16/10/2025

Uber

Subi ao carro do Uber, era um motorista de meia idade, entre pardo e negro, barba bem feita, praticamente calvo. Não houve muito diálogo. Lembro de perguntar-me a rua. Primeiro ponto estranho. Confirmei que era a Rua Tubarão, para o lado oposto da cidade. Sou professor estagiário, é minha segunda vez lá recém, menti, porque era minha primeira vez, mas, diante da desconfiança que aquele sujeito frio provocava, querendo ou não, eu não quis parecer totalmente iniciante, pelo menos em termos de endereço. Na verdade eu nunca tinha ido àquele colégio e esperava que o motorista guiasse porque previamente soubesse. Tive que fingir que ao menos eu sabia onde iria. Rua Tubarão.

Ele prosseguiu em um tremendo silêncio. Se assustou quando surgiu no asfalto de qualidade duvidosa um bloqueio de cones que o obrigou a uma curva mais brusca do que a original. Assobiou uma onomatopeia e desencadeei a falar como se houvesse necessidade, como se eu lhe devesse alguma coisa, além do dinheiro, já depositado pelo cartão, na corrida. Falamos do trânsito, do mais banal e corriqueiro possível. Ele atravessou as ruas necessárias e novamente, sem ajuda tecnológica, perguntou por qual rua seria o destino. Já estávamos no bairro correto: Rua Tubarão. Salteei para ele também o número do prédio, 300 e algo. Estávamos próximos, creio.

Corríamos por uma avenida paralela à Rua Tubarão - depois confirmei no mapa. Eu disse que poderia parar, que estava tudo certo. Ele fez questão de descer do carro e me acompanhar. Havia uma outra escola que ocupava quadra inteira pelo caminho. Se pegássemos o atalho passando dentro daquela escola, sairíamos na Rua Tubarão. Minha surpresa foi tamanha receptividade. Na verdade ele conduziu o carro até onde cabia o carro, no estreito já do pátio interno da escola, roçando os vidros retrovisores no coquetel de paredes. O motorista antes frio fazia questão de terminar a corrida até o meu destino final mesmo. Eu notei que precisava chegar pelas nove horas da manhã. Já eram dez horas. Nem sei para quê exatamente me dirigia à escola. Para justificar minha ausência, meu atraso?

As surpresas não cessavam. O sujeito uber me posicionou então em uma cadeira de rodas por onde o carro dele não mais passava. Mas eu seria conduzido com toda certeza e mordomia pelos labirintos do bem pintado colégio. Naquela semelhança entre presídios, hospitais e escolas, navegava pela condição dos braços do uber à cadeira de rodas pelas aventuras de um hotel do filme Iluminado. Havia uma escada alta, indicando que do anterior pátio já estávamos em um nível superior, a escada conduzia abaixo. Era meio alucinante ser conduzido rapidamente de uma cadeira de rodas escada abaixo. Velocidade e perigo em constância. Chegamos à porta corta-fogo de saída. Um pátio dos fundos deserto, espaço suficiente para estacionamento de muitos carros. Não era um jardim, antes era uma grande terreira, um alaranjado ermo com fagulhas de teimoso capim. Olhei para os lados e o sentimento negativo abundava. Um suspeito veio em sentido oposto, no largo e antes desabitado portão de entrada-saída daqueles fundos. Um capanga.

Eles me cercaram. O motorista queria minha pasta, meu celular, eu, pobre coitado, nem professor efetivado ainda, com eletrônicos a consertar em casa para no mínimo poder trabalhar, gerar atividades, planilhas, imprimir. Me negava a entregar o que fosse e iria para o confronto corporal ou para tentativa de fuga. As impressões suspeitas estavam confirmadas. Não poderia aquele sujeito não saber o destino, que deveria estar registrado em seu aparelho na corrida, não perguntando seguidamente pela tal Rua Tubarão - e que tamanho atraso eu estava dela. Não poderia aquele sujeito frio do nada querer me acompanhar até meu destino final mesmo a pé, ainda mais me conduzindo por meio de uma cadeira de rodas, que sabe-se lá de onde arranjou - minha vó necessita uma. Do confronto de dois contra um conseguiu manter-me íntegro com uma dose de coragem e outra de sorte. Do colégio que atravessamos juntos somente a lembrança dos alunos inquietos e de algumas coordenadoras estranhando a cena, como se fôssemos cientista maluco e criatura pelos caminhos errôneos. Do outro colégio, o que eu necessitava alcançar na Rua Tubarão, apenas a lembrança do atraso e um trauma para continuidade de buscar ele longo caminho por horas de estágio. Vocês não vão acreditar no que me ocorreu hoje, disse ofegante, quase às 11 horas da manhã.

15/10/2025

Cinema Russo: My Joy (2010) + Hard To Be a God (2013)

Destacar tópicos dos filmes:

- cinema russo como pessimismo e de denúncia da violência social gratuita

- personagens encontrados em My Joy: prostitutas, saqueadores, policiais corruptos, vilarejos que recebem mal a estrangeiros

- jornada dos personagens principais como salvadores inoperantes em meio ao sistema corroído e adoecido

- crítica da Idade Média e possibilidade de refletir o que seria do mundo não houvesse avanços científicos, tecnológicos e iluminismos 

- escatologia em Hard to be a God, evidenciando a falta de saneamento e de soluções na Idade Média

- crueza do sexo e os duelos como forma de resolução de desavenças - comuns à história russa

- a crueza com que os russos muitas vezes lidam com a religião. entre o respeito ou a total descrença com as divindades. a frase definitiva é o nome do filme: é duro ser um deus.

- em My Joy ocorre a transformação do personagem principal entre um idealista a praticar seu ofício para um ser descrente, frio, transtornado e corroído pelo meio que o subjuga, o distingue, o violenta. sai da figura de uma colaborador para um praticante, um ator ativo do cenário violento proposto pelo filme e pelos interiores da Rússia

- em Hard to be a God, o personagem principal, humano em outro planeta atrasado, perde a compostura de salvador, de ser eficiente e evoluído perante as agruras que o cercam. ele convive com imagens que o sequelam, o adoecem, o maltratam, entre escatologia, má alimentação e violência de duelos seguidos.

- a ambientação de ambos os filmes é excelente e inclusive se sobrepõe à história, aos roteiros. a Rússia de devastação, longe das capitais, sem leis ou de vilarejos que fabricam suas próprias leis (comum ao Brasil?). com policiais que impõem suas vontades acima do que constituições traduziriam.

em Hard to be a God, a ambientação se deve ao uso do preto e branco, à entrada e saída de personagens constantemente, em uma dinâmica de eterna movimentação, um bailado infernal, em que seres cada vez mais grotescos e asquerosos passam pela frente da câmera, alguns a encarando como forma de surpresa e rompimento das barreiras do que seria apenas uma gravação neutra: os personagens se inserem, participam, compõem uma filmografia da aberração, do doentio, do mundo distópico que na verdade é histórico e de fato, em grande parte, existiu.

ambos os filmes trazem atmosferas aprisionantes, de ar rarefeito. é importante pensar e concluir que, se apenas de mirarmos tais cenas se têm uma ideia de degradação, de aprisionamento, de asfixia, imagine a vida sem possibilidades de desligar a tela, de fazer outra coisa, de superar as adversidades de contexto, de corrupção, de violência, de brutalidade e crueldade.

07/10/2025

The Last Black Man in San Francisco (2019)

Um retrato cada vez mais atual dos Estados Unidos, O Último Homem Negro em São Francisco (2019), direção de Joe Talbot, foi gravado e lançado antes da grande pandemia de covid-19, que seria ainda mais devastadora para o país. A história de Jimmy Fails e sua obsessão por recuperar a casa de seu avô, em zona nobre de uma das mais nobres cidades na América do Norte e no mundo (será?), uma casa do que chamam traços vitorianos e que tem toda pinta de ser construída durante o século 19 (1800 e lá vai pedrada).

A história de Jimmy aproxima os Estados Unidos muito mais do chamado Terceiro Mundo do que eles gostariam. Um jovem sem perspectivas, que vive em uma zona metropolitana, mas na periferia, anda de skate ou aguarda ônibus que nunca chegam no horário que ele deseja. Com ajuda do seu amigo Mont, eles rumam diariamente para São Francisco para manter conservada a casa que foi do avô de Jimmy, mesmo que outras pessoas, brancas, vivam nela atualmente. É com uma morte na família dos atuais proprietários e com a casa se transformando em uma briga judicial entre irmãs que Jimmy enxerga a possibilidade de morar novamente na casa, enquanto a questão na Justiça não fosse tratada. Mas a especulação imobiliária fortíssima, predadora e voraz nos EUA não dará muito tempo ou sossego ao personagem principal.

Quanto a seus familiares, Jimmy tem um pai envolvido com tráfico de drogas e pirataria, onde aparece cortando encartes de CDs e DVDs piratas. A mãe de Jimmy é totalmente ausente, ele nem sabia por onde ela andava, acreditando que ela teria se mudado e permanecido em Los Angeles. A grande esperança para ajudar Jimmy é o amigo Mont, fiel escudeiro desse Dom Quixote, e escritor de teatro, mais uma missão difícil, tratando-se de investir culturalmente àqueles lados. Por conta da casa promissora em região nobre, Jimmy acredita com algum ar de superioridade levar vantagem sobre outros moradores de seu bairro original, jovens como ele que passam o dia na calçada se xingando e inventando passatempos suspeitos.

O filme é preenchido por coadjuvantes e figurantes típicos dos subúrbios estadunidenses (e que os aproximam do Terceiro Mundo mais do que eles gostariam de admitir). Um fanático religioso recitando discurso para poucos ouvintes - geralmente o próprio Jimmy na espera pelo ônibus. Um velho que aparece totalmente nu em ponto de ônibus de San Francisco. Uma multidão de turistas em bondinho que ovaciona o velho pelado como símbolo de loucura e autenticidade. Duas jovens sem perspectiva em um ônibus falando sobre as desvantagens de morar em uma aparente decadente San Francisco, que, literalmente, mantém a(s) fachada(s). Moradores brancos de classe média alta, maioria de idade avançada, que estranham a movimentação de negros no bairro torneado de nobreza. Guia turístico e seus clientes em patinetes eletrônicos em visita ao bairro e às casas nobres, procurando saber sobre as respectivas histórias das construções. Corretores imobiliários nada empáticos, devoradores de oportunidades e sonhos - mais do que vendedores de sonhos e oportunidades. Um maluco, amigo/conhecido de Jimmy que transformou o carro em sua própria moradia, com luzes de natal, varal de roupas, bancos/cama reclináveis, mesclado entre a loucura e a lucidez.

São vistas vítimas da violência urbana, da falta de oportunidades de emprego, da desigualdade racial entre brancos e negros, da desigualdade social entre classes econômicas; aparecem os bicos, os sub-empregos, as lembranças guardadas em caixas pela tia de Jimmy, a mistura entre realidade e a fantasia na mente do jovem adulto, a mescla entre história, identidade e projeção futura nas ambições de Jimmy; a busca desesperada e afunilada de Jimmy pelo direito à moradia que um dia foi de sua família. No enfrentamento ao tema da devoração imobiliária, que mantém casas históricas, espaçosas e bem construídas, reforçadas, paradas, sem uso, enquanto milhares de norte-americanos em todas as capitais vivem em barracas, veículos e parques urbanos. A luta pela ocupação, ao menos a oportunidade como direito, sendo vista, sendo tratada como um sonho, uma alucinação, um devaneio, um delírio. Aqui lembra o filme francês sobre o edifício Gagarine, e a velha pergunta - quantos edifícios Gagarine não estão nos cines? Estão no cotidiano das grandes cidades.

Nota final para The Last Black Man in San Francisco:

🌟🌟🌟🌟

05/10/2025

Crossing (2024)

Comentar sobre:

- A história individual de cada personagem

- Os plot twist convertidos aos espectadores

- A relação interior - cidade com a metrópole Istambul

- Comparação entre Istambul e São Paulo / tratamento a LGBTQI+ em Turquia e Brasil

- A busca por Tekla como uma busca por si mesmo


O filme Crossing (2024) ou Caminhos Cruzados, direção de Levan Akin, conta a história de uma busca pela jovem trans Tekla, que deixou um vilarejo litorâneo da Geórgia para tentar a vida em Istambul, uma das maiores e mais complexas cidades do mundo. Complexa de várias formas, como a miscigenação, os vários idiomas lá falados e o tratamento de aceitação ou preconceito referente a essa miscelânea de cidadãos de muitos países. É comparável ou até mais complexa do que São Paulo. 

A professora aposentada Lia (Mzia Arabuli) visita o vilarejo com o intuito de encontrar a jovem, sua sobrinha. Tekla vivia com outras trans em uma casa que causava desconforto aos moradores da remota e conservadora região. A própria Lia declama ainda ao começo do filme de que as jovens na Geórgia costumavam ser respeitáveis e elegantes, não como são hoje. Nessa busca, ela visita a casa de Achi, um jovem sem pais que vive com a família do irmão bem mais velho - com esposa e sobrinhos para Achi. Desinteressado pela vida em local ermo e remoto, Achi percebe na visita de Lia a oportunidade para sair da Geórgia, rumo a Istambul. Era a busca dele por um emprego, uma nova vida. Ele se considera útil para lidar com o idioma inglês e um pouco de turco, pois a aposentada se comunicava apenas no georgiano. Geórgia e Turquia são países vizinhos, mas com restrições e diferenças. A sobrevivência em uma cidade grande é totalmente diferente ao que eles estão acostumados.

Achi termina de se desentender com seus familiares e, de carro, parte com Lia para essa aventura. Ele precisa deixar o carro do lado da fronteira e, com a confirmação por documentos, adentram ao território turco. Embora Achi conheça a referida Tekla, eles têm apenas um suposto endereço para encontrá-la e não fazem muita ideia de como chegar a ele. Começam a pedir ajuda, hospedagem, são interpelados por diferentes figuras locais, por exemplo as crianças que espreitam as ruas atrás de turistas, para ajudas, golpes ou números artísticos. Assim também ocorre com pessoas mais velhas, como se pode observar no filme através de motoristas improvisados, prostitutas, guias improvisados, assistentes em restaurantes, garçons e até empresários. Todos lutam por espaço na Istambul.

A direção e o roteiro pregam uma tremenda peça sobre qual mulher eles estariam buscando, quando a história se divide entre a procura feita por Achi e Lia e sobre a vida das pessoas trans na Istambul. Existe toda uma luta para registro de documentação, para garantia de direitos, de espaço para moradias, de aceitação entre preconceituosos. Existe o risco de perambular, de fazer trottoir pelas ruas, existe o preconceito para conciliar profissão com identidade de gênero. Existe o perigo da captura pelas controversas leis, existe a desconfiança nos próprios familiares sua do se é uma pessoa transgênero. Será que conhecidos de Tekla devem confiar nessa estranha dupla formada pela tia, que não a via há muitos anos, e o denominado amigo do povoado na Geórgia? Se Tekla fugiu, ela deveria ter seus motivos para o afastamento da família. Sabe-se logo cedo que a mãe de Tekla, a irmã de Lia, já era falecida. Era a procura da tia para se conciliar com a sobrinha.

Lia confidencia que esteve na Istambul quando criança, uma viagem com seu falecido pai. A velha evoca memórias, fica ébria de lembranças e bebida, pois é alcoólatra, conflito que tenta conter o ímpeto do impulsivo Achi, mas em vão. É mais uma das contradições, das conservações que a sociedade tenta impor aos mais jovens, mas sem a presteza do exemplo. Eles vagam, cruzam com personagens, se encontram e se perdem pelo caminho. Caminhos Cruzados, como a tradução do título do filme.

Istambul é projetada entre seus fluxos fluviais, a alta concentração urbana e aglomerada, suas ruelas estreitas, suas subidas, descidas, escadarias, restaurantes com mesas distribuídas pelas calçadas, vendedores ambulantes, prestadores de serviço, pedestres dia e noite, vida noturna movimentada, a presença dos conhecidos gatos de rua na cidade - que aí aproximam Istambul mais do Rio de Janeiro do que de São Paulo. Os gatos são figurantes em diversas cenas, entre espera em rodoviárias, departamentos jurídicos ou simplesmente pelas ruas à espera de sobra de banquetes. Istambul permeada por trânsito intenso, pontes, barcos que atravessam o público pela ampla área da complexa cidade. Istambul que, como confidenciado por um personagem, parece que é uma cidade para se esconderem pessoas, para não serem encontradas. Pode ser a busca de Achi também pela sua fugidia mãe, que não entrou mais em contato com ele. Ele enxergará em Lia também uma figura materna? Impulsivo e sem maiores estudos, terá condições de pedalar, de batalhar sozinho uma vida de altos e baixos na metrópole cosmopolita?

O filme é uma busca pela sumida Tekla, mas quase se desiste dela entre desenvolvimento dos personagens e clímax, tamanhas já são as missões individuais de cada personagem, que apreendem e desafiam a compaixão e atenção do público. Os personagens tem tramas individuais, são impulsionadores da empatia e da construção de suas narrativas, vagueiam, refletem, dividem conflitos, desconfiam e confiam; se importam. Importam. São apresentadas vidas marginais, tentativas de sobreviver, de recomeçar, forças de autoridade, desafios das noites, perseverança e possibilidades. Uma Istambul com seus defeitos, mas com oportunidades, de preconceitos e tabus a serem quebrados e vencidos; de surpreender.

Exageradamente em reconhecimento para Crossing (2024)

🌟🌟🌟🌟🌟

04/10/2025

O Azarento, Um Homem de Sorte (1972)

Um filme brasileiro de comédia com humor até bastante escrachado, mas com caprichos do cotidiano que conferem comicidade. Direção de João Bennio. Se mudando do interior para Goiânia, um sujeito apático, solitário e sem o intuito de criar problemas é na verdade o Azarento. Ele atrai situação de desastre, desregula de motores a eletrônicos, destrói vidraças, distrai trabalhadores em curso. Um perigo por onde anda.

O dito Azarento nasceu em uma sexta-feira 13 de agosto, o mês dos cães loucos, de um ano bissexto. Aí calculem qual ano desse calendário gregoriano poderia Lazarento ter vindo ao mundo. Não aprontava tanto em seu pequeno sítio, até mulher apaixonada e prometida esposa havia, mas ele foi para ganhar a vida. Ou perdê-la ou fazer com que percam. O filme não traz tanta história: o princípio é que Lazarento passeia de um lado a outro e por onde por acaso passa é fait diver na certa. Uma confusão que pára o trânsito goiano com engarrafamento, falhas mecânicas e colisões é digna do videoclipe da canção do Green Day, Walking Contradction, quando Billie Joe Armstrong e seus capangas caminham por uma cidade do interior dos EUA fazendo pifar semáforos, postes, placas e veículos. Uma balbúrdia. O Azarento era dessa radicalidade.

Além da cômica cena de parar o trânsito e causar transtorno aos motoristas e pedestres goianos, o sertanejo avança para um páreo de turfe no jockey club. Tudo ocorria bem nas arquibancadas e na arracanda com os cavalos e jóqueis, até que o efeito da presença dele traz quedas, pinotes, andanças em círculo e uma situação de caos que revolta o rápido narrador da corrida. É uma sequência de eventos sem explicação, denunciavam e procuravam resposta entre rádios e jornal impresso. É no jornal que uma conferência se forma ao perceberem um rosto em comum entre fotos dos diferentes desastres que povoariam as páginas do periódico. Mas esse sujeito parece comum a mais eventos, está nesse também e, vejam só, também em outro. Está portanto lançado o apelido maldoso de Azarento para o cidadão presente nos desastres. Ele é ordenado de prisão e afastamento do convívio das ruas.

Após lançada a campanha pela captura do responsável em colocar o cabelo da cidade em pé, uma ligação anônima vinda de um restaurante identifica o herói da trama. A polícia se aproxima da casa onde estão diversos machucados, vítimas das peripécias do Azarento e o procurado estava a tomar café tranquilamente, quando é surpreendido por três guardas. Ele tem voz de prisão decretada, mas nenhum dos homens ousa se aproximar de tamanho azar. À distância e sem algemas, Azarento é conduzido até a penitenciária local. As confusões estariam enfim cessadas? Óbvio que não. Com o azar pendente ao sistema carcerário, os guardas cochilam, os presos armam um plano certeiro apenas com a presença de Azarento, que sequer deixa sua cela, cabisbaixo e recolhido a seu status desprezado. Os demais aproveitam, roubam chave, abrem os portões e ganham as ruas. É caos novamente na pobre Goiânia, não bastassem episódios de Césio na localidade.

Azarento é encontrado pelo diretor da prisão no dia seguinte ainda na solidão da alcova. É expulso. Setenciado que não volte mais, que vá para o mais longe possível. Estava danado o pobre diretor com a debandada de sua farta safra de presos e com o caos novamente a orbitar e a estrebuchar as pacatas terras sertanejas de centro-oeste brasileiro.

Entre episódios de desolação e comicidade, a publicidade é um grande trunfo no filme de João Bennio. Descobrem que o herói passou a calçar sapatos que lhe eliminavam o azar. Se até dele o azar se dissipou, a população estava então obrigada a consumir. Propagandas em rádio, em alto-falantes, em jornais, publicidade até nos começos da televisão em cores para todo Brasil. Azarento vira sujeito famoso e bem quisto, cidadão homenageado, requisitado, entrevistado. O que ele pensa sobre aborto, guerra, política, atores, gente famosa, tudo é questionado ao herói de quase nenhuma convicção e de personalidade nada marcante. Azarento é apenas a personificação do azar, a ambulância dos desprazeres do caos. Mas até para Azarento a vida sorriria. Um garoto traquinas que ele só importunava passageiros de um voo onde sentado ia o herói. Entre outras vítimas enquanto a mãe fazia a egípcia, Azarento tem seu famoso sapato arrancado pelo badboy mirim e assim começa uma turbulência frenética quando o voo da VASP já estava próximo do destino final em terras cariocas. Os passageiros lutavam pela sobrevivência e contra o desespero de uma eminente queda quando percebem o rosto famoso de Azarento na classe da aeronave. Denunciado, aturdido, sem escolha, Azarento deve saltar de pára-quedas para salvar o destino do voo. O calçam com o equipamento de ousado pulo e o empurram para fora. Boa sorte ao Azarento e a todos que chegariam para o Galeão.

Azarento recuperaria sua sorte ao aterrissar justamente em uma piscina lotada de boas pintas cariocas, gente da socialite, de alta recomendação, da classe abastada. Para maior sorte, recorre-se aqui ao spoiler final, ele vai direto para os braços de uma solteira convicta e herdeira, desejada por todos os rapazotes. Azarento estaria recuperado das diversas crises de azar que como uma rinite de espirros o perseguiam em vida? Aí é descobrir nos minutos finais da história genuinamente brasileira e que inspira humor para quem a vê.

Nota final para comédia proposta pelo diretor João Bennio:

3,5 / 5

03/10/2025

La Grande Noirceur (2018)

Philip é um imitador de Charlie Chaplin que vence um concurso entre imitadores do ídolo. O filme tem origem no Quebec, mesclando as falas em inglês e francês, mas Philip está longe de casa, tentando sobreviver em lados ermos do Oeste dos Estados Unidos. Apesar de recente e apocalíptico, La Grande Noirceur é ambientado pós Segunda Guerra Mundial, entre crise e violência, resquícios de nazismo e crueldade.

Logo ao vencer o concurso, Philip sofre nas mãos dos concorrentes derrotados. Tem sua carteira roubada e lhe sobra também somente sua roupa do corpo. O filme é bastante introspectivo, na solidão e nas dificuldades enfrentadas pelo personagem principal. Ele perde e corre atrás de trens. Passa dias endesertado, entre a terra árida e o gelo. Encontra carona com um francês que lhe compreende e ambos podem conversar no idioma que mais lhes convém. O francês conquista a confiança de Philip e se anuncia como um procurador de talentos como o dele. É bonita a cena em que pede para Philip exibir seu número e o protagonista dança solitário pelas terras do deserto, montanhoso ao fundo. Os passos descontraídos e descomedidos são interrompidos por um anúncio de rádio que corta a magia da canção. Os Estados Unidos seguem retrucando pela guerra. São um país que se recusa a perder, que só ambiciona vitórias, que admira os melhores do beisebol, de outros esportes e precisa desse sangue jovem, atrevido e vencedor em busca das conquistas na Europa. Os EUA não toleram os perdedores, então não seja um - Philip, revoltado com a propaganda belicosa, salta para o carro do francês (que talvez nem estivesse entendendo toda a mensagem) e desliga o rádio, enquanto desaba em exaustão e emoção pelo período de crise.

Philip deixa a carona e prossegue sua jornada. Ele encontrará vilarejos remotos e uma casa que parecia a acolhida necessária, com uma loira atraente, mas cada vez mais estranho. La Grande Noirceur é de 2018, mas parece incorporar cenas como Good Boy, de 2022, em que seres humanos são tratados em tempo integral como cachorros. Assim foi a captura da chamada Rosie, uma jovem atada por coleira, controlada pela estranha loira. Rosie revela que foi capturada há cinco anos e seu verdadeiro nome é Esther. Ela se alimenta e dorme no chão, distribui lambidas e vive amarrada na incorporação de ser uma cadela. Está sob controle absoluto dos párias psicopatas. Embora a loira diga que seu marido havia morrido, essa é só mais uma das crescentes suspeitas e dúvidas de Philip nesse universo diabólico e violento.

Philip tem uma jornada introspectiva, fugidia e permeada de personagens bizarros que demonstram a cultura de violência sobrevivente dos Estados Unidos da América, mesmo entre não idos à guerra. Sintomático dessa nação de guerrilheiros que pregam uma liberdade para acorrentar pessoas como cachorros. O desejo do canadense era voltar para casa, onde desejava se encontrar com sua mãe. Alguns elementos do filme permitem identificar a época remota, mas fazem pensar justamente em um tempo atual após eventos catastróficos (como uma nomeada guerra distante ou local, civil). O contato com a mãe no Canadá é feito por telefones interpelados por telefonistas, profissão em desuso. A tecnologia aparece pouco, mas é possível ser vista em automóveis como o dirigido pelo francês na erma estrada. As armas de fogo estão sob as mãos dos verozes habitantes, pela sobrevivência ou para realizar ataques contra fragilizados. Onde haverá espaço em um mundo como esse para palhaços imitadores, dançarinos e musicais apreciadores de arte, performadores de arte?

Então, a produção do filme não necessariamente transporta para época do século passado. É uma crítica aos Estados Unidos atuais, um interior armamentista, uma população convocada por forças ditas patrióticas, fomentadora de guerra, dos artefatos bélicos, da liberdade que restringe a liberdade estrangeira, do outro. La Grande Noirceur une elementos dos filmes noir da época, do pós guerra, das décadas de 1940 e 1950, com a crítica que permanece válida em uma nação comandada pelo reeleito e sedento Donald.

Nota final para La Grande Noirceur:
🌟🌟🌟🌟