Subi ao carro do Uber, era um motorista de meia idade, entre pardo e negro, barba bem feita, praticamente calvo. Não houve muito diálogo. Lembro de perguntar-me a rua. Primeiro ponto estranho. Confirmei que era a Rua Tubarão, para o lado oposto da cidade. Sou professor estagiário, é minha segunda vez lá recém, menti, porque era minha primeira vez, mas, diante da desconfiança que aquele sujeito frio provocava, querendo ou não, eu não quis parecer totalmente iniciante, pelo menos em termos de endereço. Na verdade eu nunca tinha ido àquele colégio e esperava que o motorista guiasse porque previamente soubesse. Tive que fingir que ao menos eu sabia onde iria. Rua Tubarão.
Ele prosseguiu em um tremendo silêncio. Se assustou quando surgiu no asfalto de qualidade duvidosa um bloqueio de cones que o obrigou a uma curva mais brusca do que a original. Assobiou uma onomatopeia e desencadeei a falar como se houvesse necessidade, como se eu lhe devesse alguma coisa, além do dinheiro, já depositado pelo cartão, na corrida. Falamos do trânsito, do mais banal e corriqueiro possível. Ele atravessou as ruas necessárias e novamente, sem ajuda tecnológica, perguntou por qual rua seria o destino. Já estávamos no bairro correto: Rua Tubarão. Salteei para ele também o número do prédio, 300 e algo. Estávamos próximos, creio.
Corríamos por uma avenida paralela à Rua Tubarão - depois confirmei no mapa. Eu disse que poderia parar, que estava tudo certo. Ele fez questão de descer do carro e me acompanhar. Havia uma outra escola que ocupava quadra inteira pelo caminho. Se pegássemos o atalho passando dentro daquela escola, sairíamos na Rua Tubarão. Minha surpresa foi tamanha receptividade. Na verdade ele conduziu o carro até onde cabia o carro, no estreito já do pátio interno da escola, roçando os vidros retrovisores no coquetel de paredes. O motorista antes frio fazia questão de terminar a corrida até o meu destino final mesmo. Eu notei que precisava chegar pelas nove horas da manhã. Já eram dez horas. Nem sei para quê exatamente me dirigia à escola. Para justificar minha ausência, meu atraso?
As surpresas não cessavam. O sujeito uber me posicionou então em uma cadeira de rodas por onde o carro dele não mais passava. Mas eu seria conduzido com toda certeza e mordomia pelos labirintos do bem pintado colégio. Naquela semelhança entre presídios, hospitais e escolas, navegava pela condição dos braços do uber à cadeira de rodas pelas aventuras de um hotel do filme Iluminado. Havia uma escada alta, indicando que do anterior pátio já estávamos em um nível superior, a escada conduzia abaixo. Era meio alucinante ser conduzido rapidamente de uma cadeira de rodas escada abaixo. Velocidade e perigo em constância. Chegamos à porta corta-fogo de saída. Um pátio dos fundos deserto, espaço suficiente para estacionamento de muitos carros. Não era um jardim, antes era uma grande terreira, um alaranjado ermo com fagulhas de teimoso capim. Olhei para os lados e o sentimento negativo abundava. Um suspeito veio em sentido oposto, no largo e antes desabitado portão de entrada-saída daqueles fundos. Um capanga.
Eles me cercaram. O motorista queria minha pasta, meu celular, eu, pobre coitado, nem professor efetivado ainda, com eletrônicos a consertar em casa para no mínimo poder trabalhar, gerar atividades, planilhas, imprimir. Me negava a entregar o que fosse e iria para o confronto corporal ou para tentativa de fuga. As impressões suspeitas estavam confirmadas. Não poderia aquele sujeito não saber o destino, que deveria estar registrado em seu aparelho na corrida, não perguntando seguidamente pela tal Rua Tubarão - e que tamanho atraso eu estava dela. Não poderia aquele sujeito frio do nada querer me acompanhar até meu destino final mesmo a pé, ainda mais me conduzindo por meio de uma cadeira de rodas, que sabe-se lá de onde arranjou - minha vó necessita uma. Do confronto de dois contra um conseguiu manter-me íntegro com uma dose de coragem e outra de sorte. Do colégio que atravessamos juntos somente a lembrança dos alunos inquietos e de algumas coordenadoras estranhando a cena, como se fôssemos cientista maluco e criatura pelos caminhos errôneos. Do outro colégio, o que eu necessitava alcançar na Rua Tubarão, apenas a lembrança do atraso e um trauma para continuidade de buscar ele longo caminho por horas de estágio. Vocês não vão acreditar no que me ocorreu hoje, disse ofegante, quase às 11 horas da manhã.