seduzidos pelo dinheiro dessas maneiras consideradas ilícitas. É o convívio e o aprendizado nas periferias. Gente com quantidades de irmãos, gente sem ter o que comer, gente que viu a mãe se matar trabalhando, gente de família destruída, gente que convive com o mundo das drogas desde a infância, gente que vê arma de fogo e vê violência e não vê comida boa na mesa, não vê saneamento básico, não vê roupa de marca. Gente que quer mudar isso, mas parte para o mundo do crime. Deveriam entender que quem tá lendo esse texto tá mais perto dessa realidade das ruas do que da realidade distante dos 1% mais ricos. Essa violência das ruas te atinge, atinge aos teus poucos bens. Atinge a tua preocupação em proteger os bens que tu repete o discurso de ganhos com trabalho. Gente rica tem segurança contratado, servos e hierarquia para proteger. Gente rica tem contatos na Justiça e pode sonegar. Gente rica que com certeza não são vocês. Tu com teu carro parcelado, 2010, 2014 que seja, não é rico. Nem tu que tira umas semanas, um mês de férias. Tu não é rico. Os ricos de verdade riem disso. Riem de quem pensa que é rico. De quem só retroalimenta o mundo de vantagens a eles.

02/06/2017

Mesmo Primata

"Ah, porque o mundo atualmente..." "Ah, porque hoje em dia..." Bom era o mundo quando pregaram o cabeludo na cruz, ou o mundo nas guerras por território na Europa, ou quando negros não usavam o transporte público dos brancos nos Estados Unidos, ou quando cada lado do muro era uma Alemanha diferente, ou quando homossexualidade era doença de acordo com a OMS, ou quando as ditaduras prendiam e matavam demasiadamente na América do Sul, ou quando... ou quando ainda é. O ser humano é o mesmo primata com outras ferramentas. Podes crer nisso.

01/06/2017

Maio em Imagens





Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

30/05/2017

Heróis imaginários

Uma pessoa emite quatro opiniões, teorias, teses, pontos, ideias, enfim. Eu concordo com três. Devo julgá-la pela que considero errada, preconceituosa ou equivocada E ignorar as outras três? "Não, essa ideia não porque veio daquele que falou aquela asneira." Somos autocríticos para realmente ouvirmos o que os outros dizem ou para ouvirmos o que nós mesmos dizemos? Realmente damos espaço às desculpas ou ao aprendizado? Procuramos a perfeição? Procuramos heróis? Ou procuramos aprendizado e evolução? Casos e casos. Questionamentos, meus caros.
Foto que ilustra o texto "A (des)construção do Herói", de Luiza Drummond.

14/05/2017

Spike Lee on Rio de Janeiro

Foto: Henrique König


Estava no Rio de Janeiro, não havia dúvida. Mais uma aventura por lá. No dia anterior ao grande envolvimento, tinha um passeio por algum morro, não habitado como nas favelas, mas um morro ainda de vegetação e no qual se poderia escalar. Quase me ocorre um acidente, mas passo bem.

No dia seguinte, converso com Clara, minha amiga do bairro de Botafogo. Após uma conversa virtual, ela me oferece chocolate e não tenho como recusar. Estou na casa dela. Limpo o chocolate dos cantos de minha boca em sua roupa. Estou lá sobre o pretexto de um trabalho, de estudo. A família dela interfere, parece circular próxima ao quarto.

A envolvo em meus braços, ela aceita. Mas em seguida seus familiares parecem perceber essa movimentação e justamente se postam a atrapalhar. Ela mesmo parecia constrangida um pouco com a situação e eu não lembrava se ela havia terminado com aquele músico. Mas continuamos a missão do trabalho de estudos. Meio por obrigação, meio como desculpa para nosso encontro. A mãe dela estava na casa, o irmão é mais velho e parece-me um pai ou padrasto com uma muleta, que chega em casa e vai com dificuldades até o quarto deles descansar.

Clara tem uma coleção de dinossauros de brinquedo, verdadeiras miniaturas, pois caberiam uns quatro na palma de cada mão. O irmão dela surgiu ao quarto e derrubou uma caixa, espalhando exemplares para baixo da cama. Meio constrangido por talvez eu estar atrapalhando a rotina familiar, me disponho a juntar, digo a ele que não tem problema. Ele se desculpa pelo atabalhoamento, meio sem querer querendo. Juntamos e colocamos de volta na caixa. Percebo que ele e Clara possuem um método específico de colocar, todos enfileirados, legitimamente ajeitados nas caixas de sapato. Eu apenas os juntava e atirava para dentro mas, percebendo a ação deles, começo a enfileirar da maneira que julgavam correto. O trabalho nos exige minutos e concentração mental e física para enfileirar aquelas centenas de animaizinhos. Quase me arrependo de ter topado o encontro.

Em algum momento, começo fortemente a desconfiar de seus familiares. Já insinuo que nada mais consigo de objetivos paralelos, mas a desconfiança aumenta com as interrupções e entradas deles ao quarto para convite a lanche ou perguntas banais. O ápice da desconfiança surge quando percebo que o pai ou padrasto dela não estava com a perna engessada e de muletas. Com a perna sobre a cama no quarto de frente ao de Clara, uma voz de um narrador me aponta que ele ainda utiliza um modelo de chuteira que se assemelha ao gesso para ficar disfarçada. Ele primeiro pede para restringir os meus movimentos, como se estranhamente eu fosse o aleijado do momento. Então, ele percebe minha desconfiança e parte em ação. Até começa a cambalear fingindo, mas para não me deixar escapar começa a caminhar mais firme.

Até agora não sei qual foi o papel de Clara nisso tudo, mas realmente parecia não saber dos acontecimentos que se seguiriam. Ela me ajuda a encontrar a porta de saída do apartamento. Mal nos despedimos, mas, ao menos naquela hora, esteve do meu lado para facilitar a fuga de seu familiar. Ele me persegue pelas escadarias daquele prédio de paredes brancas. É como uma obra de outro século com suas escadas em caracol, embora moderno. Consigo correr rapidamente e vê-lo somente lances de escada atrás. Chego a me lançar de um andar ao outro e incrivelmente não me machuco como se tivesse habilidades de parkour.

Em um determinado andar que ainda me parece bastante alto, todos travamos. Há outros jovens no local. Há um banheiro logo em frente na continuação das escadas. Um banheiro limpo, igualmente ladrilhado e esbranquiçado como os demais andares. Era uma boa tentativa de esconderijo do maníaco que me perseguia. Há também como se uma lan house ou algumas pessoas mexendo em computador no mesmo andar, alguns metros à esquerda da entrada dos banheiros. Todos ficam hipnotizados ou perplexos. Mais do que isso! Ficam horrorizados pelas cenas que seguem. Há como um sistema para hackear sites e a internet fica poluída de cenas de tortura a jovens, pedofilia e violência sexual. O momento de maior tensão ocorre quando percebo que algumas das jovens que estavam horrorizadas na saída do banheiro estão sendo gravadas no monitor: tudo ocorrendo muito próximo a mim. No mesmo prédio. No mesmo andar. Na mesma sala.

Fico paralisado de medo. É uma grande operação que toma conta da internet, expõe imagens para o mundo todo e tortura jovens de diferentes formas. Na primeira vez que olhei a sala ali na frente, eram quatro jovens sentadas e amarradas. Voltei meu olhar aos monitores dos demais paralisados e quando torno a olhar para sala, são mais jovens. Um encapuzado comanda as ações contra os adolescentes imobilizados.

Percebo que minha caçada não havia terminado e tenho que voltar a fugir e relatar às autoridades. Um flashback surge em minha mente e associo diretamente o familiar de Clara como um dos responsáveis, talvez o chefe da grande operação, da grande quadrilha, da ação desses hackers que vendem essas imagens torturantes para movimentar dinheiro. Mais do que isso, propinam pessoas para silenciar as manobras e continuar com essa grande rede, que atravessa a deep web para figurar e ingressar na internet mais conhecida. Essa rede criminosa que recolhe jovens para seus planos malignos. Meu quase acidente no dia anterior na escalada do morro pode ter sido uma manobra para me silenciar. Mas pelas descobertas feitas e pela situação que já envolvia milhares (talvez milhões!) de reais e a vida de tantas pessoas, precisava prosseguir e fazer a coisa certa, custe o que custasse.

Eu estava sendo perseguido para evitarem que descobrisse as coisas e para eu fazer parte dos capturados, os torturados com as imagens divulgadas. Me resta fugir e pressinto novamente a ação do malfeitor próximo a mim, talvez a poucos metros, a poucos andares. Corro e desço, corro e desço até finalmente encontrar a portaria. Sabia que o prédio estava grampeado e muitos dos funcionários ou moradores deveriam saber das movimentações criminosas. Olho apavorado para o porteiro, mas ele não esboça reação. Passo pela portaria envidraçada, que aparenta uma clínica por manter o branco em predomínio. Chego até a porta gradeada e aperto todos os botões, até os do interfone para desesperadamente liberar a porta. Consigo ouvir o barulho metálico e puxar a pesada abertura para um breve sentimento de liberdade. Estou nas ruas do Rio de Janeiro e preciso de ajuda.

Embora eu sigo correndo a passos largos, tenho em mente que não posso contar com qualquer pessoa. Me passa pela cabeça que a operação é muito grande, tomou conta da internet pelo país e eu estava diante das fontes. Tenho meu testemunho, precisaria de mais provas. Quem acreditaria em mim? Em quem posso confiar? Falar com a pessoa errada ali na volta seria o fim da linha. Não falar e ser pego pelos capangas, igualmente. E o qual o papel de Clara nisso? Desconfiava? Ela sabia? Ou salvou minha vida ao me deixar sair na hora certa? Esqueça Clara, pense, pense.
Foto: Henrique König

Passo por lojas e comércios abastados de produtos baratos e varejistas. É como uma manhã ou tarde normal para feirantes e vendedores. Há muito movimento nas estranhas calçadas, desconhecidas de minha pessoa. Meus olhos mal captam tudo que está acontecendo e segue a acontecer em volta. Eu olho e não encontro a ação dos sequestradores. Para acionar autoridades e tentar desqualificar e prender o bando, eu precisava de mais provas. Não conheço as ruas em volta, mas me surge uma única ideia: preciso voltar ao prédio.

09/05/2017

Domingo de Términos

O churrasco estava por acabar. Alguns convidados, possivelmente os familiares, reuniam as sobras em recipientes para seguir com eles em viagem, no pensamento futuro de novas refeições. Isopor, plástico, isopor, organização, cabe mais um, leva você, pode levar. Aperto de mão, abraço, dois beijos, talvez um só, um aceno à distância. Era o crepúsculo da festividade. Preparava um breve discurso, mas o ex-colega, na atualidade de formando, de formado e de anfitrião tinha mais convidados. Mal consigo pronunciar o lead do que eu queria dizer. Considero bastante as oportunidades de desenvolver tarefas que ele me deu ao longo do curso de Jornalismo. Hashtag gratidão.

Esperava por mais recém ex-colegas no churrasco, que até o mês passado eram colegas de curso e de classes que deixamos para trás no findar de abril. Sobravam eu e um casal de ex-colegas. Ele terminou o curso no mesmo prazo que eu. Antes de começarmos a trajetória em 2013, foi uma referência vê-lo pelas redes sociais como um redator de renome na internet. Ela, por sua vez, tornou-se parceira dele em maior tempo que a duração de nosso curso. Logo no primeiro ano de ingresso estreitaram relação. Após dois semestres cursados conosco, ela seguiu para outro rumo de carreira acadêmica, mas o casal manteve-se e desfrutariam da simpática carona de meu pai pela primeira vez, se não me falha a memória.

Durante o período de Jornalismo, meu pai me acompanhou em idas e vindas, de maneira que muitos dos colegas em maiores ou menores graus de amizade e reconhecimento à minha pessoa também foram agraciados com a poupança de dinheiro de ônibus, de maior segurança ao trajeto ou de simplesmente poupar cansativas ou arriscadas caminhadas.

Antes que a camionete de meu pai deslizasse prateada sobre as areias do bairro da praia, conversávamos o que chamaríamos de últimas resenhas. No tom de despedida, o ex-colega confessou o sentimento que lhe atingiu em cheio nas palavras do anfitrião da festividade. "Só senti que acabou quando me perguntou se eu ia na aula amanhã." O tom sarcástico de nosso ex-colega, anfitrião e então já ex-anfitrião da tarde foi uma paulada que me atingiu, mesmo tomando conhecimento das palavras somente em compartilhamento do outro amigo. Realmente nos dávamos conta: não haveria mais aulas.

As fichas caem aos poucos. Levo comigo essa dentre poucas certezas que nos cabem em bolsos e na alma. As fichas demoram a cair em relação à morte de um parente ou de uma pessoa próxima, um amigo ou uma amiga. Demoram a cair. Demoram a cair as fichas das trocas de emprego ou de cidades. Demoram a cair as fichas das etapas que concluímos e que dão início a novas etapas. As promessas de reencontros quase sempre são vazias. O afastamento das pessoas que faziam parte da etapa concluída é praticamente inevitável. Os mais otimistas talvez colham pedras para replicar esse trecho que escrevo, mas realmente trata-se de mutações, transformações e adultérios no caminho. E as mudanças de caminhos e de calçadas requerem mudanças nos ciclos e nas pessoas presentes neles.

As despedidas são veladas como são veladas as palavras que tomam um recorte comum. Nos velórios, os pesares, os pêsames, os sentimentos e consentimentos em relação aos mais necessitados de conforto espiritual na hora. Nas festas de troca de ano, os desejos de próspero (palavra que só se utiliza em réveillon), bem sucedido e estimado ano pela frente. Assim como os populares "parabéns e tudo de bom" nos aniversários.

No espaço que trafega na minha mente, via pela estrada de concreto que liga a praia ao centro e vice-versa, como se aproximava o destino final do casal, que dividia comigo o banco traseiro da camionete, enquanto meus pais ocupavam os lugares à frente. Estava na hora de saltar. No breve discurso que novamente ensaiei no silêncio absorto de meus pensamentos, consegui dizer ao companheiro jornalista quando eles desceram do carro: "nos vemos por aí", ou coisa parecida.

O domingo desses términos de etapa concluída trazia o anoitecer, que é mais veloz nas proximidades do inverno. O azul toma conta em tons mais acinzentados, meio leitosos. O pouco que sobra de luz é como uma recoberta camada amarelada que não tarda em sumir e trazer de vez a escuridão. No anoitecer daquele domingo ainda acabou a sequência dos títulos gaúchos do Internacional, com o Esporte Clube Novo Hamburgo sendo campeão do estadual pela primeira vez em sua centenária história. O domingo dos términos marcava novas etapas. Novas etapas que demoram a nos esclarecer as coisas que ficam e que saem. As pessoas que ficam e que saem. Como demoram as fichas a cair de que o Internacional teria pela frente sua primeira participação na Série B e o Novo Hamburgo poderia enfim degustar sua primeira conquista de tamanho renome. Términos e inícios.