08/05/2019

legítima defesa (nacional)

Será que caçar liberal é legítima defesa (nacional)? Entrega isso, entrega tudo pros gringo Vai trabalhar até domingo Pra você ver Pra pagar o dízimo da igreja Vai ter nem pra cerveja Nem tempo de ficar na frente da tv

Reformam a previdência
Tiram dos aposentados
Cortam a ciência
A evolução vira fardo
Para eles

Foram à política
Pra meter a mão
Na senha do cofre
Molhar mão de chofer
E as pessoas viram gado
Preconceito é contra o negro
E contra a mulher
É observar e absorver
Se tu não ver ficou cego
Ou não quer ver

28/04/2019

olho mágico

olhei no olho mágico
trágico não ser você
olhei no olho mágico
trágico não ser você

por onde você anda?
onde você acampa?
o que você canta
(no chuveiro?)
o que te espanta?
o que te encanta?
o que pensa sua mente
quando o corpo levanta
todos os dias
o dia inteiro?

por onde você anda?
onde você acampa?
qualé a estampa?
(da sua camiseta)
qualé a sua meta?
qualé o seu plano alfa?
qualé o seu plano beta?

olhei no olho trágico
lógico não ser você
olhei no olho trágico
lógico não ser você

27/04/2019

cem porcento

fim de tarde é o momento
que imanta o sentimento
onde você está?
longe de onde me sento
onde você está?
no meu pensar
é cem porcento

viver e se poupar

viver é se poupar
do risco de uma vida sem vivência
viver é se importar-em
adquirir mais experiência
viver e estar ciente
da vida pra mais
e não pra menos
do que a ciência

verde musgo

acendeu!
mas passou como o fogo de um isqueiro
iludiu, prometeu
de janeiro a janeiro

não cumpriu, claro que não
tão claro como um clarão
um raio no céu, bem no meio
serei-o
apagado
logo depois
de iluminado

faísca que fustigou o olhar
manja o verbo fustigar?
vai ter que dicionar
pra depois adicionar
o significado

conhecimento somado
não linear
conhecimento agregado
não limitar
não militar
ao menos não verde musgo
e todos esses absurdos
que estão a espreitar

e isso aí
podes crer
ainda vai durar...

oxalá que esteja errado
oxalá...



e se poupa

minha língua
no céu
da sua boca
no véu
da sua roupa
no velcro
sem roupa
vergonha?
nem pouca
sonha
com outra

¡vive!
e se poupa

sabendo

sabendo que era impossível
foi lá
escreveu sobre
e não viveu

"todo dia um novo homem"

caralho, já é quase o meio do ano
e nós o que mudamos?
hoje foi minha caneta que me deixou
falhou até isso ser tudo
seu estado natural
e absoluto
imutável ao meu luto
"todo dia um novo homem"
trazia em sua lateral
para vergonha ou orgulhar
o usuário
depende qual

23/04/2019

outros 500

e as mortes em muzema?
a mídia entra em cena
ou é silenciada?
quanto vale a vida
se não televisionada

o brasil se repete
repele estrangeiros
só entram pra explorar
pedro álvares cabral
ao espaço da amazônia florestal

o que mudou?
onde mudamos?
escravizados, explorados, mudos
mineiros, potiguares, paulistanos
laranjas, lobistas e tucanos
após 500 serão mil anos?

aos funerais

cai o sinal virtual 
sinto o sinal da morte 
me agarra forte pelo braço 
sinto deveras uma dor no pulso
qual será o meu impulso 
para não sair hoje com a morte? 
para uns tanto azar
para outros boa sorte 
tem que estar ali disposto 
diariamente a cada imposto 
esperando uma saída 
um cochilo do porteiro 
para buscar a sobrevida 
qual será ao fim de tudo 
o derradeiro veredito
cortando a noite como um grito 
abafado no veludo 
tão esperado mas não acredito 
e não sei a quem credito
essa hora de infortúnio 
a muitos causa espanto 
para outros esse tanto é tão finito 
se pensa e esquece num só banho 
velório é tão inglório 
todos juntos num rebanho 
vagarosos nos passos e a voz em um sussurro
desafia até Saussure
entender esse conjunto
depois traz a cartilha
que tudo se esqueça
a regra é a cabeça
deixar seguir a vida
como faz pra que me desça
se a pessoa sob a terra desaparece
e ali permaneça
era aquela a prometida?
fica sob sete palmos
e a cabeça não esquece
a lembrança se entrelaça
se lança e se repete
como um filme mudo
conteúdo me remete
me identifico com tudo 
até com o que nunca acontece
absorvo a dor do mundo 
até a que não merece

22/04/2019

bússola

tu já morreste
mas as palavras que leio
são as mesmas que escreveste
as mesmas que leste
oeste, norte e sul
leste
foste, morte e soul

pequenos sintomas

me apassiono por esses poetas
lambo o canto de suas línguas
colo suas palavras
na boca que é minha
___________________________________________________________

me apaixono por seus olhos vidrados
que queriam dizer algo
era vontade de aprender
talvez com um 'e' a mais
aprender, não sei porquê
apreender, sei bem porquê

19/04/2019

com licença, você conhece a palavra de

não é que somente triste
eu produza
mas quando me fiz feliz (que rima absurda!)
talvez o escrito
não se introduza
onde eu queria chegar

as mentes mais molestadas
as almas mais desandadas
corpos a procrastinar
tudo isso é meu alvo
aí que preciso ir
onde eu queria chegar

não sei se vai ser salvo
mas preciso tentar

daí eu tento algo
e alguma coisa será

camatim sobre a flor

e o tempo passa
acho que nisso ninguém mentiu
mas digo mais uma vez
com tempo a dizer
vadio

o tempo que forma
ao lado de seus olhos
os chamados pés de galinha
você sem perceber
a percepção é minha

e já não sinto aquele medo
do camatim sobre a flor
do camarim sem pudor
do óleo da fritadeira
dos olhos dela
em plena segunda-feira

sinto medo
de não me ferroar o dedo
de não queimar o indicador
de sumir assim meu desejo
e não viver outro amor

trevas e trevos

bebo um chá de ervas
para espantar as trevas
do quanto me enerva o sentimento
rezo ao trevo da benevolência
a resistência como solicitação
que seja de menor pesar
e mais leveza
a passagem dessa existência

quantas eras
para descobrir uma erva?
salvadora, manjedoura
de beira de estrada

quanto tempo
era um nada e agora é tudo
e o sentimento que me enerva
se entrega e se desfaz
sinto uma pontada de paz
que claramente não é regra

não me iludo
logo logo
soturno
outro sentimento perverso
vem a mim
e o alugo

ironic de alanis morissette

e quando penso:
agora minha mão não pode suar
e ela faz jorrar cachoeiras
e quando penso:
agora não posso enrubescer
e vira-se o próprio pimentão de feira

e penso:
agora não posso desistir
e pesam-me âncoras em cada perna
e ainda penso:
para quê seguir?
e abrem-se horizontes inacabáveis
nessa selva

eletrodos eternos deles todos

me admira ler os poetas e escritores exilados em suas juventudes de liceu questionadores muitas vezes ateus inúteis nas matérias e atividades terrenas lhes resta apenas a missão serena de (d)escrever a eternidade aos netos dos filhos seus

eletrodos eternos deles todos
por suas passagens e incômodos
suas viagens ao antigo e moderno
cada qual a seu modo
o agradecimento do meu
jeito sem jeito sujeito
a alter-ações do alter-ego

amante mais duradoura

minha amante mais duradoura foi a morte
do início ela me ligava
eu achava ser trote
me liguei a ela
foi mais forte do que eu
é bela
saio com ela várias sextas
travessa, espessa e densa
imensa agência de nosso contrato
com tato em jogo de paciência
me afogo em sua residência
ao todo é tudo reticências

boitempo

boitempo de carlos drummond de andrade
do tempo que essa cidade
andava era de boi
um tempo bastante antes
e hoje é bem depois
não tinha bad nem good trip
não tinha good e nem bad boy
o sofrimento do boitempo
era todo em português
em brasileiro tão brasileiro
mais do que eu e que vocês

17/04/2019

camadas de cinza

fui o mais otimista que pude
no mais pessimista que mostrei
impossível hoje que eu mude
e amanhã sigo o que ser ousei

perdemos outra e tantas outras perderemos
isso eu aceitei e espero que aceitemos
o fracasso que nos molda
nos solda essas condições
nessa figura torta
que divide opiniões

uns fingem que não e sorriem tortos
o amarelo mais amarelo dos amarelos
um amarelo que eu até queria ter
mas não consigo
acinzentei por cima de meu ser

retrato da derrota

de que vale a persistência
entre tantas penitências
de que vale a insistência
contra toda lógica e ciência

nessa imensa cilada
ao final que vale nada
nessa imensa enrascada
que nada vale cada cada

não entendi o propósito
desse sistema ilógico
mas segui insólito
a contar os reveses cronológicos

um, dois, três, quatro, mil
do primeiro passo ao senil
do que antes era mato
ao que se aduba ao meu corpo frio

16/04/2019

café

tomei um mísero gole de café
minha língua ficou áspera
a esperar um líquido mais frio
ó, aquecimento para o inverno
e estamos recém no mês de abril

15/04/2019

alien de andrade

ouvindo black alien lendo carlos drummond deste a poesia e do outro aquele som palavra que me contempla templo pra oração frase que se sustenta e fixa nesse chão ideia que sobrevoa percorre uma imensidão aterrissa outra cabeça vou antes da terça no voo que é essa missão

caminhada do dia na cidade

Quando anotei o tópico para escrever textos com os assuntos que fui lembrando e descobrindo e refletindo durante esta segunda de sobrenome feira, não pude deixar de mencionar a caminhada do dia na cidade. Como raramente ocorre, depositei o título do texto como as moedas de um parquímetro antes de voltar-me a produzir o conteúdo dessas linhas. Pois bem, sanada a dívida com a necessidade de preencher a chamada master, vamos aos acontecimentos e alguns desdobramentos.

Neste semestre, as segundas-feiras de compromissos têm sido encerradas antes dos demais dias. Assisto os primeiros dois períodos da tarde e estou liberado a voltar para casa. O campus fica a dois trajetos de ônibus de distância. Aproveito o recurso do tempo disponível para percorrer o primeiro desses trajetos no transporte público de apoio da Universidade e depois regresso para o meu bairro caminhando pelo Centro da cidade.

Geralmente não tenho companhia previamente conhecida para essa pequena viagem. Deixo os fones de ouvido no bolso e conecto-os ao celular no momento oportuno. Os óculos escuros também servem, mesmo a dias nublados como este, para reterem-me numa espécie de bolha de isolamento temporário. Minha próxima comunicação da fila do transporte é quando subo os degraus do ônibus e com um rápido gesto, demonstro minha carteira estudantil em que apareço com uma barba esquisita e a camisa do Liverpool na imagem, o motorista assente que está tudo ok e estou apto a embarcar, em busca de um lugar à janela para mirar as paisagens enquanto tocam as primeiras músicas no modo aleatório.

Observo o bairro Porto, suas praças mal cuidadas, seus estudante distribuídos, aglomerados ao redor dos demais campi ou caminhando nos trechos de ida ou volta da universidade. Mochilas, bolsas, ecobags, tatuagens, piercings, cabelos crespos, lisos, pintados, bonés, tênis, chinelos, vestidos, calças, bermudas, camisas de banda, camisas políticas, camisas de personagens de desenho, celulares, salgadinhos, garrafas de água. Conversas sobre as aulas passadas ou sobre as que virão. Uma ou outra recordação quando algum bebeu demais, lembranças da terra natal daqueles oriundos de outros estados ou outras cidades gaúchas, impressões que a cidade os causa, surpreendidos pela violência, comentando alguma pichação, aprendendo uma nova gíria ou algum hábito que lhes era desconhecido antes de vir a explorar essa nova região para seus sistemas nervosos centrais.

Desço em frente à igreja na rua mantida em calçamento de paralelepípedo com pedras grandes e algumas afundadas acentuando buracos motivacionais a reclamações de motoristas. Aquele panorama plural em que os estudantes acima descritos deparam-se a esperar o transporte público defronte a uma instituição cristã.

Sigo meus passos, passo pela praça, que por ora liberou alguns dos bancos antes cercados por arames enquanto a vegetação é trocada como se fosse um carpete. Outros bancos seguem interditados, impossibilitando estudantes, trabalhadores de intervalo, desempregados, aposentados, moradores, homens, mulheres ou cães de rua de os utilizarem. Em volta desses bancos, os bancos ativos de sistema monetário com fluxo diário de caixa em entradas e saídas seguem intactos, a superar crises nacionais, internacionais e continuam seu processo de lucro cada vez mais viabilizado.

Ainda caminho pela 15 de Novembro pelo meio da rua, nos trechos em que poucos carros vêm em minha direção. Acredito que um dos sebos/livrarias mudou um pouco de visual e muito de nome, assim possivelmente tendo cambiado de administrador. Outro sebo que me interesso atualmente me existe, por enquanto, somente pela rede social instagram. Lá são ofertados volumes o tanto quanto interessantes, de Clube da Luta a Hermann Hesse, de Nietzsche ao polonês Bauman.

O parque que se gruda à via lateral de uma das principais avenidas da cidade está tomado por pessoas que se distribuem nos gramados como única atividade para aquele horário. Sinto a ausência de higiene de um mesmo passos distante dele. Cuido-o se não vai avançar em busca do aparelho em que conecto meus fones ou meus óculos escuros. Ele segue imóvel. Estava em absoluto repouso. Olho ao redor e, mais para o fundo, para o centro do parque, é fácil visualizar que ele não é o único nessa condição.

Numa noite dessas, observei um que eu identificava dessa forma como receptor de um colete alaranjado e fluorescente para ajudar a guiar estacionamento e cuidado com os carros, ou a popular profissão de flanelinha. Vê-lo assim surpreendeu-me.

Meu excesso de sinceridade contida e agora aplicada me faz confessar que o fato que me fez descobrir haver conteúdo o suficiente para esta explanação foi cruzar por uma ciclista que cobriu melhor seus seios durante sua manobra para dentro da ciclofaixa da rua em que caminhei. Sendo esta irrelevância um marco da travessia rumo à zona leste da cidade. O tempo essencialmente nublado fez minha caminhada seguir pelo rumo mais próximo ao de casa, não inventando rotas alternativas para melhor aproveitar a experimentação do andar a esmo e de ouvir as músicas conhecidas, mas de desconhecida ordem seletora do dispositivo móvel.

Como de costume, cheguei com a garganta seca implorando um refresco e preparando-me para o trocar de calçados por chinelos e do jeans por calça de moletom. Após o dinamismo e a aventura de previsibilidades e imprevisibilidades das ruas, momentos de descanso em frente ao desktop.

Pelotas, 15 de abril de 2019

num churrasco qualquer

Na infância, eu não tinha ideia. O assunto era muito mais complexo do que eu poderia supor nas oportunidades. Acontecia seguidamente em aniversários, mas também em alguns churrascos programados e datas comemorativas do tipo Páscoa e Natal. Os encontros familiares e suas características próprias, reproduções de uma sociedade limitada e preconceituosa. Acontecia um processo que orgulharia a atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Mulheres para um lado e homens para o outro, a debater em conversas de temas especificados.

Como ocorre em várias ocasiões de minha existência, eu percebia um certo grau de deslocamento ao me juntar com os homens, sobretudo os mais velhos, da geração de meus primos ou os ainda mais antigos, da geração de meu pai e meu tio. Não raramente ainda uma geração contemporânea a meu avô, que, divorciado de minha avó, não frequentava os encontros, mas aqui serve como referência de idade. Pois então, os homens ficavam em volta do fogo para assar as carnes e dar palpites sobre. Debruçados sobre jornais ultrapassados, que ali serviam apenas para forrar móveis e ajudar a formar as labaredas.

Os tópicos giram ao redor de futebol (deliberadamente o que mais me sinto à vontade), carros e fofocas - apesar de convencionarem, e de forma explícita muitas vezes, que fofocas seriam especialidade e prioridade da outra roda de conversa, a feminina. Falácia pura. O que se torna mais contraditório é o fato de mencionarem abertamente isso enquanto eles próprios deliberam e transcorrem sobre vidas alheias.

O machismo não tarda por vir nos papos. Ele ataca várias figuras, inclusive aos próprios homens que menos sabem de futebol ou carros, ou que não compactuam com a aritmética para tratar mulheres. O machismo minimiza a importância do que ouvem ou supõem da outra conversa. O machismo canta de galo que na outra formação de diálogos a limitação de conteúdo é sobre consideradas 'irrelevâncias', como se o juízo de valor estivesse destinado aos homens decidir.

Nas minhas experienciadas situações, acontece que quando cruzo a fronteira para o outro lado, o que a ministra condicionaria como o 'cor de rosa' da questão, os assuntos infelizmente não fugiam de uma previsibilidade que vocês possam imaginar. Comida, roupas, sapatos e também camadas de vida alheia depositadas de uma para outra em palavras. Importante ressaltar que a fofoca era um elemento comum a ambos os gêneros.

Quem ousasse trocar de país para o outro lado da aduana poderia sofrer com alguma anedota de mau gosto. Sobretudo acontecia quando um homem ia ao papo feminino. O contrário, porém, trazia uma outra consequência. O de homens não saberem lidar ou nem ao menos respeitar uma mulher nessa 'intromissão' em suas conversas. Adicione aí efeitos de alguns alcoolismos. Adicione aí alguns defensores do tradicionalismo gaúcho em ação. Tenha aí a certeza de que o machismo e a homofobia seriam tão naturalizados quanto o tempero da carne que ia ao fogo.

Importante combater essa diferenciação, essa estratificação, essa segregação quase que institucionalizada. Coloco aqui a abertura de parênteses sobre a questão e minha dúvida se o passar de geração, digamos que da geração de meus primos para a minha, na condição de mais novo, se houve realmente uma melhora, uma maior noção, um combate a esses machismos e homofobias. Antes eram ainda mais corriqueiros e menos refletidos? Houve uma melhora ou foram somente meus ambientes de convívio que mudaram? Vez por outra ainda nos deparamos com as situações por mim descritas acima? A abordagem midiática maior ajudou efetivamente nesse combate, ou muitas pessoas persistem em considerar isso como um papo irrelevante, enquanto consideram relevantes a disseminação e exposição de fofocas? Pensarei nisso na próxima tábua de churrasco, salada de maionese ou pão de alho num domingo qualquer.

querem

tanta coisa pede prosa
e eu aqui querendo inverso
querem mulher de rosa
e deturpar ordem-progresso
querem passar a tosa
nas ideias em processo
querem arquivar aquele
caso que me interesso
querem eleger aquele
idiota todo possesso
querem que eu faça prosa
mando mais alguns versos
querem 3ª do plural
e na 1ª eu arremesso

ame versários

vacilo que cometi
não lembrar seu aniversário
nesta rede social
que foi ponto de partida
e talvez seja o final

agora parado aqui
pensando se mando algo
pra me redimir, afinal
com o saldo atrasado
mas a intenção enorme igual

vacilo que percebi
somente passada a meia-noite
no relógio digital
açoite como um azeite
que cobre meu corpo criminal

crime e castigo
ter esquecido
o seu dia do ciclo anual
para tantos nenhum encanto
para ti sem outro igual

perdoa-me o esquecimento
que eu tento processar
inflamando algum talento
nessa arte de desculpar-me
que produzo em tal lamento
implorando aceitares
como um bom ar em lançamento
por cima de meu cadáver
cadáver de esquecimento
aos vermes de minha carne

esqueci teu aniversário
neste meio de abril
nem tão quente, nem tão frio
mangas curtas e casacos
a dividir o armário
entre suor e arrepios
no corpo dos proletários
e o patrão isso não viu
sob o ar condicionado

mas que pena o olvido
essa cena tão hostil
dos barcos enfim partidos
de um porto tão férril
dos metais que estalam
na estalagem que dormiu
daquele ali sonhando
por outro alguém que partiu

09/04/2019

não somos

te vi
nos braços de quem não deveria
sequer te ver
ou isso é só o que eu pensaria
pois é

perdoa
minha cabeça confusa
apanhou sol em demasia
mentira!
pensaria o mesmo na madrugada
por nada
nesse mundo cambiaria essa ideia
talvez errada
mas toda minha

desculpa
é que eu esperava
o que ninguém me prometia
sozinha
minha ideia era isolada
como uma ilha
filha de outra ideia errada
é, mas filha minha


sozinha
era como te via
sem saber que viria
viria, claro que viria o dia
que te veria
nos braços de quem não deveria
sequer te ver

ou isso é só
eu discutindo
com minha companhia
debatendo e destruindo
a própria teoria

pois é
não somos

06/04/2019

a martha

escreve bonito martha medeiros cada carta um lanceiro que avança suas linhas de batalha ou mensageiro oferecendo companhia pequeninha ou exagero em poemas ordinários de ordinal sempre primeiro

forçação de barra

mas quanta forçação de barra
pra um atacante
pra uma guitarra
pra um político
duas caras

mas quanta forçação de barra
pras penas do pavão
pro canto da arara
pra um bicho típico
que me encara

mas quanta forçação de barra
pra um filme clichê
roteiro repetido
história de eu-você
a entreter
estados unidos

mas quando a formação é cara
e tu quem estipula o preço
olha bem
dentro e para
e me diga o que mereço

29/03/2019

quem está aí

quem será que está
deste outro lado me lendo
à esta hora da noite ou do dia
tremendo
diante de minha caligrafia

quem será que está
deste outro lado lambendo
a ponta do dedo
que passa a página
e lê em silêncio
guardando segredo
sem baixar a guarda

quem será que está
absorvendo
o que cuspi de veneno
da picada da cobra
do preço da sobra
de mais um dia

quem será que está
aguçando minha fantasia
enquanto escrevo
e não sei
quem é você
que está lendo
só tentando ou entendendo

a poesia
que é um trevo na estrada
é peso pena
ou dez mil toneladas
uma cena
ou toda história greco-romana-indo-arábica

diabos
quem será que está
deste outro lado
como foste invocado
para ler-me onde o leme me levou
nesses papéis agora desguardados

2017

dois mil e dezessete
remendado
fita crepe
quando a mente
não der conta
sobrepostas
as minhas e as tuas
memórias
as tuas e as minhas
histórias
opostas
adjacentes
convergentes
bom te ver

Estou vivendo ou

Será que estou vivendo ou apenas recarregando o celular todas as noites? Será que estou vivendo ou apenas dando os últimos grãos de ração pra Melissa antes de chavear as portas dos fundos de casa? Será que estou vivendo ou apenas roubando 1,6 segundo do motorista ao mostrar minha carteira estudantil do transporte de apoio da universidade, para estar apto a embarcar?

Será que estou vivendo ou apenas reaquecendo o almoço pra combinar com algo pra janta? Será que estou vivendo ou apenas trocando as músicas do celular de mês em mês pra caminhar as mesmas ruas?

Será que estou vivendo ou apenas contabilizando quanto de internet tenho e quanto mês falta? Será que estou vivendo ou apenas observando panoramicamente a quantidade de maluco que nos cerca e não se pergunta se está vivendo ou apenas...

Dois litros do mesmo suco cheio de corante pra consumir em até 3 dias e ninguém me acompanha e se eu tomar tudo deve até ser ruim pra saúde e se não tomar tudo, vai fora.
Típico dilema da vida entre se ferrar de um jeito ou de outro.

Será que estou vivendo ou apenas produzindo lixo? Separando os reciclados, ao menos. Será que estou vivendo ou ocupando lugar na fila, na poltrona ou em pé no corredor do ônibus? Será que estou vivendo ou só reparando nas pichações dos banheiros e das paredes externas dos prédios? Mas será que eu estou vivendo ou apenas lendo autores pra dizer que li, pra não lembrar mais do que um resumo bem detalhado possa trazer. Horas e horas compenetrado em leitura para o quê?

Será que estou vivendo ou somando horas em jogos online? Como me disse, um companheiro de curso em uma das voltas para casa, em que, criando coragem no assunto, revelou uma somatória de horas para cada vídeo game diferente que ele pratica no mundo virtual. Quantas horas frente à tela, ganhando ou perdendo? Ganhando ou perdendo no jogo e no tempo, na experiência, no estresse ou desestresse? Quanto vale tudo isso?

Será que estou vivendo ou somente somando decepções diariamente? Será que estou vivendo ou apenas desistindo antes de entrar nas filas? Será que estou vivendo ou apenas repetindo a pronúncia nas aulas de língua estrangeira? Será que estou vivendo ou apenas reparando nos rostos quando as nucas que estão à minha frente se cambiam defronte ou em ângulos quase de frente a mim? Será que estou vivendo ou virando os olhos quando enxergaria vida neles?

Será que estou vivendo ou apenas contando as moedas de xerox? Contando as moedas no raro tempo que me sobra a degustar a semanal cerveja? Contando que alguma vaga de emprego me surja para ser efetivado. Vivendo ou bicando de bico em bico para arrumar mais uns trocos para trocar por mais almoços-jantas, xerox e cerveja.

Será que estou vivendo ou apenas me preocupando com os gatos de rua, que, na minha visão nada empírica, se multiplicaram no fim da Gonçalves Chaves? Eu estou vivendo ou apenas questionando como seria a interrogação invertida no início e a interrogação final no meio das frases, assim como é no Espanhol. Estou vivendo ou tirando seu tempo em conversas informais e de assuntos aleatoriamente não selecionados previamente? Estou, nisso tudo, vivendo ou somente me questionando se viver é tudo isso? E será que é mais um pouco? Um texto sobre vivendo.

24/03/2019

perdi muito tempo

perdi muito tempo
agora acelero os processos
sei que o fogo às vezes é lento
nos manifestos desses decretos

mas entenda que perdi muito tempo
e não o compro de volta nessa venda
estava com os olhos vendados
e o tempo vendido cobra seu prazo

entenda que perdi muito tempo
e escrevo isso com naturalidade
porque acostumei meus dedos
com essa que é da poucas verdades

entenda que perdi meu tempo
como um cachorro a dar saudade
que saudade é difícil traduzir
em outras linguagens

perdi muito tempo
como um funcionário
a esperar aumento
de seu salário

perdi muito tempo
como um rosário
espera
os dedos a roçá-lo

perdi muito tempo
como um diabo
com o inferno aberto
e ninguém a visitá-lo

selos

verifique meus versos
veja e fique imersa
nesse universo
nessa conversa

chegue aqui mais perto
dentro da minha meta
sem ficar obsoleto
dessa ideia neta
de outras ideias

seu seio
me anseia
seu selo
sela
seu cabelo
me pela
pela pele
elo
meu
com ela
belo e quente
como cera de vela
serpente que atrela
pertencente
à nossa aquarela
vermelho escuro
amarela
luz do poste
da rua dela

domingos

acordei tarde. descobri que havia visita e não quis almoçar. fingi um pouco dormir e depois peguei o celular. e depois fingi dormir e depois peguei o celular. e as visitas não ficaram muito tempo. meio que notam sua ausência e depois esquecem e conversam alto e se empolgam e lembram de sua ausência e depois esquecem e conversam alto. e segui ali, pensei em ler, mas a cabeça ainda doía, aí penso que a leitura vai avançar como se fosse uma pedra se movimentando no rim e talvez eu tenha mais dificuldade de gravar as informações, o que torna a leitura ainda mais inútil, porque, pra quê ela serve se não armazenarmos? só para dizer que leu? não li. e, sim, minha memória piora, são meus péssimos hábitos noturnos. ponto ou interrogação? ponto, porque é uma afirmativa, são meus péssimos hábitos noturnos, sim.

esperei saírem e esperei mais uns minutos pra não ficar tão evidente meu desejo que saíssem e então saí do quarto. só voltei a mexer nos lençóis para ajeitá-los após a refeição. não senti vontade de me higienizar. um dos poucos amigos jogou na timeline um texto sobre a relação entre saúde mental e saúde bucal. faz sentido, eu devia ter percebido a relação havia algum tempo.

tive que aquecer o almoço que há tão pouco era uma refeição familiar. o arroz estava empedrado, ou seja como chamem, mas o pouco de água quente ajudou a esvair esse processo de solidificação excessiva. era arroz com massa, muita gente tem preconceito com arroz com massa, porque é muito, como que chamam? carboidratos. é, carboidratos. mas eu até como. aqueci tudo novamente, menos os bifes. se havia salada, não sobrou pra mim. normal. uma alface me deixaria 5 ou 6% mais feliz. não comi muito. achei que esperar até às 14 pra me levantar me daria fome, mas não deu. um outro cara de porto alegre coloca na timeline que está com vergonha do quanto emagreceu e nem consegue mais usar bermuda, outro fruto da doença aquela. aquela maldita, vitimiza gente muito boa. eu considero muito boa. nem é me juntar ao grupo, mas é uma espécie de consciência de que ela atinge muita gente inteligente, ou muito sensível, ou na somatória, aquela inteligência perspicaz, e é gente decepcionada, decepcionada com as demais, com o mundo em volta, com a incapacidade de mudar as coisas, quiçá sua própria vida, imagina o mundo, cara, moçambique, zimbábue, esses eu conhecia os nomes desde que explorei o mapa-múndi aos 5 anos, mas tem um terceiro, malawi, creio que é malawi. se não for, vai ficar assim, porque é a sinceridade de quem não pesquisou durante a elaboração disso aqui, sacas?

é minha mente trabalhando tal qual o desenho de um mapa em carbono, o mais fiel e fidedigno possível. enfim, não almocei muito, não tenho exatamente vergonha de usar bermuda, embora me incomode a quantidade de pelos e as pernas por vezes muito finas também. tirei uns pelos esses dias e o púbis segue coçando, já deveria ter passado a sensação pela minha experiência nisso. ainda uso a mesma espuma de barbear da adolescência. pensava que precisaria renovar e gastar com isso seguidamente, mas que nada, ela ainda está ali, ainda é cheirosa e resolve na hora de aparar a barba. quando a gente é jovem pensa muita coisa errada, falta a vivência e a malícia e hoje que tu adquire um pouco disso, adquire o que não devia também e segue fudido dos pensamentos.

não tenho problema em lavar a louça, tenho lavado seguido até, verdade pura. mas a cuba, a pia levantou um cheiro horrível. aquele detergente amarelo já não me agrada, mas hoje foi péssimo. e só precisava lavar o que sujei, porque o que eles sujaram já havia sido limpo e seco e guardado. mas foi uma péssima sensação, logo depois do almoço, que não foi grande coisa. almocei, mas terminei sem vontade e despejei um pouco do arroz que sobrou para o balde que alimentava nossas galinhas, mas elas morreram. só sobrou uma, a mais moribunda de outros tempos, que meu pai chegou a dar remédio e comida no bico e a bicha velha sobreviveu, de forma inacreditável mesmo. tá lá agora, manca e solitária, esperando a morte chegar. as pombas em volta, aqueles bichos malditos, comem tudo e parece que troçam depois. as pessoas são como as pombas, se juntam nas praças, fazem merda e cagam por sobre as outras se for o caso.

agora pude retornar os afazeres, mandei as poucas mensagens que precisava, preciso me readequar ao calendário acadêmico, enquanto escrevo isso, lembro que posso utilizar a carteira estudantil pra ganhar descontos, pra rever pombas e tentar desviar delas. assim a gente segue. meu celular estava com quase nenhuma bateria, mas agora está na tomada, carregando no mais pleno dos gerúndios, a barrinha subindo. e assim tento subir a minha barrinha de energia também. meu time tem desfalques, mas é bem superior, o céu está bem azul. vai ser um dia legal pra muita gente. bom domingo a todos e todas.

21/03/2019

Chicletes e cigarros

A morte me invita a um tango. Uma milonga estendida, que se desenrola como um comprido tapete vermelho. Um pouco mais escuro, um pouco mais bordô. Ela me convida como escassas vezes sou convidado. Me tira do canto daquele baile onde não danço. Me tira daquele balcão em que o barman só se demonstra gentil para comigo porque estou consumindo. Logo que ele pare de encher meu copo e eu, indiretamente, seus bolsos, ele vai zangar-se.

Mas a morte retira meu olhar daquela pista de dança tão próxima em metros e tão distante espiritualmente. Minha alma velha já não sente-se interessada em misturar-se a esses corpos jovens. A música de edições eletrônicas para o formato final, inicialmente inatingível para os cantores e cantoras e com sons possíveis somente pelo remix, essa música paira distante. Não me invade mais aos ouvidos, não estimula mais meu cérebro e tampouco me revolto por não acessá-la como os demais.

A morte me conduz pelo braço aos fundos do salão, ao pátio para os fumantes. Ela sempre tem os cigarros para dividir. Nunca a encontrarás sem que ela esteja com os bolsos internos equipados por diferentes marcas. Com um estilo e todo o charme que lhe é delegado, ela vai sacar o isqueiro e terminar de acender a chama entre vocês. Os cigarros vão se beijar antes de vocês. O dela já estará aceso sem que tenhas visto, enquanto estava no salão. O seu será aceso a partir do dela, que está semi-consumido.

Ela ignora os acontecimentos em volta e estabelece seu próprio ritmo, o mais arrastado e capturante que pensas e talvez nem possas imaginar. É preciso ser sensível para conhecê-la e muitos se vão dessa vida sem notá-la anteriormente. Para quem a ignora, ela pode até deixar o tempo passar, mas será vingadora e voraz quando lhe der na telha. Mas para nós, sensíveis, ela faz parte da trama. Ela te encontra em bares rústicos com portas de vai-e-vem, seja lá como se escreve isso. Ela te fita no meio de uma festa de musicalidade proporcionada por djs. Enquanto todos saltam com os braços para cima e deixam o corpo entrar em stand by enquanto as canções todas, em todas as caixas de som, te cercam dessa forma, lá está ela, mirando-te, olhos penetrantes.

Ela joga seu charme do jeito que aprendeu em milhares de episódios. Maquiagem caprichada, olhos negros, pele clara, cabelos negros, pupilas certeiras, pistoleira de uma só bala, que ela sabe ser suficiente para derrubá-lo. Ela sabe que é irresistível. Tem o capricho demoníaco de saber que pode fazer o que quiser. É a pior mulher de todas. É a melhor mulher de todas. Justamente por ser a melhor se torna a pior de todas, como não raramente.

Por ser a melhor ali contigo será a pior de todas quando não estiver. Você pensará nela finitas noites, enquanto ela permitir. O serviço que ela começou, ela mesma acaba. Vocês marcarão encontros e será divertido de início. Ela te fornecerá os vícios mais inconsequentes, você estará atiçado pelas mais simples e complexas armadilhas dela. Você vai ignorar seus amigos, porque quer estar junto dela. Você notará aos poucos que se encontra com ela sempre de noite. Talvez em uma ou outra tarde ela surja, como uma adolescente rebelde próxima das escolas, mas nunca em aula. Ela não assiste às aulas, ela te espera nos corredores ou na fila do ônibus. Ela masca chiclete com facilidade e faz bolas grandes que logo estouram, que logo explodem como o relacionamento.

Você desconfia que ela te trai. Mas é verdade que ela tem muitos trabalhos por aí. Você não gosta das roupas negras e depressivas que ela utiliza, mas você não consegue se livrar dela. Ela sempre sabe o que fazer e sempre faz o que quer. Você não sabe o que fazer e nem faz o que quer.

Por vezes você quer se livrar dela, mas não há mais como. Chegará a hora em que ela te mastigou tanto tempo como um chiclete que perde o gosto, e será tarde demais. Você, ou o seu coração, será o chiclete que ela vai descartar. Pode ser prudente e descartá-lo a um lugar discreto, uma lixeira próxima, ou pode deixar ali à exposição, embaixo de uma classe, no chão, ou em qualquer lugar não propício ao descarte.

Vai chegar a hora em que você percebe que não consegue se livrar dela, perseguidora, obsessiva. Ela vai se livrar de você. É o papel dela antes de se arrumar novamente, sorrir maliciosamente ao espelho, com seu piercing no smiley (ela nunca te ensinou o nome certo disso), o sorriso mais diabólico e inquisidor da história. E ela vai repeti-lo, sádica e criminosa. Você era o chiclete, mas está tão sem gosto que deve ser um restolho de nicotina. Apagado e pisoteado nos fundos de uma festa com isolante acústico. E ninguém ouve seu último suspiro.

hasta cuando

se escondendo da morte
logo ela vem
lá vem ela no bote

se escondendo do azar
mas que sorte!
outra vez não me viu
e a noite vai passar

até quando?
até quando ela deixar
deixar pra lá deixando

08/03/2019

surtos

O surto é uma bomba relógio
Se for só um susto é um privilégio
Se der em nada demais

O cuco é aquele relógio de parede
Com sede ele sai na hora programada
Enquanto o surto é surpreendente
Pode vir do nada

O surto é um curto circuito
De uma tomada congestionada
Pode ser um surto veloz
E depois sobrar nada

O surto é um episódio
Marcante em quem ouve e quem tem
O surto é uma bomba relógio
Qualquer hora refém


acordes

desculpa por ter roubado
os seus acordes
por ter iniciado sem saber
se pode

desculpa por ter roubado
as suas noites
por ter iniciado sem saber
que fode

a mente que um dia foi
o teu suporte
a gente que um dia foi
uma estrada pro norte

boa sorte

05/03/2019

Palafitas Paliativas

Espero que tu seja feliz
Não sei o que isso significa
Espero que feche essa cicatriz
Sempre lembro onde fica
Dos tempos que tu era minha atriz
Era a mais bonita
Dos tempos que tu era tudo que eu quis
Dessa era infinita

Meus versos eram o seu chamariz
E o silêncio hoje grita
Sentimentos gozam como um chafariz
Que inunda minhas palafitas

04/03/2019

Melissa tá mais alaranjada

Melissa me olha
Mia alto para mim
Não sei o que ela fala
Acho que é melhor assim

Melissa tá mais laranja
Tá igual ao governo
Mas o pelo dela é massa
E aqueles cornos usam terno

Melissa é subversiva
Minha gata comunista
Ela caça rato e quer
Nos dividir a comida

Melissa é minha gata
Caça rato e caça rata
Acho que ela não distingue
O gênero da sua caça

Melissa tem medo
De yorkshire e de vassoura
Mas Melissa não é caça
Melissa é caçadora

Melissa é educada
Ela não caga no quintal
Ela sai aos domingos
Pra dar banda no Areal

03/03/2019

A vida é uma toalha estendida no varal

A vida é uma toalha estendida no varal
A vida é uma navalha que não corta só o mal
A vida é uma tralha no sistema nervoso central
A vida é uma batalha do começo até o final
A vida é uma calha que inunda o quintal
A vida é uma canalha num boteco filosofal
A vida é uma falha inevitável e vital


Inspirada em
Wander Wildner - A vida é uma toalha estendida no varal