Talvez eu tenha sido o melhor escritor que conheci. Mas também o único com o qual andei em tempo integral fui eu mesmo.
Cada um tem suas verdades.
Já discordei muito de mim. Isso pode provar que aprendi. Ou não.
Talvez eu tenha sido o melhor escritor que conheci. Mas também o único com o qual andei em tempo integral fui eu mesmo.
Cada um tem suas verdades.
Já discordei muito de mim. Isso pode provar que aprendi. Ou não.
Mais uma pela incursão ao cinema nacional. Joli é uma mulher que se recupera do vício em drogas. Ela está de volta a Recife. Seu pai é um importante deputado, chamado Antônio. Antônio concorre a um novo cargo, a prefeitura da capital pernambucana. O regresso de Joli pode atrapalhar os planos do bon vivant.
Quanto vale o preço para vencer uma eleição? Talvez vender a própria filha. Poderia ser a frase que inicia a análise. O filme Prometo um dia deixar essa cidade traz muitos assuntos, ampliados e esmiuçados até as cenas paralelas ao subir dos créditos finais. De um filme com tanta pretensão e ideias pode-se tirar coisas positivas. O longa é um dos poucos até hoje lançados pelo diretor Daniel Aragão. Seus pôsteres são artísticos, um comentarista afirma lembrar a arte do alemão Werner Fassbinder. As propostas tornam-se ousadas, desafiadoras e polêmicas. Detalhes não passam despercebidos. Qual será a intenção ao utilizar a sigla fictícia para o partido do matreiro Antônio como PSTB. No filme podemos ouvir errado até que a sigla se destaque em painel diante de nossos olhos. A semiótica e as cores em vermelho estão lançadas.
Marcado pelo episódio negativo na família, Antônio anseia sua campanha em uma disputa para erradicar as drogas, para financiar projetos como os de um pastor em comunidade carente. A Recife é demonstrada entre as reuniões de terno e gravata, as casas com jardins e os apartamentos caros que contrastam com comunidade carentes, com ruas de terra, sem esgoto, difícil acesso para chegar ou sair, e crianças marginalizadas em diversões improvisadas, como jogar bola sobre a cancha de terra.
O retorno de Joli desafia a campanha de Antônio. Ele exerce um paternalismo doentio, arranja um casamento para filha se manter fora de enrascada. Em vão. O casamento arranjado não é suficiente para drenar a fúria e a revolta de Joli, que, se havia se curado do antigo vício, não suportava a vida de mentiras e de campanha difamatória, falsa e moralista proposta por seu pai no almejo ao cargo maior no município. Joli convive com personagens contraditórias. A amiga em recaída com o crack, o marido da amiga que acredita ser Joli a permanente má influência da esposa, mesmo a ruiva estando livre das drogas ilícitas.
Um debate aberto, proposto pelo filme é o entre as drogas, os fármacos lícitos e os ilícitos. O poder de decisão vindo de um político influente torna inclusive a saúde da própria filha como um experimento. Ele pretende sedá-la e até seduzi-la para manter a estrada da eleição aberta e encaminhada. Enquanto algumas drogas que fogem ao controle dos políticos, por efeitos ou principalmente pela fuga de lucro e fiscalização de impostos, são combatidas, outras são assinadas em convênios, testadas sem perspectiva exata a longo prazo, incentivadas sobre corpos ratos de laboratório. Mesmo as pesquisas nacionais e internacionais podem ser fraudadas. Mesmo os estudos assinados podem ser comprados. Mesmo um ente querido, quando interfere na caminhada rumo ao poder, pode e deve ser derrotado pela lógica maior do lucro.
O filme possui alguns elementos fantasiosos, simulações da mente e dos efeitos dos narcóticos sobre a mente de Joli. O ponto de vista é alternado dela para também mostrar o desespero do político que se vê encurralado em sua campanha de talvez precisar apoiar um adversário, que também deveria ser derrotado. A volta de Joli causa burburinho, mobiliza noticiário, exprime agenda negativa, causa desconfiança e precisa ser combatida como consequência.
A falta de escrúpulos e limites nas agendas e métodos políticos são abordados no filme; da campanha envolta em falsidade e publicidades enganosas na aplicação de fundos partidários, da corrupção aos convênios de eliminar adversários, de desbloquear o caminho a qualquer custo. A conveniência e o poder movem o jogo, contra quem for. Na metodologia utilizada por António estão a participação da indústria farmacêutica e da medicina a serviço do poder, do terno e da gravata. A farda policial na mesma linha, forma de atuar idem. De sabotadora à sabotada estava selado o destino de Joli, na promessa fantasiosa de um dia deixar essa cidade: custe o que custar.
Nota final para Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade:
3,5 / 5
Ao assistir esses dois filmes em sequência, o que me chamou atenção é que o final de Trabalhar Cansa termina com um grito e o início de Quando Eu Era Vivo começa com outro. Se emendam. Com crítica social mais apurada, ao estilo incessante das denúncias sociais de Que Horas Ela Volta?, o longa Trabalhar Cansa (2011) tem direção dos paulistas Marco Dutra e Juliana Rojas.
Otávio é um pai de família recém desempregado. Ele sabe que será difícil arranjar uma nova oportunidade e o filme gira em torno disso. Para manter o padrão elevado da família do executivo, do trabalhador de escritório, a esposa Helena resolve alugar um espaço para reabrir um supermercado de bairro, o Curumim. Eles alugam do senhor Alfredo, mas as coisas nunca se encaminham como planejavam. Helena vai se tornando uma tirana, tem dificuldade em lidar e orientar os funcionários (antes da mania nacional de chamarem a todos de colaboradores). Os problemas estruturais do prédio e relacionais entre patrão e empregado são o atemperamento do filme.
Além de lidar com o Curumim, Helena contratou a jovem Paula para ser empregada doméstica. O filme cita questões polêmicas como a assinatura de carteira de trabalho, os benefícios e garantias para os trabalhadores e a dificuldade dos patrões em cumprirem as normas e leis empregatícias. O movimento do reaberto supermercado nunca agrada. São problemas estrururais, infiltrações em parede, entupimento de esgoto, clientela exigente, saudosista ou insatisfeita, funcionários suspeitos de desvios de mercadorias.
Enquanto Helena se espezinha em contratar jovens funcionários, Otávio luta em agências de emprego para cargos que procuram gente mais proativa, jovem e capacitada. Sua experiência de cabeça calva não agrada aos contratantes. "Afrouxa a gravata, tira uma foto sem para o currículo". E os meses passam com uma casa onde o marido perdeu protagonismo. A sogra, a mãe de Helena ainda passa a ajudar financeiramente a família e a interferir cada vez mais nas decisões, inclusive se estranhando com Paula, a empregada. O casal tinha dois filhos, que por ora aparecem em cenas de estranhamento com o corte de energia elétrica, em planejamento de viagem de férias familiares e episódios da escola, não especificada assim, mas com elementos do filme com os quais podemos concluir que era particular e elitista. Até o uso da chamada black face em apresentação da escola gera polêmica para quem assiste - objetivo atingido na escolha da direção do filme.
Trabalhar Cansa denuncia as polêmicas relações de patrão e empregado, aponta as diferenças nos serviços, na forma de tratamento, na tomada de decisões, por exemplo Helena, que se nega a reduzir gastos em casa com a família e insiste com o supermercado até medidas drásticas, como abrir o Curumim em pleno feriado de carnaval, quando os estabelecimentos concorrentes estariam fechados, causando maior desagrado e ruído de comunicação entre os funcionários do super.
A obsolescência de Otávio com o mercado de trabalho permanece até o final do filme. A figura do funcionário descartável, ultrapassado, preterido por mais jovens e proativos. A figura das crianças alheias a decisões, mas vítimas das mesmas, sem entender a crise familiar que tenta excluí-los dessa tomada de conhecimento. A união dos funcionários em tomar decisões por eles próprios, alheios ao desconforto que poderiam gerar ao patronato.
Para parte final do longa, a mescla com o terror apimenta um pouco o suspense e as reações, mas sem transfigurar o objetivo maior do filme. Trabalhar Cansa fica subordinado à temática do nome proposto, sem adentrar tamanho espaço à lenda urbana que se desenvolvia no próprio supermercado. Antes a figura monstruosa a surgir poderia ser metáfora do escravismo, derrubado a marretadas estruturais na parede do supermercado.
Em Quando Eu Era Vivo (2014), além dos gritos do louco que vivia na rua do prédio para onde o protagonista se desloca para encontrar o pai - e viver polemicamente com ele - a relação com o filme Trabalhar Cansa está na situação desse personagem principal com o papel de Otávio no primeiro filme. Ambos são homens desempregados, cada vez mais solitários, excluídos e pressionados pela dependência e pela pressão social de serem novamente provedores e tomadores de decisão.
O protagonista recebe o nome de Júnior, mas aos poucos começa a se estranhar com o pai, que ele diz "não ser mais o mesmo de antes". No apartamento eles recebem a estudante Bruna, musicista interpretada pela cantora e atriz Sandy Leah (ela mesma). Junior obviamente, na vida solitária e despropositada, se interessa pela jovem Bruna, a qual tem um namorado que pouco aparece.
Júnior faz buscas em caixotes aprisionados no apartamento e descobre heranças familiares, vídeos antigos, cartas e enigmas escritos pela falecida mãe e pelo irmão Pedrinho, que está desaparecido na primeira metade do filme, mas, a quem não viu, talvez ele não esteja morto. Nas brincadeiras antigas com Pedrinho, gravadas ou documentadas por meio da escrita, Júnior reúne provas para avançar uma pesquisa ao encontro de verdades ocultas: justamente o caminho para o suspense e o terror em Quando Eu Era Vivo. Os contatos espirituais intrigam pessoas ligadas à família e até uma medium contratada para leitura e melhora espiritual da situação de Júnior, este cada vez mais trabalhoso para seu pai lidar com isso.
Em comum em outro longa assinado pelo Marco Dutra, os personagens Otávio e Junior avançam na paranoia e não na solução de arrumar um emprego e cessarem, ou ao menos reduzirem, a loucura daquele tempo de ócio. As pesquisas aprofundadas de Júnior geram contatos com o além e uma porta aberta para outros seres estarem entre eles.
O segundo filme comentado aqui tem muito mais da temática do terror comumente abordado nessas produções, não tanto o terror social do desempregado, da dificuldade empregatícia e dos apertos financeiros pelos quais passam a sociedade brasileira. São duas formas de se abordar o terror. São dois legítimos representantes do cinema brasileiro, em que o primeiro faz por merecer uma melhor nota, se pensarmos em uma avaliação final.
Um dos poucos longas do diretor e produtor paulista Roberto Moreira. Contra Todos conta uma história cheia de reviravoltas sobre uma família já inicialmente polêmica e posteriormente desmantelada na periferia da maior cidade da América. Theodoro é um pai de família que vive com sua filha Soninha e com a (segunda) esposa Cláudia. As desavenças entre os três são crescentes e os motivos são os mais diversos nesse carrossel de climas e situações.
Theodoro aos poucos demonstra que não é o sujeito respeitado e respeitável que aparenta ser. No submundo em que faz parte, ele tem amigos próximos, mas talvez próximos demais. A trama gira em torno da confiança e da desconfiança implantada na relação entre as personagens. Quem errar pode pagar caro por isso, pois a lei da selva e de quem possua maior poder - de fogo ou de decisão - é bastante levada em conta.
A ambientação para o início dos anos 2000 é interessante, com a estética de ídolos do pop e do rock, a aparição da filha rebelde com Guns and Roses, Nirvana, Ozzy Osbourne, Bob Marley e outros ídolos. A temática do tráfico de drogas como uma crescente na vida desses jovens e dos sub-empregos adultos. A vida dupla controlando as ações na trama.
Theodoro busca mais outra esposa e pode até se apoiar na fé evangélica para deixar para trás o rastro de erros de seu caminho. Cláudia se mostra insaciável em seu desejo por quem apareça. Soninha vive entre a rebeldia adolescente e a falta de regras e de controle, encontrando consolo e algum apoio em mais figuras distintas que irão proporcionar esses crossovers.
Os personagens fabricam suas leis e diretrizes demonstrando comportamentos desruptivos, impulsivos e inconsequentes. As reviravoltas ocorrem a cada poucos minutos, retendo a atenção do espectador e convidando a adivinhar os destinos dessa trama de sonhos despedaçados, readequados ou mesmo completamente perdidos.
Contra Todos não é um nome por acaso. A casa pode cair a qualquer momento e o jogo de confianças pode mudar muito rapidamente. Ou nem tanto. Apesar da produção baixa em valores e dos improvisos de locações, isso não compromete o produto final, feito também com atores de crescente aparição ou mesmo desaparição das telas de maior sucesso a seguir.
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