As pessoas são as mercadorias alugadas pelos ônibus.
28/05/2024
27/05/2024
Verdade é
A verdade é que as pessoas são ruins. Sob condições de algum conforto, algum poder, são ruins, julgam as outras, se sentem superiores, isso sob qualquer condição, basta ver o que ocorria na favela do Canindé sobre as denúncias de Carolina Maria de Jesus ou quem mais nessas condições ousasse ou pudesse escrever.
As pessoas só parecem melhores quando acuadas, afetadas, contra-paredadas, frágeis, destrutíveis, manipuláveis. Aí parecem boas, dignas de pena. Sob outras condições mais favoráveis seriam as opressoras. Raros são os que não. Será?
25/05/2024
Mais Fragmentos
E o velho lobo do mar disse:
Não sei mais conduzir-me por madrugadas - se é que um dia soube.
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Lavo capas de livro com o suor de minhas mãos.
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A luta dos cangaceiros é um império oco diante do poder do capitalismo estrangeiro.
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Só acha que é especial quem não conhece o resto.
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Conhecer a história da literatura e do cinema faz perceber que todas nossas lutas atuais já foram abordadas e a maioria das lutas silenciadas ao máximo.
20/05/2024
Fragmentos
Sou hipócrita porque tento me posicionar sempre. Quem não se posiciona é mais fácil que não seja hipócrita.
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Meus nervos enviam diferentes sensações para o meu cérebro. Geralmente ruins.
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Há memórias que somente você vai esquecer. Somente você estava lá. Então só você vai esquecer. Os demais nem estavam, nem sabem. Então só você vai esquecer.
19/05/2024
O Sacrifício - de Andrey Tarkovsky
"Com amor e fé, Andrei Tarkovsky" - é a dedicatória ao final do filme de 1986. O diretor russo também em uma passagem da película lisonjeia, exalta o que seja "inocente e profundo". Este é um dos melhores filmes da história do cinema, não tenho dúvida.
Para começar, quem é o Alexander, papel principal de O Sacrifício? Um ex-ator de teatro sueco que conquistou sua esposa assim, mas cansou de representar. E pelo que é visto, no filme também representava o papel de marido, pois eles pouco tinham a ver. Alexander passou a ser professor de estética em universidade, historiador e escritor. Seu amigo carteiro Otto inicia o filme lhe entregando uma parabenização pelo correio, vinda de antigos amigos do teatro. Relembram quando Alexander representou o marcante príncipe Michkin, de O Idiota, de Fiodor Dostoievsky. Também havia representado Ricardo, de peça de William Shakespeare. Tempos passados que Alexander havia superado para viver sua vida refugiado em outras profissões e naquela distante casa de campo. Aliás, as paisagens e o ritmo lento filosófico são marcas fundamentais dos filmes de Tarkovsky. Para os menos pacientes para as mais de duas horas de película, pode-se acelerar o tempo em 1,25x sem medo. Mas as paisagens são de tirar o fôlego. Uma sintonia com a natureza morta viva, viva morta digna das melhores pinturas do naturalismo e realismo russos. Variadas cenas permanecem paralisadas evocando como que aos melhores quadros a que tenhamos conhecimento.
A grande paixão atual do protagonista era o filho pequeno, noviço para idade do ancião Alexander. Na tarde de seu aniversário, o sueco é surpreendido com a notícia de que a terceira guerra mundial estava para acontecer, que as ogivas nucleares devastariam toda a Europa e não haveria lugar seguro. O que fazer? Diante do desespero, Alexander despe-se de todo e qualquer preconceito e, a partir do pedestal mais rasteiro possível, anseia por conversar com o Deus máximo, isso após em início arrastado - como são os belos filmes de Tarkovsky - haver mencionado que nos tempos modernos até rezar as pessoas haviam desaprendido.
As citações filosóficas sempre constroem os polidos personagens em ação de Tarkovsky. Enquanto estava com o pequeno filho no mato ao plantaram uma simbólica e solitária árvore japonesa - pois o menino era fã do Japão - Alexander debatia sobre os rumos tomados pela humanidade em um monólogo que até a ele entristecera e incomodara. A humanidade avançou tecnologicamente apenas para seu proveito e conforto, mas segue com a brutalidade dos tempos mais remotos. Quem são os verdadeiros selvagens? Quem destrói o outro e o mundo? O sentimento catastrófico trazido por Tarkovsky permeará diversas obras escritas e cinematografia a partir desse tempo. O que se pode fazer em um dia que é transformado de passeio em bosque entre pai e filho, em pleno seu aniversário, para o fim eminente do mundo? E quantos fins do mundo nos deparamos até hoje, diante e entre guerras que ainda não são nomeadas de terceira mundial, enchentes, catástrofes e demais eventos apocalípticos no coração de cada um? Quem está seguro de encontrar as coisas como estavam antes de sairmos de casa? Como agir quando o mundo, quando o jogo, quando a vida muda todas as perguntas e nos exige de prontidão novas respostas rápidas?
Alexander promete o maior dos sacrifícios. Vai mudar radicalmente de vida caso a sua e de seus familiares, amigos, humanidade sejam poupadas. Para isso, o carteiro Otto, diante da prece desesperada do professor, envia a missão destinada a Alexander. O plano de trocar de vida a iniciar pelo sacrifício de seu trágico casamento: a mulher confessava no iminente fim do mundo que era apaixonada por outro. Caso a missão secreta enviada pelo carteiro seja cumprida e a humanidade seja salva, Alexander promete abrir mão da casa, de seu conforto de aposentado em seus aposentos e de qualquer contato com outros humanos. Promete um eterno voto de silêncio, capaz de ultrapassar os limites de qualquer indiano Ghandi. Alexander, um ex-ator em seu papel fundamental para raça humana. E quem de nós nunca se sentiu assim diante das maiores tragédias gregas, no conversar no teti-a-teti com os deuses do olimpo?
A angústia sentida perante o fim dos tempos, a missão calcada em um jogo labiríntico de caça, em que Alexander não pode ser notado pelos demais familiares, em sua fuga, em seu desamparo, em seu desespero. Não vá de carro, Alexander, eles podem ouvi-lo e acabarem com a missão ultrassecreta. Vá de bicicleta. Com a danificada bicicleta do carteiro, entre lodos e barros tal qual um soldado de patente baixa em missões entre as trincheiras.
O filme ainda é cíclico. As cenas de início e final se fundem, se arrematam entre bicicletas e a tranquilidade, inocência do menino perante a natureza. Profundo e inocente como havia a pista de Alexander no início da película, admirado em seus estudos sobre as formas humanas antigas ao longo da História. A humanidade foi profunda e inocente em conhecimentos pelo permear dos séculos. Hoje nunca fomos tão destrutivos, com antigos sentimentos mortais capitalizados pelas armas mais poderosas desse nosso visto universo. Somos capazes sim de abduzir: abduzir a vida animal com a extinção e poder temos também de abduzir a vida humana. Alguns têm a humanidade ao alcance da mão, do foguete, do disparo, do botão.
Só Alexander conversou o que conversou, viu o que viu. E se a humanidade estivesse em nossas mãos, qual seria o tamanho de nosso sacrifício? E nas nossas pequenas vidas, constituintes desse todo, quais os sacrifícios que podemos fazer por um mundo melhor, nem que seja por nós e nossos próximos?
O SACRIFÍCIO (1986)
Direção: Andrey Tarkovsky
18/05/2024
Longe do Vietnam (1967)
Um grupo de diretores franceses, compositores da chamada Nouvelle Vague, fez apontamentos sobre a guerra do Vietnã em 1967.
Enquanto a guerra transcorria na Ásia, debates sobre as imagens e os sentimentos gerados também ocorriam. Segundo as próprias vozes oficiais dos Estados Unidos, era a primeira guerra com uma cobertura completa de imagens, televisão e telejornais. Correspondentes que acompanharam as movimentações do local voltaram zonzos. Uma repórter relata que não aguentava mais o som de motores, helicópteros e bombardeios.
Era a guerra do exército mais rico do mundo contra um pobre país. Uma guerra ideológica. Uma guerra para tentar servir de exemplo a todos que dessem oportunidade para a corrente do comunismo. Um pequeno país campesino se organizando para se defender de toneladas de bombas lançadas diariamente. Um país agrário em sua própria defesa, pois ali os soviéticos não quiseram esquentar a mão no que ainda hoje se chama de Guerra Fria.
Os vietnamitas se organizavam como podiam em suas pequenas cidades e vilarejos. Também tentavam encenações, peças de teatro para distração mas instruções. Foram cavados milhares de túneis e de abrigos individuais subterrâneos. Em caso de alarmes de bombardeios ou invasões, os vietnamitas se escondiam em alojamentos concretados abaixo da terra. Milhares devem ter sobrevivido a partir dessas construções rústicas e muito úteis. Os Estados Unidos eram o exército mais rico do mundo, com equipamentos tecnológicos até hoje para muitos países. Porém, os jovens mandados à guerra sabemos quem são. Não são os de famílias abastadas. São negros, latinos e pobres de estudos atrasados. Esses foram a maioria dos chamados voluntários. Muitas vezes coagidos e esperançosos por um emprego ou algum orgulho para suas chorosas famílias.
Protestos ocorreram longe do Vietnã. Na França o vice-presidente dos Estados Unidos foi recebido a protestos, cartazes, correria e confrontos policiais. Ignorava os constantes "Go home". Ao mesmo tempo discursava seu discurso pronto de falso bom acolhimento, receptação amistosa e bem sucedida. Ao mesmo tempo os franceses viviam naquela década os confrontos com a Argélia, por exemplo, tema de filmes da época, como O Pequeno Soldado, de 1963, de Jean-Luc Godard.
Recentemente falecido, Godard é um dos que mais aparece em minhas citações. Ele encabeça essa lista de diretores responsáveis pelo drama documentário em questão. Godard afirmou que pensava fazer um filme específico sobre o Vietnã. Pensava colocar sua visão sobre a guerra, uma visão francesa e distante sobre a guerra. Percebeu que não adiantaria e isso é colonizar culturalmente, como os próprios Estados Unidos costumam fazer. Em seu relato, o diretor compara as lutas. O Vietnã em uma luta desesperada para sobreviver e ser seu próprio país, com seu próprio costume e seu povo humilde e simples de sempre. O cinema de Godard e de outros franceses e europeus travavam uma luta contra o domínio hollywoodiano do modo de fazer cinema. Comparações à parte, uns pela sobrevivência direta, outros pelos afazeres em modo de pensar e refletir cinema, para um ganho sim da comunidade intelectual europeia, ambos viviam aquela urgência para escapar das garras norte-americanas. Godard então não fez o filme direto sobre o Vietnam e comentou que era melhor que a visão vietnamita chegasse até eles, até a distância europeia para guerra. Aprender com eles ao invés de impor o ponto de vista sobre aquele distante conflito, que chegava apenas por imagens captadas e editadas para uso pelo mundo ocidental.
Um norte-americano de nome Morrison se suicidou nos Estados Unidos ateando fogo em seu próprio corpo. Foi um protesto pela forma como muitos vietnamitas morriam na Ásia, queimados pelos soldados dos EUA. A esposa concedeu entrevista que não se surpreendeu com a atitude de Morrison, pois era assim que ele reagia ao ver as imagens da guerra. Impotente, mas jamais desinteressado. Suicidou-se em gesto lembrado até hoje. Uma família vietnamita em França deu entrevista sobre o ocorrido, agradecendo ao norte-americano que se sacrificou por eles, pelo seu povo.
Em tempos de refletir quem conhecemos, quem tem fama, sabemos então que o suicida chama-se Morrison. Mas quantos vietnamitas conhecemos? Quais figuras públicas nos chegam ao conhecimento? E os milhares que lá morremos que conhecemos apenas por "os vietnamitas"? Quantas histórias de agricultores, pescadores, motoristas e trabalhadores de construção ou de organizações comunitárias lá foram ceifadas? Em Nova York houve enorme protesto, assim como em outras cidades dos EUA, calculando que mais de 500 mil pessoas foram às ruas pedir pela paz, pelo cessar fogo, para trazerem as tropas de volta para casa. Muitos ainda eram a favor da guerra e devolviam argumentos típicos da direita. Uma luta patriótica pela libertação do Vietnã. Libertação de quem? Do comunismo? Dos sovietes que nem mais se meteram nesse conflito armado?
E todas essas mortes em nome do domínio, do imperialismo, da economia dos Estados Unidos ao longo do século 20? Por que chamamos guerra fria se tantos morreram? E essa economia dos Estados Unidos que cedo ou tarde seria ultrapassada e hoje chamamos o seu capitalismo de tardio? Valeu a pena?
Cartazes afirmavam frases prontas sobre os ricos ficarem mais ricos e os pobres na pior. É isto que ocorre. Empresas lucram de forma bélica e jovens são postos à morte, entregues a terrenos hostis e desconhecidos, em Vietnãs, Iraques ou Afeganistões. Ou Palestinas. Mais do que isso, esses confrontos em que os apertadores de botão não botam a cara, não saem de suas salinhas condicionadas, ceifam jovens, mulheres, civis, crianças do lado oposto, gerações perdidas eternamente. O Vietnã pontuou que seria resistência. Este era o pensamento nacional, pela sua própria libertação dos yankees, custe o que custasse, o tempo que custasse. A guerra declinava e para os Estados Unidos a desistência foi uma dura derrota. O sentimento nacional dos yankees debilitado, o rabo entre as pernas, a soberania afetada, o saldo sempre em mortes mais do que representado em cifras.
Os vietnamitas dos exércitos improvisados e desestruturados resistiram. Um pequeno país agrário, conhecedor de seu terreno, contra jatos, aviões, tanques e rambos. Um trecho do filme Longe do Vietnã convoca a todos formarem seu próprio Vietnã ideológico. Se você for dos Estados Unidos, lute pelos negros, pelos panteras negras, se você for da Guiné ou da Angola, lute contra os portugueses, se você for latino-americano, lute pela sua América, pela sua gente, pelos seus produtores. Não caia nas garras da dominação estrangeira que tanto tenta interferir e explorar o máximo possível o seu país. O Vietnã foi um exemplo positivo, como defendia o governo cubano, de que era possível resistir, mesmo a um preço tão caro, vidas acabadas pela guerra contra a dominação estrangeira com seu aparato tecnológico bélico.
O Vietnã ainda tão pouco estudado ainda pode ser visto por nós. Como em filmes como Longe do Vietnã, mesmo nós estando distantes. Estávamos distante territorialmente, distantes agora temporalmente passados mais de 50 anos, mas a dominação capitalista selvagem em nossas florestas, nossas cidades, nossas agências de notícias permanece. O que fazemos a respeito? Onde está o nosso Vietnã? Por que Elon Musk doa antenas ao Rio Grande do Sul? Por que o governo Biden doou 100 mil reais enquanto para as guerras em Israel ou na frente ucraniana são bilhões? Que interesse eles têm em ajudar? Ou permanecem esquentando guerras que só são frias porque não são no território deles? Perguntas que devemos nos fazer. Onde está o nosso Vietnã que poderíamos constituir no dia a dia?
Longe do Vietnã (1967)
Direção: Chris Marker, Joris Ivens, Claude Lelouch, Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Agnès Varda e William Klein.
Sinopse pelo Filmow: Diversos cineastas da Nouvelle Vague documentam e expressam sua simpatia pelo exército norte-vietnamita, durante a guerra do Vietnã.
17/05/2024
Wim Wenders
Filmes de Win Wenders
Nem sempre vendem
Acrobatas, luz que apaga
Luz que acende
Pessoas de gravata
Pessoas que ninguém entende
Luzes que acendem
Dentro da mente
Como em um típico filme
De Wim Wenders
Alemanha repleta de anjos
No alto das torres e pelos cantos
Acrobatas que não usam cordas
Valores, ideias quase mortas
Como em um típico filme
De Wim Wenders
Ideias desalojadas mudam de sede
A vida descoordenada ao que se pede
O lamento, a angústia é o que se bebe
Como em um típico filme
De Wim Wenders
Sensibilidade pra entender
Trens e nomes de cidades
Pessoas achadas e que se perdem
Berlim, Wolfsburg, Nuremberg
Como em um típico filme
De Wim Wenders
07/05/2024
Arsèny Tarkovsky
Em O Espelho (1975)
... o destino nos persegue como um maníaco com uma navalha em mãos.
... a agulha veloz da vida me puxa pelo mundo como uma linha (poema Vida, Vida)
03/05/2024
Compasso de Espera (1973)
26/04/2024
Domicílio Conjugal
O trabalho obrigatório poda a criação liberta. Tive que guardar umas poucas coisas antes de deitar para escrever essas linhas e quase perdi totalmente a vontade. São 3h35 da manhã nesse exato momento. Acabo de assistir ao filme Domicílio Conjugal, com Jean Pierre Leaud e Claude Jade. Direção de François Truffaut, um dos favoritos da casa.
Estou na residência dos meus pais. Fechei a janela do banheiro porque minha mãe achou corretamente que poderia encarnar vento e do banheiro a corrente de ar bater as portas do meu e do quarto deles. Cheguei a escutar algo assim hora atrás. Ela correta. Também procurei dar descarga silenciosamente agora, o que é impossível, mas na minha cabeça eu tento.
Minhas meias e minha cueca apertam minha circulação e parecem danificar mais ainda meus nervos e músculos. O que será do meu futuro? Procurei e a bela dentucinha Claude Jade morreu em 2006. Isso é há muito tempo. Jean Leaud ainda não foi embora, mas tem 79 anos e irá. Eu sinto muito mesmo. Percebo ao beber água na cozinha, novamente tentando não evocar ruídos, que todos vamos morrer. Pensamento que veio de filme que vi ontem, o nacional Depois a Louca Sou Eu, inspirado em livro da paulistana Tati Bernardi, com atuação de Débora Falabella.
Claude Jade morreu e Jean Leaud vai morrer. Os diretores Jean Godard e Truffaut já morreram. Eu um dia irei. É duro perceber que não darei certo com mais alguém. Na verdade é libertador e solitário. Melancólico e abridor de várias possibilidades de acabar em nada. É confortável e desconfortante. Confortante e desconfortável. É enxergar menos passado do que se pretendia e muito pouco futuro. Até pouco tempo a vida correria para frente, para diante, um horizonte a se desenhar, talvez com um emprego agradável, viagens e novas pessoas a conhecer. Agora estou contagiado pelo vírus da mesmice. Penso em pouquíssimas viagens que eu realmente deseje. Vi no documentário Terras, um trecho de rádio latino-americana anunciar que a maior fonte de renda europeia é o turismo. Quero eu dar dinheiro a mais para essa contribuição em troca de migalhas de aprendizado e satisfação visual ou paladar? Quero eu manifestar minha devoção ao continente que mais expulsou meus antepassados judaicos? Quero eu conhecer os complexos vira-latas da família, em algum lugar entre Portugal, Alemanha e Polônia? Quero eu e eu por acaso mereço?
Não planejo mais grandes viagens, mas pode ser que as venham. Não planejo mais grandes empregos, só se me arremessarem algo do tipo no colo e, veja bem, inventarei poréns para trocar grandes oportunidades e melhores salários (ou não) por resquícios de tranquilidade, evitando correrias mesmo que assim aceite cabisbaixo outras.
E não me vejo mais morando com alguém, dividindo experiências profundas em sintonia. Não acredito no amor máximo, uno, indivisível, burguês e vencedor de uma disputa célebre majoritária. Acreditaria no máximo no respeito e na não condenação ao fastio e ao tédio que engodam, sugam e massacram a vida e o sentimento de estar vivo. Acreditaria em uma união positiva para ambos os lados, sem amarras impositivas contrárias à criação e experimentação, mesmo que essas fossem, em virtude do acordo respeitoso, limitadas ao experimento onírico da bebida e da troca amistosa de conhecimentos. Isso é evoluir. É viver. É positivar a existência ao caminho do aprendizado, dá arte e do aproveitamento proveitoso dos tempos. Acreditaria nessa utopia toda, mas nem nisso acredito. Acredito consumir minha existência através de amargas linhas, amargos dias, misturados a pitadas de bom sabor, cuja ponta da língua identifique e se satisfaça em breves intervalos, antes que o soberano fastio se dissemine novamente.
Acredito tão pouco nas utopias do amor e vou tentando, colhendo flores caídas e espinhos revoltos, tentando me reerguer em novas possibilidades muito desafiantes e escassamente prometedoras. Já nada se promete porque não me engano. Ou justamente me engano porque acredito que mais nada se prometa. Talvez caminhos que eu acredito estarem fechados não sejam necessariamente o fim. Talvez.
24/04/2024
Vale das Bonecas (1967) e Terras (2009)
Acabo de ver o filme Vale das Bonecas, direção de Mark Robson, de 1967. A primeira crítica que leio sobre foi a de entregar a direção nas mãos de um homem. O filme tem total protagonismo feminino, através da história de três mulheres. Ou quatro. O destaque vai para cantora Nilley O'Hara, rejeitada de um musical por uma invejosa veterana, dona do espetáculo em Nova York. Ela busca a carreira na parte oposta dos Estados Unidos, em Los Angeles. Mas seu vício por pílulas vai colocar tudo a perder. É sobre ascenção e queda, o vício, a indústria, a substituição, a obsolescência programada. Pessoas substituíveis e uma engrenagem de espetáculo que não para, empilhando atrizes e atores descartáveis. Aqui a ênfase nas mulheres, substituíveis tão logo passem seus auges, suas mocidades.
Mulheres que são usadas por homens ricos, por donos dos estúdios, das gravadoras, da programação. Homens que escolhem, apontam dedos quando ninguém os aponta. A crítica inicial ao filme é que o diretor aliviou a crítica para os papéis masculinos, consideração com a qual concordo. Pelo ponto de vista do mostrado no filme, que é baseado em um romance feminino da época (da autora Jacqueline Susann), parece que as mulheres brigam entre si, surtam entre si, enquanto os culpados saem pela tangencial da inocência.
Pois no mesmo dia recebo a fofoca de que duas ex-colegas de escola estão passando pela prostituição em grande centro brasileiro para serem investidoras desse dinheiro na cidade natal delas, no interior. Andam com magnatas, se vendem corporalmente em troca de pequenas ilhas de luxo, talvez carros do ano, quartos de hotel com boas vistas e relógios que custam mais do que minha conta bancária acumulada. Empreendedorismo bonito de rede social, com fotos chiques, roupas da moda, corpos bronzeados e autovenda no açougue aos olhos.
Interessante ter escolhido assistir a esse filme norte-americano na noite anterior a receber essa notícia. Interessante que as mesmas irmãs que agora são empresarias neste ramo aproveitem sua juventude ao passo que recordo criticarem na época uma colegial que já se vendia e usava drogas. Assim imagino outras da época. As que prosperam em carreiras de estudo e devoção a outros trabalhos mais bem anunciáveis são pouquíssimas. O que a tentação e o capitalismo não fazem? O prazer imediato de quem compra, o prazer quase imediato de quem vende e em seguida recebe em troca. Ou até durante. Ou até recebe antes, na troca de promessas. Corridas em carros de luxo, hotéis altos, cafés da manhã, sorrisos brancos consertados, publicações cheias em vidas vazias. O que farão futuramente? Terão história para contar. Ascenção e queda.
A carreira dos holofotes concorridos nos Estados Unidos, os perfis de Instagram com seguidores anônimos. Quem realmente liga para a história que está ali? Quem liga para o abuso de comprimidos, para os preservativos descartados a cada uso, para as pessoas que passam e não ficam sequer para arrumar a cama? O quanto os empresários ligam para suas supostas estrelas, para substituição entre um espetáculo e outro, às vezes entre um show e outro?
Para completar emendo assistir ao documentário Terras, de 2009. Imaginava algo oriental pelo nome da diretora ser Maya Da-Rin. Mas é amazônico. Amazônico na sua essência. As entranhas da floresta. A fronteira entre Brasil e Colômbia, sendo uma das cidades chamada Letícia. Anônimos que fogem de guerrilhas, que vendem batatas, cebolas, artefatos. Indígenas originários, brancos invasores. Quem disse que o modo de vida comercial capitalista é o correto? Quantas gerações de indígenas passaram? Ok, vivendo menos, até os 30 ou 40 que sejam, mas por milhares de anos, enquanto nosso modo de vida industrial acabará em ilhas enormes de plástico nos oceanos, terras e seres para cultivo exterminados, garimpo, gula, egoísmo, extração final de recursos. Nosso modo de vida proposto pelos industriários e verdadeiros capitalistas detentores acabará com o planeta em pouco tempo. Mais algumas décadas, mais tardar século, se não com as bombas, drones e guerrilhas armadas no Oriente médio, Ásia, Europa ou respingos aqui. O nuclear é potente.
Uma indígena afirma que antigamente tudo era compartilhado, enquanto o dinheiro hoje é um modo que cada ajuda, cada competência, cada correspondência entregue é cobrada ou nada feito. É o modo com que aprenderam dos brancos.
Quem está em capacidade de julgar atrizes excluídas e decadentes, prostitutas, indígenas corrompidos, indígenas que participam da corrupção ou dela são somente vítima? Quem está no julgamento de gente que perde o rumo seja pelo desespero da primeira fome ou pelos anseios de diamantes falsos da segunda fome, a espiritual ou só do mundo das aparências?
Certa vez cheguei a me indagar porque alguns poucos milhares de indígenas precisariam de áreas grandes do tamanho de estados, mas imagine a importância da preservação de terras, de natureza e o impedimento da ganância máxima. Por que os originários que tanto sofreram na mão dos brancos em matanças, escravização, imposições religiosas, imposições de costume não podem ter seu espaço de preservação enquanto empresários 1% mais ricos detêm a riqueza de milhões e milhões de nosso povo? Em terras, heliportos, empresas sonegadoras, financiadores de armas, de drogas escondidas e achadas, terras, terras e mais terras. Nós cada vez mais longe de devolver para os indígenas como hoje em dia só propõem da boca para fora, do sonho radiante, esvoaçante e passageiro como fumaça de cachimbo ou em postagens ligeiras de redes sociais. Para onde vamos e quem dá mais?
19/04/2024
Vento do Leste (1970)
Reflexões sobre um filme de Jean Luc Godard. Vento do Leste deve ter esse nome pelos ensinamentos que o comunismo vindo do Oriente, de Chinas ou Soviéticas poderiam passar. Há uma participação do brasileiro Glauber Rocha quando evoca-se o pensamento sobre como é o cinema no terceiro mundo e como se pode tentar superar a representação, essa espécie burguesa.
Também gostei do filme da crítica ao cinema de Hollywood, que vende cavalos falsos como mais verdadeiros que os verdadeiros cavalos. Mostra indígenas falsos trazendo uma representação no público que os falsos sejam muito mais verdadeiros que os verdadeiros. E assim cria mitos políticos de ideologia soberana e imperialista. Os norte-americanos bonzinhos, financiadores e emancipadores. Como no filme Guerrilheiros nas Filipinas, de Fritz Lang, que mostra o grupo norte-americano bonzinho ao libertar entre aspas as Filipinas dos japoneses durante a segunda guerra.
A segunda guerra. O terceiro mundo. Coisas difíceis de entender?
Vim aqui só refletir que:
Sem a revolução estamos condenados a comemorar pequenas vitórias enquanto o mundo se afoga em um atoleiro de merda.
O marxismo resumido em última instância à frase declarada: temos razão em nos revoltarmos.
O filme anuncia os inimigos das revoluções preteridas à época: combater os donos das produções e os revisionistas que insistem em brecar os ares da mudança e em protegê-los.
18/04/2024
16/04/2024
14/04/2024
23/03/2024
Haifa
"Quando você sonhar, é melhor sonhar algo grande, porque quando acordar restará nada."
Haifa, filme palestino de 1995. Direção de Rashid Masharawi, com participação de Mohammad Bakri.
22/03/2024
15/03/2024
A voz - Flores do Mal P. 209
Rio nos velórios e choro nas festas
Encontro sabor doce nos vinhos baratos que tomo
E acrescento fatos nas mentiras que conto
Mas a voz consola e diz "mantenha teus sonhos"
Que os sábios não têm tão belos sonhos que os loucos -
Charles Baudelaire
13/03/2024
Estrela Solitária
Aguardo de ti a derrota
Como sempre recebi outras
Botafogo Futebol e Regatas
Assine ao final da ata
Capitã Morte
Estás, meu amigo, em pleno esconderijo
Mantém teu segredo assim forte e rijo
Não temas a morte!
Que ela é tema de azar... ou de sorte
Há quem dela escape e por aí viva
Quem bem pilote e deixa nada à deriva
E de bem pilotado é capturado
A quem caia na rede desse bote
Há enganos e há trotes
Ao final, impiedosa capitã das mortes
Tenho medo
Tenho medo de não amar-te
E perceber que nada amo
Perceber que toda vida
Solamente solidão, engano
Tenho medo à parte
Durante a arte em que atravesso
Um universo à la carte
Finito só nos meus versos
06/03/2024
Versos para cada Versta
Eu alterei a minha própria letra
Eu me processei
Alterei bem mais que duzentos e cinquenta
Versos que eu nem sei
Se cada verso for um universo
Esse verso acabará em Júpiter
Esse aqui será meio desconexo
Esse talvez agrade os junkies
Esse nem Jung explicará
E esse não vou ser eu quem meço
Eu alterei minha própria gaveta
Alterei a gazeta de notícias
Alterei os decretos e as profecias
Por notícias fictícias
Se cada verso for um novo começo
Esse verso parte de um recesso
Esse outro estará do avesso
Eu começo pelo fim
Se cada verso for um novo começo
Com apreço eu digo que sim
Esse outro dirá que não
Mas ninguém pediu sua versão
03/03/2024
22/02/2024
Chuva de Hai Kai
Hai kai
Metapoesia
Vai que vai
Ia ia
Hai kai
One, two, three, flor
And five?
No more
Hai kai
Nasceu breve
Logo morre
A ninguém deve
Hai kai
Se levanta, se apresenta
Gasta uma linha com seu nome:
Hai kai
E logo se senta
Hai kai
Cai na lei da gravidade
Mas não é grave, é brincadeira
Voa, ave, ave
12/02/2024
04/02/2024
1917
Às vezes é difícil deixar sua própria trincheira.
Reflexão ao início do filme 1917, um dos preferidos do autor. Poucos personagens e muitos figurantes, em perfeita ambientação.
31/01/2024
Quem quem quem
Quem nos aguenta?
Nós literários
No tempo do glitter
Quem nos tem horário?
Quem nos lê,
Repensa?
Ou só avança
Imensa
Distribuição de palavras
Larvas e sementes
Patentes
Registre sua marca
Evite pirataria
Quem quer receber
"Bom dia"
Quando seu dia já não é bom?
Quem quer receber
"Bom dia"
Somente por obrigação?
Quem quer receber
Em dia
Até a ilusão do dia quinto
Um dinheiro tão finito
Quanto o mito de viver
Sem poesia
25/01/2024
18/01/2024
Entre minha tia, Pierre Goldman e Petzold
Chove de leve ali fora, do outro lado da janela. São 3h30 da manhã quando inicio o texto. Provavelmente serão pelas quatro quando encerrarei. Aguardo pela minha tia, que vem a Santa Catarina. Este a sem crase. Vou a Santa Catarina. Volto de Santa Catarina. Estou lendo um livro de um Judeu chamado Pierre Goldman. Ele era filho de poloneses, mas nasceu em Lyon, na França. Por isso o livro se chama Lembranças Obacuras de um Judeu Nascido na França.
Ele aborda o preconceito racial e os conflitos armados que permearam toda sua vida. Um erro de grafia no livro é assalto à mão armada, que leva crase, mas a cada citação no livro não há o sinal gráfico. Irrelevâncias. Escrevo a partir do meu celular. Sinto fome, mas não quero correr o risco de interromper o sono de meus pais, talvez a coisa mais preciosa que eu zele em vida, porque sei o quanto meu pai é esforçado quando acordado e merece repouso. Minha mãe passa o dia seguinte muito debilitada quando dorme mal. Eles merecem dormir bem. Não saio do quarto para comer algo para não correr o risco de cortar o sono deles. Mesmo sabendo que a aproximação de minha tia na rodoviária fará com que ela emita uma mensagem e acorde minha mãe. E meu pai a busque na rodoviária. Eu de metido insone devo ir junto de acompanhante.
Escrevo a partir do meu celular com o carregador não original, que fica acusando o mau contato entre dispositivo e aparelho. Raios.
Pierre Goldman se defendeu de tribunais injustos que imputiram assassinatos, homicídios em sua ficha criminal, que, segundo a vítima do sistema, deveria constar apenas de assaltos, quando nem fazia uso das referidas armas. Goldman fez contato com homens das Antilhas, congoleses, haitianos e demais latino-americanos. O livro tem tudo a ver com o clima pós segunda guerra. Goldman era um Judeu não pertencente ao país de seus pais, uma Polônia cada vez mais antissemita, barril de pólvora entre sovietes e anti-stalinistas. Também nunca foi um francês, sofrendo o preconceito racial por ser considerado um estrangeiro judeu. Engraçado que quando foi para os Estados Unidos, em uma passagem de navio, trabalhando para um comandante noruegueses, nos EUA, Goldman era visto como "o francês". As coisas mudam.
Minha tia conviveu no mesmo apartamento comigo no fim de 2022. Me ajudou em um período difícil de minha longa doença, quando eu não conseguia evacuar direito, pelo mau funcionamento de meu intestino, que não absorve mais vitaminas como deveria (atualmente tenho reforçado vitamina B oralmente, mas já levei injeções também em outros tempos).
A vinda de minha tia, que voltou a morar em Pelotas mesmo após a insistência de meus pais que ela ficasse em Santa Catarina, a vinda dela tornou-se um evento importante de meu verão. Estou muito isolado, sem amigos por aqui. Ter a companhia de minha tia pode me fazer bem. Deixo aberta a possibilidade disso. Me faz lembrar perspectivas quando, por exemplo, o volante Jailson saiu do Grêmio e não era assim dos mais importantes. Tempos depois a qualidade de elenco recaiu e a torcida esteve em polvorosa para que ele voltasse, o que nunca ocorreu. Fez campanhas e títulos pelo Palmeiras. Além dele, lembro o caso de Rafael Carioca. Ou até Douglas Costa, que viria como salvador. Maior desperdício da história que já vi no futebol brasileiro. Perspectivas.
Pois a perspectiva de minha tia próxima a mim, pessoa da qual nunca fui tão ligado, aumenta na medida em que não tenho outras pessoas com quem contar. E assim devo me acostumar por idade ou distância, ou rotinas atarefadas dos demais, ou menos tempo ou menos grana para disporem conosco. Nos viremos.
Além do livro de Pierre Goldman, a ver com o assunto, os últimos filmes de Christian Petzold, talvez o cineasta alemão que eu mais goste, escalando posição preciosa entre todos os europeus (estou acompanhando toda filmografia dele). Petzold dedicou os últimos anos a filmes com referências de segunda guerra mundial, a exemplo de Phoenix e agora Transit, o qual estou assistindo. Parei e aqui escrevo. Em Transit, traduzido como Em Trânsito, o personagem foge pela França cada vez mais ocupada pelos nazistas, necessitando de passaportes falsos, desculpas, dinheiro e muita desenvoltura. O interessante deste filme, além da troca de identidade com o escritor que se matou no início da trama, o interessante é que Petzold não se preocupou em ocultar os novos carros e as novas ruas francesas ou alemãs. Adaptou um filme de segunda guerra em um mundo como podemos presenciar em cenários dos anos 2020. O filme ainda dispõe de cartas, luminárias, trens (?), mas também há carros modernos e ruas que não escondem o avanço tecnológico pelo qual passamos.
Por fim, gostaria de afirmar que gosto muito dos heróis das tramas de Petzold, pessoas comuns e muitas vezes entricheiradas entre escolhas, além do bem e do mal. Diferença sagaz, preciosa em relação aos mais vistos de Hollywood, em personagens que despertam apenas admiração ou raiva, ufanismo demasiado, leitura rasa. Nos filmes de Petzold somos convidados a pensar em situações cotidianas e ao mesmo tempo extremas: o que eu faria naquela situação? Preciso roubar? Preciso fugir? Preciso amar? Preciso abandonar? Preciso aplicar um golpe? Preciso fugir das autoridades? Quem tem a razão, tão mutável e movediça, tão escamoteada e fugidia? Assim acompanharmos os últimos minutos do filme Transit, para descobrir se nosso protagonista ficará ao lado da família que encontrou pelo caminho ou fugirá com o passaporte que está encaminhado, concedido para iniciar uma nova vida não nos Estados Unidos, mas no México.
O que será que Pierre Goldman escolheria se fosse ele no papel principal não do livro biográfico de sua vida, mas nesta interessante trama do filme de Petzold? Goldman que, ao largo do livro parece querer se livrar da morte - que o perseguia em pensamentos e ações desde a infância-, justamente por um amor distante, de uma antilhana distante, no tropical caribenho, encontra uma desculpa para manter-se vigilante no sonho de libertar-se da prisão e continuar combatendo, talvez ao lado das diversas organizações comunistas estudantis das quais fez parte, ou deseja apenas uma vida em calmaria, mais justa e menos ambiciosa. O que escolher para salvação e continuação quando os caminhos se entrecruzam e as soluções não são tremendamente iluminadas e dispostas como a facilidade de escolher um ingrediente nas gôndolas do supermercado ou um livro de uma estante?
Assim vivemos entre liberdades e aprisionamentos e eu, enquanto ainda chove, e passam das prometidas quatro da manhã, espero minha tia chegar na rodoviária.
17/01/2024
A natureza manda
Enorme temporal que chega também a Santa Catarina.
Nossas cidades estão preparadas para o que o tempo fará com elas? Não estão.
Aliás, tudo que a humanidade construiu jamais se compara com a natureza. No fim, ela que manda.
O homem tem poder da destruição equivalente à natureza.
A bomba atômica, por exemplo.
Podemos destruir o mundo antes da natureza.
Mas o poder de construção superior ao da natureza nós não temos.
Não minimizando nossos exímios engenheiros. Mas sim exaltando a natureza. Ela manda.
14/01/2024
Hum
Questionamento: como se livrar da depressão, se as alternativas de convivência recomendadas só nos fazem lembrar mais ainda da depressão? É como se, no convívio ao qual nos forçamos, a bolha criada pela depressão melhor ainda nos moldasse. Perguntas para lapidar e levar ao psiquiatra, porque não tenho a garantia de ter sido aqui claro no questionamento. Vocês entenderam?
Quanto mais se convive para tentar escapar da depressão, mais lembramos os motivos pelos quais chegamos à depressão. O mundo e as pessoas podem ser deprimentes. Por um lapso de esperança, podem também não ser.
Depressão e padrões
Acredito que após se passarem os dias de maior depressão, sente-se um sentimento de tempo perdido pelos dias desperdiçados. Apenas acredito nisso, porque, na verdade, não sinto que superei esses dias para olhar com outra ótica.
Em um exercício de imaginação, estava apenas imaginando como seria estar escape das garras da depressão, que cercam e encurralam, limitando nossas atuações no cotidiano.
O sol brilha forte lá fora, mas não quero sair. Tenho preguiça e vergonha e desinteresse. Às vezes mais preguiça, às vezes mais vergonha, às vezes mais desinteresse. Deixo minha cidade e meus amigos me perguntam quando irei voltar. Não sei quem encontrarei futuramente. A insegurança do futuro é prejudicial, mas, para o pleno exercício do viver, apenas o presente seria agora essencial. E no presente o sol brilha lá fora e não saio. Por preguiça, vergonha ou desinteresse.
O primeiro verão que vim para cá foi melhor. O tom da novidade, a proximidade a menos de quadra do mar. Caminhadas longas de exploração. Nem a ausência de Internet impedindo que eu caminhasse ouvindo músicas sortidas nos fones impedia. Nem o descontentamento constante com meu próprio corpo, de julgamentos imaginários ou existentes por outrem - certo é que eu sim me julgo.
Na Internet tiraram a semana para debater corpo feminino. A verdade é que uma tal indústria da moda construiu paradigmas antes inexistentes. Para vender roupa ou não vender, dificultar que se compre. Esses tempos ouvi uma ótima teoria que os estilistas, muitos deles gays, projetavam roupas para alterar a percepção das mulheres, concorrentes deles pelos homens. Se verdade ou não, há pingos de razão e sentido. A indústria é muito mais cruel do que o homem "comum". Ok, a indústria, as indústrias são comandadas por homens, mas pelos poucos capitalistas detentores do capital. Eles que mandam, constroem padrões inexistentes, mais fáceis ou mais difíceis de romper com.
O tal mercado de trabalho, a televisão também moldam padrões que em geral nem concordamos. Às vezes é escrachado, e tão falsa a aparência sobressaindo sobre a competência que o sentimento é repugnante ou de vergonha alheia.
Se o homem "comum" age em julgamento tão cruel quanto a indústria, ele é, sem meias palavras, um otário.
18/12/2023
Imagens aéreas
Se eu for assistir, de um helicóptero ou pequeno avião, por exemplo, a imagens desde a altura que nos encontramos, acredito que o medo seja um elemento fundamental para fixação das mesmas belezas na memória. Está no medo uma capacidade de lembrança. Ignorar o inédito, a força do risco de uma queda vertiginosa desde acima, ignorar esses elementos, na coragem, na falta do risco que não resulta em medo, também resultará em apagamento mais ligeiro da beleza das imagens aéreas. Mundo de ganhos e perdas, de ônus e bônus.
13/12/2023
Crises
Identificar as crises é fácil. Difícil é identificar o quanto as crises realmente nos afetam.
Crises geram crises.
Identificar as crises é fácil. Difícil é encontrar as glórias que aparecem nos filmes.
12/12/2023
Pelotas
Cada vez que vou embora de Pelotas, e tem sido muitas, morre um pouco dela em mim, mas, assim como as sementes ocultas sob a terra, sei que algo dela ainda renasce em mim.
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Há dias em que naturalmente estou abatido. E há dias que naturalmente me abatem.
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Eu tentei ficar impassível, mas não consegui. Não consegui ficar impassível às fotos das crianças desaparecidas que voltam a estampar caixas...
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Consigo sentir Quintana Que não me engana Me aconselha Ou ao menos ergue a sobrancelha Consigo sentir Quintana em cada passo Que eu galgo ...
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A linha tênue entre enjoar e esquecer.
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Já não me cobro mais velocidade ou desempenho, mas os demais e a sociedade me cobram. Posso mandá-los às favas? Posso?
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A máquina se torna humano Humano se torna máquina A máquina é programada O ser humano é descartado
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Não se apaixonou mais, nem precisou conviver mais com desequilíbrios emocionais descabidos. Sorriu a isso. Mas meio amarelo. Meio, pela meta...
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Cansei. E deixarei de legado muito menos do que se não tivessem me cansado.
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Onde joga meu time estarão eu e meu futuro.
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Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.












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